quinta-feira, abril 02, 2026

KILL BILL – THE WHOLE BLOODY AFFAIR



Quanto sangue, quanta luta, quanto amor. Foi lindo rever esta obra-prima, ou melhor, ver, já que é bem nova a experiência de ter os dois volumes juntos com mais uns minutos adicionais, inclusive com uma animação excelente contando a história de Oren Ishi-i (Lucy Liu), além de outra pós-créditos, que me pegou de surpresa. E pensar que eu quase não via KILL BILL – THE WHOLE BLOODY AFFAIR (2004) por causa da longa duração e por uma série de complicações de logística. Que bom que deu certo ver, mesmo que nos 40 minutos do segundo tempo, quando só restavam mais duas sessões do filme nos cinemas. E que bom que foi na gloriosa sala 2 do Cinema do Dragão. (Re)ver no cinema e desta maneira esta que eu considero desde muito tempo a melhor obra de Quentin Tarantino só a torna mais épica, mais dramática, mais cheia de sentimento.

Além do mais, como já faz uns anos que chamam o Tarantino de misógino, eu diria que ver KILL BILL pode ajudar a repensar essa afirmativa, já que são as mulheres as grandes estrelas deste épico pós-moderno, feito a partir de uma salada que inclui muita coisa produzida principalmente nos anos 1970, que fizeram a cabeça do realizador. Tarantino mistura filme japonês de samurai (Kenji Fukasaku ganha uma dedicatória logo no começo), filmes de kung fu de Hong Kong, westerns spaghetti (principalmente na trilha sonora), filmes de horror mais sangrentos, policiais americanos da época da Nova Hollywood e, mais uma vez, um pouco de blaxploitation. Sem falar nos animes.

E ele faz isso com uma vontade tão grande de realizar o melhor filme de pancadaria de todos os tempos, que o resultado é muito empolgante. Eu sempre fico muito emocionado com a cena inicial, com o tiro na cabeça de Beatrix Kiddo (Uma Thurman), seguido dos créditos ao som de "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", na voz de Nancy Sinatra. E o filme inicia depois disso com a incrível sequência de luta com a personagem de Vivica A. Fox, uma briga de facas maravilhosa. E aqui Tarantino também injeta aquele um elemento que faz com que essa luta se torne também dolorosa para nós, espectadores: a presença da filha de quatro anos da personagem de Fox, que chega da escola quando o pau estava comendo na sala de estar.

Tarantino foi tão esperto em colocar essa cena no início, desobedecendo mais uma vez as regras da linha temporal, como havia feito em PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994), que fica óbvio que a cena de luta com a personagem de Lucy Liu, por ser maior e cheia de preparativos, teria mesmo que acontecer perto do final da primeira parte. Aliás, toda essa preparação para enfrentar a personagem de Liu ganha ainda mais força dramática com a cena em animação adicionada. Ela deixa de ser só uma adversária perigosa e passa a ser alguém que também sofreu quando criança até galgar à posição de muito poder dentro da Yakuza, mesmo sendo sino-americana. A câmera de Tarantino passeia em tomadas de cima por aquele ambiente regado a um rock cantando por uma banda feminina de moças com os pés descalços. E tudo é apresentado com muita elegância, inclusive as split-screens, que devem ter deixado o De Palma com inveja (ou batendo palmas).

A minha lembrança da segunda parte era de um momento menos dinâmico, mas não foi isso que vi desta vez. Até aquela conversa final de Beatrix com Bill (David Carradine) é também muito bom, cheio de emoção, pois estamos diante ali de duas pessoas que tiveram um envolvimento amoroso no passado. Aliás, a cena de Kiddo sorrindo para Bill na igreja, em momento anterior à chacina, é de cortar o coração. Ela linda, grávida, sorrindo para ele, com um sorriso encantador, enquanto a morte está a caminho. Acho que Tarantino nunca mais fez uma heroína tão incrível quanto Beatrix Kiddo, nem mesmo Shosanna Dreyfus de BASTARDOS INGLÓRIOS (2009), até por ela não ser a única protagonista, ao contrário de Uma Thurman. De todo modo, são duas heroínas adoráveis.

Há tanto o que elogiar no filme, seja a fotografia linda de Robert Richardson, a montagem de Sally Menke, o número imenso (e maravilhoso) de pedaços de trilhas sonoras (principalmente do cinema italiano, mas também do cinema japonês), a quantidade incrível de piscadelas de olho que estão mais para declarações de amor ao cinema popular, algumas cenas que nos dão um misto de aflição e excitação, como a cena do cemitério e a luta contra a jovem Gogo (Chiaki Kuriyama) e as cenas com a personagem de Daryl Hannah, tudo isso é assustador, cada cena à sua maneira.

Infelizmente, Tarantino está preso agora nessa promessa besta que fez de encerrar a carreira com um décimo filme e não sabe que grande filme será esse. Enquanto ele se vê enrascado e publicando livros e fazendo peças de teatro por aí, ter a sorte de rever KILL BILL integralmente nos cinemas é para glorificar de pé.

+ TRÊS FILMES

A QUADRILHA (The Outfit)

O livro Especulações Cinematográficas, de Quentin Tarantino, tem rendido boas dicas e belas descobertas. Não que esses filmes estivessem escondidos, tanto que boa parte deles eu encontro nas coleções da Versátil, que contêm inúmeras pérolas que ainda não vi. A QUADRILHA (1973), de John Flynn, ganhou um capítulo à parte no livro de Tarantino. No livro, ele destaca principalmente a série de romances de Richard Stark com o personagem Parker, um fora-da-lei casca grossa que enfrenta uma quadrilha que comanda um império. O personagem, no filme com o nome de Earl Macklin (parece que o romancista não permitia que usassem o nome Parker, ou algo assim), é vivido por Robert Duvall. A trama, que é uma continuação da trama de À QUEIMA ROUPA, de John Boorman, se inicia com ele saindo da cadeia depois de um par de anos em reclusão. Ele é recebido do lado de fora pela esposa (Karen Black). Mais à frente conheceremos seu parceiro de crime Cody (Joe Don Baker). Os dois farão um inferno na vida dos chefões dessa quadrilha, mais especificamente do chefão-mor, vivido por um Robert Ryan muito bom. O legal de ver A QUADRILHA é perceber o quanto o faroeste, o filme noir e o cinema policial moderno estão intrincados, como eles são quase a mesma coisa, com a diferença que no cinema dos anos 1970 havia uma possibilidade maior de explorar a violência em doses mais brutais. O diretor John Flynn equilibra elegância e brutalidade e nos presenteia com uma obra visceral e muito divertida.

COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (Coffy)

Não sei o que passava pela minha cabeça de não ter visto ainda algum filme desse cinema blaxploitation maravilhoso. Havia visto só BLÁCULA, mas não sei se conta tanto. E digo “maravilhoso” levando em consideração essa belezura que é COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973), de Jack Hill, um dos títulos estrelados pela diva Pam Grier. Este e também FOXY BROWN estão disponíveis na Mubi, então não façam como eu para deixar pra ver só depois. Além do mais, a Versátil já lança há algum tempo a coleção Blaxploitation. Então, hoje em dia o acesso a esses filmes é mais facilitado. Na trama de COFFY, a personagem-título é uma mulher com um desejo de vingança aos homens que deram heroína para sua irmã pequena. Então, ela começa o filme dando cabo de um traficante e um “avião”. Depois disso ela ainda ingressaria no submundo da prostituição para pegar mais peixes graúdos nesse seu projeto. O filme possui diversas cenas antológicas e que de fato me impressionaram, não apenas por seu aspecto apelativo, mas pelo quanto também funcionam nos registros de drama, suspense, ação, espionagem e até comédia. Quero mais!!

FOXY BROWN

Embora não seja tão bom quanto COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973), FOXY BROWN (1974) sabe usar o melhor da fórmula acertada da primeira parceria do diretor Jack Hill (do cultuado SPIDER BABY, 1967) com a atriz Pam Grier, novamente interpretando uma mulher que segue numa cruzada de vingança, penetrando espaços perigosos, como os habitados por traficantes e casas de prostituição. Ainda acho que COFFY vai mais longe na exploração da violência e do sexo que FOXY BROWN, mas é difícil não pensá-los como filmes irmãos. Aqui, Foxy quer se vingar da rede de criminosos que mataram seu namorado, um agente federal que teve que fazer uma cirurgia plástica para poder escapar de uma rede de crime que havia se expandido para a esfera judicial. Algumas cenas memoráveis incluem Foxy humilhando um juiz, depois Foxy sendo abusada sexualmente para depois se vingar de homens brutos; e Foxy aparecendo para ajudar o irmão logo no início do filme. Assim como COFFY este filme também valoriza a música soul na trilha sonora de modo tanto a trazer dinamismo quanto a evidenciar e valorizar a rica música pop negra vigente naqueles incríveis anos 1970.

quinta-feira, março 26, 2026

PAIXÕES QUE ALUCINAM (Shock Corridor)



Achava que ficaria mais empolgado com os filmes de Samuel Fuller - do mesmo modo que fiquei com os filmes de Fritz Lang. Alguns me trouxeram esse entusiasmo que tanto esperava, como ANJO DO MAL (1953) e CASA DE BAMBU (1955), provavelmente seus dois filmes mais próximos do noir (apesar das cores vibrantes do segundo). Não posso esquecer de sua estreia, EU MATEI JESSE JAMES (1949), que adorei nas duas vezes que vi. Por enquanto, essa é minha trinca favorita do realizador. 

Fui aprendendo a gostar de seus filmes de guerra, e até agora tenho MORTOS QUE CAMINHAM (1962) em mais alta conta, pelo menos enquanto não chega a revisão de AGONIA E GLÓRIA (1980), que vi nos tempos do VHS e tenho recordações boas, ainda que nubladas. E aí há esse espírito dos filmes B que causam certa estranheza, como se Fuller preferisse ficar na lista de cineasta da terceira prateleira - achei interessante esse tipo de classificação, que está longe de ser preconceituosa, principalmente se já gostamos de diretores menos celebrados em listas mais convencionais.

Que os trabalhos de Samuel Fuller têm esse espírito de filme B com muita frequência a gente entende. Mas PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963) talvez seja o que mais se entrega de maneira embriagada a esse aspecto. A trama é exploitation, o estilo de interpretação e o uso dos pensamentos do protagonista fazem parecer que estamos lendo uma história em quadrinhos ou alguma novela pulp, o que às vezes me deixava intrigando, mas às vezes também me distanciava do filme.

Uma das coisas que tenho aprendido é que nem sempre eu vejo os trabalhos de Fuller com um prazer enorme. Suas obras acabam crescendo depois de tê-las visto. Esta história sobre um jornalista que se disfarça de doente mental em hospital psiquiátrico para desvendar um assassinato ocorrido lá e depois ganhar o prêmio Pulitzer tem alguns momentos que desafiam o que geralmente é considerado de bom gosto. Enquanto isso, a namorada do rapaz, uma stripper, fica indignada com o plano, muito preocupada com a saúde mental do herói, o que é uma preocupação mais do que justa.

O filme é dividido em blocos e há aqueles que são dedicados às conversas do infiltrado com os pacientes, de modo a obter deles as pistas e a resposta final para a solução do caso. Fuller aproveita para alfinetar a própria estrutura violenta dos Estados Unidos, em especial na cena do homem negro que agora se vê como um membro da KKK.

Não é o primeiro dos filmes de Fuller a tratar de pessoas vivendo em espaços estranhos, ou estrangeiros. CASA DE BAMBU nos apresenta a um homem também infiltrado, desta vez no crime; RENEGANDO MEU SANGUE (1957) é sobre um homem que abandona sua pátria depois da Guerra da Secessão para viver com os indígenas; A LEI DOS MARGINAIS (1961) é também sobre um homem que se infiltra na máfia, desta vez por vingança.

O que me ganha em PAIXÕES QUE ALUCINAM é a estranheza, e há algumas cenas incríveis, como a da chuva "dentro do hospital", ou as cenas em que o herói sente dificuldade de falar depois de ter passado por um tratamento de choque.

Visto no box A Arte de Samuel Fuller.

+ TRÊS FILMES

SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA

Simplesmente louvável a iniciativa que estamos testemunhando da remasterização caprichada de alguns clássicos do cinema brasileiro. Que bom que chegou a vez de SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA (1965), um dos maiores filmes do nosso cinema de todos os tempos e uma das duas obras-primas de Luiz Sérgio Person, morto precocemente aos 40 anos num acidente de automóvel que nunca foi devidamente solucionado. Falando em automóvel, é de Person a obra que melhor expressa a São Paulo dos anos 1960, por mais que NOITE VAZIA, de Walter Hugo Khouri, chegue pertinho. Mas a São Paulo de Person é mais completa, por assim dizer, diurna e noturna, com pobres e ricos dividindo o mesmo quadro, assim como o enfoque na indústria automobilística, lugar onde se passa parte da história de Carlos, um dos personagens mais trágicos e angustiados da história do cinema brasileiro. Walmor Chagas está impecável como este homem confuso, que quer ficar em paz, mas sua angústia o faz querer se casar com Luciana (Eva Wilma). A excelente montagem nos leva para diferentes momentos de sua vida e diferentes mulheres que conheceu, como a existencialista Hilda (Ana Esmeralda) e a ambiciosa Ana (Darlene Glória, estreando nas telas). Fiquei me perguntando diversas vezes quais seriam as principais inspirações de Person para seu estilo. Lembra tanto o cinema italiano daquele período, como Antonioni, principalmente, mas também faz lembrar o cinema americano do período do noir, em especial na cena em que Eva Wilma é vista na janela, em contraste, depois do episódio de perturbação do marido. Rever no cinema SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA é uma tarefa essencial para todo cinéfilo que se preze.

HANYO, A EMPREGADA (Hanyeo)

É interessante como certas cinematografias que hoje são muito fortes tiveram um início tão humilde, por assim dizer. É o caso da cinematografia sul-coreana, que só foi começar com alguma força nos anos 1950, mas quase sempre com o predomínio do melodrama. HANYO, A EMPREGADA (1960) é um dos maiores clássicos dos coreanos, com um enredo que mistura horror com melodrama, num conto que é tão moralista quanto transgressor. Na trama, um professor de piano de classe média, casado, com dois filhos e com um outro encomendado na barriga da esposa, se vê numa teia de intriga e chantagem da empregada doméstica, a quem ele engravida. E isso é só o começo de uma trama cheia de surpresas, de exageros, de um interesse em dançar com o grotesco. Não sei se gosto do epílogo, mas imagino que tem a ver com o aspecto moralista da trama. Num filme noir americano dos anos 1940, homens se entregavam a femme fatales sem tanto sofrimento interior. Não é o caso do protagonista dessa história. Aliás, em determinado momento da trama, lembrei-me de O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, com a sujeição da esposa, que no caso aqui também não é exatamente uma santa. O filme apresenta um retrato familiar em forma de pesadelo de forma brilhante. Visto no box Obras-Primas do Terror - Horror Asiático.

A MORTE FEZ UM OVO (La Morte Ha Fatto l’Uovo)

É impressionante como alguns anos são tão marcantes que chegam a imprimir seu próprio espírito nas obras, onde quer que elas sejam produzidas. É muito fácil pegar um filme de 1968 e se deparar com narrativas estranhas, imagens intrigantes, quase como se tivesse sido feito à base de alguma substância química, ou à base da matéria dos sonhos. Dizer que A MORTE FEZ UM OVO (1968) é uma espécie de giallo surrealista destaca mais sua estranheza do que sua história que teria que ter assassinos e mortes para ser considerado giallo. Há neste filme de Questi duas situações, na fuga do cinema mais industrial: primeiro há o fato de que os gialli desse período anterior a O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, do Argento, são bem mais diferentes mesmo, ainda não haviam se cristalizado como gênero; depois, temos o próprio diretor, Questi, que foi um artista que se negava a se entregar a uma linha de produção. Nesse sentido, a própria trama envolvendo uma granja industrial sofisticada de um casal de burgueses traz esse ar anti-sistema. Enquanto via o filme ficava impressionado com o quanto Questi tratava de subverter nossas expectativas. Jean-Louis Trintignant e Gina Lollobrigida encabeçam o elenco como o casal de burgueses. Ele tem um segredo, além de sabermos que tem um caso com a secretária (Ewa Aulin). Há também o medo que sentem dos trabalhadores, que abandonam o emprego revoltados com as condições de trabalho e o pagamento injusto. Por isso, o que vemos é também um filme sobre luta de classes, ainda que não tão direto assim. Gosto muito da cena de Trintignant com Aulin no carro e depois no bosque. Bem cheia de mistério e excitação. Fiquei curioso para ver os outros dois filmes mais comentados de Questi, o western spaghetti DJANGO VEM PARA MATAR (1967) e o terror O PODER DO EXORCISMO (1972). Dizem que há coisas em comum entre os três filmes que vão além do ativismo político e comunista de Questi e suas intenções de fazer obras que fujam do que se espera dos gêneros. No volume 13 da coleção Giallo, há um interessante extra sobre esses três filmes, além de uma entrevista com o cineasta.

quarta-feira, março 18, 2026

BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO (Blue Moon)



O cinema de Richard Linklater é geralmente verborrágico. E muitas vezes a gente adora, mesmo assim. Na verdade, o que a gente ama mesmo são os filmes da trilogia “Before”, mas a filmografia do “Rohmer texano” tem coisas muito interessantes, como sua busca por recortes na vida de personagens históricos. Foi assim com NEWTON BOYS – IRMÃOS FORA-DA-LEI (1998), com EU E ORSON WELLES (2008), e nesse 2025 Linklater fez uma dobradinha, já que lançou NOUVELLE VAGUE, sobre os bastidores de ACOSSADO, de Godard, que acabei não vendo ainda, e este BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO, indicado ao Oscar de ator.

O que me agradou bastante neste filme foi o quanto comecei a me solidarizar com um personagem que a princípio me parecia quase insuportável, um compositor de clássicos do cancioneiro americano, que está na pior, já que seu parceiro de composição está em cartaz com uma peça musical que está dando o que falar, feita com outro letrista. Ele se sente traído, mas também se sente velho, feio, sua baixa estatura mexe com sua autoestima e, em determinado momento, quando seu parceiro começa a falar um pouco de sua obra ele fica bastante incomodado: fala para não dizer nada de seu trabalho artístico, pois é a única coisa que lhe restou.

Ethan Hawke faz esse homem de 47 anos, Lorenz Hart, co-compositor de “Blue Moon” e outros clássicos da música, atualmente interessado numa jovem numa jovem de cerca de 20 anos, vivida por Margaret Qualley. Ao ser questionado sobre suas preferências sexuais, já que tem fama de gostar de rapazes, ele diz que é um apreciador da beleza. E aí não importa o gênero.

Aliás, a conversa de Hart com essa jovem é um dos momentos mais bonitos do filme. Lá estava aquele homem mendigando o amor daquela linda mulher, ouvindo detalhes íntimos sobre o rapaz por quem ela se apaixonou. É uma cena de doer o coração. Destaco também a cena em que ele conversa na escada com seu parceiro Richard Rogers (Andrew Scott), que também enfatiza o momento de tristeza imensa desse homem, que se sente traído, mas que também tem consciência de que muito de seu declínio veio do alcoolismo.

Do ponto de vista formal, não há tantas qualidades assim em BLUE MOON. Os movimentos de câmera são sutis o suficiente para ficarmos interessados só nas conversas e na alma de Hart. E Hawke faz um belo papel. Um dos melhores de sua carreira de ator. Além do mais, ele deve ter gostado, já que é um entusiasta de boa música.

+ TRÊS FILMES

BUGONIA

Emma Stone em sua quarta parceria com Yorgos Lanthimos segue fazendo sucesso, por mais que não repita a mesma excelência de POBRES CRIATURAS (2023). Estaria mais para um episódio estendido de TIPOS DE GENTILEZA (2024), seu filme em segmentos. Isso porque passa a impressão às vezes que BUGONIA (2025) se estende mais do que deveria em sua duração, mas pode ser só uma impressão mesmo, já que considero absolutamente brilhante o jogo de nervos que existe entre os personagens de Stone e Jesse Plemons, um dos grandes atores de sua geração. Aqui ele interpreta um sujeito que tem a convicção que uma empresária (Stone) é uma alienígena com a intenção de dominar o planeta Terra. Junto com seu fiel escudeiro, um sujeito com pouca capacidade de pensar vivido por Aidan Delbis, os dois conseguem capturar a mulher, raspando sua cabeça e passando-lhe um creme no corpo. A gente vê o personagem de Plemons e imediatamente pensa num desses solteirões revoltados que se alimentam de teorias da conspiração, muitos deles associados à extrema direita. Lanthimos, porém, tem um senso de humor todo próprio e sabe usá-lo mesmo quando sua narrativa intensifica a tensão e o desconforto, como na cena da tortura. Gosto do plot twist, até por não se levar tão a sério. O domínio de direção, narrativa e de atuações de Lanthimos segue sendo admirável.

FRANKENSTEIN

Os filmes de Guillermo del Toro são sempre uma surpresa pra mim, no que se refere ao meu amor ou desamor por eles. Na verdade, equilibrando a balança há mais filmes de que pouco gosto do que filmes que amo. Amo O LABIRINTO DO FAUNO (2006), A COLINA ESCARLATE (2015) e um lá do início de sua carreira, CRONOS (1992). Há aqueles que considero aborrecidos e aqueles que são simpáticos, e que até são exemplares de sucesso, como A FORMA DA ÁGUA (2017), mas que não me dizem nada. Gosto de seu amor pelos monstros, acho louvável ter alguém dentro de Hollywood que tenha conseguido financiamento para seus projetos mais pessoais, como é o caso de FRANKENSTEIN (2025), que não se propõe a ser uma adaptação fiel ao romance de Mary Shelley, e vejo isso como algo bom. Tanto que fiquei feliz quando vi que seu monstro é diferente, é mais humanizado e mais trágico e existencialista. Em alguns momentos me lembrei dos quadrinhos do Surfista Prateado da época do Stan Lee e do John Buscema. Fiquei até me perguntando se teria sido uma inspiração. Por outro lado, como bom apreciador do cientista mais frio e diabólico dos Frankensteins da Hammer, fiquei um tanto desapontado com esse Victor Frankenstein do Oscar Isaac. Não que o ator esteja ruim: ele segue as orientações e a criação de Del Toro. De todo modo, como em todo filme do realizador mexicano, há uma fotografia esplêndida e uma direção de artista lindíssima. Aqui o uso do verde e do vermelho nas vestimentas e nos cenários está de dar gosto. Pena que a história se arraste de forma tediosa, apesar da boa presença de cena de Mia Goth, sempre que aparece. Achei difícil comprar o amor dela pela criatura; mas talvez esse seja o ponto fraco do realizador, por mais que alguém vá discordar lembrando justamente do oscarizado A FORMA DA ÁGUA. Que foi seu último filme com roteiro original: depois desse, só adaptações de clássicos da literatura, uma espécie de remake (O BECO DO PESADELO, 2021). Não que isso limite um autor. Mas a verdade é que de nada adiantam boas ideias se o resultado carece de força.

MARTY SUPREME

Ainda não aprendi a relaxar com os filmes dos Safdy. O fim das sessões de BOM COMPORTAMENTO (2017) e JOIAS BRUTAS (2019) me deixaram um bocado desnorteado e até com dor de cabeça. Com a “separação” dos irmãos em diretores-solo, percebe-se que vem de Josh a ansiedade, que se repete de maneira mais ambiciosa em MARTY SUPREME (2025), um filme maior, mais longo e com um ator também mais interessado na grandiloquência, o jovem Timothée Chalamet, aqui vivendo um obcecado jogador de ping pong, que quer provar ser não apenas o melhor de seu país, mas o melhor do mundo. Mas menos importa a história e mais o estilo com que Josh Safdy opta por usar, seja pela câmera na mão e nervosa, pelos personagens histéricos, ou pela fotografia (em película) escura e com menos nitidez do iraniano Darius Khondji. Fiquei feliz quando vi o nome de Abel Ferrara nos créditos (como ator) e não me decepcionei, já que sua presença ocasiona algumas das melhores e mais intensas cenas, como a cena da banheira ou a do tiroteio. Ter Ferrara como ator é como ter um padrinho de primeira. O personagem de Chalamet não é exatamente um herói para ser gostado. Ele é naturalmente egoista, mas tem, sim, suas qualidades, como a obsessão por lutar por aquilo que deseja, mesmo que para isso tenha que roubar ou se humilhar. Gosto das cenas com Gwyneth Paltrow, mas também acho que houve uma ótima química com a jovem Odessa A'zion, que aparece numa das primeiras cenas como um interesse amoroso/sexual com Marty, e puxa os créditos com “Forever Young”, do Alphaville. Aliás, é interessante o filme se passar nos anos 1950 e trazer canções dos anos 1980. Isso traz um estranho sentimento de deslocamento.

segunda-feira, março 16, 2026

OSCAR 2026



Na melhor das hipóteses, pensando agora com meus botões (embora não esteja usando nada que tenha botões no momento), podemos dizer que o Oscar 2026 foi uma celebração de certo passado de Hollywood. Mais especificamente os anos 1970. Senão vejamos: o grande vencedor da noite foi UMA BATALHA APÓS A OUTRA, de Paul Thomas Anderson, filme que se passa nessa década e que deve muito ao cinema daquele período. Até o nosso O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho, também destaca TUBARÃO e aquele momento mágico para o cinema americano, embora muito difícil politicamente para os países da América Latina.

Quando assistimos ao In Memoriam, o quadro tradicional que homenageia os atores, atrizes, diretores e outros artistas e técnicos relacionados ao cinema (principalmente o americano), notamos que os dois astros mais celebrados foram Robert Redford, que até ganha uma canção na voz de Barbra Streisend, com quem contracenou em NOSSO AMOR DE ONTEM, de Sydney Pollack; Diane Keaton, que ganha uma fala de destaque de Rachel McAdams, e também Robert Duvall, outro ator importantíssimo, curiosamente colega de elenco de Keaton em O PODEROSO CHEFÃO.

Porém, voltemos para o presente. Um duro presente em que tivemos uma cerimônia tão morna quanto acovardada. Os Estados Unidos atacando o Irã, ajudando no genocídio da Palestina, invadindo a Venezuela para roubar petróleo e fazendo do próprio país um inferno com sua polícia anti-imigração e o máximo que se vê são piadas muito sutis por parte de Conan O’Brien e um “não à guerra” e “Palestina Livre”, por parte de Javier Bardem. Foi ele quem anunciou, ao lado de Priyanka Chopra, o prêmio mais aguardado para os brasileiros, o de melhor filme internacional, o que mais o Brasil teria chance de ganhar, repetindo o feito do ano passado, já que na categoria de ator estava concorridíssimo – até Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet saíram de mãos abanando, vencendo Michael B. Jordan, por PECADORES.

A noite começou até bem animada, com o prêmio de atriz coadjuvante para Amy Madigan, por A HORA DO MAL, que poderia ter sido um filme indicado nas categorias principais, se a academia não tivesse tanto preconceito com filme de terror. Sabemos que PECADORES conseguiu essa vaga tão difícil, mas aconteceu porque metade do filme é sobre a questão da apropriação cultural e do racismo sistêmico nos Estados Unidos. Então, havia ali um tema considerado de prestígio.

Sobre a derrota de O AGENTE SECRETO, já é uma alegria que o filme tenha ganhado tal visibilidade e tenha chegado até entre os dez da categoria principal, como aconteceu no ano passado também com AINDA ESTOU AQUI. Ou seja, aos poucos o cinema brasileiro vai ganhando uma penetração maior num território que costuma ser muito resistente ao cinema que não é produzido nem nos Estados Unidos nem no Reino Unido. Havia no passado alguns casos de indicações de filmes de outra língua que não o inglês às categorias principais, mas era um fura-bolha ocasional. Neste ano, no entanto, outro conseguiu também furar a bolha, VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier, que eu considero um sub-Bergman bem desavergonhado, mas que acabou agradando muitos espectadores. Além do mais, ter uma atriz de Hollywood no elenco (Elle Fanning) é meio que marmelada, hein.

No mais, deixo aqui meu beijo para meu grande amor Giselle. Foi a primeira vez que assistimos juntos a cerimônia. Ela estava preocupada com a qualificação de mestrado (que foi um sucesso, a próposito), e não viu com tanta atenção assim, mas estava lá do meu lado. Também contei com gente muito legal nos grupos de bolão, que não deixaram o sono chegar. O fato de a premiação ter começado bem mais cedo desta vez, aliás, foi um diferencial e tanto. Terminou antes de meia-noite, fato inédito até então.



Os Premiados

Melhor Filme – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Direção – Paul Thomas Anderson (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Ator – Michael B. Jordan (PECADORES)
Atriz – Jessie Buckley (HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET)
Ator Coadjuvante – Sean Penn (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Atriz Coadjuvante – Amy Madigan (A HORA DO MAL)
Roteiro Original – PECADORES
Roteiro Adaptado – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Fotografia – PECADORES
Montagem – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Trilha Sonora Original – PECADORES
Canção Original – “Golden” (GUERREIRAS DO K-POP)
Som – F1 – O FILME
Efeitos Visuais – AVATAR – FOGO E CINZAS
Direção de arte – FRANKENSTEIN
Figurino – FRANKENSTEIN
Maquiagem e cabelos – FRANKENSTEIN
Seleção de elenco – UMA BATALHA APÓS A OUTRA 
Filme Internacional – VALOR SENTIMENTAL (Noruega)
Longa de Animação – GUERREIRAS DO K-POP
Curta de Animação – THE GIRL WHO CRIED PEARLS
Curta-metragem (live action) – OS CANTORES e TWO PEOPLE EXCHANGING SALIVA (empate)
Documentário – UM ZÉ NINGUÉM CONTRA PUTIN
Curta Documentário – QUARTOS VAZIOS



domingo, fevereiro 22, 2026

SÉTIMO CÉU (7th Heaven)



Logo que SÉTIMO CÉU (1927) começa fica muito claro o drama de seus dois protagonistas, bem como suas principais qualidades. Diane (Janet Gaynor, no mesmo ano que fez AURORA, de Murnau) é uma jovem que sofre agressões domésticas de sua irmã alcoólatra. As duas vivem numa casa muito humilde, numa espécie de favela de Paris. Já Chico (Charles Farrell) é um homem que ganha a vida limpando o esgoto da cidade. No meio da água fétida dos subterrâneos da cidade, seu principal desejo é subir ao posto de limpador de rua. Confesso que as lágrimas já começaram a cair neste admirador de melodramas logo nesses primeiros momentos do filme. E mal sabia eu que era só o começo.

Vale lembrar que tanto Gaynor quanto Farrell trabalharam juntos com Frank Borzage em outros dois filmes, O ANJO DAS RUAS (1928) e o maravilhoso ESTRELA DITOSA (1929). Tanto SÉTIMO CÉU quanto ESTRELA DITOSA" estabelecem o melodrama, ou pelo menos o melodrama de autoria de Borzage, como o gênero do milagre. Solidarizamo-nos tanto com as crises e as aflições de seus heróis, quanto festejamos suas vitórias, sendo que algumas delas se constituem milagres, uma espécie de compensação para a ficção diante da dureza da vida.

O dia que Chico traz o vestido de noiva para Diane é justamente o dia em que todos os homens da França são convocados para a guerra. Chico, sentindo que ficará longe e poderá até morrer naquele conflito, finalmente tem a coragem de dizer "eu te amo" para Diane, que chora emocionada, dizendo que nunca sentiu tanta alegria em sua vida, que nunca se acostumou a ser feliz. Eu fico completamente devastado com essa cena. E depois disso, o filme vai ganhando ainda mais força, pois é nos obstáculos que esse tipo de história se fortalece, mesmo que vá nos entregar um final infeliz ou trágico, o que pode muito bem acontecer. Por mais que o final seja exatamente totalmente feliz, há algo que nos faz festejar, uma espécie de milagre que o deus Borzage, um deus bondoso, é capaz de fazer, como se quisesse provar que a dura realidade pudesse ser atenuada como num passe de mágica, como na ressurreição de um homem.

Talvez SÉTIMO CÉU não seja tão poderoso quanto ESTRELA DITOSA, mas é certamente um exemplar maravilhoso desse cinema do sentimento exacerbado, bem como do cinema em que o mundo espiritual invade o mundo físico para a alegria de todos os envolvidos, inclusive nós, espectadores e torcedores.

+ TRÊS FILMES

A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab)

A academia tem dado visibilidade a Kaouther Ben Hania. Já é o terceiro filme da diretora tunisiana que ganha espaço no O Oscar. Os outros dois, para quem não lembra, foram O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE (2020) e o tocante AS 4 FILHAS DE OLFA (2023), talvez ainda seu melhor trabalho, sabendo borrar muito bem as fronteiras entre ficção e documentário. Seu novo filme, A VOZ DE HIND RAJAB (2025) talvez tenha conseguido espaço nas concorridíssimas vagas de filme internacional pela importância temática, por ser demasiado urgente o cinema ser também esse agente de denúncia, de revolta e, por que não?, de mudança na política mundial, ao trazer mais uma obra sobre a violência, a brutalidade, os crimes, o absurdo das ações do estado de Israel ao dizimar o povo palestino, e com ajuda dos Estados Unidos. A academia de Hollywood trazer mais uma vez um filme sobre esse momento de terror e dor não deixa de ser um mérito, por mais que tenhamos um filme cuja estrutura já havia sido vista antes, mas há aqui um diferencial: o registro da voz real da menina Hind Hajab. A partir desses registros, busca-se contar a história do que aconteceu no escritório do Crescente Vermelho no dia que receberam a ligação de uma garotinha aterrorizada por estar sozinha dentro de um carro, ao lado dos cadáveres de seus familiares. A maldade humana não tem limite, pelo visto.

A VIDA DE CHUCK (The Life of Chuck)

Sou fã da Mike Flanagan, mas suspeito que suas parcerias com Stephen King acabam rendendo produtos um tanto tortos. Não gosto nada de DOUTOR SONO (2019), e justamente por isso me surpreendi positivamente com A VIDA DE CHUCK (2024), tanto por suas ousadias narrativas (que vêm do conto de King, imagino), quanto pelo caráter misterioso e sentimental, já caraterístico de seus filmes e séries de terror. Tanto que o que reclamam dele, de fazer menos terror e mais melodrama, eu vejo como algo positivo, e que poderia ter rendido mais neste filme estrelado por Tom Hiddleston. O filme acaba adotando um clima mais épico do que lírico, e quando achamos que vai predominar um tom lovecraftiano, algo barra essa expectativa, o que vejo como algo positivo. Dos três atos, gosto mais do ato III, que é o primeiro a ser contado e que traz um tom meio apocalíptico, só devidamente explicado nos atos seguintes. Gostei de rever atores usualmente presentes em outras obras de Flanagan, como Carl Lumbly, Mark Hammil, Violet McGraw, Kate Siegel e Samantha Sloane.

ENTRE DOIS MUNDOS (Ouistreham)

Como não estou muito acostumado a ver filmes franceses tratando com tanta frequência de temas trabalhistas, acabei vendo este ENTRE DOIS MUNDOS (2021), de Emmanuel Carrère, e me lembrando do cinema de Ken Loach. E digo isso como um elogio. Desde o começo, somos apresentados a personagens numa agência de empregos que os encaminha (a maioria, mulheres) para trabalhos de serviços gerais. É assim que se apresenta uma raivosa (com razão) Hèlene Lambert, que entra em cena quase no mesmo momento que a protagonista, vivida por Juliette Binoche, uma mulher que se diferencia das demais (e dos demais) por ser na verdade uma escritora em busca de vivenciar a experiência de faxineira e outros serviços de limpeza que pagam muito mal e exigem muito bem. Em certo sentido, ela é como um policial infiltrado, que transita entre a amizade que sente ser verdadeira e a atuação para esconder quem de fato é. Acredito que se o filme não tivesse essa trama, se se concentrasse apenas no drama dessas pessoas vivendo trabalhos precarizados por hora trabalhada para sobreviver, talvez até fosse tão ou mais interessante. As melhores coisas do filme, como não poderia deixar de ser, acontecem fora do horário de expediente, como a conversa entre essas pessoas, seus sonhos, suas frustrações, suas dificuldades e suas dores, inclusive físicas, proveniente do trabalho. Gosto das cenas nas balsas e em especial uma com as três amigas, gosto do modo como o momento do trabalho dessas pessoas já se inicia quando o sol ainda não nasceu. Talvez falte um pouco mais de denúncia mais incisiva, mas também entendo o quanto isso também pode ser delicado e passível de se pesar a mão. Juliette Binoche mais uma vez está um encanto.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

VÉNUS ET FLEUR



“O escritor é o sofredor exemplar porque encontrou tanto o nível mais profundo do sofrimento quanto um meio profissional de sublimar (no sentido literal, não no freudiano) seu sofrimento. Como homem, sofre; como escritor, transforma seu sofrimento em arte. O escritor é o homem que descobre o uso do sofrimento na economia da arte – assim como os santos descobriam a utilidade e a necessidade do sofrimento na economia da salvação.”
Susan Sontag

Hoje não estava com muita disposição para escrever. Falar (no caso, escrever) sobre um filme requer muitas vezes algum tipo de necessidade (quando não trabalhamos exatamente com um tipo de disciplina ou uma obrigação contratual ou profissional). Como não ganho dinheiro escrevendo para o blog e meio que me acostumei com os longos períodos sem escrever para este espaço (o que acho uma coisa triste de se dizer), não me forço tanto assim, não me culpo mais ou fico aborrecido. Mas gosto quando surge algo que faz com que eu sinta vontade de escrever. E às vezes esse “algo” vem não necessariamente do filme em questão.

No caso, escolhi VÉNUS ET FLEUR (2004), de Emmanuel Mouret, menos pelo filme em si, embora eu já tivesse uma intenção de falar sobre ele em específico, até por ter feito isso com quase todos os trabalhos do realizador que vi – só não fiz com TRÊS AMIGAS (2024), seu mais recente longa-metragem, que mais me aborreceu do que me encantou, o que me leva a pensar na possibilidade de revê-lo, pois vivemos às vezes dias ruins, inapropriados para certas apreciações artísticas.

Pois bem. O que me deu vontade de escrever foi a leitura de um artigo escrito por Susan Sontag. Estou lendo Contra a Interpretação e Outros Ensaios (Companhia das Letras) e estou absolutamente apaixonado pela escrita dela. O texto que me deixou mais impressionado até agora (ainda estou no começo do livro) foi “O Artista como Sofredor Exemplar”, em que ela trata de como as sociedades pós-cristãs veem o amor, e trata especialmente da vida e da obra de um autor que eu até então desconhecia, o italiano Cesare Pavese (1908-1950). Sontag entrou em contato com os romances de Pavese, escritos nos anos 1940, mas o que mais a deixou impressionada foram seus diários, que mostram não só o artista, seu trabalho de prosa e poesia pensados para publicação, mas principalmente o homem desnudado, o Cesare sem as máscaras presentes em supostos heróis de seus romances, heróis que poderiam talvez ter personalidades parecidas com a sua.

Nos diários os temas do suicídio e da morte estão muito presentes – ele se mataria em 1950 –, assim como são presentes seu profundo desapontamento com sua imensa dificuldade de ter sucesso na vida amorosa, sua inadequação sexual. Ele comentava sobre o caráter predador e explorador das mulheres (era dessa maneira que ele as via), confessava sua incapacidade de proporcionar prazer sexual. As palavras “mulheres” e “morte” costumavam aparecer juntas em seus escritos. É dele a frase “é possível não pensar em mulheres, assim como não se pensa na morte”. Outro trecho forte que ele escreveu: “Você não se mata por amor a uma mulher, mas porque o amor – qualquer amor – o revela em sua nudez, sua miséria, sua vulnerabilidade, sua nulidade...”

Desse modo, acabei achando esse caráter trágico da existência e dos pensamentos e sentimentos de Pavese extremamente interessantes. Como se ele fosse uma espécie de romântico tardio. No mais, Pavese redescobre, com Stendhal, “que o amor é, em essência, uma ficção; não que o amor às vezes cometa erros, mas sim que ele é, essencialmente, um erro.” E daí surge uma teoria do amor, por mais que a citação de um romance como O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, ou o filme OS AMANTES, de Louis Malle, para pegar os dois exemplos ditos por Sontag que ilustram finais felizes ou algo parecido, essa teoria de que o amor é sempre fadado ao fracasso. Mas o próprio Pavese considerava-o necessário. Dizia ele: “A vida é dor e o prazer do amor é um anestésico” ou “O amor é a mais barata das religiões”.

Sontag lembra que essa visão do amor que temos hoje está associada ao cristianismo, que essa visão não existia entre os gregos e os hebreus antigos e os povos orientais, e que o cristianismo é, desde sua fundação (com Paulo) a religião romântica. Sendo que o culto do amor seria um culto do sofrimento. E isso não havia dois mil anos atrás, o que corrobora com minha ideia de que a era de Peixes (e eu entro aqui com a astrologia) fez todo esse estrago nesses mais de dois mil anos. Mas também sentir é algo que é desejado. Há um outro pensador citado por Sontag, Denis de Rougemont, que menciona a preocupação da perda desse sentimento por cada um de nós, como se quiséssemos ser protagonistas de nossos próprios romances incríveis de nossas vidas reais.

Enfim, fiquei de fato fascinado com o texto saboroso de 12 páginas de Sontag, mas posso fazer um link agora com o filme de Mouret, ainda que eu saiba que sobrará pouco espaço para o trabalho do realizador (e por isso eu peço perdão a quem entrou aqui por acaso para ler só sobre o filme). Mouret nos apresenta a duas pessoas que veem a vida de maneira totalmente diferentes, ou pelo menos agem de maneira diferente, o que não quer dizer que a melancolia não possa surgir eventualmente em algum momento na personagem mais alegre, tanto quanto parece ser uma constante na personagem introspectiva.

VÉNUS ET FLEUR nos apresenta a duas jovens de personalidades distintas: enquanto Vénus é muito extrovertida e muito sedenta por viver, Fleur é muito fechada, tímida, vive num mundo mais interior de livros (ela aparece lendo O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa), e também de melancolia, sentindo-se como se não existisse para os outros (ela verbaliza isso em determinado momento em conversa com Vénus). Ela nem mesmo havia se dado ainda a chance de amar alguém.

Fleur é uma jovem russa que, depois de uma desilusão amorosa em Paris, passa a procurar enlouquecidamente por homens, junto com a recém-amiga Fleur. Só que Fleur, claro, quer fugir de certas roubadas, e morre de vergonha do que Vénus faz na cara dura, como entrar dentro do carro de um estranho. Já Fleur, é tão introspectiva que seus ombros estão quase sempre arqueados, como se ela estivesse sempre tensa. Seus seios mais volumosos acabam se tornando não necessariamente um elemento de vantagem para a moça, mas algo que a torna mais parecida com um caracol, por mais bela que seja. Ela é mais bonita que Vénus, inclusive, mas o próprio filme demora um pouco a mostrá-la dessa maneira, pois o sorriso aparece mais em Vénus, e quase nunca, ou de forma acanhada apenas, em Fleur.

Daí a força que o filme ganha em sua conclusão, quando Fleur começa a ser percebida pelos rapazes, quando sorri, se sente plena, e também quando começamos a ver uma maior complexidade também na figura de Vénus, ao se ver rejeitada e a encarar isso como uma espécie de quase negação, ou de uma “bola pra frente”. Há uma química interessante entre as duas personagens, a amizade que surge entre elas, num tipo de dependência e troca mútua. O erotismo é muito sutil e elegante e achei bem bonita a última cena, com as opções do diretor no que deseja mostrar em close-ups, muito coerente com o ponto de vista de Fleur, principalmente.

Diria que as duas moças, Vénus e Fleur, teriam um pouco da personalidade melancólica de Pavese, mas muito pouco, na verdade. Mouret, embora mais à frente, em sua carreira, tenha feito melodramas e filmes mais carregados, costuma optar em geral pela leveza, o que não quer dizer que a dor não seja sentida, que ela não esteja lá presente, mesmo nas comédias. Mouret, nesse momento de sua carreira, ainda era uma espécie de herdeiro do cinema de Éric Rohmer. Depois disso, evoluiu e hoje caminha com as próprias pernas, com uma personalidade muito própria.

+ TRÊS FILMES

MEMÓRIAS DE UM CARACOL (Memoir of a Snail)

Do mesmo diretor de MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (2009), eu não esperava uma história tão triste, tão no estilo "desgraça pouca é bobagem" neste MEMÓRIAS DE UM CARACOL (2024), de Adam Elliot. A protagonista, Grace, começa a história criancinha, e depois chega à idade adulta, ainda sofrendo muito. Se na infância e na adolescência era o bullying, depois outras situações não muito agradáveis, como a morte de pessoas queridas, a solidão, a depressão, a exploração sofrida por um personagem masculino que seria supostamente o homem que a amava (foi a cena que mais me doeu, essa). E o mais curioso é que Grace nem era a mais depressiva da família: ela via a vida como um copo com água na metade; diferente do irmão, que via como um copo vazio, mas esse mesmo irmão era seu herói, aquele que a protegia e estava sempre do seu lado. Gosto das cenas em que os dois irmãos, junto ao pai paralítico, estão lendo clássicos da literatura, e o quanto isso muda quando ela é levada para outro lar. Eu dei os tradicionais cochilos, como acontece com frequência com animações, mas desta vez culpo mais o horário (17h) e principalmente minha crise alérgica (de novo!).

JUNTOS (Together)

O body horror está de volta e está na moda. Deve ter atingido a mais alta escala de popularidade com A SUBSTÂNCIA, mas um certo TITANE já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes. O próprio mestre do subgênero também o fez com CRIMES OF THE FUTURE recentemente. E o grande barato do cinema de horror é o quanto ele pode usar temas políticos, sociais ou de relacionamento, como é o caso de JUNTOS (2025), de Michael Shanks, para revirar tudo do avesso (falando em revirar do avesso, difícil não lembrar de determinada cena de outro exemplar maravilhoso do gênero, A MOSCA). Neste filme que está dando o que falar, e que causa alguns momentos de aflição, Dave Franco e Alison Brie são um casal que ainda não se casou de fato, mas se mudou para uma casa no campo. Acontece que tanto ele quanto ela não estão muito bem. Ele, especialmente, nota-se estar muito incomodado com o relacionamento, ao mesmo tempo que não consegue se ver longe da namorada. As coisas começam a ficar sérias (ou divertidas) quando, depois de estarem numa caverna sinistra, os corpos dos dois passam a se comportar como se fossem se grudar. E de fato se grudam, e há algumas cenas muito boas, como a do sexo, a do cabelo e a do braço. Gosto menos do final do que do início e do desenvolvimento, mas de certa forma ele encerra bem o filme. Não de maneira tão gloriosa quanto poderia, mas o filme em nenhum momento se apresenta de fato genial. Seu principal mérito é trazer uma nova visão para a questão da dependência emocional.

A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (A Big Bold Beautiful Journey)

Talvez tenha me incomodado no filme a falta de uma química maior entre o casal vivido por Colin Farrell e Margot Robbie, mas o diretor Kogonada (COLUMBUS, 2017) mais uma vez dá destaque à direção de arte (aqui, remetendo aos musicais clássicos de Hollywood) e à melancolia, o que me atrai. Farrell, nesse sentido, está melhor do que sua parceira. Parece trazer consigo ainda um quê da tragédia dos personagens de OS BANSHEES DE INISHERIN e de O LAGOSTA. O espírito depressivo e derrotista de David, seu personagem no filme, se contrapõe em parte ao tom mais cínico de Sarah (Robbie), uma mulher bonita demais para estar sozinha num casamento de um amigo em comum com David. Ambos trazem traumas, medos, arrependimentos, nascidos de suas experiências no passado. Ele guarda lembranças de uma rejeição nos tempos da escola e que repercutiu na vida adulta; ela guarda o remorso de não estar presente quando sua mãe faleceu. Por isso a ideia de lar para cada um deles é diferente: enquanto ele foge para um futuro utópico e inexistente como pai de família, ela foge para a infância, para os braços da mãe. É um dos exemplares mais claros de filme-terapia, embora não veja como obra tão bem-sucedida no que tange ao tocar o espectador (se bem que só posso falar por mim). Ainda assim, é fácil ficar encantado com as cores muitas vezes artificiais de A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (2025), bem como é fácil também criar alguma identificação com um ou outro personagem, nessa jornada que, para que chegue a um fim satisfatório ou feliz, é preciso enfrentar os demônios do passado, exorcizar a culpa e começar a ter um posicionamento mais decisivo diante da vida. Uns vinte minutos a menos no corte final teriam ajudado? Não sei. Mas talvez o que tenha me incomodado mais tenha sido a opção pela fantasia como meio de ilustrar as angústias dos protagonistas. E quase sempre eu tenho dificuldade de me apegar à fantasia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (La Casa dalle Finestre Che Ridono)



Há 25 anos eu já ouvia falar (muito bem) deste filme de Pupi Avati, através da saudosa lista de discussão Cannibal Holocaust. E, apesar de geralmente ser classificado como um giallo (embora não um giallo tão tradicional), não havia sido lançado pela Versátil em sua linda coleção amarelinha até então. Eis que foi, mais recentemente, no volume 15. Essa demora se deu principalmente à falta de uma versão remasterizada do filme.

E que bom que agora existe, pois a fotografia de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (1976) é uma das mais lindas do gênero, a cargo de Pasquale Rachini, que passaria a ser colaborador habitual de Avati a partir de então. Também belíssima é a trilha sonora de Amedeo Tommasi (A LENDA DO PIANISTA DO MAR, SLEEPLESS), que tem um tema romântico do protagonista com uma jovem professora que ele conhece na pequena cidade rural que é muito tocante, chegando a, ao mesmo tempo, contrastar e completar o restante da música original, centrada mais no mistério e no horror. Ah, e falando em coisas lindas, impressionante a beleza de Francesca Marciano, que, ainda que tenha trabalhado com Avati novamente em seu trabalho seguinte, optou por seguir o caminho de roteirista, tendo feito o roteiro de filmes famosos, como EU E VOCÊ, de Bernardo Bertolucci, e O MELHOR ESTÁ POR VIR, de Nanni Moretti.

A trama de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES nos pega mais pela atmosfera de mistério e pela perfeita condução de Avati do que pela história em si, embora ela também seja muito boa, muito ousada e que faz com que fiquemos tão curiosos para descobrir os segredos daquela cidade, daquele pintor, daquela família, que até entendemos ele correr tantos riscos. O final é surpreendente e vai fazer muita gente lembrar de certo slasher oitentista.

Na trama, Lino Capolicchio é um restaurador de afrescos que é contratado para restaurar uma pintura muito estranha de uma cidade do interior da Itália. A figura mostrada na pintura é uma espécie de variação da imagem de São Sebastião, trocando as flechas por facas e compondo um visual ainda mais perturbador com outras imagens no quadro. Ao chegar ao hotel, o rapaz, de nome Stefano, logo recebe avisos anônimos por telefone que precisa sair da cidade o mais rápido possível, se não ia se arrepender.

O filme de Avati tem um interesse genuíno na trama, mas acredito que é um tipo de interesse não tão próximo assim dos tradicionais whodunits. Ou seja, o que mais conta é o que vem sendo trazido aos poucos para o quebra-cabeças, como a gravação do pintor morto e desaparecido, além de declarações de alguns moradores da cidade que ousam falar sobre o assunto, que parece ser um tabu. O tal pintor se especializava em pintar pessoas no momento de suas mortes. Havia esse encanto, essa obsessão pela expressão do moribundo.

A presença de Francesca Marciano, com uma personagem meiga e gentil, em determinado momento da história é essencial para que pensemos em algo ou alguém que é ótimo o bastante para que nos preocupemos, diante daquele cenário de mortes misteriosas e casas mórbidas. Gosto do final, apesar da estranheza que carrega, ou talvez por causa disso, mas o filme vale muito mais do que o final. É como uma cebola que vamos descascando e saboreando lentamente. Uma cebola doce, é bom dizer.

Quanto a Avati, cineasta prolífico e que conheço tão pouco ou quase nada, achei interessante o comentário que ele dá em seu depoimento presente no box da Versátil: ele conta que não assiste filmes de outros diretores e não procura se atualizar sobre o que está sendo feito. E por isso mesmo pode até estar fazendo algum filme com uma história já feita antes. Nesse caso, talvez seja o caso de cineasta que mais se abastecesse espiritualmente com o zeitgeist do que com referências cinematográficas, embora ele tenha citado um par de filmes, sendo um deles, O VAMPIRO, de Carl Th. Dreyer. O segundo, eu me esqueci.

+ TRÊS FILMES

DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (Dèmoni)

Talvez mais conhecido como o filho do genial Mario Bava, Lamberto Bava não alcançou nem metade da estatura do pai, o que também pode se dever ao fato de ele já ter iniciado sua carreira na última década em que o cinema de horror italiano estava em sua glória plena, os anos 1980. Eu, inclusive, até prefiro MACABRO (1980) a este muito mais celebrado DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (1985), que virou um clássico, principalmente por seu sucesso nas vídeolocadoras. Por isso mesmo, é um luxo poder ver o filme não numa cópia surrada em VHS ou num DVD comum, mas numa gloriosa cópia em BluRay, a ótima e caprichada edição lançada pela Obras-Primas do Cinema. Ver DEMONS é também entrar numa espécie de cápsula do tempo, tanto pelo gosto pelo splatter mais raiz típico do horror oitentista, quanto pela trilha-sonora de Claudio Simonetti, acrescida de canções de Mötley Crüe, Scorpions, Billy Idol e outros, que adicionam o hard rock e o heavy metal, gêneros associados ao horror, aos sintetizadores da trilha original, e que já estava em voga nos gialli de Dario Argento e de outros. Aliás, Argento foi produtor de DEMONS, e dizem que foi um produtor bastante presente durante as filmagens. Ou seja, deve ter dedo dele no resultado criativo. Na trama, um grupo de pessoas, a maioria jovens, entra num cinema da Alemanha para assistir a um filme misterioso. Enquanto isso, a maldição do filme dentro do filme começa a repercutir também nessa sala de cinema: uma das moças havia experimentado uma máscara que furou seu rosto (clara homenagem ao clássico A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Bava), assim como também fura o rosto do personagem do filme, que se transforma num demônio. Em determinado momento, o filme fica parecendo mais uma aventura de matinê, com as pessoas correndo dos monstros, do que do horror. O que não quer dizer que isso seja ruim. Apenas deixou de ser tão atraente pra mim. Ainda assim, é uma alegria ver DEMONS, pelo que traz de novo e criativo.

ALL THE COLORS OF GIALLO

O documentário ALL THE COLORS OF GIALLO (2019), de Federico Caddeo, pode não trazer muitas novidades para quem já conhece os principais filmes do gênero, mas ainda assim é uma delícia de ver. O formato escolhido é de certa forma óbvio, mas interessante: primeiro fala do giallo como literatura, para depois falar dos krimis, produzidos na Alemanha, da “invenção” do giallo por Mario Bava com seus principais filmes, e depois o momento em que o subgênero ganha filhotes, a partir, principalmente, de O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, de Dario Argento. Em seguida, há um bom momento dedicado a Lucio Fulci, e depois aos cineastas menores, mas essenciais para a manutenção do estilo por mais de uma década. Dos meus gialli preferidos, senti falta de uma menção a O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano. Em compensação, há situações de trabalhos importantes de Sergio Martino, Umberto Lenzi, Luciano Ercoli, Aldo Lado, Duccio Tessari, entre outros. Além dos cineastas entrevistados, é bom ver atores e atrizes repensando suas experiências. Sei que terminei o doc com um gostinho de quero-mais e uma vontade enorme de ver um monte de giallo. Até já reservei dois boxes da minha querida coleção amarelinha aqui. 

VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (Valerie a Týden Divů)

Há anos sei o quanto VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (1970) é um filme cultuado, mas sempre adiava sua apreciação por algum motivo. Acho que me afastava um pouco o fato de ser um filme narrado do ponto de vista de uma criança e isso às vezes, por alguma razão que não sei bem explicar, me dá um pouco de sono - posso citar vários casos. Outro motivo talvez seja o fato de o classificarem mais como uma fantasia do que como terror. Na verdade, as duas informações são parcialmente corretas: a menina na verdade está numa fase de descoberta sexual aos 13 anos de idade e acaba passando tanto por diversos tipos de violência quanto por um sentimento de paixão romântica; e, sim: considero o filme mais uma fantasia do que terror, mas muitos códigos de terror estão lá, principalmente o fato de contar uma história de vampiros. Gostaria de ter me envolvido mais com a narrativa onírica e surreal do filme, mas isso não aconteceu, mesmo com toda a beleza visual – a cópia presente no box Obras-Primas do Cinema – Horror Internacional está linda. O diretor Jaromil Jireš costuma ser associado à nouvelle vague tcheca, um movimento interessante, que infelizmente conheço muito pouco.

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

ONZE CURTAS BRASILEIROS



Ando sem tempo de escrever para o blog, mas não vou deixar de colocar registros dos curtas brasileiros vistos recentemente.

A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO

Este filme de Rodolpho de Barros (ao que parece é o seu quarto curta-metragem) já chama a atenção por sua beleza plástica: a fotografia em preto e branco em janela scope valoriza tanto as tomadas de perto, como a imagem da mosca lutando pela vida ou os close-ups dos dois únicos atores em cena, quanto a visão panorâmica do bar, onde aquele homem estudioso da vida das moscas e aquela mulher aparentemente deprimida estão. Excelente o trabalho de Luiz Carlos Vasconcelos, que é tanto o narrador quanto a pessoa que impulsiona a ação com palavras e gestos. Ele dizer, por exemplo, o detalhe de como as moscas acasalam não é algo gratuito para a conclusão da breve história kafiana que é A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO (2024).

AJUDE OS MENOR

A primeira imagem de AJUDE OS MENOR (2025), de Janderson Felipe e Lucas Litrento, da moto surgindo de uma paisagem desértica ao som de uma trilha que lembra western spaghetti ajuda a dar o tom de uma ambientação tão masculina quanto hostil. O rapaz da motocicleta é um entregador que traz o almoço para um grupo de rapazes que trabalham na construção civil. O ambiente se revela tóxico com a chegada do chefe que quer mostrar que manda na base da humilhação. A semelhança das primeiras imagens com o western acaba se confirmando com a presença de uma arma e de um espírito vingativo. Não me envolvi tanto com o andamento narrativo e com os personagens, mas é um bom filme sobre luta de classes, sim.

AMERICANA

São 20 minutos que passam voando. Muito divertida esta comédia de Agarb Braga que mostra uma situação de confusão entre duas mulheres trans e o pivô da briga seria o namorado de uma delas. O que começa parecendo algo que até lembra algo da comédia cearense (o filme é paraense) ganha força com a montagem muito esperta, que nos fazer ver diversos pontos de vista e conhecer as principais personagens, sendo a mais engraçada a personagem crente. O título do filme, AMERICANA (2025), se refere a uma delas, que gosta de ser chamada pelo apelido "americana" e suspeita que o namorado a está traindo. Destaque também para a fotografia bem colorida e solar.

BOI DE SALTO

Gosto de como BOI DE SALTO (2025), de Tássia Araújo, se inicia de um jeito (um marido tentando satisfazer o desejo de sua esposa grávida) e se transforma em algo totalmente diferente e igualmente interessante, sobre um rapaz que quer desfilar no Bumba-Meu-Boi usando saltos altos brilhosos e isso não é muito bem-visto pelo mestre. Mas talvez por isso mesmo eu tenha achado sua conclusão muito brusca, com impressão de incompletude. De todo modo, acredito que a diretora tenha mandado seu recado, sim, e faz isso com um cuidado visual muito bom, e com personagens bons o suficiente para que queiramos ver mais deles.

BOIUNA

Que bom que tem chegado, ainda que de maneira tímida, filmes ambientados (e produzidos) na região norte do Brasil. Assim como o sucesso MANAS, este curta BOIUNA (2025), de Adriana de Faria, também lida com dificuldades que as meninas encontram no mundo, e que precisam contar com elas mesmas para venceram (ou não) os obstáculos que surgem. Inclusive, não me lembro de nenhum personagem masculino que tenha surgido na trama (mas posso ter me enganado). Mas BOIUNA também tem algo de misterioso: há uma cobra gigante e há pessoas que aparecem e reaparecem depois de mortas para atazanar a vida das mulheres. Aliás, lembrei de um personagem masculino, o de um homem morto. Gosto do filme, mas imagino que se visto na telona o som funcionaria mais a seu favor.

CASULO

Eis um tipo de curta que funciona como curta em seus 20 minutos, mas que também dá vontade de acompanhar os personagens, como numa série de televisão. Acompanhamos Joana, uma mulher com um filho pequeno sofrendo o que parece ser um distúrbio pós-parto. Ela está preocupada com a visita de uma assistente social e somos convidados a viver um pouco desse seu inferno interior, ainda que saibamos bem pouco de sua história pregressa. Mas por isso mesmo CASULO (2024), de Aline Flores, é brilhante, pois aquilo que é mostrado, naquele universo pequeno que é um apartamento, aquilo parece bastar. Grande desempenho de Aline Flores, que é diretora e atriz principal. Grande talento!

COMO NASCE UM RIO

A animação é um ótimo meio para contar uma história de maneira mais poética, num estado mental próximo ao uso de um alucinógeno, quando é o caso. Em COMO NASCE UM RIO (2025), de Luma Flôres, acompanhamos uma jovem mulher descobrindo uma outra mulher, tão gigante que parece um monte. Um monte que jorra água, como um rio. Mas à frente, as metáforas ficarão mais óbvias e o final é bem bonito em sua representação do amor físico.

CANTO

Um filme que destaca o não-dito, mas que é representado na fala, na fragilidade, no sentimento de cuidado, este CANTO (2025), de Daniel Daher. Uma jovem mãe que se atribui solteira, um menino com o braço quebrado, uma vizinha que ajuda na cama molhada de xixi, o dono de um quartinho que precisa do aluguel, uma agente de empregos exercendo sua função burocrática e um mundo que parece não destinado a cuidar daqueles que mais precisam. O uso do close-up na cena das perguntas na agência de empregos é o ponto alto.

RÉQUIEM PARA MOÏSE

Susanna Lira é uma cineasta incansável. É impressionante o quanto ele tem produzido por ano. Se acham que estou exagerando, basta dar uma olhada em seu currículo no IMDB. Uma diretora que tem trabalhado tanto com a ficção quanto com o documentário. Inclusive sou fã de seu documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024), lindíssimo. Em RÉQUIEM PARA MOÏSE (2025), trabalhando em parceria com Caio Barretto Briso, estreando na direção, apresenta o revoltante caso do espancamento de Moïse Kabagambe, imigrante congolês de 24 anos, num quiosque na Barra da Tijuca em 2022. Infelizmente se trata de um daqueles casos revoltantes, mas que, com o surgimento de outros casos revoltantes neste país, acabou sendo um pouco esquecido. Ter um pequeno filme que traga este assunto novamente e dando voz aos amigos de Moïse se faz necessário.

SAMBA INFINITO

Fiquei encantado com este SAMBA INFINITO (2025, foto), de Leonardo Martinelli. Já começa mostrando o quanto é chique ao anunciar nos créditos a participação especial de Camila Pitanga e Gilberto Gil. Mas depois, quando se revela uma espécie de drama lynchiano, misterioso e cheio de afeto, aí me encantou de vez. Ainda mais quando brinca com a própria forma para alcançar o sublime, como que trazendo uma nova chance de vida para o gari que no passado se perdeu da mãe. A última fala da personagem de Camila Pitanga é muito comovente. Além do mais, que movimentação de câmera elegante e que fotografia linda, feita por João Atala, o mesmo de MEDUSA e NOSSO SONHO.

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O formato adotado por este filme não é original. Até tem sido usado com frequência, principalmente em curtas, como uma forma de trazer para o espectador um olhar afetuoso causado principalmente pela narração, embora as imagens que passam por nossos olhos também complementem, muitas vezes por causa de um tipo de contraste, aquilo que estamos ouvindo. O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO (2025), de Felipe Casanova, só foi me ganhar já perto do final de seus 20 e poucos minutos. Foi quando o sentimento que eu geralmente carrego quando o assunto é a dor de uma mãe finalmente me pegou. Foi quando o contraste quase perverso do carnaval carioca com a morte de adolescentes e crianças pobres e pretas pelo estado passou a ter um impacto maior em mim.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

A CRONOLOGIA DA ÁGUA (The Chronology of Water)



É interessante perceber que, recentemente, são as cineastas mulheres que mais têm buscado lidar com os assuntos mais pesados, e com muita propriedade. Ou mais têm sentido a necessidade de criar obras sobre suas próprias dores e aflições.

Podemos pensar em alguns exemplos notáveis: Paola Cortellesi lida com a violência doméstica em AINDA TEMOS O AMANHÃ; Coralie Fargeat usa o body horror para falar do etarismo da mulher em A SUBSTÂNCIA; Audrey Diwan trata em tintas de terror e suspense o aborto em O ACONTECIMENTO; Marianna Brennand lida com o difícil combo abuso sexual infantil e a rede de prostituição no norte do Brasil em MANAS; Eva Victor trata com sensibilidade assuntos espinhosos como depressão, abuso e suicídio; Anne-Sophie Baily nos apresenta à dura tarefa de uma mãe-solo cuidando de um filho especial em PEDAÇO DE MIM; Chloé Zhao trata do luto de uma mãe diante da partida de um filho pequeno em HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET; entre outros vários casos. Enfim, há inúmeros casos, no Brasil e no exterior.

Pensei nisso ao sair da sessão de A CRONOLOGIA DA ÁGUA (2025), primeiro longa-metragem como diretora da atriz Kristen Stewart. Ela havia dirigido curtas antes, mas apresentou seu desafiador trabalho em Cannes na mostra Un Certain Regard, a segunda mais importante do festival. O filme é baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, e busca usar um tipo de estética de filme caseiro, de modo a tornar a experiência mais próxima da realidade. Há também uma montagem bem fragmentada, que contribui para um sentimento de desconforto, mas também de empatia para com a personagem de Imogen Poots.

Poots é Lidia, uma mulher que cresceu num lar em que sofria o terror de ser abusada sexualmente pelo próprio pai, que antes dela já abusava da irmã mais velha. Enquanto isso, a mãe dela era conivente e alcoólatra. Ou alcoólatra pois conivente.

No elenco de A CRONOLOGIA DA ÁGUA, fiquei feliz de ver (ainda que a princípio não os tivesse reconhecido) Kim Gordon (mais conhecida como ex-baixista do Sonic Youth, e que aparece numa cena no mínimo estranha; e também feliz de ver Jim Belushi, como uma espécie de professor de redação criativa, alguém muito importante para o desenvolvimento da protagonista como escritora, detentora de um estilo agressivo e pouco palatável.

E se o filme de Stewart também é agressivo e pouco palatável, me parece ser por respeito à obra de Yuknavitch. Espero que a atriz siga experimentando mais seu lado diretora, embora torça ainda mais para vê-la como atriz em outros tantos projetos incríveis.

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PEDAÇO DE MIM (Mon Inséparable)

A primeira vez que fiquei muito impressionado com a interpretação de Laure Calamy foi com o drama estressante CONTRATEMPOS (2021). Em PEDAÇO DE MIM (2024), ela tem também essa pegada, mas com um peso maior: o peso da dificuldade que é cuidar sozinha de um filho agora já adulto, mas neurodivergente. E chega outra bomba: o rapaz engravidou uma moça e agora está querendo ser independente e pai da criança que fez com a jovem por quem está apaixonado. É mais fácil nos solidarizarmos com o drama da personagem feminina, por ela estar mais próxima do espectador e também por ser a protagonista. Sem falar que o foco do filme está em suas angústias, em seu desejo de ter momentos de liberdade, como quando sai com um homem que conhece numa festa, ou quando reencontra esse mesmo homem na Bélgica, numa situação um tanto delicada. É bom vermos esses filmes dirigidos por mulheres e que a gente não imagina que seriam tão bem acertados se fossem dirigidos por um diretor homem, embora isso não seja uma regra, claro. Algumas cenas de PEDAÇO DE MIM são carregadas de uma poesia incrível, como na cena em que o rapaz (Charles Peccia Galletto) sai para viver sua vida adentrando uma bruma escura. Até achei que ali seria o final, mas o filme se aproxima de um ótimo epílogo, com outro corte brilhante para os créditos finais. Belíssimo.

AMORES MATERIALISTAS (Materialists)

Depois de VIDAS PASSADAS (2023), um filme bem bonito em sua sutileza, mas que não me "pegou" de fato, estava com um pé atrás para AMORES MATERIALISTAS (2025), o novo trabalho de Celine Song, desta vez com uma produção maior e um trio de astros de Hollywood que atrai a atenção de uma audiência maior. Na sessão em que estávamos, o público era majoritariamente feminino, o que me fez lembrar, guardadas as devidas diferenças, a primeira sessão de CINQUENTA TONS DE CINZA, também protagonizado por Dakota Johnson. E Dakota tem de fato carisma suficiente para chamar a atenção das audiências de ambos os gêneros. Ainda sobre o público, há que se pensar também no tema do filme: Dakota é uma "casamenteira" de elite, cujos clientes são pessoas com dinheiro suficiente para bancar os serviços da empresa onde ela trabalha. E como diria a música dos Titãs: "Todo mundo quer amor, todo mundo quer amor de verdade". Mas o casamento, como ela diz de forma tão cínica quanto realista, é um acordo social, estando mais próximo de um negócio do que de uma união de almas gêmeas. E ela mesma vive um dilema: casar-se com um milionário (Pedro Pascal) por quem ela não nutre nenhum sentimento ou procurar o seu ex (Chris Evans), que vive ainda com as mesmas dificuldades financeiras dos anos em que namoravam, dos anos em que ela o largou por não ser um "liso". Um dos aspectos que me fez gostar bem mais deste AMORES MATERIALISTAS do que de VIDAS PASSADAS foi o quanto ele se disfarça de produção mais comercial (e isso pode desagradar uma parcela grande do público), mas utiliza um andamento sem pressa e uma resolução emocionante, mas também muito sutil no que se refere à demonstração do amor mais desavergonhado. Não à toa, o fã de comédias românticas (e de melodramas) aqui se viu chorando em determinado momento crucial. O filme, apesar de parecer moderninho, não é tão distante dos romances de Jane Austen, que falam de amor, mas que também não se distanciam de tratar de questões materiais e econômicas.

GUARDE SEU CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE (Put Your Soul on Your Hand and Walk)

De vez em quando a gente precisa desse choque de realidade para que saibamos como pessoas como a gente estão vivendo em diferentes lugares do mundo; e para perceber mais uma vez que este mundo é governado por criaturas diabólicas (e, aqui, no caso do drama dos palestinos, sabemos quem são os principais autores do genocídio). O que faz com que este filme singelo ganhe a força devida é a personagem, a jovem de 24 anos Fatma Hassona, que insiste em permanecer viva em uma Gaza completamente destruída. Falta água, eletricidade, comida, internet, mas eles acabam dando um jeito. A cena da comida, quando é perguntado a ela sobre o que tem pra comer, foi o momento que me fez chorar. Os demais momentos me encheram de uma tristeza imensa, de uma desesperança com a humanidade, principalmente com a situação do povo palestino, que talvez não encontre paralelos nem com o genocídio dos povos indígenas da América do Sul. Fatma quase sempre está sorrindo quando fala pelo celular com Sepideh, a diretora iraniana, afastada do próprio país por questões políticas e hoje vivendo uma vida que Fatma gostaria de ter: de viajar por vários países, conhecer tantos lugares. Infelizmente, a maldade humana fala mais alto e pessoas como Fatma seguem sendo brutalmente assassinadas no cotidiano de Gaza. GUARDE SEU CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE (2025) funciona como uma boa dobradinha com SEM CHÃO.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET (Hamnet)



Como diz a canção dos Smiths, “But don't forget the songs that made you cry/And the songs that saved your life" (mas não se esqueça das canções que te fizeram chorar/ e das canções que salvaram a sua vida), eu tenho um profundo respeito e também uma profunda gratidão por filmes que não somente me fazem chorar, mas também me oferecem uma experiência próxima de algo espiritual, seja pela beleza da arte, seja pelo quanto o tema e principalmente o modo como ele é contado em formato audiovisual se manifesta. Sei o quanto isso é subjetivo, mas por isso mesmo é tão belo, pois vem daquilo que nos toca como humanos. Em tempos de ascensão da inteligência artificial, sentirmo-nos humanos e vulneráveis faz parte da graça.

E mais: uma das coisas que mais devemos ser gratos a esse aumento considerável do número de cineastas mulheres em atividade, e no caso aqui adaptando o trabalho de uma romancista, é o quanto podemos ter mais acesso à sensibilidade feminina. Afinal, durante séculos vivemos sob o ponto de vista masculino até para falar de personagens femininas. E não digo que caras como Pedro Almodóvar, Todd Haynes e George Cukor não tenham feito um belo trabalho em buscar apresentar a alma feminina (imagino que tenham), mas sei que não é a mesma coisa.

HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET (2025), quinto longa-metragem de Chloé Zhao, é um desses casos de filmes que ganham muito com o fato de ser dirigido por uma cineasta mulher. Embora deva muito de sua força à interpretação monstruosa de Jessie Buckley. Que atriz!! Buckley me chamou a atenção primeiramente em ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO. Depois vieram outros trabalhos em que ela se destacaria, como A FILHA PERDIDA, MEN – FACES DO MEDO e ENTRE MULHERES, mas foi com HAMNET que a atriz mostrou tudo.

Sua primeira aparição, em plano-geral que a mescla à natureza, já dá uma ideia do que virá, num plano incrível de movimento de câmera de cima para baixo que nos apresenta a uma árvore enorme que possui uma mesma raiz (e junto a essa árvore um buraco!). Uma primeira imagem que já antecipa simbolismos que a narrativa desenvolveria. Aquele buraco muito provavelmente trará o sentimento de luto, que é o principal tema do filme, mas que eu preferia não ter dito, pois o melhor é vê-lo sabendo o menos possível.

Mesmo com as primeiras cenas de Buckley (com o falcão, sua primeira conversa com o professor de latim), confesso que não estava preparado para a imensidão de sentimento, para o tanto que ela doa para a construção da personagem Agnes, esposa de William Shakespeare, vivido aqui por Paul Mescal, que, aliás, é um ator maiúsculo também (vide AFTERSUN, vide NORMAL PEOPLE), mas que aqui fica um pouco de lado pois importa menos Shakespeare e mais a esposa e mãe de três filhos que se doa pelo bem-estar das crianças, usando os conhecimentos de curandeirismo que aprendeu com a mãe, tida pelo vilarejo como uma bruxa.

Ou seja, o próprio combo maternidade, natureza e até bruxaria é um exemplo do arquétipo do feminino que o filme apresenta de maneira orgânica. Some-se a isso uma cena que também traz um simbolismo feminino imenso, além de ser um exemplo do que de melhor pode ser produzido em melodrama na atualidade: a cena do parto, que acontece no meio de uma tempestade.

Estava sentindo falta de um filme que entregasse tanto esse sentimento exacerbado sem medo de parecer excessivo. E Zhao faz isso com muita classe, e ainda exaltando a arte como cura e o mais próximo que se pode chegar da imortalidade, principalmente para um humanista como Shakespeare.

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A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS

Um dos melhores longas-metragens de estreia do ano passado, A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS (2025) tem sua singularidade, mas em alguns momentos me lembrou o cinema de Apichatpong Weerasethakul, principalmente no quanto lida com o ambiente de hospital e a espiritualidade. Por mais que ache incrível o trabalho das crianças, o que mais me tocou foram duas cenas específicas de Camila Márdila, duas cenas cheias de sentimento: a cena em que a enfermeira (Laura Brandão) se oferece para ajudá-la na ida ao sítio com a avó hospitalizada; e a cena de Camila com a atriz que faz a avó, quando as duas conversam sobre demonstrar através de palavras o amor que uma sente pela outra. Aquilo ali é muito bonito e vejo a Camila como uma gigante entre os talentos deste novo século. Ou seja, ela nem era até então a protagonista do filme, mas depois que surge, rouba-o para si. De todo modo, há duas metades muito distintas; há uma mudança bem clara de tom quando a trama passa a se ambientar no sítio, com mais revelações e um aspecto mais mágico e misterioso no ar. Ah, e as crianças são ótimas também e seus dramas são muito bem trabalhados, assim como a conexão que se estabelece entre elas.

MORRA, AMOR (Die My Love)

Lynne Ramsay é uma cineasta cujas obras têm um espaçamento temporal grande entre si. De VOCÊ NUNCA ESTEVE REALMENTE AQUI (2017) para este MORRA, AMOR foram oito anos. De PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (2011) para o seguinte foram seis. E mesmo assim, ela tem chamado atenção para si. E desta vez possivelmente entregou seu melhor trabalho, assim como temos aqui a melhor interpretação da carreira de Jennifer Lawrence, uma atriz que já começou oscarizada muito jovem, mas que não havia chegado ainda a ter o devido respeito da crítica, por mais que tenha encarado diferentes desafios, como o pirado MÃE! ou a comédia QUE HORAS EU TE PEGO?. MORRA, AMOR (2025) é um filme sobre depressão pós-parto que talvez pareça ir longe nos atos da heroína, mas faz isso com muita verdade. Grace, a personagem cujo nome parece uma ironia, é uma escritora que passa a sofrer muito após o nascimento de seu filho com Jackson (Robert Pattinson, também ótimo). Sofre ao sentir tesão e não receber a mesma atenção do marido, sofre ao morrer de tédio, sofre a preferir bater a cabeça no espelho ou rasgar as próprias unhas na parede do que viver daquele jeito. A heroína de Lawrence/Ramsay é herdeira, talvez, da Gena Rowlands de UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, mas com muito mais ousadia e selvageria do que fragilidade. E Ramsay deixa sua heroína voar, fazer suas loucuras em nome do fim da dor, do tédio e da vontade de não existir. A montagem é acertada, tanto ao trazer momentos do passado para a narrativa principal, quanto para apontar imagens futuras em pequenos flashes. Ela flerta com o cinema de horror mais do que com o melodrama. Seu filme é duro, embora não totalmente despido de sentimentalismo. Há uma cena que é banhada de ternura, quando vemos o casal cantar "In spite of ourselves", de John Prine e Iris DeMent. Linda!

#SALVEROSA

Basta dar uma olhada na filmografia de Susanna Lira para ficar impressionado com a quantidade gigante de produções que ela dirige. Algumas poucas chegam ao circuito, como foi o caso do ótimo documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024). #SALVEROSA (2025) é o retorno de Lira à ficção, e o resultado é no mínimo muito curioso. A começar pela performance de Klara Castanho no papel de uma menina que começa a descobrir coisas sobre si mesma e sobre a mãe. E são coisas bem pesadas. É impressionante como a atriz consegue comverncer como uma menina adolescente, já tendo passado dos 20 anos de idade. Em alguns momentos o filme pode incomodar um pouco na caracterização da personagem da mãe (Karine Teles), mas talvez para esse tipo de filme de teor mais de denúncia (embora se de ficção) seja importante deixar claras certas vilanias. Em alguns momentos parece um bom suspense barato estilo Supercine. Mas acho que isso faz parte do charme do filme.

quinta-feira, janeiro 15, 2026

LAISSONS LUCIE FAIRE!



Foi amor à primeira vista (ou à primeira risada) na primeira vez que vi um filme de Emmanuel Mouret, FAÇA-ME FELIZ (2009), numa edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Mal sabia eu que, apesar de este trabalho ainda constar no rol de comédias que se tornariam a marca do cineasta até ele fazer uma virada de chave para o drama com UM NOVO DUETO (2013), mal sabia eu que ele já era um cineasta com alguns títulos já lançados anteriormente, sendo que apenas o anterior havia sido lançado no país comercialmente, o delicioso e divertidíssimo SÓ UM BEIJO, POR FAVOR (2007), que, creio eu, não chegou a ser lançado em Fortaleza. Foi um dos vários filmes do diretor que tratei de ir conhecendo por vias alternativas principalmente durante a pandemia.

E é graças a esses meios alternativos que tive o prazer de conhecer até mesmo os filmes inéditos no país, como foi o caso, recentemente, de LAISSONS LUCIE FAIRE! (2000), seu primeiro longa-metragem. Ou o segundo, se considerarmos o filme de 50 min de duração PROMÈNE-TOI DONC TOUT NU! (1999), como um longa. Atualmente se considera um longa quando se tem mais de 60 min, mas não é todo crítico que leva em consideração essa regra. De uma forma ou de outra, isso não importa muito.

Um dos dois filmes de Emmanuel Mouret que faltava eu ver, este aqui ainda tem aquele ar de quase amadorismo por parte de um diretor que viria a se tornar um dos mais interessantes deste século. LAISSONS LUCIE FAIRE! é mais irregular que o seu quase primeiro longa, PROMÈNE-TOI DONC TOUT NU! Sem falar que o anterior também é mais "safadinho", no bom sentido, ou seja, utiliza um pouco mais do erotismo presente em outros ótimos trabalhos de Mouret, como o próprio SÓ UM BEIJO, POR FAVOR ou o mais maduro AMORES INFIÉIS (2020).

E acredito que o problema de LAISSONS LUCIE FAIRE! esteja justamente na duração. Gosto muito da primeira metade. De rir e gargalhar, com muitas situações apresentadas quase em forma de esquetes, o que mais uma vez faz aproximar o realizador com Woody Allen, principalmente os primeiros trabalhos de Allen. Mas o cineasta que parece ser a sua principal referência é mesmo o francês Éric Rohmer. Há um quê de CONTO DE VERÃO ou PAULINE NA PRAIA, de Rohmer, nesta trama de jovens ambientada numa cidade litorânea francesa.

Pena que Mouret não apresente o mesmo brilho em sua conclusão. Na trama, o próprio Mouret é um rapaz de família abastada que faz concurso para ser policial, para desgosto do pai, que anda muito ocupado com a contratação de uma empregada doméstica. Porém, o protagonista acaba sendo contratado como agente secreto – algo que ele precisa fazer nessa nova profissão é não contar para ninguém a respeito.

Enquanto isso, sua doce namorada (Marie Gillain, de A ISCA, de Bertand Tavernier), que vive de vender biquínis e maiôs na praia usando o próprio corpo como modelo, cobra do namorado uma postura de completa franqueza com relação a tudo. Como se não bastasse o tal emprego que não deve ser contado a ninguém, o protagonista ainda se sente atraído por outra mulher, que se oferece a ele sexualmente. E é nesse jogo de traições (ou quase) que o filme se reveste de uma força maior. Até por saber tratar tudo com bastante leveza. Depois disso, a narrativa vai perdendo sua força, o que não quer dizer que não seja bem gostoso de ver. Essa brincadeira com triângulos (ou quadrados) amorosos seria posteriormente aperfeiçoada em outros trabalhos do realizador.

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PERRENGUE FASHION

Vinda da televisão, e depois da experiência desafiadora de comandar, junto com Guel Arraes, O AUTO DA COMPADECIDA 2 (2024), Flávia Lacerda segue agora no território da comédia, mas num estilo mais usual de comédia brasileira do cinema pós-retomada, que carrega uma tendência de tratar de questões econômicas e sociais. Em PERRENGUE FASHION (2025), Ingrid Guimarães segue aproveitando sua boa verve cômica para interpretar uma influenciadora de moda que mora numa casa minúscula para conter tantos brindes recebidos de patrocinadores. Segundo seu secretário e único apoiador, vivido por um Rafa Chalub que parece aproveitar um pouco a lacuna deixada por Paulo Gustavo, ela precisa fazer de conta que já é milionária a cada vídeo que publica no Instagram ou TikTok. Um dia surge a oportunidade de ouro de ela fazer uma publicidade da Gucci, mas ela precisa ir em busca do filho (Filipe Bragança), que está na Amazônia, e agora lidando com ecologia e sustentabilidade e bastante resistente a ajudar a mãe. Assim como acontece em outras comédias que apresentam o choque cultural de alguém que veio de uma cidade cosmopolita para adentrar o Brasil profundo (lembro agora de BEM-VINDA A QUIXERAMOBIM, de Halder Gomes), a graça desta aqui está em ver como a personagem de Ingrid lida com aquilo que lhe parece estranho, como o estilo de vida daquele grupo em que o filho agora se insere e, mais engraçado, a questão da comida diferente da Amazônia. Como ouvi numa entrevista da diretora e do elenco no podcast Plano Geral, é bem provável que uma comédia como esta seja mais eficiente na conscientização de um modo de vida mais amigo do meio ambiente do que qualquer documentário mais caprichado.

MÃE FORA DA CAIXA

É importante trazer para um público maior, no caso, o público que frequenta o cinema e assiste às comédias brasileiras, o tema do puerpério, das dificuldades imensas por que a mulher passa assim que o bebê nasce. No cinema de ficção, por exemplo, eu só havia visto esse tema ser apresentado de maneira mais crua no americano TULLY, de Jason Reitman, com roteiro de Diablo Cody e atuação intensa de Charlize Theron. MÃE FORA DA CAIXA (2025) faz isso muito bem, ainda que de maneira suave, se comparado ao filme de Reitman, até porque as intenções de ambos os filmes são distintas. A diretora Manuh Fontes se sai muito bem, pelo menos até seu terço final, quando o filme por pouco põe a perder o que havia conquistado em seus 2/3. Muito da força do filme está no carisma de Miá Mello, mas também no quanto muitas situações servirão como identificação para quem já passou pela experiência de ser mãe, amamentar e acompanhar os primeiros passos de uma criaturinha totalmente dependente. Isso vale para os homens que estiveram presentes também, aqui representados por Danton Mello.

AGENTES MUITO ESPECIAIS

E Marcus Majella faz aqui um trabalho que ajuda a honrar a memória de Paulo Gustavo. AGENTES MUITO ESPECIAIS (2025), de Pedro Antônio, deveria ser um filme com os dois atores/comediantes e a ideia foi materializada num filme irregular, mas com alguns momentos muito divertidos, principalmente na primeira parte do filme, que vai do treinamento dos protagonistas até a temporada na prisão, na missão de se infiltrar numa gangue perigosa. Há toda uma brincadeira que mistura orgulho gay com uma tentativa, a princípio, de "falar grosso" na penitenciária. De um lado, temos um homem gay orgulhoso de sua orientação sexual (Majella); do outro, alguém que não se assume (Pedroca Monteiro), ou que diz ser um gay "não praticante", e essa brincadeira funciona bem na primeira metade do filme. Depois, há uma queda no interesse, por conta de uma trama burocrática que quebra o tom de brincadeira descompromissada que o filme até então adotara.