segunda-feira, junho 08, 2026

OBSESSÃO (Obsession)

 
Já faz um tempinho que vi OBSESSÃO (2025) e eu até posso culpar a falta de tempo, o excesso de afazeres, pelo fato de eu não ter escrito nada - até agora - sobre este que é um dos filmes mais importantes do ano (da década, eu diria), principalmente por estar, junto com outras produções de terror de baixo orçamento, ditando tendências, já que grandes produções têm naufragado nas bilheterias enquanto produções baratas (e muito boas) têm causado um rebuliço imenso. Vi o filme numa sessão lotada, por exemplo. E deixo uma dica aos exibidores: coloquem mais salas legendadas, pois essas são as que lotam primeiro. Não apenas deste filme, mas de outros recentes também.

OBSESSÃO é um sucesso: até mesmo no trabalho vejo colegas entusiasmados para ver ou porque viram o filme. Claro que esse sucesso de público (e também de crítica) do filme não significaria tanto assim se este conto moral do jovem Curry Barker não fosse tudo isso. Trata-se de uma espécie de inversão de uma comédia romântica, como se esse subgênero fosse colocado numa espécie de espelho amaldiçoado, uma vez que nas histórias de amor mais convencionais, conseguir o amor desejado é algo que é deixado para o final (feliz).

Na trama, rapaz tímido, Bear (Michael Jonhston) não consegue sair da friendzone, estando ele apaixonado por sua amiga de longa data Nikki (a incrível Inde Navarrette). Eis que, passando numa lojinha de conveniência, vê um pauzinho supostamente mágico que, uma vez quebrado, e feito um pedido, esse único desejo seria cumprido. Bear, que já estava sofrendo do luto do seu gato morto, resolve experimentar. Seu desejo: que ela o ame mais do que a qualquer pessoa no mundo. Para sua surpresa, o comportamento de Nikki é imediato: ela passa a se mostrar obcecada por ele, e também começa a agir de maneira muito estranha e muitas vezes assustadora. É quando o filme adentra o território do terror, mas não sem deixar espaço para a comédia, embora esse humor seja tão sutil quanto perverso. E peço licença para entrar em alguns spoilers mais pesados a partir daqui.

Há algo de muito cruel e muito perturbador neste feitiço imposto a Nikki, e isso é apresentado principalmente nas cenas em que a verdadeira Nikki busca se comunicar naquele corpo que um dia foi seu. A cena mais arrepiante acontece quando Bear, tentando escapar à noite para se encontrar com uma amiga, sem que a Nikki enfeitiçada perceba, ouve a voz da verdadeira Nikki pedindo que ele a mate. Em vez de atendê-la ou encarar com empatia, ele fala: "é tão ruim estar comigo assim?".

E é aí que vemos que OBSESSÃO é também um filme sobre um relacionamento abusivo, uma vez que Bear permanece num relacionamento em que o amor é fake e também abusivo. Seu caminho para a tragédia me fez lembrar o final de CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch, e não sei o quanto Curry se inspirou nessa obra-prima para compor seu roteiro. Os destinos finais dos personagens são bem semelhantes, embora em OBSESSÃO o que é visto não seja um sonho.

Enfim, que bom que temos este belíssimo filme de um diretor que promete e que até tem algumas obras pequenas para serem apreciadas enquanto seu novo trabalho não chega às telas. Inclusive, o próximo filme, segundo Barker, se passará no mesmo universo de OBSESSÃO e que saberemos mais sobre o destino de Nikki.

+ TRÊS FILMES

MALDIÇÃO DA MÚMIA (Lee Cronin’s The Mummy)

Esse Lee Cronin não deve ter problema de baixa autoestima, uma vez que, já em seu terceiro longa-metragem, coloca o próprio nome no título (original), como se fosse um Fellini ou um John Carpenter. De todo modo, ele ganhou sim meu respeito, não apenas por fazer uma obra semelhante a seu A MORTE DO DEMÔNIO – A ASCENSÃO (2023), mas principalmente por conseguir acabar com a maldição dos filmes de múmia, que nos últimos anos ficaram fadados a serem mais aventuras para a sessão da tarde do que filmes de terror. Não só um terror que respeita os ciclos clássicos da Universal ou da Hammer. O terror em MALDIÇÃO DA MÚMIA (2026) é mais gráfico, mais corporal, e a história é cheia de surpresas e bastante original. Envolve uma garotinha que é sequestrada e fica desaparecida por vários anos, até aparecer viva num sarcófago egípcio de 3.000 anos, toda enfaixada e cheia de problemas que toda pessoa que fica enterrada por muitos anos costuma ter. O filme passa de uma obra sobre o luto para uma obra sobre doença, sendo que mais ao estilo A MOSCA, com cenas de causar aflição, como a das unhas. Eis que Lee Cronin começa a pegar ainda mais pesado e as semelhanças com O EXORCISTA (e com EVIL DEAD) passam a vir à tona. O realizador não tem medo dos excessos, de parecer de mau gosto, de convidar parte do público a soltar sons ou até mesmo a ir embora (não foi o caso da minha sessão, e eu acho que os espectadores do cinema de horror estão cada vez mais dispostos a experiências diferentes). Não sou muito fã do epílogo, mas até chegar lá MALDIÇÃO DA MÚMIA é um dos exemplares do gênero mais bem-vindos dos últimos anos.

O PRIMATA (Primate)


Fiquei absolutamente impressionado com O PRIMATA (2025). Até custo a acreditar que exista outro filme na linha “animais em fúria” tão cheio de terror, tão intenso e violento, tão capaz de nos dar um frio na espinha. É também difícil acreditar que é do mesmo diretor de MEDO PROFUNDO (2017), que, pelo que me lembro, é só mais um filme genérico de tubarão. O PRIMATA me fez recordar de um terror classe A: NÃO! NÃO OLHE!, de Jordan Peele, e sua breve e aterrorizante cena de um chimpanzé enlouquecido. Eis que aqui o inglês Johannes Roberts investe pesado na ideia e faz também uma celebração do splatter, da violência gráfica explícita, sem medo de chocar. Aliás, um dos aspectos mais fortes do filme é mesmo o choque. E quando somos apresentados ao jovem elenco, em sua maioria de garotas, o filme sabe como nos colocar um pouco no lugar de cada uma delas, com o horror que é estar diante de um chimpanzé babando de raiva. Algumas cenas são geniais, como a chegada do pai das meninas; outras são extremamente cruéis, como a da mandíbula; outras são dotadas de muito suspense e medo, como a cena no carro. Um dos melhores filmes de terror do ano, que infelizmente só chegou em cópias dubladas nos cinemas de minha cidade, mas que agora pode ser conferido por meios alternativos, ouvindo as vozes e os gritos originais do elenco. No mais, agora é tentar dormir depois do tanto de adrenalina que O PRIMATA injeta em nosso sangue.

OS ESTRANHOS – CAÇADA NOTURNA (The Strangers – Pray at Night)

Fiquei tão positivamente surpreso com O PRIMATA (2025), definitivamente um dos melhores filmes de terror com animais em fúria já feitos, que me vi curioso com a filmografia de Johannes Roberts, de quem já tinha visto o bom filme de tubarão MEDO PROFUNDO (2017). No mais, vale destacar que este OS ESTRANHOS – CAÇADA NOTURNA (2018) é uma obra que não tem tanta relação assim (creio eu) com a trilogia recente, espinafrada pela crítica, e dirigida por Renny Harlin. O trabalho de Roberts é primoroso, embora não procure inventar a roda, nem criar nada original. Ele amplia o cenário do terror de casa invadida para um bairro ou cidadezinha meio fantasma por que uma família passa. A primeira meia hora do filme nos apresenta ao drama dessa família, formada por mãe, pai, filho e filha adolescentes. A menina aprontou algo e será mandada para um outro lugar, se sentindo rejeitada. Enquanto isso, a casa onde eles se instalam está sendo vigiada por três pessoas usando máscaras sinistras. A primeira delas é uma jovem, que aparece à porta sem máscara, mas a sombra da noite não nos permite ver seu rosto. A violência brutal logo se inicia quando a família se separa e a nossa familiaridade com os slashers nos faz crer que a menina será a final girl, ou seja a sobrevivente do massacre. Há cenas muito impactantes, como a da piscina, ao som de “Total Eclipse of the Heart”, ou a do embate entre dois carros. O filme traz um ar de desesperança e incompreensão sobre o que está acontecendo que nos aflige também, embora o entusiasmo de estar vendo uma obra tão bem acabada nos deixe mais felizes do que tristes pelos destinos de alguns personagens. Com 15 longas-metragens no currículo, e provavelmente nem todos sejam bons, talvez seja a hora de prestar atenção em Roberts, em seu trabalho que vai além da competência na direção e no amor pelo gênero terror.

domingo, junho 07, 2026

MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe)

 
Na minha adolescência, eu tinha por hábito ver o desenho do He-Man todas as manhãs. Mas era aquele tipo de programa que eu via e achava ruim, tosco, e nem me perguntava por que via mesmo assim. Era excessivamente maniqueísta. Os bons eram muito bons e sem imperfeições; os maus eram feios (o vilão tinha o rosto de esqueleto), seus comparsas eram monstruosos e havia uma vilã chamada Maligna. Acho que nunca entendi direito a mitologia. É como se a criação de uma mitologia não fosse uma intenção, como se aquelas aventuras toscas tivessem só a intenção de vender mais bonecos da Mattel. Acho que nem cheguei a ver o primeiro live-action para o cinema, o MESTRES DO UNIVERSO de 1987, estrelado por Dolph Lundgren. Então, via a produção deste novo filme como um grande desafio por parte dos produtores, do realizador e dos roteiristas, que aqui são vários.

O espectador de hoje é um pouco mais exigente com desenvolvimento de roteiro e de personagens e nesse sentido acredito que foi um acerto e tanto transformar este novo MESTRES DO UNIVERSO (2026), dirigido por Travis Knight, numa espécie de aventura com muito humor, um pouco ao estilo dos filmes do MCU, mas com uma diferença: com a compreensão do ridículo da produção original, a primeira leva das animações, de 1983-85. E, nesse sentido, tirar onda da risada maquiavélica do Skeletor (não era Esqueleto mesmo o nome do vilão?) e de fazer troça de uma possível origem do mal do personagem, foi outro ponto positivo. Inclusive, quem faz a divertida voz (e interpretação) do vilão é Jared Leto. Ficou muito bom, assim como a movimentação de seu rosto sem carne.

Outro ponto positivo: o ator que faz o Príncipe Adam, Nicholas Galitzine, foi uma ótima escalação, conseguindo fazer essa expressão de bobão em praticamente toda a narrativa, o que serve tanto como motor para a comédia quanto como uma aproximação com o espectador, que se identifica mais com alguém desengonçado do que com um suposto “homem mais poderoso do universo”. A cena da tentativa dele de beijar Teela (Camila Mendes, da série RIVERDALE) é bem divertida. Aliás, Mendes é a atriz que mais se impõe como uma heroína de fato desde sua primeira aparição, lutando contra um monstro e resgatando Adam do planeta Terra.

Na trama, Skeletor domina o reino de Eternia, aprisionando o rei e a rainha. O menino Adam, porém, consegue escapar com a espada do poder, graças a um encanto da Feiticeira (Morena Baccarin), que lança o menino na Terra, e lá ele fica durante 15 anos, até a idade adulta. Nesse período, ele é visto por amigos e colegas de trabalho como um louco alucinado que inventa histórias sobre um planeta distante, um vilão com cara de esqueleto e uma espada mágica desaparecida, que é alvo de obsessão de sua parte. A espada aparecer numa loja de brinquedos, aliás, e se parecer com um brinquedo, é outro acerto do filme.

O que surpreende em MESTRES DO UNIVERSO é a relativa violência da ação. Muito maior do que eu esperava. E se He-Man na animação original não matava nem féria ninguém, aqui ele acaba por fazer isso. O que eu achei bem-vindo. Assim como é bem-vinda a trilha sonora rock retrô oitentista. Muito melhor do que uma trilha orquestrada e sonolenta, além de muito coerente com o espírito dos anos 1980, o período de lançamento e popularidade da série de TV. Popular principalmente no Brasil: nos Estados Unidos o filme está fracassando nas bilheterias, enquanto aqui está sendo um sucesso, com o público vibrando durante a sessão, e aplaudindo no final.

+ TRÊS FILMES 

DEVORADORES DE ESTRELAS (Project Hail Mary)

Eu já estava bem cismado com todo o hype que este DEVORADORES DE ESTRELAS (2026) vem recebendo por parte de alguns críticos e influenciadores. Também fiquei muito surpreso com as sessões lotadas na sala IMAX, e de certa forma me deu uma pontinha de alegria em ver mais gente contrariando a lógica do dono da Netflix. Além do mais, fiquei pensando se os diretores de TÁ CHOVENDO HAMBÚRGUER (2009) e UMA AVENTURA LEGO (2014) dariam conta de criar um drama de ficção científica épico aos moldes de INTERESTELAR, de Nolan. Infelizmente meus temores se confirmaram, ao menos para mim, já que todos os momentos de interação entre Grace e Rocky me pareceram sem força dramática, embora tenham, sim, seus momentos de graça, de diversão. Mas é um tipo de diversão mais “fofa”, com uma intenção de pegar o público mais juvenil, mesmo com a parte “científica” da história não sendo tão simples assim. Além do mais, me irritava aquela trilha sonora insistentemente “épica”, como se quisesse nos fazer crer que aquele filme era mais do que aparentava ser. De todo modo, o resultado positivo deve muito ao carisma de Ryan Gosling, que passa boa parte do tempo sozinho – nos flashbacks, destaque para a presença sempre boa de Sandra Hüller. Há também que se dar o devido crédito à apresentação de um herói sem tanto heroísmo assim, mas não creio que seja algo inédito.

PÂNICO 7 (Scream 7)

Mesmo sendo de longe o pior filme da franquia, é possível se divertir com este PÂNICO 7 (2026), que conta com o retorno de Neve Campbell como Sidney, depois da ausência sentida no filme anterior (2023). Percebe-se que Pânico, uma das poucas franquias de terror a manter uma boa regularidade, finalmente chega a esse momento de clara decadência e busca tirar leite de pedra com o que sobrou dos personagens originais e da nostalgia que ainda parece ser a aposta para a manutenção. Bem que a dupla Bettinelli-Olpin e Gillett tentou passar o bastão para uma nova geração, mas situações nos bastidores deste novo filme fizeram com que tudo mudasse. Primeiro, a dupla de diretores pulou fora, depois houve a polêmica de Melissa Barrera apoiar a causa palestina nas redes sociais, o que ocasionou sua demissão pela produtora Spyglass. Em solidariedade a Barrera, Jenna Ortega também pediu demissão. O novo diretor contratado, Christopher Landon, acabou saindo também, com tanta confusão envolvida. O resultado, com o roteirista Kevin Williamson assumindo a direção, é um filme frio, desinteressante, pobre no enredo e na forma, além de nos deixar sem o menor interesse de torcer pelos personagens. Até tem algumas cenas mais gráficas do ataque do vilão (ou vilões), mas nada que provoque horror. Aliás, o filme até ganha mais interesse quando parece uma novelona, com pouco espaço para o humor, chave para a graça da franquia. Do elenco, gostei de Anna Camp, a coadjuvante que rouba a cena. Quanto a Isabel May, que faz a filha da Sidney, lhe falta o carisma que Melissa Barrera tinha. E agora?

WICKED – PARTE II (Wicked – For Good)

Ainda continuo achando um saco, pelo menos na maior parte das vezes, as cenas musicais do filme, embora goste do último dueto entre Ariana Grande e Cynthia Erivo. Na verdade, estava curioso mesmo era para saber o desfecho com relação à amizade e posterior fim da amizade entre as heroínas. Pois, no fim das contas, Wicked é sobre isso: amizade, mais exatamente amizade feminina, muito mais do que uma história de bruxas ou um prequel de O MÁGICO DE OZ. Falando no filme de 1939, é nesta sequência que a trama do clássico invade a trama de WICKED II, e gosto muito de como isso é desenvolvido. A última cena das duas amigas/inimigas conversando a partir da resolução de Elphaba é de fato emocionante e o recurso da tela dividida foi uma sacada muito boa do realizador. Serve tanto para tornar uma delas mais protegida enquanto a outra está (bem) mais exposta. Wicked é uma bela história sobre sacrifícios, dor e crescimento emocional. Poderia até ter gostado mais, mas acredito que o gênero e a falta de boas canções me afastam um pouco. Ariana Grande passa muito bem a angústia e a complexidade de seu papel.