quinta-feira, novembro 16, 2023

O EXORCISTA (The Exorcist)



Minha primeira relação com O EXORCISTA (1973) não foi com o filme de William Friedkin, mas na pré-adolescência, quando um amigo da vizinhança me emprestou o romance de 1971 de William Peter Blatty. Fiquei bem impressionado com os diálogos entre o padre e o demônio e com detalhamentos sobre coisas que não aparecem no filme, um texto lido por um personagem da trama, pesquisando sobre missas negras ministradas com hóstias feitas de farinha, fezes, sangue de menstruação e pus. Entre outros detalhes blasfemos e não vistos nem em filmes como OS DEMÔNIOS, de Ken Russell. Se eu, que não sou católico, achei isso chocante, imagine os católicos devotos.

Não me recordo bem da primeira vez que vi o filme de Friedkin. Foi em meu primeiro ano de cinefilia, quando estreou na TV aberta em 1989, no SBT.  Na época a emissora investia bastante em grandes filmes e fazia uma disputa bem saudável e divertida com a Rede Globo. Cheguei a rever no cinema, em 2001, se não me engano, na versão estendida, com cerca de 10 minutos adicionais, e trazendo pelo menos uma cena então famosa por ter sido deletada da versão original, a que Regan (Linda Blair) desce as escadas de costas.

Depois de mais de duas décadas da última vez em que revi o filme, retorno a este clássico do cinema de horror, que, ao contrário do que muita gente pensa ou lembra dele, é uma obra que guarda muita distância de quase todos os títulos que lidam com possessão demoníaca, que foram influenciados por ele. O fato de a direção ser de um expoente da Nova Hollywood faz toda a diferença, dando um ar de estranheza e dureza até para quem está acostumado com o gênero. Há também o aspecto pessimista que impregnava a sociedade americana da época, ajudando a tornar a experiência do filme bem singular. 

O prólogo se passa numa expedição arqueológica que só se liga ao filme próximo de sua conclusão. E há toda a luta da mãe para descobrir o que há de errado com a filha, inicialmente submetendo-a a exames cerebrais com aparelhos que parecem saídos de câmaras de  tortura. Hoje em dia essas cenas causam até mais desconforto que as próprias cenas de exorcismo, que, por conta da maquiagem verde, talvez nos tire um pouco da suspensão da descrença. Não há como negar, porém, a grandeza do filme de Friedkin, de como ele dialoga com sua obra – lembrei-me, por exemplo, de PARCEIROS DA NOITE (1980), visto recentemente por mim por ocasião da morte do cineasta.

Gosto do final misterioso e em aberto de ambos os filmes, de como eles deixam no ar mais dúvidas que certezas. Há também algo que representou um sucesso para as plateias mais rebeldes da época, que foi uma espécie de simpatia pelo demônio, pelo modo como ele perturba os sacerdotes da igreja. Assim, não vejo O EXORCISTA como um filme tão cristão quanto um INVOCAÇÃO DO MAL, por exemplo. Ele é mais complexo, mais contraditório, mais enviesado. Não à toa o filme não foi visto com bons olhos por certos evangelistas, como foi o caso de Billy Graham, que declarou que cada frame do celuloide era maligno.

Essa suposta simpatia pelo mal caia como uma luva com aquele momento de rebeldia da juventude, em que o rock, com frequência, trazia uma aproximação com o satanismo, como uma forma de quebrar paradigmas, de incomodar a sociedade tradicional e de chocar. O próprio filme também tem essa intenção de causar choque. Se bem que o romance de Blatty já era assim, trazendo coisas que se distanciavam do caso real do menino possuído, novidades como a masturbação com o crucifixo, os jatos de vômito verde e as quedas de temperatura dentro do quarto.

Quanto ao clima no set, conta-se que Friedkin tinha o hábito de atirar com uma arma para cima para aumentar as tensões, ou usar música com o som nas alturas, de modo a incomodar a todos. Há também o caso de lesão da coluna de Linda Blair nas cenas em que ela aparece na cama sendo arremessada para frente e para trás pelo demônio, como uma boneca. Quem também teve a coluna lesionada foi Ellen Burstyn, na cena em que ela é arremessada pela adolescente endemoniada. 

No livro Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind, não há quase nada sobre situações delicadas envolvendo Linda Blair, mas é um pouco chocante para quem gosta do artista Friedkin dar de cara com coisas terríveis que ele fazia com as mulheres. Certamente não é um diretor que trabalharia da mesma maneira na Hollywood de hoje. E sobre outras tantas coisas relativas às filmagens tumultuadas de O EXORCISTA, o livro de Biskind também não entrega muito. Até porque é preciso um livro inteiro para dar conta dos fatos e da mitologia que se criou em torno do filme.

+ DOIS FILMES

O EXORCISTA – O DEVOTO (The Exorcist – Believer)

Que horror este filme que se pretende ser uma continuação direta do original de William Friedkin, ignorando as outras continuações. O diretor da nova trilogia HALLOWEEN (2018-21-22) parece não ter entendido nada do filme original, de suas ambiguidades e do modo como se sente a presença do mal, sem precisar se ater a nada muito explícito. Este aqui não consegue nem mesmo ser um genérico filme de possessão. E o que é o papel da Ellen Burstyn, tentando reprisar a atriz de cinema mãe da Regan? Que maldade com a atriz. Há também um monte de frases de autoajuda constrangedoras em O EXORCISTA – O DEVOTO (2023), além de personagens despidos de personalidade. Não faltam também jump scares vagabundos aqui e acolá. Enfim, se David Gordon Green já tinha decepcionado com a trilogia HALLOWEEN, que eu nem acho tão ruins, com este aqui (e terão continuações, vejam só!!) ele entra na lista negra de muitos cinéfilos que têm o mínimo de respeito pela obra clássica de 1973.

CUANDO ACECHA LA MALDAD

A primeira metade de CUANDO ACECHA LA MALDAD (2023) é tão boa que é difícil não ficar empolgado com o suspense, a velocidade dos acontecimentos, as imagens gráficas feitas para grudar no subconsciente, a mitologia nova que Demián Rugna cria. É como uma variação dos filmes de zumbis, mas com o mal sendo destacado. Mais ou menos como em EVIL DEAD, mas com um tom mais dramático e mais apocalíptico. A trama acontece numa área rural da Argentina, e dois irmãos ficam sabendo que uma pessoa do povoado está infectada por um demônio. Vendo como única possibilidade de livrar a vila daquele demônio o transporte daquele corpo infectado ainda com vida, os dois acabam enfrentando o mal em outros momentos. Acho que o filme perde um pouco a força quando há um aumento do número de personagens e um crescimento considerável das regras para combater ou se desviar desse mal. Acharia fantástico poder ver esse filme no cinema. Ainda não sei se o discreto burburinho entre os cinéfilos fará isso acontecer.

quarta-feira, novembro 15, 2023

AS MARVELS (The Marvels)



As pessoas estão muito cansadas da fórmula Marvel para o cinema. Mas será que é pela exaustão dos filmes de super-herói ou por que estão cansadas de tantas produções ruins ou medíocres sendo despejadas com a velha desculpa de que serão importantes para a compreensão dos próximos e dos próximos filmes? Isso até pode funcionar na lógica dos quadrinhos, mas no cinema é muito dinheiro sendo gasto e não se perde apenas duas horas ou mais de tempo vendo um filme. Esse mesmo filme vira conteúdo em um monte de canais de YouTube e de críticas escritas também, seja em jornais, seja na internet. 

No caso de AS MARVELS (2023), é impressionante ver o quanto o trailer já era visto pelo público como algo no mínimo bastante desinteressante. O resultado é esse: fracasso de bilheteria enquanto as salas que exibem o Festival Varilux de Cinema Francês lotam para vários filmes. Certo: estamos falando de produtos diferentes, mas imagino o quanto a Disney e os Estúdios Marvel estão preocupados com seu futuro. Afinal, 2023 vem trazendo algumas surpresas boas de bilheteria. 

Diferentemente dos anteriores do estúdio, não vi AS MARVELS numa sala IMAX. Aqui só estavam exibindo dublado (e no horroroso 3D convertido) nas sessões mais viáveis, enquanto a única sessão legendada dessa sala exibia o filme no último horário. Mesmo assim, vendo numa sala normal, senti falta da tela IMAX. É como se a fotografia não funcionasse em salas normais, como se a minha retina procurasse algo melhor e não encontrasse. Tive a mesma sensação quando vi ETERNOS numa sala normal (e boa). (Curiosamente, até as imagens que a gente procura dos filmes da Marvel na internet são ruins. Imagens de divulgação, digo. Não entendo isso porque isso ocorre, mas deve haver algum motivo.)

Antes que eu me esqueça, acho que o único momento que abri os olhos com interesse para o filme foi com a breve aparição de a lindíssima Thessa Thompson como a Rei Valquíria (deslumbrava-me sempre que Thessa aparecia no divertido THOR – AMOR E TROVÃO). A cena é rápida, mas acho que tem uma importância crucial para o quanto AS MARVELS quer trazer de homoafetividade para o Universo Marvel. Rei Valquíria é uma personagem queer e o modo como ela fala com a Capitã Marvel (Brie Larson) deixa no ar algumas possibilidades. Assim como fica no ar o amor (e a saudade) que Monica Rambeau sente pela Capitã, sua “tia” que a abandonara. São coisas que podem ficar no ar, mostradas de maneira muito discreta e tímida. E dentro de uma estrutura de filme sem respiro, sem tempo para desenvolver personagens minimamente.

O filme já começa com aquela brincadeira de mexer com o espaço-tempo das três personagens, como já havia sido antecipado na cena pós-créditos da série MS. MARVEL (2022). Trata-se de uma desculpa para fazer com que as três personagens ajam como um time. E aproveitando um elemento clássico dos quadrinhos, que são os braceletes quânticos, usados pelo Capitão Marvel, especialmente na época em que ele trocava de lugar com Rick Jones. Ou seja, não há tempo para parar um pouco e mostrar a rotina de vida comum dos personagens, algo que é justamente o que diferencia os quadrinhos da Marvel dos da DC, inclusive.

Ver a Marvel no cinema cada vez mais perdida me deixa um tanto triste. Claramente a preocupação na construção de tijolos que se tornarão parte de um futuro filme-evento faz muito mal para os títulos em si. GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 3 é lindo e todo coração, mas é exceção atualmente e é algo que pode ser visto à parte dos demais títulos – uma das vantagens, além da excelente direção de James Gunn.

Já AS MARVELS, com suas várias conexões entre filmes e séries, não consegue se manter de pé nem como filme ruim. Nada funciona: humor, direção de arte, texto, atuações. E é triste por manchar o currículo de Nia da Costa (do ótimo A LENDA DE CANDYMAN, 2021), como tem manchado o de outros bons realizadores. O filme desperdiça uma personagem simpática como Kamala Khan (Iman Vellani), que na série era uma coisa e aqui é só uma adolescente deslumbrada quando se percebe ao lado de sua ídola, uma Capitã Marvel próxima da antipatia.

Há uma cena musical à Bollywood que chama a atenção, mas é tudo tão apagado que logo a cena deixa de existir na nossa memória imediata, perder sua função. Além do mais, as sequências de ação com a inimiga da vez são um tédio só. Enquanto isso, o público desanimado ainda espera até o final as cenas pós-créditos. Um público que tem diminuído consideravelmente. Numa das cenas finais, uma promessa para a criação dos Jovens Vingadores pode funcionar para chamar a atenção de um público mais jovem. Sem falar que foi bom rever uma jovem atriz de que gosto muito aparecendo, ainda que muito rapidamente.

+ DOIS FILMES

DEZESSEIS FACADAS (Totally Killer)

Eis um filme feito com a intenção clara de ser leve e engraçado, embora tenha seus momentos de suspense. Em DEZESSEIS FACADAS (2023), de Nahnatchka Khan, a mãe da jovem protagonista é assassinada por um serial killer que não atacava havia 35 anos numa cidadezinha que até ganha com o turismo relacionado às mortes. Sua amiga, um gênio da ciência, a coloca numa máquina do tempo com o objetivo de deter as mortes e o assassino lá em 1987. O divertido no começo do filme é vê-la perguntando se as pessoas viram DE VOLTA PARA O FUTURO, de modo a compreenderem seu drama e sua missão, assim como as conversas com sua própria mãe. É mais um filme que busca homenagear a década de 1980 do que os slashers. talvez por esses já terem sido referenciados, parodiados e recuperados tantas vezes ao longo dos anos.

A FREIRA II (The Nun II)

Esse Michael Chaves deve ser muito amigo de James Wan, já que nada do que ele dirigiu para a empresa Atomic Monster (do Wan) teve um resultado sequer razoável. A primeira metade de A FREIRA 2 (2023) é mais "atmosférico", por assim dizer. Mas se ao menos fosse eficiente. O filme se torna um pouco mais interessante lá pela metade, quando as duas tramas se encontram e surge uma luz para a resolução das investigações da freira vivida por Taissa Farmiga. E não nego que achei bem curioso o caso da santa em questão. Outro ponto positivo é o bode, que se fosse apresentado na franquia INVOCAÇÃO DO MAL também se tornaria um spin-off. Ainda assim, por mais horrível que seja a conclusão, confesso que me causou menos vergonha que a do primeiro A FREIRA (2018). Enfim, alguém precisa falar com o James Wan e dar aquele toque. Dinheiro não é tudo na vida.

domingo, novembro 12, 2023

VIVER (Ikiru)



Com frequência, eu acordo cedo para ir trabalhar e vejo um dos vizinhos, um homem aposentado de meia idade, sentado à sombra que o prédio do condomínio faz em frente à minha casa. Ele nada faz a não ser olhar para o movimento da rua. Parece estar em paz consigo mesmo, embora essa impressão seja errônea – inclusive, recentemente soube que sua esposa está muito mal: teve um AVC e está na UTI. Mas antes de saber disso, eu costumava olhar para ele e ficar irritado, depois de assistir ou ouvir um desses vídeos no YouTube sobre quadrinhos ou cinema enquanto tomava meu café-da-manhã às pressas. Irritado com o fato de eu estar com muita vontade de ler ou ver algo em paz, mas não me ser permitido, por causa do trabalho. Além do mais, depois do trabalho, com o cansaço, também não tenho muita disposição física para ver filmes ou ler. Logo me dá vontade de dormir. Por isso que às vezes acho melhor ir ao cinema, mesmo cansado, depois do trabalho

Corte para outro momento, desta vez no trabalho. Na sexta-feira passada, os professores organizaram uma festa para homenagear o diretor da escola - Dia do Diretor Escolar. Essa festinha foi feita pela manhã e também à tarde (à tarde, há professores que não vêm no período da manhã). Como pela manhã, eu estava com janela (ou seja, sem ter que entrar em sala de aula), à tarde eu também fui incumbido de pegar o bolo e os salgados. Quando voltei, com meu amigo e colega Roger para a escola, olhei brevemente para o céu. As nuvens formavam aquele aspecto escamado sob o azul ao fundo, que dá uma beleza muito particular. Comentei com o Roger, sobre como o céu estava bonito, e de que, como vivemos muitas vezes tão estressados ou tão focados no trabalho e em ter que cumprir horários, mal temos tempo de olhar para o céu, olhar para a beleza da natureza.

Há uma cena parecida em VIVER (1952), de Akira Kurosawa. Kanji Watanabe, o protagonista interpretado por Takashi Shimura, ator presente em outros filmes do diretor, como OS SETE SAMURAIS (1954), olha para o céu e fala sobre o fato de não ter visto o pôr-do-sol há trinta anos e de achar aquela imagem tão bonita. Naquele momento, Watanabe já sabe que tem apenas alguns meses de vida e sabe também que dedicou sua vida ao trabalho burocrático, não tendo faltado um dia sequer em 30 anos. O pior é que é um trabalho que não presta os serviços necessários à comunidade. Logo no começo do filme, vemos o escritório onde ele trabalha passar as responsabilidades para outros setores, de modo a não se envolverem. Aquela repartição municipal é mostrada como um lugar cheio de montanhas de papéis por todos os lados que não serve para nada. 

Watanabe, depois que descobre o câncer fatal, passa a buscar um meio desesperado de compensar um pouco o fato de ter desperdiçado sua vida. No começo, acha que o caminho está na boemia. E sai pela noite com um escritor boêmio, que lhe apresenta a vida noturna daquele Japão urbano do pós-guerra. E o cenário nem sempre é muito agradável, ainda mais quando olhamos para aquele homem de olhos esbugalhados, ombros cansados e uma expressão doente frequentando lugares em que as pessoas se espremem para dançar ou conseguir um drinque.

Depois, o herói do filme, ao conversar com a jovem colega de trabalho que o encontra na rua, passa a acreditar que é possível encontrar um pouco do sentido na vida ao se aproximar de alguém tão jovem e que parece estar cheia daquela vitalidade que ele não tem. Mas é conversando com ela que ele tem uma ideia, que ele percebe que há ainda uma forma de ele encontrar um meio de ele dar sentido a sua existência. E ele pode fazer isso sem deixar seu trabalho. Ou seja, VIVER não é um filme que condena o trabalho nem o coloca como algo que suga a energia de viver – OS SETE SAMURAIS também é um filme sobre sacrificar-se num trabalho nobre. Watanabe percebe que é no fazer que ele encontrará o sentido para a vida, trazendo, inclusive, até mais forças para que consiga alcançar seu objetivo.

Há tempos eu me devia ver este filme de Kurosawa. Acho que ver a lista dos dez filmes favoritos de Martin Scorsese recentemente deu um empurrãozinho para que eu finalmente visse este que é um dos mais festejados títulos do mais popular realizador japonês. Não vou dizer que fiquei encantado pelo filme, pois minha relação com o Kurosawa ainda não é de paixão, mas gosto de muita coisa, especialmente das cenas pós-hiato, quando o narrador clássico é substituído por um estilo mais despojado e às vezes teatral de direção. Fiquei positivamente surpreso com o salto temporal de cinco meses que indica que o personagem está morto e que havia ainda muito de metragem pela frente. Toda a cena do funeral é composta por diversos pontos de vista que lembram um pouco CIDADÃO KANE, de Orson Welles, na busca por saber quem foi o morto. E a partir daí vemos o protagonista reaparecer em diversos flashbacks.

Um dos méritos do filme é que o diretor consegue driblar nossas expectativas. Enquanto se espera um melodrama tradicional sobre um homem com câncer terminal, seguido de um possível relacionamento do protagonista com uma mulher bem mais jovem, o que temos é outra coisa bem diferente. VIVER é, entre outras coisas, uma crítica à burocracia, à falta de iniciativa e à hipocrisia dos homens públicos. É também uma obra com traços fortes de melancolia, compreensíveis para um cineasta que tem um histórico de depressão e até a uma tentativa de suicídio em 1971, após o fracasso de DODESKADEN – O CAMINHO DA VIDA (1970).

Incomodou-me um pouco a interpretação de Tadashi Shimura, com seus olhos esbugalhados e fala rouca afetada, e achei que isso fosse culpa de minha pouca intimidade com a cinematografia nipônica e um estilo mais particular de interpretação. Porém, lendo o capítulo sobre VIVER no livro Os Filmes de Kurosawa, de Donald Ritchie, soube que o próprio cineasta não ficou tão satisfeito com a interpretação de Shimura. Em suas palavras: “Ele fez o papel tirando todas as pausas e eu teria preferido algo mais descontraído. É claro, nesse ponto, tanto eu como o roteiro tivemos culpa. Mesmo assim, eu gostaria de algo concebido de uma forma um pouco mais ampla, algo não muito tenso”.

Na primeira parte do filme, há umas cenas muito dinâmicas e que remetem a estilos e escolas diferentes de cinema (expressionismo, impressionismo, algumas fusões e outras experimentações) e com um fundo que destaca uma interessante profundidade de campo. VIVER é também uma obra que flagra um momento de bem maior ocidentalização do Japão do pós-guerra. Fiquei até surpreso com a cena do pianista tocando algo muito parecido com o que Jerry Lee Lewis faria ainda em alguns anos nos Estados Unidos. O rock já existia e já era internacional; apenas não tinha esse nome, na verdade.

Filme visto no box Kurosawa Essencial.

+ DOIS FILMES

A INCRÍVEL SUZANA (The Major and the Minor)

O curioso de ver esta estreia de Billy Wilder em Hollywood como diretor é que, em muitos momentos, parece haver algo de muito errado na relação de atração que nasce entre o oficial do exército vivido por Ray Milland e a mulher disfarçada de criança de 12 anos vivida por Ginger Rogers. Na época a atriz já estava nos seus 30 anos e aceitar o fato de que (quase) ninguém percebe que ela não é uma criança acaba funcionando como parte da graça do filme. Gosto muito do primeiro ato de A INCRÍVEL SUZANA (1942), no trem, mas o ritmo vai ficando um pouco prejudicado na academia de cadetes e ver Rogers se fazendo de criança para os outros acaba virando uma piada repetitiva, embora também funcione como uma espécie de obstáculo para o romance entre ela e o oficial, que só funciona para quem torce pelo casal, o que não foi exatamente o meu caso. Ainda assim, gosto da cena em que Milland conversa com a suposta mãe de Sue-Sue. Visto no box A Arte de Billy Wilder.

VIAGEM AO FIM DO UNIVERSO (Ikarie XB 1)

O que mais me encantou em VIAGEM AO FIM DO UNIVERSO (1963) nem foi sua trama, nem sua discussão humana a partir de preocupações sociopolíticas da época: foram as imagens em preto e branco, a incrível construção da nave a partir de uma inventividade surgida da falta de um orçamento milionário e a estranheza do corte nas cenas de conversas entre os tripulantes da Ikarie XB-1. Muito se fala que o filme foi um precursor e possível influenciador de 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, e de fato há algumas semelhanças. Mas comparar os dois filmes pode ser um pouco injusto com o trabalho de Jindrich Polák. Na verdade, há também muitas semelhanças com outras obras de ficção científica que surgiriam nos Estados Unidos, principalmente a série STAR TREK, que estrearia três anos depois. Na trama, uma tripulação multigeracional do ano 2163 faz uma viagem entre dois planetas da constelação Alpha Centauri. Muito interessante o quanto naquela época todo o aspecto tóxico e genocida do século XX é mostrado como um passado muito distante, mas ainda um fantasma que ronda, especialmente a partir do encontro com a uma nave abandonada.

quinta-feira, novembro 09, 2023

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (Cat on a Hot Tin Roof)



Ver GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (1958) me fez pensar no quanto o desejo sexual estava à flor da pele na sociedade americana, e, consequentemente, estava espelhado nos filmes de Hollywood. Naquele tempo, a sexualidade parecia uma panela de pressão prestes a explodir. Não fiz nenhum estudo ou pesquisa, mas lembrei-me, por exemplo, de UM CORPO QUE CAI, do Hitchcock, que é do mesmo ano, e é também carregado dessa sexualidade em erupção. E podemos pensar em outras obras do mesmo período que também possuem essa sensibilidade, como DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO, de Joseph L. Mankiewicz (também com Elizabeth Taylor), JANELA INDISCRETA e LADRÃO DE CASACA (também de Hitchcock e ambos com Grace Kelly), FÉRIAS DE AMOR, de Joshua Logan (também com a Kim Novak de UM CORPO QUE CAI). Enfim, havia um novo tipo de percepção sensual no ar, embora saibamos ser uma continuação do que havia sido apresentado/sentido na década antecessora.

No caso deste filme de Richard Brooks, baseado na peça de Tennessee Williams premiada com o Pulitzer, fico pensando se as exibições no teatro causaram a mesma sensação no público. E imagino que esse efeito tem muito a ver com a escolha da atriz para a personagem Margaret, também conhecida como "Maggie, a gata".

Nesse sentido, a presença de Elizabeth Taylor, em toda sua exuberância, na pele da personagem, faz toda a diferença. Além do mais, o cinema tem, mais do que o teatro, penso eu, mais ferramentas para que esse desejo à flor da pele da personagem, se manifeste de maneira mais eficaz. O cuidado com os figurinos, tanto do ponto de vista da produção, quanto da intenção sensual das peças, acredito ser também mais bem resolvido numa produção classe A hollywoodiana do que numa peça da Broadway.  

Em determinado momento, por exemplo, Liz Taylor usa roupas íntimas, quando está no quarto com o marido. Ainda que muito decentes para os padrões de hoje, esses trajes seguem contribuindo muito bem para o sentimento de desejo intenso vivido pela personagem, que está recebendo uma espécie de castigo do marido, Brick, interpretado por Paul Newman. Ela deseja sexo e ele há semanas a despreza, lhe dá um gelo, preferindo se embebedar de uísque. Aos poucos, a trama vai nos mostrando os motivos da amargura de Brick e da angústia de Maggie.

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE foi um daqueles filmes vistos por mim nos tempos do VHS e cuja lembrança ficou nas brumas. Então, rever agora, na busca por uma compreensão da poética do diretor Richard Brooks, foi como se o visse pela primeira vez. Além do mais, filmes baseados em obras teatrais, não era sempre que eu tinha paciência de ver, e mesmo hoje sinto que há um momento em que a duração parece um pouco maior do que deveria, embora compreenda a necessidade de se trabalhar os pormenores dos personagens e o clima mais tenso da trama, que aqui acontece durante uma tempestade.

O texto de Tennessee Williams é tão bom e tão envolvente que logo o drama familiar passa a ocupar o lugar de maior destaque e as presenças de Taylor e Newman são fundamentais para solidificá-los como os personagens mais simpáticos – ou menos antipáticos, já que parte dos familiares é composta de pessoas dotadas de falsidade. Há o patriarca rabugento que não sabe que está com câncer (Burl Ives) e sua esposa devotada como símbolos da riqueza da família e de objeto de interesse por parte de alguns. 

Richard Brooks opta por uma direção sóbria, sem muitos efeitos de câmera, de modo a não desviar a atenção para o que há de mais importante: o texto e as interpretações. Mas há algo que chama a atenção na questão envolvendo Brick e seu melhor amigo morto. A relação dos dois passa a impressão de ser mais do que amizade. A verdade é que a questão da homossexualidade foi censurada na versão para cinema da peça. E isso acaba deixando alguns furos e indagações. Não deixa de ser uma marca que denuncia as regras vigentes em Hollywood, ainda sob controle do Código Hays, mas também as próprias autocensuras da sociedade americana mais tradicional. Desse modo, ironicamente, o não-dito se destaca numa obra calcada em muitos diálogos.

Brooks voltaria a adaptar outra peça de Williams, DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE (1962), mais uma vez com Paul Newman.

+ DOIS FILMES

A SANGUE FRIO (In Cold Blood)

Meu coração fica muito inquieto e triste quando assisto a filmes sobre pessoas no corredor da morte. A SANGUE FRIO (1967) não é apenas sobre isso, mas já sabemos que se encaminha para esses momentos, ao menos para quem já ouviu falar da história, leu o livro homônimo de Truman Capote ou assistiu ao filme CAPOTE (2005), de Bennett Miller. Este filme de Richard Brooks é um acerto em muitos aspectos. A fotografia em preto e branco de Conrad L. Hall tanto traz mais realismo para algo que é baseado em fatos, quanto tem uma estilização toda própria, que combina, inclusive, com a trilha quase sempre jazzística de Quincy Jones, que opera no suspense, no teor mais sombrio e em aspectos supostamente mais felizes da vida. Uma felicidade prestes a ser encerrada por um quádruplo assassinato. Robert Blake, que para sempre atormentará meus sonhos como o homem misterioso de ESTRADA PERDIDA, de David Lynch, aqui é o mais humano e mais atormentado da dupla que perpetrou o crime chocante. O outro tem um quê de sociopata cínico. Quando A SANGUE FRIO acaba, fica um misto de vontade de rever imediatamente e de ficar longe do filme por um bom tempo. Mas dei play novamente para ver o início, e entender melhor as escolhas da montagem nas cenas iniciais. Mas o que mais me pegou foi o flashback da noite fatal. A partir daí o filme ganha contornos ainda mais incômodos. E a rapidez com que as coisas chegam a um desfecho não deixa de ser representativa de certa vontade de mostrar a frieza do próprio estado ao optar pela pena capital. Além de ampliar e ressignificar o título do filme.

A HORA DA VINGANÇA (Deadline – U.S.A.)

Sendo A HORA DA VINGANÇA (1952) o filme de um cineasta que veio do jornalismo (Richard Brooks), é interessante ver esta ode à imprensa independente, que hoje se apresenta um tanto acima do tom na maneira como coloca o personagem de Humphrey Bogart, o editor de um jornal, e um gângster que está prestes a comprá-lo. Essa distância para o estilo que o próprio cinema americano passou a adotar em sua dramaturgia já na década de 1960 faz uma diferença e tanto no modo como compramos a ação. Mas isso não tira o brilho do filme e nosso interesse em ver essa batalha entre o bem, representado pela verdade e pela coragem, e o gangsterismo, que desde muito tempo quer calar e/ou manipular a informação.

domingo, novembro 05, 2023

MUSSUM – O FILMIS



Lembro-me com carinho de quando eu era criança e minha família se reunia para ver OS TRAPALHÕES na televisão. Quando meu avô paterno vinha nos visitar, ele também ria a valer do humor, um tipo de humor que era ingênuo e simples, muitas vezes herdeiro dos palhaços de circo. Também tive a sorte de minha mãe me levar ao cinema para ver os filmes dos Trapalhões quando criança. Não tenho tanta certeza, mas meu primeiro filme pode ter sido O TRAPALHÃO NAS MINAS DO REI SALOMÃO, de 1977 (perguntei à minha mãe e ela diz não se lembrar). Fazendo as contas, eu tinha cinco anos, é possível que tenha sido esse mesmo. Tenho uma rara lembrança de uma cena envolvendo joias preciosas. Esse filme, aliás, foi o maior sucesso de bilheteria do grupo.

Outra coisa de que me lembro, com relação aos filmes, é do quanto a Praça do Ferreira ficava cheia de cambistas, que compravam com antecedência os ingressos para revender mais caros para os espectadores que não queriam ficar por horas nas filas quilométricas. Isso quando o filme estava nas primeiras semanas de exibição, no Cine São Luiz, pois depois ele mudava com frequência para o Cine Fortaleza, uma sala bem menor, nas semanas seguintes.

Acho que deixei de me interessar pelo trabalho do quarteto, e até pelos filmes, já no finzinho dos anos 1980 e início dos 90, quando me tornei cinéfilo. Meus interesses passaram a ser outros. Já considerava tudo muito bobo ou muito infantil. Aliás, não me recordo de ver nenhum outro filme deles no cinema nesse período. Lembro de ter visto apenas a versão deles da peça do Ariano Suassuna na televisão, OS TRAPALHÕES NO AUTO DA COMPADECIDA, que já é de 1987. É uma boa adaptação e o personagem Didi Mocó combina com a figura do João Grilo, hoje muito mais lembrado pela interpretação de Matheus Nachtergaele, na minissérie de Guel Arraes, depois tornada filme.

Escrevi dois parágrafos e ainda não citei Mussum, que hoje eu e muita gente considera o Trapalhão mais engraçado e querido. Tempos depois, vendo entrevista no YouTube de Antônio Carlos Bernardes, ainda jovem, num especial da TV Cultura de 1972 dos Originais do Samba, fiquei maravilhado com a alegria de viver que aquele homem passava. É possível ver o programa inteiro na internet e ficar encantado com a simpatia e o encanto dele, e consequentemente adorar a música do grupo. Quem ainda não viu/ouviu, dê uma olhada ao menos em “Tenha fé”, composição do Jorge Ben, cantada por Antônio Carlos. Coisa linda, viu. 

Quanto à cinebiografia de Mussum/Antônio Carlos, dirigida por Silvio Guindane, tem seus prós e contras. É difícil fazer cinebios de figuras muito famosas. Às vezes se acerta (NOSSO SONHO é maravilhoso, mas a história da dupla é menor, o que ajuda, embora o segredo do filme não esteja em roteiro ou estratégias de estrutura), às vezes nem tanto (MEU NOME É GAL). A cinebio do Mussum fica acima da média, muito pela excelente performance do xará Ailton Graça, que está tão bom na pele de Mussum que às vezes esquecemos que é um ator ali e não o próprio humorista e músico. Por outro lado, o que justamente nos tira um pouco do filme são alguns personagens que surgem orbitando a vida do protagonista em maior ou menor grau, como Chico Anysio, Cartola e os próprios Trapalhões. A gente compra o quarteto no filme quase como se estivéssemos assistindo a uma versão de uma Terra bizarra.

Outra coisa de que gostei foi do recorte temporal, da escolha do momento certo para o filme acabar. Nem sempre mostrar a morte é um acerto e, ao contrário do filme da Gal, este aqui não parece se atropelar na narrativa, ainda que ela se passe num longo período de tempo, com direito a três atores para interpretar o personagem. Gostei muito do foco dado à mãe de Mussum. Isso confere mais humanidade ao personagem. A mãe é a única constante das três fases dele (criança, rapaz e homem feito). É linda a cena em que ela (quando interpretada por Cacau Protássio) escreve seu nome pela primeira vez, com a ajuda do filho, que havia entrado na escola e estava disposto a alfabetizá-la.

Há coisas que ficam bem destacadas como típicas dos anos 1970/80, mas gosto como essas coisas aparecem de maneira orgânica, como o uso excessivo do cigarro, a bebida naturalizada em programas para toda a família e pensando principalmente no público infantil, ou as piadas com mãe. Não é um filme militante na questão racista, assim como Mussum também não o era. Além do mais, é preciso respeitar as escolhas das pessoas que escreveram e pensaram o filme. Sem falar que muito desse racismo fica subentendido nos diálogos (a própria lição da mãe, que quer que o filho estude e não se torne um preto burro, evidencia a cor da pele). Vale também destacar uma cena bem bonita, em que Mussum dá uma aula de vida para estudantes da Mangueira.

MUSSUM – O FILMIS (2023) já está indo muito bem na bilheteria. Trata-se da maior estreia nacional do ano, com R$ 640 mil apenas no primeiro dia de exibição. Até então, NOSSO SONHO segue sendo a maior bilheteria brasileira de 2023, mas, infelizmente, como não teve uma primeira semana muito boa, começou a ter menos sessões disponíveis. Pelo menos foi se recuperando com o boca a boca. Já o filme do Mussum, deve passar do número de 450.000 espectadores/R$ 7,5 milhões logo, logo. O cinema brasileiro anda precisando de uma ótima bilheteria já faz um tempo.

+ DOIS FILMES

MEU NOME É GAL

Não dá para negar que MEU NOME É GAL (2023), de Dandara Ferreira e Lô Politi, é um filme que diverte e é cheio de momentos interessantes, mas é uma pena que a maior parte do que há de melhor no filme esteja principalmente na força das canções do repertório de Gal Costa, naquela virada dos anos 1960 para os 70, no clima de ebulição provocado por uma ditadura que contrastava com o desbunde que aquela geração, principalmente os baianos, trazia para o Brasil e para o mundo, e tendo total consciência de sua grandeza, como bem disse Caetano Veloso (Rodrigo Lelis) em determinado momento, quando fala para Gal que eles são foda. Uma pena, porém, que o filme seja tão superficial e que tenha optado por contar essa história de maneira tão rápida, de modo que me senti atropelado por tantos eventos acontecendo quase simultaneamente. Não que sejam coisas não conhecidas, mas isso não justifica esse atropelo, numa tentativa de não deixar passar as coisas básicas mais importantes da história. Assim como não justifica buscar intérpretes para os personagens principais como se fossem caricaturas, casos das intérpretes de Maria Bethânia, Waly Salomão e Tom Zé. No mais, é bonito ver, ainda que de forma tão rápida um pouco do lendário show que Gal fez em 1971, que se transformou no melhor disco ao vivo já lançado no Brasil. Sophie Charlotte, apesar de muito frágil e doce para interpretar Gal Costa, defende bem o papel, até porque é ao redor dela que tudo orbita no filme. Nada mais justo que sua personagem seja a melhor desenvolvida, tanto física quanto emocionalmente.

UM FILME DE CINEMA

Thiago B. Mendonça tem uma trajetória muito interessante. Percebe-se que é um cineasta de paixões e de aceitação do acaso como elemento para seu processo criativo. Com isso, surgem pérolas como CURTAS JORNADAS NOITE ADENTRO (2021) e OS GRANDES VULCÕES (2021). E podemos agora ver seu projeto feito a partir da vontade de documentar suas filhas de 3 e 7 anos. Na trama de UM FILME DE CINEMA (2018), a filha de 7 anos do cineasta, Bebel, prepara um trabalho com seus coleguinhas para apresentarem em forma de filme na escola. Ela pede emprestada a câmera do pai e passa a criar seu filme a partir de seu universo (escola, casa, pessoas que encontra). O filme de Mendonça é bastante livre para trazer a história do cinema para o universo infantil, e homenagear obras do passado em trechos e caracterizações. Sinto que o filme tem uns problemas de ritmo próximo do final, mas é bem bonito.

quinta-feira, novembro 02, 2023

OS DELINQUENTES (Los Delincuentes)



E se fôssemos preparados para ver um heist movie e déssemos de cara com uma obra que nos faz refletir sobre a vida, especialmente sobre o modelo de vida centrado no trabalho no sistema capitalista? No trabalho que só consome e dá muito pouco em troca? Trabalhos para pagar as contas e se ter uns poucos dias de férias com muito pouco dinheiro para fazer uma viagem, por exemplo. É pensando nisso que Morán (Daniel Elías) resolve cometer um crime muito bem pensado: ele sabe que será preso (ele mesmo se entrega à polícia), sabe quanto tempo ficará na cadeia, e já escolheu a pessoa que ficará segurando o dinheiro enquanto ele estiver fora. Ao saírem, o dinheiro será repartido 50/50. O colega é Román (Esteban Bigliardi, LA FLOR), um homem casado que terá dificuldade de lidar com a situação de guardar uma mala cheia de dinheiro enquanto rola uma investigação em seu ambiente de trabalho.

Podemos dizer que OS DELINQUENTES (2023) é um típico filme lado A/lado B, ou seja, um filme que ganha novos contornos (se modifica bastante) quando o disco vira. E o modo como o diretor Rodrigo Moreno vira a chave (entra aqui outro termo não literal para descrever essa mudança) é brilhante, poético e com muita certeza do que pretende fazer e mostrar.

Mesmo a primeira parte do filme, que nos coloca dentro da situação do crime, já se diferencia bastante dos títulos mais convencionais desse subgênero. Daí a necessidade que uma obra como esta seja exibida numa sala destinada a filmes arthouse, já que num cinema de shopping não seria muito bem recebida por um público impaciente ou incompreensivo. Na segunda metade da narrativa, o filme se mostra mais lento e mais disposto a pedir que o espectador aprecie os planos longos, as escolhas pelo olhar cadenciado da câmera, em bela fotografia com uma diferente janela em 1,55:1.

É na segunda parte que começamos a perceber que a trilha sonora mais dramática (e romântica) que se ensaiava durante a primeira parte tem sua razão de ser. Há algo de misterioso até nos nomes dos personagens (Roman e Morán, Norma e Morna) e esse jogo de letras surge, não em vão, na brincadeira de se falar o nome de uma cidade com a derradeira letra da falada anteriormente. A divisão (por dois), que no início acontece apenas no dinheiro, passa a tomar conta de outros aspectos do filme (em split-screens reveladoras e delicadas, por exemplo) e dos personagens. Além do mais, há um convite ao mistério e à reflexão acerca da própria vida cotidiana de trabalhador que também me encantou muito. Certamente, uma das melhores surpresas do ano.

OS DELINQUENTES é o título que a Argentina escolheu para representar o Oscar de filme internacional. E acredito que tenha mais chances de chegar lá do que o igualmente ótimo RETRATOS FANTASMAS, de Kleber Mendonça Filho, muito por ser um filme de ficção, mas também pela elegância da direção e pelo aspecto universal do tema. O filme de Moreno é uma obra que questiona o modelo de trabalho no sistema capitalista, mas não como ARÁBIA, por exemplo, que traz um tom de melancolia aliado à raiva. Se é que a comparação faz sentido, na verdade.

O filme até tem sido criticado por alguns poucos como uma obra que mostra o dinheiro como algo sujo. Não vejo dessa maneira. Mas já vimos tantas histórias em tom de fábula em que o dinheiro tem essa conotação e os personagens ganham um final trágico, e a obra de Moreno mostra sentidos transcendentais para seus personagens e o espectador. Para isso, é necessário se deixar levar pelas tomadas mais longas, pelas imagens das montanhas – a gente quase respira aquele ambiente –, pelos encontros que surgem pelos caminhos dos protagonistas, em especial a trupe de três pessoas que fazem um filme artesanalmente. 

A valorização da natureza, do bucólico, está claramente presente, mas não como sentido único: a arte, em especial a literatura e o cinema se atrelam à beleza da natureza. E há, antes de mais nada, o amor. O amor como grande catalizador do entusiasmo. E por mais que o final guarde um tom agridoce, o caráter revelador é tão compensador que todos os atos valem a pena. Até porque o horizonte, a imagem representativa do futuro, abre novas possibilidades para a vida.

+ DOIS FILMES

NARDJES A.

Karim Aïnouz, ao usar uma câmera de smartphone, consegue adentrar multidões sem que as pessoas se incomodem e isso acaba gerando reações naturais, exceto talvez da protagonista, a jovem militante argelina cuja jornada acompanhamos por um dia. O diretor tem um olhar muito especial e por isso algumas imagens têm uma beleza toda própria, como a cena em que a multidão é vista dentro de uma espécie de túnel. Além do mais, senti um tom de Nouvelle Vague francesa no registro, especialmente quando a personagem passeia à noite, após a manifestação. (O fato de o filme ser falado em francês boa parte do tempo acaba contribuindo para essa semelhança.) NARDJES A. (2020) valoriza o espírito juvenil e sua energia para efetuar as devidas mudanças na sociedade. Nesse sentido, é uma obra que se complementa com MARINHEIRO DAS MONTANHAS (2021), que apresenta personagens mais maduros e um pensamento mais no passado que no futuro.

MARINHEIRO DAS MONTANHAS

Um dos melhores filmes de Karim Aïnouz, MARINHEIRO DAS MONTANHAS (2021) é sua obra mais pessoal, remetendo a um de seus primeiros curtas, SEAMS (1993), que já tratava de sua família, ou melhor, das mulheres de sua família. Aqui ele mergulha nas profundezas desconhecidas de suas origens paternas, ao viajar para o vilarejo onde nasceu seu pai, no interior da Argélia, e filmar o que acontece a cada passo dado. Karim conta em tom de diário poético suas andanças pelo país. Ao mesmo tempo, ele conversa com a mãe morta, e de vez em quando conhecemos um pouco da história pregressa da genitora, de quando ela conheceu seu pai, engravidou e teve que criá-lo sozinha. Talvez por isso o sentimento de rejeição seja algo presente em boa parte da obra do realizador das mais diferentes maneiras, como em O ABISMO PRATEADO (2011), PRAIA DO FUTURO (2014) e A VIDA INVISÍVEL (2019). Também é destaque em seus filmes o deslocamento de seus personagens, ou a busca ou o desejo desse deslocamento, como em O CÉU DE SUELY (2006). Aqui é o próprio cineasta que se desloca, que rememora a mãe, e busca seus parentes naquele cenário tão diferente.

terça-feira, outubro 31, 2023

ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES (Killers of the Flower Moon)



Tive que assistir a ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES (2023) duas vezes no cinema. Digo “tive” não no sentido de ser obrigado. Ninguém é obrigado a nada. A questão é que na primeira vez que vi o filme estava num estado de sono que me deixava com a mente nublada, embora eu não tenha de fato dormido em nenhum momento. A crise alérgica, que provoca uma sonolência muito particular, já estragou muitas sessões minhas. E olha que tento de tudo: muita cafeína, extrato de própolis, sucos que ajudam a aumentar a temperatura corporal (uva e laranja) e até uma refeição dentro da própria sala de cinema (um sanduíche ou um calzone). Às vezes funciona, viu? Lembro que antigamente chegava a levar dentes de alho para ficar mordendo, e o cheiro empestava o ambiente. Depende de uma série de coisas, sendo que uma delas é o horário do dia e outra é o contato com o ar condicionado. E eu havia conseguido o ingresso muito cedo e perambulei por horas no shopping Iguatemi para ver o filme na sala IMAX (o que significou mais tempo respirando no ar condicionado).

Aliás, um pequeno adendo: vi o filme na sala IMAX, mas não se trata de uma obra que se destaca especificamente nessa sala. Na verdade, as imperfeições da cópia, com uma imagem meio lavada, acabaram me incomodando um pouco. Isso é um problema que tenho percebido em alguns desses filmes feitos pensando inicialmente no lançamento em streamings. Para o lançamento nos cinemas, podiam ter pensado numa cópia de melhor qualidade. Nem precisaria ser em 4K, não. Isso acaba prejudicando a apreciação da fotografia de Rodrigo Prieto.

Essa coisa de rever um filme num intervalo de tempo pequeno (uma semana, por exemplo) nem sempre é algo tão positivo, embora eu tenha, sim, tido alguns exemplos muito positivos em minha história de cinéfilo – lembro, por exemplo, de A VILA, de M. Night Shyamalan, de MAGIA AO LUAR, de Woody Allen, e das três vezes que vi PARAÍSO PERDIDO, de Monique Gardenberg, e, mais recentemente, de CAPITU E O CAPÍTULO, de Júlio Bressane. Sem falar nas experiências que fiz questão de repetir com meus amigos na aurora da minha cinefilia, como UMA NOITE ALUCINANTE, de Sam Raimi, e CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ, do trio Zaz.

O problema é que ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES tem a duração como um fator que pode depor contra a apreciação mais ligada ao prazer da obra. Nessa segunda vez, senti mais o peso do tempo, assim como senti ainda mais o sentimento de impotência com a questão dos indígenas – há uma série de filmes brasileiros que tratam dessas questões que me deixam muito triste, inclusive me privando de ter raiva, sentimento que provoca mais ação que a tristeza. É sempre uma história de covardia. O filme do Scorsese me fez lembrar, inclusive, de CREPÚSCULO DE UMA RAÇA, de John Ford, um pedido de desculpas do cineasta após tantos westerns mostrando os nativos americanos como vilões. 

Scorsese, como bom escorpiano, gosta de histórias de perdas, de amores envenenados, de pessoas consumidas pela culpa e perdidas nos abismos mais profundos de suas almas, de injustiças. Hoje eu vejo que até um filme mais juvenil como A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (2011) também se encaixa nessa categoria – não se trata apenas de um filme sobre uma homenagem, uma declaração de amor ao cinema. Quando o personagem de Leonardo DiCaprio se vê, ao final, frente à pergunta definitiva de sua esposa, vivida por Lili Gladstone, ele percebe que ainda terá que conviver com a culpa por muito mais tempo, guardando semelhança com o personagem de Robert De Niro em O IRLANDÊS (2019), inclusive.

Como alguém que gosta de chafurdar a lama da história americana, sendo GANGUES DE NOVA YORK (2002) um outro exemplo, Scorsese nos apresenta também, ainda que indiretamente, em rápidas pinceladas, aos crimes cometidos contra os negros, assim como a influência política da Ku Klux Klan e da maçonaria nos destinos do país. Aliás, é por isso que a extrema direita é tão difícil de combater: ela estava desde o início na construção desse país.

Ver um filme do Scorsese tendo recepção semelhante a obras mais pop não deixa de ser muito bom. 2023, inclusive, está trazendo algumas surpresas, com filmes de super-heróis quebrando a cara, enquanto certos filmes de autor conseguem uma recepção muito boa, por mais que estejamos falando de obras com um investimento em marketing gigante, como foi o caso de BARBIE, de Greta Gerwig, e de OPPENHEIMER, de Christopher Nolan. Afinal, os filmes da Marvel e da DC também não investem horrores em propaganda?

Ter um filme de três horas e meia lotando uma sala grande e com os espectadores todos ali quietinhos e acompanhando bonitinho a sessão, nessa era de vídeos curtos e vícios em redes sociais quase inúteis, é um alívio. Representativo disso é a cena em que a personagem de Lily Gladstone pede para que o personagem de Di Caprio pare tudo o que está fazendo para ouvirem a tempestade.

Na trama, a tribo Osage, que hoje, depois de ter perdido um imenso território, vive num condado no estado de Oklahoma, sofre a opressão do estado americano. Após várias tratativas, a tribo resolve ficar com um pedaço de terra muito ruim. Acontece que é nesse pedaço de terra que eles encontram petróleo e ficam muito ricos. Com o tempo, são os brancos que passam a ser empregados deles, enquanto eles se vestem com roupas caríssimas e frequentam os melhores espaços da sociedade. O problema é que os brancos não iam largar o osso e logo eles se aproximam da tribo e arranjam casamentos com mulheres indígenas, como forma de enriquecimento. A morte de centenas de pessoas dessa etnia começa a se tornar comum. Além das doenças que o homem branco trouxe, havia uma aparente predisposição dos Osage de viverem até mais ou menos os 50 anos.

Depois do prólogo, com a imagem dos Osage descobrindo o petróleo, algo que se tornaria uma maldição para eles, o filme começa com imagens que simulam pequenos documentários, para em seguida nos mostrar Ernest Burkhart (Di Caprio) chegando de trem e conhecendo o vasto território que fica próximo das reservas de petróleo. Lá habita o autodenominado “Rei” William Hale (Robert De Niro), um homem que conquistou a confiança dos Osage, mas que logo vemos se tratar de uma raposa. E dessas pessoas que usam palavras de conforto cristãs e aprendem a língua daqueles que pretende destruir aos poucos, como um câncer comendo por dentro.

Ernest é um sujeito muito mais burro que malvado, embora essas duas "qualidades" costumem andar juntas. Está muito longe do ardiloso "King", um homem que representa o que se costuma chamar de "progresso", quando os nomes mais apropriados para o que ele faz são genocídio, estupro e destruição. O casamento de Ernest com a osage Mollie (Lilly Gladstone) aconteceria tanto pelo fato de que ambos se gostavam, quanto por questões envolvendo dinheiro, e muito bem acordado com William Hale. Aos poucos, a mãe e as irmãs de Mollie começam a morrer, de doença ou assassinato. E isso fará com que o incipiente FBI comece a investigar o caso. O livro homônimo em que o filme se baseia, de autoria de David Grann, é mais centrado nas investigações do FBI do que nos personagens que o filme explora. A mudança de ponto de vista acabou sendo uma decisão com a cara de Scorsese, que lida como ninguém com essa descida aos infernos de pessoas que adentram o mundo do crime ou enfrentam a morte como vítimas.

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A NOITE DAS BRUXAS (A Haunting in Venice)

Não sou muito fã de whodunits, ainda mais os que não passam de pequenos jogos racionais que convidam o público a adivinhar quem é o assassino. Mas gostei deste A NOITE DAS BRUXAS (2023). Kenneth Branagh, depois da pataquada que foi MORTE NO NILO (2022), fez certo em não desistir do personagem Hercule Poirot, especialmente ao trazer uma história que traz toques de horror gótico bem acentuados, um pouco de elegância (o que é aquele castelo que serviu de locação, meu Deus?!) e um pouco de vulgaridade charmosa, que até me fez lembrar o cinema de gênero italiano (em especial em determinada cena com Kelly Reilly). O filme surpreende, pois há determinados momentos em que também passamos a questionar a tal da racionalidade como forma de explicar todas as coisas, tão defendida por Poirot. Branagh opta por recursos visuais que saltam aos olhos, como os ângulos de câmera diferentes, ora de cima, ora de baixo. Como se trata de um filme com muitas falas (e que cansa um pouco lá pelo final), tentar fazer uma montagem mais dinâmica às vezes ajuda, mas às vezes contribui com o cansaço. Ainda assim, pelo charme, pelo belo elenco, por aquela locação maravilhosa e pelos toques de horror, Branagh faz seu melhor filme desde HAMLET (1996). Não que seja algo tão bom quanto, claro. Afinal, o diretor e ator já havia perdido a mão há um bom tempo. Foi ótimo ter visto numa sala IMAX: valorizou bastante os cenários e tudo o mais.

RESISTÊNCIA (The Creator)

Quarto longa-metragem de Gareth Edwards, RESISTÊNCIA (2023) é visualmente bonito e isso ajuda a chamar a atenção da audiência, junto com a trama intrigante envolvendo uma guerra entre humanos e robôs de alta inteligência no ano de 2060. John David Washington (INFILTRADO NA KLAN) é uma grande aquisição como um agente duplo, um homem com uma prótese no braço e outra na perna, apaixonado pela líder da resistência da I.A. (Gemma Chan, ETERNOS). O filme sofre com a longa duração, com um ritmo problemático e um final desinteressante. Algo que eu gosto é o modo como os robôs se comportam fisicamente, sendo tão frágeis quanto os humanos quando alvejados com armas. Isso faz que eles se pareçam mais com pessoas desabrigadas ou outra minoria social. Infelizmente o filme também não consegue emocionar quando a intenção é essa e em certo momento bate uma saudade de A.I. – INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, ficando claro que Edwards está longe demais de ser um Spielberg.

sexta-feira, outubro 27, 2023

O ASSASSINO (The Killer)



Cineasta surgido do mundo dos videoclipes, então em alta, assim como Jonathan Glazer, Spike Jonze e Michel Gondry, David Fincher, quando estreou no cinema, com ALIEN 3 (1992), pouco se esperaria que se tornasse um dos mais importantes cineastas “nascidos” naquela década catártica. Fincher está de volta com um filme minimalista, de certa forma surpreendente numa carreira em que o diretor privilegiou as ambientações – talvez o filme mais próximo deste novo seja O QUARTO DO PÂNICO (2002), por se passar num único lugar. No caso deste novo O ASSASSINO (2023), ele se passa em vários lugares, mas esses lugares são muito pouco explorados. E isso é feito de forma deliberada.

Não vejo isso como um problema. Na verdade, é um dos charmes do filme, que não deixa de exibir o virtuosismo do cineasta e ainda trazer uma trama que pode servir como uma alegoria da própria atividade do cineasta, de sua busca pela perfeição e de como às vezes é aquilo que sai dos trilhos que acaba fazendo a diferença e trazendo mais humanidade para o projeto. No caso do assassino sem nome vivido por Michael Fassbender, o erro de ter atirado na pessoa errada durante uma de suas operações faz com que o filme exista e pulse.

Quem se incomoda um pouco com narrações em voice-over pode não gostar tanto assim do filme, que tem a voz metódica interior do protagonista muito presente. Ao longo da narrativa, ouvimos seu "mantra" diversas vezes: “atenha-se ao plano; não tenha empatia; antecipe, não improvise” etc. Isso deixa claro um posicionamento frio diante da vida e uma frieza necessária para a execução de seus planos. Acontece que o erro (humano) do personagem é o que faz o espectador se aproximar dele: fugir de moto sem que seja pego pela polícia, respirar ofegantemente e procurar não deixar rastros. Nessas sequências mais tensas se destaca a trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, parceiros do cineasta desde A REDE SOCIAL (2010). Inclusive, a dupla costuma se engrandecer nos trabalhos com Fincher.

Não vai demorar muito para o filme estar disponível para mais espectadores na Netflix, mas poder vê-lo no cinema não tem preço. (São poucas as cidades brasileiras que o estão exibindo nos cinemas e fico feliz que Fortaleza seja uma delas.) É David Fincher afiadíssimo e fazendo aquilo que sabe tão bem: o filme criminal. Trata-se do melhor trabalho do diretor desde GAROTA EXEMPLAR (2014) – se bem que entre um e outro só houve trabalhos para a televisão, como a excelente e saudosa MINDHUNTER (2017-2019), e o divisivo e ambicioso MANK (2020).

Em O ASSASSINO, a onipresença de Fassbender não tira o brilho dos coadjuvantes nos momentos em que ele contracena com eles. Até a nossa Sophie Charlotte, quase irreconhecível, tem uma atuação muito boa na cena do hospital. Há um ator pouco conhecido e aparentemente estreante (Gabriel Polanco), que faz um taxista, e tem seu momento de brilho. Mas nada como a cena em que Fassbender dialoga com Tilda Swinton num restaurante. Fincher fez bem em valorizar uma atriz tão genial.

Tudo no filme é de tirar o chapéu: a condução, a fotografia, a direção de arte e até uma coreografia de luta (numa cena que me deixou impressionado). Baseado na graphic novel The Killer, de Alexis Nolent e Luc Jacamont, o novo filme parece ser uma das obras menos ambiciosas do diretor, mas, a exemplo de VIDAS EM JOGO (1997), certamente vai estar carinhosamente na lista de favoritos de muitos de seus fãs.

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NOSTALGIA

Como é bom poder ver um belo filme italiano sem ter que revisitar uma obra de décadas atrás (ou sem que seja um novo Bellocchio ou um novo Moretti). E o barato deste NOSTALGIA (2022), de Mario Martone, é vê-lo sabendo o mínimo possível da trama. Basta saber o que diz a sinopse: o retorno de um homem a Nápoles depois de uma ausência de 40 anos. O diretor Mario Martone, além de saber trabalhar com os sentimentos do protagonista (de saudade, de dor, de confusão), mostra uma Nápoles tão decadente e perigosa que parece um lugar saído de um filme de horror. Inclusive, é até possível lembrar do gênero em certos momentos. A beleza plástica é outro destaque, com momentos que parecem remeter a pinturas clássicas, como a cena em que o protagonista carrega a mãe nos braços para dar-lhe um banho, ou outro momento muito importante, na igreja, com a câmera só revelando o ocorrido aos poucos. Uma bela surpresa que infelizmente está sendo pouco vista em nossos cinemas e merece a nossa atenção.

TERRA DE DEUS (Vanskabte Land / Volaða Land)

Acho corajosos esses filmes que trazem um protagonista antipático logo de cara, o que já nos deixa torcendo mais para a natureza do que para ele ou qualquer personagem humano no caso deste aqui. Mas TERRA DE DEUS (2022), de Hlynur Pálmason, talvez seja um filme mais interessado numa visão um pouco distanciada por parte do espectador. Nisso, acho fascinante sua primeira metade, principalmente, que mostra o difícil percurso que o padre faz de uma ponta a outra da Islândia, passando justamente pela zona não populosa, mais selvagem e terrível. Ou terrivelmente bela. Fazer isso sem falar o islandês, mal sabendo andar a cavalo e sendo frágil demais para aguentar aquele clima nas montanhas da grande ilha vulcânica é muita burrice. A segunda parte do filme é boa, mas talvez a duração tenha prejudicado um pouco meu envolvimento. O antagonista deixa de ser a natureza e passa a ser o próprio vilarejo, principalmente o pai de uma das duas jovens, mas também um velho islandês. Gosto muito da fotografia e da opção elegante pela janela "clássica" (1,33:1), com bordas arredondadas.

quinta-feira, outubro 12, 2023

GUERRA SEM CORTES (Redacted)



Quase duas semanas sem postar neste espaço. Isso me dá uma aflição, que vocês nem imaginam. Gosto de poder publicar, mesmo quando o texto não fica tão bom. Pelo menos eu tive uma boa desculpa no fim de semana passado, já que viajei com a Giselle para Salvador. Uma viagem rápida, mas muito proveitosa e adorável, saindo da rotina ao adentrar uma cultura tão distinta e bela quanto a baiana. Mas vamos de cinema, vamos de Brian De Palma, que essa peregrinação por sua obra está mais longa e preguiçosa do que eu imaginava que seria. Acredito que tudo começou a piorar quando adentrei os anos 2000, quando o cineasta entrou num momento pouco inspirado de sua carreira tão brilhante.

GUERRA SEM CORTES (2007) foi um filme que não foi exibido nos cinemas locais, assim como aconteceu com os outros dois seguintes do realizador. Isso não significa falta de qualidade, não tem nada a ver, mas significa que é algo que diminui as chances de suas obras serem apreciadas e criticadas por uma parcela maior da audiência. Eu já não gostei muito do filme quando o vi na primeira vez (tem texto aqui no blog) e continuo não gostando tanto. Mas é um filme que é bem mais querido pela crítica brasileira do que o anterior, DÁLIA NEGRA (2006), e talvez até mais que MISSÃO: MARTE (2000) e FEMME FATALE (2002) também. Talvez por ser complexo no modo como traz um tom entre o leve e o perturbador diante do que apresenta sobre a Guerra do Iraque.

E é possível encontrar vários caminhos para defender o filme, já que o diretor problematiza a imagem e não deixa de ser fiel a suas próprias obsessões, e ainda teve a coragem de sair do seu lugar esperado de autor de planos elegantes e sincrônicos, de travellings e cortes bem pensados, e geralmente com música quase operística composta por algum grande maestro (Pino Donaggio, Ennio Morricone, Ryuichi Sakamoto, Bernard Herrmann etc). Em GUERRA SEM CORTES, o que vemos são imagens feias, brutas, com aspecto amador, que, claro, tem tudo a ver com a proposta de imagens geradas por não-profissionais.

De Palma volta ao tema do estupro na guerra, bem-sucedido em PECADOS DE GUERRA (1989), mas aqui aproveitando a moda dos found footage movies, que àquela altura já havia cansado um bocado. Em ambos os filmes, as tropas matam uma garota numa tentativa de acobertar o crime anterior. Vejo como um problema o filme não me deixar minimamente interessado pelos personagens, nem os tornar críveis como criaturas supostamente reais. Costuma-se reclamar de 15H17 – TREM PARA PARIS, de Clint Eastwood, e das atuações dos não-atores, mas o velho Clint se saiu muito melhor com seu elenco amador e sua experimentação com sabor de novidade (comparar os dois filmes pode não ser tão inteligente, mas por alguma razão vejo esses dois trabalhos como semelhantes dentro das filmografias de seus realizadores). Não é isso que eu vejo em GUERRA SEM CORTES, por mais que, sendo De Palma, eu comece a relevar e repensar algumas coisas à medida que vou lendo e escrevendo a respeito. Não há como negar isso dos grandes mestres.

Há uma cena que vale destacar: um dos rapazes da companhia, McCoy, encontra-se com seus amigos como um herói amargurado e cheio de traumas de guerra, mas sua tentativa de falar sobre o horror do que viu é vista como uma ação que quebraria o clima de festa e é logo censurada. A fotografia tirada dele sorrindo por encontrar seus amigos é uma evidência da mentira de um documento, da mentira da imagem, algo que parece contrário ao que estamos acostumados a ver na obra do realizador, quando os registros de sons e imagens constituem verdades, como é o caso de UM TIRO NA NOITE (1981) ou de sua própria experiência de vida, quando tirou fotos do pai traindo a mãe em seu consultório médico. Desse modo, funciona também como uma crítica às imagens criadas pelo governo americano para vender a narrativa da invasão ao Iraque por causa das tais armas de destruição em massa. Mas o filme é pessimista quando vemos a pessoa disposta a contar toda a verdade para seus superiores e essa verdade não é aceita, é inconveniente demais.

Diferentemente de PECADOS DE GUERRA, que foi baseado em fatos reais inspirados num artigo publicado na New Yorker em 1969, mas apenas transformados em filme 30 anos depois, GUERRA SEM CORTES foi lançado enquanto a Guerra do Iraque ainda estava “quente” (a guerra durou de 2003 a 2011) e com o intuito de combater as mentiras impostas pelo governo americano. Mentiras que não duraram muito, em tempos de redes sociais. Tanto que quando Paul Greengrass lançou ZONA VERDE em 2010 todas as questões em torno das mentiras das armas de destruição em massa pareciam óbvias e até desinteressantes.

Para um filme de custo tão barato, para os padrões das produções do realizador, apenas 5 milhões de dólares, é de pensar que GUERRA SEM CORTES não obteve prejuízo. Errado: o filme arrecadou nos Estados Unidos apenas U$ 65.000 e no mundo todo apenas U$ 780.000. Ou seja, a tradição do fracasso de bilheteria, comum em grande parte de suas obras, ainda perseguia De Palma.

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MIRANTE

O debate pós-sessão de MIRANTE (2019), conduzido por Diego Benevides, no Cinema do Dragão, foi bastante frutífero para ajudar a pensar melhor o filme, uma obra de natureza mais experimental, feita ao longo de onze anos, com imagens sempre feitas a partir das janelas do apartamento do diretor, mas que acaba por retratar, de certa forma, a história recente do Brasil até 2018, antecipando, inclusive, os filmes de apartamento, tão comuns durante e após a pandemia. Rodrigo John tem uma carreira no cinema de animação e isso acaba sendo percebido no filme, seja pela própria utilização de stop-motion em certos momentos, mas principalmente pelo uso marcante da música para conduzir suas imagens, que me fizeram recordar das animações antigas que via quando criança. Mas o que me chamou mais a atenção foi a cena em que o diretor tenta conversar via Skype com uma moça e o resultado é semelhante a um filme de David Lynch. E também tem a ver com um tipo de comunicação mais travada que é característico do filme, e é escolha do realizador. Isso gera certo desconforto, mas acredito que a intenção é essa, mesmo.

O MISTÉRIO DE MAYA (Take Care of Maya)

O título original diz mais do que o filme apresenta que o brasileiro, e pensar em seu significado para essa história difícil e dolorida arrepia e emociona. O MISTÉRIO DE MAYA (2023), de Henry Roosevelt, é daqueles documentários de casos reais escabrosos que os americanos estão se especializando em fazer, e que fazem muito bem, embora acabem virando um modelo. De vez em quando, um deles fura a bolha e me interessa, como aconteceu no ano passado com A GAROTA DA FOTO. Aqui temos o caso de uma família lidando com uma doença rara da filha mais nova, uma doença que faz com que ela sinta dores intensas e perca habilidades motoras nos braços e principalmente nas pernas. Como desgraça pouca é bobagem, a menina acaba ficando sob a custódia do estado. Difícil não derramar lágrimas ao acompanhar os desdobramentos do caso. O que dizer da cena do (não) abraço na corte? É pensar e se emocionar.

sábado, setembro 30, 2023

ESTRANHA FORMA DE VIDA (Extraña Forma de Vida / Strange Way of Life)



Meu respeito e admiração por Pedro Almodóvar remonta ao início de minha cinefilia. Lembro-me de quando a revista SET fez uma eleição dos melhores filmes da década de 1980, na edição de dezembro de 1989 (se não me engano), e MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (1988) ficou na décima posição. [Para dar a informação completa, o primeiro lugar ficou com ASAS DO DESEJO, de Wim Wenders; seguido de OS ELEITOS, de Phillip Kaufman (2º colocado); FANNY E ALEXANDER, de Ingmar Bergman (3º); TOURO INDOMÁVEL, de Martin Scorsese (4º); RAN, de Akira Kurosawa (5º); OS INTOCÁVEIS, de Brian De Palma (6º); CABRA MARCADO PARA MORRER, de Eduardo Coutinho (7º); UMA CILADA PARA ROGER RABBIT, de Robert Zemeckis (8º); e CASANOVA E A REVOLUÇÃO, de Ettore Scola (9º).]

Ou seja, desde o início fui convidado a celebrar o cinema do diretor, mesmo sem conhecê-lo o bastante. Lembro-me com carinho do meu primeiro Almodóvar no cinema, que aconteceu um pouco depois dessa eleição. Foi com ATA-ME (1989), visto provavelmente em 1990, no saudoso Cine Center Um. Ali o cineasta já havia me ganhado, mas acredito que não totalmente, já que só comecei a ficar de fato apaixonado pelo seu trabalho quando compreendi que as comédias da fase inicial são tão derramadas de emoção e sentimento quanto seus melodramas da fase mais madura, a partir de A FLOR DO MEU SEGREDO (1995).

Infelizmente ESTRANHA FORMA DE VIDA (2023) me fez voltar alguns passos, me fez perder um pouco a fé no cineasta, por assim dizer, já que não ingressei no drama dos personagens, nem ri com os aspectos supostamente cômicos que ele promove, ao tentar virar o western do avesso, trazendo personagens homossexuais dentro do ambiente árido do velho oeste, normalmente dotado de uma masculinidade de linha mais tradicional. Na verdade, nunca saí da sessão de um Almodóvar tão decepcionado. Não conto outro curta, LA CONCEJALA ANTROPÓFAGA (2009), pois considero esse apenas uma brincadeira surgida a partir de ABRAÇOS PARTIDOS (2009).

Mas talvez o segredo esteja aí: considerar ESTRANHA FORMA DE VIDA uma brincadeira. O próprio diretor, na entrevista de cerca de 40 minutos que se segue ao curta, conta do quanto para ele foi importante dirigir atores em língua inglesa, trazendo como molde um gênero tipicamente americano, e do quanto sentiu mais liberdade com o formato do curta-metragem, quando pôde experimentar mais. Na verdade, ele parece se esquecer que é Pedro Almodóvar, um gigante que tem cacife suficiente para fazer um longa-metragem bem experimental, se assim o quiser.

Em ESTRANHA FORMA DE VIDA, em nenhum momento me senti envolvido pelos personagens, pelos aspectos visuais ou pela trama, que narra a reunião de dois caubóis que viveram momentos de intimidade no passado apó 25 anos. As circunstâncias, porém, não os beneficiam. E nem se trata aqui de não se identificar com a orientação sexual dos personagens, já que eu me emocionei bastante com a cena do reencontro dos dois namorados do passado em DOR E GLÓRIA (2019). Ou seja, fiquei com a má impressão de que Almodóvar estava um tanto preguiçoso, até. Claro que está lá na marcas do autor, como a questão da prisão, uma espécie de fetiche já apresentada no já citado ATA-ME, mas também de maneira mais perigosa, em A PELE QUE HABITO (2011), ou dramática, em CARNE TRÊMULA (1997). No novo filme, depois de ficar ferido de bala pelo personagem de Pedro Pascal, o personagem do xerife de Ethan Hawke, é tratado na cama pela pessoa que o feriu, mas que também o ama e deseja.

Embora não tenha gostado o tanto que gostaria, achei interessante ver o quanto Almodóvar chegou em tão alto prestígio que conseguiu vender um curta-metragem em salas de cinema no mundo todo, quando sabemos que se trata de um formato rejeitado, muito pouco comercial. Mas o que eu quero mesmo é ver o novo filme falado em espanhol do mestre. Almodóvar em inglês até agora não funcionou para mim. A boa notícia (e talvez com uma má notícia junto) é que ele tem dois projetos de longa-metragem em andamento: um em espanhol, outro em inglês. Estou também ansioso para que saia a edição brasileira de El Último Sueño, o livro de textos autobiográficos escritos pelo cineasta.

Quanto à entrevista que vem como bônus, o que acharam dele dizer que os filmes do western spaghetti, exceto os de Sergio Leone, e um ou outro do Sergio Corbucci, não são bons? Não sou um grande conhecedor do subgênero, mas imagino que é uma opinião controversa, especialmente entre os fãs. Confere? Além do mais, que entrevista mal editada, com uma moça que não parecia interessada em ouvir o entrevistador. Podiam ter entregado a algum crítico francês que o resultado sairia bem melhor.

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O JOGO DA GUERRA (The War Game)

Não deixa de ser uma ironia um falso documentário ganhar o Oscar de melhor documentário. E uma vez que sabemos da longa trajetória de tentativas de exibição de O JOGO DA GUERRA (1966), especialmente na televisão britânica, e do quanto foi considerado perigoso pelo governo do país, ganhar "documentário" foi uma vitória e tanto, já que o que é mostrado – cidades da Inglaterra sofrendo um ataque nuclear – era bastante realista naquele cenário da guerra fria, ainda mais que fazia apenas 20 anos que as duas bombas atômicas haviam devastado Hiroshima e Nagasaki. O tom deliberado de narração radiofônica, ou de cinejornais, proposto por Peter Watkins, junto com o realismo das imagens, certamente causou muito impacto em que o viu na época. Chamou-me muito a atenção o humor ácido, especialmente quando há comentários sobre a igreja católica, mas também quando deixa bem evidente o racismo dos ingleses. Filme visto no box Clássicos Sci-Fi – Pós-Apocalipse.

NINGUÉM VAI TE SALVAR (No One Will Save You)

Esta sci-fi/horror tem um pouco a cara das produções do(s) gênero(s) que surgiram durante a pandemia, ao mostrar uma pessoa isolada passando por situações de perigo e provação. Somos apresentados à jovem Brynn (Kaitlyn Dever, de FORA DE SÉRIE), que tem uma rotina de vida em que prefere a solidão. Só aos poucos saberemos o que a motivou a se desligar das pessoas e a estar sempre escrevendo cartas para uma moça que teria morrido. A trama de NINGUÉM VAI TE SALVAR (2023) começa pra valer até que bem rápido, com a chegada de um alienígena em sua casa. Um dos grandes méritos do filme de Brian Duffield (ESPONTÂNEA, 2020) foi ter conseguido contar uma história com quase zero de diálogo. Nesse sentido, vale destacar também a bela performance de Dever, numa interpretação bastante física, inclusive do ponto de vista da violência do próprio corpo.

quinta-feira, setembro 28, 2023

NOSSO SONHO



Impressionante como alguns filmes batem forte na gente. E batem de múltiplas maneiras, às vezes, como é o caso de NOSSO SONHO (2023), a cinebiografia de Claudinho e Buchecha, dirigida por Eduardo Albergaria. Vi o filme no sábado, numa sessão com pouco público para uma obra com personagens tão populares de nosso cancioneiro, e só não voltei para casa em prantos, pois não queria passar muita vergonha. A Giselle, que estava comigo na sessão, já havia percebido o quanto eu chorava, especialmente nos 30 minutos finais, e estava lá para me dar aquele apoio. Até levei o filme para minha sessão de terapia na segunda-feira, sem conseguir expressar verbalmente tudo o que senti. Os dois eixos principais me fizeram lembrar imediatamente de duas pessoas importantes que não estão mais em nosso plano de existência: meu grande amigo Santiago, quando o filme aborda a amizade; e meu pai, quando trata de uma questão paterna de Buchecha.

NOSSO SONHO tem um quê de fábula, e isso vai se evidenciando à medida que se aproxima de sua conclusão. Quem não conhece nada da história da dupla vai se impressionar ainda mais com as surpresas. O diretor opta por se distanciar um pouco do realismo, embora as interpretações sejam naturalistas. Quem viu LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE, que conta a gênese da amizade e da construção musical de Marcelo D2 e Skunk, vai encontrar no filme de Albergaria uma espécie de espelho. Mas diria que NOSSO SONHO é ainda mais interessante do ponto de vista narrativo, visual e das escolhas temáticas. E há o mistério. Um mistério que ronda o personagem de Claudinho, cuja família não é tão apresentada quanto à de Buchecha e, portanto, dá ao personagem um ar mais etéreo, mais próximo de um anjo. Nisso, a semelhança com o Skunk em LEGALIZE JÁ... se explicita.

Mas não se trata apenas de termos um personagem do mundo real ganhando ares fantásticos. Muitas cenas e cenários causam uma bem-vinda estranheza, como as próprias cenas dos shows da banda, mostrados sem muita intenção de trazer realismo, mais próximos de um sonho. A própria brincadeira dos dois de chegarem a uma gravadora usando um orelhão comunitário (cena bem engraçada, aliás), sem o intermédio de um empresário, deixa claro o interesse do realizador em acentuar certos aspectos, e deixar de lado outros, como os interesses amorosos dos rapazes ou a própria relação mais profissional dos artistas. O mais importante está na força da amizade, na influência decisiva e quase mágica de Claudinho na criação da ideia da dupla e no problema de alcoolismo do pai de Buchecha, que tanto o incomoda, e afeta o relacionamento dos dois.

Sobre a amizade da dupla, há um flashback mais distante, da infância dos garotos, em que um simples gesto é mostrado com tanto amor e carinho que é difícil não se enternecer: o momento do abraço dos dois. O abraço, esse gesto capaz de desarmar, não é apenas essencial nesse momento: ele terá uma ligação com uma das últimas cenas do filme. Os dois atores, Juan Paiva no papel de Buchecha (e também narrador), e Lucas Penteado no papel de Claudinho, transmitem a alegria que ficou marcada nas apresentações da dupla.

Grato fiquei pelas lágrimas, pelo carinho, pelo mistério e pelo amor recebido. No mais, nunca mais ouvirei a canção “Fico Assim sem Você” da mesma maneira. Ela passará a ser uma dessas criações musicais mágicas, legítima herdeira do pop de Lulu Santos, mas com algo de sombrio em seu tom profético.

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ELIS & TOM – SÓ TINHA QUE SER COM VOCÊ

Por alguns momentos, fiquei me perguntando se o formato tradicional, com entrevistas emoldurando o principal, que são as imagens riquíssimas de Elis e Tom em 1974 em Los Angeles, principalmente em estúdio, não atrapalharia o que já era perfeito. ELIS & TOM – SÓ TINHA QUE SER COM VOCÊ (2022), de Roberto de Oliveira, seria o nosso THE BEATLES – GET BACK. Mas é possível que "apenas" o material bruto (as filmagens de Jom Tob Azulay) não tenha sido suficiente para contar a história de modo compreensível para plateias maiores. Gosto de como ficou, gosto dos depoimentos dos convidados, entrecortando o principal, mas o que conta é mesmo o encanto de ver esses dois gigantes juntos. Eu nunca fiquei tão impressionado com a voz de Elis quanto neste filme (talvez por não ser íntimo do álbum, mas acompanhar a trajetória ajuda a perceber a evolução no canto dela). E Tom, com aquele quê de gênio egocêntrico e arrogante, se rende não apenas ao canto de Elis, mas até ao trabalho da equipe que ela traz consigo. Cada vez mais a década de 1970 vem sendo vista como a era mais rica da nossa música. Segundo eleição feita recentemente por centenas de críticos e profissionais de música, organizada pelo podcast Discoteca Básica, o álbum Elis & Tom ficou entre os 10 maiores da música brasileira.

SÃO MIGUEL ARCANJO  O ANJO MAIOR (Saint Michael – Meet the Angel)

O documentário segue uma estrutura bem tradicional e meu interesse maior foi conhecer um pouco mais da relação de adoração da Igreja Católica por Miguel, o Arcanjo. Na verdade, costumava estranhar o chamarem de "São Miguel", sendo ele um anjo e não um homem, mas hoje compreendo, levando em consideração que "santo" também tem o sentido de "divino", "sagrado". O documentário SÃO MIGUEL ARCANJO – O ANJO MAIOR (2022), dirigido por Wincenty Podobiński, não tem o tom didático que eu esperava (para o bem e para o mal), e traz um bom número de padres que comentam sua figura como o anjo vitorioso que combateu Satanás e venceu, e que é comumente invocado por muitos fiéis que se encontram em situação difícil - até mesmo necessitando de um exorcismo. Ah, gostei de o filme ter feito menção a Padre Pio, ainda que de maneira bem rápida, mas o suficiente para reacender em mim a vontade de ver a cinebiografia que Abel Ferrara dirigiu sobre o venerado sacerdote.

sábado, setembro 16, 2023

ENTRE DEUS E O PECADO (Elmer Gantry)



O pouco tempo que tenho acaba por me privar de algumas coisas incríveis que sequer estavam no meu radar nesses mais de trinta anos de cinefilia. No começo minha formação cinéfila se deu quase que exclusivamente pela revista SET, que trazia holofotes para muitos cineastas, mas, obviamente, por falta de espaço ou mesmo de lançamentos de certas obras no Brasil, muita coisa passou batida. Depois, nos anos 2000, as fontes de conhecimento foram ampliadas imensamente pela internet, pelos blogs de cinema, pelas listas de discussão, pela gentileza de amigos de gravarem fitinhas para mim de certos filmes inéditos em nosso circuito e só conseguidos através de cópias clandestinas gravadas de DVDs e laserdiscs estrangeiros. Muitas maravilhas do cinema de horror, eu conheci nesses anos.

E agora vivo um outro momento, a partir do primeiro ano da pandemia, quando passei a prestar atenção na curadoria e nos filmes distribuídos pela Versátil Home Video. Vejam bem: não estou fazendo propaganda, não. A questão é que ter parado para ver, só para citar exemplos deste ano, filmes como OS NOVOS CENTURIÕES, de Richard Fleischer, e À PROCURA DE MR. GOODBAR (1977), de Richard Brooks, foi essencial. Sobre esse último, com o convite de escrever um texto a respeito para um dos novos livros temáticos da Versátil, me vi na obrigação de conhecer um pouco mais da carreira de Brooks, cineasta que me era conhecido apenas por GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE (1958) e OS PROFISSIONAIS (1966), mas já faz tanto tempo que os vi, que nem dá para contar como vistos.

E por mais que À PROCURA DE MR. GOODBAR seja uma obra muito alinhada com a Nova Hollywood, ela já faz parte dos últimos trabalhos de Brooks. O realizador pertenceria mais à geração dos anos 1950, e está entre os 31 cineastas que ganharam textos de Olivier-René Veillon para o livro O Cinema Americano dos Anos Cinquenta, publicado pela editora Martins Fontes. O livro é uma delícia, aliás, com textos que destacam as obras mais importantes, as obsessões dos diretores e sua trajetória em cerca de sete páginas. E Veillon destaca a obra máxima de Brooks como sendo ENTRE DEUS E O PECADO (1960).

Como alguém que veio do jornalismo, o olhar de Brooks é um olhar de curiosidade e interesse. Por isso o personagem cético e ao mesmo tempo humanista de Arthur Kennedy, vivendo o jornalista, parece tão próximo do perfil do cineasta. Kennedy interpreta um profissional da comunicação que está fazendo um trabalho de observação da atuação de uma jovem mulher que está arrebanhando multidões com cultos de avivamento em cidades do interior dos Estados Unidos. A mulher, a irmã Sharon Falconer (Jean Simmons), parece de fato acreditar naquilo que está pregando. As coisas mudam um bocado com o aparecimento de um homem chamado Elmer Gantry (Burt Lancaster), com seu sorriso resplandecente, palavras bonitas, incrível eloquência (embora não exatamente sofisticada) e seu conhecimento e experiência com o evangelismo, faz com que a caravana de Sharon Falconer alcance ainda mais multidões. Só na primeira pregação de Gantry, centenas de pessoas se converteram.

Isso chama a atenção dos demais pastores e das demais igrejas evangélicas dos Estados Unidos, e logo a caravana de Falconer é chamada para estrear numa cidade grande, ou seja, um lugar com mais pessoas sofridas, mas também com mais pessoas céticas, menos ingênuas. A primeira meia hora de filme nos acompanha a Gantry sozinho e sua dificuldade para conseguir vender aspiradores de pó. Pouco sabemos de seu passado, mas, numa cena num bar, já percebemos sua habilidade com as palavras e sua capacidade de persuasão, ao conseguir arrecadar dinheiro para o natal de duas jovens. O rosto sempre sorridente de Gantry, mesmo quando tem que andar de trem às escondidas num vagão, é um convite para aceitarmos o personagem como um querido e irresistível charlatão. Até porque ele de fato acredita em Deus, e a cena em que ele adentra uma igreja evangélica constituída basicamente por pessoas negras, cantando o clássico gospel “I’m on my way to Canaan land”, é de arrepiar.

Abro um parêntese aqui para falar um pouco de minha experiência nas igrejas evangélicas e no quanto os filmes que lidam com o assunto me trazem sentimentos mistos. Em geral, os filmes costumam tratar essas pessoas com um ar de desdém e julgamento. Quando vejo filmes que tratam isso com respeito, como numa cena linda de conversão em CARANDIRU, de Hector Babenco, ou a cena mais representativa da força da fé já feits no cinema, em A PALAVRA, de Carl Th. Dreyer, vejo o quanto ainda tenho em mim essa relação de proximidade com a fé, embora tenha me tornado mais humanista e mais desapontado com as igrejas evangélicas, especialmente quando elas passaram a abraçar o dinheiro como bem mais precioso, e mais ainda durante a ascensão do bolsonarismo. Na época que participava (na verdade, mais testemunhava) os avivamentos na igreja (Assembleia de Deus), ficava bastante incomodado e perturbado com todo aquele barulho e percebia que havia algo errado, percebia que havia portas abertas para o charlatanismo e para a hipocrisia. Por outro lado, tenho um carinho imenso pela lembrança da primeira vez que fui a um culto dominical e vi a igreja cantando aquelas canções do hinário e senti que aquele ambiente estava cheio de uma energia muito boa e feliz. Enfim, é uma história feita de bons e de maus momentos. Fecho o parêntese mais pessoal, por ora.

No caso de ENTRE DEUS E O PECADO, acredito que a hipocrisia parece estar mais presente na sociedade, especialmente nos líderes evangélicos, do que nos crentes, que de fato acreditavam no poder da fé e da força das palavras. As palavras são poderosas e servem a advogados, políticos e líderes religiosos quando ganham essa necessidade de persuadir determinada parcela de pessoas. E outra coisa que Jesus condenava é mostrada na multidão: o ato de julgar as pessoas.  

Gosto particularmente do último ato, embora tenha percebido que a personagem da jovem prostituta compareça de maneira quase brusca no enredo, o que pode ser evidência da adaptação do romance de Sinclair Lewis e de possíveis cortes na montagem final. É grande a performance de Lancaster e há momentos muito emocionantes ao longo de sua jornada, que termina de maneira incendiária, catártica. Diferente, aliás, da catarse vista em À PROCURA DE MR. GOODBAR, já é que alinhada a um cinema mais clássico-narrativo. E por mais que o filme funcione como uma espécie de denúncia dos bastidores um tanto sujos das igrejas evangélicas, sendo até hoje uma obra um tanto controversa, ela celebra a humanidade de seu personagem-título.

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CEDDO

Oportunidade incrível esta que o Cinema do Dragão proporcionou de podermos conhecer boa parte da filmografia de Ousmane Sembène no cinema. CEDDO (1977) é uma obra um pouco mais "difícil" do que MANDABI (1968), no sentido de ser bastante apoiada em diálogos, que às vezes parecem se repetir, e soam quase teatrais, mas há uma clara intenção de causar inquietação, pois não apenas vemos, além da escravidão acontecendo no território senegalês, a invasão da religião muçulmana que, a princípio, parece pedir apenas a conversão pacífica das pessoas, para em seguida instalar uma espécie de teocracia violenta, que é uma realidade em vários países do norte da África e do Oriente Médio. O fato de termos apenas uma personagem feminina, e que é vista em toda sua glória, mas capturada, enquanto os homens tomam todas as decisões, é também um elemento que chama a atenção. Os ceddo do título são o grupo de pessoas que procuram ceder à dominação islâmica.

MOOLAADÉ

Ver MOOLAADÉ (2004), derradeiro filme de Ousmane Sembène, logo após CEDDO (1977) ajuda a deixar bem claro o quanto o diretor era um militante de causas difíceis de seu país. Aqui temos um filme que protesta contra a excisão, um nome bonito para o ato de mutilar a genitália feminina, cortando o clitóris e costurando a área, e gerando inclusive problemas urinários. Trata-se de uma prática antiga de várias regiões da África e que foi "incluída" como parte das leis islâmicas de certos países, como é o caso de Senegal. MOOLAADÉ começa com a fuga de quatro crianças desse rito que chamam de purificação. Elas procuram a casa de uma mulher que é conhecida no vilarejo por ter conseguido impedir o tal ritual em sua filha. Ao contrário do que se poderia pensar, não se trata de um filme de patriarcado versus mulheres, já que a maior parte das mulheres do lugar aceita a prática. Lá pelo terceiro ato, o grupo de personagens masculinos vai ficando mais ativo, depois que percebe que está havendo uma clara rebelião a esse costume. O filme é um tanto didático naquilo que quer combater e o final parece uma fuga do realismo até então reinante, mas isso não deixa de ser algo também revolucionário, com a intenção de mudar o mundo, de fato.