sexta-feira, setembro 15, 2023

OPPENHEIMER



Pelo visto, os filmes vistos no mês de julho passado ainda estão rendendo. É que acredito que seja necessário falar sobre alguns deles um pouco mais aqui para o blog. As pequenas pílulas que escrevo para o Facebook e Letterboxd funcionam mais como primeiras impressões e que eu, muito inteligentemente (“não contavam com minha astúcia”), aproveito como um P.S. do texto principal. E OPPENHEIMER (2023), de Christopher Nolan, não podia ficar de fora, pois, gostando-se ou não do filme ou do diretor, trata-se, sim, de uma das produções mais importantes do ano, principalmente no quanto repercutiu na já histórica estreia simultânea com BARBIE, de Greta Gerwig.

Pois bem. A estreia de OPPENHEIMER coincidiu com minha chegada a São Paulo durante as férias. E guardo com carinho as circunstâncias em que o vi, ao lado dos queridos Michel e Cris. Digo, não tão ao lado assim, pois não havia mais assento próximo a eles no ato da compra do ingresso, mas passei por todo o corre-corre de chegar em cima da hora à sessão, com Michel correndo contra o tempo como num suspense automobilístico a fim de pegar a Cris e chegarmos na hora no Shopping JK Iguatemi, espaço de vendas mais elitizado da megalópole e possível detentora da melhor projeção do Brasil (será?): a sala IMAX de lá, pertencente ao grupo Cinépolis. A disposição das cadeiras de lá é perfeita, mas acho que já escrevi sobre isso no texto sobre a viagem a Sampa. E foi muito legal ver tanta gente fazendo do cinema uma prioridade para suas vidas. 

Quanto ao filme, e principalmente quanto a Nolan, costumo brincar dizendo que divido os títulos do diretor entre aqueles que me fazem dormir e aqueles que conseguem me deixar acordado. Claro que há toda uma questão envolvendo minhas crises alérgicas, mas não deixa de ser curioso o número grande de produções que funcionaram como soporífero para mim. São elas: BATMAN BEGINS (2005), O GRANDE TRUQUE (2006), BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008), A ORIGEM (2010) e DUNKIRK (2017). Os demais são filmes que me atraem ou me repelem – lembro de ter saído muito irritado da sessão de AMNÉSIA (2000), por exemplo.

Felizmente, OPPENHEIMER não me deu sono e por isso já dou um crédito ao filme. E nem sei dizer se é mérito da montagem, que tenta o tempo todo deixar o espectador interessado numa trama cheia de conversas (a maioria, entre homens engravatados) sobre física, política e ética. Nada mais justo para um filme que quer contar a história de um dos mentores da bomba atômica, J. Robert Oppenheimer (1904-1967), um homem que tem uma história interessante de vida, se pensarmos no horror que foram as terríveis bombas em Hiroshima e Nagazaki, e quando ele foi “cancelado” pelo macarthismo, depondo perante a Comissão de Atividades Antiamericanas. Um simples passeio pelo Wikipedia pelo verbete do cientista nos dá uma ideia da quantidade de detalhes e do grande número de pessoas envolvidas, o que não deixa de ser uma ótima desculpa para as três horas de duração do filme e pela montagem que no início causa um pouco de enjoo. Aliás, interessante como Nolan é obcecado por questões narrativas complexas, embora ele nem sempre seja bem-sucedido nisso. No fundo, ele é só mais um cineasta ligado à narrativa clássica mesmo. Não que isso seja um problema: longe disso. 

Uma das coisas que mais passei a apreciar em Nolan, porém, foi sua cruzada pela valorização da experiência do cinema na sala escura. E isso me ajudou até a gostar mais de seus trabalhos – fui na contramão de quase todo mundo e gostei de TENET (2020), talvez por vê-lo durante aquele período difícil que foi o primeiro ano da pandemia. De uns tempos para cá, ele ganhou a alcunha de grande guardião do IMAX e do uso da película em 70 mm, o que resulta em imagens que se diferenciam das que estamos acostumados a ver no cinema contemporâneo.

Sobre o filme em si, Cillian Murphy está ótimo no papel-título, ora passando um ar quase psicopata de anjo da destruição, ora carregando nos ombros a culpa pela destruição de duas cidades inteiras do Japão. Há uma cena em que um grupo de homens discute quais cidades destruir que me impressionou muito, me causou mal-estar. Um deles diz que simpatiza com a cidade tal, pois passou férias agradáveis com sua família um tempo atrás.

Senti falta de um maior aprofundamento nas questões afetivas do protagonista com as duas mulheres que passam por sua vida (vividas por Florence Pugh e Emily Blunt), mas já é de se esperar de alguém que age mais de maneira racional que emocional, como Nolan. Outra coisa muito esperada era o momento do lançamento das bombas em si, que o filme não mostra, o que considero pelo menos ético, mas há toda a repercussão nos jornais, com notícias que demoram a chegar. O que havia também era a expectativa pela cena da explosão da bomba no deserto americano, nos testes em Los Alamos. Outro ponto positivo do filme – talvez o maior – é o quanto ele explora bem o espírito da época, os sombrios anos 1940, tão carregados de medos ocasionados por guerra, bomba atômica, corrida armamentista, espionagem, caça às bruxas etc., que mataram, destruíram e traumatizaram gerações.

No quesito dinheiro, OPPENHEIMER ultrapassou GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 3 e se tornou a terceira maior bilheteria de 2023. Os primeiros lugares seguem pertencendo a BARBIE e SUPER MAIOR BROS. Não creio que o filme de Nolan teria um resultado tão bom se não fosse o “efeito Barbenheimer”.

+ DOIS FILMES

OLDBOY (Oldeuboi)

Algumas coisas me incomodaram nesta revisão de OLDBOY (2003), de Park Chan-woo. Primeiro, usar um clássico de Vivaldi para ilustrar aquelas duas cenas de retiradas de dentes à força me pareceu meio de mau gosto. Também vi como desproporcional o gesto do protagonista no final, embora ache válido querer fazer uma espécie de "atualização" de um certo mito grego. Assim, aproximar o filme de uma tragédia grega é louvável. Sou, talvez, voto vencido quando digo que Park teve uma evolução ao longo dos anos: prefiro seus filmes dos anos 2010 que os da década anterior. Ele foi afinando seu estilo e trabalhando melhor a beleza plástica. Mas é inegável o quanto várias cenas tornaram o filme um clássico e um dos mais importantes do que podemos chamar de era de ouro do cinema sul-coreano. Como minha opinião sobre o filme não mudou muito com relação à primeira vez que o vi, o texto de 2005 ainda segue valendo.

CASEI-ME COM UM MONSTRO (I Married a Monster from Outer Space)

Óbvio herdeiro do maravilhoso VAMPIROS DE ALMAS, de Don Siegel, que também era uma produção B, mas com muito mais ambição. Este aqui é mais modesto até na ambientação: a trama se passa exclusivamente numa pequena cidade do interior, onde um grupo de extraterrestres se apossa do corpo de homens. CASEI-ME COM UM MONSTRO (1958), de Gene Fowler Jr., mostra o ponto de vista de uma das mulheres, que percebe que seu marido não é mais o mesmo e busca ajuda. O que me deixou mais surpreso no filme foi o quanto ele pode ter inspirado as ideias que a Marvel trouxe para a invasão dos skrulls, que guardam os corpos humanos num suporte de vida. Nem sei se outro filme ou outra ficção em literatura teve essa ideia antes, mas se foi esta sci-fi modesta, eu tiro o chapéu. Além do mais, gosto de como o filme chega perto de aprofundar uma relação próxima de apego da mulher com aquele homem modificado e aprendendo com os sentimentos dos seres humanos. Filme visto no box Clássicos Sci-Fi – Anos 50 Vol. 2.

quinta-feira, setembro 14, 2023

CAPITU E O CAPÍTULO



Sou professor de escola pública. Esse é o meu ganha-pão. Se nas redes sociais não me apresento com frequência como professor talvez seja porque eu seja, antes de professor, um cinéfilo, um amante das leituras, seja a literatura, sejam os quadrinhos, e também um amante da música que tem cada vez escutado menos música em casa, e apenas no carro, justamente pela falta de tempo. Veja bem: não reclamo. E adoro o meu ambiente de trabalho, adoro meu grupo de colegas da escola, e também amo as pequenas conquistas educacionais quando consigo tocar meus alunos através da arte (da música, principalmente), aproveitando o fato de minha disciplina ser o inglês.

CAPITU E O CAPÍTULO (2021) funcionou como um lembrete do quanto eu gostaria de estar com mais tempo (e energia) para me dedicar à alta literatura, ainda mais que tenho título de mestre em literatura comparada. E quando falo de tempo para os livros, também falo de tempo para os filmes, para os quadrinhos etc. Para os estudos daquilo que amo, enfim. Sair da sessão do filme do Bressane é sair convicto de que você não entendeu nem um décimo das referências, mas ainda assim adorar tudo aquilo que foi encenado e dito com imagens e palavras. Mais ou menos como ler contos de Jorge Luis Borges. 

Bressane vem, já faz umas décadas, exercitando sua erudição nos filmes. Brinca com ela usando um estilo de cinema que remonta a Godard, com um interesse menor pela trama em comparação com o interesse pelo que quer ser comunicado em linguagem cinematográfica de sofisticação visual, com o compartilhamento de maneira pouco didática da cultura do cineasta nas mais variadas áreas do conhecimento – história, literatura, filosofia, cinema, teatro, pintura, música etc.

Em seu cinema, já passearam nomes como Padre Antônio Vieira, Nietzsche, São Jerônimo, Cleópatra, Fernando Pessoa, Mário Reis, Lamartine Babo, Oswald de Andrade e Machado de Assis, que já foi adaptado em três ocasiões: BRÁS CUBAS (1985), A ERVA DO RATO (2008) e agora em CAPITU E O CAPÍTULO.

A oportunidade de ver um Júlio Bressane no cinema é um presente inenarrável. Em casa, é mais fácil se dispersar com sua obra um pouco mais hermética, principalmente as mais fragmentadas. CAPITU E O CAPÍTULO tem uma sintonia incrível com Dom Casmurro, seu ponto de partida de inspiração. Se não me engano, foi a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas que Machado de Assis trabalhou com capítulos pequenos (e alguns poucos maiores). Aliás, eu diria que essa coisa dos capítulos pequenos desses romances, além de ser um charme, é também uma ótima maneira de fazer com que o leitor passe rapidamente para o próximo capítulo.

É ótimo poder ler Machado em voz alta, como o faz o personagem vivido por Enrique Diaz no filme. Ele é ao mesmo tempo Machado e Casmurro, a versão mais madura de Bentinho, o jovem retratado da narrativa. (Ler em voz um texto bem escrito é tão gostoso quanto saborear uma comida fina e é algo que faço com muito gosto, sempre que consigo tempo, na privacidade de meu quarto.) Quando saí da minha segunda sessão do filme, aliás, falei para um amigo que o veria com muito prazer se fosse inteirinho o Enrique Diaz lendo textos do século XIX. 

O que mais se aproxima de uma história no filme é o conflito clássico entre Bentinho (Wladimir Brichta) e Capitu (Mariana Ximenes). Capitu é uma mulher manipuladora (?), que tem consciência de sua sensualidade atraente, mas que, mesmo assim, quer ter certeza de que é amada (muito divertido o diálogo em que ela pergunta ao marido se ele abandonaria a mãe por ela). Bentinho é um homem inseguro, paranoico (?) e meio bobão e Brichta está ótimo como esse homem meio paspalho e responsável pelos momentos mais engraçados do filme. Mais do que questionar a suposta traição de Capitu e o suposto engano de Bentinho, o filme brinca com seu próprio estilo de encenação, com sua dramaturgia peculiar, com uma direção de arte tão sofisticada e bela que nem parece uma produção modesta. Vale lembrar que Djin Sganzerla é outra atriz que contribui para momentos muito divertidos. Há uma fala sobre a capacidade atlética do marido que tem uma dupla conotação impagável.

Se fosse só por um incentivo cultural, nesses tempos de TikTok e outras redes sociais que consomem nosso tempo com coisas inúteis e que fritam nosso cérebro, Bressane já mereceria nosso mais profundo respeito. Mas não: o filme nos deixa felizes até com as lacunas do que não conhecemos ou não entendemos, e isso se transforma em delicioso mistério e grande cinema. E vejam só: CAPITU E O CAPÍTULO traz o melhor cineasta brasileiro vivo adaptando de maneira muito própria o maior escritor brasileiro de todos os tempos. 

A propósito, o filme me fez comprar uma edição de Dom Casmurro (escolhi a da Penguim). Estou relendo com muito prazer. 

+ DOIS FILMES

O PORTEIRO

Talvez um diretor melhor soubesse aproveitar o texto e os ótimos atores e transformá-lo em algo com um timing mais acertado. Ainda assim, O PORTEIRO (2023), de Paulo Fontenelle, é um filme bem simpático que garante algumas boas risadas, embora seu ritmo irregular atrapalhe em alguns momentos. A história é narrada pelo porteiro do título, o Waldisney (Alexandre Lino), numa delegacia de polícia. Assim, ficamos sabendo da confusão ocorrida durante um dia na vida do protagonista e dos moradores de seu condomínio. É o tipo de comédia popular que mira um público mais simples, e que já parece não ter interesse nas comédias brasileiras. Na verdade, parece não ter interesse (ou dinheiro) em voltar a frequentar as salas de cinema. Espero que a situação se reverta, e que novas e melhores comédias voltem a ser benquistas pela audiência.

CANTANDO NO CHUVEIRO

A proposta é bem interessante e as pessoas que aceitaram fazer parte do projeto são certamente felizes com seus corpos. O curta CANTANDO NO CHUVEIRO (2022), de Fábio Rogério, apresenta uma série de imagens de homens e mulheres cantando nuas no chuveiro – há, inclusive, o crítico de cinema e ator Jean-Claude Bernadet, cuja performance tem um diferencial divertido. Dedicado ao amigo e crítico de cinema Wesley Pereira de Castro, que vez ou outra gosta de testar os limites das redes sociais com fotos suas provocantes (para os padrões dessas redes), é possível pensar que o diretor tenha se inspirado nos arroubos de inteligência e sentimentalidade de Wesley para compor seu filme. Simples e provocativo, imagino o quanto pode ser divertido vê-lo junto a um grande público, em meio a outros curtas.

domingo, setembro 10, 2023

LOBO E CÃO



Na última quinta-feira, dia 7 de setembro, saí com a Giselle e a intenção era vermos a cinebiografia ANGELA, de Hugo Prata, que estaria em cartaz no Centerplex Via Sul, um dos cinemas mais distantes de nossas casas. Ao chegarmos lá, porém, um problema com a cópia (ou algo parecido) impossibilitou a sessão. Ficamos lá nos questionando sobre que outra opção ver. Sugeri A FREIRA 2, no UCI Iguatemi, cinema mais próximo dali, e mesmo ela não curtindo o gênero terror, topou. Considerei um gesto de amor. Inclusive pelo fato de ser um filme que não tinha nada para ser bom. 

Eis que, ao chegarmos lá, a fila estava muito grande para dar tempo de pegar a sessão legendada. Até fiquei um pouco na fila, mas concordamos que era melhor sairmos dali e sugeri irmos ao Cinema do Dragão. MIRANTE teria sessão às 18h40. Seria tranquilo, sem pressa, tomaríamos um café e conversaríamos à vontade. Acontece que errei na leitura da tabela no Instagram e só soube disso ao chegar à bilheteria e a moça dizer que o filme não passaria naquele dia, só no seguinte. Não sei se posso culpar Mercúrio retrógrado, mas, enfim, ficamos mais um pouco e ela ainda topou esperarmos até às 20h para pegarmos a sessão de LOBO E CÃO (2022), de Cláudia Varejão.

Ou seja, passamos num só dia por três espaços diferentes e percebemos o quanto o Cinema do Dragão, e todo o complexo, o Centro Cultural Dragão do Mar, é um ambiente muito mais amigável, democrático, com uma energia toda especial recheada de afeto e sentimentos positivos. Eu e Giselle, na primeira encarnação de nosso namoro, inclusive, na virada do milênio, quando o cinema ainda era um Espaço Unibanco, já tínhamos uma relação de proximidade com aquele espaço. 

E depois de muito papo agradável e de nos presentearmos com a companhia um do outro, fomos ver um filme sobre amor. Um filme de amor, mas também de amadurecimento juvenil. É também uma obra queer, e talvez por isso mesmo seja tão contaminada por esse enfrentamento de obstáculos e essa compreensão maior de que a sociedade precisa ter não apenas tolerância com os diferentes, mas amor mesmo por eles. (Recentemente, inclusive, ao ver o documentário PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS, percebi mais uma vez o quanto as pessoas LGBTQIA+ têm para nos ensinar sobre amor.)

Quanto ao filme, achei que LOBO E CÃO era o primeiro de Cláudia Varejão a aportar por aqui, mas vi que AMA-SAN (2016) também chegou a ser lançado em nossas salas – no Cinema do Dragão, inclusive. A questão é que LOBO E CÃO é o primeiro filme de ficção da cineasta, que antes havia feito apenas documentários, e é muito mais envolvente que o anterior. As cenas "documentais" funcionam de maneira tão orgânica junto à ficção que até me esqueci de notá-las, embora tenha percebido os rostos mais carregados de luta que me lembraram os filmes do Pasolini. O visual obtido com equipamento analógico (que fotografia linda, a de Rui Xavier!) também faz a diferença no que vemos, na beleza de cada quadro. A opção pela janela “clássica” (de 1,33:1) traz tanto charme quanto a necessidade de focarmos mais nos indivíduos, de valorizar os close-ups.

O filme nos apresenta principalmente a duas pessoas que se sentem deslocadas no lugar em que vivem. Ana (Ana Cabral) se descobre lésbica; seu amigo Luís (Ruben Pimenta) procura explicitar sua sexualidade naquela ilha tão tradicional e tão católica. (A propósito, que cena bonita, a de Ana conversando com o padre da igreja sobre os seus quereres.) Está em Ana o melhor do filme, as cenas mais sensíveis, com seu sorriso surgindo ao se ver feliz ao lado de outra moça numa festa, uma amiga que viera do Canadá.

E há algumas canções que chamam a atenção. A deliciosa "Que Venha Depressa a Noite" antecipa um momento especialmente feliz das duas moças. Como o filme estende bastante o momento do beijo, gerando cera tensão, quando ele chega, o contentamento é imenso. Outra coisa que o filme apresenta muito bem são os sentimentos contraditórios que os jovens queer nutrem pela religião católica. O catolicismo é apresentado no filme com essa dualidade: tem a beleza da tradição e da devoção e é também ferramenta de prisão, limitação. O fato de a história se passar numa ilha, a ilha de São Miguel, no arquipélago de Açores, não é gratuito. E os jovens, ao mesmo tempo que se sentem enclausurados, tendo como válvula de escape seus encontros noturnos, procuram fazer o caminho inusitado de integrarem uma procissão. 

E esse talvez seja o caminho que o filme encontra mais próximo de uma inclusão, por mais que o encerramento dessa trajetória dos dois personagens se dê de fato em saírem da ilha e viverem uma nova vida. A diretora, inclusive, ainda nos brinda com outra canção muito simbólica de despedida, a clássica “Porque Te Vás”, performada aqui pelo duo belga Vive la Fête. A canção, eu conheci primeiramente pela gravação do Pato Fu, mas ela aparece também em CRÌA CUERVOS, de Carlos Saura, filme, aliás, que eu me devo ver desde o comecinho de minha cinefilia. Mas isso já é outra história.

+ DOIS FILMES

LUZ NOS TRÓPICOS

Ver LUZ NOS TRÓPICOS (2020) é uma experiência única e se o filme não fosse tão longo e a vida tão curta eu arriscaria vê-lo novamente em busca de novas percepções. Em certos momentos, o filme funcionou muito bem para mim; noutros, nem tanto. Ao ver a beleza das águas e das árvores fiquei pensando no quanto o cinema, além de estar quase sempre adotando um pensamento eurocêntrico, também não se preocupa em mostrar a exuberância da natureza e a riqueza dos povos que contribuem para sua manutenção. Não que essa seja exatamente a função ou o interesse de Paula Gaitán. Na verdade, eu saí da sessão mais com questionamentos (de escolhas e até de "narrativa") do que com o espírito iluminado. Há trechos repetidos sobre a aurora e o crepúsculo que me chamaram a atenção pela ênfase e sei que há um simbolismo importante frente à toda a jornada apresentada nas 4h19min de duração da obra.

EAMI

Desde o início senti dificuldade de me conectar com EAMI (2022), embora tenha admirado com frequência as imagens e o som, que chamam a atenção logo de cara. Fiquei o tempo todo pensando no quanto esse é um tipo de filme que necessita de um dia especial para ser apreciado, já que se trata de cinema-poesia, quando o que mais vemos é cinema-prosa. Desse modo, talvez saber um pouco mais sobre os povos Ayoreo-Totobiegosode e sua luta possa auxiliar na necessária conexão. Filmes sobre lutas de povos indígenas costumam sempre me deixar deprimido. No caso deste trabalho da diretora paraguaia Paz Encina, a opção por um registro mais poético e que exige mais do espectador acabará restringindo sua audiência. Não que isso seja um problema para a obra de arte em si. Apenas o é para seu alcance.

quinta-feira, setembro 07, 2023

INVASÃO SECRETA (Secret Invasion)



O fundo do poço para a Marvel no cinema (e principalmente agora, no Disney Plus) parece não ter fim. Será que isso é só uma impressão do momento que pode estar influenciando a minha percepção do todo? Sim, eu gosto de alguns filmes que a maioria não gosta (THOR – AMOR E TROVÃO; PANTERA NEGRA – WAKANDA PARA SEMPRE) e acho lindo demais o GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 3, mas esse é porque é um projeto mais autoral (de James Gunn) do que dos produtores. Quanto às séries, adorei WANDAVISION e acho uma simpatia GAVIÃO ARQUEIRO. Mas teve série que não consegui nem terminar de ver, como CAVALEIRO DA LUA e WHAT IF…?. Mas já um tempo que se percebe uma insatisfação por parte de muitos. Há até pessoas que estão desistindo de ver religiosamente essas produções, o que já era de esperar, levando em consideração a grande quantidade que começou a ser despejada a partir de 2020.

A Marvel Studios recentemente demitiu um monte de roteiristas e está reavaliando seus planos, uma vez que as coisas não estão saindo como o planejado. Diferentemente dos anos anteriores, por exemplo, 2023 não contou com filmes da Marvel em seu pódio: os mais vistos até agora foram BARBIE e SUPER MARIO BROS., seguido de OPPENHEIMER. GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL. 3 está na quarta posição. O mesmo aconteceu no ano passado: as maiores bilheterias foram para AVATAR – O CAMINHO DA ÁGUA, TOP GUN – MAVERICK e JURASSIC WORLD – DOMÍNIO, com DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA na quarta posição. Isso já pode significar um sinal amarelo para a companhia.

E chegamos à série INVASÃO SECRETA (2023), criada por Kyle Bradstreet (produtor executivo de MR. ROBOT) e com episódios dirigidos por Ali Selim, um cara com experiência em séries de televisão. INVASÃO SECRETA é a série/minissérie mais cara da Marvel, tendo custado inacreditáveis U$ 200 milhões, quando não se vê esse dinheiro todo numa produção de apenas seis episódios de pouco mais de meia hora de duração. Talvez muito do dinheiro tenha ido para os salários de Samuel L. Jackson, Olivia Colman e Emilia Clarke, os nomes mais famosos da minissérie, embora tenhamos gente muito boa como Martin Freeman, Don Cheadle e Ben Mendelsohn. Há também a participação especial de Cobie Smulders.

Todo esse dinheiro foi investido numa obra que não tem boas cenas de ação, não tem um tom ameaçador e de mistério, não diverte, não tem uma história boa e nem preciso dizer que não tem uma boa direção. O que temos são atores muito bons garantindo o pagamento de seus boletos e, quem sabe, uma melhor sorte de participação em possíveis filmes bem-sucedidos da Marvel.

INVASÃO SECRETA é inspirada livremente na saga homônima dos quadrinhos, dos gloriosos tempos em que um inspirado Brian Michael Bendis tornava a leitura de quadrinhos de super-heróis de uma grande companhia um enorme prazer. Para a adaptação televisiva (podemos chamar assim ainda?), a opção dos criadores foi transformar a ideia da invasão skrull numa espécie de narrativa de espionagem cheia de mistério e com ar ameaçador. Inclusive, é bom lembrar que a melhor coisa do filme é a arte dos créditos de abertura, feita com o uso da inteligência artificial, o que só deixa no ar o sentimento de inutilidade de todos os envolvidos na parte criativa do projeto. Há uma bela música nos créditos, que dá certo tom ameaçador, necessário para o que se propunha. Nem acho que fazer uma série de espionagem sem a presença dos supers, aproveitando a ideia original, seja ruim. O que é ruim é sua materialização.

Para não dizer que não falei da trama, temos basicamente Nick Fury (Jackson) retornando para a Terra depois de ter ficado no espaço um bom tempo. Ele fica sabendo de uma invasão clandestina feita por skrulls. Os alienígenas já estavam infiltrados na Terra, como vimos em CAPITÃ MARVEL, com a ajuda de Fury e de uma equipe que mantém tudo em segredo. Mas tudo na santa paz. Acontece que alguns rebeldes liderados por Gravik (Kingsley Ben-Adir) começam a preparar o ataque para tomar conta do planeta, já estando presente em diversos governos mundo afora.

Entre os personagens mais importantes, temos G’iah (Clarke), a filha de um dos skrulls aliados de Fury, chamado Talos (Mendelsohn); Rodhey (Cheadle), que é um skrull infiltrado no governo americano, e Sonya Falsworth (Colman), uma mulher da inteligência secreta que auxilia Fury nos momentos mais delicados.

Uma das coisas que mais se falou foi da situação envolvendo o DNA dos Vingadores, que Fury teria guardado num lugar super-secreto. Esse DNA, chamado de “colheita” é a menina dos olhos do líder Gravik. Mas o que pega mesmo é ver Fury de posse de um conteúdo tão perigoso.

Vendo assim, até parece que a série é interessante, mas é incrível como o roteiro e a direção põem tudo a perder. Então, até os nerds mais fãs da Marvel, os que gostam de ver Easter eggs ou coisas relativas aos quadrinhos, como o Super-Skrull, vão ficar um tanto tristes com tanta incapacidade de fazer algo minimamente interessante com um conteúdo desses. Seria uma tristeza, se não desse tanta raiva, já que nosso tempo é ouro.

+ DOIS FILMES

PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS

O que mais gostei em PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS (2020), de Eliane Caffé, Beto Amaral e Carla Caffé, foi o quanto, sem ter que apresentar os personagens e seus nomes e suas histórias de vida, o filme consegue nos fazer amá-los muito rapidamente. São pessoas que atuam numa performance muito interessante numa região decadente e cheia de moradores de rua, no centro de São Paulo. O que me chamou a atenção foi o quanto querer incluir os indígenas no grupo dos rejeitados pela sociedade branca burguesa soou um pouco forçado. Talvez não por causa do grupo, mas talvez porque os indígenas parecem ter mais dificuldade de encontrar uma voz e um futuro neste país que já dizimou e dizima tantos. Além do mais, não faziam parte do grupo deles, pelo que entendi. O que mais se destaca mesmo é o quanto o filme funciona como uma espécie de aula sobre sexualidade sobre pessoas LGBTQIA+, esclarecendo certas dúvidas. Minha cena favorita é quando os atores entram numa roda de "discussão" de pastores evangélicos (fazendo contraponto a dois pastores mais tradicionais estava o pastor e atual deputado federal Henrique Vieira). Um filme cheio de amor.

CORPOLÍTICA

O filme que abriu o For Rainbow no ano passado foi um documentário de formato bem convencional, mas que tem um forte apelo, ainda mais por ter sido lançado num ano em que estava ainda enfrentando o desgoverno de Jair Bolsonaro, que comparece em algumas cenas em imagens de arquivo, principalmente quando agia como deputado federal, inclusive quando já trazia algumas fake news. Mas os grandes protagonistas de CORPOLÍTICA (2022), de Pedro Henrique França, são mesmo os candidatos a vereadores ou deputados, durante suas campanhas no ano duro de 2020. As mais conhecidas são Mônica Benício e Erika Hilton, mas achei muito interessante uma candidata que não foi eleita, Andréa Bak. William De Lucca também é um dos protagonistas, mas achei o menos interessante dos quatro principais. A grande questão que o filme levanta é a necessidade e a importância de haver pessoas LGBTQI+ dentro do legislativo, para ajudar a mudar as coisas através de leis. O problema que eu vejo no filme é que a narrativa vai perdendo fôlego no final, e senti que alguns personagens vão se repetindo. Eu diria que uma duração uns 10 minutos menor não faria mal para ajustar o ritmo. De todo modo, considero este um filme que muita gente deveria ver. Inclusive pessoas que ainda não se livraram do preconceito de gênero.

domingo, setembro 03, 2023

DÁLIA NEGRA (The Black Dhalia)



“I see the family as a structure that brings about the manipulation and destruction of the individual.”
Brian De Palma


A frase acima, dita em longa entrevista do cineasta para o livro de Samuel Blumenfeld e Laurent Vachaud, deixa claro, mais uma vez, o quanto a imagem que ele guarda da instituição familiar é de mais danos do que de aspectos positivos. É uma visão extremamente pessimista e amarga, mas não é novidade para quem acompanha a obra de De Palma e sabe da relação de proximidade de seus personagens e sua biografia.  E quando o cineasta parecia estar disposto a deixar para trás todos os seus traumas num filme como MISSÃO: MARTE (2000), tudo volta, de maneira ainda pior, com DÁLIA NEGRA (2006), seu filme noir sangrento e bastante sombrio que envereda pelos medos e pelas inseguranças mais profundas do ser humano.

O problema é que o filme é uma de suas obras mais difíceis. Não por causa dessas questões mais pesadas e autobiográficas, mas por apresentar um diretor que parecia um pouco perdido e talvez menos inspirado. Porém, estudar e acompanhar com atenção a poética de seu cinema tem me ajudado a gostar (ou quase) até de seus (supostos) tropeços. DÁLIA NEGRA é um noir confuso (de certa forma normal para o subgênero, mas que podia trazer um encanto maior através das imagens), com um problema às vezes de escolha de elenco (não consigo entender escalarem Hilary Swank para viver uma femme fatale, sem falar que dizer que ela é a cara da falecida Elizabeth, vivida por Mia Kirshner, é difícil de engolir).

Mesmo Josh Hartnett, o protagonista, parece um herói com pouca força, com aquela cara de menino. Porém, dentro das obsessões do diretor é fácil entender a oposição tanto moral quanto visual entre os personagens de Hartnett e Aaron Eckhart (aqui, com uma cara de psicopata assustadora). Toda essa questão entre irmãos tão frequente na obra de De Palma, volta com força aqui. A cena de boxe do início, em que o personagem de Hartnett perde os dentes numa luta com Eckhart, a considero de extrema crueldade, até por ser vista com olhares de risos e escárnio, inclusive pela personagem de Scarlett Johansson, que mais tarde se mostrará apaixonada pelo herói vivido por Hartnett.

Por outro lado, foi um acerto monstruoso ter Fiona Shaw como uma milionária meio maluca e suicida (inspirada na mãe do próprio De Palma). Aliás, toda aquela família da personagem de Swank é uma “homenagem” à família do cineasta. Também é bom ver as interseções entre o filme e outras obras do diretor, como DUBLÊ DE CORPO (1984), OS INTOCÁVEIS (1987), OLHOS DE SERPENTE (1998), entre outros. Há também toda uma relação com o filme clássico hollywoodiano dos anos 1940, numa intenção de homenageá-lo, mas à maneira do diretor, com aquele jeito meio torto, estranho e bonito. Infelizmente é um filme que poderia ser uma obra-prima, se realizado na fase de maior inspiração de De Palma, mas que no novo milênio se provou menor. Ainda assim, há momentos surpreendentes que geram aflição, estupefação e dor. Para o cineasta, o fracasso comercial de DÁLIA NEGRA foi mais um golpe. O filme custou 50 milhões de dólares e não conseguiu se pagar.

Tem sido muito bom ler os capítulos dedicados aos filmes do cineasta no livro Brian De Palma’s Split Screen, de Douglas Keesey, logo após ver ou rever cada um deles. É quando aprendemos mais sobre as circunstâncias da realização das obras. Fiquei sabendo, por exemplo, que o filme foi feito um ano após a morte do pai do realizador, aos 100 anos de idade. Há uma cena em DÁLIA NEGRA em que Bucky (Hartnett) vê seu pai senil atirando e matando um monte de pombos. O pai de De Palma, antes de morrer, provavelmente havia se transformado numa figura muito frágil, mas que ainda era capaz de machucar, pelos traumas que deixou no cineasta.

A relação de excessiva competitividade entre Bucky e Lee (Eckhart) se apresenta de maneira mais brutal na cena da luta de boxe, mas de maneira também incômoda no triângulo amoroso que se forma com Kay (Scarlett Johansson), mulher de Lee, e portanto, alguém que é vista como proibida para Bucky, apesar da atração sexual intensa que ele sente por ela. Esse desejo por Kay, Bucky optou por satisfazer com outra mulher, menos idealizado, a Madeleine, de Hilary Swank, que mais tarde seria morta pelo próprio Bucky, numa espécie de descida aos infernos do personagem que até então representava um herói puro. O moralismo de Bucky, aliás, fica evidente quando ele deixa a casa de Madeleine com muita raiva, logo após ela contar o fato de ela ter feito sexo com outra mulher.

No livro, o capítulo sobre DÁLIA NEGRA também fala de outra relação de competitividade: a de Brian De Palma com Martin Scorsese. De Palma se vê como “o outro cara”, enquanto Scorsese é geralmente encarado por muitos como o maior cineasta americano vivo. Enquanto Scorsese quase sempre ganha boas críticas e repercussão, De Palma tem que encarar críticas negativas e bilheterias quase sempre baixas. De Palma também cita a competição dos diretores até mesmo em temáticas e tempo de planos-sequências. E até mesmo na escolha de um ator para seu filme. Mark Wahlberg era o ator que De Palma queria para viver Lee, mas Scorsese o escalou para OS INFILTRADOS. Embora De Palma tenha feito dois filmes com cenas de boxe, foi Scorsese quem fez uma obra definitiva, TOURO INDOMÁVEL. Sobre os planos-sequência, De Palma ultrapassou o tempo de TOURO INDOMÁVEL com OS INTOCÁVEIS, mas Scorsese bateu o recorde dele com OS BONS COMPANHEIROS, o que fez com De Palma respondesse com A FOGUEIRA DAS VAIDADES (1990) e OLHOS DE SERPENTE.

Acredito que ler o romance de James Ellroy pode ajudar a tornar a trama um pouco mais compreensível. Refiro-me ao quebra-cabeças envolvendo quem matou quem, quem ajudou a matar, as motivações, os detalhes etc. É como se De Palma não conseguisse dar conta de tanta coisa. Ou talvez não quisesse tornar seu filme um pouco mais fácil de compreender. Ou talvez algumas cenas tenham ficado na sala de montagem. Não sei dizer. Mas, por mais que eu não tenha sentido muito prazer vendo DÁLIA NEGRA (o que geralmente ocorre vendo os filmes do realizador), esta talvez seja a obra mais importante que ele fez no século XXI.

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PASSAGENS (Passages)

O cineasta americano Ira Sachs está cada vez mais olhando para o mercado fora dos Estados Unidos, depois de ganhar as graças da crítica a partir de DEIXE A LUZ ACESA (2012) e abordar de diferentes maneiras as relações homoafetivas. Este PASSAGENS (2023) é um de seus filmes mais internacionais, com um trio de atores de diferentes países: Franz Rogowski (Alemanha), Ben Whishaw (Inglaterra) e Adèle Exarchopoulos (França). O que me incomoda no filme desde o começo é a própria presença do personagem de Rogowski. E nem é por seu egoísmo, mas talvez por ser difícil comprá-lo como par romântico de Exarchopoulos. Além do mais, falta química entre os dois e a personagem feminina está quase sempre na posição de obstáculo surgido na relação entre os dois homens. Ainda assim, o filme foi me ganhando em seu terceiro ato, quando torna mais complexa a dificuldade que o protagonista encontra de lidar com seus dois amores, por assim dizer. Minhas cenas favoritas são justamente as três últimas, dos três últimos diálogos. Ira Sachs é um diretor a se prestar atenção sempre.

RHEINGOLD – O ROUBO DO SUCESSO (Rheingold)

Fatih Akin havia me chamado a atenção com seu suspense brutal e sujo O BAR LUVA DOURADA (2019) e aqui ele até parece brincar mais uma vez com o uso da violência de maneira muito interessante, mas, quando começa a ficar tudo muito parecido com os filmes de Guy Ritchie, este novo trabalho chega a incomodar, além de se estender além do necessário. O que achei mais interessante em RHEINGOLD – O ROUBO DO SUCESSO (2022) foi ver as histórias de sobrevivência do protagonista antes de se tornar rapper e também de seus pais, que enfrentaram regimes totalitários e teocráticos que os levaram à tortura. Memorável a cena da mãe de Xatar dando à luz numa caverna cheia de morcegos, por exemplo. Akin parece perder o interesse por seu próprio filme quando resolve fazer uma biopic bem tradicional de alguém que se torna um músico de sucesso. Depois disso, tudo de bom que havia visto então (adoro as cenas de vingança de Xatar a seus algozes nas ruas) acaba ficando quase esquecido.

quinta-feira, agosto 24, 2023

BESOURO AZUL (Blue Beetle)



Na Marvel há um super-herói muito interessante, o Homem-Aranha 2099, que é latino e cujas histórias preveem que o futuro será dominado culturalmente pela cultura hispânica, e não pela cultura de língua inglesa, como é atualmente. Como o mundo passa por transformações às vezes inacreditáveis, não podemos descartar essa possibilidade. Enquanto isso, porém, o que temos são migalhas da cultura latino-americana expressadas em produções mainstream. E uma dessas migalhas estreou na semana passada nos cinemas de todo o mundo, BESOURO AZUL (2023), uma produção dirigida, roteirizada e estrelada por artistas latinos, incluindo a nossa Bruna Marquezine, ótima representante do Brasil no filme.

A simpatia de BESOURO AZUL é nítida desde o início, quando somos apresentados à família de Jaime Reyes (Xolo Maridueña), um rapaz recém-graduado que retorna à Palmera City de sua amada família. A família de Jaime está passando por situações difíceis: problemas financeiros e um quadro de saúde delicado do pai do rapaz, que teve um infarto sem que fosse noticiado ao filho. O filme agrada ao mostrar essa relação de amor dessa família vivendo numa casa simples, mas esbanjando bom humor. Destaco a irmã Milagro (Belissa Escobedo), o tio inventor Rudy (George Lopez) e a avó anti-imperialista Nana (Adriana Barraza). Os latinos de Palmera City vivem sendo empurrados cada vez mais para áreas mais distantes e periféricas, por causa do domínio de uma família milionária, os Kords, que agora são controlados pela malvada Melissa Kord (Susan Sarandon), irmã do Besouro Azul original Ted Kord.

Ter um vilão é essencial para que uma história clássica de luta entre o bem e o mal caminhe e, por isso, quando eles são fracos, muito do filme sai um tanto prejudicado. E é o caso de BESOURO AZUL, que se transforma numa obra bem genérica quando pensamos no enredo, na construção dos vilões e até nas lutas. Nesse sentido, é um filme que causa um tanto de preguiça para quem está acostumado a ver tanta aventura de super-herói pipocando há mais de duas décadas. Então, o que salva esta nova aventura são os personagens, inclusive a Jenny Kord de Bruna Marquezine, que surpreendeu a muitos com sua importância na trama e sua sintonia com os personagens.

Jenny não é apenas o interesse amoroso do protagonista, mas responsável direta pela evolução da narrativa, a partir do momento que rouba o artefato do besouro. Soube que a jovem atriz disse num podcast recente que é muito mais divertida em português, em sua língua original, o que é totalmente compreensível. No filme, ela tem uma única fala em português, enquanto a família Reyes fica em vantagem, não apenas falando espanhol com frequência, como também ao fazerem referência, com muito bom humor, a fenômenos populares do México, como Chapolim Colorado e Maria do Bairro.

Ao contrário do que muitos pensam (eu mesmo não lembrava desse herói, embora tivesse lido algumas aventuras da Liga da Justiça Internacional tempos atrás), Besouro Azul é um personagem bem antigo. Ou pelo menos sua primeira versão, de 1939, é. Recentemente, inclusive, estive lendo um dos ótimos trabalhos do roteirista de quadrinhos Tom King, O Alvo Humano, e o Besouro Azul comparece na história. Não o Jaime Reyes, mas o Ted Kord. Aliás, trazer à tona a lembrança do texto brilhante de King só enfatiza a percepção do quanto os filmes da DC (e da Marvel), em geral, estão carentes de um roteiro de excelência. Mas podia ser pior para o filme do diretor Ángel Manuel Soto: o fato de ele estar quase independente do “snyderverso” pode ser positivo para uma eventual sobrevida do personagem no cinema.

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CASA VAZIA

Eis um filme que poderia ter rendido muito, especialmente por causa de seu potencial para trazer não apenas tensão, mas também mistério, nas várias cenas noturnas. A trama poderia muito bem ser transposta para um cenário urbano e render tanto um filme de espionagem quanto um policial. Poderia muito bem ser um faroeste noir também. Em CASA VAZIA (2021), de Giovani Borba, acompanhamos um homem de meia idade com o rosto marcado pelo tempo e pela vida dura, sem emprego e vivendo de bicos perigosos, numa área rural do Rio Grande do Sul. A mulher e os filhos foram embora, desistiram dele, e a vida acaba lhe trazendo a possibilidade de fazer jogo duplo, tanto com os ladrões de gado quanto com os vigias da propriedade. A fotografia de Ivo Lopes Araújo é um dos destaques, inclusive nas cenas noturnas, mas também com o belo uso das cores nas cenas diurnas. Pena que o filme parece ficar à deriva em sua conclusão, quando até mesmo cenas que poderiam impactar carecem de força.

À BEIRA DO MACHADO (Al Filo del Hacha / Edge of the Axe)

Na entrevista que vem nos extras do DVD que contém À BEIRA DO MACHADO (1988), um dos atores conta que todas as cenas foram filmadas na Espanha. No entanto, consta no IMDB que parte das filmagens se deu no interior da Califórnia. Talvez apenas algumas filmagens de paisagens, então. O ator também diz que só teve a oportunidade de ver o filme numa edição em VHS, um provável sinal de que não chegou a ser lançado nos cinemas americanos. O gênero slasher, àquela altura, já estava passando por um sinal de cansaço e o mercado de home video estava em ascensão. O catalão José Ramón Larraz, do ótimo SINTOMAS (1974), rodou visando o mercado internacional (isso explica a grande maioria de atores americanos de terceiro escalão) este slasher simpático com um assassino de visual interessante que usa um machado para dar cabo de suas vítimas numa cidadezinha pacata dos Estados Unidos. O próprio diretor não considera este um de seus melhores trabalhos, mas há muitas coisas interessantes e diferentes para o gênero, como a questão do trauma de uma das personagens sendo mostrado só após uma hora da narrativa. Além do mais, é divertido ver os personagens trocando mensagens em seus computadores pessoais, e um diálogo sobre o quanto essa prática estaria prejudicando a vida deles - eles não viram nada. No mais, as cenas de matança são elegantes e têm uma beleza plástica própria. Só não dá para engolir o desfecho, mas isso faz parte da graça. Visto no box Slashers IX.

quarta-feira, agosto 23, 2023

RETRATOS FANTASMAS



Lembro que meu primeiro contato com o cinema de Kleber Mendonça Filho foi com seus curtas-metragens, naquelas sessões das 18h que a Petrobrás patrocinava em várias salas de cinema do país. Foi numa dessas salas que vi pela primeira vez VINIL VERDE (2004) e NOITE DE SEXTA, MANHÃ DE SÁBADO (2007). E durante vários anos ficava me perguntando: já que KMF é tão bom, por que não lança logo um longa-metragem? Demorou, mas depois do pouco visto documentário O CRÍTICO (2008) o cineasta começou sua carreira com longas de ficção de forma gloriosa com O SOM AO REDOR (2012), que eu tive a honra de ver em primeira mão no Festival de Gramado. De lá para cá, e com a repercussão em festivais internacionais e com a crítica estrangeira, os filmes do realizador têm se tornado um acontecimento. Seu longa de ficção anterior, aliás, BACURAU (2019), foi mais que isso, já que representou um gesto de resistência para a ala mais progressista da sociedade brasileira, então vivendo sob um governo de extrema direita.

Até achei que voltar ao documentário, que exige menos contato com atores e técnicos que a ficção, tenha se dado por causa da pandemia, mas depois soube que RETRATOS FANTASMAS (2023) é um projeto desenvolvido ao longo de anos. O resultado foi esta obra bem intimista, e é muito provavelmente seu filme mais pessoal. Tão pessoal que o próprio Kleber surge como personagem (interpretando a si mesmo em determinado momento) e principalmente como narrador de sua própria história, mais especificamente, da história de sua casa na infância (com a forte e afetuosa presença da mãe até certo momento), e de sua relação de amor e proximidade com as salas de exibição do Recife, salas que ele viu fecharem ao longo do processo de decadência dos centros das grandes cidades e do crescimento do número de multiplexes nos shopping centers.

É bom perceber que Kleber Mendonça Filho chegou num momento de sua carreira em que pode se dar ao luxo de fazer o que quiser que terá no mínimo um bom resultado – pelo menos, é essa a impressão que tenho. Aliás, não é luxo: é talento mesmo, já que saber o que quer com a câmera, saber como dispor cenas já existentes com outras novas, saber fazer uma obra que flui como um diário pessoal, tudo isso é fruto de talento e também de labor. No caso de RETRATOS FANTASMAS, por ser um documentário/ensaio em que a montagem é crucial para o resultado, muito do mérito se deve ao montador Matheus Farias, o mesmo de PROPRIEDADE, filme excelente que está demorando a estrear comercialmente.

A primeira parte do filme é incrível. Ela é dedicada à casa, e todo o jogo envolvendo as imagens atuais com cenas de seus próprios filmes em que o lugar foi usado como cenário é muito saboroso. O cachorro que não parava de latir, a proliferação de gatos na vizinhança, o abandono da casa vizinha que depois seria tomada por cupins, a questão da falta de segurança e a transformação das residências em bunkers, a visita de Maeve Jinkins, toda a brincadeira com a trilha sonora relacionada a filmes de terror tão caros ao cineasta; enfim, todas essas coisas trazem muita graça e uma maior aproximação do cineasta com a audiência.

Quem acompanha Kleber Mendonça Filho pelas redes há um par de décadas vai lembrar que ele foi um dos críticos cinematográficos de destaque no auge dos sites e blogs de cinema, e que foi cada vez mais levando seu amor para a realização de filmes, e até para a gestão de uma das mais importantes salas de exibição do Recife. Mas quem não acompanhou, certamente vai gostar de descobrir um pouco mais do diretor na narrativa em primeira pessoa deste seu novo trabalho.

Ver RETRATOS FANTASMAS é também identificar-se com várias cenas, como o despedir-se de cinemas de rua queridos, conversar com projecionistas, ter uma relação de afeto com o centro da cidade, ter saudade dos pôsteres e das fotos de divulgação nas paredes como elementos de introdução inicial aos filmes num mundo mais analógico. E como é incrível o jogo que ele faz entre O SOM AO REDOR (e outros filmes) e imagens do passado e do presente, na casa onde habitou. O aspecto de filme-ensaio faz lembrar o cinema de Jean-Luc Godard e Chris Marker, com a liberdade de fazer colagens que têm uma relação mais afetiva do que intelectual. 

Não dá para reclamar muito de lançamentos do cinema brasileiro nas telonas neste 2023. Com filmes novos de Kleber Mendonça Filho e Júlio Bressane em cartaz – e até com um inédito de José Mojica Marins, vejam só! –, estamos muito bem, obrigado. Além do mais, em breve teremos o novo filme de Paula Gaitán em nossa cidade. Isso só para citar diretores já há bastante tempo celebrados.

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MÔA, RAIZ AFRO MÃE

Infelizmente a primeira vez que ouvi o nome de mestre Môa do Katendê foi na notícia de seu assassinato, a facadas, por um bolsonarista, no fervor do primeiro turno das eleições de 2018. Ter um documentário que nos apresente, até que de maneira didática, à sua história e à sua importância na cultura e no carnaval baianos é homenageá-lo, é fazer com que as pessoas que não são baianas, nem familiarizadas com os blocos de Salvador, saibam o que foi e o que representou o Badauê, nome que se tornou nacionalmente famoso graças a Caetano Veloso, que cantou uma das composições de Môa no álbum Cinema Transcendental. Ver MÔA, RAIZ AFRO MÃE (2022), de Gustavo McNair, é também saber um pouco mais sobre o afoxé, o candomblé de rua, e entender um pouco mais as ligações entre religião, música, filosofia e dança promovidas pelos afoxés. E no caso de Môa havia também a capoeira. Como documentário, achei o trabalho de McNair até um pouco cansativo, provavelmente precisando de uma melhor montagem. Mas o filme é um convite ao brasileiro a pensar sua cultura.

MÁQUINA DO DESEJO

José Celso Martinez Corrêa foi um homem que sempre apareceu pra mim como uma figura interessante, mas não o suficiente para que eu procurasse me aproximar e saber mais sobre seu trabalho, até por causa de meu distanciamento com o teatro. Por isso, por essa ignorância de minha parte, fiquei muito impressionado com a festa imensa que foi sua despedida, recentemente. MÁQUINA DO DESEJO (2021), de Joaquim Castro e Lucas Weglinski, me ajudou a apresentar ao dramaturgo e ao Teatro Oficina. O filme começa sua história lá nos anos 1960, pouco antes do Golpe de 64, e segue apresentando sua luta e sua resistência ao longo dos anos, mesmo depois de ter sofrido tortura no pau-de-arara. Há o duelo de Davi e Golias que foi a disputa pelo espaço contra Sílvio Santos, e termina com imagens de uma peça que parece saída dos domínios do deus Dionísio. Essencial para compreendermos pelo menos um pouco de seu teatro revolucionário e cheio de tesão.

quinta-feira, agosto 17, 2023

AS DUAS FACES DA FELICIDADE (Le Bonheur)



Que tenho ainda metade de uma vida inteira para conhecer obras-primas de me deixar sem chão, disso eu não tenho dúvida. O que acontece é que nem sempre acho justo chegar até elas com o corpo cansado, com a mente cansada ou com preocupações que possam atrapalhar a minha relação com a obra. Nesse sentido, acabo optando por obras menores, ou pelo menos que acredito serem menores, e deixando as obras-primas para outro dia. Mas eis que neste último feriado, aproveitei a tarde livre para escolher AS DUAS FACES DA FELICIDADE (1965) como sessão para o dia. Não que eu duvidasse da grandeza desse filme de Agnès Varda, pois adoro o longa de estreia CLÉO DAS 5 ÀS 7 (1962) e a ode feminista pró-aborto UMA CANTA, A OUTRA NÃO (1977), mas esses dois filmes não me prepararam para esse drama sobre infidelidade, tão delicado quanto cruel. Aliás, “delicado” e “cruel” são dois adjetivos que podem ser aplicados ao imaginário masculino sobre a mulher, presente em canções, filmes, poemas e romances. Saber que o filme é dirigido por uma mulher talvez ajude a compreender um pouco sua força e seu impacto.

Diferente de tantos outros filmes sobre adultério, que lidam com o assunto como se fosse como um crime, já que temos uma questão moral envolvida, AS DUAS FACES DA FELICIDADE não torna o personagem masculino exatamente perverso ou cruel com sua esposa. Talvez ele seja egoísta ou ingênuo, ou as duas coisas, e talvez, ao final do filme, crie-se, em alguns espectadores, uma imagem ruim dele. A crueldade está no modo como a vida de uma mulher é interrompida e como sua presença é substituída tão rapidamente. Isso gera um mal-estar no espectador, embora não seja um mal-estar que esteja em sintonia com o protagonista, que parece passar pela experiência do luto de maneira um pouco mais tranquila.

Mas acho que estou passando o carro na frente dos bois, e já metendo um monte de spoilers, sem sequer ter comentado sobre o que trata deste clássico de Varda. E nem adianta eu avisar para o leitor não ler o texto, pois agora é tarde: o estrago está feito. Se bem que a trama, embora muito importante, não é o ponto mais importante do filme. Na verdade, todo o cuidado com a forma tira de AS DUAS FACES DA FELICIDADE qualquer traço de vulgaridade. Trata-se, desde o começo, de uma obra que adota um tipo de decupagem tão ousada quanto a que Jean-Luc Godard usou em ACOSSADO, por exemplo, mas aqui os cortes têm uma função narrativa evidente no modo como os personagens estão passando por certas situações. O melhor exemplo aparece no momento do primeiro encontro de natureza sexual entre o protagonista e a amante. O campo/contracampo é mostrado de maneira tão rápida que parece simular a pressa ou o nervosismo dos dois (ou do espectador), assim como as rápidas imagens das mobílias da casa, antes dos dois irem para a cama.

Uma das coisas mais bonitas nos filmes franceses é o modo como os personagens geralmente costumam falar do amor como se estivessem racionalizando seus sentimentos, ou como se estivessem num divã, se despindo de muitas travas ou daquilo que se costuma esconder, ou talvez como se não estivessem se desvencilhado do romantismo de séculos passados com o avanço da modernidade, sem, no entanto, deixarem de ser um exemplo de modernidade. Talvez eu esteja generalizando demais, e acho que estou mesmo, mas o que digo vale para muitos filmes dessa cinematografia, e vale também para este filme de Varda, especialmente nos momentos em que os personagens do triângulo amoroso conversam sobre seus sentimentos em relação ao parceiro, muitas vezes tornando claro o sentimento de ciúme, mas querendo se livrar dele, de uma forma ou de outra.

A felicidade do título, embora mais tarde possa ser vista como algo também cruelmente irônico, se refere principalmente à felicidade de François, o protagonista, que se encontra num estado de exaltação espiritual ao estar amando duas mulheres: sua esposa e outra mulher que ele conhece no posto dos correios. “Minha esposa é uma planta em crescimento, você é um animal enjaulado. Há felicidade o suficiente em mim para ambas”, diz ele em determinado momento. Sua felicidade transbordante traz repercussões inesperadas e o filme tem um visual tão lindamente belo, colorido e enfatizando o esplendor da natureza, que tudo isso contribui para essa sensação um tanto contraditória e incômoda. Fiquei na dúvida se Varda quis criticar os atos de François, criticar a sociedade monogâmica (acho que não) ou se mostrou algo tão natural quanto a própria natureza em flor, no que ela tem de gentil e violenta. E as flores, tão presentes desde o começo, e inspiradas no tom impressionista da obra-prima UM DIA NO CAMPO, de Jean Renoir, parecem ganhar outra conotação, mais sombria, inclusive, de um funeral.

Se as cenas de François com Émillie transmitem uma espécie de contradição, envolvendo algo que parece muito errado, mas também muito libertador, a derradeira cena de conversa entre François e Thérèse no bosque e sua explosão de sentimentos é tão dolorosa, mesmo sendo mostrada de maneira tão delicada, que, sinceramente, não consigo encontrar paralelo em filme algum. E, assim, quando achamos que não encontraremos outra obra cinematográfica que nos arrebate a ponto de nos fazer pensar nela por dias e dias, surge um filme como este para nos dizer o contrário.

Vi o filme na MUBI, em imagem linda e cristalina, mas fiz questão de ver o debate de 15 minutos presente como extra no box em DVD Agnès Varda, lançado em digipack pela Obras-Primas do Cinema, e que ajuda a trazer luz, mais amor e mais admiração pelo filme.

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O CRIME É MEU (Mon Crime)

Gosto de François Ozon e admiro o quanto o diretor, muitas vezes, consegue entregar obras lindas, fazendo tantos filmes em curto espaço de tempo. Infelizmente, no meio dos bons e ótimos, há esses feitos sem inspiração e bem a cara da pior perfumaria que o cinema francês produz, por mais que haja um interessante senso de humor e um roteiro que brinca com o sucesso de um assassinato cometido por uma atriz de quinto escalão (Nadia Tereszkiewicz). Com a ajuda da melhor amiga e advogada (a ótima Rebecca Marder, de A GAROTA RADIANTE), ela enfrenta os tribunais de um tempo em que a mulher não votava (anos 1930) e os júris eram todos constituídos por homens. O que mais gosto em O CRIME É MEU (2023) são as performances de Marder e de Fabrice Luchini - até Isabelle Huppert está canastrona. Acho que é um filme para ver totalmente descompromissado e, caso se esteja com muito bom humor, pode divertir.

UMA VIDA SEM ELE (About Joan / À Propos de Joan)

O que me deixou sempre interessado e intrigado com UMA VIDA SEM ELE (2022, o título brasileiro é menos equivocado do que eu imaginei) foi o modo como o filme tratou a memória da protagonista Joan, na vida adulta vivida por Isabelle Huppert. O filme acompanha essa mulher, reencontrando um amor do passado, quando viveu na Irlanda, para em seguida, através de elipses, chegarmos a outros momentos de sua vida, principalmente a relação de afeto com o filho único. Os fragmentos de memórias de Joan coincidem com os fragmentos de anotações que o filho mostra para ela, de diários de diferentes épocas de sua vida, e com a carta da mãe de Joan, que deixa claro que sua própria carta é composta possivelmente por mentiras ou desejos. O filme se beneficia também da presença do alemão Lars Eidinger (que se destacou na minissérie IRMA VEP), no papel de um dos amores de Joan e um quase alívio cômico em alguns momentos.

domingo, agosto 13, 2023

OS COMPANHEIROS (I Compagni)



Quando percebo que estou dedicando a maioria dos meus textos principais a filmes falados em inglês, eu sei que é necessário trazer (e ver) também títulos de outras nacionalidades. Há tantos, e tão pouco tempo para vê-los e pensar sobre eles.. Claro que o mesmo pode ser dito sobre o cinema americano, seja o da velha ou da nova Hollywood, mas, como não sou um especialista, e quero abraçar tudo, mesmo sabendo que não conseguirei nunca, faço o possível para ir conhecendo diferentes cinematografias e diferentes obras de grandes (ou nem tão grandes) cineastas. Os livros que a Versátil tem produzido, com diferentes recortes e várias críticas que destacam filmes importantes de autores e de diferentes gêneros, tem sido uma espécie de farol para mim. E por causa deste livro e dos lançamentos em DVD que estou acompanhando, tenho tido a chance de diminuir um pouco minha ignorância sobre certas obras essenciais.

Tenho uma lacuna imensa, por exemplo, com o cinema de Mario Monicelli. Peguei para ver do box O Cinema de Mario Monicelli este OS COMPANHEIROS (1963), que foi o escolhido pela Versátil para integrar os ensaios presentes no livro O Cinema de... (O texto, aliás, é de José Geraldo Couto, um dos críticos que mais contribuiu para minha primeira formação cinéfila, na melhor fase da revista SET). Ou seja, OS COMPANHEIROS foi destacado como uma das principais obras do realizador, talvez seu melhor trabalho.

O filme já me conquistou de imediato com o modo humano com que lida com seus vários personagens. Neste filme-coral que ganha uma espécie de protagonista lá pela meia hora de duração (Marcello Mastroianni), somos apresentados à realidade dura de trabalhadores de uma indústria têxtil na virada para o XX, na cidade de Turim. Logo numa das primeiras cenas, um dos trabalhadores perde a mão num acidente de trabalho. A partir de então, seus companheiros procuram pensar em estratégias para chamar a atenção dos patrões. Afinal, trabalhar 14 horas por dia e ainda se alimentar mal é como pedir para que um acidente como esses aconteça com mais frequência.

Há cenas antológicas, como quando os trabalhadores tentam segurar os desempregados vindos de outra cidade para trabalhar na fábrica, e com isso estragar a greve, ou o discurso final do professor vivido por Mastroianni para incentivar a continuidade da luta. Para nós, brasileiros, é fácil nos identificarmos com OS COMPANHEIROS, e nos lembrarmos da obra-prima ELES NÃO USAM BLACK-TIE, de Leon Hirszman. Monicelli, que ficaria mais famoso por suas comédias, aqui traz também doses de humor na apresentação carinhosa de seus personagens simples, sofridos e às vezes amargos, como é o caso da prostituta vivida por Annie Girardot. E tudo isso com um cuidado imenso com a mise-en-scène, com fotografia e direção de arte magníficas.

É também um filme que nos faz lembrar da fome como elemento primordial de dominação dos empresários para manipular a mão de obra barata. Um dia desses, ao sair de uma sessão de terapia, estive pensando no quanto as canções destacam tanto o amor (ou a perda de um amor), enquanto muito pouco se fala sobre a angústia diante de dificuldades financeiras, como se essa preocupação fosse menos nobre. Já o cinema, principalmente o italiano, abraça esse tema sem medo e com resultados muitas vezes arrebatadores.

Inclusive, quando comecei a ver OS COMPANHEIROS, até pensei que aquela sociedade era contemporânea (anos 1960) ou do pós-guerra, já que nesse período houve muita miséria, já muito explorada nos filmes do Neorrealismo. Mas saber que se passa no final do século XIX ajuda também a trazer o filme para o humanismo e talvez menos para os governos socialistas de países como União Soviética ou Cuba. É um filme de esquerda que deve ter trazido muito mais gente à causa operária do que os textos dos filósofos socialistas mais clássicos.

Quanto a Marcello Mastroianni, é impressionante constatar que ele era, naquele momento, um dos maiores atores do mundo. Só no mesmo ano (1963) ele fez ONTEM, HOJE E AMANHÃ, de Vittorio De Sica, e 8 E ½, de Federico Fellini. No ano anterior, vinha do melodrama DOIS DESTINOS, de Valerio Zurlini, e no seguinte faria a comédia MATRIMÔNIO À ITALIANA, de De Sica.

Já Mario Monicelli, trata-se de um dos maiores diretores de comédias italianas de todos os tempos, com filmes como OS ETERNOS DESCONHECIDOS (1958), O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE (1966), MEUS CAROS AMIGOS (1975), entre outros. Enfim, há muito a explorar e conhecer de sua filmografia.

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BROKER – UMA NOVA CHANCE (Beurokeo)

Bela história de uma “família” que se forma a partir de uma situação inusitada. Em BROKER – UMA NOVA CHANCE (2022), temos uma jovem que abandona o filho recém-nascido, dois homens que pegam a criança para vender (eles são intermediadores desse tipo de negócio) e um garotinho órfão que se junta à trupe. Hirokazu Koreeda constrói uma espécie de road movie em que seus personagens (e suas tramas) vão ganhando mais força emotiva à medida que as negociações se aproximam e o filme se encaminha para sua conclusão. Ao mesmo tempo, temos duas policiais que têm a intenção de prendê-los em flagrante. O diretor segue sua tradição de lidar com questões familiares de forma sensível, mas contando, desta vez, com o novo tempero de interpretações sul-coreanas. Destaque para Song Kang-ho, de PARASITA, que ganhou o prêmio de atuação em Cannes-2022. Pena que a projeção escura da sala do Belas Artes incomoda um pouco a fruição.

BEM-VINDOS DE NOVO

Filmes como BEM-VINDOS DE NOVO (2021) são muito expositivos da intimidade de uma família, mas, curiosamente, este não me pareceu tanto, não chega a causar constrangimento por certas situações. Na verdade, logo no começo, há coisas não ditas que conferem ao filme um ar intrigante. Afinal, qual o motivo de um casal ter saído do Brasil para ir ao Japão, deixando seus três filhos pequenos, e só voltando 13 anos depois? O diretor e filho do casal, Marcos Yoshi, conta tudo com muita sinceridade e deixa transparecer de forma explícita a personalidade forte e indignada do pai. A revolta do pai consigo mesmo e com os países que não foram gentis com ele é um destaque. Além do mais, causa indignação pensar em pessoas que trabalham 12 horas por dia numa fábrica (de um país tão rico quanto o Japão) para voltarem para seu país sem um bom dinheiro, após mais de uma década. Há muitas cenas que causam emoção, mas tudo fica dentro de uma espécie de linha de segurança. Ainda assim, certamente é um filme que ficará presente na nossa memória afetiva por um bom tempo.

sábado, agosto 12, 2023

ASTEROID CITY



Na quinta-feira, lá fui eu para a sala VIP da Cinépolis ver o novo Wes Anderson, ASTEROID CITY (2023). O preço do ingresso, parcelado em suaves 12 parcelas, desce fácil. Além do mais, é preciso escolher a melhor sala de cinema da cidade para ver este filme, já que as cores em tom pastel estão mais claras ainda e, isso, numa projeção ruim, poderia resultar em prejuízo visual. Ok, você pode ver o filme em sua sala, numa ótima televisão LED ou OLED, mas olha: ASTEROID CITY merece uma tela grande, já que há muitos planos gerais e muitos detalhes a ser percebidos. Inclusive o filme pede para uma segunda apreciação, já que os detalhes visuais estilizados podem desviar a atenção para a trama, o que é já natural de se esperar no cinema de Wes Anderson, mas aqui talvez se apresente de maneira mais intensa. 

Uma das coisas mais fascinantes no cinema do realizador nem é algo geralmente citado logo de cara nos primeiros parágrafos de reviews sobre seus filmes, já que as pessoas costumam dar mais atenção à plasticidade de sua obra. Refiro-me ao modo como o cineasta bloqueia suas emoções, tanto nas interpretações, que tem algo de Bresson, quanto no quanto há coisas não ditas. Em ASTEROID CITY isso se torna mais visível, e ele deixa escapar um pouco mais dessa sentimentalidade presa numa garrafa neste filme com personagens que agem como numa história em quadrinhos, embora sejam também atores de uma peça que está sendo apresentada num programa de TV.

(Se a referência a Bresson pode não ser muito acertada para alguns, acho que vale reavaliar, já que, pesquisando sobre uma possível ligação entre os dois cineastas, fui parar em duas listas de filmes favoritos de Anderson. Numa delas, para a Criterion, ele cita num top 10 A GRANDE TESTEMUNHA. Aliás, na mesma lista está presente também O ANJO EXTERMINADOR, de Luis Buñuel, cuja trama tem um pouco em comum com a de ASTEROID CITY: ambos mostram pessoas presas num determinado lugar, embora as circunstâncias aqui pareçam menos misteriosas do que em Buñuel.)

Ver ASTEROID CITY representou um novo momento para mim na apreciação do cinema de Anderson. No fundo, eu não entendia de verdade seus filmes. Talvez ainda não entenda. Mas é como se neste filme, finalmente, aquela emoção que eu senti lá com OS EXCÊNTRICOS TENEBAUMS (2001), e que nunca mais foi repetida nos demais filmes do diretor por mim, começasse a ser notada. O tema do luto está bastante forte. Temos uma família que veio enterrar as cinzas de uma falecida esposa/mãe/filha e as criancinhas querem fazer o enterro ali, no deserto daquele espaço com características de lugar tão radiativo quanto os efeitos da bomba atômica que está sendo testada ali ao lado.

E boa parte daqueles personagens vivem num momento de dificuldade, como se tivessem um problema imenso de lidar com a vida, com as pessoas, com os obstáculos. O personagem de Schwartzman, por exemplo, tem vontade de abandonar seus filhos para ir embora, após a morte da esposa. A personagem de Scarlett Johansson usa a maquiagem de um soco no olho para internalizar os sentimentos de quem ela interpretará, uma mulher prestes a cometer suicídio. Aquele momento em que aquelas pessoas estranhas estão tendo a oportunidade de conhecer e conversar com novos indivíduos é uma possibilidade de conexão que elas veem surgir em suas vidas.

Como tem se tornado cada vez mais comum nas obras mais recentes de Anderson, o elenco é um caso à parte e constitui uma diversão por si só ver tanta gente boa e famosa reunida, mesmo que em papéis bem pequenos. Assim como é uma diversão ver a beleza da composição visual milimetricamente pensada, ainda mais neste projeto mais ambicioso, com um monte de personagens em vários cenários de uma cidadezinha fictícia no deserto americano em 1955. Os personagens mais fáceis de serem gostados são os de Jason Schwartzman e Scarlett Johansson, os primeiros nomes dos créditos, mas há pequenos personagens fascinantes, como a de Margot Robbie e o de Jake Ryan, que parecem possuir também cargas de pessoalidade com o cineasta, seja como alguém que se percebe deletada de um universo, seja como um pequeno gênio que está trabalhando ainda sua autoconfiança.

O encontro de Schwartzman com Margot Robbie tem algo de espiritual e de mágico, inclusive. É como se, ao sair daquele mundo artificial, o ator da peça (que vive um fotógrafo) tivesse um encontro com sua falecida esposa, cuja personagem fora deletada na montagem. Sonho e realidade se confundem, neste caso, já que, o que é visto em preto e branco são os bastidores.

Boa parte dos demais parecem pequenos bonequinhos num cenário construído por uma criança. E talvez Anderson seja esse menino nerd que não quer deixar seu gosto pela brincadeira, pela ciência e pela criatividade morrer. Mas um nerd apaixonado pelo cinema, e por isso, para ter uma apreciação melhor de seu filme seja necessário não apenas estar um pouco mais íntimo de seu cinema, mas também ter uma bagagem cinematográfica um pouco maior. Saber que ele é uma fã da Nouvelle Vague francesa, de gente como Godard e Truffaut, pode ajudar a fazer conexões com seus personagens e suas opções estéticas. VIVER A VIDA, de Godard, por exemplo, é um filme que pode ser lembrado ao vermos ASTEROID CITY, já que há uma divisão fragmentada e explicitada por capítulos também no filme de Anderson.

A diferença é que o filme de Anderson explicita seu detalhismo ao fazer divisões e subdivisões entre capítulos, atos e até cenas. A sensação é como lermos um livro. Ou melhor, como lermos uma história em quadrinhos sofisticada. Ou melhor, como vermos um filme que assimila o teatro, a televisão, a literatura, o cinema de animação e as histórias em quadrinhos.

Uma observação de alguém com pouco conhecimento do assunto: sobre o uso da câmera deslizante, bastante presente no filme, acredito que esse recurso fica prejudicado na transformação para o digital. E consta no IMDB que Anderson usou lentes anamórficas, câmera 35 mm, para seu filme. Muito provavelmente possíveis exibições em película ganhariam nesse aspecto.

+ DOIS FILMES

O ENCONTRO DE CARL (Carl’s Date)

Uma bela surpresa este O ENCONTRO DE CARL (2023), de Bob Peterson, curta que pode ser visto nas sessões de ELEMENTOS. Aqui temos Carl, o velhinho de UP – ALTAS AVENTURAS (2009) e seu cãozinho que se comunica, Dug. O que aflige Carl é o fato de que ele não está mais preparado para um novo par, uma nova mulher em sua vida. E o filme consegue passar essa aflição de maneira divertida, mas também empática, em apenas oito minutos de duração. A Pixar de vez em quando acerta. Nem que seja nos curtas.

ELEMENTOS (Elemental)

As animações da Pixar estão evoluindo cada vez mais para serem vistas mais por um público juvenil do que para um público infantil. ELEMENTOS (2023), de Peter Sohn, é uma história de amor proibido entre uma moça do elemento fogo e um rapaz do elemento água. Gosto mais dos personagens do que da história, mais da ideia do que de sua aplicação. Tanto que depois do terço inicial o filme perde sua força, pois passa a depender mais da trama, que é pouco atraente. Interessante que os idealizadores pegam um pouco das características de signos do zodíaco de fogo (impulsivos, agressivos) e da água (sentimentais, sensíveis), levadas ao extremo. Por exemplo, o rapaz e sua família choram aos borbotões, enquanto a menina destrói tudo quando começa a ficar muito irritada. Há situações com potencial de emocionar, e até acho que parte do público se emocionou (houve palmas após a sessão), mas certamente a Pixar já fez muito melhor. Tanto que ELEMENTOS representa um momento de forte crise na companhia e na Disney.

quinta-feira, agosto 10, 2023

A MORTE NUM BEIJO (Kiss Me Deadly)



Cerca de duas décadas atrás o Cine Benfica começou a exibir, em sessões matutinas, alguns filmes do ciclo noir. Não cheguei a ir às demais sessões (todas em DVD, se não me engano), mas resolvi ir para a sessão de A MORTE NUM BEIJO (1955), de Robert Aldrich. Saí do cinema absolutamente impressionado. Na verdade, a impressão que eu tive, desde a primeira cena, da mulher vestindo apenas um roupão, abordando, desesperada, qualquer motorista na estrada escura, seguida da cena de créditos, foi de absoluta estupefação.

Os créditos mostrados de ponta-cabeça logo em seguida, nos deixam com os olhos arregalados. Ou seja, desde o começo, o filme já antecipa o quanto se trata de uma obra virada do avesso, de certa forma, ou como um espelho distorcido do próprio gênero de thriller de detetive que vinha sendo feito em Hollywood desde o início da década anterior. Isso foi o suficiente para que esta obra-prima do diretor me ganhasse, no início da carreira, mesmo que o miolo do filme seja confuso.

Acho que estava numa vibe de querer ver filmes de histórias confusas, mas viajantes, como certos gialli e até mesmo alguns títulos noir hollywoodianos mesmo – o caso clássico seria o de À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks. E, se o prólogo é um cartão de visitas impressionante, o que dizer daquele final? Acho que só tinha visto algo tão desconcertante nos filmes de David Lynch. No caso do filme do Aldrich, porém, é possível entender a obra como um fruto da era atômica, como já estava acontecendo na época com o gênero sci-fi. O que Aldrich fez foi adicionar um elemento fantástico como a grande surpresa de seu filme.

Na revisão de A MORTE NUM BEIJO, prestei atenção em mais aspectos, como o fato de o herói ser quase tão grosseiro (e sádico) quanto os vilões, ou o espírito que o filme pega emprestado da obra adaptada, uma ficção pulp de Mickey Spillane. O herói, Mike Hammer (Ralph Meeker), se diferencia bastante de outros detetives do gênero, como Phillip Marlowe e Sam Spade, exemplos de classe e estilo. Em certo momento, depois que Hammer descobre que puseram uma bomba em seu carro, um dos vilões principais reconhece que o subestimou, que não entende o que ele fará a seguir. O tom de imprevisibilidade faz parte do filme.

Sendo um noir B dos anos 1950 (um noir B e independente), o filme tem uma característica maior de autoconsciência. Isso faz toda a diferença na dramaturgia, nos diálogos, no modo como os personagens se comportam. E há a beleza da fotografia expressionista, da trilha sonora sinistra, de opções estranhas e intrigantes de onde colocar a câmera, das surpresas que se apresentam no desenvolvimento e principalmente em sua conclusão, na sensualidade e na violência apelativas para a época. Não à toa virou um dos favoritos para tantos cineastas, que o referenciaram, como Lynch, Tarantino, Spielberg.

Filme revisto no box Filme Noir (o primeiro). 

+ DOIS FILMES

DISCO BOY – CHOQUE ENTRE DOIS MUNDOS (Disco Boy)

Ok, que eu acabei vendo o filme numa crise alérgica que ajuda a promover o sono, ainda mais após um dia de trabalho, mas tenho a impressão que isso aqui é um soporífero. Ajuda também o fato de DISCO BOY – CHOQUE ENTRE DOIS MUNDOS (2023), de Giacomo Abbruzzese, ser um filme de imagens mais do que palavras (eu adoro palavras). Em alguns momentos isso até parece interessante, mas mesmo quando é interessante não tem um poder de mistério, de emoção ou de perturbação que pudesse provocar meu interesse. Na hora que terminou, inclusive, até considerei o filme uma espécie de pegadinha de mau gosto, até por usar os personagens africanos de maneira muito folclórica ou exótica e um tanto deslocados da trama em Paris. Quem sabe eu revejo num dia melhor e passo a apreciá-lo um pouco mais. Por enquanto, a impressão que ficou não foi feliz.

FOGO-FÁTUO

Tenho achado interessante essa nova leva de filmes homoeróticos, de como eles têm se mostrado ousados na explicitação de sua sexualidade, como se os realizadores gays estivessem finalmente aproveitando a liberdade que há tanto tempo lhes fora negada, como manifestação proibida ou mesmo criminosa, em certos países. Em FOGO-FÁTUO (2022), João Pedro Rodrigues faz uma espécie de musical sobre o desejo entre um príncipe franzino que deseja ser bombeiro e um outro rapaz, negro e musculoso, da corporação. Acredito que há coisas que só serão compreendidas de fato por quem tem a mesma orientação sexual dos personagens. Refiro-me a compreender no sentido de sentir, mais do que uma compreensão distante, racional. Mesmo para quem acompanha à distância, por assim dizer, é possível ver o belo trabalho de construção visual do diretor, especialmente nos interiores. Falando em distância, não sei se seria possível, no auge da pandemia, fazer uma cena como a de uma revelação de morte por Covid, presente no filme, dada a ambiguidade entre o drama e a comédia da proposta.

terça-feira, agosto 08, 2023

PARCEIROS DA NOITE (Cruising)



E ontem foi a vez de deixar este plano de existência um dos mais importantes cineastas da Nova Hollywood, William Friedkin. Controverso e com uma carreira irregular, mas muito interessante e intrigante, Friedkin teve seu auge de popularidade no início dos anos 1970, com OPERAÇÃO FRANÇA (1971) e O EXORCISTA (1973), mas não deixou de fazer grandes obras, ao contrário do que muitos dizem, ao trazerem para ele uma espécie de maldição de seu filme de 73. Destacam-se também O COMBOIO DO MEDO (1977), VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (1985), POSSUÍDOS (2006) e seu grande comeback KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (2011). Sem falar em outras obras que merecem atenção, certamente. Até filme inédito a estrear em Veneza neste ano ele tem ainda, THE CAINE MUTINY COURT-MARTIAL. Ou seja, mesmo doente e com quase 88 anos de idade, Friedkin ainda estava ativo e até tinha outros projetos em andamento.

O filme que escolhi para homenageá-lo foi o controverso PARCEIROS DA NOITE (1980), estrelado por Al Pacino. Mas antes de falar do filme, acho interessante falar um pouco sobre a importância da mídia física. Às vezes a gente pensa que a mídia DVD está morta e que o melhor é mesmo ir à caça de cópias em 1080p ou 720p, mas a gente pode se enganar bastante. Claro que a gente quer ver o filme na melhor cópia possível, mas, por incrível que pareça, a cópia em DVD deste filme está tão boa quanto a de 720p disponível pela internet.

E há outra coisa que faz a diferença: não é a primeira vez que desisto da cópia de qualidade de imagem melhor por causa de legendas ruins, seja de tradução, seja do tempo delas na tela. Aconteceu recentemente quando parei para rever A MORTE NUM BEIJO em 1080p e desisti por causa das legendas péssimas. E aconteceu com PARCEIROS DA NOITE. No caso deste segundo, a qualidade da imagem do DVD se destaca positivamente. Então, quem puder prestigiar a mídia física, faça. Afinal, ainda que um filme como este do Friedkin esteja disponível para aluguel, quem garante que a versão é a restaurada em 4K de 2019? Além do mais, o box (Cinema Policial – Anos 80) ainda traz dois documentários de mais duas horas dirigidos por Laurent Bouzereau, um cara que virou sinônimo de qualidade de extras. 

Os documentários nos trazem informações muito importantes para compreendermos o contexto em que o filme foi feito, como o fato de as filmagens serem constantemente atrapalhadas por militantes gays desde o anúncio de seu lançamento. Era de fato um problema apresentar uma parte da cultura gay nova-iorquina associada a assassinatos e a violência e foi um martírio que o cineasta enfrentou bravamente ao longo de toda a jornada, sem transparecer perturbação para a equipe técnica e elenco.

As críticas à época não foram positivas, mas hoje, passadas décadas, é um filme que tem muito mais apoio, muito mais apreciadores. O herói do filme, vivido por Al Pacino, é representativo do tipo de herói visto nas obras do realizador. Como é comum nos filmes de Friedkin, inicialmente somos levados a uma identificação com o herói para, em seguida, nos distanciarmos dele. O momento mais simbólico disso no filme é a última imagem que vemos de Pacino, quebrando a quarta parede e olhando para o público, e causando desconforto.

Muitas cenas são deliberadamente confusas, como uma das últimas em que vemos um homem de roupa de couro entrando à distância num armazém. Poderia ser o personagem de Pacino, poderia ser um dos outros homens apresentados. A noite confunde. Há uma cena de violência que é bem gráfica e perturbadora: a do esfaqueamento na cama, que tem uma carga emotiva que as demais não têm. É possível sentir a aflição e o desespero que daquele homem. (E eu confesso que me lembrei de um amigo que morreu assassinado em circunstâncias mais ou menos parecidas, pelo menos no que se refere a estar amarrado e estar consciente de que seria assassinado.)

Ao que parece, Friedkin optou por um tipo de violência menos gráfica nas demais cenas de mortes para tornar a obra um pouco mais aceita nos cinemas, ainda que recebendo classificação para adultos (Rated R - NC-17). Uma coisa que me incomodou, a princípio, foi o fato de o policial infiltrado de Pacino não transar com nenhum dos homens do clube de sadomasoquismo. É exatamente o contrário do que espiões ou policiais infiltrados fazem: procuram se tornar parte do ambiente, a ponto de usarem drogas quando necessário. Mas existe também a possibilidade de ter acontecido e não vemos.

E isso talvez justifique um pouco o tom atormentado do personagem sempre que ele vai para a cama com a namorada (Karen Allen). De todo modo, é justamente o tom de incerteza que acaba tornando o filme um dos melhores de Friedkin. Afinal, não sabemos quem é o assassino, não sabemos se os policias agressores de travestis do início do filme são policias de verdade ou não; não sabemos se há relação de fato entre as vítimas mortas com esfaqueamento e a vítima esquartejada. E o filme não tem a intenção de deixar nada claro. 

+ DOIS FILMES

ÂNSIA (Thirst)

Gosto mais do primeiro terço, quando Kate (Chantal Contouri) se vê presa naquela irmandade de vampiros que a sequestra, sendo ela, supostamente, descendente da lendária Condessa de Bathory. O filme destaca o laboratório e a fazenda onde é produzido o "leite" e onde o "rebanho" é alimentado. ÂNSIA (1979), de Rod Hardy, faz parte de uma série de filmes produzidos pela mesma companhia australiana do mais famoso PATRICK, lançado no ano anterior. A lógica de atrair o público é semelhante à usada em vários filmes de gênero italianos: contratar atores e atrizes conhecidos do público. Aqui temos David Hemmings como um vampiro mais solidário e Henry Silva como um dos homens mais agressivos do grupo. Um bom filme. Visto no box Vampiros no Cinema 6.

SHAKMA - A FÚRIA ASSASSINA (Shakma)

No começo de SHAKMA - A FÚRIA ASSASSINA (1990), de Hugh Parks e Tom Logan, confesso que me deu um pouco de preguiça, pois é claramente um filme com pouco esmero na construção dos personagens e dos diálogos e há um joguinho que a turma do hospital cria para a noite, cujas regras acabam ficando pouco claras. Mas o jogo é apenas uma desculpa para que os personagens fiquem sozinhos e à mercê do babuíno enlouquecido por causa de um experimento científico. Em determinado momento, porém, fiquei empolgado, e há uma personagem por quem torci bastante, a Kim (Ari Meyers), embora o protagonista seja Sam (Christopher Atkins, A LAGOA AZUL). Fiquei impressionado com a atuação do babuíno quando está disposto a matar quem vir pela frente. Soube que o babuíno é o mesmo usado em A MOSCA, de David Cronenberg, mas é aqui seu grande papel, ele é o grande astro do filme, sem dúvida. SHAKMA foi sucesso no Cine Trash, da Band. Se de fato o filme passou à tarde, acho admirável, já que se trata de um terror/suspense bem sangrento, com lógica de slasher. É ruim, mas é bom. Visto no box Obras-Primas do Terror 19.

sábado, agosto 05, 2023

BARBIE



Agosto chegou e com ele o retorno às atividades normais, às aulas na escola, depois do ótimo período de viagens e de socialização e relax nas férias de julho. Mas a única coisa que lamento, na verdade, é minha saúde. Não que ter problemas alérgicos quase todos os dias seja algo muito grave (muita gente tem), mas me deixa triste sentir essa sonolência, essa mudança de temperatura brusca no corpo, e essa falta de ânimo provocada pela garganta que parece estar quase sempre inflamada (ou algo assim). Isso tem influenciado praticamente tudo na minha vida: meu trabalho, minhas relações mais próximas e até meus prazeres estéticos, como ver filmes e ler livros e quadrinhos. Mas vivamos um dia de cada vez, sabendo que isso é passageiro, embora, infelizmente, esse tipo de problema surja com uma frequência muito maior do que eu gostaria.

Outra coisa que eu gosto muito de fazer, mas que não consegui nos últimos dias foi escrever para o blog. A última postagem foi sobre as viagens, mas o último filme comentado foi há quase 15 dias! Raramente passo tanto tempo assim sem postar sobre os filmes vistos de maneira um pouquinho mais aprofundada que o parágrafo que sempre escrevo para cada filme visto, no calor do momento, sem pesquisar e sem pensar muito. Então, levando em consideração a quantidade já grande de filmes vistos e não comentados, só me resta escolher um. E hoje escolho BARBIE (2023), de Greta Gerwig, o grande filme-evento do ano.

Acho que jamais passou pela cabeça de Gerwig que BARBIE seria esse fenômeno incrível de popularidade, uma verdadeira febre impulsionada por um marketing da própria Warner e dos entusiasmados pelo filme, antes mesmo dele estrear, e em estratégias de propaganda muito agressivas, como encher o Google de cor-de-rosa ou investir em caixas de boneca grandes paras as pessoas tirarem fotos de si mesmas dentro delas, de preferência vestidas com a cor predominante do filme. Quanto à bilheteria, BARBIE está se aproximando rapidinho de 1 bilhão de dólares – por enquanto, o único a passar essa marca em 2023 foi SUPER MAIOR BROS. – O FILME.

Por mais que seja uma obra que atingiu uma popularidade imensa – não lembro de ver algo parecido, em termos de publicidade, adesão e discussão –, para quem acompanha a carreira da diretora, atriz e roteirista, o filme representa uma continuação das discussões que LADY BIRD – A HORA DE VOAR (2017) e ADORÁVEIS MULHERES (2019) trouxeram. Do primeiro, há uma bonita questão envolvendo a relação mãe e filha; do segundo, há a discussão sobre ser mulher num mundo de homens. E Gerwig faz isso com muita inteligência e sensibilidade, às vezes até alfinetando levemente coisas que a própria Mattel (empresa da boneca Barbie) trouxe de negativo para a cultura e para a sociedade. Mas o filme passa rapidamente por isso e se concentra na jornada de uma Barbie perfeita (a chamada Barbie Estereotipada), vivida por Margot Robbie (radiante, como sempre), ao fazer questionamentos sobre a morte e passar pela experiência de visita ao mundo real.

Adoro a fala final da protagonista, que tem uma força feminina (e feminista?) incrível; gosto muito de todas as cenas de descoberta do mundo real de Barbie e Ken, da conscientização dos sentimentos e daquela conversa rápida com uma senhora num banco de praça – “você é tão linda!”, em vez de “por que você é diferente?”. E tudo isso dentro de uma dramaturgia quase anti-naturalista, que causa graça e estranhamento. Em alguns momentos, me fez lembrar o cinema de Wes Anderson, cineasta contemporâneo de Noah Baumbach, e atual companheiro de Gerwig. Tanto que esse estranhamento pode atrapalhar um pouco os momentos de riso da plateia. Mas não dá para não admirar o senso de humor, que mescla o bobo com o espirituoso.

Ou seja, por mais que o filme seja sobre um produto de mercado que apresente uma visão não-realista da mulher, e por mais que existam também bonecas mais diversas, inclusive Barbies gordinhas e Barbies cadeirantes (ambas apresentadas no filme), a diretora usa isso a seu favor, usa isso para a construção de sua trama, que apresenta essa personagem perfeita, vivendo num mundo “perfeito” e irreal, que se vê diante da realidade. Há uma cena que brinca, inclusive, com MATRIX, quando a protagonista é obrigada a optar entre a pílula vermelha ou a azul. Aliás, entre um sapato de salto alto ou uma sandália Birkenstock. Só que aqui a heroína não tem exatamente uma escolha, o que é outro elemento desconcertante desse tipo de jornada do herói.

BARBIE conseguiu ir muito além das discussões sobre a efetividade do filme, enquanto obra fílmica. O filme de Gerwig trouxe o universo feminino (de bonecas) de maneira extremamente bem-sucedida, dentro de uma estrutura que, até então, privilegiava o universo masculino – caso dos filmes de super-heróis, vindos de uma indústria que hoje em dia tenta se desvencilhar de uma cultura tradicionalmente machista. Também se viu como uma vitória o fato de que temos a maior estreia de um filme dirigido por uma mulher – até então, quem ocupava essa posição era CAPITÃ MARVEL, codirigido por Anna Boden.

Em contrapartida, BARBIE também vem trazendo questões sobre o poder do império das megacorporações americanas (casos da Warner e da Mattel), ainda que, em tempos de fracassos gigantes de bilheteria e previsões apocalípticas da morte do cinema, o filme tenha sido visto com um olhar mais carinhoso por boa parte dos cinéfilos, mesmo os mais críticos a esse tipo de dominação predatória. (Mas uma pergunta talvez pessimista: quanto do público de BARBIE vai voltar aos cinemas para ver outros filmes?) 

Enfim, as discussões que o filme vem trazendo são tantas que é admirável uma obra de apelo tão pop ser capaz de tal feito. Inclusive, alguns grupos de extrema direita têm odiado o filme, por causa de uma suposta (?) ridicularização da masculinidade, na representação dos personagens Kens, principalmente o Ken principal. Porém, mesmo que seja verdade, nada mais justo, se pensarmos nos séculos de humilhação das mulheres pelos homens, flagelados em diversas obras literárias e cinematográficas. Isso sem falar na influência das religiões monoteístas na cultura ocidental.

Bem que eu gostaria de ter escrito sobre o filme no dia imediatamente seguinte, mas, como não deu, saiu esse texto falando muito pouco da trama e das escolhas estéticas da diretora. Mas não deixa de ser um ponto positivo, já que temos aqui uma obra que tem muito a dizer e muito a provocar.

+ DOIS FILMES

CANÇÃO AO LONGE

Senti falta de me conectar melhor com o drama da protagonista, uma jovem que nunca conheceu o pai e que está passando por um processo de mudança em sua vida. Para isso, sair da casa da mãe se apresenta como um importante passo. Adorei o tom granulado da fotografia de Ivo Lopes Araújo e há algumas passagens musicais que são a cara de Caetano Gotardo (um dos roteiristas). Mas CANÇÃO AO LONGE (2022) dá a impressão de ser um projeto bem pessoal de Clarissa Campolina, em sua estreia na direção solo de longas-metragens, após a experimentação narrativa de ENQUANTO ESTAMOS AQUI (2019), codirigido por Luiz Pretti.

DOMINGO DESPERDIÇADO (Zabità Nedele)

Um desses filmes que me enchem de perguntas. Na verdade, me faltavam, e ainda me faltam, informações sobre as circunstâncias de sua realização e a história da obra em si, que foi confiscada pelo regime da época em 1969 e só foi lançado em 1990. É possível entender os motivos, já que a diretora faz várias provocações: principalmente aos militares e às autoridades, que são, com frequência, ridicularizados. Melhor exemplo são as cenas envolvendo as duas garotas que tomam banho de sol de topless perto do quartel. Há também inúmeras alfinetadas com a própria censura e um tipo de humor que pode ser melhor compreendido quando sabemos da história política do país. No mais, DOMINGO DESPERDIÇADO, de Drahomíra Vihanová, é também carregado de um tipo de melancolia pesada, já que o protagonista simpatiza com a ideia do suicídio durante boa parte do filme. O pior: sendo ele uma pessoa pouco simpática ou gentil (com as mulheres, principalmente), não temos pelo personagem algum tipo de empatia. Trata-se de mais um exemplo de cinema que carrega o espírito da época. Os filmes produzidos em fins dos anos 1960 têm essa característica de rompimento com a forma e busca de experimentações na linguagem.