sábado, fevereiro 26, 2022

MEMORIA



Quando eu era criança, eu tinha um sonho recorrente. Um botijão de gás vinha surgindo de longe, do escuro, e, à medida que se aproximava de mim, o ruído que ele vinha fazendo ia aumentando até o limite do insuportável. É quando eu acordava. Nunca entendi direito o que representava isso. E nem sei se era realmente um botijão de gás. Mas na memória que eu tinha desses sonhos, e do som metálico que ele fazia, eu tinha certeza que era.

Já faz quase um mês que tive o privilégio de ver MEMORIA (2021), de Apichatpong Weerasethakul, no cinema, numa cópia 4K. Foi dessas experiências únicas e também muito difíceis de descrever. Agora mesmo, por exemplo, não tenho a menor ideia do que falar sobre o filme. Gostaria muito de poder ainda estar “dentro” dele, acessando seus códigos secretos e oníricos, mesmo que ainda não os compreendendo. Talvez o prazer – nem sei se essa é a palavra ideal, no caso – de ver os filmes do mais celebrado cineasta tailandês da atualidade (de todos os tempos, talvez?) esteja nessa conexão que ele consegue fazer com o sonho. Ele próprio diz que o cinema é como um fantasma, não tem um aspecto físico. E, se por acaso, o cinema em algum momento nos traz certa ilusão de materialidade próxima ao mundo tridimensional em que vivemos, Weerasethakul trata de enfatizar o aspecto etéreo dessa arte.

Por isso, talvez tentar pensar a narrativa de MEMORIA seja importante para colocar um pouco de ordem no que acontece durante sua metragem e no que assimilamos. O filme começa com um estrondo. Um barulho como se fosse de “uma enorme bola de concreto caindo em um fundo metálico coberto de água”, como é descrito mais adiante. Trata-se de um barulho que é sonhado pela personagem de Tilda Swinton, uma mulher escocesa que está na Colômbia para visitar a irmã, hospitalizada. 

Obcecada por esse estrondo, que surge novamente quando ela está desperta, e às vezes em situações bem inconvenientes, a protagonista procura um técnico de mixagem de som para tentar recriá-lo em estúdio, como em uma espécie de retrato falado sonoro. E toda essa sequência com o técnico de som é fascinante. (A propósito, quem for estabelecer um paralelo deste filme com A CONVERSAÇÃO, de Francis Ford Coppola, não deve estar errado, pois trata-se de um dos dez filmes favoritos do diretor e isso significa muito para quem procura compreender as obsessões e paixões de um autor.)

Porém, para a protagonista, não basta recriar o som materialmente. Esse som, esse estrondo, acaba sendo o ponto de partida para que ela, depois de visitar museus, galerias de arte e escavações arqueológicas, avance para a Colômbia profunda, para a região amazônica, em busca, talvez dos povos invisíveis da floresta. A floresta, que é um elemento espiritual e constante na obra de Weerasethakul. E, para encontrar essas respostas, ela encontra um homem que talvez não seja exatamente um ser humano vivo. A coragem do cineasta de ir longe, tanto do ponto de vista político, quanto metafísico ou ufológico, é admirável.

MEMORIA foi minha terceira experiência na sala de cinema com a obra de Weerasethakul. Há cerca de dez anos vi TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (2010) em película em uma mostra de cinema “transcendental” no UCI Iguatemi. E relendo meu texto escrito na época, um tanto desnorteado com o que tinha acabado de ver, também destaquei o som. Ou seja, seria tão bom ter a chance de ver todos os filmes do diretor no cinema...

Nota complementar e talvez desnecessária: procurando por um texto meu sobre CEMITÉRIO DO ESPLENDOR (2015), percebi que simplesmente deixei passar. Não há sequer um textinho pequeno a respeito. Mais um exemplo de que nem sempre é fácil escrever sobre o cinema do cineasta. Ou só mais mais um exemplo de minha memória falha.

+ DOIS FILMES

MATAR A LA BESTIA

Achei sensacional o modo como a diretora Agustina San Martín nos apresenta um filme sobre uma suposta fera que está à solta, aterrorizando um povoado de uma região que faz fronteira entre a Argentina e o Brasil. MATAR A LA BESTIA (2021) se inicia com a chegada de uma moça à procura de seu irmão, que há tempos não dá notícia. Gosto de como o filme é um exercício de atmosfera como há tempos não via. Além de tudo, há um grau de sensualidade que torna a obra ainda mais atraente, em especial quando entra em cena uma outra moça na trama, que passa a chamar a atenção da protagonista. Um tipo de filme cuja duração passa voando e até poderia se arriscar em se alongar por mais tempo.

A MULHER DE UM ESPIÃO (Supai no Tsuma)

Curiosamente, um dos roteiristas deste novo longa de Kiyoshi Kurosawa é o novo queridão da crítica, Ryûsuke Hamaguchi (RODA DO DESTINO). Não sei o quanto esta informação é importante, talvez não muito, mas representa mais um título com a presença dele em nossos cinemas. A MULHER DE UM ESPIÃO (2020) toca no tema da necessidade de o Japão perder a guerra para que algum tipo de restabelecimento de justiça aconteça. Hoje o Japão é muito mais crítico de seu papel no passado. Mas o curioso é que o sujeito, o tal espião do título, não parece assim tão justo, por mais que esteja mesmo de posse de provas das atrocidades dos seus compatriotas na China. De certa forma, é bom ver essa complexidade dos personagens, inclusive dele, sendo que o filme é narrado pelo ponto de vista da esposa. É um filme que se destaca também pelas cores (amarelo dominante), pelos figurinos dos anos 1940, pelo cuidado com a posição da câmera. Enfim, como estamos diante de um trabalho de um cineasta já maduro, é fácil perceber suas tantas qualidades.

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