Depois de A ODISSEIA (2026), não tenho mais como pegar no pé de Christopher Nolan. Além de já o admirar como um cineasta influente para a resistência do cinema frente ao sistema de streamings, agora percebo que Nolan chega a seu auge com uma ambiciosa adaptação da obra clássica de Homero, incluindo também a passagem que não consta do livro, e que talvez seja a mais famosa da lendária Guerra de Troia: a da invasão de Troia através do cavalo de madeira, uma artimanha criada por Odisseu, aqui vivido por Matt Damon, que convence como esse herói trágico e corroído pela culpa, como uma espécie de continuação espiritual de OPPENHEIMER (2023).
Mal o filme estreou e já se vê uma série de críticas em torno das liberdades poéticas de Nolan em relação à obra original. Fala-se da ausência dos deuses, de certos eventos, da dimensionalidade de certos personagens, da falta de uma maior profundidade nas personagens femininas (em especial a Penélope de Anne Hathaway), da opção por designs diferentes para as armaduras e os navios, etc. Ou seja, o que mais se tem criticado é o que há de diferente na obra cinematográfica, como se Nolan tivesse a obrigação de seguir à risca a trajetória de Homero.
Garanto que se ele seguisse também resultaria numa obra passível de críticas negativas do mesmo jeito, pois a literatura e o cinema são duas artes distintas, sendo o cinema a tal arte impura, aquela que é composta pelas outras artes. E, por isso, por essa impureza, que o cinema é tão incrível. Afinal, na literatura não temos uma música tão incrível quanto a composta pelo sueco Ludwig Göransson (OPPENHEIMER, PECADORES), que pensou em trabalhar com instrumentos que possivelmente existiam nos tempos de Homero; e não temos uma fotografia lindíssima como a do mestre Hoyte van Hoytema (de NÃO! NÃO OLHE! e outros trabalhos de Nolan), que sabe muito bem trabalhar a escala da produção e o claro e o escuro quando necessário.
Nolan optou por dar a Odisseu uma dimensão mais “humana”, mais realista e mais próxima da contemporaneidade. Na obra clássica e na consciência da época, saquear uma vila ou matar centenas de pessoas durante uma guerra ou invasão era por assim dizer normal, aceitável e até visto como heróico. Na própria Bíblia, podemos pegar a história de Josué, que invadiu Canaã e matou todos que lá estavam porque aquela era supostamente a terra prometida do povo hebreu. Se ali havia um outro povo vivendo sua vida em paz, isso pouco importava. Do mesmo modo, se pegarmos outro exemplo bíblico, na passagem em que Deus endurece o coração do faraó para que ele envie seus soldados para perecerem no Mar Vermelho, isso acontece para a glória de Deus e de Moisés.
Além do mais, talvez um dos motivos de eu ter gostado tanto de A ODISSEIA tenha sido minha ignorância com relação à obra original de Homero (ou da pessoa ou pessoas que assinaram como Homero). Ou seja, não havia visto até então nenhuma adaptação para cinema ou televisão da história clássica e nem havia lido o livro. Havia lido, com muito prazer, sim, A Ilíada, a obra anterior, que apresenta parte da batalha de Troia e enfatiza heróis como Agamenon, Heitor, Aquiles e o próprio Odisseu.
No filme de Nolan, aliás, gostei muito de como é apresentado Agamenon: um sujeito de armadura negra e de altura enorme, vivido por Benny Safdie, que mal mostra o rosto. Ele é um pouco a representação do poder imenso (e sombrio) dos gregos frente àquele povo que se vê indefeso diante da invasão, saque e carnificina. Aliás, que imagem magnífica aquela de cima, quando se vê várias áreas da fortaleza sendo violada pelos homens de Odisseu e Agamenon. A opção de só mostrar essa imagem mais explícita da batalha durante o monólogo de Odisseu para Penélope foi de uma inteligência de tirar o chapéu. Pode até ter quebrado um pouco o tom melancólico da fala do herói amargurado, mas talvez a opção tenha sido tanto fugir à sentimentalidade quanto enfatizar a violência brutal. Isso Nolan consegue. Assim como sua montadora, Jennifer Lame.
Entremos agora noutra seara, a do elenco estelar, que é outro ponto que aparece em algumas críticas ao filme, como um elemento de distração. Claro que isso pode prejudicar um pouco no sentido de que ao vermos Charlize Theron vemos a atriz e não Calipso; ao vermos Robert Pattinson vemos o ator e não Antínoo. Se bem que Pattinson imprime uma vilania tão boa ao personagem, e é tão fácil gostar de odiá-lo que, sim, é possível muito bem acreditar na força de certos atores na representação dos personagens. O exemplo maior tem sido dado à incrível performance de Samantha Morton como a feiticeira Circe. Aqui apenas feiticeira, mas em alguns relatos é vista como uma deusa ou filha do deus Hélio, o deus do sol. Simplesmente maravilhosa a passagem de Circe e o que ela faz com os soldados de Odisseu. De encher os olhos de maravilhamento e terror. Algo que só as antigas fábulas e as antigas histórias eram capazes de fazer. Nolan gostou tanto dos elementos de terror desta e de outras partes de A ODISSEIA que estuda agora fazer seu próximo filme do gênero horror.
Ter um elenco estelar é também um trunfo para ter sucesso em Hollywood. Zendaya tem um papel muito pequeno, ainda que importante, mas seu poder de atrair audiências é imenso. E além do mais há Tom Holland (como o filho de Odisseu, Telêmaco), Elliot Page como Sinon, John Leguizamo como o cego porqueiro Eumaeus, Mia Goth como uma das criadas de Penélope, Jon Bernthal como Menelau, Lupita Nyong'o como Helena, além dos astros já citados. Ou seja, ter essa quantidade de bons astros conta a favor quando a intenção aqui é também criar um filme comercial, que venda muito, o que não quer dizer que deixe de ser autoral. Nolan ganhou esse status, além de ser o maior guardião do IMAX. Tanto que foi ele o primeiro a fazer um filme totalmente filmado em IMAX, com uma câmera mais leve, uma tecnologia evoluída.
Falar de A ODISSEIA é também deixar de falar sobre várias coisas impressionantes, várias cenas marcantes, como a das sereias, do ciclope, dos gigantes, de Circe, da ilha do Sol, do encontro com os mortos em Hades, do cachorro idoso de Odisseu, da angústia de Penélope, dos dois embates de Odisseu com seus inimigos, da opção por uma montagem que alterna presente e diversos passados entrecortados de maneira tão brilhante que nunca somos confundidos, das cenas de batalha, que não são tão sangrentas mas que possuem o barulho, o caos, a perturbação e a violência necessários. Enfim, um filme imenso.
+ TRÊS FILMES
PRIMAVERA
De estrutura bem clássica e convencional, PRIMAVERA (2025), de Damiano Michieletto, não tem a intenção de inovar na forma, obviamente, mas é bem cuidado na reconstituição de época (a Veneza do séc. XVIII), e no carinho com que lida com a protagonista, Cecilia (Tecla Insonia), uma jovem que cresce num orfanato feminino que tem como tradição educar as jovens no caminho da música, enquanto uma ou outra é aceita ou tomada como esposa de algum pretendente. Inclusive, Cecilia até já está reservada a um militar que está em combate. Mas seu verdadeiro amor é a música, especialmente quando conhece o grande Antonio Vivaldi (Michele Riondino), que vai parar nesse orfanato para trabalhar e ganhar alguns trocados enquanto cria maravilhas da música barroca. A relação de Cecilia com Vivaldi é de admiração mútua, mas o músico além de padre é também um homem de poucas ações práticas, o que é comum em grandes artistas. Senti falta no filme de momentos realmente impactantes, ou elevadores, levando em consideração que havia a poderosa música de Vivaldi para usar. De todo modo, é um bom filme, especialmente no que se refere à trajetória de Cecilia.
EM SEGREDO (In Secret)
Alguns filmes, a gente não encontra: eles encontram a gente. Foi o caso deste EM SEGREDO (2013), de Charlie Stratton, que Giselle e eu achamos enquanto zapeávamos por um streaming. De cara, havia de interessante a presença de três grandes atores: Elizabeth Olsen, Oscar Isaac e Jessica Lange. A história é baseada no clássico romance naturalista Thérèse Raquin, de Émile Zola. Como nunca havia lido o livro e nem visto outra adaptação, tudo pra mim foi novidade e fiquei muito surpreso com o desenrolar da trama. Zola pega o que os escritores realistas fizeram, como o enfoque ao adultério, e levam suas tramas para caminhos ainda mais sombrios. Os heróis de EM SEGREDO são não apenas amantes, mas também conspiradores da morte de alguém. E é interessante ver Olsen interpretando um papel assim antes de fazer a minissérie AMOR E MORTE e ver Isaac também antecipando o tema do adultério que estaria presente na minissérie CENAS DE UM CASAMENTO. EM SEGREDO tem o sabor de fábulas góticas, em que os heróis são levados a seus infernos pessoais, mais do que à atmosfera dos filmes noir, talvez por se ambientar na Paris do século XIX.
OTHON (Les Yeux Ne Veulent Pas en Tout Temps Se Fermer, ou Peut-être Qu'un jour Rome Se Permettra de Choisir à Son Tour)
Em poucos minutos de OTHON (1970) desejei estar lendo um livro. Com um livro eu poderia voltar, reler o começo, fazer anotações com calma para compreender o enredo complexo. No cinema, nos resta acompanhar e buscar entender a trama com os diálogos rápidos feito metralhadoras dos não-atores em seus desempenhos deliberadamente despidos de emoção, muito mais do que nos filmes de Bresson. OTHON foi a primeira produção feita na Itália de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, filmado nas ruínas da Roma antiga e com os intérpretes usando figurinos de época, mas com a inclusão proposital da imagem e do som dos carros do século XX, numa avenida movimentada. Isso acentua o aspecto autoconsciente do filme. É interessante notar as escolhas dos diretores nos momentos em que os diversos atores/personagens conversam: achei especialmente bela uma cena em que, em vez de optar pelo campo/contracampo, há uma utilização virtuosística de uma câmera saindo de um close-up para um plano mais aberto. De todo modo, o ideal seria ver o filme conhecendo um pouco mais da trama, da peça original de Pierre Corneille (1606-1684) ou da própria história dos personagens, caso seja baseada em fatos.
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