sábado, julho 11, 2026

A MORTE DO DEMÔNIO – EM CHAMAS (Evil Dead Burn)

 
Acho interessante que a marca Evil Dead tenha virado uma espécie de cinessérie que homenageia o trabalho de Sam Raimi, com a diferença que diminui o humor e aumenta a violência gráfica e o tom de tragédia. O que não é algo ruim. É a tendência do cinema de horror do século XXI. Tanto que fica muito claro vendo tanto A MORTE DO DEMÔNIO – A ASCENSÃO (2023) quanto este A MORTE DO DEMÔNIO – EM CHAMAS (2026) que há uma preocupação em trazer o horror para os temas contemporâneos. No novo filme, o tema é a violência doméstica, a masculinidade tóxica.

A suíça Souheila Yacoub (que está nos ótimos CLIMAX, de Gaspar Noé, e O SAL DAS LÁGRIMAS, de Philippe Garrel), interpreta a francesa Alice, uma jovem mulher que amargou violências terríveis de um cara que era visto pela família (dele) como um homem de bem e tal. Depois da morte do sujeito, num acidente de carro aterrorizante, ela encara o horror de ir para a casa dos pais do morto. Essa é talvez a principal história do filme, já que a trama que segue a partir de quando Evil Dead entra é uma variação dos outros filmes, especialmente do anterior, de Lee Cronin, quando pessoas da família são possuídas por entidades malignas que matam os vivos para possuírem seus corpos.

Um dos aspectos mais interessantes de Evil Dead, e em especial deste filme, é o quanto me fez pensar no conceito de “horror”, que tem mais relação com repulsa, nojo e choque do que com medo, atmosfera, mistério ou suspense. Ou seja, os fãs de gore e de filmes que destacam mais esses elementos podem se sentir comtemplados, embora eu perceba, principalmente no prólogo, um pouco de desleixo na direção, na montagem, no roteiro: o prólogo não tem impacto e a história dos dois amigos pescadores tem uma ligação muito pobre com a trama principal, da família Price e das mulheres (a namorada, a esposa, a sogra e a velha matriarca).

Também senti que há uma barriga ali pelo meio, ou na terça parte, quando o filme perde um pouco da força, embora siga chamando a atenção e mantendo o interesse nas cenas de maior choque, como a da caneta no ouvido ou a do beijo “romântico” de marido e mulher. A adaga, por exemplo, é um mcguffin. Mas um mcguffin que ajuda a empurrar a história para frente, na trajetória difícil da heroína/final girl.

Por outro lado, o trabalho de câmera de Sébastien Vanicek (INFESTAÇÃO, 2023) é quase sempre muito inventivo, emulando a capacidade que os corpos endemoniados têm de subir as paredes ou de pularem em cima de suas vítimas, não importando a altura ou o estrago que uma queda fará no corpo adotado pelos demônios. Cena mais clara disso é a do pai da família dando tiros na própria cabeça na frente de seus familiares.

Ou seja, considero MALDIÇÃO DA MÚMIA um Evil Dead melhor que este novo Evil Dead. Lee Cronin pode ter tentado passar a perna em seu colega francês, além de saber construir obras plasticamente mais bonitas.

+ TRÊS FILMES

MARIO BAVA – MAESTRO DO MACABRO (Mario Bava – Maestro of the Macabre)

Aproveitando que vi O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA (1970) recentemente, aproveitei para ver este documentário feito para a televisão britânica de cerca de uma hora de duração que busca enaltecer o legado de Mario Bava, um dos mais importantes cineastas italianos. E talvez o mais influente: sua obra influenciou gente diversa como Fellini, Argento, Lynch, Scorsese, Tim Burton, entre outros, além de influências diretas em obras como ALIEN, O 8º PASSAGEIRO e SEXTA-FEIRA 13 – PARTE 2. Bava foi um cineasta que fez obras geniais com orçamentos mínimos, e este documentário cobre quase tudo de sua filmografia, de forma muito rápida, provavelmente para caber nos 60 minutos. E está tudo bem. Outros livros e documentários podem dar conta de seus filmes individualmente, ou mais aprofundadamente. Inclusive o autor do mais importante livro sobre Bava, Tim Lucas, está presente entre os entrevistados. MARIO BAVA – MAESTRO DO MACABRO (2000) começa destacando os primeiros filmes de horror de Bava, A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO (1960) e AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963), e se percebe que há uma divisão em blocos de assunto: o terror, o giallo, o pré-slasher, os outros gêneros pelos quais ele se aventurou, como o western, a ficção cinética e o peplum. Sobre o western, conta-se que ele não ficava à vontade com o gênero, por preferir trabalhar em estúdios e poder controlar melhor as cores, os cenários, algo que acabou se tornando uma de suas maiores marcas, seu enfoque visual, o quanto ele se importava mais com a imagem e menos com os atores e os diálogos. É bom ver este documentário para dar vontade de voltar a seus filmes e, se for o caso, ver aqueles que ainda não foram vistos.

ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (Oddity)

Comecei a ver este segundo filme de Damian MCarthy com a expectativa de ver no mesmo dia o novo HOKUM – O PESADELO DA BRUXA (2026). E até baixei há pouco seu primeiro longa, O ALERTA (2020). O fato é que gostei bastante de ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (2024). Antes tarde do que nunca tê-lo visto. A gente percebe que há um cineasta que trabalha com rigor formal por trás das câmeras e que a estranheza, o medo e o bom desenvolvimento da história vêm junto com a elegância. O prólogo nos apresenta a uma mulher que enfrenta um dilema: seu marido está trabalhando numa clínica de psiquiatria e ela está sozinha numa casa na floresta. Eis que um sujeito com um olho de vidro bizarro que pede pra entrar dizendo que havia um homem perigoso dentro da casa. A mulher fica nervosa e em dúvida sobre que atitude tomar, uma vez que havia deixado seu telefone no carro. Essa tensão e o resultado do que acontece nesta noite é só o começo dessa história que envolve psicopatia, mas principalmente eventos sobrenaturais, principalmente graças à presença de uma vidente cega (Carolyn Bracken, aqui em dois papéis) e de objetos que têm tanto valor quanto maldição. Um filme para não se esquecer.

LINK – O ANIMAL ASSASSINO (Link)

O fato de eu ter gostado tanto de O PRIMATA, de Johannes Roberts, me deixou curioso para conferir este ancestral dos anos 1980 dirigido pelo talentoso Richard Franklin, que vinha de ótimos filmes no currículo, como ENIGMA NA ESTRADA (1981) e PSICOSE II (1983). A opção de usar animais de verdade e não pessoas vestidas de macaco foi bastante arriscada, embora, para a época tenha sido o melhor a fazer. Ainda assim, senti que o orangotango Link me pareceu demasiado simpático para o vermos como um animal perigoso e assustador. Na trama de LINK – O ANIMAL ASSASSINO (1986), Elizabeth Shue é uma jovem estudante de zoologia que se oferece para ser assistente de um professor da universidade que trabalha com primatas, mais especificamente estudando a inteligência desses animais. Quando a moça se vê sozinha naquela casa enorme, distante da cidade, tendo que lidar com o perigo de uma fera, ela passa a exercitar seu instinto de sobrevivência se não quiser ter o mesmo destino de outros. Visto no box Obras-Primas do Terror – Animais em Fúria.

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