domingo, fevereiro 22, 2026

SÉTIMO CÉU (7th Heaven)



Logo que SÉTIMO CÉU (1927) começa fica muito claro o drama de seus dois protagonistas, bem como suas principais qualidades. Diane (Janet Gaynor, no mesmo ano que fez AURORA, de Murnau) é uma jovem que sofre agressões domésticas de sua irmã alcoólatra. As duas vivem numa casa muito humilde, numa espécie de favela de Paris. Já Chico (Charles Farrell) é um homem que ganha a vida limpando o esgoto da cidade. No meio da água fétida dos subterrâneos da cidade, seu principal desejo é subir ao posto de limpador de rua. Confesso que as lágrimas já começaram a cair neste admirador de melodramas logo nesses primeiros momentos do filme. E mal sabia eu que era só o começo.

Vale lembrar que tanto Gaynor quanto Farrell trabalharam juntos com Frank Borzage em outros dois filmes, O ANJO DAS RUAS (1928) e o maravilhoso ESTRELA DITOSA (1929). Tanto SÉTIMO CÉU quanto ESTRELA DITOSA" estabelecem o melodrama, ou pelo menos o melodrama de autoria de Borzage, como o gênero do milagre. Solidarizamo-nos tanto com as crises e as aflições de seus heróis, quanto festejamos suas vitórias, sendo que algumas delas se constituem milagres, uma espécie de compensação para a ficção diante da dureza da vida.

O dia que Chico traz o vestido de noiva para Diane é justamente o dia em que todos os homens da França são convocados para a guerra. Chico, sentindo que ficará longe e poderá até morrer naquele conflito, finalmente tem a coragem de dizer "eu te amo" para Diane, que chora emocionada, dizendo que nunca sentiu tanta alegria em sua vida, que nunca se acostumou a ser feliz. Eu fico completamente devastado com essa cena. E depois disso, o filme vai ganhando ainda mais força, pois é nos obstáculos que esse tipo de história se fortalece, mesmo que vá nos entregar um final infeliz ou trágico, o que pode muito bem acontecer. Por mais que o final seja exatamente totalmente feliz, há algo que nos faz festejar, uma espécie de milagre que o deus Borzage, um deus bondoso, é capaz de fazer, como se quisesse provar que a dura realidade pudesse ser atenuada como num passe de mágica, como na ressurreição de um homem.

Talvez SÉTIMO CÉU não seja tão poderoso quanto ESTRELA DITOSA, mas é certamente um exemplar maravilhoso desse cinema do sentimento exacerbado, bem como do cinema em que o mundo espiritual invade o mundo físico para a alegria de todos os envolvidos, inclusive nós, espectadores e torcedores.

+ TRÊS FILMES

A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab)

A academia tem dado visibilidade a Kaouther Ben Hania. Já é o terceiro filme da diretora tunisiana que ganha espaço no O Oscar. Os outros dois, para quem não lembra, foram O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE (2020) e o tocante AS 4 FILHAS DE OLFA (2023), talvez ainda seu melhor trabalho, sabendo borrar muito bem as fronteiras entre ficção e documentário. Seu novo filme, A VOZ DE HIND RAJAB (2025) talvez tenha conseguido espaço nas concorridíssimas vagas de filme internacional pela importância temática, por ser demasiado urgente o cinema ser também esse agente de denúncia, de revolta e, por que não?, de mudança na política mundial, ao trazer mais uma obra sobre a violência, a brutalidade, os crimes, o absurdo das ações do estado de Israel ao dizimar o povo palestino, e com ajuda dos Estados Unidos. A academia de Hollywood trazer mais uma vez um filme sobre esse momento de terror e dor não deixa de ser um mérito, por mais que tenhamos um filme cuja estrutura já havia sido vista antes, mas há aqui um diferencial: o registro da voz real da menina Hind Hajab. A partir desses registros, busca-se contar a história do que aconteceu no escritório do Crescente Vermelho no dia que receberam a ligação de uma garotinha aterrorizada por estar sozinha dentro de um carro, ao lado dos cadáveres de seus familiares. A maldade humana não tem limite, pelo visto.

A VIDA DE CHUCK (The Life of Chuck)

Sou fã da Mike Flanagan, mas suspeito que suas parcerias com Stephen King acabam rendendo produtos um tanto tortos. Não gosto nada de DOUTOR SONO (2019), e justamente por isso me surpreendi positivamente com A VIDA DE CHUCK (2024), tanto por suas ousadias narrativas (que vêm do conto de King, imagino), quanto pelo caráter misterioso e sentimental, já caraterístico de seus filmes e séries de terror. Tanto que o que reclamam dele, de fazer menos terror e mais melodrama, eu vejo como algo positivo, e que poderia ter rendido mais neste filme estrelado por Tom Hiddleston. O filme acaba adotando um clima mais épico do que lírico, e quando achamos que vai predominar um tom lovecraftiano, algo barra essa expectativa, o que vejo como algo positivo. Dos três atos, gosto mais do ato III, que é o primeiro a ser contado e que traz um tom meio apocalíptico, só devidamente explicado nos atos seguintes. Gostei de rever atores usualmente presentes em outras obras de Flanagan, como Carl Lumbly, Mark Hammil, Violet McGraw, Kate Siegel e Samantha Sloane.

ENTRE DOIS MUNDOS (Ouistreham)

Como não estou muito acostumado a ver filmes franceses tratando com tanta frequência de temas trabalhistas, acabei vendo este ENTRE DOIS MUNDOS (2021), de Emmanuel Carrère, e me lembrando do cinema de Ken Loach. E digo isso como um elogio. Desde o começo, somos apresentados a personagens numa agência de empregos que os encaminha (a maioria, mulheres) para trabalhos de serviços gerais. É assim que se apresenta uma raivosa (com razão) Hèlene Lambert, que entra em cena quase no mesmo momento que a protagonista, vivida por Juliette Binoche, uma mulher que se diferencia das demais (e dos demais) por ser na verdade uma escritora em busca de vivenciar a experiência de faxineira e outros serviços de limpeza que pagam muito mal e exigem muito bem. Em certo sentido, ela é como um policial infiltrado, que transita entre a amizade que sente ser verdadeira e a atuação para esconder quem de fato é. Acredito que se o filme não tivesse essa trama, se se concentrasse apenas no drama dessas pessoas vivendo trabalhos precarizados por hora trabalhada para sobreviver, talvez até fosse tão ou mais interessante. As melhores coisas do filme, como não poderia deixar de ser, acontecem fora do horário de expediente, como a conversa entre essas pessoas, seus sonhos, suas frustrações, suas dificuldades e suas dores, inclusive físicas, proveniente do trabalho. Gosto das cenas nas balsas e em especial uma com as três amigas, gosto do modo como o momento do trabalho dessas pessoas já se inicia quando o sol ainda não nasceu. Talvez falte um pouco mais de denúncia mais incisiva, mas também entendo o quanto isso também pode ser delicado e passível de se pesar a mão. Juliette Binoche mais uma vez está um encanto.

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