“O escritor é o sofredor exemplar porque encontrou tanto o nível mais profundo do sofrimento quanto um meio profissional de sublimar (no sentido literal, não no freudiano) seu sofrimento. Como homem, sofre; como escritor, transforma seu sofrimento em arte. O escritor é o homem que descobre o uso do sofrimento na economia da arte – assim como os santos descobriam a utilidade e a necessidade do sofrimento na economia da salvação.”
Susan Sontag
Hoje não estava com muita disposição para escrever. Falar (no caso, escrever) sobre um filme requer muitas vezes algum tipo de necessidade (quando não trabalhamos exatamente com um tipo de disciplina ou uma obrigação contratual ou profissional). Como não ganho dinheiro escrevendo para o blog e meio que me acostumei com os longos períodos sem escrever para este espaço (o que acho uma coisa triste de se dizer), não me forço tanto assim, não me culpo mais ou fico aborrecido. Mas gosto quando surge algo que faz com que eu sinta vontade de escrever. E às vezes esse “algo” vem não necessariamente do filme em questão.
No caso, escolhi VÉNUS ET FLEUR (2004), de Emmanuel Mouret, menos pelo filme em si, embora eu já tivesse uma intenção de falar sobre ele em específico, até por ter filme isso com quase todos os trabalhos do realizador que vi – só não fiz com TRÊS AMIGAS (2024), seu mais recente longa-metragem, que mais me aborreceu do que me encantou, o que me leva a pensar na possibilidade de revê-lo, pois vivemos às vezes dias ruins, inapropriados para certas apreciações artísticas.
Pois bem. O que me deu vontade de escrever foi a leitura de um artigo escrito por Susan Sontag. Estou lendo Contra a Interpretação e Outros Ensaios (Companhia das Letras) e estou absolutamente apaixonado pela escrita dela. O texto que me deixou mais impressionado até agora (ainda estou no começo do livro) foi “O Artista como Sofredor Exemplar”, em que ela trata de como a sociedade pós-cristãs veem o amor, pegando especialmente a vida e a obra de um autor que eu até então desconhecia, o italiano Cesare Pavese (1908-1950). Sontag entrou em contato com os romances de Pavese, escritos nos anos 1940, mas o que mais a deixou impressionada foram seus diários, que mostram não só o artista, mas principalmente o homem desnudado, o Cesare sem as máscaras presentes em supostos heróis de seus romances.
Nos diários os temas do suicídio e da morte são muito presentes – ele se mataria em 1950 –, assim como são presentes seu profundo desapontamento com sua imensa dificuldade de ter sucesso na vida amorosa e inadequação sexual. Ele comentava sobre o caráter predador e explorador das mulheres (era dessa maneira que as via), confessava sobre sua incapacidade de proporcionar prazer sexual. As palavras “mulheres” e “morte” costumavam aparecer juntas em seus escritos. É dele a frase “é possível não pensar em mulheres, assim como não se pensa na morte”. Outro trecho forte que ele escreveu: “Você não se mata por amor a uma mulher, mas porque o amor – qualquer amor – o revela em sua nudez, sua miséria, sua vulnerabilidade, sua nulidade...”
Desse modo, acabei achando esse caráter trágico da existência e dos pensamentos e sentimentos de Pavese extremamente interessantes. Como se ele fosse uma espécie de romântico tardio. No mais, Pavese redescobre, com Sdendhal, “que o amor é, em essência, uma ficção; não que o amor às vezes cometa erros, mas sim que ele é, essencialmente, um erro.” E daí surge uma teoria do amor, por mais que a citação de um romance como O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, ou o filme OS AMANTES, de Louis Malle, para pegar os dois exemplos ditos por Sontag, essa teoria de que o amor é sempre fadado ao fracasso. Mas o próprio Pavese considerava-o necessário. Dizia ele: “A vida é dor e o prazer do amor é um anestésico” ou “O amor é a mais barata das religiões”.
Sontag lembra que essa visão do amor que temos hoje está associada ao cristianismo, que não havia entre os gregos antigos, os hebreus antigos e os orientais, e que o cristianismo é, desde sua fundação (com Paulo) a religião romântica. Mas o culto do amor seria um culto do sofrimento. E isso não havia dois mil anos atrás, o que corrobora com minha ideia de que a era de Peixes (e eu entro aqui com a astrologia) fez todo esse estrago nesses mais de dois mil anos. Mas também sentir é algo que é desejado. Há um outro pensador citado por Sontag, Denis de Rougemont, que menciona a preocupação da perda desse sentimento por cada um de nós, como se quiséssemos ser protagonistas de nossos próprios romances incríveis de nossas vidas reais.
Enfim, fiquei de fato fascinado pelo texto saboroso de 12 páginas de Sontag, mas posso fazer um link agora com o filme de Mouret, ainda que eu saiba que sobrará pouco espaço para o trabalho do realizador (e por isso eu peço perdão a quem entrou aqui por acaso para ler só sobre o filme). Mouret nos apresenta a duas pessoas que veem a vida de maneira totalmente diferentes, ou pelo menos agem de maneira diferente, o que não quer dizer que a melancolia não possa surgir eventualmente em algum momento na personagem mais alegre, tanto quanto parece ser uma constante na personagem introspectiva.
VÉNUS ET FLEUR nos apresenta a duas jovens de personalidades distintas: enquanto Vénus é muito extrovertida e muito sedenta por viver, Fleur é muito fechada, tímida, vive num mundo mais interior de livros (no filme ela está lendo O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa), mas também de melancolia, por se sentir como se não existisse (ela verbaliza isso em determinado momento em conversa com Vénus). Ela nem mesmo se deu ainda a chance de amar alguém.
Fleur é uma jovem russa que, depois de uma desilusão amorosa em Paris, passa a procurar por homens, junto com a recém-amiga Fleur. Só que Fleur, claro, quer fugir de certas roubadas, e morre de vergonha do que Vénus faz na cara dura. Já Fleur, é tão introspectiva que seus ombros estão quase sempre arqueados, como se ela estivesse sempre tensa. Seus seios mais volumosos acabam se tornando não necessariamente um elemento de vantagem para a moça, mas algo que a torna mais parecida com um caracol, por mais bela que seja. Ela é mais bonita que Vénus, inclusive, mas o próprio filme demora um pouco para mostrá-la dessa maneira, pois, o sorriso aparece mais em Vénus, e quase nunca, ou de forma acanhada em Fleur.
Daí a força que o filme ganha em sua conclusão, quando Fleur começa a ser percebida pelos rapazes, quando sorri, se sente plena, e também quando começamos a ver uma maior complexidade também na figura de Vénus, ao se ver rejeitada e encarar isso como uma espécie de quase negação, ou de uma “bola pra frente”. Há uma química interessante entre as duas personagens, a amizade que surge entre elas, num tipo de dependência e troca mútua. O erotismo é muito sutil e elegante e achei bem bonita a última cena, com as opções do diretor no que deseja mostrar em close-ups, muito coerente com o ponto de vista de Fleur, principalmente.
Diria que as duas moças, Vénus e Fleur, teriam um pouco da personalidade melancólica de Pavese, mas muito pouco, na verdade. Mouret, embora mais à frente, em sua carreira, tenha feito melodramas e filmes mais carregados, costuma optar em geral pela leveza, o que não quer dizer que a dor não seja sentida, que ela não esteja lá presente. E com muita frequência. Mouret, nesse momento de sua carreira, ainda era uma espécie de herdeiro do cinema de Éric Rohmer. Depois disso, evoluiu e hoje caminha com as próprias pernas, com uma personalidade muito própria.
+ TRÊS FILMES
MEMÓRIAS DE UM CARACOL (Memoir of a Snail)
Do mesmo diretor de MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (2009), eu não esperava uma história tão triste, tão no estilo "desgraça pouca é bobagem" neste MEMÓRIAS DE UM CARACOL (2024), de Adam Elliot. A protagonista, Grace, começa a história criancinha, e depois chega à idade adulta, ainda sofrendo muito. Se na infância e adolescência era o bullying, depois outras situações não muito agradáveis, como a morte de pessoas queridas, a solidão, a depressão, a exploração por um personagem masculino que seria supostamente o homem que a amava (foi a cena que mais me doeu, essa). E o mais curioso é que Grace nem era a mais depressiva da família: ela via a vida como um copo com água na metade; diferente do irmão, que via como um copo vazio, mas esse mesmo irmão era seu herói, aquele que a protegia e estava sempre a seu lado. Gosto das cenas em que os dois irmãos, junto ao pai paralítico, estão sempre lendo clássicos da literatura, e o quanto isso muda quando ela é levada para outro lar. Eu dei os tradicionais cochilos em animações, mas desta vez culpo mais o horário (17h) e principalmente minha crise alérgica.
JUNTOS (Together)
O body horror está de volta e está na moda. Deve ter atingido a mais alta escala de popularidade com A SUBSTÂNCIA, mas um certo TITANE já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes. O próprio mestre do subgênero também o fez com CRIMES OF THE FUTURE recentemente. E o grande barato do cinema de horror é o quanto ele pode usar temas políticos, sociais ou de relacionamento, como é o caso de JUNTOS (2025), de Michael Shanks, para revirar tudo do avesso (falando em revirar do avesso, difícil não lembrar de determinada cena de outro exemplar maravilhoso do gênero, A MOSCA). Neste filme que está dando o que falar, e que causa alguns momentos de aflição, Dave Franco e Alison Brie são um casal que ainda não se casou de fato, mas se mudou para uma casa no campo. Acontece que tanto ele quanto ela não estão muito bem. Ele, especialmente, nota-se estar muito incomodado com o relacionamento, ao mesmo tempo que não consegue se ver longe da namorada. As coisas começam a ficar sérias (ou divertidas) quando, depois de estarem numa caverna sinistra, os corpos dos dois passam a se comportar como se fossem se grudar. E de fato se grudam, e há algumas cenas muito boas, como a do sexo, a do cabelo e a do braço. Gosto menos do final do que do início e do desenvolvimento, mas de certa forma ele encerra bem o filme. Não de maneira tão gloriosa quanto poderia, mas o filme em nenhum momento se apresenta de fato genial. Seu principal mérito é trazer uma nova visão para a questão da dependência emocional.
A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (A Big Bold Beautiful Journey)
Talvez tenha me incomodado no filme a falta de uma química maior entre o casal vivido por Colin Farrell e Margot Robbie, mas o diretor Kogonada (COLUMBUS, 2017) mais uma vez dá destaque à direção de arte (aqui, remetendo aos musicais clássicos de Hollywood) e à melancolia, o que me atrai. Farrell, neste sentido, está melhor do que sua parceira. Parece trazer consigo ainda um quê da tragédia dos personagens de OS BANSHEES DE INISHERIN e de O LAGOSTA. O espírito depressivo e derrotista de David, seu personagem no filme, se contrapõe em parte ao tom mais cínico de Sarah (Robbie), uma mulher bonita demais para estar sozinha num casamento de um amigo em comum com David. Ambos trazem traumas, medos, arrependimentos, nascidos de suas experiências no passado. Ele guarda lembranças de uma rejeição nos tempos da escola e que repercutiu na vida adulta; ela guarda o remorso de não estar presente quando sua mãe faleceu. Por isso a ideia de lar para cada um deles é diferente: enquanto ele foge para um futuro utópico e inexistente como pai de família, ela foge para a infância, para os braços da mãe. É um dos exemplares mais claros de filme-terapia, embora não veja como obra tão bem-sucedida no que tange ao tocar o espectador (se bem que só posso falar por mim). Ainda assim, é fácil ficar encantado com as cores muitas vezes artificiais de A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (2025), bem como é fácil também criar alguma identificação com um ou outro personagem, nessa jornada que, para que chegue a um fim satisfatório ou feliz, é preciso enfrentar os demônios do passado, exorcizar a culpa e começar a ter um posicionamento mais decisivo diante da vida. Uns vinte minutos a menos no corte final teriam ajudado? Não sei. Mas talvez o que tenha me incomodado mais tenha sido a opção pela fantasia como meio de ilustrar as angústias dos protagonistas. E quase sempre eu tenho dificuldade de me apegar à fantasia.
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