Havia visto pela primeira vez ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (1987) em 2005, numa fita VHS da Cult Films. Rever em qualidade HD e com uma percepção melhor não só da filmografia de Abbas Kiarostami, mas do próprio cinema. Embora tenha ficado fascinado com O GOSTO DE CEREJA (1997) quando o vi no cinema, na época não estava suficientemente focado em acompanhar filmografias, coisa que só aconteceria na década seguinte. Além do mais, o circuito local não ajudava: lembro de poucos filmes do cineasta iraniano sendo exibidos em circuito local posteriormente - lembro apenas de ABC ÁFRICA (2001) e CÓPIA FIEL (2010), mas sei que posso ter perdido um ou outro lançamento no Cinema de Arte, até porque havia um hype em torno do cinema iraniano a partir do início dos anos 1990, e principalmente por causa da grandeza de Kiarostami.
Embora seja costumeiramente tratado como sua primeira obra-prima e seu primeiro filme mais famoso, ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? já é um filme de um cineasta bem experiente, além de ser uma espécie de continuação de um tema que lhe era caro: o do ambiente nas escolas. Curtas, médias e longas como como O RECREIO (1972), O VIAJANTE (1974), EU TAMBÉM POSSO FAZER (1975), DUAS SOLUÇÕES PARA UM PROBLEMA (1975), TRIBUTO AOS PROFESSORES (1977), FIRST CASE, SECOND CASE (1979), OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO (1984), antecederam sua obra mais famosa sobre o universo de estudantes e alunos. Depois, ainda faria um documentário sobre a questão da educação no Irã, chamado LIÇÃO DE CASA (1988), entrevistando alunos sobre seus pontos de vista acerca das atividades domiciliares.
A simplicidade da ideia de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? se equivale à genialidade no uso da câmera, dos silêncios, dos espaços, do suspense, da incerteza em torno da busca do menino protagonista, na intenção de devolver o caderno do coleguinha de classe, uma vez que o tal coleguinha já estava por um triz para ser expulso pelo professor, por esquecer o caderno ou não fazer as atividades. Temeroso pelo que poderia acontecer com a criança, o pequeno Ahmed, contrariando sua mãe, que não escuta nem quer entender seus motivos, sai de casa para empreender uma verdadeira odisseia a pé, já que ele não sabe onde fica a casa do colega, embora saiba que fica num lugar distante de onde ele mora.
Nesse trajeto, Kiarostami nos apresenta a um mundo adulto extremamente cruel, destaque para a conversa entre seu avô e outro homem: o avô afirma que no tempo dele, as crianças teriam que ser submetidas a surras regulares, mesmo que não tenham feito nada de errado. O filme vai ficando mais sombrio, à medida que a noite chega e os vilarejos se tornam mais escuros, mais desertos e o tempo parece mais instável e assustador para uma criança, como na cena em que, depois que um idoso o ajuda a chegar na suposta casa do menino a quem o protagonista procura, ele se assusta com uma forte ventania e acaba voltando. Isso provoca uma imensa tristeza e uma sensação de frustração no garoto, que decide voltar para casa, mesmo sabendo que vai ou pode levar uma surra do pai. E as cenas com esse homem idoso são enternecedoras: o homem anda muito lentamente por causa da idade, mas é uma das únicas pessoas que ele encontra que se mostra disposta a ajudá-lo. Além disso, há aquele detalhe da flor que ele lhe dá que seria importante para a última cena do filme, já na escola, no dia seguinte.
E depois disso, ainda veríamos sequências muito poderosas, pois também cheias de mistério, como a sequência em que o menino faz o dever de casa do colega e a porta se abre com a forte ventania, enquanto a mãe está tirando a roupa do varal. São imagens aparentemente simples, mas que o cinema feito por um gigante é capaz de transformar em magia.
+ TRÊS FILMES
A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXAS DE FÓSFORO (Tulitikkutehtaan Tyttö)
Pela ausência de mais filmes de Aki Kaurimäki em nosso circuito – do autor, só vi no cinema O HOMEM SEM PASSADO (2002), O PORTO (2011) e FOLHAS DE OUTONO (2023) –, e talvez até de uma maior conversa sobre seus filmes por parte de vários cinéfilos, acabei deixando de ver muita coisa disponível, inclusive na Mubi. Falo isso, pois muitas vezes ouvir sobre os filmes, bem como ler sobre eles, ajuda a nos deixar instigados. Este A GAROTA DA FÁBRICA DE CAIXAS DE FÓSFORO (1990), já o nono longa-metragem do realizador, tem um rigor formal admirável, e está prestes a sair do catálogo do streaming (por isso aproveitei para vê-lo). Possui aquele tom de melodrama mais seco característico do autor, mas, ao mesmo tempo, paradoxalmente bem melancólico, que faz com que não apenas admiremos a plástica do filme (uma das marcas do autor), como também nos importemos e soframos junto com a protagonista, a jovem Iris (Kati Outinen, colaboradora constante do diretor), a tal garota que trabalha numa fábrica de caixas de fósforo do título. O filme demora um pouco a apresentar pessoas: o que vemos nos primeiros minutos são os movimentos das máquinas da fábrica, e só depois vemos Iris, dando uns retoques finais na embalagem das caixas de fósforo, o que acaba denotando a exploração do trabalho humano e a figura dessa garota como uma peça na engrenagem. O fato de ela ser explorada também pelos pais e depois por um sujeito que ela conhece e a trata muito mal, faz com que nosso senso de moral seja posto de lado. Gosto das ações posteriores dela, o que me faz questionar meus próprios pensamentos.
PEQUENAS CRIATURAS
A pergunta que não quer calar: em 1986 não havia clínica veterinária em Brasília? No mais, uma bela surpresa este segundo longa-metragem de Anne Pinheiro Guimarães. Inclusive, fiquei muito curioso para ver seu primeiro longa, codirigido por Carolina Jabor, TRANSE (2022), que conta com dois atores de que eu gosto muito, Luisa Arraes e Johnny Massaro. As primeiras imagens de PEQUENAS CRIATURAS (2025), em fotografia scope lindona, já chamam a atenção, e nos faz perceber que há ali uma direção rigorosa, além de um cuidado para trabalhar com a direção de arte daquela época e lugar e tratar com carinho os personagens. Carolina Dieckmann é a protagonista da história, mãe de dois garotos, um adolescente e um ainda criança (o que gosta de usar a máscara do filme O PLANETA DOS MACACOS). Cada um dos três personagens tem sua força na história. A mulher sofre com a ausência do marido, que muito provavelmente está com outra; o adolescente se sente solitário e revoltado com aquele lugar quase abandonado, enquanto a criança procura se divertir enquanto pode, apesar de sentir a falta do pai para seu aniversário que está pertinho. Os demais personagens são estranhos que vão se tornando amigos, como o interesse romântico (Caio Ciocler) e a vizinha de cima (Letícia Sabatella), além do amigo do garoto e um sujeito estranho que tem fama de ser tarado. Adoro a cena final, no drive-in. Um filme que cresce na memória.
UM TRISTE E BELO MUNDO (Nujum Al'amal w Al'alam)
Lembrei-me do decepcionante e equivocado 8 DÉCADAS DE AMOR, do espanhol Julio Medem, recentemente visto, e vi o quanto este trabalho do libanês Cyril Aris é muito mais feliz na proposta de mostrar a história de amor de um homem e uma mulher em tempos distintos. Em UM TRISTE E BELO MUNDO (2025), porém, a proposta também traz a questão político-social envolvendo um país que vive em situações de guerra e sob ataques de Israel há muitos anos, como é o caso do Líbano. A história se inicia quando Yasmina e Nino, ainda crianças, marcam um encontro amoroso num lugar x. Um encontro que não acontecerá e que os dois só se encontrarão quando adultos e terão uma nova chance de viver um novo amor. Mas, enquanto Nino tem um apego maior a seu país e uma visão mais romântica dos relacionamentos, Yasmina é mais desapegada e acredita que não vale a pena permanecer em seu país, assim como também não sabe se acredita em casamento. A história é bem conduzida, enfatizando o carinho dos personagens e os altos e baixos da relação. Para quem sente falta de uma boa história de amor, creio que pode encontrar uma aqui, situada no turbulento Oriente Médio.