Depois da obra-prima O BEIJO AMARGO (1964), Samuel Fuller amargou dificuldades em filmar nos Estados Unidos. E este TUBARÃO (1969) até parece um filme feito para a televisão, com a utilização muito maior de close-ups (não sei se isso veio da influência dos westerns de Sergio Leone). Sentimos um sabor de sessão da tarde preguiçosa, o que não é de todo ruim, mas há uma distância imensa entre este antecessor do TUBARÃO do Spielberg e as obras maiores anteriores de Fuller, nos anos 1950-60. Há um roteiro meio desleixado e uma montagem meio estranha. O próprio Fuller se desentendeu com os produtores e abandonou as filmagens em determinado momento e o mexicano Rafael Portillo assumiu até o fim, embora não tenha sido creditado.
Filmado no México, mas ambientado no Sudão, no norte da África, a trama acompanha um contrabandista de armas (Burt Reynolds) que foge da polícia local, mas que perde o seu caminhão, indo parar numa localidade distante. Sem dinheiro, vê como alternativa o trabalho de assistente de um suposto cientista que investiga algo no fundo do mal. Na verdade, ele e sua companheira estão de olho no ouro que está afundado num navio naufragado ali perto, num mar cheio de tubarões.
O personagem de Reynolds é um picareta, mas os outros personagens, esses, sim, são vilões. Sua relação de amizade com um menino de rua local o coloca entre os personagens ambíguos de Fuller mais dotados de solidariedade e coração. Pena que isso é uma das poucas coisas que funcionem no filme, no quesito relações humanas. Se bem que há algo de humano em determinada cena com o médico alcoólatra vivido por Arthur Kennedy, um ator, aliás, que estava alternando produções em Hollywood com produções internacionais (Itália, Argentina). O próprio Burt Reynolds também já havia experimentado o gostinho de estrelar um western spaghetti com JOE, O PISTOLEIRO IMPLACÁVEL, do talentoso Sergio Corbucci. Era um tempo de reformulação em Hollywood.
Eu diria que a existência de uma cópia em BluRay (lá fora) deste TUBARÃO só existe por causa do nome de Fuller. Não fosse por isso, seria uma dessas obras esquecidas, por mais que possa ser vendida como um terror ecológico, embora não o seja, de fato: trata-se mais de um thriller sobre trambiqueiros vivendo em local inóspito e numa caça ao tesouro que destaca a ambição e a cobiça do que um filme que enfatize o ataque dos tubarões, embora haja, sim, boas cenas de tensão envolvendo os peixes mais perigosos do oceano.
Começando a ver esta nova fase de decadência, por assim dizer, de Fuller, com um misto de tristeza e curiosidade, mesmo sabendo que ainda há obras-primas nos anos 1980 pela frente.
+ TRÊS FILMES
A MÁQUINA DE ESCREVER, O RIFLE E A CÂMERA (The Typewriter, the Rifle & the Movie Camera)
Que lindo este documentário de pouco menos de uma hora de duração sobre a obra de Samuel Fuller. Nem parece extra de DVD. Aqui temos a emoção de ver Fuller falando sobre sua experiência lutando na Segunda Guerra Mundial, na dor de ver colegas literalmente em pedaços, experienciar o horror de estar em combate e ainda responde à pergunta como é matar alguém na guerra. E Fuller levou sua experiência para vários filmes seus, de CAPACETE DE AÇO (1951) a AGONIA E GLÓRIA (1980). Entre os entrevistados do documentário, há participações de Tim Robbins (entrevistando Fuller), Quentin Tarantino (visitando o quarto de Fuller junto com Robbins, após a morte do realizador marginal) e comentários preciosos de Martin Scorsese e Jim Jarmusch. O documentário apresenta o jovem Fuller, entusiasta do jornalismo desde criança, sua experiência na guerra, seus temas recorrentes, imagens dos principais filmes, de seu interesse por pessoas distantes do heroísmo, como em EU MATEI JESSE JAMES (1949), passando pelo noir do lindíssimo ANJO DO MAL (1954), a maldade masculina de filmes como A LEI DOS MARGINAIS (1961), passando pela dificuldade de Fuller de conseguir filmar durante o período da mudança na época da Nova Hollywood. A MÁQUINA DE ESCREVER, O RIFLE E A CÂMERA (1996) está presente no box A Arte de Samuel Fuller.
TURBULÊNCIA (Turbulence)
Depois de ter visto uma história megalomaníaca de produção milionária de mais um americano salvando o mundo (DEVORADORES DE ESTRELAS), é muito bom ver uma produção mais barata, mas sem medo de pensar grande em suas possibilidades. TURBULÊNCIA (2025) me surpreendeu muito, tanto pelo tanto de tensão que é capaz de causar dentro daquele cenário com apenas quatro pessoas, um balão, quanto pela metáfora com a turbulência de um relacionamento a dois, especialmente quando o marido é um mau-caráter. Aliás, o próprio ator, Jeremy Irvine (que estreou no cinema com CAVALO DE GUERRA, do Spielberg), tem um physique du rôle de vilão, o que de certa forma ajuda o filme a nos deixar confusos em alguns momentos com a possibilidade de ele ser inocente. O ideal é entrar na sessão sem saber nada, mas o próprio cartaz já entrega muita coisa, o que não quer dizer que surpresas não apareçam o tempo inteiro ao longo dessa jornada dentro do balão envolvendo uma mulher que quer se vingar e outra que é inocente, mas que se revela a grande heroína, vivida pela islandesa Hera Hilmar (MÁQUINAS MORTAIS). Percebe-se que há muito uso de CGI. Afinal, não temos aqui uma megaprodução estilo Missão: Impossível que banque cenas aéreas com dublês e tudo o mais. Mas, mesmo assim, é tudo muito empolgante e a sensação de perigo fica presente o tempo inteiro. Até porque não se trata apenas de sobreviver a um balão com problemas, mas também de lidar com outras pessoas, algumas delas cheias de veneno para dar. Adoro a cena final, representativa da libertação da heroína. A direção é do suíço Claudio Fäh, que tem no currículo alguns filmes de aventura e ação, mas seu trabalho anterior era sobre um avião caindo num mar cheio de tubarões, DESESPERO PROFUNDO (2024), que chegou a passar nos cinemas brasileiros (talvez só em cópias dubladas) e eu não dei muita bola.
AS CONDENADAS DA PRISÃO DO INFERNO (The Big Doll House)
Esse filão WIP (Women in Prison), nascido de desejos e fetiches masculinos, já rendeu bastante nas décadas de 1970/80. Até o Brasil soube aproveitar essa onda para capitalizar internacionalmente alguns filmes. São obras assumidamente sensacionalistas e apelativas, seja pela violência, seja pela sensualidade. E de vez em quando acontecia de esses filmes serem também muito bons, como é o caso deste AS CONDENADAS DA PRISÃO DO INFERNO (1971), do mesmo Jack Hill do estranho SPIDER BABY (1967) e de dois dos mais representativos exemplares do blaxploitation, COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973) e FOXY BROW (1974), ambos estrelados pela musa Pam Grier, que, aliás, também está neste WIP, como uma das presidiárias bonitas da mesma cela. Ou seja, uma das protagonistas. Ao contrário do que se poderia imaginar, até que o aspecto apelativo deste filme é suave. As cenas de violência são pouco gráficas e as cenas de tortura se aproximam são rápidas e interessam à trama, além de importantes para enfatizar a maldade das vilãs frente às moças, que só querem fugir da prisão, sendo que uma delas pertence a um grupo revolucionário. O filme cresce quando passa a ser um filme sobre fuga de prisão, um dos subgêneros, inclusive, que muito me agradam desde a infância, quando vi FUGINDO DO INFERNO, de John Sturges, pela primeira vez na televisão. Um dos atores-fetiche de Jack Hill está aqui, Sid Haig, que até chegou a trabalhar com Tarantino em KILL BILL. Rodado nas Filipinas, esta pequena joia do WIP conta com momentos bem divertidos e cenas memoráveis e aparece como extra do box Cinema Exploitation 4, da Versátil.








