sábado, julho 29, 2006

A PALAVRA (Ordet)



Depois de diversas tentativas, finalmente consegui terminar de ver, aos trancos e barrancos, essa obra-prima espetacular chamada A PALAVRA (1955). Não que o filme seja cansativo, longe disso, o problema era do DVD da Magnus Opus, que apresentava inúmeras falhas, travando em diversos momentos. Quase desisti de assistir o filme depois de testar o disco em outros players. Mas hoje, ao colocar o disco novamente, eu consegui ver mais alguns minutos. Depois, o disco travou de novo. Resumindo: depois de várias tentativas, consegui chegar até o final. Sei que essa não é a melhor maneira de se ver um filme, ainda mais um filme como esse, que requer um mínimo de respeito do espectador. Mas ainda assim, apesar desses aborrecimentos, a meia-hora final de A PALAVRA me pegou tão forte que eu não pude conter as lágrimas. É o melhor filme sobre a fé já realizado, superando até aquelas duas obras de um certo cineasta indiano. É como muito bem escreveu André Bazin: o cinema em geral é uma forma de arte que fica menor perto dos melhores exemplares da música, da pintura e da literatura. Mas se pegarmos A PALAVRA, o cinema fica em pé de igualdade com qualquer manifestação artística.

Depois de ver DIAS DE IRA (1943), eu tinha minhas dúvidas de que Carl Th. Dreyer conseguiria se superar. Se bem que eu gosto tanto de DIAS DE IRA que eu ainda tenho dúvidas de qual dos dois filmes é o meu favorito, mas acho que por pouco A PALAVRA ganha, talvez por ter me atingido pela emoção e de ter trazido de volta, ao menos por alguns minutos, a minha fé perdida. Lembro que quando eu era criança, ao ouvir uma conversa entre meus pais, fiquei sabendo que meu pai estava muito doente. Não lembro muito bem de que era, acho que era de pneumonia. Ele começou a fumar muito cedo, desde os nove anos, e foi o cigarro que acabou lhe matando. O fato é que eu fiquei preocupado com a doença de meu pai. Achava que ele ia morrer e fiz um acordo com Deus: pedi a Ele que curasse o meu pai em troca de uma gripe em mim mesmo. No dia seguinte, eu estava gripado. E perguntei à minha mãe sobre meu pai e ela falou que ele estava praticamente bom. Quando eu era criança, eu tinha mesmo fé. Hoje só sobrou o pessimismo e uma certa indiferença budista, que só tem servido para minimizar as frustrações. Hoje estou mais para Woody Allen que para Carl Dreyer.

Por isso, ao ver a seqüência da garotinha falando com o seu tio que acreditava ser Jesus Cristo, e dizendo que gostaria que sua mãe morresse apenas para vê-la ressucitar com o poder do tio, ao ver aquela cena, eu lembrei de como a criança pode ao mesmo tempo ser perversa e pura - eu lembro que quando criança eu era doido pra ver um avião caindo.

Pra quem ainda não sabe do que se trata, A PALAVRA conta a estória de uma família de fazendeiros de uma região da Dinamarca que vive com rivalidades com uma outra família. Ambas são cristãs, ambas são protestantes, mas elas têm diferenças de ordem dogmática. O patriarca de uma delas acha que a outra é muito ligada à morte e a vida após a morte, renegando os pequenos prazeres da vida terrena. Na família Borgen, um dos filhos enlouqueceu: de tanto estudar teologia, ele acredita agora que é Jesus Cristo. Nessa mesma família, o filho mais jovem se apaixona por uma moça da família rival. Mas a figura chave da trama é Inger, nora do patriarca, uma jovem mulher que está grávida e que terá complicações no parto. Mesmo que eu não conte mais sobre a trama, o desenrolar da mesma é até previsível. Embora eu já soubesse o que iria acontecer com Inger, nada me prepararia para a poderosa seqüência final.

A PALAVRA ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1956. François Truffaut, que chegou a herdar uma poltrona usada do próprio Dreyer, dizia sem sombra de dúvida que nunca o prêmio foi tão justo. Ainda assim, na época, algumas pessoas chegaram a protestar contra o prêmio, sob a alegação de que o filme tinha uma estética antiquada, destituída de modernidade. O tempo, no entanto, deu o devido crédito a essa obra atemporal, que existe independente de modismos ou de movimentos estéticos. Fico imaginando como seria se Dreyer tivesse conseguido realizar o seu sonho de fazer um filme sobre a vida de Jesus. Seria "o" filme sobre Jesus.

P.S.: Por falar em Festival de Veneza, viram a quantidade de filmes maravilhosos da edição desse ano? De dar água na boca. Serão exibidos os novos filmes de Lynch, De Palma, Satoshi Kon, Aronofsky, Resnais, Straub & Huillet, Verhoeven, Weerasethakul, Karim Aïnouz, Kiyoshi Kurosawa, Ethan Hawke, Spike Lee, Manoel de Oliveira, Johnnie To, entre outros. Simplesmente humilharam Cannes.

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