Acompanhei o surgimento do Raimundos desde antes do lançamento do primeiro álbum da banda, de 1994. Não lembro quem escreveu a matéria na Bizz, se o Forastieri ou o Barcinski ou outro redator, mas o relato do show da banda até então conhecida apenas em alguns lugares de Brasília, com sua mistura de forró com punk rock hardcore, me deixou bastante entusiasmado para conhecer. Soube, então, do disco produzido por Carlos Eduardo Miranda, e do selo Banguela, para bandas independentes dentro da poderosa Warner Music, e um dia, estava eu na barraca Biruta, quando ouvi pela primeira vez “Puteiro em João Pessoa”. Aquilo era diferente do que eu havia ouvido até então e eu sabia que era uma canção dos Raimundos. Se não me falha a memória, já na semana seguinte comprei o CD na saudosa Aky Discos, e foi um sucesso também entre alguns amigos, inclusive dois deles falecidos e de quem sinto muito a falta, Santiago e Érico, que acharam um barato aquela molecagem de colocar tanto palavrão e putaria numa sonzeira que mal dava para entender o vocal sem a ajuda do encarte. Na época, o consumo de música era diferente: o encarte era fundamental, fazia parte do prazer, da graça de ouvir um disco.
O documentário ANDAR NA PEDRA – A HISTÓRIA DO RAIMUNDOS (2026), com os cinco episódios dirigidos por Daniel Ferro, é um dos melhores do gênero (musical) que já vi na vida. E o formato em cinco episódios de cerca de uma hora funciona muito bem, pois se resolvessem transformar num único filme de duas horas para cinema muita coisa boa seria perdida. Tudo o que ficou na montagem final desta minissérie é essencial para a história contada. Mesmo o quinto episódio, que relata o momento mais delicado e triste, que é a fase pós-saída do Rodolfo, é um retrato duro e humano de sobrevivência e busca de novos caminhos para todos os envolvidos.
O primeiro episódio é mais leve por razões óbvias: havia ali quatro jovens que se conheceram por uma paixão em comum. O primeiro encontro de Rodolfo e Digão é muito divertido, a partir de quando Digão ouve, do outro lado da rua, a bateria do vizinho da frente, o Rodolfo, e resolve ir lá se apresentar. Foi o começo da criação de um dos grupos mais originais, bem-sucedidos e empolgantes da música brasileira. Claro que, até o disco Só no Forévis (1999), o público-alvo eram os fãs de rock pesado e/ou barulhento, mas no auge de popularidade da banda o Raimundos passou a ser querido por uma parcela altíssima dos brasileiros. Pode-se dizer, inclusive, que 1999 foi o ano que trouxe os últimos hits gigantes de rock até hoje, “Mulher de Fases” e “Anna Júlia”, do Los Hermanos. O século XXI tem sido mais difícil para o rock em termos de popularidade.
Um dos grandes méritos de ANDAR NA PEDRA é o quanto o documentário não se furta de contar histórias duras, dolorosas de cada um dos membros, seja a morte de um irmão do Digão, sejam as várias brigas e os inúmeros desentendimentos que havia entre o grupo, coisa que pouca gente sabia, e isso faz com que alguns desses relatos entrem em conflito. Por isso o fim da banda, ou o primeiro fim, o que de fato conta para mim e para a maioria dos fãs, com a saída do Rodolfo e sua conversão a uma igreja evangélica, pegou todo mundo de surpresa. Não só pelo estilo de vida da banda e pelas letras de sacanagem explícita, mas porque a banda estava no auge. O documentário, inclusive, mostra o quanto foi duro para Rodolfo sair. Ninguém aprovava esse seu movimento, levando em consideração tanto sucesso, tanta popularidade, tanto dinheiro envolvido, tantos discos de ouro, platina etc.
Tive oportunidade de ouvir, anos atrás, o testemunho ao vivo, numa igreja evangélica do Rodolfo Abrantes e peguei em sua mão, cumprimentando-o ao final do culto, mas naquele dia não fiquei conformado com o modo agressivo com que ele renegava a banda e seu estilo de vida, talvez por estar numa igreja. Vendo agora seu emocionado testemunho no documentário, porém, compreendi melhor seu drama, sua necessidade de sair da banda. Ele provavelmente estaria morto se não mudasse de vida. E nem falo do diagnóstico das irmãs da igreja, mas da própria tristeza que ele sentia, dos pensamentos de que aquele seria o último ano de sua vida.
O segundo episódio é outro momento muito gratificante para os fãs da banda, pois mostra outro auge, o lançamento de Lavô Tá Novo (1995), que conta com duas canções com os riffs de guitarras mais pesados e acertados da turma, “Eu Quero Ver o Oco” e “Tora Tora” – ah, e eu adoro “Sereia da Pedreira” também. Talvez não seja um disco tão regularmente ótimo quanto o primeiro, mas a sonoridade foi um avanço até mesmo para o tipo de produção que se costumava fazer aqui no Brasil, cujos discos sofriam muito em comparação com os produzidos nos Estados Unidos ou Inglaterra. No documentário SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94, de Ricardo Alexandre, podemos ver com detalhes esse aspecto.
Os caminhos para o terceiro álbum, Lapadas do Povo (1997), foram tortuosos, e uma tragédia ocorrida logo no início da turnê, em Santos, culminando na morte de oito fãs, fez com que a turnê do disco fosse abortada. O curioso é que a opção por um caminho menos engraçado veio pelo fato de eles não gostarem da comparação com os Mamonas Assassinas. A volta para a alegria e a brincadeira veio com o megassucesso Só no Forévis, mas por trás do sucesso havia muita coisa pesada acontecendo, um relacionamento tóxico entre os integrantes e um desconforto cada vez maior por parte de Rodolfo. Mesmo assim, sair da banda era um passo difícil de dar, conforme o próprio Rodolfo conta. Ele disse que quase volta atrás para dizer que era uma brincadeira, uma pegadinha, mas foi algo que fez bem para ele. O problema é o quanto foi complicado para os demais, levando em consideração as finanças, os comprometimentos com imóveis e outros bens, as famílias formadas etc. E o documentário entrar nesses detalhes só torna tudo ainda mais humano.
Ver ANDAR NA PEDRA me fez querer ouvir Raimundos de novo, me deu saudade da banda, me fez lembrar de como também foi uma pedrada para mim a saída do Rodolfo lá naquele maio de 2001. Lembro que até citei esse fato numa carta à coluna do Carlão Reichenbach. Quem tem interesse pela banda com certeza vai adorar o documentário e até quem não conheceu ou se interessou vai se comover com os aspectos humanos dessa história tão singular, cheia de amor, ódio, morte e renascimento.
+ TRÊS FILMES
BECOMING LED ZEPPELIN
O que temos aqui é um documentário para os fãs da banda. BECOMING LED ZEPPELIN (2025), de Bernard MacMahon, não é perfeito e nem tão inventivo, além de não saber como terminar, mas sua estrutura tradicional é gostosa de acompanhar, mostrando a gênese do Led Zeppelin, desde a infância de cada um dos quatro, passando pelo primeiro contato deles com a música, depois seus primeiros trabalhos, culminando com a junção mágica de Plant, Page, Jones e Bonham, nessa que é a segunda maior banda do mundo. Ver na tela IMAX também traz a vantagem de podermos ouvir a música numa qualidade de dar gosto, mesmo aquelas que foram retiradas de apresentações ao vivo, mas que ganharam, com uma limpeza bonita para o filme. Podia ser mais ousado, até no que escolhe mostrar de cada um dos músicos, mas é emocionante acompanhá-los em seus primeiros shows, no intenso ano de 1969, quando eles lançaram o primeiro e o segundo disco, os únicos abordados nesse doc. Bom demais ver as imagens das primeiras impressões das pessoas ouvindo o som da banda pela primeira vez. Gostei de como uma canção que eu nem gostava tanto como "What Is and What Should Never Be" vai voltar a ser ouvida por mim, desta vez com mais carinho. "And if I say to you tomorrow / Take my hand, child come with me...".
CAZUZA – BOAS NOVAS
O foco deste documentário sobre Cazuza está em seus anos após ter contraído o vírus da AIDS mais do que o início de sua trajetória artística, como vocalista do Barão Vermelho. Então, de certa forma, CAZUZA – BOAS NOVAS (2025), de Nilo Romero e Roberto Moret, tem um caráter até mórbido, uma vez que a morte é uma das palavras mais citadas ao longo do filme. Até na famosa entrevista que o cantor e compositor deu a Marília Gabriela há a pergunta a partir do trecho “Eu vi a cara da morte e ela estava viva”, o que já denunciava a doença que Cazuza ainda não havia assumido publicamente ter. O filme tem uma característica de documentário mais convencional, com convidados que ajudam a contar a história, mas essa costura é bem feita e é aliada a imagens de shows e de filmagens caseiras, como também de telejornais, como é o caso da cena da repercussão da horrenda capa da revista Veja de abril de 1989. Consta que, ao dar de cara com a revista, o cantor passou mal e foi internado. As imagens de baixa resolução ajudam a passar um ar quase fantasmagórico à história de Cazuza, como se fossem imagens quase etéreas. Senti mais falta de mais cenas que levam ao choro. Mas talvez a ideia seja mesmo ser fiel ao espírito do cantor, que nunca quis que ficassem com pena dele em sua trajetória de pessoa pública cujo corpo foi sumindo a olhos vistos.
3 OBÁS DE XANGÔ
Pode não ser o documentário mais bem-sucedido de Sérgio Machado - prefiro bem mais A LUTA DO SÉCULO (2016) –, mas 3 OBÁS DE XANGÔ (2024) tem um trunfo. Aliás, três trunfos: os seus personagens-título. Não conhecia Carybé, o pintor, mas já era mais ou menos familiarizado com a simpatia e a inteligência de Jorge Amado e Dorival Caymmi (aliás, quem não viu ainda o doc DORIVAL CAYMMI – UM HOMEM DE AFETOS não sabe o que está perdendo). Sou um ignorante em cultura afrobrasileira, em candomblé, mas me acostumei a apreciar quando vejo em filmes. Sem falar que a música brasileira é muito devedora da música baiana, que por sua vez não se furta a falar dos orixás, dos terreiros, de tantas coisas que para mim são um mistério ainda. O problema que talvez eu tenha encontrado neste filme de Machado foi a falta de um final, de algo que desse uma melhor liga entre as cenas usadas. Gosto muito de ver imagens de filmes, e não faltam, uma vez que Jorge Amado foi tantas vezes adaptado, até mesmo pelo próprio Machado, que fez QUINCAS BERRO D’ÁGUA (2010) e a minissérie PASTORES DA NOITE (2002). No mais, adoro a cena final, mesmo assim, ainda mais depois que a gente sabe mais sobre Jorge Amado e sua defesa dos terreiros em tempos mais duros para praticar essa fé, e depois que já nos encantamos com o jeito mágico de Caymmi e sua intimidade com o mar.
O documentário ANDAR NA PEDRA – A HISTÓRIA DO RAIMUNDOS (2026), com os cinco episódios dirigidos por Daniel Ferro, é um dos melhores do gênero (musical) que já vi na vida. E o formato em cinco episódios de cerca de uma hora funciona muito bem, pois se resolvessem transformar num único filme de duas horas para cinema muita coisa boa seria perdida. Tudo o que ficou na montagem final desta minissérie é essencial para a história contada. Mesmo o quinto episódio, que relata o momento mais delicado e triste, que é a fase pós-saída do Rodolfo, é um retrato duro e humano de sobrevivência e busca de novos caminhos para todos os envolvidos.
O primeiro episódio é mais leve por razões óbvias: havia ali quatro jovens que se conheceram por uma paixão em comum. O primeiro encontro de Rodolfo e Digão é muito divertido, a partir de quando Digão ouve, do outro lado da rua, a bateria do vizinho da frente, o Rodolfo, e resolve ir lá se apresentar. Foi o começo da criação de um dos grupos mais originais, bem-sucedidos e empolgantes da música brasileira. Claro que, até o disco Só no Forévis (1999), o público-alvo eram os fãs de rock pesado e/ou barulhento, mas no auge de popularidade da banda o Raimundos passou a ser querido por uma parcela altíssima dos brasileiros. Pode-se dizer, inclusive, que 1999 foi o ano que trouxe os últimos hits gigantes de rock até hoje, “Mulher de Fases” e “Anna Júlia”, do Los Hermanos. O século XXI tem sido mais difícil para o rock em termos de popularidade.
Um dos grandes méritos de ANDAR NA PEDRA é o quanto o documentário não se furta de contar histórias duras, dolorosas de cada um dos membros, seja a morte de um irmão do Digão, sejam as várias brigas e os inúmeros desentendimentos que havia entre o grupo, coisa que pouca gente sabia, e isso faz com que alguns desses relatos entrem em conflito. Por isso o fim da banda, ou o primeiro fim, o que de fato conta para mim e para a maioria dos fãs, com a saída do Rodolfo e sua conversão a uma igreja evangélica, pegou todo mundo de surpresa. Não só pelo estilo de vida da banda e pelas letras de sacanagem explícita, mas porque a banda estava no auge. O documentário, inclusive, mostra o quanto foi duro para Rodolfo sair. Ninguém aprovava esse seu movimento, levando em consideração tanto sucesso, tanta popularidade, tanto dinheiro envolvido, tantos discos de ouro, platina etc.
Tive oportunidade de ouvir, anos atrás, o testemunho ao vivo, numa igreja evangélica do Rodolfo Abrantes e peguei em sua mão, cumprimentando-o ao final do culto, mas naquele dia não fiquei conformado com o modo agressivo com que ele renegava a banda e seu estilo de vida, talvez por estar numa igreja. Vendo agora seu emocionado testemunho no documentário, porém, compreendi melhor seu drama, sua necessidade de sair da banda. Ele provavelmente estaria morto se não mudasse de vida. E nem falo do diagnóstico das irmãs da igreja, mas da própria tristeza que ele sentia, dos pensamentos de que aquele seria o último ano de sua vida.
O segundo episódio é outro momento muito gratificante para os fãs da banda, pois mostra outro auge, o lançamento de Lavô Tá Novo (1995), que conta com duas canções com os riffs de guitarras mais pesados e acertados da turma, “Eu Quero Ver o Oco” e “Tora Tora” – ah, e eu adoro “Sereia da Pedreira” também. Talvez não seja um disco tão regularmente ótimo quanto o primeiro, mas a sonoridade foi um avanço até mesmo para o tipo de produção que se costumava fazer aqui no Brasil, cujos discos sofriam muito em comparação com os produzidos nos Estados Unidos ou Inglaterra. No documentário SEM DENTES – BANGUELA RECORDS E A TURMA DE 94, de Ricardo Alexandre, podemos ver com detalhes esse aspecto.
Os caminhos para o terceiro álbum, Lapadas do Povo (1997), foram tortuosos, e uma tragédia ocorrida logo no início da turnê, em Santos, culminando na morte de oito fãs, fez com que a turnê do disco fosse abortada. O curioso é que a opção por um caminho menos engraçado veio pelo fato de eles não gostarem da comparação com os Mamonas Assassinas. A volta para a alegria e a brincadeira veio com o megassucesso Só no Forévis, mas por trás do sucesso havia muita coisa pesada acontecendo, um relacionamento tóxico entre os integrantes e um desconforto cada vez maior por parte de Rodolfo. Mesmo assim, sair da banda era um passo difícil de dar, conforme o próprio Rodolfo conta. Ele disse que quase volta atrás para dizer que era uma brincadeira, uma pegadinha, mas foi algo que fez bem para ele. O problema é o quanto foi complicado para os demais, levando em consideração as finanças, os comprometimentos com imóveis e outros bens, as famílias formadas etc. E o documentário entrar nesses detalhes só torna tudo ainda mais humano.
Ver ANDAR NA PEDRA me fez querer ouvir Raimundos de novo, me deu saudade da banda, me fez lembrar de como também foi uma pedrada para mim a saída do Rodolfo lá naquele maio de 2001. Lembro que até citei esse fato numa carta à coluna do Carlão Reichenbach. Quem tem interesse pela banda com certeza vai adorar o documentário e até quem não conheceu ou se interessou vai se comover com os aspectos humanos dessa história tão singular, cheia de amor, ódio, morte e renascimento.
+ TRÊS FILMES
BECOMING LED ZEPPELIN
O que temos aqui é um documentário para os fãs da banda. BECOMING LED ZEPPELIN (2025), de Bernard MacMahon, não é perfeito e nem tão inventivo, além de não saber como terminar, mas sua estrutura tradicional é gostosa de acompanhar, mostrando a gênese do Led Zeppelin, desde a infância de cada um dos quatro, passando pelo primeiro contato deles com a música, depois seus primeiros trabalhos, culminando com a junção mágica de Plant, Page, Jones e Bonham, nessa que é a segunda maior banda do mundo. Ver na tela IMAX também traz a vantagem de podermos ouvir a música numa qualidade de dar gosto, mesmo aquelas que foram retiradas de apresentações ao vivo, mas que ganharam, com uma limpeza bonita para o filme. Podia ser mais ousado, até no que escolhe mostrar de cada um dos músicos, mas é emocionante acompanhá-los em seus primeiros shows, no intenso ano de 1969, quando eles lançaram o primeiro e o segundo disco, os únicos abordados nesse doc. Bom demais ver as imagens das primeiras impressões das pessoas ouvindo o som da banda pela primeira vez. Gostei de como uma canção que eu nem gostava tanto como "What Is and What Should Never Be" vai voltar a ser ouvida por mim, desta vez com mais carinho. "And if I say to you tomorrow / Take my hand, child come with me...".
CAZUZA – BOAS NOVAS
O foco deste documentário sobre Cazuza está em seus anos após ter contraído o vírus da AIDS mais do que o início de sua trajetória artística, como vocalista do Barão Vermelho. Então, de certa forma, CAZUZA – BOAS NOVAS (2025), de Nilo Romero e Roberto Moret, tem um caráter até mórbido, uma vez que a morte é uma das palavras mais citadas ao longo do filme. Até na famosa entrevista que o cantor e compositor deu a Marília Gabriela há a pergunta a partir do trecho “Eu vi a cara da morte e ela estava viva”, o que já denunciava a doença que Cazuza ainda não havia assumido publicamente ter. O filme tem uma característica de documentário mais convencional, com convidados que ajudam a contar a história, mas essa costura é bem feita e é aliada a imagens de shows e de filmagens caseiras, como também de telejornais, como é o caso da cena da repercussão da horrenda capa da revista Veja de abril de 1989. Consta que, ao dar de cara com a revista, o cantor passou mal e foi internado. As imagens de baixa resolução ajudam a passar um ar quase fantasmagórico à história de Cazuza, como se fossem imagens quase etéreas. Senti mais falta de mais cenas que levam ao choro. Mas talvez a ideia seja mesmo ser fiel ao espírito do cantor, que nunca quis que ficassem com pena dele em sua trajetória de pessoa pública cujo corpo foi sumindo a olhos vistos.
3 OBÁS DE XANGÔ
Pode não ser o documentário mais bem-sucedido de Sérgio Machado - prefiro bem mais A LUTA DO SÉCULO (2016) –, mas 3 OBÁS DE XANGÔ (2024) tem um trunfo. Aliás, três trunfos: os seus personagens-título. Não conhecia Carybé, o pintor, mas já era mais ou menos familiarizado com a simpatia e a inteligência de Jorge Amado e Dorival Caymmi (aliás, quem não viu ainda o doc DORIVAL CAYMMI – UM HOMEM DE AFETOS não sabe o que está perdendo). Sou um ignorante em cultura afrobrasileira, em candomblé, mas me acostumei a apreciar quando vejo em filmes. Sem falar que a música brasileira é muito devedora da música baiana, que por sua vez não se furta a falar dos orixás, dos terreiros, de tantas coisas que para mim são um mistério ainda. O problema que talvez eu tenha encontrado neste filme de Machado foi a falta de um final, de algo que desse uma melhor liga entre as cenas usadas. Gosto muito de ver imagens de filmes, e não faltam, uma vez que Jorge Amado foi tantas vezes adaptado, até mesmo pelo próprio Machado, que fez QUINCAS BERRO D’ÁGUA (2010) e a minissérie PASTORES DA NOITE (2002). No mais, adoro a cena final, mesmo assim, ainda mais depois que a gente sabe mais sobre Jorge Amado e sua defesa dos terreiros em tempos mais duros para praticar essa fé, e depois que já nos encantamos com o jeito mágico de Caymmi e sua intimidade com o mar.
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