terça-feira, abril 14, 2026

O DESAFIO



Jurava que O DESAFIO (1965) integrava a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da primeira eleição feita pela Abraccine, que resultou num livro que até hoje é referência. Eu mesmo fui até o livro em busca de um texto sobre o clássico-moderno de Paulo César Saraceni. Em vez disso, vi que preferiram (ou melhor, preferimos, já que integrei também essa votação) O VIAJANTE (1999), obra bem mais recente do cinemanovista. Em vez disso, reli o texto (excelente, pra variar) de Andrea Ormond para seu primeiro volume do obrigatório Ensaios de Cinema Brasileiro. Seu texto é uma delícia, com uma linguagem literária que sinto falta na maior parte das críticas de cinema que leio.

Ao ver O DESAFIO pela primeira vez fiquei um tanto incomodado com os protagonistas burgueses extremamente afetados pelo golpe militar de 64, que ainda estava "quentinho", tanto que palavrões e a palavra "golpe" foram inicialmente "deletadas" pela censura e voltaram em cópia nova posteriormente, passada a tempestade, dublados por outras pessoas. Fiquei incomodado, talvez, porque esse sonho de um Brasil mais justo não é apresentado por classes mais desfavorecidas, enquanto numa sala vemos o cartaz de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, como que enfatizando o caráter elitista e intelectual tanto do movimento quanto dos próprios personagens. 

A cópia que vi, exibida pelo Canal Brasil, é mais um serviço de utilidade pública prestado pela emissora. Ah, se pelo menos metade de nossos filmes merecessem o mesmo tratamento...  Aliás, enquanto buscava títulos brasileiros nos streamings, comecei a perceber o quanto o nosso cinema é marginal. Nem na MUBI, nem no Prime, nem na HBO há uma oferta mínima de filmes brasileiros mais antigos, principalmente esses anteriores aos anos 1990. Ou seja, o negócio é usar o espírito corsário ou aproveitar que há alguns títulos disponibilizados no YouTube, ainda que nem sempre em qualidade decente de imagem. Assim, quem está interessado em conhecer mais do nosso cinema não pode ser preguiçoso.

A primeira cena de O DESAFIO nos apresenta ao casal vivido por Isabella (acho estranho a atriz ser apresentada sem um sobrenome) e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, corroteirista do filme junto com Saraceni. Ambos estão dentro de um carro e a câmera (na mão) do lendário Dip Lutfi flagra a conversa e o clima daquele momento. Ele se mostra extremamente deprimido. O Brasil, que antes tinha uma chance de integrar o bloco socialista e talvez chegar a uma revolução, agora vive numa recém-implantada ditadura, apesar de muitos acharem que não duraria muito tempo. Ela, esposa de um industrial, tem um caso com o rapaz e tenta ajudá-lo a levantar seu astral e a ver o quanto a união deles é importante para a felicidade dos dois. Para o rapaz, porém, isso é muito pouco importante diante do cenário político atual.

Aos poucos, principalmente perto do final, essa tendência de cada um optar pelo que mais seu coração persegue vai pesando mais, o que faz com que seja natural a separação. Porém, antes do fim, há muita poesia pela frente. Nos anos 1960, não sei se por influência do Godard, era natural ficar recitando poemas. Aqui, Jorge de Lima é o escolhido e homenageado com A Invenção de Orfeu. Lembro que Carlão Reichenbach também citava o poeta em seu cinema (há citação explícita em O IMPÉRIO DO DESEJO).

Adoro a fotografia em preto e branco de Couto Filho, que, especialmente nas cenas noturnas, dá um ar de Louis Malle ao filme. Gosto da cena de Isabella andando pelas ruas do Rio de Janeiro à noite. Assim como gosto das cenas de Vianninha bebendo com um amigo e falando de poesia e política, indo parar depois na casa desse amigo. É uma das melhores cenas do filme, inclusive com surpresas do ponto de vista narrativo, mas também muito belo enquanto registro formal, com a câmera passeando pelos personagens e escolhendo muito bem o que deseja ou não mostrar.

O DESAFIO é um filme feito com muita coragem. E só por isso já é um baita motivo para ser visto e apreciado. Sem falar no quanto é um documento poderoso de seu tempo, chegando a registrar até mesmo Maria Bethânia e Zé Keti no show Opinião. 

+ TRÊS FILMES

RUAS DA GLÓRIA

Até acho interessantes os 2/3 iniciais da narrativa de RUAS DA GLÓRIA (2024), de Felipe Sholl, especialmente quando o filme foca no desespero e busca do protagonista Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor de literatura, pelo homem por quem ele se apaixona, um uruguaio que trabalha como profissional do sexo e é viciado em cocaína, vivido por Alejandro Claveaux. Senti falta de uma maior química entre os dois atores e chega um momento, no terço final, que o filme perde sua força ao optar por uma conclusão apressada ou pouco eficiente, do ponto de vista dramático. O que há de interessante no filme é o retrato do submundo da prostituição homossexual no Rio de Janeiro de maneira bem crua e incômoda, sem medo de destacar os desejos e os infernos pessoais de seus personagens. No aspecto formal, gosto da opção da janela scope para contar a história principal (enriquece a paisagem da praia de Copacabana e das praças) e de janelas menos largas para o diálogo do protagonista com a avó falecida ou para vídeos do outro personagem. Há uma semelhança deste filme com BABY, de Marcelo Caetano, mas, na comparação, lhe falta mais carinho e ternura. 

NARCISO

Jeferson De já havia trabalhado com o cinema de gênero em M8 – QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA (2019). Volta a fazê-lo neste drama sobre menino negro que não se sente feliz no lar temporário onde vive e aceita o presente do gênio da lâmpada, digo, gênio da bola de basquete. A segunda parte, em preto e branco, é até mais interessante que a primeira, lembrando tanto CORRA!, de Jordan Peele, quanto CORALINE E O MUNDO SECRETO, de Henry Selick, ainda que passe longe de ter a mesma força desses. De todo modo, NARCISO (2026) é um filme cheio de amor que funciona como um bom conto moral. O menino começa a valorizar o que realmente importa a partir da experiência sobrenatural, mas se a primeira parte tivesse a delicadeza forte, para juntar duas palavras geralmente usadas separadamente, o final teria mais impacto. Seu Jorge é ótimo, mas está no automático no papel do Gênio. Já os atores negros, tanto os jovens quanto os veteranos, estão muito bem. Diria que uma das cenas de que mais gosto é uma conversa entre Carmen (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele), as figuras materna e paterna dos meninos. Queria um filme só com eles dois.

LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO

Não me recordo deste filme de Rosemberg Cariry estreando nas salas de cinema nessa época. Provavelmente ficou pouco tempo em cartaz e é uma pena eu ter deixado passar. Mas é muito bom poder rever numa cópia remasterizada e lindíssima. Quase como estar entrando num túnel do tempo e vendo a Dira Paes passando por um processo de rejuvenescimento. Ela está incrível como uma jovem que nasceu fruto do estupro que sua mãe, uma mulher negra escravizada, sofreu de um coronel da região, homem que costumava gostar de açoitar os seus escravos. A personagem é muito interessante justamente por ter um tipo de personalidade pouco afável. Ela é mesmo do tipo que apreende o que há de mal na personalidade do pai e ignora o sofrimento alheio, além de querer fazer tudo para obter o que deseja, mesmo que tenha que mandar matar alguém. LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO (2002) tem menos simbolismos que o ótimo CORISCO & DADÁ (1996), mas a nova parceria com Paes e Chico Diaz faz bem ao cineasta. Fiquei muito curioso para ler o conto de Ronaldo Correia de Brito, que serve de base para a história do filme, que tem mesmo a intenção de trazer à tona as complexidades da formação do povo brasileiro, com esse tipo de "capitão do mato" se tornando aqui uma "coronel" do mato, alguém com o poder e a vontade de mostrar força através da violência e da sede de poder. Cena memorável: W.J. Solha, o coronel, no leito de morte.

domingo, abril 12, 2026

O DRAMA (The Drama)



Vejo pessoas falando de crise no cinema, de evasão de público, mas uma coisa eu percebi: Zendaya é um chamariz para bilheteria. Já havia percebido com RIVAIS, de Luca Guadanigno, das pessoas falando entusiasmadas na fila do cinema que iam ver "o novo filme da Zendaya". Algo se repete e em maior escala com O DRAMA (2026), nova produção da A24, que tem lotado sessões neste fim de semana. Ela tem uma base de fãs alta entre adolescentes e jovens adultos e, eu, que no início duvidava de seu talento, fiquei impressionada com sua interpretação, principalmente como uma dependente química na série EUPHORIA, que, aliás, está de volta.

Quanto a O DRAMA, eis uma comédia que causa desconforto e tensão (eu até tomei um susto em uma cena específica), mas em determinados momentos, as situações dos personagens passam a se tornar tão interessantes quanto hilárias. Há um segredo envolvendo o passado da personagem de Zendaya, que vem à tona nos primeiros 20 minutos, que funciona como elemento propulsor para a história.

Na trama, os dois protagonistas, vividos por Robert Pattinson e Zendaya, estão prestes a se casar e estão, inclusive, preparando seus textos a serem falados na festa de casamento. Até que um segredo do passado da personagem passa a assombrar a todos. O detalhe é que é um segredo de um pensamento e não de uma ação, o que faz com que o filme encontre paralelos com a cultura do cancelamento.

Algumas cenas são bem divertidas, especialmente as que mostram a intimidade do casal, mas há outras que acontecem sem que ambos estejam presentes que também são fundamentais para a construção dessas situações. Pattinson está com o personagem mais difícil e não tem medo de se submeter ao ridículo, enquanto Zendaya parece mais à vontade com essa personagem mais complexa e interessante.

O DRAMA foi filmado em 35 mm e usa muito tons de marrom. O diretor de fotografia, o bielorrusso Arseni Khachaturan, é o mesmo de ATÉ OS OSSOS, de Luca Guadagnino, que também adota essa tonalidade. Já o realizador, o norueguês Kristoffer Borgli, tem no currículo filmes pequenos, mas não exatamente desconhecidos, como DOENTE DE MIM MESMA (2022) e O HOMEM DOS SONHOS (2023). Confesso que fiquei curioso para conhecer mais filmes seus.

+ TRÊS FILMES

A EMPREGADA (The Housemaid)

Alguns diretores de comédia têm conseguido surpreender fazendo terror e suspense muito bons. Paul Feig, cujo melhor filme na direção talvez continue sendo MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (2011), já havia ensaiando um suspense acima da média e carregando um senso de humor notável com UM SIMPLES FAVOR (2018) e desta vez mostra novamente sua boa mão para dirigir duelos entre personagens femininas neste A EMPREGADA (2025), que vai além de um mero veículo para a carreira de Sydney Sweeney, que aqui interpreta uma mulher que está com dificuldades de arrumar emprego, estando em liberdade condicional. Acaba conseguindo um emprego de doméstica para uma mulher rica (Amanda Seyfried). Nem tudo são flores quando a empregadora começa a ter um comportamento estranho com relação a ela. Há também outro personagem muito importante para a trama, que é o marido da mulher, um homem cobiçado pelo mulherio vivido por Brendon Sklenar (visto recentemente em DROP – AMEAÇA ANÔNIMA). Gosto muito das viradas de roteiro e de como o filme sempre nos mantém acesos e interessados, por mais que pareça, em diversos momentos, um daqueles suspenses B vulgares vistos no Supercine. A intenção de Feig, creio, é usar este template com muito humor e buscar um tipo de suspense que até tem seu grau de violência em seu clímax, mas que tem o entretenimento, com uma boa dose de ironia, como principal objetivo.

OI, SUMIDO! (Oh, Hi!)

Tenho adorado o frescor do cinema independente americano contemporâneo, especialmente dos cineastas mais jovens. Em seu segundo longa-metragem, Sophie Brooks nos coloca dentro de um cenário cômico, mas com doses de desespero, sobre um fim de semana amoroso que não dá muito certo. O filme nos apresenta a uma personagem no mínimo bem interessante, vivida por Molly Gordon, cuja insegurança a faz deixar algemado na cama o rapaz que ela julgava ser seu namorado (Logan Lerman, ainda mais lembrado por AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL). Tendo sido lançado direto em streaming (HBO Max), OI, SUMIDO! (2025), de Sophie Brooks, nunca cansa, tem um ritmo muito gostoso, personagens cativantes e situações bastante divertidas, sem deixar de convidar o espectador a se solidarizar com os sentimentos dos protagonistas. Quem nunca fez uma bobagem na vida e quis tentar passar uma borracha na memória de todos para refazer tudo direitinho? O filme de Brooks é sobre lidar com as consequências dos próprios atos, mas também sobre se sentir muito vulnerável – e isso vale tanto para Iris, quanto para Isaac.

ESTÁ TUDO BEM COMIGO? (Am I OK?)

Dakota Johnson tem apoiado jovens cineastas. Desde que se tornou uma atriz de primeiro escalão em Hollywood, com CINQUENTA TONS DE CINZA e suas continuações, tem alternado entre produções em grande escala (às vezes não muito boas, vide a comédia involuntária MADAME TEIA) e outras de diretores independentes, mas com bastante talento. Foi assim com CHA CHA REAL SMOOTH – O PRÓXIMO PASSO, de Cooper Raif; com AMORES À PARTE, de Michael Angelo Covino, e, por que não citar também, AMORES MATERIALISTAS, de Celine Song. Este ESTÁ TUDO BEM COMIGO? (2022), de Stephanie Allynne e Tig Notaro, é um filme menor, que lida com temas como amizade entre mulheres, dependência emocional e dificuldade de se encontrar na sexualidade. No caso, a personagem de Dakota esconde da própria amiga a atração que sente por outras mulheres, e acaba estragando um pouco a própria vida, já que demora a dar o primeiro passo como pessoa gay. Legal ver Molly Gordon, que vi recentemente em OI, SUMIDO!, em papel coadjuvante, mas de importância para a trama. A oportunidade de entrar nesse universo mais indie é também um espaço de maior sensibilidade. São projetos mais modestos, mas por isso mesmo mais humanos.

sábado, abril 11, 2026

AS PONTES DE MADISON (The Bridges of Madison County)



Chega a ser assustador pensar que já se passaram 30 anos de quando vi pela primeira vez AS PONTES DE MADISON (1995) no saudoso Studio Beira-Mar. Na época, não me envolvi tanto com o drama dos personagens, talvez por ser muito jovem – tanto que no mesmo ano vi no cinema também ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, e houve uma conexão instantânea, já que eu tinha a idade daqueles personagens. Existem, sim, vários pontos em comum entre os dois filmes: ambos contam histórias de um amor que se inicia quase que instantaneamente e que é ameaçado pelas circunstâncias. No caso do filme de Clint Eastwood, há um registro menos ingênuo e mais duro com os personagens. Até porque o diretor não tem por hábito ser tão gentil assim com seus heróis, geralmente figuras atormentadas.  

Na época (anos 90), eu vinha da experiência de ter visto no cinema CORAÇÃO DE CAÇADOR (1990), OS IMPERDOÁVEIS (1992) e UM MUNDO PERFEITO (1993). Ou seja, estava testemunhando o realizador em seu auge criativo, um auge que felizmente duraria ainda bons anos. E nessa época o que eu tinha de referência de crítica de cinema era basicamente a revista SET, que felizmente ainda era muito boa, e era um veículo que costumava valorizar a obra de Eastwood – a não ser nas derrapadas, como em ROOKIE – UM PROFISSIONAL DO PERIGO (1990). 

Mas confesso que rever AS PONTES DE MADISON me pegou de surpresa, pois não esperava um filme tão despreocupado, por assim dizer, com seu andamento. Ou melhor, seu andamento me pareceu tão perfeitamente lento que parecia um filme europeu. Ou um americano da Nova Hollywood, o que faz mais sentido, na verdade, até pela idade do diretor. Mas por que só agora esse detalhe ou essa impressão se apresentou de forma mais intensa? Afinal, adorei cada momento do filme, inclusive as cenas com os filhos lendo as cartas e os diários, que haviam sumido de minha lembrança.

É possível que este seja o filme mais romântico do diretor/ator, e talvez por isso transpareça seu caráter tão excepcional no trato com os personagens e os detalhes apresentados em cada plano, em cada gesto deles. Francesca tocando o colarinho de Richard; em seguida ele tocando sua mão. Essa cena me pegou mais do que a dos beijos, pois foi ali que a tensão erótica chegou ao ponto de eles finalmente se deixarem levar pelos sentimentos e desejos que nutriam um pelo outro. Mas acontece que Francesca é casada e vive numa sociedade mais dura com a mulher, a do interior dos Estados Unidos nos anos 1960, e largar marido e dois filhos é difícil para alguém como ela. Por mais que não esteja mais feliz no casamento e na vida excessivamente calma do campo. Meryl Streep teve que fazer uma outra “escolha de Sophia”: ir embora com um grande e intenso amor ou ficar com o marido e filhos?

Aqui, há pelo menos uma válvula de escape para ela: escrever em diários os dias vividos com o fotógrafo da National Geographic de modo que, naquelas páginas, aquele amor não morresse com a morte deles. Como tenho um apego grande com registros e tentativas de não deixar desaparecer por completo até as lembranças de amores e amigos, achei a opção de Francesca excelente, por mais pouco realista que pareça em sua engenhosidade para chegar às mãos dos filhos somente após sua morte.

Das cenas que ficam e que parecem dignas de um personagem de Os Dublinenses, de James Joyce, há a cena de Francesca na caminhonete com o marido e a seta da caminhonete de Richard piscando para a esquerda, como que um aviso para a última oportunidade de Francesca partir. Como os personagens de Joyce em seu clássico livro de contos, ocorre uma espécie de paralisia. Felizmente, a conexão entre os dois segue, mesmo que à distância e em caráter quase espiritual.

+ TRÊS FILMES 

STRIPTEASE

Quem diria que 30 anos depois (ou quase) eu estaria revendo STRIPTEASE (1996), de Andrew Bergman, que foi tão maltratado pela crítica da época. Maltratado com razão, claro, mas também por se tratar de um filme com grande visibilidade, com uma estrela de Hollywood superpopular e um teor altamente apelativo, o que era até normal naqueles tempos pós INSTINTO SELVAGEM, quando os thrillers eróticos viraram moda. STRIPTEASE, apesar de ter uma história envolvendo policiais e assassinatos, está mais para uma comédia da sessão da tarde (exceto pelos peitos de fora), sendo que as piadas não são muito boas. Hoje o filme funciona como um documentário da época, com o visual, as músicas, os equipamentos eletrônicos, o comportamento, o senso de humor, as referências históricas e culturais funcionando como um mosaico daqueles tempos. Demi Moore faz o papel de uma stripper que perde a guarda da filha pequena para o pai biológico trambiqueiro, vivido por Robert Patrick. Enquanto luta pela filha, que só pode ver quinzenalmente, sofre assédios típicos do emprego noturno e exploratório. Na época, o novo corpo da atriz chamou a atenção e foi considerado mais musculoso do que o normal. Para os padrões de hoje, ela é considerada perfeita. Gosto muito da Demi Moore, mas sua escolha para este filme foi infeliz, ainda que seu salário tenha sido na época o mais bem pago a uma atriz. Infeliz pelo fato de o filme não funcionar nem no erotismo, nem no humor. De todo modo, é curioso ver Burt Reynolds num papel tão ridículo e é bom ver o quanto Ving Rhames é um ator carismático.

MULHERES DIABÓLICAS (La Cérémonie)

Impressionante como certos filmes fogem completamente de nossa memória. Vi MULHERES DIABÓLICAS (1995) em VHS há muito, muito tempo, eu sei, mas talvez só tenha ficado um pouco com flashes das cenas finais das duas mulheres na casa dos burgueses. Ou nada. Como num apagão. O VHS talvez tivesse um poder menor de absorção (será?). Desta vez pude degustar com mais prazer, uma vez que também tenho mais interesse pelo cinema de gênero francês, e gosto de como os suspenses de Chabrol e de outros conterrâneos seus costumam “queimar mais lentamente” no desenvolvimento da ação e no desnudamento dos personagens. A personagem de Sandrine Bonnaire é fascinante: esconde de todos algo que muito lhe envergonha: seu analfabetismo. Tenta compensar com a boa memória, mas muitas vezes precisa fugir quando deve ter que ler alguma coisa. Já Isabelle Huppert tem outros segredos e gosto de como o filme a humaniza perto do final, naquele diálogo no carro sobre a filha e sobre os julgamentos da sociedade. Não esconde o ódio das classes mais ricas, e talvez esse aspecto seja o que mais pode confundir os espectadores, uma vez que retratar os pobres executando ações criminosas nem sempre é agradável, ainda mais quando há um registro mais próximo do naturalista. Atualmente tem se comparado MULHERES DIABÓLICAS a PARASITA, mas gosto mais do Chabrol, de sua classe, de seu elenco de mulheres incríveis e de seu trabalho mais sutil com a câmera e com os diálogos que respiram de acordo com o ritmo do filme.

SANEAMENTO BÁSICO, O FILME

Perdi SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (2007) quando de seu relançamento em cópia remasterizada nos cinemas, no ano passado, mas revê-lo na telinha (na Mubi, mas parece também estar no Prime) fez com que ele subisse em meu conceito. Claro que achei divertidíssimo quando o vi em 2007, mas já são quase 20 anos que se passaram e agora ver um filme que traz no mesmo elenco Fernanda Torres e Wagner Moura, só por isso já merece a atenção. Ainda tem, em desempenhos brilhantes, Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Bruno Garcia. E tem dois atores veteranos maravilhosos, Paulo José e Tonico Pereira. Ou seja, é muito amor. E a direção do Jorge Furtado traz uma leveza e um senso de humor inteligente que tornam muito difícil não amar cada momento, mesmo aqueles que parecem não contribuir para o fio condutor da história, como a cena de Wagner Moura dirigindo a motocicleta que vai se desfazer ao som de “Io che amo solo te”, na voz de Sergio Endrigo, ou a cena de discussão entre os dois atores veteranos. Há também as cenas quase metalinguísticas em que os personagens de Wagner e Fernanda buscam pensar, de maneira leiga, como transformar um roteiro em narrativa cinematográfica, e vê-los com os olhos brilhando e o sorriso nos lábios a cada solução encontrada é um convite à alegria. Na trama, pequeno grupo de pessoas de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul busca meios para conseguir verba para resolver os problemas básicos de saneamento. Só que a única verba existente na prefeitura é para a criação de um vídeo. É onde a narrativa começa a se desenvolver com mais força. Há um quê de ED WOOD nas filmagens engraçadas, embora o propósito original não seja fazer uma comédia, mas fazer um terror de monstro, “o monstro da fossa”, ou “do fosso”. A última cena dirigida pelo personagem de Lázaro Ramos é de chorar de rir. Enfim, estou começando a achar que este é o melhor longa-metragem de Jorge Furtado – lembrando que o último filme ótimo dele foi RASGA CORAÇÃO (2019) e já faz um tempinho.

segunda-feira, abril 06, 2026

ANDAR NA PEDRA – A HISTÓRIA DO RAIMUNDOS



Acompanhei o surgimento do Raimundos desde antes do lançamento do primeiro álbum da banda, de 1994. Não lembro quem escreveu a matéria na Bizz, se o Forastieri ou o Barcinski ou outro redator, mas o relato do show da banda até então conhecida apenas em alguns lugares de Brasília, com sua mistura de forró com punk rock hardcore, me deixou bastante entusiasmado para conhecer. Soube, então, do disco produzido por Carlos Eduardo Miranda, e do selo Banguela, para bandas independentes dentro da poderosa Warner Music, e um dia, estava eu na barraca Biruta, quando ouvi pela primeira vez “Puteiro em João Pessoa”. Aquilo era diferente do que eu havia ouvido até então e eu sabia que era uma canção dos Raimundos. Se não me falha a memória, já na semana seguinte comprei o CD na saudosa Aky Discos, e foi um sucesso também entre alguns amigos, inclusive dois deles falecidos e de quem sinto muito a falta, Santiago e Érico, que acharam um barato aquela molecagem de colocar tanto palavrão e putaria numa sonzeira que mal dava para entender o vocal sem a ajuda do encarte. Na época, o consumo de música era diferente: o encarte era fundamental, fazia parte do prazer, da graça de ouvir um disco.

O documentário ANDAR NA PEDRA – A HISTÓRIA DO RAIMUNDOS (2026), com os cinco episódios dirigidos por Daniel Ferro, é um dos melhores do gênero (musical) que já vi na vida. E o formato em cinco episódios de cerca de uma hora funciona muito bem, pois se resolvessem transformar num único filme de duas horas para cinema muita coisa boa seria perdida. Tudo o que ficou na montagem final desta minissérie é essencial para a história contada. Mesmo o quinto episódio, que relata o momento mais delicado e triste, que é a fase pós-saída do Rodolfo, é um retrato duro e humano de sobrevivência e busca de novos caminhos para todos os envolvidos.

O primeiro episódio é mais leve por razões óbvias: havia ali quatro jovens que se conheceram por uma paixão em comum. O primeiro encontro de Rodolfo e Digão é muito divertido, a partir de quando Digão ouve, do outro lado da rua, a bateria do vizinho da frente, o Rodolfo, e resolve ir lá se apresentar. Foi o começo da criação de um dos grupos mais originais, bem-sucedidos e empolgantes da música brasileira. Claro que, até o disco Só no Forévis (1999), o público-alvo eram os fãs de rock pesado e/ou barulhento, mas no auge de popularidade da banda o Raimundos passou a ser querido por uma parcela altíssima dos brasileiros. Pode-se dizer, inclusive, que 1999 foi o ano que trouxe os últimos hits gigantes de rock até hoje, “Mulher de Fases” e “Anna Júlia”, do Los Hermanos. O século XXI tem sido mais difícil para o rock em termos de popularidade.

Um dos grandes méritos de ANDAR NA PEDRA é o quanto o documentário não se furta de contar histórias duras, dolorosas de cada um dos membros, seja a morte de um irmão do Digão, sejam as várias brigas e os inúmeros desentendimentos que havia entre o grupo, coisa que pouca gente sabia, e isso faz com que alguns desses relatos entrem em conflito. Por isso o fim da banda, ou o primeiro fim, o que de fato conta para mim e para a maioria dos fãs, com a saída do Rodolfo e sua conversão a uma igreja evangélica, pegou todo mundo de surpresa. Não só pelo estilo de vida da banda e pelas letras de sacanagem explícita, mas porque a banda estava no auge. O documentário, inclusive, mostra o quanto foi duro para Rodolfo sair. Ninguém aprovava esse seu movimento, levando em consideração tanto sucesso, tanta popularidade, tanto dinheiro envolvido, tantos discos de ouro, platina etc.

Tive oportunidade de ouvir, anos atrás, o testemunho ao vivo, numa igreja evangélica do Rodolfo Abrantes e peguei em sua mão, cumprimentando-o ao final do culto, mas naquele dia não fiquei conformado com o modo agressivo com que ele renegava a banda e seu estilo de vida, talvez por estar numa igreja. Vendo agora seu emocionado testemunho no documentário, porém, compreendi melhor seu drama, sua necessidade de sair da banda. Ele provavelmente estaria morto se não mudasse de vida. E nem falo do diagnóstico das irmãs da igreja, mas da própria tristeza que ele sentia, dos pensamentos de que aquele seria o último ano de sua vida.

O segundo episódio é outro momento muito gratificante para os fãs da banda, pois mostra outro auge, o lançamento de Lavô Tá Novo (1995), que conta com duas canções com os riffs de guitarras mais pesados e acertados da turma, “Eu Quero Ver o Oco” e “Tora Tora” – ah, e eu adoro “Sereia da Pedreira” também. Talvez não seja um disco tão regularmente ótimo quanto o primeiro, mas a sonoridade foi um avanço até mesmo para o tipo de produção que se costumava fazer aqui no Brasil, cujos discos sofriam muito em comparação com os produzidos nos Estados Unidos ou Inglaterra. No documentário SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94, de Ricardo Alexandre, podemos ver com detalhes esse aspecto.

Os caminhos para o terceiro álbum, Lapadas do Povo (1997), foram tortuosos, e uma tragédia ocorrida logo no início da turnê, em Santos, culminando na morte de oito fãs, fez com que a turnê do disco fosse abortada. O curioso é que a opção por um caminho menos engraçado veio pelo fato de eles não gostarem da comparação com os Mamonas Assassinas. A volta para a alegria e a brincadeira veio com o megassucesso Só no Forévis, mas por trás do sucesso havia muita coisa pesada acontecendo, um relacionamento tóxico entre os integrantes e um desconforto cada vez maior por parte de Rodolfo. Mesmo assim, sair da banda era um passo difícil de dar, conforme o próprio Rodolfo conta. Ele disse que quase volta atrás para dizer que era uma brincadeira, uma pegadinha, mas foi algo que fez bem para ele. O problema é o quanto foi complicado para os demais, levando em consideração as finanças, os comprometimentos com imóveis e outros bens, as famílias formadas etc. E o documentário entrar nesses detalhes só torna tudo ainda mais humano.

Ver ANDAR NA PEDRA me fez querer ouvir Raimundos de novo, me deu saudade da banda, me fez lembrar de como também foi uma pedrada para mim a saída do Rodolfo lá naquele maio de 2001. Lembro que até citei esse fato numa carta à coluna do Carlão Reichenbach. Quem tem interesse pela banda com certeza vai adorar o documentário e até quem não conheceu ou se interessou vai se comover com os aspectos humanos dessa história tão singular, cheia de amor, ódio, morte e renascimento.

+ TRÊS FILMES

BECOMING LED ZEPPELIN

O que temos aqui é um documentário para os fãs da banda. BECOMING LED ZEPPELIN (2025), de Bernard MacMahon, não é perfeito e nem tão inventivo, além de não saber como terminar, mas sua estrutura tradicional é gostosa de acompanhar, mostrando a gênese do Led Zeppelin, desde a infância de cada um dos quatro, passando pelo primeiro contato deles com a música, depois seus primeiros trabalhos, culminando com a junção mágica de Plant, Page, Jones e Bonham, nessa que é a segunda maior banda do mundo. Ver na tela IMAX também traz a vantagem de podermos ouvir a música numa qualidade de dar gosto, mesmo aquelas que foram retiradas de apresentações ao vivo, mas que ganharam, com uma limpeza bonita para o filme. Podia ser mais ousado, até no que escolhe mostrar de cada um dos músicos, mas é emocionante acompanhá-los em seus primeiros shows, no intenso ano de 1969, quando eles lançaram o primeiro e o segundo disco, os únicos abordados nesse doc. Bom demais ver as imagens das primeiras impressões das pessoas ouvindo o som da banda pela primeira vez. Gostei de como uma canção que eu nem gostava tanto como "What Is and What Should Never Be" vai voltar a ser ouvida por mim, desta vez com mais carinho. "And if I say to you tomorrow / Take my hand, child come with me...".

CAZUZA – BOAS NOVAS

O foco deste documentário sobre Cazuza está em seus anos após ter contraído o vírus da AIDS mais do que o início de sua trajetória artística, como vocalista do Barão Vermelho. Então, de certa forma, CAZUZA – BOAS NOVAS (2025), de Nilo Romero e Roberto Moret, tem um caráter até mórbido, uma vez que a morte é uma das palavras mais citadas ao longo do filme. Até na famosa entrevista que o cantor e compositor deu a Marília Gabriela há a pergunta a partir do trecho “Eu vi a cara da morte e ela estava viva”, o que já denunciava a doença que Cazuza ainda não havia assumido publicamente ter. O filme tem uma característica de documentário mais convencional, com convidados que ajudam a contar a história, mas essa costura é bem feita e é aliada a imagens de shows e de filmagens caseiras, como também de telejornais, como é o caso da cena da repercussão da horrenda capa da revista Veja de abril de 1989. Consta que, ao dar de cara com a revista, o cantor passou mal e foi internado. As imagens de baixa resolução ajudam a passar um ar quase fantasmagórico à história de Cazuza, como se fossem imagens quase etéreas. Senti mais falta de mais cenas que levam ao choro. Mas talvez a ideia seja mesmo ser fiel ao espírito do cantor, que nunca quis que ficassem com pena dele em sua trajetória de pessoa pública cujo corpo foi sumindo a olhos vistos.

3 OBÁS DE XANGÔ

Pode não ser o documentário mais bem-sucedido de Sérgio Machado - prefiro bem mais A LUTA DO SÉCULO (2016) –, mas 3 OBÁS DE XANGÔ (2024) tem um trunfo. Aliás, três trunfos: os seus personagens-título. Não conhecia Carybé, o pintor, mas já era mais ou menos familiarizado com a simpatia e a inteligência de Jorge Amado e Dorival Caymmi (aliás, quem não viu ainda o doc DORIVAL CAYMMI – UM HOMEM DE AFETOS não sabe o que está perdendo). Sou um ignorante em cultura afrobrasileira, em candomblé, mas me acostumei a apreciar quando vejo em filmes. Sem falar que a música brasileira é muito devedora da música baiana, que por sua vez não se furta a falar dos orixás, dos terreiros, de tantas coisas que para mim são um mistério ainda. O problema que talvez eu tenha encontrado neste filme de Machado foi a falta de um final, de algo que desse uma melhor liga entre as cenas usadas. Gosto muito de ver imagens de filmes, e não faltam, uma vez que Jorge Amado foi tantas vezes adaptado, até mesmo pelo próprio Machado, que fez QUINCAS BERRO D’ÁGUA (2010) e a minissérie PASTORES DA NOITE (2002). No mais, adoro a cena final, mesmo assim, ainda mais depois que a gente sabe mais sobre Jorge Amado e sua defesa dos terreiros em tempos mais duros para praticar essa fé, e depois que já nos encantamos com o jeito mágico de Caymmi e sua intimidade com o mar.

quinta-feira, abril 02, 2026

KILL BILL – THE WHOLE BLOODY AFFAIR



Quanto sangue, quanta luta, quanto amor. Foi lindo rever esta obra-prima, ou melhor, ver, já que é bem nova a experiência de ter os dois volumes juntos com mais uns minutos adicionais, inclusive com uma animação excelente contando a história de Oren Ishi-i (Lucy Liu), além de outra pós-créditos, que me pegou de surpresa. E pensar que eu quase não via KILL BILL – THE WHOLE BLOODY AFFAIR (2004) por causa da longa duração e por uma série de complicações de logística. Que bom que deu certo ver, mesmo que nos 40 minutos do segundo tempo, quando só restavam mais duas sessões do filme nos cinemas. E que bom que foi na gloriosa sala 2 do Cinema do Dragão. (Re)ver no cinema e desta maneira esta que eu considero desde muito tempo a melhor obra de Quentin Tarantino só a torna mais épica, mais dramática, mais cheia de sentimento.

Além do mais, como já faz uns anos que chamam o Tarantino de misógino, eu diria que ver KILL BILL pode ajudar a repensar essa afirmativa, já que são as mulheres as grandes estrelas deste épico pós-moderno, feito a partir de uma salada que inclui muita coisa produzida principalmente nos anos 1970, que fizeram a cabeça do realizador. Tarantino mistura filme japonês de samurai (Kenji Fukasaku ganha uma dedicatória logo no começo), filmes de kung fu de Hong Kong, westerns spaghetti (principalmente na trilha sonora), filmes de horror mais sangrentos, policiais americanos da época da Nova Hollywood e, mais uma vez, um pouco de blaxploitation. Sem falar nos animes.

E ele faz isso com uma vontade tão grande de realizar o melhor filme de pancadaria de todos os tempos, que o resultado é muito empolgante. Eu sempre fico muito emocionado com a cena inicial, com o tiro na cabeça de Beatrix Kiddo (Uma Thurman), seguido dos créditos ao som de "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", na voz de Nancy Sinatra. E o filme inicia depois disso com a incrível sequência de luta com a personagem de Vivica A. Fox, uma briga de facas maravilhosa. E aqui Tarantino também injeta aquele um elemento que faz com que essa luta se torne também dolorosa para nós, espectadores: a presença da filha de quatro anos da personagem de Fox, que chega da escola quando o pau estava comendo na sala de estar.

Tarantino foi tão esperto em colocar essa cena no início, desobedecendo mais uma vez as regras da linha temporal, como havia feito em PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994), que fica óbvio que a cena de luta com a personagem de Lucy Liu, por ser maior e cheia de preparativos, teria mesmo que acontecer perto do final da primeira parte. Aliás, toda essa preparação para enfrentar a personagem de Liu ganha ainda mais força dramática com a cena em animação adicionada. Ela deixa de ser só uma adversária perigosa e passa a ser alguém que também sofreu quando criança até galgar à posição de muito poder dentro da Yakuza, mesmo sendo sino-americana. A câmera de Tarantino passeia em tomadas de cima por aquele ambiente regado a um rock cantando por uma banda feminina de moças com os pés descalços. E tudo é apresentado com muita elegância, inclusive as split-screens, que devem ter deixado o De Palma com inveja (ou batendo palmas).

A minha lembrança da segunda parte era de um momento menos dinâmico, mas não foi isso que vi desta vez. Até aquela conversa final de Beatrix com Bill (David Carradine) é também muito bom, cheio de emoção, pois estamos diante ali de duas pessoas que tiveram um envolvimento amoroso no passado. Aliás, a cena de Kiddo sorrindo para Bill na igreja, em momento anterior à chacina, é de cortar o coração. Ela linda, grávida, sorrindo para ele, com um sorriso encantador, enquanto a morte está a caminho. Acho que Tarantino nunca mais fez uma heroína tão incrível quanto Beatrix Kiddo, nem mesmo Shosanna Dreyfus de BASTARDOS INGLÓRIOS (2009), até por ela não ser a única protagonista, ao contrário de Uma Thurman. De todo modo, são duas heroínas adoráveis.

Há tanto o que elogiar no filme, seja a fotografia linda de Robert Richardson, a montagem de Sally Menke, o número imenso (e maravilhoso) de pedaços de trilhas sonoras (principalmente do cinema italiano, mas também do cinema japonês), a quantidade incrível de piscadelas de olho que estão mais para declarações de amor ao cinema popular, algumas cenas que nos dão um misto de aflição e excitação, como a cena do cemitério e a luta contra a jovem Gogo (Chiaki Kuriyama) e as cenas com a personagem de Daryl Hannah, tudo isso é assustador, cada cena à sua maneira.

Infelizmente, Tarantino está preso agora nessa promessa besta que fez de encerrar a carreira com um décimo filme e não sabe que grande filme será esse. Enquanto ele se vê enrascado e publicando livros e fazendo peças de teatro por aí, ter a sorte de rever KILL BILL integralmente nos cinemas é para glorificar de pé.

+ TRÊS FILMES

A QUADRILHA (The Outfit)

O livro Especulações Cinematográficas, de Quentin Tarantino, tem rendido boas dicas e belas descobertas. Não que esses filmes estivessem escondidos, tanto que boa parte deles eu encontro nas coleções da Versátil, que contêm inúmeras pérolas que ainda não vi. A QUADRILHA (1973), de John Flynn, ganhou um capítulo à parte no livro de Tarantino. No livro, ele destaca principalmente a série de romances de Richard Stark com o personagem Parker, um fora-da-lei casca grossa que enfrenta uma quadrilha que comanda um império. O personagem, no filme com o nome de Earl Macklin (parece que o romancista não permitia que usassem o nome Parker, ou algo assim), é vivido por Robert Duvall. A trama, que é uma continuação da trama de À QUEIMA ROUPA, de John Boorman, se inicia com ele saindo da cadeia depois de um par de anos em reclusão. Ele é recebido do lado de fora pela esposa (Karen Black). Mais à frente conheceremos seu parceiro de crime Cody (Joe Don Baker). Os dois farão um inferno na vida dos chefões dessa quadrilha, mais especificamente do chefão-mor, vivido por um Robert Ryan muito bom. O legal de ver A QUADRILHA é perceber o quanto o faroeste, o filme noir e o cinema policial moderno estão intrincados, como eles são quase a mesma coisa, com a diferença que no cinema dos anos 1970 havia uma possibilidade maior de explorar a violência em doses mais brutais. O diretor John Flynn equilibra elegância e brutalidade e nos presenteia com uma obra visceral e muito divertida.

COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (Coffy)

Não sei o que passava pela minha cabeça de não ter visto ainda algum filme desse cinema blaxploitation maravilhoso. Havia visto só BLÁCULA, mas não sei se conta tanto. E digo “maravilhoso” levando em consideração essa belezura que é COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973), de Jack Hill, um dos títulos estrelados pela diva Pam Grier. Este e também FOXY BROWN estão disponíveis na Mubi, então não façam como eu para deixar pra ver só depois. Além do mais, a Versátil já lança há algum tempo a coleção Blaxploitation. Então, hoje em dia o acesso a esses filmes é mais facilitado. Na trama de COFFY, a personagem-título é uma mulher com um desejo de vingança aos homens que deram heroína para sua irmã pequena. Então, ela começa o filme dando cabo de um traficante e um “avião”. Depois disso ela ainda ingressaria no submundo da prostituição para pegar mais peixes graúdos nesse seu projeto. O filme possui diversas cenas antológicas e que de fato me impressionaram, não apenas por seu aspecto apelativo, mas pelo quanto também funcionam nos registros de drama, suspense, ação, espionagem e até comédia. Quero mais!!

FOXY BROWN

Embora não seja tão bom quanto COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973), FOXY BROWN (1974) sabe usar o melhor da fórmula acertada da primeira parceria do diretor Jack Hill (do cultuado SPIDER BABY, 1967) com a atriz Pam Grier, novamente interpretando uma mulher que segue numa cruzada de vingança, penetrando espaços perigosos, como os habitados por traficantes e casas de prostituição. Ainda acho que COFFY vai mais longe na exploração da violência e do sexo que FOXY BROWN, mas é difícil não pensá-los como filmes irmãos. Aqui, Foxy quer se vingar da rede de criminosos que mataram seu namorado, um agente federal que teve que fazer uma cirurgia plástica para poder escapar de uma rede de crime que havia se expandido para a esfera judicial. Algumas cenas memoráveis incluem Foxy humilhando um juiz, depois Foxy sendo abusada sexualmente para depois se vingar de homens brutos; e Foxy aparecendo para ajudar o irmão logo no início do filme. Assim como COFFY este filme também valoriza a música soul na trilha sonora de modo tanto a trazer dinamismo quanto a evidenciar e valorizar a rica música pop negra vigente naqueles incríveis anos 1970.

quinta-feira, março 26, 2026

PAIXÕES QUE ALUCINAM (Shock Corridor)



Achava que ficaria mais empolgado com os filmes de Samuel Fuller - do mesmo modo que fiquei com os filmes de Fritz Lang. Alguns me trouxeram esse entusiasmo que tanto esperava, como ANJO DO MAL (1953) e CASA DE BAMBU (1955), provavelmente seus dois filmes mais próximos do noir (apesar das cores vibrantes do segundo). Não posso esquecer de sua estreia, EU MATEI JESSE JAMES (1949), que adorei nas duas vezes que vi. Por enquanto, essa é minha trinca favorita do realizador. 

Fui aprendendo a gostar de seus filmes de guerra, e até agora tenho MORTOS QUE CAMINHAM (1962) em mais alta conta, pelo menos enquanto não chega a revisão de AGONIA E GLÓRIA (1980), que vi nos tempos do VHS e tenho recordações boas, ainda que nubladas. E aí há esse espírito dos filmes B que causam certa estranheza, como se Fuller preferisse ficar na lista de cineasta da terceira prateleira - achei interessante esse tipo de classificação, que está longe de ser preconceituosa, principalmente se já gostamos de diretores menos celebrados em listas mais convencionais.

Que os trabalhos de Samuel Fuller têm esse espírito de filme B com muita frequência a gente entende. Mas PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963) talvez seja o que mais se entrega de maneira embriagada a esse aspecto. A trama é exploitation, o estilo de interpretação e o uso dos pensamentos do protagonista fazem parecer que estamos lendo uma história em quadrinhos ou alguma novela pulp, o que às vezes me deixava intrigando, mas às vezes também me distanciava do filme.

Uma das coisas que tenho aprendido é que nem sempre eu vejo os trabalhos de Fuller com um prazer enorme. Suas obras acabam crescendo depois de tê-las visto. Esta história sobre um jornalista que se disfarça de doente mental em hospital psiquiátrico para desvendar um assassinato ocorrido lá e depois ganhar o prêmio Pulitzer tem alguns momentos que desafiam o que geralmente é considerado de bom gosto. Enquanto isso, a namorada do rapaz, uma stripper, fica indignada com o plano, muito preocupada com a saúde mental do herói, o que é uma preocupação mais do que justa.

O filme é dividido em blocos e há aqueles que são dedicados às conversas do infiltrado com os pacientes, de modo a obter deles as pistas e a resposta final para a solução do caso. Fuller aproveita para alfinetar a própria estrutura violenta dos Estados Unidos, em especial na cena do homem negro que agora se vê como um membro da KKK.

Não é o primeiro dos filmes de Fuller a tratar de pessoas vivendo em espaços estranhos, ou estrangeiros. CASA DE BAMBU nos apresenta a um homem também infiltrado, desta vez no crime; RENEGANDO MEU SANGUE (1957) é sobre um homem que abandona sua pátria depois da Guerra da Secessão para viver com os indígenas; A LEI DOS MARGINAIS (1961) é também sobre um homem que se infiltra na máfia, desta vez por vingança.

O que me ganha em PAIXÕES QUE ALUCINAM é a estranheza, e há algumas cenas incríveis, como a da chuva "dentro do hospital", ou as cenas em que o herói sente dificuldade de falar depois de ter passado por um tratamento de choque.

Visto no box A Arte de Samuel Fuller.

+ TRÊS FILMES

SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA

Simplesmente louvável a iniciativa que estamos testemunhando da remasterização caprichada de alguns clássicos do cinema brasileiro. Que bom que chegou a vez de SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA (1965), um dos maiores filmes do nosso cinema de todos os tempos e uma das duas obras-primas de Luiz Sérgio Person, morto precocemente aos 40 anos num acidente de automóvel que nunca foi devidamente solucionado. Falando em automóvel, é de Person a obra que melhor expressa a São Paulo dos anos 1960, por mais que NOITE VAZIA, de Walter Hugo Khouri, chegue pertinho. Mas a São Paulo de Person é mais completa, por assim dizer, diurna e noturna, com pobres e ricos dividindo o mesmo quadro, assim como o enfoque na indústria automobilística, lugar onde se passa parte da história de Carlos, um dos personagens mais trágicos e angustiados da história do cinema brasileiro. Walmor Chagas está impecável como este homem confuso, que quer ficar em paz, mas sua angústia o faz querer se casar com Luciana (Eva Wilma). A excelente montagem nos leva para diferentes momentos de sua vida e diferentes mulheres que conheceu, como a existencialista Hilda (Ana Esmeralda) e a ambiciosa Ana (Darlene Glória, estreando nas telas). Fiquei me perguntando diversas vezes quais seriam as principais inspirações de Person para seu estilo. Lembra tanto o cinema italiano daquele período, como Antonioni, principalmente, mas também faz lembrar o cinema americano do período do noir, em especial na cena em que Eva Wilma é vista na janela, em contraste, depois do episódio de perturbação do marido. Rever no cinema SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA é uma tarefa essencial para todo cinéfilo que se preze.

HANYO, A EMPREGADA (Hanyeo)

É interessante como certas cinematografias que hoje são muito fortes tiveram um início tão humilde, por assim dizer. É o caso da cinematografia sul-coreana, que só foi começar com alguma força nos anos 1950, mas quase sempre com o predomínio do melodrama. HANYO, A EMPREGADA (1960) é um dos maiores clássicos dos coreanos, com um enredo que mistura horror com melodrama, num conto que é tão moralista quanto transgressor. Na trama, um professor de piano de classe média, casado, com dois filhos e com um outro encomendado na barriga da esposa, se vê numa teia de intriga e chantagem da empregada doméstica, a quem ele engravida. E isso é só o começo de uma trama cheia de surpresas, de exageros, de um interesse em dançar com o grotesco. Não sei se gosto do epílogo, mas imagino que tem a ver com o aspecto moralista da trama. Num filme noir americano dos anos 1940, homens se entregavam a femme fatales sem tanto sofrimento interior. Não é o caso do protagonista dessa história. Aliás, em determinado momento da trama, lembrei-me de O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, com a sujeição da esposa, que no caso aqui também não é exatamente uma santa. O filme apresenta um retrato familiar em forma de pesadelo de forma brilhante. Visto no box Obras-Primas do Terror - Horror Asiático.

A MORTE FEZ UM OVO (La Morte Ha Fatto l’Uovo)

É impressionante como alguns anos são tão marcantes que chegam a imprimir seu próprio espírito nas obras, onde quer que elas sejam produzidas. É muito fácil pegar um filme de 1968 e se deparar com narrativas estranhas, imagens intrigantes, quase como se tivesse sido feito à base de alguma substância química, ou à base da matéria dos sonhos. Dizer que A MORTE FEZ UM OVO (1968) é uma espécie de giallo surrealista destaca mais sua estranheza do que sua história que teria que ter assassinos e mortes para ser considerado giallo. Há neste filme de Questi duas situações, na fuga do cinema mais industrial: primeiro há o fato de que os gialli desse período anterior a O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, do Argento, são bem mais diferentes mesmo, ainda não haviam se cristalizado como gênero; depois, temos o próprio diretor, Questi, que foi um artista que se negava a se entregar a uma linha de produção. Nesse sentido, a própria trama envolvendo uma granja industrial sofisticada de um casal de burgueses traz esse ar anti-sistema. Enquanto via o filme ficava impressionado com o quanto Questi tratava de subverter nossas expectativas. Jean-Louis Trintignant e Gina Lollobrigida encabeçam o elenco como o casal de burgueses. Ele tem um segredo, além de sabermos que tem um caso com a secretária (Ewa Aulin). Há também o medo que sentem dos trabalhadores, que abandonam o emprego revoltados com as condições de trabalho e o pagamento injusto. Por isso, o que vemos é também um filme sobre luta de classes, ainda que não tão direto assim. Gosto muito da cena de Trintignant com Aulin no carro e depois no bosque. Bem cheia de mistério e excitação. Fiquei curioso para ver os outros dois filmes mais comentados de Questi, o western spaghetti DJANGO VEM PARA MATAR (1967) e o terror O PODER DO EXORCISMO (1972). Dizem que há coisas em comum entre os três filmes que vão além do ativismo político e comunista de Questi e suas intenções de fazer obras que fujam do que se espera dos gêneros. No volume 13 da coleção Giallo, há um interessante extra sobre esses três filmes, além de uma entrevista com o cineasta.

quarta-feira, março 18, 2026

BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO (Blue Moon)



O cinema de Richard Linklater é geralmente verborrágico. E muitas vezes a gente adora, mesmo assim. Na verdade, o que a gente ama mesmo são os filmes da trilogia “Before”, mas a filmografia do “Rohmer texano” tem coisas muito interessantes, como sua busca por recortes na vida de personagens históricos. Foi assim com NEWTON BOYS – IRMÃOS FORA-DA-LEI (1998), com EU E ORSON WELLES (2008), e nesse 2025 Linklater fez uma dobradinha, já que lançou NOUVELLE VAGUE, sobre os bastidores de ACOSSADO, de Godard, que acabei não vendo ainda, e este BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO, indicado ao Oscar de ator.

O que me agradou bastante neste filme foi o quanto comecei a me solidarizar com um personagem que a princípio me parecia quase insuportável, um compositor de clássicos do cancioneiro americano, que está na pior, já que seu parceiro de composição está em cartaz com uma peça musical que está dando o que falar, feita com outro letrista. Ele se sente traído, mas também se sente velho, feio, sua baixa estatura mexe com sua autoestima e, em determinado momento, quando seu parceiro começa a falar um pouco de sua obra ele fica bastante incomodado: fala para não dizer nada de seu trabalho artístico, pois é a única coisa que lhe restou.

Ethan Hawke faz esse homem de 47 anos, Lorenz Hart, co-compositor de “Blue Moon” e outros clássicos da música, atualmente interessado numa jovem numa jovem de cerca de 20 anos, vivida por Margaret Qualley. Ao ser questionado sobre suas preferências sexuais, já que tem fama de gostar de rapazes, ele diz que é um apreciador da beleza. E aí não importa o gênero.

Aliás, a conversa de Hart com essa jovem é um dos momentos mais bonitos do filme. Lá estava aquele homem mendigando o amor daquela linda mulher, ouvindo detalhes íntimos sobre o rapaz por quem ela se apaixonou. É uma cena de doer o coração. Destaco também a cena em que ele conversa na escada com seu parceiro Richard Rogers (Andrew Scott), que também enfatiza o momento de tristeza imensa desse homem, que se sente traído, mas que também tem consciência de que muito de seu declínio veio do alcoolismo.

Do ponto de vista formal, não há tantas qualidades assim em BLUE MOON. Os movimentos de câmera são sutis o suficiente para ficarmos interessados só nas conversas e na alma de Hart. E Hawke faz um belo papel. Um dos melhores de sua carreira de ator. Além do mais, ele deve ter gostado, já que é um entusiasta de boa música.

+ TRÊS FILMES

BUGONIA

Emma Stone em sua quarta parceria com Yorgos Lanthimos segue fazendo sucesso, por mais que não repita a mesma excelência de POBRES CRIATURAS (2023). Estaria mais para um episódio estendido de TIPOS DE GENTILEZA (2024), seu filme em segmentos. Isso porque passa a impressão às vezes que BUGONIA (2025) se estende mais do que deveria em sua duração, mas pode ser só uma impressão mesmo, já que considero absolutamente brilhante o jogo de nervos que existe entre os personagens de Stone e Jesse Plemons, um dos grandes atores de sua geração. Aqui ele interpreta um sujeito que tem a convicção que uma empresária (Stone) é uma alienígena com a intenção de dominar o planeta Terra. Junto com seu fiel escudeiro, um sujeito com pouca capacidade de pensar vivido por Aidan Delbis, os dois conseguem capturar a mulher, raspando sua cabeça e passando-lhe um creme no corpo. A gente vê o personagem de Plemons e imediatamente pensa num desses solteirões revoltados que se alimentam de teorias da conspiração, muitos deles associados à extrema direita. Lanthimos, porém, tem um senso de humor todo próprio e sabe usá-lo mesmo quando sua narrativa intensifica a tensão e o desconforto, como na cena da tortura. Gosto do plot twist, até por não se levar tão a sério. O domínio de direção, narrativa e de atuações de Lanthimos segue sendo admirável.

FRANKENSTEIN

Os filmes de Guillermo del Toro são sempre uma surpresa pra mim, no que se refere ao meu amor ou desamor por eles. Na verdade, equilibrando a balança há mais filmes de que pouco gosto do que filmes que amo. Amo O LABIRINTO DO FAUNO (2006), A COLINA ESCARLATE (2015) e um lá do início de sua carreira, CRONOS (1992). Há aqueles que considero aborrecidos e aqueles que são simpáticos, e que até são exemplares de sucesso, como A FORMA DA ÁGUA (2017), mas que não me dizem nada. Gosto de seu amor pelos monstros, acho louvável ter alguém dentro de Hollywood que tenha conseguido financiamento para seus projetos mais pessoais, como é o caso de FRANKENSTEIN (2025), que não se propõe a ser uma adaptação fiel ao romance de Mary Shelley, e vejo isso como algo bom. Tanto que fiquei feliz quando vi que seu monstro é diferente, é mais humanizado e mais trágico e existencialista. Em alguns momentos me lembrei dos quadrinhos do Surfista Prateado da época do Stan Lee e do John Buscema. Fiquei até me perguntando se teria sido uma inspiração. Por outro lado, como bom apreciador do cientista mais frio e diabólico dos Frankensteins da Hammer, fiquei um tanto desapontado com esse Victor Frankenstein do Oscar Isaac. Não que o ator esteja ruim: ele segue as orientações e a criação de Del Toro. De todo modo, como em todo filme do realizador mexicano, há uma fotografia esplêndida e uma direção de artista lindíssima. Aqui o uso do verde e do vermelho nas vestimentas e nos cenários está de dar gosto. Pena que a história se arraste de forma tediosa, apesar da boa presença de cena de Mia Goth, sempre que aparece. Achei difícil comprar o amor dela pela criatura; mas talvez esse seja o ponto fraco do realizador, por mais que alguém vá discordar lembrando justamente do oscarizado A FORMA DA ÁGUA. Que foi seu último filme com roteiro original: depois desse, só adaptações de clássicos da literatura, uma espécie de remake (O BECO DO PESADELO, 2021). Não que isso limite um autor. Mas a verdade é que de nada adiantam boas ideias se o resultado carece de força.

MARTY SUPREME

Ainda não aprendi a relaxar com os filmes dos Safdy. O fim das sessões de BOM COMPORTAMENTO (2017) e JOIAS BRUTAS (2019) me deixaram um bocado desnorteado e até com dor de cabeça. Com a “separação” dos irmãos em diretores-solo, percebe-se que vem de Josh a ansiedade, que se repete de maneira mais ambiciosa em MARTY SUPREME (2025), um filme maior, mais longo e com um ator também mais interessado na grandiloquência, o jovem Timothée Chalamet, aqui vivendo um obcecado jogador de ping pong, que quer provar ser não apenas o melhor de seu país, mas o melhor do mundo. Mas menos importa a história e mais o estilo com que Josh Safdy opta por usar, seja pela câmera na mão e nervosa, pelos personagens histéricos, ou pela fotografia (em película) escura e com menos nitidez do iraniano Darius Khondji. Fiquei feliz quando vi o nome de Abel Ferrara nos créditos (como ator) e não me decepcionei, já que sua presença ocasiona algumas das melhores e mais intensas cenas, como a cena da banheira ou a do tiroteio. Ter Ferrara como ator é como ter um padrinho de primeira. O personagem de Chalamet não é exatamente um herói para ser gostado. Ele é naturalmente egoista, mas tem, sim, suas qualidades, como a obsessão por lutar por aquilo que deseja, mesmo que para isso tenha que roubar ou se humilhar. Gosto das cenas com Gwyneth Paltrow, mas também acho que houve uma ótima química com a jovem Odessa A'zion, que aparece numa das primeiras cenas como um interesse amoroso/sexual com Marty, e puxa os créditos com “Forever Young”, do Alphaville. Aliás, é interessante o filme se passar nos anos 1950 e trazer canções dos anos 1980. Isso traz um estranho sentimento de deslocamento.

segunda-feira, março 16, 2026

OSCAR 2026



Na melhor das hipóteses, pensando agora com meus botões (embora não esteja usando nada que tenha botões no momento), podemos dizer que o Oscar 2026 foi uma celebração de certo passado de Hollywood. Mais especificamente os anos 1970. Senão vejamos: o grande vencedor da noite foi UMA BATALHA APÓS A OUTRA, de Paul Thomas Anderson, filme que se passa nessa década e que deve muito ao cinema daquele período. Até o nosso O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho, também destaca TUBARÃO e aquele momento mágico para o cinema americano, embora muito difícil politicamente para os países da América Latina.

Quando assistimos ao In Memoriam, o quadro tradicional que homenageia os atores, atrizes, diretores e outros artistas e técnicos relacionados ao cinema (principalmente o americano), notamos que os dois astros mais celebrados foram Robert Redford, que até ganha uma canção na voz de Barbra Streisend, com quem contracenou em NOSSO AMOR DE ONTEM, de Sydney Pollack; Diane Keaton, que ganha uma fala de destaque de Rachel McAdams, e também Robert Duvall, outro ator importantíssimo, curiosamente colega de elenco de Keaton em O PODEROSO CHEFÃO.

Porém, voltemos para o presente. Um duro presente em que tivemos uma cerimônia tão morna quanto acovardada. Os Estados Unidos atacando o Irã, ajudando no genocídio da Palestina, invadindo a Venezuela para roubar petróleo e fazendo do próprio país um inferno com sua polícia anti-imigração e o máximo que se vê são piadas muito sutis por parte de Conan O’Brien e um “não à guerra” e “Palestina Livre”, por parte de Javier Bardem. Foi ele quem anunciou, ao lado de Priyanka Chopra, o prêmio mais aguardado para os brasileiros, o de melhor filme internacional, o que mais o Brasil teria chance de ganhar, repetindo o feito do ano passado, já que na categoria de ator estava concorridíssimo – até Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet saíram de mãos abanando, vencendo Michael B. Jordan, por PECADORES.

A noite começou até bem animada, com o prêmio de atriz coadjuvante para Amy Madigan, por A HORA DO MAL, que poderia ter sido um filme indicado nas categorias principais, se a academia não tivesse tanto preconceito com filme de terror. Sabemos que PECADORES conseguiu essa vaga tão difícil, mas aconteceu porque metade do filme é sobre a questão da apropriação cultural e do racismo sistêmico nos Estados Unidos. Então, havia ali um tema considerado de prestígio.

Sobre a derrota de O AGENTE SECRETO, já é uma alegria que o filme tenha ganhado tal visibilidade e tenha chegado até entre os dez da categoria principal, como aconteceu no ano passado também com AINDA ESTOU AQUI. Ou seja, aos poucos o cinema brasileiro vai ganhando uma penetração maior num território que costuma ser muito resistente ao cinema que não é produzido nem nos Estados Unidos nem no Reino Unido. Havia no passado alguns casos de indicações de filmes de outra língua que não o inglês às categorias principais, mas era um fura-bolha ocasional. Neste ano, no entanto, outro conseguiu também furar a bolha, VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier, que eu considero um sub-Bergman bem desavergonhado, mas que acabou agradando muitos espectadores. Além do mais, ter uma atriz de Hollywood no elenco (Elle Fanning) é meio que marmelada, hein.

No mais, deixo aqui meu beijo para meu grande amor Giselle. Foi a primeira vez que assistimos juntos a cerimônia. Ela estava preocupada com a qualificação de mestrado (que foi um sucesso, a próposito), e não viu com tanta atenção assim, mas estava lá do meu lado. Também contei com gente muito legal nos grupos de bolão, que não deixaram o sono chegar. O fato de a premiação ter começado bem mais cedo desta vez, aliás, foi um diferencial e tanto. Terminou antes de meia-noite, fato inédito até então.



Os Premiados

Melhor Filme – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Direção – Paul Thomas Anderson (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Ator – Michael B. Jordan (PECADORES)
Atriz – Jessie Buckley (HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET)
Ator Coadjuvante – Sean Penn (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Atriz Coadjuvante – Amy Madigan (A HORA DO MAL)
Roteiro Original – PECADORES
Roteiro Adaptado – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Fotografia – PECADORES
Montagem – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Trilha Sonora Original – PECADORES
Canção Original – “Golden” (GUERREIRAS DO K-POP)
Som – F1 – O FILME
Efeitos Visuais – AVATAR – FOGO E CINZAS
Direção de arte – FRANKENSTEIN
Figurino – FRANKENSTEIN
Maquiagem e cabelos – FRANKENSTEIN
Seleção de elenco – UMA BATALHA APÓS A OUTRA 
Filme Internacional – VALOR SENTIMENTAL (Noruega)
Longa de Animação – GUERREIRAS DO K-POP
Curta de Animação – THE GIRL WHO CRIED PEARLS
Curta-metragem (live action) – OS CANTORES e TWO PEOPLE EXCHANGING SALIVA (empate)
Documentário – UM ZÉ NINGUÉM CONTRA PUTIN
Curta Documentário – QUARTOS VAZIOS



domingo, fevereiro 22, 2026

SÉTIMO CÉU (7th Heaven)



Logo que SÉTIMO CÉU (1927) começa fica muito claro o drama de seus dois protagonistas, bem como suas principais qualidades. Diane (Janet Gaynor, no mesmo ano que fez AURORA, de Murnau) é uma jovem que sofre agressões domésticas de sua irmã alcoólatra. As duas vivem numa casa muito humilde, numa espécie de favela de Paris. Já Chico (Charles Farrell) é um homem que ganha a vida limpando o esgoto da cidade. No meio da água fétida dos subterrâneos da cidade, seu principal desejo é subir ao posto de limpador de rua. Confesso que as lágrimas já começaram a cair neste admirador de melodramas logo nesses primeiros momentos do filme. E mal sabia eu que era só o começo.

Vale lembrar que tanto Gaynor quanto Farrell trabalharam juntos com Frank Borzage em outros dois filmes, O ANJO DAS RUAS (1928) e o maravilhoso ESTRELA DITOSA (1929). Tanto SÉTIMO CÉU quanto ESTRELA DITOSA" estabelecem o melodrama, ou pelo menos o melodrama de autoria de Borzage, como o gênero do milagre. Solidarizamo-nos tanto com as crises e as aflições de seus heróis, quanto festejamos suas vitórias, sendo que algumas delas se constituem milagres, uma espécie de compensação para a ficção diante da dureza da vida.

O dia que Chico traz o vestido de noiva para Diane é justamente o dia em que todos os homens da França são convocados para a guerra. Chico, sentindo que ficará longe e poderá até morrer naquele conflito, finalmente tem a coragem de dizer "eu te amo" para Diane, que chora emocionada, dizendo que nunca sentiu tanta alegria em sua vida, que nunca se acostumou a ser feliz. Eu fico completamente devastado com essa cena. E depois disso, o filme vai ganhando ainda mais força, pois é nos obstáculos que esse tipo de história se fortalece, mesmo que vá nos entregar um final infeliz ou trágico, o que pode muito bem acontecer. Por mais que o final seja exatamente totalmente feliz, há algo que nos faz festejar, uma espécie de milagre que o deus Borzage, um deus bondoso, é capaz de fazer, como se quisesse provar que a dura realidade pudesse ser atenuada como num passe de mágica, como na ressurreição de um homem.

Talvez SÉTIMO CÉU não seja tão poderoso quanto ESTRELA DITOSA, mas é certamente um exemplar maravilhoso desse cinema do sentimento exacerbado, bem como do cinema em que o mundo espiritual invade o mundo físico para a alegria de todos os envolvidos, inclusive nós, espectadores e torcedores.

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A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab)

A academia tem dado visibilidade a Kaouther Ben Hania. Já é o terceiro filme da diretora tunisiana que ganha espaço no O Oscar. Os outros dois, para quem não lembra, foram O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE (2020) e o tocante AS 4 FILHAS DE OLFA (2023), talvez ainda seu melhor trabalho, sabendo borrar muito bem as fronteiras entre ficção e documentário. Seu novo filme, A VOZ DE HIND RAJAB (2025) talvez tenha conseguido espaço nas concorridíssimas vagas de filme internacional pela importância temática, por ser demasiado urgente o cinema ser também esse agente de denúncia, de revolta e, por que não?, de mudança na política mundial, ao trazer mais uma obra sobre a violência, a brutalidade, os crimes, o absurdo das ações do estado de Israel ao dizimar o povo palestino, e com ajuda dos Estados Unidos. A academia de Hollywood trazer mais uma vez um filme sobre esse momento de terror e dor não deixa de ser um mérito, por mais que tenhamos um filme cuja estrutura já havia sido vista antes, mas há aqui um diferencial: o registro da voz real da menina Hind Hajab. A partir desses registros, busca-se contar a história do que aconteceu no escritório do Crescente Vermelho no dia que receberam a ligação de uma garotinha aterrorizada por estar sozinha dentro de um carro, ao lado dos cadáveres de seus familiares. A maldade humana não tem limite, pelo visto.

A VIDA DE CHUCK (The Life of Chuck)

Sou fã da Mike Flanagan, mas suspeito que suas parcerias com Stephen King acabam rendendo produtos um tanto tortos. Não gosto nada de DOUTOR SONO (2019), e justamente por isso me surpreendi positivamente com A VIDA DE CHUCK (2024), tanto por suas ousadias narrativas (que vêm do conto de King, imagino), quanto pelo caráter misterioso e sentimental, já caraterístico de seus filmes e séries de terror. Tanto que o que reclamam dele, de fazer menos terror e mais melodrama, eu vejo como algo positivo, e que poderia ter rendido mais neste filme estrelado por Tom Hiddleston. O filme acaba adotando um clima mais épico do que lírico, e quando achamos que vai predominar um tom lovecraftiano, algo barra essa expectativa, o que vejo como algo positivo. Dos três atos, gosto mais do ato III, que é o primeiro a ser contado e que traz um tom meio apocalíptico, só devidamente explicado nos atos seguintes. Gostei de rever atores usualmente presentes em outras obras de Flanagan, como Carl Lumbly, Mark Hammil, Violet McGraw, Kate Siegel e Samantha Sloane.

ENTRE DOIS MUNDOS (Ouistreham)

Como não estou muito acostumado a ver filmes franceses tratando com tanta frequência de temas trabalhistas, acabei vendo este ENTRE DOIS MUNDOS (2021), de Emmanuel Carrère, e me lembrando do cinema de Ken Loach. E digo isso como um elogio. Desde o começo, somos apresentados a personagens numa agência de empregos que os encaminha (a maioria, mulheres) para trabalhos de serviços gerais. É assim que se apresenta uma raivosa (com razão) Hèlene Lambert, que entra em cena quase no mesmo momento que a protagonista, vivida por Juliette Binoche, uma mulher que se diferencia das demais (e dos demais) por ser na verdade uma escritora em busca de vivenciar a experiência de faxineira e outros serviços de limpeza que pagam muito mal e exigem muito bem. Em certo sentido, ela é como um policial infiltrado, que transita entre a amizade que sente ser verdadeira e a atuação para esconder quem de fato é. Acredito que se o filme não tivesse essa trama, se se concentrasse apenas no drama dessas pessoas vivendo trabalhos precarizados por hora trabalhada para sobreviver, talvez até fosse tão ou mais interessante. As melhores coisas do filme, como não poderia deixar de ser, acontecem fora do horário de expediente, como a conversa entre essas pessoas, seus sonhos, suas frustrações, suas dificuldades e suas dores, inclusive físicas, proveniente do trabalho. Gosto das cenas nas balsas e em especial uma com as três amigas, gosto do modo como o momento do trabalho dessas pessoas já se inicia quando o sol ainda não nasceu. Talvez falte um pouco mais de denúncia mais incisiva, mas também entendo o quanto isso também pode ser delicado e passível de se pesar a mão. Juliette Binoche mais uma vez está um encanto.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

VÉNUS ET FLEUR



“O escritor é o sofredor exemplar porque encontrou tanto o nível mais profundo do sofrimento quanto um meio profissional de sublimar (no sentido literal, não no freudiano) seu sofrimento. Como homem, sofre; como escritor, transforma seu sofrimento em arte. O escritor é o homem que descobre o uso do sofrimento na economia da arte – assim como os santos descobriam a utilidade e a necessidade do sofrimento na economia da salvação.”
Susan Sontag

Hoje não estava com muita disposição para escrever. Falar (no caso, escrever) sobre um filme requer muitas vezes algum tipo de necessidade (quando não trabalhamos exatamente com um tipo de disciplina ou uma obrigação contratual ou profissional). Como não ganho dinheiro escrevendo para o blog e meio que me acostumei com os longos períodos sem escrever para este espaço (o que acho uma coisa triste de se dizer), não me forço tanto assim, não me culpo mais ou fico aborrecido. Mas gosto quando surge algo que faz com que eu sinta vontade de escrever. E às vezes esse “algo” vem não necessariamente do filme em questão.

No caso, escolhi VÉNUS ET FLEUR (2004), de Emmanuel Mouret, menos pelo filme em si, embora eu já tivesse uma intenção de falar sobre ele em específico, até por ter feito isso com quase todos os trabalhos do realizador que vi – só não fiz com TRÊS AMIGAS (2024), seu mais recente longa-metragem, que mais me aborreceu do que me encantou, o que me leva a pensar na possibilidade de revê-lo, pois vivemos às vezes dias ruins, inapropriados para certas apreciações artísticas.

Pois bem. O que me deu vontade de escrever foi a leitura de um artigo escrito por Susan Sontag. Estou lendo Contra a Interpretação e Outros Ensaios (Companhia das Letras) e estou absolutamente apaixonado pela escrita dela. O texto que me deixou mais impressionado até agora (ainda estou no começo do livro) foi “O Artista como Sofredor Exemplar”, em que ela trata de como as sociedades pós-cristãs veem o amor, e trata especialmente da vida e da obra de um autor que eu até então desconhecia, o italiano Cesare Pavese (1908-1950). Sontag entrou em contato com os romances de Pavese, escritos nos anos 1940, mas o que mais a deixou impressionada foram seus diários, que mostram não só o artista, seu trabalho de prosa e poesia pensados para publicação, mas principalmente o homem desnudado, o Cesare sem as máscaras presentes em supostos heróis de seus romances, heróis que poderiam talvez ter personalidades parecidas com a sua.

Nos diários os temas do suicídio e da morte estão muito presentes – ele se mataria em 1950 –, assim como são presentes seu profundo desapontamento com sua imensa dificuldade de ter sucesso na vida amorosa, sua inadequação sexual. Ele comentava sobre o caráter predador e explorador das mulheres (era dessa maneira que ele as via), confessava sua incapacidade de proporcionar prazer sexual. As palavras “mulheres” e “morte” costumavam aparecer juntas em seus escritos. É dele a frase “é possível não pensar em mulheres, assim como não se pensa na morte”. Outro trecho forte que ele escreveu: “Você não se mata por amor a uma mulher, mas porque o amor – qualquer amor – o revela em sua nudez, sua miséria, sua vulnerabilidade, sua nulidade...”

Desse modo, acabei achando esse caráter trágico da existência e dos pensamentos e sentimentos de Pavese extremamente interessantes. Como se ele fosse uma espécie de romântico tardio. No mais, Pavese redescobre, com Stendhal, “que o amor é, em essência, uma ficção; não que o amor às vezes cometa erros, mas sim que ele é, essencialmente, um erro.” E daí surge uma teoria do amor, por mais que a citação de um romance como O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, ou o filme OS AMANTES, de Louis Malle, para pegar os dois exemplos ditos por Sontag que ilustram finais felizes ou algo parecido, essa teoria de que o amor é sempre fadado ao fracasso. Mas o próprio Pavese considerava-o necessário. Dizia ele: “A vida é dor e o prazer do amor é um anestésico” ou “O amor é a mais barata das religiões”.

Sontag lembra que essa visão do amor que temos hoje está associada ao cristianismo, que essa visão não existia entre os gregos e os hebreus antigos e os povos orientais, e que o cristianismo é, desde sua fundação (com Paulo) a religião romântica. Sendo que o culto do amor seria um culto do sofrimento. E isso não havia dois mil anos atrás, o que corrobora com minha ideia de que a era de Peixes (e eu entro aqui com a astrologia) fez todo esse estrago nesses mais de dois mil anos. Mas também sentir é algo que é desejado. Há um outro pensador citado por Sontag, Denis de Rougemont, que menciona a preocupação da perda desse sentimento por cada um de nós, como se quiséssemos ser protagonistas de nossos próprios romances incríveis de nossas vidas reais.

Enfim, fiquei de fato fascinado com o texto saboroso de 12 páginas de Sontag, mas posso fazer um link agora com o filme de Mouret, ainda que eu saiba que sobrará pouco espaço para o trabalho do realizador (e por isso eu peço perdão a quem entrou aqui por acaso para ler só sobre o filme). Mouret nos apresenta a duas pessoas que veem a vida de maneira totalmente diferentes, ou pelo menos agem de maneira diferente, o que não quer dizer que a melancolia não possa surgir eventualmente em algum momento na personagem mais alegre, tanto quanto parece ser uma constante na personagem introspectiva.

VÉNUS ET FLEUR nos apresenta a duas jovens de personalidades distintas: enquanto Vénus é muito extrovertida e muito sedenta por viver, Fleur é muito fechada, tímida, vive num mundo mais interior de livros (ela aparece lendo O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa), e também de melancolia, sentindo-se como se não existisse para os outros (ela verbaliza isso em determinado momento em conversa com Vénus). Ela nem mesmo havia se dado ainda a chance de amar alguém.

Fleur é uma jovem russa que, depois de uma desilusão amorosa em Paris, passa a procurar enlouquecidamente por homens, junto com a recém-amiga Fleur. Só que Fleur, claro, quer fugir de certas roubadas, e morre de vergonha do que Vénus faz na cara dura, como entrar dentro do carro de um estranho. Já Fleur, é tão introspectiva que seus ombros estão quase sempre arqueados, como se ela estivesse sempre tensa. Seus seios mais volumosos acabam se tornando não necessariamente um elemento de vantagem para a moça, mas algo que a torna mais parecida com um caracol, por mais bela que seja. Ela é mais bonita que Vénus, inclusive, mas o próprio filme demora um pouco a mostrá-la dessa maneira, pois o sorriso aparece mais em Vénus, e quase nunca, ou de forma acanhada apenas, em Fleur.

Daí a força que o filme ganha em sua conclusão, quando Fleur começa a ser percebida pelos rapazes, quando sorri, se sente plena, e também quando começamos a ver uma maior complexidade também na figura de Vénus, ao se ver rejeitada e a encarar isso como uma espécie de quase negação, ou de uma “bola pra frente”. Há uma química interessante entre as duas personagens, a amizade que surge entre elas, num tipo de dependência e troca mútua. O erotismo é muito sutil e elegante e achei bem bonita a última cena, com as opções do diretor no que deseja mostrar em close-ups, muito coerente com o ponto de vista de Fleur, principalmente.

Diria que as duas moças, Vénus e Fleur, teriam um pouco da personalidade melancólica de Pavese, mas muito pouco, na verdade. Mouret, embora mais à frente, em sua carreira, tenha feito melodramas e filmes mais carregados, costuma optar em geral pela leveza, o que não quer dizer que a dor não seja sentida, que ela não esteja lá presente, mesmo nas comédias. Mouret, nesse momento de sua carreira, ainda era uma espécie de herdeiro do cinema de Éric Rohmer. Depois disso, evoluiu e hoje caminha com as próprias pernas, com uma personalidade muito própria.

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MEMÓRIAS DE UM CARACOL (Memoir of a Snail)

Do mesmo diretor de MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (2009), eu não esperava uma história tão triste, tão no estilo "desgraça pouca é bobagem" neste MEMÓRIAS DE UM CARACOL (2024), de Adam Elliot. A protagonista, Grace, começa a história criancinha, e depois chega à idade adulta, ainda sofrendo muito. Se na infância e na adolescência era o bullying, depois outras situações não muito agradáveis, como a morte de pessoas queridas, a solidão, a depressão, a exploração sofrida por um personagem masculino que seria supostamente o homem que a amava (foi a cena que mais me doeu, essa). E o mais curioso é que Grace nem era a mais depressiva da família: ela via a vida como um copo com água na metade; diferente do irmão, que via como um copo vazio, mas esse mesmo irmão era seu herói, aquele que a protegia e estava sempre do seu lado. Gosto das cenas em que os dois irmãos, junto ao pai paralítico, estão lendo clássicos da literatura, e o quanto isso muda quando ela é levada para outro lar. Eu dei os tradicionais cochilos, como acontece com frequência com animações, mas desta vez culpo mais o horário (17h) e principalmente minha crise alérgica (de novo!).

JUNTOS (Together)

O body horror está de volta e está na moda. Deve ter atingido a mais alta escala de popularidade com A SUBSTÂNCIA, mas um certo TITANE já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes. O próprio mestre do subgênero também o fez com CRIMES OF THE FUTURE recentemente. E o grande barato do cinema de horror é o quanto ele pode usar temas políticos, sociais ou de relacionamento, como é o caso de JUNTOS (2025), de Michael Shanks, para revirar tudo do avesso (falando em revirar do avesso, difícil não lembrar de determinada cena de outro exemplar maravilhoso do gênero, A MOSCA). Neste filme que está dando o que falar, e que causa alguns momentos de aflição, Dave Franco e Alison Brie são um casal que ainda não se casou de fato, mas se mudou para uma casa no campo. Acontece que tanto ele quanto ela não estão muito bem. Ele, especialmente, nota-se estar muito incomodado com o relacionamento, ao mesmo tempo que não consegue se ver longe da namorada. As coisas começam a ficar sérias (ou divertidas) quando, depois de estarem numa caverna sinistra, os corpos dos dois passam a se comportar como se fossem se grudar. E de fato se grudam, e há algumas cenas muito boas, como a do sexo, a do cabelo e a do braço. Gosto menos do final do que do início e do desenvolvimento, mas de certa forma ele encerra bem o filme. Não de maneira tão gloriosa quanto poderia, mas o filme em nenhum momento se apresenta de fato genial. Seu principal mérito é trazer uma nova visão para a questão da dependência emocional.

A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (A Big Bold Beautiful Journey)

Talvez tenha me incomodado no filme a falta de uma química maior entre o casal vivido por Colin Farrell e Margot Robbie, mas o diretor Kogonada (COLUMBUS, 2017) mais uma vez dá destaque à direção de arte (aqui, remetendo aos musicais clássicos de Hollywood) e à melancolia, o que me atrai. Farrell, nesse sentido, está melhor do que sua parceira. Parece trazer consigo ainda um quê da tragédia dos personagens de OS BANSHEES DE INISHERIN e de O LAGOSTA. O espírito depressivo e derrotista de David, seu personagem no filme, se contrapõe em parte ao tom mais cínico de Sarah (Robbie), uma mulher bonita demais para estar sozinha num casamento de um amigo em comum com David. Ambos trazem traumas, medos, arrependimentos, nascidos de suas experiências no passado. Ele guarda lembranças de uma rejeição nos tempos da escola e que repercutiu na vida adulta; ela guarda o remorso de não estar presente quando sua mãe faleceu. Por isso a ideia de lar para cada um deles é diferente: enquanto ele foge para um futuro utópico e inexistente como pai de família, ela foge para a infância, para os braços da mãe. É um dos exemplares mais claros de filme-terapia, embora não veja como obra tão bem-sucedida no que tange ao tocar o espectador (se bem que só posso falar por mim). Ainda assim, é fácil ficar encantado com as cores muitas vezes artificiais de A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (2025), bem como é fácil também criar alguma identificação com um ou outro personagem, nessa jornada que, para que chegue a um fim satisfatório ou feliz, é preciso enfrentar os demônios do passado, exorcizar a culpa e começar a ter um posicionamento mais decisivo diante da vida. Uns vinte minutos a menos no corte final teriam ajudado? Não sei. Mas talvez o que tenha me incomodado mais tenha sido a opção pela fantasia como meio de ilustrar as angústias dos protagonistas. E quase sempre eu tenho dificuldade de me apegar à fantasia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (La Casa dalle Finestre Che Ridono)



Há 25 anos eu já ouvia falar (muito bem) deste filme de Pupi Avati, através da saudosa lista de discussão Cannibal Holocaust. E, apesar de geralmente ser classificado como um giallo (embora não um giallo tão tradicional), não havia sido lançado pela Versátil em sua linda coleção amarelinha até então. Eis que foi, mais recentemente, no volume 15. Essa demora se deu principalmente à falta de uma versão remasterizada do filme.

E que bom que agora existe, pois a fotografia de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (1976) é uma das mais lindas do gênero, a cargo de Pasquale Rachini, que passaria a ser colaborador habitual de Avati a partir de então. Também belíssima é a trilha sonora de Amedeo Tommasi (A LENDA DO PIANISTA DO MAR, SLEEPLESS), que tem um tema romântico do protagonista com uma jovem professora que ele conhece na pequena cidade rural que é muito tocante, chegando a, ao mesmo tempo, contrastar e completar o restante da música original, centrada mais no mistério e no horror. Ah, e falando em coisas lindas, impressionante a beleza de Francesca Marciano, que, ainda que tenha trabalhado com Avati novamente em seu trabalho seguinte, optou por seguir o caminho de roteirista, tendo feito o roteiro de filmes famosos, como EU E VOCÊ, de Bernardo Bertolucci, e O MELHOR ESTÁ POR VIR, de Nanni Moretti.

A trama de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES nos pega mais pela atmosfera de mistério e pela perfeita condução de Avati do que pela história em si, embora ela também seja muito boa, muito ousada e que faz com que fiquemos tão curiosos para descobrir os segredos daquela cidade, daquele pintor, daquela família, que até entendemos ele correr tantos riscos. O final é surpreendente e vai fazer muita gente lembrar de certo slasher oitentista.

Na trama, Lino Capolicchio é um restaurador de afrescos que é contratado para restaurar uma pintura muito estranha de uma cidade do interior da Itália. A figura mostrada na pintura é uma espécie de variação da imagem de São Sebastião, trocando as flechas por facas e compondo um visual ainda mais perturbador com outras imagens no quadro. Ao chegar ao hotel, o rapaz, de nome Stefano, logo recebe avisos anônimos por telefone que precisa sair da cidade o mais rápido possível, se não ia se arrepender.

O filme de Avati tem um interesse genuíno na trama, mas acredito que é um tipo de interesse não tão próximo assim dos tradicionais whodunits. Ou seja, o que mais conta é o que vem sendo trazido aos poucos para o quebra-cabeças, como a gravação do pintor morto e desaparecido, além de declarações de alguns moradores da cidade que ousam falar sobre o assunto, que parece ser um tabu. O tal pintor se especializava em pintar pessoas no momento de suas mortes. Havia esse encanto, essa obsessão pela expressão do moribundo.

A presença de Francesca Marciano, com uma personagem meiga e gentil, em determinado momento da história é essencial para que pensemos em algo ou alguém que é ótimo o bastante para que nos preocupemos, diante daquele cenário de mortes misteriosas e casas mórbidas. Gosto do final, apesar da estranheza que carrega, ou talvez por causa disso, mas o filme vale muito mais do que o final. É como uma cebola que vamos descascando e saboreando lentamente. Uma cebola doce, é bom dizer.

Quanto a Avati, cineasta prolífico e que conheço tão pouco ou quase nada, achei interessante o comentário que ele dá em seu depoimento presente no box da Versátil: ele conta que não assiste filmes de outros diretores e não procura se atualizar sobre o que está sendo feito. E por isso mesmo pode até estar fazendo algum filme com uma história já feita antes. Nesse caso, talvez seja o caso de cineasta que mais se abastecesse espiritualmente com o zeitgeist do que com referências cinematográficas, embora ele tenha citado um par de filmes, sendo um deles, O VAMPIRO, de Carl Th. Dreyer. O segundo, eu me esqueci.

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DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (Dèmoni)

Talvez mais conhecido como o filho do genial Mario Bava, Lamberto Bava não alcançou nem metade da estatura do pai, o que também pode se dever ao fato de ele já ter iniciado sua carreira na última década em que o cinema de horror italiano estava em sua glória plena, os anos 1980. Eu, inclusive, até prefiro MACABRO (1980) a este muito mais celebrado DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (1985), que virou um clássico, principalmente por seu sucesso nas vídeolocadoras. Por isso mesmo, é um luxo poder ver o filme não numa cópia surrada em VHS ou num DVD comum, mas numa gloriosa cópia em BluRay, a ótima e caprichada edição lançada pela Obras-Primas do Cinema. Ver DEMONS é também entrar numa espécie de cápsula do tempo, tanto pelo gosto pelo splatter mais raiz típico do horror oitentista, quanto pela trilha-sonora de Claudio Simonetti, acrescida de canções de Mötley Crüe, Scorpions, Billy Idol e outros, que adicionam o hard rock e o heavy metal, gêneros associados ao horror, aos sintetizadores da trilha original, e que já estava em voga nos gialli de Dario Argento e de outros. Aliás, Argento foi produtor de DEMONS, e dizem que foi um produtor bastante presente durante as filmagens. Ou seja, deve ter dedo dele no resultado criativo. Na trama, um grupo de pessoas, a maioria jovens, entra num cinema da Alemanha para assistir a um filme misterioso. Enquanto isso, a maldição do filme dentro do filme começa a repercutir também nessa sala de cinema: uma das moças havia experimentado uma máscara que furou seu rosto (clara homenagem ao clássico A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Bava), assim como também fura o rosto do personagem do filme, que se transforma num demônio. Em determinado momento, o filme fica parecendo mais uma aventura de matinê, com as pessoas correndo dos monstros, do que do horror. O que não quer dizer que isso seja ruim. Apenas deixou de ser tão atraente pra mim. Ainda assim, é uma alegria ver DEMONS, pelo que traz de novo e criativo.

ALL THE COLORS OF GIALLO

O documentário ALL THE COLORS OF GIALLO (2019), de Federico Caddeo, pode não trazer muitas novidades para quem já conhece os principais filmes do gênero, mas ainda assim é uma delícia de ver. O formato escolhido é de certa forma óbvio, mas interessante: primeiro fala do giallo como literatura, para depois falar dos krimis, produzidos na Alemanha, da “invenção” do giallo por Mario Bava com seus principais filmes, e depois o momento em que o subgênero ganha filhotes, a partir, principalmente, de O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, de Dario Argento. Em seguida, há um bom momento dedicado a Lucio Fulci, e depois aos cineastas menores, mas essenciais para a manutenção do estilo por mais de uma década. Dos meus gialli preferidos, senti falta de uma menção a O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano. Em compensação, há situações de trabalhos importantes de Sergio Martino, Umberto Lenzi, Luciano Ercoli, Aldo Lado, Duccio Tessari, entre outros. Além dos cineastas entrevistados, é bom ver atores e atrizes repensando suas experiências. Sei que terminei o doc com um gostinho de quero-mais e uma vontade enorme de ver um monte de giallo. Até já reservei dois boxes da minha querida coleção amarelinha aqui. 

VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (Valerie a Týden Divů)

Há anos sei o quanto VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (1970) é um filme cultuado, mas sempre adiava sua apreciação por algum motivo. Acho que me afastava um pouco o fato de ser um filme narrado do ponto de vista de uma criança e isso às vezes, por alguma razão que não sei bem explicar, me dá um pouco de sono - posso citar vários casos. Outro motivo talvez seja o fato de o classificarem mais como uma fantasia do que como terror. Na verdade, as duas informações são parcialmente corretas: a menina na verdade está numa fase de descoberta sexual aos 13 anos de idade e acaba passando tanto por diversos tipos de violência quanto por um sentimento de paixão romântica; e, sim: considero o filme mais uma fantasia do que terror, mas muitos códigos de terror estão lá, principalmente o fato de contar uma história de vampiros. Gostaria de ter me envolvido mais com a narrativa onírica e surreal do filme, mas isso não aconteceu, mesmo com toda a beleza visual – a cópia presente no box Obras-Primas do Cinema – Horror Internacional está linda. O diretor Jaromil Jireš costuma ser associado à nouvelle vague tcheca, um movimento interessante, que infelizmente conheço muito pouco.