quarta-feira, agosto 19, 2026

VÍTIMAS DO PECADO (Victimas del Pecado)

 
A primeira vez que ouvi falar em VÍTIMAS DO PECADO (1951) foi vendo o documentário CINEMA DE LÁGRIMAS, de Nelson Pereira dos Santos, quando o realizador brasileiro representou o cinema da América Latina na comemoração dos 100 anos de cinema que resultou em documentários em diversas partes do mundo. Nelson optou por enfatizar o cinema mexicano, que tinha o melodrama como especialidade. Uma das imagens que me marcou lá em 1995, quando vi esse documentário na televisão, foi justamente a cena da mulher largando um bebê numa lata de lixo por amor a um homem perverso. O filme, VÍTIMAS DO PECADO, de Emilio Fernández, eu demoraria mais de 30 anos para ver. Mas valeu a pena ter visto agora, numa cópia remasterizada de 2022, lançada no box Filme Noir - Noir Internacional.

VÍTIMAS DO PECADO impressiona desde as primeiras cenas, ambientadas num cabaré em que a protagonista, Violeta (Ninón Sevilla), dança algo que para nós brasileiros parece muito familiar, uma música citando orixás como Ogum e Xangô. As demais canções são rumbas e outros ritmos caribenhos, mas essa primeira tem uma africanidade e uma energia que nos aproxima mais. Este primeiro momento do filme nos apresenta a este mundo habitado por dançarinas, prostitutas, gângsteres, cafetões. Na verdade, muitas vezes esses papéis exercidos por homens e mulheres são duplos.

Ou seja, o primeiro personagem masculino apresentado, Rodolfo (Rodolfo Acosta), se mostra como um homem mesquinho, vaidoso e ficamos sabendo que engravidou uma das garotas de programa do estabelecimento, e que essa mulher, Rosa, acabou de parir a criança. O filme tem uma montagem dinâmica o bastante para que, logo depois da famosa cena do bebê sendo deixado, dolorosamente, na lata de lixo, também mostrar a faceta não apenas covarde é cruel de Rodolfo, mas também suas ações como ladrão e assassino, a exemplo dos gângsteres apresentados no cinema hollywoodiano dos anos 1930.

Ou seja, o filme, que antes começou como uma espécie de musical (há várias cenas musicais marcantes), e depois para um melodrama, muda a chave para uma espécie de noir criminal, embora o melodrama seja o que predomina e o que torna o filme verdadeiramente emocionante, já que Violeta, a heroína da história, é a mulher que salva a criança, e que, na falta de quem possa acolher o bebê, o toma como seu filho, mesmo que para isso precise se prostituir nos lugares mais decadentes da cidade.

Apesar de dirigido e roteirizado por homens, VÍTIMAS DO PECADO enfatiza a união e a bondade das mulheres em detrimento da covardia e maldade dos homens dentro daquela estrutura patriarcal pré-estabelecida. Os realizadores do filme, diretor, roteiristas e principalmente o celebrado diretor de fotografia Gabriel Figueroa (OS ESQUECIDOS, de Luis Buñuel) fazem uma crítica ácida ao sistema, uma vez que a lata de lixo fica em frente ao Monumento à Revolução Mexicana. Uma ironia de um país que celebrava seus ideais de “progresso, justiça e proteção social".

Nos extras do box, há um pequeno documentário que nos ajuda a abrir os olhos para o trabalho excepcional de Figueroa, que utiliza brilhantemente a profundidade de campo nos ambientes internos e o uso das sombras em externos como meio de enfatizar o sentimento de abandono de Violeta e do pequeno bebê que ela pega para criar. Há sequências em que essa dor é tão estilizada quanto sentida. O que dizer do ataque de Rodolfo à casa de Violeta? Só uma cena dessas já justifica a valorização de VÍTIMAS DO PECADO como uma das maiores obras do cinema mexicano. E mais emoção nos aguarda, lá no final. Difícil conter as lágrimas, hein.

+ TRÊS FILMES

CINCO TIPOS DE MEDO

Que bom que a Downtown colocou CINCO TIPOS DE MEDO (2025), de Bruno Bini, em várias salas do circuito brasileiro. Se vai ficar em cartaz em mais sessões nas próximas semanas, aí já é outra história. A comparação que estão fazendo com os filmes-coral de Altman, e principalmente com os primeiros trabalhos de Iñárritu, faz sentido, mas o roteiro do próprio diretor Bruno Bini é muito bem arrumado, trazendo pontos de vista diferentes de uma tragédia envolvendo várias pessoas. Há a raiz do mal, que é o personagem de Xamã, um traficante de drogas violento, e todos aqueles que são prejudicados por sua ação, incluindo a ex-namorada que deseja fugir dele, vivida por Bella Campos. Aliás, que bom que essa moça finalmente fez cinema. É bastante conhecida por seu trabalho na televisão. Já Bárbara Colen é bem conhecida de quem acompanha o cinema brasileiro contemporâneo e faz uma mãe cheia de fúria por causa da morte do filho. Em meio a tanta tragédia e violência há espaço para o humor, em especial com o personagem de João Vitor Silva, o que mais se aproxima de um protagonista do elenco.

APENAS COISAS BOAS

Eis um daqueles filmes claramente divididos em lado A e lado B. Daniel Nolasco parece brincar de utilizar diferentes gêneros ao contar uma (ou duas?) história sobre o encontro de dois homens. Eu não consegui prever nem de longe, na primeira parte, no que o filme se transformaria na segunda, ou seja, uma espécie de thriller almodovariano (pelas cores e pelos tons), ainda lidando com a exploração dos corpos nus masculinos, mas sem aquele aspecto fetichista que caracterizou VENTO SECO (2020), o longa anterior do cineasta – entre um e outro longa, Nolasco dirigiu o interessante O CAVALO DE PEDRO (2023), que justamente por ser um curta acaba sendo visto por uma parcela menor de espectadores. APENAS COISAS BOAS (2025) começa com créditos vermelhos bonitos ao som de uma música country e acompanhando um homem em sua motocicleta. A história se passa nos anos 1980 e o cuidado com os aspectos plásticos já chamam a atenção. Para Nolasco, a plasticidade está à frente das interpretações, ainda que essas não fiquem atrás. Inclusive, é sempre bom ver um filme que traga Renata Carvalho, cujo melhor desempenho ainda é, provavelmente, no maravilhoso OS PRIMEIROS SOLDADOS, de Daniel de Oliveira. Aqui ela aparece na segunda parte da história, que acontece nos dias atuais, quando a trama dá um grande salto temporal. Na primeira, o jovem proprietário de terras Antônio conhece e abriga Marcelo, um rapaz que havia sofrido um acidente na estrada enquanto estava em sua motocicleta. Na segunda, bom, na segunda melhor não contar muito para não estragar a surpresa.

A VOZ DE DEUS

Fazer documentário com um projeto a longo prazo demanda uma compreensão de que tudo pode acontecer. O diretor Miguel Antunes Ramos sabia disso quando resolveu acompanhar de perto dois pregadores mirins de igrejas evangélicas por cerca de dez anos. Muito interessante notar o quanto esses garotos ficam à vontade diante das câmeras, o que é importante para que sejam eles mesmos – ou ótimos atores representando com naturalidade. A VOZ DE DEUS (2025) propõe algumas reflexões interessantes, e a questão da fé até parece ficar em segundo plano. Pensamos mais no quanto a infância dessas crianças é profundamente afetada por essa exploração por parte dos pais, que encontra na boa expressão dos filhos um meio de vida. O primeiro vende DVDs (pelo menos enquanto esse tipo de mídia ainda tem alguma popularidade); o segundo quer aproveitar para vender roupas masculinas, já mirando na era das redes sociais. De uma forma ou de outra, tudo me pareceu assustador. Enquanto isso, o filme não se esquiva de mostrar o país dividido diante da ameaça do bolsonarismo. A lacuna da pandemia é até interessante, para vermos o salto no tempo e a mudança de vida e de perspectiva desses jovens e de seus pais.

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