domingo, fevereiro 14, 2021

DOCE VINGANÇA (Promising Young Woman)



Os filmes de rape and revenge têm uma tradição de serem dirigidos por homens. Aliás, a própria indústria cinematográfica é essencialmente machista. Além do mais, trata-se de um subgênero que é afiliado ao exploitation. Logo, tem sim uma intenção exploratória, não só pelo sexo, mas pela violência. Recentemente tivemos um filme dessa subcategoria dirigido por uma mulher, VINGANÇA, de Coralie Fargeat, que é sutil no modo como se diferencia dos outros filmes do subgênero.

Por isso que BELA VINGANÇA (2020), o longa-metragem de estreia de Emerald Fennell, tem ganhando tanta repercussão. Além de ser representativo do espírito do nosso tempo, sua abordagem no modo como trata a vingança da protagonista é bem diferenciada. Como a cultura do estupro está presente na sociedade durante séculos é natural que filmes de diferentes gêneros que abordam mesmo que sem querer o assunto se tornem poderosos documentos de época. E mesmo filmes desse subgênero, como LILIAM, A SUJA, de Antonio Meliande, e SEDUÇÃO E VINGANÇA, de Abel Ferrara, fetichizam tanto o corpo quanto a violência gráfica.

Por mais que alguns possam achar exagerado o modo raivoso com que BELA VINGANÇA escancara a cultura do estupro, seja mostrando homens se aproveitando de mulheres bêbadas, ou a já tradicional abordagem oral de operários a mulheres que passam na rua, Fennell foge do que se costuma esperar desse tipo de filme ao trazer não uma psicopata, mas alguém maltratada e extremamente traumatizada por um evento do passado. E não foi um evento que ocorreu com ela especificamente, mas com sua melhor amiga.

Na trama, Carey Mulligan é Cassandra, uma jovem que abandonou a faculdade de medicina e agora trabalha em uma cafeteria e tem por hábito dar lições de moral a homens que se aproveitam de mulheres em bares. Logo na primeira cena, ela se faz de bêbada e um homem a leva para casa com a intenção de se aproveitar de seu corpo. O filme vai ficando mais interessante quando descobrimos mais sobre seu passado e quando ela passa a se aproximar das pessoas que a traumatizaram e foram responsáveis pela morte de sua amiga. Há também em paralelo um romance que se estabelece entre ela e um jovem médico, um rapaz que já foi seu colega de classe nos tempos de faculdade (Bo Burnham).

Outros méritos do filme são: a narrativa que se desenrola de maneira surpreendente; a fotografia e a direção de arte que traz um ar de feminilidade infantil; e o modo como Carey Mulligan se apresenta como alguém ao mesmo tempo doce e cheia de veneno. Gosto de como a diretora utiliza cores costumeiramente associadas à feminilidade para dar um tom todo próprio às imagens, seja no ambiente de trabalho ou na casa da personagem. Ajuda a trazer a força e o perigo da mulher associados à sua fragilidade. A própria voz de contralto de Mulligan contribui para isso.

Aliás, sobre Mulligan, é bem possível que este seja o papel mais memorável de sua carreira, por mais que ela tenha brilhado em filmes melhores como INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM, dos irmãos Coen, e SHAME, de Steve McQueen.

BELA VINGANÇA foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias filme (drama), direção, atriz (drama) e roteiro.

+ TRÊS FILMES

FALE COM AS ABELHAS (Tell It to the Bees)

Nos dias de hoje é fácil (ou quase fácil) assumir sua sexualidade diferente. Na década de 1950, na Escócia, em uma vila pequena, o escândalo é gigantesco. E FALE COM AS ABELHAS (2018), de Annabel Jankel, é uma amostra não apenas da intolerância de gênero, mas também da maldade da sociedade machista. Às vezes parece exagerar um pouco no tratamento, mas há também uma delicadeza muito bonita no modo como as duas mulheres se aproximam e se amam. Além do mais, há uma cena que é surpreendente na adoção do mágico.

GAGARINE

Interessante como GAGARINE (2020), de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, vai aos poucos se desligando do senso de realidade na mesma medida que o jovem protagonista, Youri Gagarine, vai procurando uma fuga de um destino cruel - mãe ausente, seu edifício prestes a ser demolido. E sua fuga mental e que ganha contornos surrealistas vai ganhando a cara das coisas que lhe são mais queridas, o mundo dos astronautas. Lá pelo meio do filme esse desprendimento com a realidade começa a ser efetuado, mas de maneira sutil, até o final de contornos mais fantásticos. Legal a participação breve do hoje lendário Denis Lavant. 

EU ESTAVA EM CASA, MAS (Ich War Zuhause, Aber)

O filme começa mostrando três animais: um coelho, um cachorro e um burro. Confesso que ao final da sessão de EU ESTAVA EM CASA, MAS (2019) me senti como o burro. Ao que parece a intenção da diretora Angela Schanalec, pelo que dizem em algumas críticas por aí, é reescrever a gramática do cinema. O que me parece interessante. E foi o motivo de eu ficar o tempo inteiro fazendo perguntas a mim mesmo. Qual o motivo de a protagonista ser tão irritadiça? O que é aquele diálogo com o cineasta? Por que a opção pelo andamento lento de certas passagens? Por que alguns personagens têm suas importâncias na narrativa abreviadas, mas ao mesmo tempo parecem ser importantes (caso do personagem de Wolfgang Michael)? Enfim, terminei o filme com frustração, por não ter entendido nada, mas ao mesmo tempo um tanto impressionado com as imagens e com os planos esticados que parecem característicos de filmes longos, ainda que não seja o caso aqui. É um filme que eu vou querer esquecer ou que me chamará de volta para a revisão? Está parecendo mais a segunda opção.

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