sexta-feira, janeiro 23, 2026

A CRONOLOGIA DA ÁGUA (The Chronology of Water)



É interessante perceber que, recentemente, são as cineastas mulheres que mais têm buscado lidar com os assuntos mais pesados, e com muita propriedade. Ou mais têm sentido a necessidade de criar obras sobre suas próprias dores e aflições.

Podemos pensar em alguns exemplos notáveis: Paola Cortellesi lida com a violência doméstica em AINDA TEMOS O AMANHÃ; Coralie Fargeat usa o body horror para falar do etarismo da mulher em A SUBSTÂNCIA; Audrey Diwan trata em tintas de terror e suspense o aborto em O ACONTECIMENTO; Marianna Brennand lida com o difícil combo abuso sexual infantil e a rede de prostituição no norte do Brasil em MANAS; Eva Victor trata com sensibilidade assuntos espinhosos como depressão, abuso e suicídio; Anne-Sophie Baily nos apresenta à dura tarefa de uma mãe-solo cuidando de um filho especial em PEDAÇO DE MIM; Chloé Zhao trata do luto de uma mãe diante da partida de um filho pequeno em HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET; entre outros vários casos. Enfim, há inúmeros casos, no Brasil e no exterior.

Pensei nisso ao sair da sessão de A CRONOLOGIA DA ÁGUA (2025), primeiro longa-metragem como diretora da atriz Kristen Stewart. Ela havia dirigido curtas antes, mas apresentou seu desafiador trabalho em Cannes na mostra Un Certain Regard, a segunda mais importante do festival. O filme é baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, e busca usar um tipo de estética de filme caseiro, de modo a tornar a experiência mais próxima da realidade. Há também uma montagem bem fragmentada, que contribui para um sentimento de desconforto, mas também de empatia para com a personagem de Imogen Poots.

Poots é Lidia, uma mulher que cresceu num lar em que sofria o terror de ser abusada sexualmente pelo próprio pai, que antes dela já abusava da irmã mais velha. Enquanto isso, a mãe dela era conivente e alcoólatra. Ou alcoólatra pois conivente.

No elenco de A CRONOLOGIA DA ÁGUA, fiquei feliz de ver (ainda que a princípio não os tivesse reconhecido) Kim Gordon (mais conhecida como ex-baixista do Sonic Youth, e que aparece numa cena no mínimo estranha; e também feliz de ver Jim Belushi, como uma espécie de professor de redação criativa, alguém muito importante para o desenvolvimento da protagonista como escritora, detentora de um estilo agressivo e pouco palatável.

E se o filme de Stewart também é agressivo e pouco palatável, me parece ser por respeito à obra de Yuknavitch. Espero que a atriz siga experimentando mais seu lado diretora, embora torça ainda mais para vê-la como atriz em outros tantos projetos incríveis.

+ TRÊS FILMES

PEDAÇO DE MIM (Mon Inséparable)

A primeira vez que fiquei muito impressionado com a interpretação de Laure Calamy foi com o drama estressante CONTRATEMPOS (2021). Em PEDAÇO DE MIM (2024), ela tem também essa pegada, mas com um peso maior: o peso da dificuldade que é cuidar sozinha de um filho agora já adulto, mas neurodivergente. E chega outra bomba: o rapaz engravidou uma moça e agora está querendo ser independente e pai da criança que fez com a jovem por quem está apaixonado. É mais fácil nos solidarizarmos com o drama da personagem feminina, por ela estar mais próxima do espectador e também por ser a protagonista. Sem falar que o foco do filme está em suas angústias, em seu desejo de ter momentos de liberdade, como quando sai com um homem que conhece numa festa, ou quando reencontra esse mesmo homem na Bélgica, numa situação um tanto delicada. É bom vermos esses filmes dirigidos por mulheres e que a gente não imagina que seriam tão bem acertados se fossem dirigidos por um diretor homem, embora isso não seja uma regra, claro. Algumas cenas de PEDAÇO DE MIM são carregadas de uma poesia incrível, como na cena em que o rapaz (Charles Peccia Galletto) sai para viver sua vida adentrando uma bruma escura. Até achei que ali seria o final, mas o filme se aproxima de um ótimo epílogo, com outro corte brilhante para os créditos finais. Belíssimo.

AMORES MATERIALISTAS (Materialists)

Depois de VIDAS PASSADAS (2023), um filme bem bonito em sua sutileza, mas que não me "pegou" de fato, estava com um pé atrás para AMORES MATERIALISTAS (2025), o novo trabalho de Celine Song, desta vez com uma produção maior e um trio de astros de Hollywood que atrai a atenção de uma audiência maior. Na sessão em que estávamos, o público era majoritariamente feminino, o que me fez lembrar, guardadas as devidas diferenças, a primeira sessão de CINQUENTA TONS DE CINZA, também protagonizado por Dakota Johnson. E Dakota tem de fato carisma suficiente para chamar a atenção das audiências de ambos os gêneros. Ainda sobre o público, há que se pensar também no tema do filme: Dakota é uma "casamenteira" de elite, cujos clientes são pessoas com dinheiro suficiente para bancar os serviços da empresa onde ela trabalha. E como diria a música dos Titãs: "Todo mundo quer amor, todo mundo quer amor de verdade". Mas o casamento, como ela diz de forma tão cínica quanto realista, é um acordo social, estando mais próximo de um negócio do que de uma união de almas gêmeas. E ela mesma vive um dilema: casar-se com um milionário (Pedro Pascal) por quem ela não nutre nenhum sentimento ou procurar o seu ex (Chris Evans), que vive ainda com as mesmas dificuldades financeiras dos anos em que namoravam, dos anos em que ela o largou por não ser um "liso". Um dos aspectos que me fez gostar bem mais deste AMORES MATERIALISTAS do que de VIDAS PASSADAS foi o quanto ele se disfarça de produção mais comercial (e isso pode desagradar uma parcela grande do público), mas utiliza um andamento sem pressa e uma resolução emocionante, mas também muito sutil no que se refere à demonstração do amor mais desavergonhado. Não à toa, o fã de comédias românticas (e de melodramas) aqui se viu chorando em determinado momento crucial. O filme, apesar de parecer moderninho, não é tão distante dos romances de Jane Austen, que falam de amor, mas que também não se distanciam de tratar de questões materiais e econômicas.

GUARDE SEU CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE (Put Your Soul on Your Hand and Walk)

De vez em quando a gente precisa desse choque de realidade para que saibamos como pessoas como a gente estão vivendo em diferentes lugares do mundo; e para perceber mais uma vez que este mundo é governado por criaturas diabólicas (e, aqui, no caso do drama dos palestinos, sabemos quem são os principais autores do genocídio). O que faz com que este filme singelo ganhe a força devida é a personagem, a jovem de 24 anos Fatma Hassona, que insiste em permanecer viva em uma Gaza completamente destruída. Falta água, eletricidade, comida, internet, mas eles acabam dando um jeito. A cena da comida, quando é perguntado a ela sobre o que tem pra comer, foi o momento que me fez chorar. Os demais momentos me encheram de uma tristeza imensa, de uma desesperança com a humanidade, principalmente com a situação do povo palestino, que talvez não encontre paralelos nem com o genocídio dos povos indígenas da América do Sul. Fatma quase sempre está sorrindo quando fala pelo celular com Sepideh, a diretora iraniana, afastada do próprio país por questões políticas e hoje vivendo uma vida que Fatma gostaria de ter: de viajar por vários países, conhecer tantos lugares. Infelizmente, a maldade humana fala mais alto e pessoas como Fatma seguem sendo brutalmente assassinadas no cotidiano de Gaza. GUARDE SEU CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE (2025) funciona como uma boa dobradinha com SEM CHÃO.

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