Como diz a canção dos Smiths, “But don't forget the songs that made you cry/And the songs that saved your life" (mas não se esqueça das canções que te fizeram chorar/ e das canções que salvaram a sua vida), eu tenho um profundo respeito e também uma profunda gratidão por filmes que não somente me fazem chorar, mas também me oferecem uma experiência próxima de algo espiritual, seja pela beleza da arte, seja pelo quanto o tema e principalmente o modo como ele é contado em formato audiovisual se manifesta. Sei o quanto isso é subjetivo, mas por isso mesmo é tão belo, pois vem daquilo que nos toca como humanos. Em tempos de ascensão da inteligência artificial, sentirmo-nos humanos e vulneráveis faz parte da graça.
E mais: uma das coisas que mais devemos ser gratos a esse aumento considerável do número de cineastas mulheres em atividade, e no caso aqui adaptando o trabalho de uma romancista, é o quanto podemos ter mais acesso à sensibilidade feminina. Afinal, durante séculos vivemos sob o ponto de vista masculino até para falar de personagens femininas. E não digo que caras como Pedro Almodóvar, Todd Haynes e George Cukor não tenham feito um belo trabalho em buscar apresentar a alma feminina (imagino que tenham), mas sei que não é a mesma coisa.
HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET (2025), quinto longa-metragem de Chloé Zhao, é um desses casos de filmes que ganham muito com o fato de ser dirigido por uma cineasta mulher. Embora deva muito de sua força à interpretação monstruosa de Jessie Buckley. Que atriz!! Buckley me chamou a atenção primeiramente em ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO. Depois vieram outros trabalhos em que ela se destacaria, como A FILHA PERDIDA, MEN – FACES DO MEDO e ENTRE MULHERES, mas foi com HAMNET que a atriz mostrou tudo.
Sua primeira aparição, em plano-geral que a mescla à natureza, já dá uma ideia do que virá, num plano incrível de movimento de câmera de cima para baixo que nos apresenta a uma árvore enorme que possui uma mesma raiz (e junto a essa árvore um buraco!). Uma primeira imagem que já antecipa simbolismos que a narrativa desenvolveria. Aquele buraco muito provavelmente trará o sentimento de luto, que é o principal tema do filme, mas que eu preferia não ter dito, pois o melhor é vê-lo sabendo o menos possível.
Mesmo com as primeiras cenas de Buckley (com o falcão, sua primeira conversa com o professor de latim), confesso que não estava preparado para a imensidão de sentimento, para o tanto que ela doa para a construção da personagem Agnes, esposa de William Shakespeare, vivido aqui por Paul Mescal, que, aliás, é um ator maiúsculo também (vide AFTERSUN, vide NORMAL PEOPLE), mas que aqui fica um pouco de lado pois importa menos Shakespeare e mais a esposa e mãe de três filhos que se doa pelo bem-estar das crianças, usando os conhecimentos de curandeirismo que aprendeu com a mãe, tida pelo vilarejo como uma bruxa.
Ou seja, o próprio combo maternidade, natureza e até bruxaria é um exemplo do arquétipo do feminino que o filme apresenta de maneira orgânica. Some-se a isso uma cena que também traz um simbolismo feminino imenso, além de ser um exemplo do que de melhor pode ser produzido em melodrama na atualidade: a cena do parto, que acontece no meio de uma tempestade.
Estava sentindo falta de um filme que entregasse tanto esse sentimento exacerbado sem medo de parecer excessivo. E Zhao faz isso com muita classe, e ainda exaltando a arte como cura e o mais próximo que se pode chegar da imortalidade, principalmente para um humanista como Shakespeare.
+ TRÊS FILMES
A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS
Um dos melhores longas-metragens de estreia do ano passado, A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS (2025) tem sua singularidade, mas em alguns momentos me lembrou o cinema de Apichatpong Weerasethakul, principalmente no quanto lida com o ambiente de hospital e a espiritualidade. Por mais que ache incrível o trabalho das crianças, o que mais me tocou foram duas cenas específicas de Camila Márdila, duas cenas cheias de sentimento: a cena em que a enfermeira (Laura Brandão) se oferece para ajudá-la na ida ao sítio com a avó hospitalizada; e a cena de Camila com a atriz que faz a avó, quando as duas conversam sobre demonstrar através de palavras o amor que uma sente pela outra. Aquilo ali é muito bonito e vejo a Camila como uma gigante entre os talentos deste novo século. Ou seja, ela nem era até então a protagonista do filme, mas depois que surge, rouba-o para si. De todo modo, há duas metades muito distintas; há uma mudança bem clara de tom quando a trama passa a se ambientar no sítio, com mais revelações e um aspecto mais mágico e misterioso no ar. Ah, e as crianças são ótimas também e seus dramas são muito bem trabalhados, assim como a conexão que se estabelece entre elas.
MORRA, AMOR (Die My Love)
Lynne Ramsay é uma cineasta cujas obras têm um espaçamento temporal grande entre si. De VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI (2017) para este MORRA, AMOR foram oito anos. De PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011) para o seguinte foram seis. E mesmo assim, ela tem chamado atenção para si. E desta vez possivelmente entregou seu melhor trabalho, assim como temos aqui a melhor interpretação da carreira de Jennifer Lawrence, uma atriz que já começou oscarizada muito jovem, mas que não havia chegado ainda a ter o devido respeito da crítica, por mais que tenha encarado diferentes desafios, como o pirado MÃE! ou a comédia QUE HORAS EU TE PEGO?. MORRA, AMOR (2025) é um filme sobre depressão pós-parto que talvez pareça ir longe nos atos da heroína, mas faz isso com muita verdade. Grace, a personagem cujo nome parece uma ironia, é uma escritora que passa a sofrer muito após o nascimento de seu filho com Jackson (Robert Pattinson, também ótimo). Sofre ao sentir tesão e não receber a mesma atenção do marido, sofre ao morrer de tédio, sofre a preferir bater a cabeça no espelho ou rasgar as próprias unhas na parede do que viver daquele jeito. A heroína de Lawrence/Ramsay é herdeira, talvez, da Gena Rowlands de UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, mas com muito mais ousadia e selvageria do que fragilidade. E Ramsay deixa sua heroína voar, fazer suas loucuras em nome do fim da dor, do tédio e da vontade de não existir. A montagem é acertada, tanto ao trazer momentos do passado para a narrativa principal, quanto para apontar imagens futuras em pequenos flashes. Ela flerta com o cinema de horror mais do que com o melodrama. Seu filme é duro, embora não totalmente despido de sentimentalismo. Há uma cena que é banhada de ternura, quando vemos o casal cantar "In spite of ourselves", de John Prine e Iris DeMent. Linda!
#SALVEROSA
Basta dar uma olhada na filmografia de Susanna Lira para ficar impressionado com a quantidade gigante de produções que ela dirige. Algumas poucas chegam ao circuito, como foi o caso do ótimo documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024). #SALVEROSA (2025) é o retorno de Lira à ficção, e o resultado é no mínimo muito curioso. A começar pela performance de Klara Castanho no papel de uma menina que começa a descobrir coisas sobre si mesma e sobre a mãe. E são coisas bem pesadas. É impressionante como a atriz consegue comverncer como uma menina adolescente, já tendo passado dos 20 anos de idade. Em alguns momentos o filme pode incomodar um pouco na caracterização da personagem da mãe (Karine Teles), mas talvez para esse tipo de filme de teor mais de denúncia (embora se de ficção) seja importante deixar claras certas vilanias. Em alguns momentos parece um bom suspense barato estilo Supercine. Mas acho que isso faz parte do charme do filme.
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