Há 25 anos eu já ouvia falar (muito bem) deste filme de Pupi Avati, através da saudosa lista de discussão Cannibal Holocaust. E, apesar de geralmente ser classificado como um giallo (embora não um giallo tão tradicional), não havia sido lançado pela Versátil em sua linda coleção amarelinha até então. Eis que foi, mais recentemente, no volume 15. Essa demora se deu principalmente à falta de uma versão remasterizada do filme.
E que bom que agora existe, pois a fotografia de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES é uma das mais lindas do gênero, a cargo de Pasquale Rachini, que passaria a ser colaborador habitual de Avati a partir de então. Também belíssima é a trilha sonora de Amedeo Tommasi (A LENDA DO PIANISTA DO MAR, SLEEPLESS), que tem um tema romântico do protagonista com uma jovem professora que ele conhece na pequena cidade rural que é muito tocante, chegando a, ao mesmo tempo, contrastar e completar o restante da música original, centrada mais no mistério e no horror. Ah, e falando em coisas lindas, impressionante a beleza de Francesca Marciano, que, ainda que tenha trabalhado com Avati novamente em seu trabalho seguinte, optou por seguir o caminho de roteirista, tendo feito o roteiro de filmes famosos, como EU E VOCÊ, de Bernardo Bertolucci, e O MELHOR ESTÁ POR VIR, de Nanni Moretti.
A trama de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES nos pega mais pela atmosfera de mistério e pela perfeita condução de Avati do que pela história em si, embora ela também seja muito boa, muito ousada e que faz com que fiquemos tão curiosos para descobrir os segredos daquela cidade, daquele pintor, daquela família, que até entendemos ele correr tantos riscos. O final é surpreendente e vai fazer muita gente lembrar de certo slasher oitentista.
Na trama, Lino Capolicchio é um restaurador de afrescos que é contratado para restaurar uma pintura muito estranha de uma cidade do interior da Itália. A figura mostrada na pintura é uma espécie de variação da imagem de São Sebastião, trocando as flechas por facas e compondo um visual ainda mais perturbador com outras imagens no quadro. Ao chegar ao hotel, o rapaz, de nome Stefano, logo recebe avisos anônimos por telefone que precisa sair da cidade o mais rápido possível, se não ia se arrepender.
O filme de Avati tem um interesse genuíno na trama, mas acredito que é um tipo de interesse não tão próximo assim dos tradicionais whodunits. Ou seja, o que mais conta é o que vem sendo trazido aos poucos para o quebra-cabeças, como a gravação do pintor morto e desaparecido, além de declarações de alguns moradores da cidade que ousam falar sobre o assunto, que parece ser um tabu. O tal pintor se especializava em pintar pessoas no momento de suas mortes. Havia esse encanto, essa obsessão pela expressão do moribundo.
A presença de Francesca Marciano, com uma personagem meiga e gentil, em determinado momento da história é essencial para que pensemos em algo ou alguém que é ótimo o bastante para que nos preocupemos, diante daquele cenário de mortes misteriosas e casas mórbidas. Gosto do final, apesar da estranheza que carrega, ou talvez por causa disso, mas o filme vale muito mais do que o final. É como uma cebola que vamos descascando e saboreando lentamente. Uma cebola doce, é bom dizer.
Quanto a Avati, cineasta prolífico e que conheço tão pouco ou quase nada, achei interessante o comentário que ele dá em seu depoimento presente no box da Versátil: ele conta que não assiste filmes de outros diretores e não procura se atualizar sobre o que está sendo feito. E por isso mesmo pode até estar fazendo algum filme com uma história já feita antes. Nesse caso, talvez seja o caso de cineasta que mais se abastecesse espiritualmente com o zeitgeist do que com referências cinematográficas, embora ele tenha citado um par de filmes, sendo um deles, O VAMPIRO, de Carl Th. Dreyer. O segundo, eu me esqueci.
+ TRÊS FILMES
DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (Dèmoni)
Talvez mais conhecido como o filho do genial Mario Bava, Lamberto Bava não alcançou nem metade da estatura do pai, o que também pode se dever ao fato de ele já ter iniciado sua carreira na última década em que o cinema de horror italiano estava em sua glória plena, os anos 1980. Eu, inclusive, até prefiro MACABRO (1980) a este muito mais celebrado DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (1985), que virou um clássico, principalmente por seu sucesso nas vídeolocadoras. Por isso mesmo, é um luxo poder ver o filme não numa cópia surrada em VHS ou num DVD comum, mas numa gloriosa cópia em BluRay, a ótima e caprichada edição lançada pela Obras-Primas do Cinema. Ver DEMONS é também entrar numa espécie de cápsula do tempo, tanto pelo gosto pelo splatter mais raiz típico do horror oitentista, quanto pela trilha-sonora de Claudio Simonetti, acrescida de canções de Mötley Crüe, Scorpions, Billy Idol e outros, que adicionam o hard rock e o heavy metal, gêneros associados ao horror, aos sintetizadores da trilha original, e que já estava em voga nos gialli de Dario Argento e de outros. Aliás, Argento foi produtor de DEMONS, e dizem que foi um produtor bastante presente durante as filmagens. Ou seja, deve ter dedo dele no resultado criativo. Na trama, um grupo de pessoas, a maioria jovens, entra num cinema da Alemanha para assistir a um filme misterioso. Enquanto isso, a maldição do filme dentro do filme começa a repercutir também nessa sala de cinema: uma das moças havia experimentado uma máscara que furou seu rosto (clara homenagem ao clássico A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Bava), assim como também fura o rosto do personagem do filme, que se transforma num demônio. Em determinado momento, o filme fica parecendo mais uma aventura de matinê, com as pessoas correndo dos monstros, do que do horror. O que não quer dizer que isso seja ruim. Apenas deixou de ser tão atraente pra mim. Ainda assim, é uma alegria ver DEMONS, pelo que traz de novo e criativo.
ALL THE COLORS OF GIALLO
O documentário ALL THE COLORS OF GIALLO (2019), de Federico Caddeo, pode não trazer muitas novidades para quem já conhece os principais filmes do gênero, mas ainda assim é uma delícia de ver. O formato escolhido é de certa forma óbvio, mas interessante: primeiro fala do giallo como literatura, para depois falar dos krimis, produzidos na Alemanha, da “invenção” do giallo por Mario Bava com seus principais filmes, e depois o momento em que o subgênero ganha filhotes, a partir, principalmente, de O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, de Dario Argento. Em seguida, há um bom momento dedicado a Lucio Fulci, e depois aos cineastas menores, mas essenciais para a manutenção do estilo por mais de uma década. Dos meus gialli preferidos, senti falta de uma menção a O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano. Em compensação, há situações de trabalhos importantes de Sergio Martino, Umberto Lenzi, Luciano Ercoli, Aldo Lado, Duccio Tessari, entre outros. Além dos cineastas entrevistados, é bom ver atores e atrizes repensando suas experiências. Sei que terminei o doc com um gostinho de quero-mais e uma vontade enorme de ver um monte de giallo. Até já reservei dois boxes da minha querida coleção amarelinha aqui. aqui.
VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (Valerie a Týden Divů)
Há anos sei o quanto VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (1970) é um filme cultuado, mas sempre adiava sua apreciação por algum motivo. Acho que me afastava um pouco o fato de ser um filme narrado do ponto de vista de uma criança e isso às vezes, por alguma razão que não sei bem explicar, me dá um pouco de sono - posso citar vários casos. Outro motivo talvez seja o fato de o classificarem mais como uma fantasia do que como terror. Na verdade, as duas informações são parcialmente corretas: a menina na verdade está numa fase de descoberta sexual aos 13 anos de idade e acaba passando tanto por diversos tipos de violência quanto por um sentimento de paixão romântica; e, sim: considero o filme mais uma fantasia do que terror, mas muitos códigos de terror estão lá, principalmente o fato de contar uma história de vampiros. Gostaria de ter me envolvido mais com a narrativa onírica e surreal do filme, mas isso não aconteceu, mesmo com toda a beleza visual – a cópia presente no box Obras-Primas do Cinema – Horror Internacional está linda. O diretor Jaromil Jireš costuma ser associado à nouvelle vague tcheca, um movimento interessante, que infelizmente conheço muito pouco.
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