domingo, setembro 29, 2024

STRANGE DARLING



Minha viagem para a Irlanda foi maravilhosa. E eu ainda quero parar um pouco para escrever pelo menos um relato resumido do que foram os 15 dias em território de James Joyce, W.B. Yeats e Oscar Wilde. Mas foi lá na Irlanda que eu também, ao fugir um pouco da ida quase diária da turma aos pubs, optei por ir ao cinema sozinho. E, entre as opções disponíveis, me chamou a atenção um filme chamado STRANGE DARLING (2023), dirigido por um nome que desconhecia, JT Mollner, passando numa salinha pequena de um dos maiores multiplexes de Limerick. Aliás, é uma pena que o filme tenha passado numa sala tão pequena e esteja sendo visto por uma audiência pequena, pois certamente seria um sucesso dentro de uma sala grande e com uma audiência grande, que urraria diante de tantas cenas intensas e de plot twists de cair o queixo.

Comprei a nova Sight & Sound nesta minha passagem pela Irlanda e a primeira matéria que li foi “Retro Horror – Why Modern Horror Is Thrall to the Past”, texto de Roger Luckhurst que cita títulos recentes do cinema de horror que parecem olhar com muito interesse para o passado. Casos de LONGLEGS – VÍNCULO MORTAL, I SAW THE TV GLOW (esse ainda não vi), O TELEFONE PRETO, A PRIMEIRA PROFECIA, a trilogia “X” de Ti West, A VASTIDÃO DA NOITE etc. Isso só pra citar alguns filmes mencionados na matéria.

Este STRANGE DARLING, se não se passa nas décadas passadas, já começa com um aviso de que foi filmado em 35mm. O que achei incomum. Não a filmagem em película em si, mas a informação explícita. É como se o filme quisesse trazer de volta o palpável no mundo digital. E logo vemos, claro, a textura mais característica da película. Inclusive nas cores mais vivas, o vermelho mais intenso, nas cenas em que os capítulos remetem mais à violência, e o azul, nas cenas mais fechadas e intimistas. Aliás, o diretor de fotografia do filme é o ator Giovanni Ribisi!

Antes de mais nada, fui ver STRANGE DARLING sem saber quase nada do filme. E essa é a melhor coisa a se fazer, já que surpresas acontecem. Além do mais, a própria opção da narração por capítulos embaralhados contribui para essas surpresas muito bem- vindas, que facilmente nos remetem a PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA, de Quentin Tarantino, e sua montagem em capítulos. Aliás, ele fez o mesmo em KILL BILL, com muito sucesso. Mas acredito ser mais fácil lembrar de PULP FICTION.

Essa narração por capítulos embaralhados contribui para deixar o espectador no mínimo muito intrigado, além de tenso, já que a primeira imagem que vemos é a de uma mulher ferida e aterrorizada, correndo, muito possivelmente, de seu algoz, muito provavelmente o serial killer mencionado no texto de abertura, que diz que o filme é uma história real de algumas das últimas matanças nessa magnitude de um serial killer americano, que começou uma série de mortes entre os anos de 2018 e 2020.

Gostei muito do quanto o filme é forte na condução de uma trama cuja maior parte do tempo quase não tem diálogos e do suspense e da tensão sempre presentes. Eis uma obra que merece muito a atenção não só dos fãs do cinema de horror, mas dos cinéfilos como um todo. Afinal, estamos vivendo um momento excitante em que o cinema de horror voltou a ser extremamente atraente e empolgante, como gênero em si, mas também como reflexo de nossas ansiedades e da nossa sociedade doente.

O filme deve muito às performances dos dois atores principais: Willa Fitzgerald (A QUEDA DA CASA DE USHER) como “the lady”, e Kyle Gallner (SORRIA) como “the demon”. Além do mais, há participações especiais dos veteranos Barbara Hershey e Ed Begley Jr. Outro ponto positivo está na trilha sonora, não só pela cover muito bacana de “Love Hurts”, do Nazareth, por Z Berg, mas pelas canções originais de Berg, em tons sombrios e com letras cheias de lirismo.

Tentei ao máximo não contar detalhes sobre a trama, pois o filme ainda está inédito no Brasil. E não seria legal tirar esse gostinho dos futuros espectadores. STRANGE DARLING já está no meu top 3 do ano, até o momento. E eu gostaria muito de revê-lo nos cinemas. Espero que alguma distribuidora brasileira o tenha comprado. Se não compraram, estão vacilando feio.

+ TRÊS FILMES

NÃO FALE O MAL (Speak No Evil)

O remake do homônimo dinamarquês de 2022, se não é tão pancada quanto, traz mudanças no enredo que o beneficiam, que o tornam de certa forma até melhor, trazendo um pouco de poesia em meio a tanto mal-estar e violência, especialmente psicológica. A escalação do elenco de NÃO FALE O MAL (2024) ajuda muito, principalmente Mackenzie Davis como a mulher forte do casal convidado a passar uns dias com um casal estranho que conhecem numa viagem à Itália. O sujeito que os convida é muito bem defendido por James McAvoy, que encarna brilhantemente uma pessoa perturbadora. O diretor James Watkins é o mesmo do ótimo e sangrento SEM SAÍDA (2008) e por isso tem experiência em entregar um produto cheio de terror e muita tensão. Ambos os filmes são exemplares do horror mais “real”, sem a necessidade de fantasia ou sobrenatural para nos fazer sentir medo. A poesia, ou melhor, um tipo de poesia mais sensível, menos brutal, está na última imagem. O menino mudo ainda conta com uma cena que entra em sintonia com outros dois filmes recentes e bem distintos, e que me fez pensar no quanto estamos vivendo uma necessidade de explodir e, de preferência, matar aquilo que nos atormenta no fim do processo. (Os filmes recentes a que me refiro são IMACULADA e MAIS PESADO É O CÉU.)

LONGLEGS – VÍNCULO MORTAL

Até que estou em dia com os filmes de Osgood Perkins, mesmo não tendo me esforçado muito para tal. Este é o quarto longa-metragem do realizador e o que mais está fazendo barulho. Um barulho um tanto exagerado, eu acho, e que tem trazido certos problemas no quesito expectativa. Mas LONGLEGS – VÍNCULO MORTAL (2024) é um terror plasticamente tão bonito que fica difícil não valorizá-lo. O que me deixou incomodado foi o quanto o filme não foi eficiente em fazer com que as cenas mais chocantes ou aterrorizantes me pegassem. O que eu gosto no filme é o quanto ele subverte o gênero policial de investigação de crime e reveste de um tom de pesadelo, que tem muito a ver com o que uma personagem que acorda de um coma diz que tem a sensação de estar vivendo um longo sonho. Mas é preciso embarcar na proposta ou na viagem para ter uma experiência no mínimo boa. Gosto muito de como a Maika Monroe e o Blair Underwood se completam como agentes do FBI de estilos totalmente diferentes, sendo que ela é uma pessoa que está em constante estado de ansiedade e desconforto. Aliás, eu até queria ser contaminado no filme por esse desconforto da personagem, mas acho que acabei ficando muito confortável com a construção visual, com a beleza das imagens que me ganharam nesse aspecto, mas que acabaram por me afastar do que mais me importaria. No mais, Nicolas Cage está de fato um vilão e tanto. P.S.: O satanismo voltou de vez para o cinema de horror? Este já é no mínimo o quarto filme badalado com esse tema lançado em 2024.

O MAL NÃO EXISTE (Aku Wa Sonzai Shinai)

Este é o quarto filme de Ryûsuke Hamaguchi que vejo e a única coisa que encontro em comum em seus trabalhos, se não me engano, e sem reler meus textos passados, é o gosto por planos longos, em especial com diálogos longos. O MAL NÃO EXISTE (2023) começa com cenas silenciosas, imagens da natureza de uma área rural do Japão, com árvores altas, um rio limpo e um espaço onde os cervos habitam. Esse cenário paradisíaco é ameaçado com a chegada de uma empresa com o plano de construir um retiro no vilarejo, algo que vai mexer com a estrutura do lugar, inclusive com a água. Os habitantes não gostam nada e se revoltam durante reunião de apresentação do projeto. O filme fica mais interessante quando mostra também o ponto de vista daquelas duas pessoas que vieram apresentar o projeto. O filme recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e o prêmio da crítica (FIPRESCI), além de outros dois prêmios menores no mesmo festival, sendo que um deles é dado a obras com o tema do meio ambiente. Confesso que não está entre os meus favoritos do realizador, mas é, sim, um trabalho de quem, claramente, tem pleno domínio de sua arte. E só por isso já é de dar gosto.

sábado, setembro 14, 2024

TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (Witness for the Prosecution)



Experimentando preparar uma postagem para o blog num aeroporto, o de Salvador, enquanto aguardo um voo com destino final para Dublin. Minhas colegas de grupo estão conversando e eu vim carregar meu celular. Ótimas chances de serem ótimos 15 dias em minha vida, um presente de Deus. Mas quem é cinéfilo fica logo pensando em meios de ver filmes dentro desse programa. De preferência numa sala de cinema. Acho que vai dar certo. Oremos. Enquanto isso, atualizemos este espaço tão abandonado para falar sobre um grande clássico da Velha Hollywood.

Nunca fui de destacar mais a atuação de um intérprete do que o filme em meus textos. A não ser em casos especiais. E fazer isso pode dar a impressão de que estaria diminuindo o filme ou a direção. Mas diminuir TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (1957), baita drama (com toques de comédia e suspense) de tribunal, e sei diretor Billy Wilder, que o dirigiu pensando em fazer um thriller divertido com toques hitchcockianos, seria uma injustiça.

Pois bem. Acontece que o que mais me encantou neste filme foi Charles Laughton. E achei isso curioso, já que havia visto o ator em outros quatro filmes (A ESTALAGEM MALDITA e AGONIA DE AMOR, ambos de Alfred Hitchcock; OS AMORES DE HENRIQUE VIII, de Alexander Korda; e, mais recentemente, A ILHA DAS ALMAS SELVAGENS, de Erle C. Kenton) e não tinha percebido toda essa grandeza, todo esse brilho. Dizia-se que na época da realização do filme de Wilder, na maturidade, ele vivia uma das melhores fases de sua vida: havia deixado de fingir que era hétero e ter um casamento de conveniência e estava feliz com um outro homem.

TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO (1957) logo de início nos ganha pelo humor, e depois vi que o sucesso desse humor estava não apenas no domínio e no estilo característico de Wilder, mas na presença vibrante de Laughton, definitivamente um dos maiores atores de todos os tempos e aqui no papel de um advogado de defesa com a saúde frágil de maneira deliciosa. É difícil não se encantar com o ator, que havia também marcado seu nome na história do cinema dois anos antes, dirigindo o cultuado O MENSAGEIRO DO DIABO.

Curiosamente, eu não tinha visto TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO até um dia desses por ter um pouco de preguiça de filmes de tribunal. Mas este aqui é tão divertido que acho quase impossível alguém não gostar. Tive dois empurrõezinhos: o livro da Versátil sobre filmes de tribunal e o BluRay Wilder Essencial, também da Versátil, que traz o filme, o único dos quatro totalmente inédito para mim, em imagem e som cristalinos, de dar gosto.

Na trama, Tyrone Power é um sujeito simpático que é o principal suspeito de ter assassinado uma senhora idosa. Acontece que, para surpresa dos advogados, a esposa do homem parece mais disposta a depor contra ele do que a favor. Fiquei surpreso pelo papel relativamente pequeno de Marlene Dietrich, mas com Laughton em cena a gente até esquece da pouca presença de qualquer outro ator. Ainda assim, as cenas de flashback que o personagem de Power conta são deliciosas, especialmente a que ele relembra do dia em que conheceu sua esposa numa Alemanha destruída pela guerra. Essa é a cena mais sensual do filme, e que convida o espectador a fazer um exercício de complementação entre o visual e a palavra oral. Inclusive, Dietrich faz lembrar seu papel em O ANJO AZUL.

Quanto ao plot twist, é mesmo importante ver o filme sabendo o mínimo possível da trama. Num dos extras no BluRay, destaco um sobre Laughton, que conta que daquele momento feliz da vida do ator. E que a atriz que faz a personagem da enfermeira (Elsa Lanchester, indicada ao Oscar) havia sido sua esposa por um longo tempo no passado, num casamento obviamente complicado, e neste filme eles se encontraram novamente, resultando em cenas muito divertidas

TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO foi baseado num conto de Agatha Christie publicado originalmente em 1925 e que virou uma peça de teatro de sucesso em 1953. Quem teve a ideia da adaptação foi Dietrich, mas ela só queria Wilder na direção. E felizmente o diretor aceitou e fez algo antológico com sua assinatura.

+ TRÊS FILMES


STOP MAKING SENSE

Ver STOP MAKING SENSE (1984) no cinema e em especial na sala IMAX é um privilégio e tanto. Eu, que nunca fui fã dos Talking Heads, fiquei muito empolgando com o show, mas também muito feliz de estar vendo um trabalho feito também como cinema. Quem dera outras grandes bandas tivessem também a sorte de ter um filme dirigido por um cineasta de verdade e com afinidades entre si, como é o caso de Jonathan Demme e a banda de David Byrne. É só lembrar que nos anos 1980, o cineasta havia parido filmes quentes e com forte presença da música, como TOTALMENTE SELVAGEM (1986) e DE CASO COM A MÁFIA (1988). O "maior filme-concerto de todos os tempos", como afirma o cartaz do relançamento da A24, é de fato empolgante do início ao fim. Desde o instante em que Byrne chega com um rádio daqueles típicos dos anos 80 e um violão para tocar uma versão acústica de "Psycho Killer", passando pela chegada da baixista, e depois com o surgimento da banda inteira e a disposição de fazer com que cada canção seja um evento visual único, tudo nos faz ter vontade não apenas de nos aprofundar mais no som da banda, mas de voltar àquele filme novamente, a essa experiência cinematográfica e musical sem igual novamente. Byrne diverte e impressiona com seus movimentos, sua dança e sua energia. De certa forma, fiz bem em não ter ligado muito para a crítica da SET lá do início da minha cinefilia e alugado o filme em VHS, já que ver pela primeira vez numa sala de cinema não tem preço.

OS FANTASMAS SE DIVERTEM (Beetlejuice)

Na época que tomei a decisão de me tornar cinéfilo OS FANTASMAS SE DIVERTEM (1988) já havia sido exibido nos cinemas. E mesmo com todos os elogios da crítica, durante todos esses anos, nunca havia parado para ver o filme. Eis que a sequência vindoura fez voltar em cartaz a hoje clássica comédia que mostra o ponto de vista dos fantasmas que querem expulsar os novos habitantes da casa, em vez da tradicional história de assombração do ponto de vista dos assombrados. Aliás, os novos habitantes quase não são assombrados: querem mesmo é tirar proveito de terem fantasmas em casa para lucrar. Exceto a personagem da garota vivida por Winona Ryder, que na época ainda não tinha atingido a maioridade. Ryder fica amiga do casal de falecidos. Um dos grandes baratos de ver este filme no cinema hoje é perceber o quanto Tim Burton quis apresentá-lo como algo bem artesanal, quase caseiro. Os efeitos visuais não buscam o realismo, e vez por outra passa a impressão de estarmos vendo uma animação. Foi o segundo longa para cinema de Burton, mas o aspecto de produção de baixo orçamento só fica dissonante com a presença de astros do primeiro time de Hollywood - Michael Keaton, Geena Davis, Alec Baldwin e Winona Ryder. Depois desta sessão da tarde anárquica, foi dada a Burton a missão de dirigir BATMAN (1989), projeto ambicioso que fez à sua maneira e novamente com seu amigo Keaton. Mesmo não sendo um fã do cineasta, é difícil não reconhecer seus méritos e suas conquistas. Nunca deixei de ver nenhum filme dele lançado nos cinemas, inclusive.

O SAMURAI (Le Samouraï) 

Sou praticamente um ignorante no cinema de Jean-Pierre Melville. Antes deste filme só havia visto TÉCNICA DE UM DELATOR (1962), que talvez até tenha gostado mais - principalmente por sua violência brutal, que me pegou de surpresa. O SAMURAI (1967) é mais melancólico, ainda que uma melancolia mais centrada na forma e no estilo, menos preocupada na trama. O filme deixa escapar o espírito de seu tempo, um momento mais aberto a experimentações formais. O personagem de Alain Delon é um homem que é pago para matar as pessoas e em determinado momento ele é tido como o principal suspeito de um homicídio pela polícia, o que o coloca num jogo de gato e rato pelas ruas e metrôs de Paris. Delon traz olhares ambíguos e pouco evidentes em seus gestos e suas ações e o filme usa muito pouco as palavras para contar a história, principalmente por parte do personagem de Delon, que fala somente o necessário, acentuando tanto o mistério quanto a elegância (seu sobretudo e seu chapéu são tão importantes que ele não os descarta quando efetua o primeiro crime do filme). Na época que vi O ASSASSINO, de David Fincher, muito se falava de O SAMURAI. Agora compreendo e acho justa a comparação.

domingo, setembro 08, 2024

FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE



O cinema que reflete sobre a vida e sobre a própria arte. Que reflete sobre a vida de uma mulher, como artista e como pessoa, e no caso de Fernanda Young essas duas coisas não são exatamente separadas. Pelo menos, é a impressão que fica depois que vemos FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024), de Susanna Lira. No IMDB também consta o nome de Clara Eyer como codiretora, mas nem todos os sites apresentam o nome de Clara nessa função. De todo modo, o fato de termos um documentário sobre uma mulher e dirigido por uma mulher faz toda a diferença aqui.

Conhecia muito pouco o trabalho de Young. Só havia visto alguns episódios soltos de OS NORMAIS (2001-2003), série que ela escreveu com o marido Alexandre Machado. Também percebo que vi alguns filmes que ela assinou o roteiro, como BOSSA NOVA, de Bruno Barreto e MUITO GELO E DOIS DEDOS D’ÁGUA, de Daniel Filho, mas o grosso do trabalho dela dentro do audiovisual foi para a televisão, principalmente para a Rede Globo.

Vendo o documentário fica claro que ela se via como escritora e ficava um pouco triste de ver que sua obra literária não era devidamente valorizada pelos seus colegas escritores, talvez por seu envolvimento com a televisão ou por seu visual tatuado. Ou quem sabe até por seu ensaio para a revista Playboy. Vendo o filme também percebemos o quanto se desnudar era natural para Young, que achava que o desnudar-se através da poesia era muito mais difícil, ainda que uma necessidade de seu espírito.

A grandeza de FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE está no fato de que é mais do que um filme-ensaio de apresentação de uma artista: é também um filme sobre amor, dor, dislexia, atitude punk, depressão, ansiedade e ser mulher neste mundo. Inclusive, um dos momentos que mais me chamou atenção é sua participação no programa SAIA JUSTA. Ela fez parte da primeira formação do programa, de 2002, junto com Rita Lee e Marisa Orth. Chamou-me a atenção o modo como ela trouxe, com muita sensibilidade, uma canção de Madonna, “What it feels like for a girl”, de modo que nos convida a tentar entender ou refletir sobre o que a letra diz. Outro trecho de música que ela traz – e traz para si, para sua própria vivência – é “Os Cegos do Castelo”, dos Titãs (composição de Nando Reis), uma canção um tanto cifrada, e que ganha um novo olhar com sua tradução, por assim dizer.

O primeiro tópico que o filme traz é o amor. E acredito que Fernanda Young teria aprovado essa opção de Susanna Lira. E ouvir a escritora cantando o clássico de Roberto Carlos “As Canções Que Você Fez pra Mim” no karaokê, depois de ouvirmos na gravação original, é o pontapé inicial desse capítulo do filme, onde vemos trechos de programas de TV que ela roteirizou, como SHIPPADOS, ODEIO SEGUNDAS ou OS NORMAIS, um convite a percebermos em criações artísticas geralmente menos valorizadas sua autoria. Tanto, talvez, quanto em seus livros (de prosa e poesia), vários deles citados na voz de Maria Ribeiro e que se mostram um verdadeiro convite a adquiri-los, como A Sombra das Vossas Asas (2011), Dores do Amor Romântico (2012), Vergonha dos Pés (2012), A Mão Esquerda de Vênus (2016), Pós-F: Para Além do Masculino e do Feminino (2019), Posso Pedir Perdão, Só Não Posso Deixar de Pecar (2019), entre outros.

Inclusive, eu diria que um dos motivos de nos apaixonarmos por Fernanda Young e pelo filme está nos excertos desses livros, desses escritos, dos trechos pungentes que queremos fixar, anotar em algum lugar. Quando saí do cinema, aliás, vi uma das espectadoras dizendo que pretende ver o filme novamente, e isso realmente é uma vontade que temos. Vontade de abraçar o filme, abraçar aquela mulher, abraçar a artista que ficou e o quanto soube falar tão bem das dores e das perturbações provocadas pela depressão e pela ansiedade. Mas ela fala tudo de maneira tão apaixonada que é difícil não se pegar também apaixonado.

Achei muito interessante quando ela falou que usava a depressão como agente para que ela trabalhasse e saísse pra correr, se exercitar. Não como algo que paralisa, embora ela deixe claro que a doença chega nas pessoas de maneira muito diferente. Uma coisa que adorei foi a ideia que ela teve de colocar um aviso com uma luz escrito “divina” na porta de seu quarto, para acender nos momentos que estivesse trabalhando, nos momentos que estivesse inspirada e colocando pra fora essa inspiração.

O documentário usa vários trechos de filmes para ilustrar suas obras literárias e para entrecortar imagens de arquivo, como que colocando num plano onírico as suas falas, os seus pensamentos. Como se esses pensamentos fluíssem para muito além do nosso plano terreno. As imagens em preto e branco de filmes variados, de artistas como Man Ray, Maya Deren, Joseph Losey e Dziga Vertov, entre outros, se harmonizam com seus poemas e trechos de prosa.

Fiquei muito feliz de ter visto esse filme. E ainda saí do cinema escutando no carro Madonna e Roberta Miranda.

+ TRÊS FILMES

NADA SERÁ COMO ANTES – A MÚSICA DO CLUBE DA ESQUINA

Tenho que confessar que até hoje não consegui entrar no clássico álbum Clube da Esquina. Por entrar, quero dizer compreendê-lo mais profundamente, principalmente pelo caminho das emoções (que é o que mais faz sentido pra mim, em se tratando de música). Certamente me faltou dedicação, mas também faltou, até o momento, uma identificação maior. Junte-se a isso, no caso da sessão, um sono proveniente da crise alérgica no horário tradicional das 18h e eis que o resultado foi uma sessão bem ruim. A impressão que ficou de NADA SERÁ COMO ANTES – A MÚSICA DO CLUBE DA ESQUINA (2023), de Ana Rieper, foi de um especial para a televisão, com entrevistas dos envolvidos no disco. Há poucas imagens de arquivo e mais uma busca de reconstituição através de depoimentos muitas vezes apaixonados, especialmente de Lô Borges. Não entendi a escolha da diretora por uma janela scope para um documentário quadrado como este.

TODAS AS VIDAS DE TELMA

Temos aqui mais um filme que me enganou direitinho. TODAS AS VIDAS DE TELMA (2022), de Adriana Botelho, pega uma história real (de uma mulher chamada Telma Saraiva) e a partir daí cria uma narrativa de ficção com características de documentário de busca. Até mesmo a personagem que manipula a câmera é uma criação da diretora e roteirista. O filme foi rodado em 16 mm e depois convertido em digital com som adicionado e esse formato causa uma agradável estranheza. Faz lembrar VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO, de Aïnouz e Gomes, inclusive nas cenas em que a protagonista está na estrada, se dirigindo à cidade de Crato-Ce, local onde viveu a mulher que fazia fotopinturas (lembro que o costume dessas fotos pintadas chegou a minha casa na minha infância; hoje parece artigo de museu, pouca gente quer exibir nas paredes). Para completar, a história acontece durante a pandemia, mas com as pessoas viajando e fazendo turismo com certa leveza. Acho que me perdi um pouco lá perto do final, com o filme trazendo outras questões também, como o machismo em todos os lugares públicos e a invisibilidade do legado de Telma e a lembrança da cidade do Crato de décadas atrás.

INCOMPATÍVEL COM A VIDA

Eis um filme que nasce não apenas de uma dor, mas de várias. Afinal, o assunto que a diretora Eliza Capai traz para INCOMPATÍVEL COM A VIDA (2023) é o das gestações interrompidas, por má formação do feto, ou perda da criança bem no inicio do nascimento. Perdi no cinema, mas o filme entrou na MUBI, em glorioso 4K, que valoriza as cenas que envolvem mares ou rios. Afinal, o simbolismo da água ainda é algo forte quando se fala sobre maternidade e funciona muito bem, tanto para momentos de respiro das histórias quanto para enfatizar a dor das mulheres. O flme também traz à tona a questão da proibição do aborto no Brasil em comparação com o Portugal, que está bem mais adiantado na questão. Achei corajosa a proposta de Capai em mostrar a si mesma naquela situação, e também muito inteligente em trazer paralelismos com casos similares de outras mulheres, fazendo com que essas experiências ganhem mais força e voz. Uma das coisas que me pegou muito foi uma cena de despedida, cheia de amor. Não estava esperando, e, nesse sentido, a montagem é crucial para que o momento certo de certas partes seja anunciado num instante mais sábio.

quinta-feira, agosto 15, 2024

MAIS PESADO É O CÉU



A figura de um bebê (ou de um feto) é recorrente nos trabalhos de Petrus Cariry. Em MÃE E FILHA (2011) a criança nasceu morta, mas a avó, em negação, prefere niná-la, “botá-la para dormir” na rede. A criança, geralmente associada ao futuro, deixa de existir. Como se o futuro também não existisse, o que existe são apenas paisagens desérticas, casas abandonadas, fantasmas. Em A PRAIA DO FIM DO MUNDO (2021), a criança está prestes a nascer. Uma das personagens está grávida e quer sair daquela cidade prestes a ser invadida pelo mar. Sua mãe, no entanto, não quer ir embora. Prefere ficar e até mesmo rasgar suas fotos, rasgar todos os seus registros de memória, como se tivesse a intenção de matar também o seu passado.

Em MAIS PESADO É O CÉU (2023), a criança está viva e chora constantemente para ser alimentada, como se fizesse questão de viver, não importando o mundo frio e tenebroso que receberá de herança. Ela fora abandonada dentro de um barco à beira do Açude Castanhão e é encontrada por Teresa (Ana Luiza Rios, O CLUBE DOS CANIBAIS), uma mulher que já morou na extinta cidade de Jaguaribara, agora coberta pelas águas. No caso da criança de MAIS PESADO É O CÉU, ela é agente propulsora da sobrevivência, já que ela, mais à frente batizada de Miguel, passa a ser o ponto de união para o casal vivido por Teresa e Antônio (Matheus Nachtergaele). Em comparação com as demais crianças, essa é a que mais parece ter um futuro, seja lá qual for esse futuro.

O universo de Petrus Cariry é para os fortes. Mas mesmo os fortes às vezes se veem numa situação tão difícil que acreditam que não vão mais suportar. MAIS PESADO É O CÉU, mesmo sendo um filme duro, eu diria que é o mais clássico do diretor, mas, como dá para perceber, ele faz isso sem deixar de lado suas marcas, suas obsessões. Talvez por isso seu sétimo longa tenha chegado ao circuito antes do excelente sexto, A PRAIA DO FIM DO MUNDO, mais hermético, por assim dizer.

O novo filme é mais convidativo ao grande público. Trata-se de uma espécie de "road movie a pé" com dois personagens vivendo vidas miseráveis numa cidade próxima a um açude que cobriu uma cidade inteira – há diversos diálogos sobre essa falta que a cidade faz, como se fosse uma falta na alma. E os diálogos muitas vezes são ditos em tom antinaturalista, o que causa um estranhamento bem-vindo. Na trama, Antônio e Teresa são duas pessoas que não têm para onde ir e que se encontram junto ao bebê que logo é "adotado" por ela e depois pelos dois. Teresa nunca chega a dizer que a criança não é sua, como se aquela criança fosse uma espécie de presente de Deus. 

Em busca de um trabalho ou de qualquer coisa que traga um pouco de comida e sustento, andam feito fantasmas, feito mortos-vivos numa cidade que não os acolhe, a não ser por uma mulher (Sílvia Buarque), que parece destruir seus sonhos de sairem daquele lugar. Em alguns momentos parece uma espécie de O ANJO EXTERMINADOR, o filme de Luis Buñuel em que pessoas ficam presas misteriosamente numa casa. Aqui o espaço é maior, uma cidade com pessoas bem pouco afáveis (o que faz lembrar um pouco o incrível PELOS CAMINHOS DO INFERNO, de Ted Kotcheff), e isso vai se tornando ainda mais visível na busca de Teresa pelo dinheiro de cada dia, nas estradas. Essa busca pelo dinheiro é extremamente dura para a mulher: prostituir-se por uma miséria com caminhoneiros agressivos.

Petrus, como excelente diretor de fotografia que também é, enche a tela com aquele céu azul e bonito, mas que se torna ameaçador nos momentos finais, com as nuvens carregadas e com a trilha sonora de João Victor Barroso, que vai impregnando aos poucos a vida daquelas duas pessoas (e do bebê) de um ar crescente de perigo, mas um perigo diferente do que geralmente vemos em filmes de horror. No entanto, sabemos, sim, do carinho que Petrus tem pelo cinema de horror e como ele mesmo tratou de contribuir para o gênero mais explicitamente em CLARISSE OU ALGUMA COISA SOBRE NÓS DOIS (2015) e mais sutilmente em quase todos os demais trabalhos.

Aqui o perigo de um assassino à solta precisa disputar com a angústia e a falta de perspectiva dos heróis, esse sim o grande horror, o horror do dia a dia, o horror de morrer de fome, de perder cada vez mais o que lhes resta de dignidade. Tanto que em determinado momento, ao olhar para fotografias antigas de pessoas velhas e mortas, Antônio chega a pensar se não seria melhor estar morto. Até mesmo a cena de sexo entre os dois é uma cena totalmente despida de sensualidade, de vida mesmo. Teresa faz sexo com seu companheiro talvez por pena, ou talvez porque suas experiências sexuais de sobrevivência tenham sido apenas com pessoas destituídas de amor e ela quisesse um pouco de ternura.

A fotografia em scope, deslumbrante, valoriza os espaços da tela e nos traz aquela certeza de que é o cinema, a telona, e não a telinha da tevê, o lugar ideal para ver um filme dessa magnitude, de um de nossos maiores autores.

+ TRÊS FILMES

A METADE DE NÓS

Para um filme que se propõe a tratar do luto de um casal de idosos diante da perda do filho que cometeu suicídio, não sei se me senti tão comovido ou tocado. De todo modo, A METADE DE NÓS (2023), de Flavio Botelho, não tem uma estrutura de um melodrama. Sua abordagem é mais seca e mais dura, inclusive com a ausência de música. O filme fica um pouco mais problemático no momento em que passa a mostrar as diferentes maneiras com que os personagens de Denise Weinberg e Cacá Amaral lidam com a ausência do filho e o desconhecimento de seus problemas. Ainda assim, é um filme que se mantém sempre intrigante e interessante. O uso de uma fotografia em tons frios ajuda a compor o universo retratado.

UMA FAMÍLIA FELIZ

José Eduardo Belmonte faz sua segunda parceria com Grazi Massafera, mais de dez anos depois do muito interessante BILLI PIG (2012). Desta vez, sai a comédia e suas cores vibrantes, entra o suspense com toques de terror associado a muitas cenas escuras (infelizmente a sala 11 do Iguatemi também não estava em suas melhores condições e a fotografia de penumbras acaba ganhando esse elemento que mais prejudica). UMA FAMÍLIA FELIZ (2023) é um jogo de aparências, que vai deixando pistas e dúvidas sobre as ações dos personagens, seja a protagonista (Eva, Grazi), seja o marido (Vicente, Reynaldo Gianecchini). Eva é uma mulher que tem uma empresa de confecção de bonecas hiperrealistas que tem uma criança com o marido, Vicente, um homem carinhoso, mas que de vez em quando se apresenta pouco compreensivo com ela. O filme vai ganhando contornos de suspense gradualmente, mas o tom já é dado a partir do prólogo, retirado de uma cena de sua parte final. O jogo que Belmonte faz com o cinema de horror mais clássico é muito interessante, tanto quando apresenta as bonecas, quanto quando mostra as gêmeas, que às vezes lembram as meninas fantasmas de O ILUMINADO. As duas meninas são filhas do casamento anterior de Vicente, mas tratam Eva como mãe e certas informações são passadas muito suavemente ao longo da trama. O ideal é ver o filme sabendo o mínimo possível, de modo que as viradas de roteiro sejam melhor apreciadas. Vale destacar também a excelente performance de Grazi. Em alguns momentos, sua atuação faz lembrar a de protagonistas de filmes de Roman Polanski, como REPULSA AO SEXO e O BEBÊ DE ROSEMARY, esse último por conta do sentimento de paranoia por que ela passa, e que contamina a audiência. O filme é baseado no romance homônimo de Raphael Montes, escritor que se tornou mais famoso recentemente, graças ao sucesso da série BOM DIA, VERÔNICA. Aqui ele assume também o papel de roteirista.

REPRESA

Foi interessante ver REPRESA (2023) um dia após ter experienciado A CIDADE DOS ABISMOS. Sair de uma obra tão experimental e mais vanguardista, por assim dizer, para assistir a uma narrativa mais naturalista e aparentemente simples foi quase um choque. Felizmente um choque muito bom, já que o diretor Diego Hoefel tem um domínio de direção de atores excelente, o que faz com que personagens do sertão cearense pareçam estar sendo eles mesmos, e não interpretando um papel, principalmente Gil Magalhães, que interpreta Robson, o homem que trabalha como guia turístico do local. Além do mais, os momentos engraçados aliviam bastante o drama dos personagens. Na trama, Renato Linhares (ANA. SEM TÍTULO) é um homem gaúcho que chega a um espaço árido no sertão cearense cujas pessoas vivem o luto de ter perdido uma cidade inteira para a construção de uma represa. REPRESA foi exibido no Festival de Roderdã e é uma produção da Tardo de Ticiana Augusto Lima, que esteve presente junto com o diretor Diego Hoefel e equipe à sessão especial no Cinema do Dragão.

sábado, agosto 10, 2024

ARMADILHA (Trap)



Quem diria. ARMADILHA (2024) já é o 16º longa-metragem de M. Night Shyamalan. O cineasta que ainda tem como auge de popularidade um filme do século passado, O SEXTO SENTIDO (1999), e que começou a aumentar a quantidade de haters a partir mais ou menos de A VILA (2004) e A DAMA NA ÁGUA (2006), ao mesmo tempo que foi conquistando defensores e fãs mais ardorosos justamente nesse momento, começou a ser mais benquisto por uma parcela maior de espectadores desde A VISITA (2015). Shyamalan também fez uma carreira muito interessante na televisão, sendo voz fundamental em obras como WAYWARD PINES (2015-2016) e SERVANT (2019-2023).

Aliás, SERVANT tem tudo a ver com este novo filme. Pois foi nesta série que o cineasta deu espaço a sua filha Ishana Night Shyamalan, que havia trabalhado como assistente de direção do pai em TEMPO (2021), dirigiu seis episódios da série, alguns dos melhores e mais bem cuidados no uso de câmera e direção de arte, e estreou no cinema como diretora de longa-metragem este ano com OS OBSERVADORES, filme que a maior parte da crítica não curtiu, mas de que gostei muito. Muito mesmo.

Em ARMADILHA, Shyamalan se mostra novamente um paizão, ao dar espaço agora para sua filha mais velha, Saleka Shyamalan, cantora e compositora de música pop/r&b. Para o novo filme do pai, ela compôs 14 canções. Eu, como pouco apreciador da música pop do novo milênio, acho tudo monocromático e sem graça, mas quem tem que dizer se a música é boa ou não é a nova geração, os jovens que estão mais sintonizados com o zeitgeist. Mas o que conta aqui nessa história de pai que faz de tudo pelas filhas, e que pode receber as mesmas reclamações que Francis Ford Coppola recebeu quando escalou Sofia para O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III, é que ARMADILHA é também a história de um pai que faz de tudo por sua filha.

O problema é que esse pai é um serial killer. E justamente no dia que ele resolve estar com a jovem adolescente (Ariel Donoghue) no show de seu ídolo, a cantora pop Lady Raven (Saleka Shyamalan), ele se vê preso numa força-tarefa da polícia para prender o “Açougueiro”, como é chamado o assassino que deixa suas vítimas em pedaços usando um cutelo. Inclusive, no momento em que ele está com a filha, uma de suas vítimas estava amarrada num local secreto. Outra coisa que deixa claro neste trabalho de Shyamalan é que ele passa um pouco longe da violência gráfica, embora esbanje na construção de suspense e tensão. Se bem que o diretor não é tão famoso pela violência mesmo. Seu filme mais violento talvez seja BATEM À PORTA (2023).

Nesse sentido (e também na questão da nudez), ele guarda certo distanciamento de Brian De Palma, o cineasta com quem se aproxima em ARMADILHA. Aliás, eu diria que na falta de De Palma, percebo no novo filme de Shyamalan uma aproximação muito grande com o cineasta mais hitchcockiano da Nova Hollywood. Pra começar, a produção conta com três países, o que lembra a fase tardia de De Palma. Além do mais, toda a longa parte que se passa no show pop lembra bastante OLHOS DE SERPENTE, com aquela câmera que perscruta o ambiente, com o olhar nervoso do protagonista vivido por Josh Hartnett, que esteve em DÁLIA NEGRA e que aqui aparece em registro bem diferente.

O assassino tem visões de uma senhora idosa que o assombra, e que mais tarde saberemos ser sua mãe e isso facilmente nos remete a PSICOSE, inclusive na dualidade do personagem, que se divide numa vida dupla de bombeiro e pai de família atencioso e de assassino serial. E assim como o filme de Hitchcock, este aqui é redondinho, uma delícia de assistir, sem parecer ter uma barriga ou um problema eventual de ritmo, que de vez em quando acomete certos filmes de Shyamalan.

O final nos faz pensar no mundo atual, em que a atenção pela família esconde os aspectos sombrios de certas pessoas. Além do mais, há uma ambiguidade e até uma simpatia pelo assassino muito interessante, e que é também uma marca hitchcockiana. (Queria muito saber a opinião de De Palma sobre este filme.)

Uma coisa que me chamou a atenção em ARMADILHA foi a fotografia, que me pareceu bem mais despojada do que na maioria das obras do diretor, que pareciam pinturas filmadas, com um cuidado formal maior na construção do quadro. Talvez desta vez Shyamalan tenha se preocupado mais na criação da atmosfera de suspense e tensão e tenha deixado de lado um pouco a beleza visual que lhe é característica. Mas a gente perdoa, pois é um baita filme, sim. Além do mais, a direção de fotografia é de ninguém menos que o tailandês Sayombhu Mukdeeprom, da obra-prima MEMORIA e do recente RIVAIS, entre outros trabalhos de respeito.  

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CLUBE DOS VÂNDALOS (The Bikeriders)

Jeff Nichols tem uma especial atração por personagens brancos e ignorantes do meio-oeste americano. Isso pode ser visto com ainda mais clareza neste CLUBE DOS VÂNDALOS (2023), em que o cineasta se detém em pessoas que têm como estilo de vida andar de motocicleta em grupos, beber e conversar. Para enfatizar o ambiente cheio de testosterona a personagem de Jodie Comer se vê logo de início ameaçada por aquele grupo enorme de homens. Assim, ela vai parar na garupa do rapaz por quem se sente atraída, o mais rebelde do grupo, aquele que nem sequer trabalha, o jovem vivido por Austin Butler, ainda em processo de sair do personagem Elvis, que tanto o marcou. CLUBE DOS VÂNDALOS é também uma espécie de triângulo amoroso mais ou menos sutil, já que o personagem de Butler é também disputado e querido pelo líder do grupo de motoqueiros, vivido por Tom Hardy. O filme me cansou um pouco, menos pela narrativa e mais pelos personagens pouco atraentes intelectualmente. Por outro lado, é possível pensá-lo como um convite à reflexão sobre a violência em crescimento em grupos muito masculinizados e em como isso está ainda bastante entranhado na sociedade. E o que antes era visto como algo rebelde e mais à esquerda nos tempos da contracultura, hoje é visto como algo mais próximo de uma extrema direita.

PLANETA DOS MACACOS – O REINADO (Kingdom of the Planet of the Apes)

Confesso que a saída de Matt Reeves do comando da franquia havia me deixado um pouco desestimulado a ver este novo filme. A direção de PLANETA DOS MACACOS – O REINADO (2024) é de Wes Ball, o sujeito que fez a pouco brilhante franquia MAZE RUNNER (2014-15-18). Mesmo assim, o resultado é bom o suficiente para ficarmos interessados na trama e em seus personagens até o fim. Além do mais, como todo bom filme dessa leva dos macacos, temos aqui uma obra que traz discussões políticas relevantes para o atual momento. A trama, agora sem a presença do excelente protagonista César, se passa vários anos após a sua morte, e novos personagens são apresentados. Um deles é o jovem chimpanzé Noa, que vai ter que passar por uma prova de fogo muito maior do que esperava ao atingir a maioridade. No mundo de Noa, há poucos humanos à vista e a maldade dos demais macacos ainda não havia chegado a sua aldeia. Um dia chega, porém. A jovem personagem feminina, Mae (Freya Allan, vista recentemente em A BRUXA DOS MORTOS – BAGHEAD), tem boa presença de cena, embora não consiga roubar os momentos de Noa e do orangotango Raka. Senti falta de cenas de ação melhores, mas o resultado é um feijão com arroz gostoso.

AS BESTAS

Vendo AS BESTAS (2022), de Rodrigo Sorogoyen, lembrava-me vez por outra de PROPRIEDADE, o ótimo filme de Daniel Bandeira que também é um suspense muito tenso, com forte e complexo comentário social. No filme espanhol vencedor do Goya 2023, temos uma situação ainda mais tensa. Na verdade, é tão fácil se colocar no lugar do personagem de Denis Ménochet (PETER VON KANT) que rapidinho estamos vivendo junto com ele todo o terror que ele vem passando. Na trama, esse homem e sua esposa (Marina Foïs, ENORME) são proprietários de uma pequena fazenda na Galícia. O problema é que eles não são benquistos por certas pessoas da vila, em especial os dois irmãos que são seus vizinhos. Há um cuidado que o filme tem com a construção do medo dentro de espaços abertos que hoje é o melhor exemplo de criação do horror nesse sentido que me vem à mente. Além de muita tensão, o filme é carregado de uma desesperança que pode nos contaminar, caso estejamos um pouco mais fragilizados.

quinta-feira, agosto 01, 2024

DEADPOOL & WOLVERINE



Estava com uma preguiça imensa de escrever sobre DEADPOOL & WOLVERINE (2024), mas talvez consiga fazer isso de maneira prática e rápida, até porque costumo escrever sobre os filmes de super-heróis aqui para o blog, com algumas exceções, nem que seja só para bater ponto. Vi o filme na pré-estreia, na quarta-feira, no Cine Del Paseo, e havia dois sujeitos vestidos como os heróis do filme, para fazer graça ao público presente. As vestimentas estavam bem-feitas, o que me levou a pensar que aquilo fazia parte de um marketing bem pago, talvez até pela Disney (será?) ou pela própria rede de cinemas. Mas acontece que a sala escolhida não era das mais animadas e as pessoas pareciam não se importar com esses personagens coloridos, o que tornava a presença deles um tanto constrangedora.

A gente sabe que os filmes de Deadpool são construídos a base de muita bobagem e humor, mas, mesmo assim, com um filme com classificação indicativa de 18 anos talvez esse tipo de humor físico e infantil não estivesse atingisse o público apropriado. Será que quem contratou pensava que era filme para todas as idades? Sei que se divertir depende muito do estado de espírito, que tem dias que a gente ri do vento, como dizem, mas nunca vi muita graça no Deadpool.

O novo filme, agora a cargo de Shawn Levy, diretor de filmes parecidos com sessões da tarde, como GIGANTES DE AÇO (2011) e FREE GUY – ASSUMINDO O CONTROLE (2021), portanto parceiro de Hugh Jackman e de Ryan Reynolds, tem um trunfo e tanto ao trazer também Wolverine, personagem querido e morto em LOGAN, de James Mangold, lá em 2017. E LOGAN tem essa cara de filme muito sério, muito dramático e o próprio Jackman não queria mais voltar ao personagem depois de ter lhe dado adeus. Mas a gente sabe que dinheiro compra quase tudo e aqui está o herói de garras de adamantium de volta, e com o mesmo ator (“até os 90 anos”, dizia Deadpool). A saída para trazer o herói desta vez foi a noção de multiverso aprofundado na série do LOKI e o Wolverine deste filme é uma variação de outro universo, um Wolverine que se acha o ser mais fracassado do universo.

Os filmes de super-heróis nos últimos anos acabaram criando uma subcategoria: a dos filmes que se importam mais em explorar referências do que em contar uma boa história. Vimos isso em DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA, em HOMEM-ARANHA – SEM VOLTA PARA CASA e em THE FLASH. Levando isso em consideração, sobra pouco de novidade para DEADPOOL & WOLVERINE, a não ser explorar ainda mais os títulos da companhia, desta vez os produzidos pela Fox, como uma espécie de despedida.

E não nego que algumas dessas brincadeiras são legais, principalmente se vistas de maneira isolada, com o aparecimento surpreendente de certos personagens do passado, mas a história é bem "qualquer coisa", talvez confiante demais dos dois heróis. A equipe de roteiristas não conseguiu criar um tipo de humor mais eficiente. Ou seja, o filme vai agradar quem já é fã das piadas bobas de Deadpool, de seu estilo e de uma quarta parede que deixou de ser novidade. Mas mesmo cansado desses filmes, desejo boa sorte à Marvel no próximo ano. Ainda mais depois do recente anúncio do retorno de Robert Downey Jr. ao MCU, que serviu para trazer uma boa dose de animação para o filão.

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TWISTERS

Divertida e dinâmica “continuação” do original de 1996. Este tipo de filme tem como principal base as boas cenas de passagens dos tornados e a destruição que eles provocam das mais diferentes e criativas maneiras. O que há de humano em TWISTERS (2024), de Lee Isaac Chung, se deve principalmente à presença de Daisy Edgar-Jones (eternamente querida por causa da série NORMAL PEOPLE). Essa moça tem muito talento e ganha o filme para si, bem mais que o novo queridinho do momento, Glen Powell, que faz um bom trabalho como interesse amoroso da história e inicialmente rival da protagonista feminina, que carrega consigo uma memória trágica envolvendo tornados. Tenho impressão de que os efeitos visuais de hoje parecem tão parecidos com videogames que já não impressionam mais ninguém. Não duvido nada que o filme anterior até funcione melhor nesse quesito. Ainda assim, é uma diversão garantida.

DIVERTIDA MENTE 2 (Inside Out 2)

Acho que estou ficando velho para essas animações da Disney e da Pixar. Quando foram apresentados os novos personagens-emoções me senti representado por dois deles, a Ansiedade e o Tédio. DIVERTIDA MENTE (2024) sofre com excesso de falas e de um dinamismo exacerbado que me parece uma busca desesperada de não cansar o espectador, especialmente as crianças menores, mesmo as que não entendem muito da complexidade dos sentimentos humanos que o filme busca retratar. No entanto, essa busca de não cansar é que acaba me cansando ou me deixando bem pouco interessado. Felizmente, lá pela metade o filme vai ficando mais interessante quando a personagem Alegria ganha um pouquinho mais de profundidade (a alegria pela alegria é algo muito superficial). Claro que uma produção da Pixar faz uma diferença em comparação com outras de outros estúdios. Há todo um cuidado visual e aqui há até mesmo uma pesquisa no campo da psicologia para tratar de problemas de ansiedade e da chegada da puberdade. Mas houve outra coisa que me incomodou: a sala 3 do UCI Parangaba (justamente a XPlus!) está com uma leve tremida e aguentei toda a metragem por ser dublado e eu poder fechar os olhos de vez em quando para não me sentir tão afetado. Ainda assim, eu e a Giselle saímos e fomos a uma farmácia comprar um colírio anti-inflamatório pra mim. Até quando as redes de cinema vão dar a devida atenção a todos os "detalhes" de uma projeção?

FURIOSA – UMA SAGA MAD MAX (Furiosa – A Mad Max Saga)

Expectativa pode ser inimiga do espectador. Além do mais, esperar algo tão impactante quanto MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA (2015) é querer muito de George Miller. A paleta de cores de FURIOSA – UMA SAGA MAD MAX (2024) é igual e há a intenção de contar um outro tipo de história de vingança – o primeiro MAD MAX (1979) já era uma história de vingança num mundo devastado. O que dá gosto de ver neste novo filme é a beleza das tomadas, o olhar de Anya Taylor-Joy, mesmo quando coberta por sujeira ou outro tipo de protetor contra a areia e o vento do deserto. Chris Hemsworth faz um vilão tão carismático (e de certa forma simpático) que não consegui me encher de fúria para ir atrás da vingança junto com a heroína. Também acaba depondo contra o filme de Miller o fato de não ser mais uma novidade, mas um retorno ao universo do filme anterior, à loucura das cenas com carros e motos e pessoas sendo atropeladas ou se suicidando. É um filme quase mudo, da herança de um Buster Keaton, no sentido de não haver tantos diálogos e de ser um cinema mais físico, apesar do CGI. Miller nos apresenta a um mundo tão desesperançado que até o momento digamos romântico do filme sai prejudicado, como se todos ali tivessem que ser tão fortes quanto cruéis, não apenas para sobreviver, mas até para sentirem certo prazer naquela existência amarga. Gosto do final e lamentei não ter revisto o ESTRADA DA FÚRIA imediatamente antes, de modo a fazer as devidas conexões. 

domingo, julho 28, 2024

TORMENTA SOB OS MARES (Hell and High Water)



Havia visto poucos filmes que se passam em submarinos. Digo, filmes que tratam de batalhas submarinas, mesmo. Os mais marcantes foram U-571: A BATALHA DO ATLÂNTICO, de Jonathan Mostow, e K-19: THE WIDOWMAKER, de Kathryn Bigelow, mas confesso que, mesmo assim, apesar de lembrar de ter gostado deles, a memória já dissipou muita coisa de suas tramas e atmosferas. Eis que vejo TORMENTA SOB OS MARES (1954) e fico encantado com esse universo tão pouco explorado no cinema. Ou pelo menos tão pouco visto por mim, em minha trajetória como cinéfilo. 

Por mais que seja encarado como uma das obras menos queridas de Samuel Fuller, o filme me agradou muitíssimo. E é uma das produções mais caras, até então, do diretor, mais uma vez com o apoio da Fox, numa de suas fases mais felizes do ponto de vista de conseguir apoio financeiro. Mais adiante haverá um período de vacas bem magras, mas chegaremos lá.

Há um jogo de gato e rato entre dois submarinos em TORMENTA SOB OS MARES que me deixou fascinado. Fuller faz um trabalho de tensão incrível numa ação que se passa debaixo d'água. Richard Widmark volta a trabalhar com o diretor depois do excelente ANJO DO MAL (1953), desta vez como um mercenário contratado por um grupo de homens que tem o interesse de investigar possíveis ações de comunistas na utilização de uma bomba atômica. Ele aceita o trabalho pelo dinheiro, enquanto o cientista vivido por Victor Francen está ali por algum tipo de patriotismo, mesmo não sendo americano.

Adam Jones, o personagem de Widmark, tendo tido uma experiência em guerra, faz questão que o submarino esteja equipado com torpedos e outras armas, por mais que o professor diga que a missão é apenas de investigação. E de fato, mais a frente veremos que Jones tem razão, já que seu submarino será não apenas perseguido, mas também atacado pelos chineses que se instalaram numa das ilhas do Pacífico em situação de neutralidade, não pertencendo nem ao bloco capitalista, nem ao comunista.

O filme conquista nossa atenção desde o começo, quando a missão é estabelecida ao comandante (Widmark) e vai ficando ainda mais interessante quando todos entram à bordo, inclusive uma cientista mulher, vivida por Bella Darvi (então amante do produtor Darryl F. Zanuck), que desperta o interesse dos homens logo de cara, ao mesmo tempo que é rejeitada, a princípio, por um dos tripulantes, que diz que mulher traz má sorte dentro de um submarino.

Talvez eu não tenha gostado tanto da conclusão, um pouco conveniente demais, o que não quer dizer que não funcione. Vejo o filme como quase perfeito até mais ou menos o momento em que Widmark e Darvi descem à ilha e o momento mais perfeito mesmo é o citado por mim no início do texto, quando há todo um trabalho visual incrível, com movimentos de câmera dentro daquele espaço valorizado pelo CinemScope, e o uso de luz vermelha, usada para facilitar o acostumar-se com a visão noturna. 

TORMENTA SOB OS MARES também tem a objetividade de outros filmes de Fuller que se assemelham ao bom jornalismo, seja pelo interesse pela verdade, seja por saber contar de maneira dinâmica e simples um enredo de raízes e preocupações históricas, mas com uma assinatura que está presente tanto nos aspectos formais quanto na construção de seus personagens, caso de filmes como EU MATEI JESSE JAMES (1949), O BARÃO AVENTUREIRO (1950), BAIONETAS CALADAS (1951) e A DAMA DE PRETO (1952), para citar trabalhos anteriores do realizador.

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A MARCA DO VAMPIRO (Mark of the Vampire)

Esta nova parceria de Tod Browning com Bela Lugosi depois do sucesso de DRÁCULA (1931) só não parece tanto uma continuação por ser uma obra mais divertida, no sentido de engraçada. Se não me engano, a produção de A MARCA DO VAMPIRO (1935) é mais barata, mas até isso, inclusive o cenário mais fake, faz parte da graça e até combina com a conclusão. Gosto do visual, tanto do cemitério com morceguinhos com efeitos práticos primários, quanto da casa cheia de teias de aranha habitada pelo Conde Mora e sua filha. Bela Lugosi praticamente não fala o filme inteiro e Lionel Barrymore rouba as cenas, principalmente a partir da segunda metade, quando passa a ser o grande protagonista. Gosto da virada final da trama deste filme de apenas 60 minutos - ao que parece, algumas cenas foram deletadas antes do lançamento final, deixando de fora alguns nomes que aparecem nos créditos iniciais. Visto no box Drácula no Cinema Vol. 2.

QUERO VIVER! (I Want to Live!)

Filmes sobre pessoas sendo vítimas da pena de morte sempre me maltratam muito. Mas faço questão de vê-los. Esses filmes acabam por nos fazer refletir no quanto o sistema é pensado por pessoas tão sádicas quanto os nazistas dos campos de concentração. E, não é de se admirar se pensarmos que os Estados Unidos é o único país a ter lançado bombas atômicas em cidades até hoje. QUERO VIVER! (1958), de Robert Wise, é um filme a que eu me devia ver há muito tempo, quando recebeu elogios na seção de videolançamentos da saudosa revista SET, nos tempos do VHS. Aqui temos uma das interpretações mais intensas do cinema produzido em Hollywood, com Susan Hayward ganhando seu merecido Oscar. É um grande filme que faz pensar no absurdo da pena capital, em um contexto muito humano. Por mais que a personagem seja inocente, isso deixa de ser tão importante nos instantes finais do filme, os mais poderosos, quando a música jazz deixa de estar presente e o silêncio é tão marcante e incômodo quanto a espera angustiante pelo momento da morte ou por uma suposta ligação do governador, que tem o poder de adiar ou mesmo cancelar a execução. O adiamento, aliás, é outro elemento de tortura, assim como parece ser toda aquela bondade que a mulher passa a receber das pessoas a seu redor, que fazem o possível para dar a ela o conforto em seus instantes finais, inclusive no modo elegante como ela estará vestida para seu momento derradeiro. Um filme tão duro e tão incrível quanto A SANGUE FRIO, de Richard Brooks. Visto no box Filme Noir – Filmes de Tribunal, que conta ainda com uma excelente análise de 40 minutos do crítico francês Rafik Djoumi, nos extras.

LUCÍOLA, O ANJO PECADOR

Impressionante esta adaptação de um dos clássicos mais ousados do romantismo brasileiro. Não cheguei a ler o romance Lucíola (1862), de José de Alencar, mas já percebo a ousadia de contar essa história, por mais que no filme não se esconda que já havia um outro romance clássico que também tratou de uma história de amor de um homem por uma cortesã, nome mais bonito para prostituta, mas que na época não chegava a diminuir o peso desse papel na sociedade. O outro romance, referenciado no filme, é A Dama das Camélias (1848), de Alexandre Dumas, que Lucíola é pega lendo, inclusive. Na trama de LUCÍOLA, O ANJO PECADOR (1975), de Alfredo Sternheim, Carlo Mossy é um rapaz que chega de Recife e fica encantado com a beleza e o fascínio de Lucíola, a mais famosa e rica cortesã do Rio de Janeiro. Os dois logo se sentem atraídos um pelo outro, mas as convenções sociais e o preconceito perturbam a relação, por mais que eles façam o possível para ficarem juntos. Claramente estão apaixonados, embora declarações de amor mais explícitas fiquem presas por um bom tempo. Sternheim não se importa em construir um melodrama de época cheio de arroubos dramáticos, principalmente no final. Até porque se havia a intenção de se aproximar do romance de Alencar isso se fazia preciso. As únicas concessões feitas são as breves cenas de nudez de Rossana Ghessa. Breves e sutis, mas provavelmente ousadas para as produções de meados dos anos 1970. Pena que a cópia existente do filme seja bem ruinzinha. A vantagem é que o filme é bom o suficiente para que esse tipo de problema possa ser esquecido em alguns momentos.

segunda-feira, julho 22, 2024

O SEQUESTRO DO PAPA (Rapito)



De carreira longeva (dirige filmes desde a década de 1960) e considerado por muitos o maior cineasta italiano em atividade, Marco Bellocchio é um diretor cuja obra lamento não conhecer o suficiente, embora não deixe de conferir cada novo trabalho seu lançado nos cinemas desde pelo menos BOM DIA, NOITE (2003), ainda que tenha perdido alguns de lá pra cá. Na aurora de minha cinefilia, o nome de Bellocchio já era bastante citado e lembro que a revista SET destacava filmes como OLHOS NA BOCA (1982) e DIABO NO CORPO (1986) em suas páginas, filmes que até hoje não vi. Os anos 1990 aparentemente não foram tão bons para o cineasta.

O SEQUESTRO DO PAPA (2023) não é apenas mais uma obra do cineasta para nos deixar felizes, mas um dos melhores lançamentos deste ano. O filme trata de uma história real tão chocante quanto dolorosa e que estava no interesse de Steven Spielberg: a do menino Edgardo Mortara, filho de pais judeus, que é tirado à força de sua família pela igreja católica dos tempos do Papa Pio IX, por ter sido batizado pela babá que cuidava dele quando bebê. A mulher, preocupada se o menino morresse e não fosse para o céu, providenciou o que achava o correto, escondido da família da criança. Na época do sequestro, Edgardo tinha apenas seis anos e nem a polícia e nenhuma outra autoridade podia fazer nada a respeito. Naquela época, o poder da igreja era imenso, sendo maior que as leis do estado e a Itália não era ainda o reino unificado que se transformaria em 1871.

Há uma cena em O SEQUESTRO DO PAPA que já está entre as minhas favoritas do ano: aquela em que a mãe da criança vai visitá-la. Que cena de arrepiar! Uma explosão de emoção num momento em que há muita tensão e tristeza envolvida. Bellocchio foi feliz em trazer uma história real tão incrível quanto esta, uma história que se inicia em 1858, em Bolonha, e imagino o quanto deve assombrar vários católicos até hoje. Para o espectador, é muito fácil ver o papa pintado no filme, vivido por Paolo Pierobon, como o grande vilão. E por isso se torna difícil até aceitar que esse homem tenha sido beatificado em 2000 pelo Papa João Paulo II.

A história do sequestro dessa criança, que aos poucos passaria a ficar mais aproximada à crença católica a ponto de se tornar também um sacerdote, trata de um embate em que não há vencedores. Nem mesmo a Igreja Católica, que, mesmo tendo ganhado a queda de braço para os pais, que enfrentaram a situação se utilizando da justiça e da imprensa, que espalhou a história por todo o mundo.

O filme também faz crítica a estruturas de religiões que enfatizam a palavra dita como palavra que não se volta atrás, sendo que isso vale até para a família judia, ainda que no caso deles haja muito mais nobreza. O último ato é também muito bom, com o menino agora adulto, e há algumas imagens perturbadoras e imensamente tristes, como a do papa sendo empurrado e sua posterior reação, a do caixão sendo levado pela rua ou a da visita de Edgardo à mãe, perto do final. As últimas imagens de Edgardo representam a irreparabilidade dos danos, inclusive psicológicos, desse ato terrível, que para os dias de hoje pode simbolizar um momento em que há uma simpatia por parte da extrema direita de a igreja se intrometer em assuntos de estado.

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A ÚLTIMA NOITE DE AMORE (L'Ultima Notte di Amore)

Terceiro longa-metragem dirigido por Andrea Di Stefano e o primeiro puramente italiano, em se tratando de produção (os outros dois são produções de vários países e falados majoritariamente em inglês), este A ÚLTIMA NOITE DE AMORE (2023) não apenas resgata mais uma vez nossa fé no cinema italiano contemporâneo, como também poderia ser um sucesso no circuito mainstream se contasse com um bom marketing. Isso porque se trata de um thriller policial que nos deixa tensos um tempo inteiro, além de ter um ator de primeira grandeza como Pierfrancesco Favino (O TRAIDOR, NOSTALGIA) trazendo ainda mais vigor para a trama. Favino é um policial que está prestes a se aposentar e que recebe uma proposta de trabalhar para os chineses (possivelmente mafiosos) ganhando um bom dinheiro, apenas tendo que fazer o transporte de uma mulher trazendo joias do aeroporto. Claro que sabemos que vai dar merda, mas a própria expectativa disso faz parte da graça, assim como as surpresas e o desenvolvimento da trama (o roteiro é original e também a cargo de Di Stefano). Destaque também no elenco para Linda Caridi, no papel da esposa do protagonista. A atriz pôde ser vista em trabalhos como ENTRE TEMPOS e LAÇOS e é responsável por alguns dos momentos mais bonitos do filme.

SEGREDOS (Confidenza)

A história de SEGREDOS (2024), de Daniele Luchetti se passa principalmente na mente de Pietro (Elio Germano) e por isso é uma história que deve ser vista com desconfiança. Depois do pacto que faz com sua ex-aluna Teresa (Federica Rossellini) de contarem ambos um segredo que jamais contariam para qualquer outro, esse homem começa a viver numa espiral de medo de que sua vida desabe totalmente a partir da revelação do tal segredo. Que o filme não chega a entregar, até para não interferir no julgamento do protagonista por parte do espectador. Por outro lado, nossa visão de Teresa também é a de uma figura que o ameaça apenas com a própria presença ou mesmo lembrança. Pietro casa com outra mulher, Nadia (Vittoria Puccini), de comportamento mais depressivo, mas riquíssima em detalhes nas cenas em que aparece, seja com gestos, seja com palavras. O filme apresenta Pietro como aquela pessoa comum, um professor, que é louvado pelo seu trabalho da chamada "pedagogia do afeto" e temos a impressão de que ele se sente desconfortável, talvez sofrendo de uma síndrome do impostor, sem, no entanto, deixar de aceitar elogios e homenagens de alunos e profissionais da educação. SEGREDOS é um filme envolvente que talvez peque por sua conclusão pouco satisfatória e meio atropelada, embora eu goste muito do instante da reação da filha do protagonista, que traz uma dramaticidade que combina com o tom de agonia e inquietação do personagem. Ao final, ouvimos uma canção de Thom York, que contribui com a trilha sonora. Grande escolha, aliás. Afinal, York talvez seja o compositor contemporâneo que parece melhor saber criar um tipo de música que define a angústia e o desespero do ser humano.

AINDA TEMOS O AMANHÃ (C'è Ancora Domani)

Que linda estreia na direção da atriz Paola Cortellesi! E eu não gosto de dizer que tal filme é necessário, mas diria que AINDA TEMOS O AMANHÃ (2023) é. E é também um filme que raramente teria a mesma força se dirigido por um homem. Afinal, só uma mulher sente na pele, mesmo uma mulher dos dias de hoje, a agressão que o mundo do patriarcado traz. AINDA TEMOS O AMANHÃ é herdeiro do neorrealismo de cineastas como Vittorio De Sica, até por localizar seu tempo no pós-guerra e na Itália destruída, empobrecida e humilhada. E para que personagem mais humilhada do que Delia, vivida pela própria diretora? É uma personagem que começa o filme recebendo tapa do marido. E outras agressões virão. Como se trata de uma obra que já passou pelo pós-modernismo, a narrativa também se constrói em alguns momentos com o uso de recursos musicais, até como uma forma de diminuir um pouco o peso da violência doméstica. E o que é aquele final, hein? O filme constrói um suspense que nos faz grudados na poltrona, torcendo por ela, e ainda muda nossas expectativas com uma surpresa linda e cheia de militância. Um dos melhores filmes italianos dos últimos anos.

sábado, julho 20, 2024

MAXXXINE



O grande barato de Ti West é que ele é um diretor que começou fazendo filmes de terror B, por mais estilosos e sofisticados que alguns sejam, e, agora, mesmo com muito mais dinheiro investido em seu mais novo filme, MAXXXINE (2024), ele segue fazendo essas obras. Seu primeiro filme é o pouco visto (inclusive por mim) ATAQUE DOS MORCEGOS (2005), cujo nome já deixa mais ou menos claro do que se trata. Começou a chamar mais a atenção dentro dos fãs de horror com A CASA DO DIABO (2009), que acho muito legal, talvez seu melhor trabalho até hoje, com um visual que remete ao cinema do gênero da década de 1970.

Essa busca por emular uma época, ele tratou de explicitar em sua trilogia estrelada por Mia Goth, formada por X – A MARCA DA MORTE (2022), a prequel PEARL (2022) e MAXXXINE. O primeiro filme tem um visual mais rústico, de modo a remeter a produções baratas dos anos 1970, a década em que se passa a história, enquanto que PEARL traz um visual à Velha Hollywood. Na trama do primeiro filme, um grupo de jovens procura um lugar na zona rural do Texas para filmar um pornô e ganhar um dinheiro com isso. 

Assim como ocorre em tantos slashers, esse bando de jovens pecadores acabam morrendo um a um, sendo Maxine (Goth), a final girl, ou seja, aquela que sobrevive, mas também mata, indo embora no final e deixando aquele cenário de morte e destruição. Se a jovem sai de lá traumatizada, também sai de lá capaz de cometer atrocidades, como fica claro neste terceiro filme, que se passa em 1985, com a personagem já estabelecida e famosa dentro da carreira de porn star, mas sem ter perdido a esperança de se tornar estrela de Hollywood em filmes, por assim dizer, genuínos.

Sua grande chance aparece quando uma diretora, mesmo sabendo que ela vem da indústria de filmes adultos, resolve enfrentar o mercado e colocá-la como estrela de “A Puritana 2”, continuação (fictícia) de um filme de muito sucesso entre os fãs do gênero. A tal diretora, inclusive, vivida por Elizabeth Debicki (TENET), acredita que seu trabalho não é um terrorzinho B qualquer, mas uma obra de respeito. Maxine passa no teste e começa a pensar já em seu futuro como grande estrela de cinema de Hollywood, espelhando-se não em Marilyn Chambers, atriz pornô que fez um filme de David Cronenberg, o ótimo ENRAIVECIDA – NA FÚRIA DO SEXO, mas em gente como Brooke Shields, que também começou a carreira muito jovem fazendo terror, o maravilhoso slasher COMUNHÃO. Gosto muito, aliás, dessa primeira parte do filme, de todas essas citações a filmes, atrizes e diretores.

No final, MAXXXINE não me empolgou tanto quanto X – A MARCA DA MORTE, mas sei que a ideia de uma trilogia foi uma sacada de mestre por parte de West, que soube aproveitar muito bem o sucesso de um primeiro filme feito com baixo orçamento e o talento de uma atriz como Mia Goth. Aliás, eu diria que Goth está ainda melhor em PISCINA INFINITA, de Brandon Cronenberg. Quem ainda não viu, dê uma chance. Ela está realmente incrível.

O novo filme já passa claramente a impressão de que tem mais dinheiro envolvido (e realmente tem), por mais que procure manter o estilo de filme B de terror da década de 1980, até mesmo emulando certo amadorismo nas cenas de terror, suspense e gore, além de uma fotografia que remonta a fitas de VHS. O suspense não chega a ser bem desenvolvido e em vez disso há uma predileção por cenas tão violentas e gráficas que servem menos para chocar e mais para divertir, como é o caso da cena do assaltante (de certa forma chocante, mas parece uma cena deslocada dentro da narrativa) ou a cena do carro sendo esmagado, talvez duas das minhas favoritas.

Como se trata de um filme sobre uma jovem mulher que busca o estrelato em Hollywood, mesmo já tendo ficado famosa dentro do meio pornô, há muitos momentos que enfatizam essa obsessão da heroína. Nesse sentido, MAXXXINE encontra um forte paralelo com PEARL, que é o que mais lida com um desenvolvimento de personagem. O elenco de apoio também é luxuoso, destaque para Kevin Bacon, mas também para Giancarlo Esposito, Michelle Monaghan, Bobby Canavale e Lilly Collins.

Por mais que o filme de West tenha me decepcionado um pouco, vejo o filme como uma obra representativa da boa e criativa safra atual. Sem falar que se a intenção é mesmo emular obras com pouca capacidade de envolver emocionalmente, mas com um bocado de imagens memoráveis e com sabor exploitation, é sim uma obra que merece a devida atenção e que conseguiu muito do que pretendia. Além do mais, quem gosta de caçar referências, MAXXXINE é um prato cheio, inclusive na percepção do uso de trilha sonora oitentista e homenagem a um subgênero hoje muito mais respeitado, o giallo

+ TRÊS FILMES

UM LUGAR SILENCIOSO – DIA UM (A Quiet Place – Day One)

Imagino que este terceiro filme da franquia Um Lugar Silencioso, por mais que tenha tido a intenção de ser um prequel, já deixou claro que é preciso ideias muito boas para levar à frente uma história que se sustenta basicamente no jogo de não fazer nenhum barulho para não ser comido pelos monstros alienígenas. O novo diretor e roteirista, Michael Sarnoski, sabia disso e por isso tentou fazer um filme intimista, cujo maior mérito é quebrar as expectativas de quem viu os outros dois. O que temos em UM LUGAR SILENCIOSO – DIA UM (2024) é basicamente uma história de amizade de curta duração entre uma mulher com câncer e um homem inglês. Junto deles, um simpático gatinho, melhor coisa do filme. Também considero mérito a opção por mostrar o menos possível da destruição, até porque se percebe que o CGI dos efeitos não é dos melhores. O problema é que o filme também não me ganhou naquilo que mais poderia satisfazer, ou seja, na construção da relação dos dois ao longo da Nova York destruída em pânico. De todo modo, UM LUGAR SILENCIOSO – PARTE III está nos planos dos executivos, e provavelmente com a volta de John Krasinski na direção. A questão é: será que, depois deste prequel desanimador, as pessoas vão se sentir animadas para mais um?

VIOLÊNCIA E TERROR (Intruder)

Assistir a um slasher e ver o ano de produção e lançamento ajuda muito a lançar luz sobre o filme, ajuda a compreender o momento e até as opções estéticas do diretor dentro daquele contexto. Com o cansaço do subgênero ao longo da década de 1980, é de se imaginar que em 1989 já não havia mais tanta inventividade e esses filmes passariam a ser consumidos pelos fãs puramente como diversão, graças principalmente à familiaridade de seus clichês. Neste VIOLÊNCIA E TERROR (1989), de Scott Spiegel, o assassino é possivelmente um rapaz que acabou de sair da prisão e faz uma confusão ao se aproximar da caixa do supermercado, com quem teve um relacionamento no passado (infelizmente o trailer acaba entregando a identidade do assassino, assim como o próprio cartaz original). Esse tal estabelecimento estava fechando e a ideia do dono era fazer uma grande liquidação. Todos os funcionários são convidados a passar a noite trabalhando e mudando os preços para o dia seguinte, um pouco tristes porque estarão desempregados no dia seguinte. Até que começam as mortes. O interessante é que a primeira morte não é vista e a seguinte é muito sutil, o que me fez pensar que VIOLÊNCIA E TERROR seria um slasher sem muito grafismo. Mas eu estava errado e essas cenas mais gráficas vão surgindo de forma cada vez mais intensa - acho incrível a cena do sujeito que tem a cabeça partida ao meio numa serra de cortar osso de açougue. Se o filme é uma produção Bzona, a equipe de efeitos especiais é um luxo. Me incomodou um pouco a falta de habilidade do diretor nas cenas de ação corpo a corpo, no impacto físico mesmo, mas é algo que pode ser relevado em prol da diversão. Visto no box Slashers III.

ESCOLA NOTURNA (Night School)

Um slasher relativamente diferente, até lembrando mais um giallo. As cenas de assassinato são menos gráficas do que o costume, ainda que capriche um bocado no horror nas cenas de ataque do assassino, que sempre usa um capacete fechado e espelhado e uma jaqueta de couro. Enquanto isso, acompanhamos também as buscas do policial (Leonard Mann), cada vez mais indignado com o aumento do número de mulheres decapitadas. Trata-se de um filme bem cuidado nas interpretações (embora isso não seja uma obrigação para o subgênero) e há um capricho visual que contrasta com as imagens mais sujas. Apesar de ser até cultuado, imagino que, para a carreira do inglês Ken Hughes ESCOLA NOTURNA (1981) pode representar uma decadência, já que em sua carreira pregressa ele chegou a trabalhar com astros do primeiro escalão. No elenco deste, destaque para Rachel Ward. Filme visto no box Slashers VII.

quinta-feira, julho 18, 2024

VIAGEM A SAMPA 2024



Minha história com São Paulo é de muito amor. É minha cidade favorita. Só não digo que prefiro ela a Fortaleza porque nunca morei em São Paulo e sei o quanto pode ser dura de se trabalhar. É bem diferente ir a passeio. E só não digo que gosto mais do que de Nova York pois minha passagem pela cidade enaltecida por Frank Sinatra foi relâmpago. De todo modo, citando essas duas cidades, já se percebe minha predileção por espaços urbanos cheios de cultura por todos os lados. Mas a verdade é que também aprendi a amar praias, lugares para acalmar o espírito, ainda mais recentemente, com o retorno de Giselle a minha vida.

E por isso esta nova viagem a São Paulo foi tão especial, já que foi na companhia dela, que dizia que não gostava de frio e que até suspeitava de que não fosse gostar muito. Felizmente, ela adorou todos os dias que passamos lá. E eu também, claro. Foi a mais diferente de minhas idas à terra da garoa pois desta vez tive mais chance de conhecer mais espaços, já que das outras os meus focos eram basicamente o cinema e os encontros com os amigos (cinéfilos).

Desta vez, acabei não encontrando vários amigos queridos que encontrei em outras ocasiões. Senti falta de ver o Marcelo, a Ana, a Laura, o Leandro, o Gabriel, o Tiago, a Alê, o Alysson, a Márcia, a Bia, o Primati, o Gustavo, o Edu. Também queria muito encontrar o Renato, mas a distância da cidade dele complicou um pouco. Com alguns, ainda consegui organizar encontros. E houve encontros-surpresa também. Mas isso porque era importante que eu e a Giselle aproveitássemos mais nosso tempo juntos.

Quinta-feira, 11 de julho

Saímos para o aeroporto pela manhã para um voo que sairia próximo do meio-dia. Acho que foi o voo mais conveniente que encontramos, de modo que curtíssemos um pouco o dia e não precisássemos madrugar. Havia combinado com o Michel e a Cris um jantar naquele dia. Vê-los é de uma alegria tão grande pra mim que acho que eles não têm ideia. Fomos a um restaurante tailandês (ou meio tailandês) chamado Mestiço, próximo ao hotel onde nos hospedamos, o Ibis da Rua da Consolação. Gosto da localização desse hotel, além do preço mais camarada. E estar ali pertinho da Av. Paulista é uma delícia. Pena que o quarto é muito pequeninho. Mas tranquilo: a gente acaba se acostumando.

Por causa do horário inconveniente do voo (hora do almoço, e praticamente sem serviço de bordo, praxe atualmente) chegamos famintos e andamos alguns quarteirões da Rua da Consolação em busca de um lugar para comer, pouco antes do jantar, que já estava próximo. Mas deu tempo de tomarmos banho, trocarmos a roupa e irmos a pé ao restaurante, ali pertinho do hotel. E foi legal que o Chico pôde ir também.

A Cris, pessoa extraordinária que é, ainda sugeriu irmos comer uma sobremesa noutro lugar, o que logo me animou. Adoro esses passeios gastronômicos por São Paulo. O lugar aonde fomos, chamado Le Blé, no bairro de Higienópolis, é tão bonito, que achei mágico entrarmos ali, como se entrar naquele espaço fosse como atravessar uma passagem secreta para outro mundo, até pelo jazz que remetia à primeira metade do século XX. Sem falar na decoração e nas luzes. Lá, eu e a Giselle ainda pudemos comprar online nossas passagens para Aparecida, a viagem que faríamos no dia seguinte.



Sexta-feira, 12 de julho

Acordamos cedinho. E acordar cedinho em São Paulo, especialmente durante o inverno, não é fácil. Ficar na cama até mais tarde é uma tentação. Mas tínhamos passagem comprada e iríamos para a missa do meio-dia. Pra mim foi tudo muito novo e para a Giselle foi uma alegria atravessar todo aquele percurso para chegar a um destino que ela sonhava conhecer, o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o maior templo religioso do Brasil e o segundo maior do mundo (menor apenas que a Basílica do Vaticano, segundo o Wikipédia).

Nos últimos meses, eu tenho ido de vez em quando à missa com a Giselle e, apesar de minhas raízes evangélicas, tenho gostado da experiência, inclusive por encontrar tanto beleza quanto mistério. Quem leu meu texto sobre nossa ida ao Instituto Hesed, na postagem sobre PADRE PIO, do Ferrara, certamente pode ter um pouco a noção da experiência mágica por que passei naquele dia.

Para chegar ao santuário, pegamos metrôs de diferentes linhas, chegamos ao terminal do Tietê para pegar o ônibus, viajamos duas horas e meia, e pegamos um táxi para nos deixar até lá em frente. Uma verdadeira peregrinação. Eu me emocionava com a emoção da Giselle. Esse momento foi muito especial pra gente e acredito que definidor de nosso destino juntos, fortalecedor de nosso amor.

Ao chegarmos ao santuário fiquei impressionado com o aspecto gigantesco daquele espaço. O tempo das missas é mais curto, praticamente sem uma homilia (que é o que eu mais gosto), mas foi o suficiente para nos deixar felizes de estarmos naquele lugar cheio de pessoas de fé. O espaço comercial de lá é também imenso, com direito a uma praça de alimentação muito ampla e vários estabelecimentos que vendem produtos relacionados principalmente à imagem de Nossa Senhora Aparecida. Depois do almoço, retornamos ao santuário para ver a imagem original em madeira, que fica num lugar especial e luminoso da igreja, sempre com filas de pessoas passando para ver e fazer suas orações.

Para a noite, o destino ainda nos reservou um encontro inesperado com amigos de Fortaleza em São Paulo. Murilo passa uma mensagem perguntando “você está aqui?”. Logo, deu a entender que ele estava em São Paulo também, com sua noiva. E que bom que conseguimos agendar esse encontro. E ele ainda conseguiu reunir a Camila e o JB para um jantar num restaurante italiano nas imediações da Paulista, a Osteria Generale. Foi um encontro muito feliz em que falamos de alegrias e de enfrentar bravamente deficiências. Adorei rever a Camila, uma sagitariana cheia de alegria como a Giselle. Adorei conhecer a Izabel, a noiva do Murilo. Saímos de lá praticamente enxotados pelos garçons, ansiosos para que fôssemos embora para fecharem o estabelecimento.

Sábado, 13 de julho

O sábado foi dedicado só a nós dois. Para passearmos por diversos espaços de São Paulo, propus que fôssemos inicialmente à Galeria do Rock. Queria comprar umas camisetas novas de bandas de rock e era uma chance de conhecermos mais a área do Centro da cidade. O engraçado é que entrei numa galeria e achei tudo muito estranho. Muitos estabelecimentos afro e inclusive uma mulher chegou a perguntar à gente: o que vocês querem aqui? Algo do tipo. Senti que estava no lugar errado. A Giselle perguntou se ali era a galeria do rock. Era a do Reggae, um homem falou. A do rock era a próxima. Adoro passar por essas situações que servem para contar histórias depois. A galeria do rock é mais animada e bem menos abandonada, com direito até a lugares para alimentação e bebida. Como o rock é um estilo bem segmentado é possível ir atrás de lugares com que você se identifica mais. Só comprei uma camiseta do Rage Against the Machine e a hipoglicemia atacou. Precisava almoçar urgentemente. O almoço foi um peixinho com legumes delicioso num lugar chamado Ponto Chic – O Famoso Bauru, espaço tradicional de São Paulo.

A próxima parada estava no ar ainda: MASP? Parque do Ibirapuera? Liberdade? Optamos pelo MASP, mas no meio do caminho, ao atravessar a Estação Liberdade, descemos lá, como num impulso. E foi mágico conhecer esse bairro japonês. A Giselle comprou um monte de coisas numa loja sul-coreana, mas eu fiquei de olho mesmo foi na comida de rua, como num festival gastronômico. Até queria estar com mais fome para comer mais. Conhecemos um café muito bacana lá, onde tiramos fotos e curtimos a paisagem (o café fica nos altos). Depois ainda voltamos para as banquinhas, onde comi dois bolinhos de feijão (não sei o nome exato) e a Giselle comeu outra comida salgada (também não lembro o nome; essas coisas, principalmente de comidas diferentes, preciso anotar).

Estávamos cansados, mas ainda conseguimos energia para voltar ao hotel, tomar banho, trocar de roupa e ir a uma sessão das nove, no Espaço Augusta, de COMO COMPRAR A LUA. Filme simpático, projeção muito boa, e nem tive sono (rolou um cafezinho rápido antes). Depois disso, ainda fizemos um breve passeio pela Rua Augusta, que estava animadíssima. Passamos por uma galeria ao ar livre cheia de pequenos restaurantes, mas optamos pelo tradicional Pedaço da Pizza, que eu já conhecia e aprovava. O frio da noite não deixou a gente ficar muito tempo passeando pelas redondezas. Hora de voltar pra casa.



Domingo, 14 de julho

Os dias anteriores estavam nublados, mas naquela manhã de domingo o sol chegou bonito. Havíamos combinado um encontro com o Eduardo Aguilar, amigo cuja simpatia tenho desde as cartas que ambos enviávamos para as colunas de Carlos Reichenbach, e depois nos aproximamos na lista Canibal Holocausto, e, com o tempo, sempre que viajo para São Paulo arranjo um jeitinho de encontrar com ele. Achei muito legal que a Giselle gostou muito dele. Mas antes de encontrá-lo, ao virar a esquina para a Av. Paulista, já vimos a alegria da avenida fechada e à disposição de pedestres e ciclistas, com shows, danças, vendedores ambulantes, tudo muito legal e alto astral.

Nossa primeira ida foi ao MASP, que contava como principal atração os quadros de Francis Bacon. São pinturas bem diferentes, impressionantes, algumas quase assustadoras. Chegamos a ver também exposições noutro andar, que para nossa surpresa são tão ou mais belas e de encher os olhos quanto a principal. Por causa da fome, largamos mão da outra exposição e fomos ao shopping onde havíamos combinado de tomar o café com o Aguilar e almoçamos no Giraffa’s. Comida boa e rápida. E já a partir de lá começamos nosso papo com meu amigo católico, como eu o apresentei à Giselle. O café no Ofner com docinho estava bom demais. E o papo mais ainda. Rolou conversa sobre cinema, mas também teve sobre família, religião e encontros.

O próximo passeio programado para o domingo foi para a sessão de TWISTERS, que havíamos combinado com a Cris, o Michel e o Chico. A Paula e seu filho Francisco também estavam lá. O filme é divertido e eu adoro a Daisy Edgar-Jones desde NORMAL PEOPLE. A sala lá do shopping Cidade de São Paulo é muito boa. O jantar foi no Outback e eu solicitei a permissão de Moisés para pedir a tradicional costelinha de porco de lá (o Ribs on the Barbie), que dividi com a Giselle, que já ficou com vontade de repetir o prato noutra ocasião, aqui em Fortaleza. Voltamos para casa de Uber com o Chico. Como eu gosto dessa turma.

Segunda-feira, 15 de julho

O dia amanheceu bem ensolarado e o plano inicial daquela segunda-feira era conhecer o Parque do Ibirapuera. Eu havia dado uma passada muito rápida ali na primeira vez que fui a São Paulo, mas foi só para bater ponto. Dessa vez pude curtir de verdade e o sol e o sorriso sempre encantador da Giselle fizeram a diferença. Eu não sei andar de bicicleta e achava que não daria conta nem daquele triciclo. Mas a Giselle achou que seria uma ótima ideia para passearmos pelo parque, conhecer o lago e outras partes do lugar. E de fato foi uma delícia, sim. Comemos um pastel debaixo de uma árvore e depois alugamos a bicicleta para passear. Foi de uma alegria imensa aquele nosso momento. E acabamos nos perdendo lá dentro e pagamos valor adicional. Mas claro: valeu cada centavo.

Havíamos combinado de nos encontrar com o Aguilar novamente. Ele se dispôs a nos acompanhar ao mercado municipal, outro lugar que a Giselle queria conhecer e que eu não conhecia. Almoçamos por lá um sanduíche tradicional paulistano e depois fomos ver as frutas e conhecer o espaço. A Giselle ainda comprou algumas frutas para levar para o Gustavo, seu filho, mas acabei não comprando nada pra eu levar. Não sabia o quão conveniente seria carregar aquelas frutas no avião. Mas ela estava certa em trazer. Tão sabida ela. Depois do mercado, fomos conhecer o mosteiro de São Bento, e achei o lugar incrível. Lá imperam o silêncio, o respeito e estava acontecendo uma cerimônia que nunca vi antes. Ficamos pouco tempo, mas gostei da impressão que aquele lugar me causou. De lá nos despedimos do Aguilar e fomos de volta ao hotel.

Chegamos tão cansados que acabei dormindo um bocadinho, de modo que acordamos um pouco tarde para aproveitar alguma coisa no shopping. Deu para comprar o boneco-combo dos minions para meu sobrinho no Shopping Pátio. E depois jantar lá perto. O passeio no parque havia nos deixado um pouco fatigados.

Terça-feira, 16 de julho

A Cris havia feito a gentileza de nos ajudar a aproveitar o último dia. Nosso voo seria apenas às sete da noite e teríamos que fazer o check-out no hotel até o meio-dia. Então, saímos de manhã e ainda almoçamos com ela e o Michel num lugar muito legal chamado Quiche & Cia. Logo em seguida, Cris nos levou à Cinemateca Brasileira. Deu para ver a mostra dedicada a Vladimir Herzog. Importante e feita com amor à democracia. Em seguida, para aproveitar o restinho do dia, fomos ao centro novamente, mais uma vez à Galeria do Rock – queria comprar um boné para o meu sobrinho. Acabei trazendo de volta mais duas camisetas de bandas (The Smiths, Radiohead).

Ou seja, até mesmo este dia com pouco tempo disponível acabou sendo muito proveitoso e gostoso. Andamos muito de metrô e Uber principalmente, mas também bastante a pé, de táxi e até de ônibus. Podemos dizer que soubemos aproveitar São Paulo, mesmo sabendo que faltou muita coisa ainda para conhecer e curtir. Michel nos entregou as malas, partimos para Congonhas e voltamos para nossas casas, felizes por termos feito uma viagem tão incrível, tão próxima da perfeição. A companhia da Giselle é um presente para mim e tenho certeza de que ela ama estar a meu lado também. Então, acho que consegui juntar o amor que eu tenho por uma cidade ao amor por uma mulher em uma só tacada. Sucesso!, como diria meu amigo Michel.