domingo, março 22, 2020

JOIAS BRUTAS (Uncut Gems)

Que bom quando eu consigo, em meio a este período tão difícil, me concentrar na leitura de alguma coisa e que, ainda por cima, vai ajudar a repensar e a relembrar as sensações e pensamentos que tive quando vi JOIAS BRUTAS (2019), quarto longa-metragem dos irmãos Bennie e Josh Safdie, e que foi lançado no Brasil e na maior parte dos países do mundo diretamente na Netflix, no início desde fatídico 2020.

Eu acredito que ter visto na Netflix, em vez de em uma boa sala de cinema, pode ter prejudicado um pouco minha apreciação. Afinal, o filme é bastante irritante, claustrofóbico, incômodo. Embora tudo isso seja deliberado, uma vontade de seus realizadores, no cinema eu ficaria mais disposto a embarcar, sem pausas, nessa viagem, por mais que saísse da sala um pouco tonto.

Hoje aproveitei o dia para ler o que saiu sobre o filme nas revistas Cinema Scope (ed. 81) e Film Comment (vol. 55). Na Cinema Scope saiu uma apresentação seguida de uma entrevista com os irmãos de seis páginas. Muito esclarecedora e agradável de ler. A Film Comment fez apenas uma crítica de duas páginas, mas também muito boa. Sinto falta demais de boas revistas de cinema impressas no Brasil. Essas eu consegui, aproveitando a ida de minha irmã e meu cunhado aos Estados Unidos no início do ano. Então, ler esse material e conseguir me concentrar foi muito recompensador, assim como está sendo escrever a respeito aqui, tentando ignorar um pouco o mal estar do momento.

Na entrevista da Cinema Scope, os irmãos Safdie começam falando bastante sobre basquete, e como não sou um fã de esportes e sou totalmente alheio ao mundo da NBA, procurei aprender um pouco, mas só as informações mais básicas. Soube que JOIAS BRUTAS é o filme mais centrado na NBA desde SPACE JAM - O JOGO DO SÉCULO, de 1996. Em JOIAS BRUTAS, fui apresentado a Kevin Garnett, que agora está aposentado, mas que em 2012, que é quando se passa a história, ainda é um dos grandes astros do basquete. Ele é essencial para a trama e interpreta a si mesmo, por assim dizer.

O foco do filme é mesmo Adam Sandler, que teve uma interpretação elogiadíssima, coisa que não acontece talvez desde sua parceria com Paul Thomas Anderson em EMBRIAGADO DE AMOR, em 2002. Sandler, ao longo dos anos, ganhou a fama de estrelar comédias de gosto duvidoso e por isso foi um presente para ele e para nós vermos o quanto o ator é capaz de ser muito bom. Eu, pelo menos, esqueci que era o Sandler, e comprei o personagem do judeu viciado em jogo e dono de uma joalheria Howard Ratner.

O filme tem uma introdução no mínimo interessante, começando com imagens do acidente em uma mina na Etiópia e indo literalmente para dentro do protagonista, que está fazendo um exame de colonoscopia. Ele tem medo de estar com um câncer. Depois disso, é tudo muito delirante, muito estonteante, já que somos arremessados no meio da ação, dentro da joalheria de Howard, e em um tipo de narrativa que parece embebida de cocaína.

Nesse início, Howard recebe a encomenda preciosa (a tal joia bruta do título) quando o Kevin Garnett está em sua loja. Ele aceita que Garnett, que fica fascinado com a pedra multicolorida, deseja ficar com ela para dar sorte. O jogador acredita que ela tem um poder derivado de seus ancestrais. Ele poderia ficar com ela por uma noite apenas. Howard pega como caução o anel do jogador, e o penhora por U$ 21.000 em cash para apostar. É importante lembrar que muito do desconforto e da ansiedade que o filme provoca vem não apenas do uso da câmera inquieta, mas principalmente do modo histérico com que os personagens lidam com as coisas da vida, a começar pelo onipresente protagonista.

Nesse sentido, o filme lembra bastante a obra de John Cassavetes, talvez o cineasta que mais tenha influenciado os irmãos Safdie. Há essa agressividade presente a todo momento, mas também essa força nas atuações e na dramaturgia e no estudo de personagem. No caso, o que há de mais fascinante em Howard é o quanto ele é um homem infantilizado, ao querer tudo e não se dar por satisfeito em perder ou nas consequências de seus atos, um homem que não vê o valor em nada - objetos, dinheiro, pessoas - se ele não pode arriscar perdê-los.

Algo que me deixou muito intrigado ao ler a entrevista dos Safdie foi quando eles mencionaram o aspecto anticapitalista da filmografia de Sandler, e como isso casou como uma luva para o filme. Como sou pouco conhecedor da filmografia do ator/comediante, lembrei logo de filmes como CLICK, A HERANÇA DE MR. DEEDS e COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ, títulos que trazem uma espécie de lição moral sobre o que realmente importa na vida, muito além do materialismo. Os irmãos Safdie, porém, estão longe de tratar o assunto com sentimentalismo.

Enfim, há muito o que falar e o que lembrar do filme, mas acho importante deixar uma menção à ótima participação da estreante Julia Fox, que interpreta Julia, a amante de Howard. Algumas das melhores cenas são com Julia, especialmente uma em que eles brigam na rua e a câmera passa a segui-la e não ele. Por um momento passamos a acreditar que o filme mudaria de ponto de vista. Mas isso dura pouco.

Podemos ainda lembrar das dez pragas do Egito na reunião da família judaica tradicional, do cunhado mafioso vivido por Eric Bogosian, da participação do cantor The Weeknd como ele mesmo, inclusive em um show seu, e em mais uma série de cenas. Por isso, por mais que a nossa relação com o filme, enquanto o vemos, não seja uma relação prazerosa, depois percebemos o quanto se trata de uma obra digna de respeito.

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INOCÊNCIA ROUBADA (Les Chatouilles)

Segundo filme do festival que trata do assunto "pedofilia", este aqui é mais eficiente do que o do Ozon (GRAÇAS A DEUS), embora a comparação não seja muito justa, já que são bem diferentes. Aqui vemos uma jovem mulher que enfrenta os fantasmas do passado, envolvendo um homem, amigo de sua família, que a violou inúmeras vezes. O trabalho da atriz, diretora e bailarina Andrea Bescond é ótimo e o filme entra num crescendo de emoções que comove, sem ter que apelar para uma trilha sonora onipresente. O final é lindo. Direção: Andrea Bescond e Eric Metayer. Ano: 2018.

O TRADUTOR (Un Traductor)

É um bom filme para assistir, mas fica a impressão de que os diretores superestimaram a história. Não que não seja importante alguém ser impactado por sua passagem pela ala infantil de câncer, mas, do jeito que o filme mostra, a emoção é minimizada por pura incompetência de seus realizadores. Rodrigo Santoro até que se esforça e o seu personagem é bastante simpático. Outra curiosidade é ver o estrago que o fim da União Soviética causou de imediato na ilha de Fidel. Direção: Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso. Ano: 2018.

A NOITE DO JOGO (Game Night)

Talvez seja mesmo a comédia do ano de 2018, mas acredito que GRINGO seja mais eficiente em provocar mais risos. Este, porém, é mais inteligente em sua proposta, nos diálogos afiados, em ter uma Rachel McAdams encantadora demais e na direção de tirar o chapéu. Fora a direção de arte, foda também. Talvez o problema seja umas gorduras, problema de montagem. Tem hora que o filme parece se exceder e perde um pouco o ritmo. Direção: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Ano: 2018.

sexta-feira, março 20, 2020

DISFORIA

Quarentena, dia 4. Confesso que não estou sabendo lidar muito bem com tudo isso. Não é só questão de estar se privando do cinema. Mas é todo uma preocupação e tristeza diante das impossibilidades do momento, diante do distanciamento entre as pessoas, diante da ameaça invisível. De todo modo, fico grato aos governantes locais, especialmente o Governador, que estão agindo com seriedade, ainda mais levando em consideração que praticamente estamos sem presidente. E fico grato, principalmente, aos amigos e familiares, pela força que estão dando neste momento, que é difícil, mas sabemos que quem pode estar em quarentena como eu está no grupo dos privilegiados.

No mais, elegi um filme para escrever do qual nem sei direito se entendi muito bem, mas que, como é um filme que lida também com mal estar e distanciamento físico, achei que poderia ser o adequado para hoje. Mais por identificação mesmo, já que estou tendo dificuldade de concentração para ver filmes em casa. Não sei o quanto vai durar essa sensação de aflição, essa incapacidade de me sentir bem com a solitude, que eu tanto valorizo e costumo usufruir com paz de espírito em dias normais.

DISFORIA (2019) é o primeiro longa-metragem de Lucas Cassales, do premiado curta O CORPO (2015), e conta duas histórias em paralelo, histórias que se encontram. Temos a história da menina que quebra o espelho do banheiro em um estranho surto. A menina mora com o pai viúvo e a avó. E temos a história do psicanalista que lida com uma situação também muito particular: sua esposa está internada em uma clínica psiquiatra e ele se sente muito sozinho.

As duas situações se cruzam quando o psicanalista recebe o caso da menina, e depois descobre que ela tem uma espécie de poder que leva as pessoas a confrontarem seus próprios demônios. Ele, naturalmente, fica assustado, mas segue frequentando a casa a pedidos do pai da garota, que se mostra cada vez mais ausente. Há momentos na narrativa em que vemos imagens gravadas do passado, de quando esse pai era feliz com a esposa, antes de ela morrer.

O forte do filme é a atmosfera, muito mais do que a trama, que é confusa, mas a confusão é bem-vinda quando a intenção é nos colocar na mente perturbada do protagonista, o psicanalista vivido por Rafael Sieg, utilizando recursos audiovisuais criativos. Há uma cena que me chamou muito a atenção e talvez seja uma das minhas favoritas do ano: o protagonista segue, em estado alterado, para uma espécie de festa na casa de sua amiga. Ao chegar lá, ele fica conversando com uma garota que começa a dançar, o que lembra tanto Audrey no piloto de TWIN PEAKS, de David Lynch, quanto Jong-seo Jun, dançando ao som de jazz em cena mais do que memorável de EM CHAMAS, de Chang Dong-lee. A ótima canção que embala a cena é "Artemísia", da banda indie Carne Doce.

A conclusão do filme talvez não seja tão boa quanto seu desenvolvimento, mas não deixa de ser também intrigante. De vez em quando é bom sair de um cinema de shopping depois de ter visto um objeto tão estranho como esse.

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AÇÚCAR

De AMOR, PLÁSTICO E BARULHO (2013) para este novo filme, Renata Pinheiro, agora com um codiretor assinando, exibe um progresso gigante. A não ser pela conclusão que pouco impacto teve sobre mim, toda a apresentação dos personagens, as primeiras imagens da geografia da Zona da Mata com o retorno para a Casa de Engenho da personagem de Maeve Jinkins e o atrito delicado com a comunidade de negros que está ali ao lado, tudo isso é muito bom. Constrói-se um tipo de tensão que sentimos também em O SOM AO REDOR, do KMF, mas que aqui aparece em um ambiente rural. É mais um filme que mostra a burguesia branca que segue não querendo admitir a dívida histórica com os negros. E isso aparece também na forma de um universo fantástico que aparece para assombrar aquele lugar, que certamente deve estar cheio de espíritos esperando por justiça. Maeve Jinkins mais uma vez excelente, muitas vezes se mantendo sozinha como personagem branca, com um elenco de apoio também está ótimo. Direção: Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. Ano: 2017.

A FEBRE

Filmes que abordam a realidade do índio brasileiro sempre são muito tristes. Este aqui até que escapa de ser tão triste quanto tantos outros, por centrar na vida de um indígena que trabalha em um porto em Manaus, mas que mantém uma família à parte que fala a língua nativa dentro de casa. Há o incômodo de fazer parte do mundo branco e também de ter esses costumes dos ancestrais. Não se pode servir a dois senhores, diz a Bíblia. A maior parte do filme não é falada em português e nos espantamos com o quanto o nosso país é gigante, rico e diverso. No filme, destaque para os ótimos desempenhos dos atores. Admirável mesmo. Fiquei em dúvida com a cena final. Caso alguém tenha visto, gentileza me explicar. Direção: Maya Da-Rin. Ano: 2019.

JESSICA FOREVER

Filme que sabe trazer a brutalidade para a sensibilidade. Gosto de como a personagem de Jessica é um pouco distante e quase uma santa para os homens, todos renascidos a partir do encontro com ela, para formarem uma espécie de exército contra a opressão de um regime autoritário em um mundo distópico. O passado de alguns poucos personagens, com seus traumas, é explorado. Ajuda a dar mais humanidade a esse jovens, assim como o rapaz que se apaixona por uma jovem da ilha, o que não seria uma boa ideia para um grupo que vive fora da lei. Direção: Caroline Poggi e Jonathan Vinel. Ano: 2018.

quinta-feira, março 19, 2020

O OFICIAL E O ESPIÃO (J'Accuse)

O interessante de ver um filme de Roman Polanski tratando do tema da inocência, do fato de alguém ser julgado e condenado por um crime que não cometeu, é que ficamos nos perguntando o quanto o cineasta pode ter se espelhado nessa história, já que o cerco em torno dele aumentou consideravelmente, com o crescimento do #metoo, com as acusações posteriores de estupro/assédio que surgiram para manchar ainda mais a biografia do diretor franco-polonês.

O OFICIAL E O ESPIÃO (2019) é mais um filme da fase tardia de Polanski que traz um tipo de dramaturgia mais calcado nos diálogos, algo bastante enfatizado em dois trabalhos desta década, ambos baseados em peças de teatro. Refiro-me aos ótimos DEUS DA CARNIFICINA (2011) e A PELE DE VÊNUS (2013). O filme seguinte, BASEADO EM FATOS REAIS (2017), de menor impacto na obra do diretor, segue uma linha de thriller um pouco mais convencional. O novo filme também apresenta similaridades com outro filme recente do diretor, O ESCRITOR FANTASMA (2010), que, aliás, é baseado também em um romance de Robert Harris.

O OFICIAL E O ESPIÃO, formalmente falando, seria um pouco um misto desses trabalhos, em certo sentido, já que tanto é centrado em conversas e contém poucas cenas de ação, como também cria uma atmosfera de suspense e apreensão, levando em consideração o quanto o protagonista, o Coronel Georges Picquart (Jean Dujardin), se vê em um jogo de cartas marcadas por membros do corpo de superiores do exército francês, ao descobrir e tentar consertar a injustiça que foi terem mandado para a prisão um oficial acusado de alta traição (Alfred Dreyfuss, vivido por Louis Garrel).

O caso é bastante conhecido e o título original se refere a um artigo escrito pelo romancista Émile Zola de mesmo nome, que denuncia a injustiça da prisão (sozinho, na Ilha do Diabo) de Dreyfuss. Isso ainda custaria a liberdade de Zola por um tempo. O artigo foi publicado no jornal francês L'Aurore, em 13 de janeiro de 1898, e pode ser encontrado facilmente na internet. O artigo, porém, foi publicado depois de três dias que o verdadeiro traidor, Esterhazy (no filme vivido por Laurent Natrella), foi inocentado pela justiça, o que acabou por prejudicar sua força.

Há muitos méritos no trabalho de Polanski. Não deixa de ser uma satisfação poder ver mais um trabalho de um diretor de primeiro escalão e que tem um corpo de trabalho tão rico e tão próximo do universal. Assim, o que vemos é um filme que tem a segurança e a experiência de um grande diretor, aliado a um elenco de apoio extraordinário.

O filme é também muito atual em tempos de fake news, de pós-verdade. Aquilo que deve ser considerado verdade ocorre por imposição de forças superiores e essencialmente más. No filme, não basta apenas manchar e maltratar a vida de um inocente; é preciso também humilhá-lo. E aqui entra também a questão do antissemitismo, que na época já era algo muito forte, mas que tenderia a crescer ainda mais no início do século que viria.

Escrevo sobre este filme tentando estabelecer uma rotina nesses tempos de quarentena. É apenas o segundo dia e já estou angustiado, tanto pela situação inédita e muito perturbadora pelo que passamos, quanto pela falta de contato humano maior. E olha que eu sou craque nesse lance de recolhimento. Sempre recebi com aceitação os conselhos dos astrólogos, mas o recolhimento agora é global. E necessário. Que tudo isso passe rápido e que o cinema, agora restrito aos nossos lares, nos conforte.

+ TRÊS FILMES

MEU NOME É SARA (My Name Is Sara)

Curiosamente, segundo o IMDB, o Brasil é o primeiro país do mundo a exibir este filme (além, claro de exibições em dois festivais no ano passado). É o primeiro filme de ficção do diretor e tem o seu valor, embora não mostre nada que já não tenha sido mostrado em outros filmes sobre a Segunda Guerra, com foco na maldade dos nazistas e na fuga dos judeus. Aqui temos a menina Sara que consegue se passar por não-judia em um povoado da Ucrânia e passa a morar em uma casa, recebendo como pagamento apenas comida e teto. No elenco, destaque para a polonesa Michalina Olszanska, que faz a mulher que abriga Sara. Ela tem um sex appeal interessante. Baseado em uma história real, o filme, de certa forma, ao final, serve mais uma vez para lembrarmos a monstruosidade que é o nazismo (nunca é demais dizer, ao que parece), mas até a escolha de ser falado em inglês, nos dias de hoje, parece estranho e antiquado. Direção: Steven Oritt. Ano: 2019.

LUTA POR JUSTIÇA (Just Mercy)

Por mais que seja um filme convencional de tribunal e de luta por justiça para um condenado por um crime que não cometeu, aqui já temos a vantagem de ter um ator tão bom quanto o Michael B. Jordan no papel do advogado de defesa do personagem de Jamie Foxx. Ele passa a dor de tentar peitar um sistema totalmente corrompido e racista, que é o do estado do Alabama, que parece não ter se livrado do espírito da era da escravidão. Se não fosse uma história real, até podia parecer tudo caricato, mas tendo em vista os políticos toscos que estão no poder hoje em dia, sabemos agora que pessoas cheias de maldade de fato existem. As máscaras caíram. E um filme como esse tem essa função de denunciar as injustiças cometidas principalmente a pretos e pobres e as tantas falhas nas condenações à morte um homem. Direção: Destin Daniel Creton. Ano: 2019.

O PREÇO DA VERDADE - DARK WATERS (Dark Waters)

Curioso Todd Haynes ter feito um projeto assim tão careta, por mais nobre que seja. Não que ele não tenha namorado o clássico-narrativo mais convencional, mas talvez nunca de maneira tão explícita. Em um filme que lembra as obras investigativas dos anos 70 (inclusive pela utilização de uma fotografia granulada bem bonita), DARK WATERS conta a história de um advogado de empresas químicas que passa a advogar na causa de vítimas de uma empresa que envenena a água de uma cidade. Na verdade, de muito mais do que uma cidade. É o tipo de filme que nos dá aquela sensação terrível de impotência, por mais que haja alguns momentos de vitória. Mas são tão poucos, e os grandes são tão poderosos, que é fácil desanimar. Ano: 2019.

sábado, março 14, 2020

QUATRO SÉRIES E UMA MINISSÉRIE

Dias perturbadores esses. O mundo parece estar vivendo uma espécie de apocalipse, com essa história do Corona Vírus, cancelamento de estreias em todo o mundo, várias escolas e universidades fechando as portas sem tempo definido, um prejuízo de bilhões em todo o mundo, e talvez uma festa, pelo menos por enquanto, para o mercado de streaming, já que as pessoas tenderão a ficar em suas casas, em isolamento. E dentro desse mercado boa parte das séries mais badaladas estão presentes. Todas essas mereceriam um destaque especial, mas infelizmente tem me faltado ânimo e energia. Aproveitemos este momento para comentar um pouco sobre essas produções.

LOCKE & KEY - PRIMEIRA TEMPORADA (Locke & Key - Season One)

A Netflix conseguiu trazer um projeto que estava com muita dificuldade de ver a luz. Há muitas histórias sobre o quanto a adaptação do pequeno clássico de Joe Hill e do desenhista Gabriel Rodríguez teve problemas em encontrar a TV (e no cinema). Primeiro com a Fox, que conseguiu fazer um piloto dirigido por Mark Romanek, mas que não conseguiu passar disso. Até se pensou em fazer uma trilogia de filmes, mas não vingou. Depois a Hulu tentou decolar o piloto, trazendo Carlton Cuse para a produção e Andy Muschietti para a direção, mas também não vingou. A Netflix apareceu e salvou a pátria, com Cuse se juntando a Meredith Averill como showrunners. E o resultado foi muito bom. LOCKE & KEY (2020) ganhou um apelo juvenil considerável, mas sem perder a beleza, o horror e o encanto que são características da obra original. Ainda que cheia de elementos de fantasia, e apresentando várias chaves mágicas com um forte teor de fábula, é o horror que predomina nesta história envolvendo uma família que volta para uma mansão deixada pelo pai, depois que ele é assassinado. É lá que eles descobrem chaves mágicas e também uma entidade maligna disposta a tudo para ter essas chaves. Pode parecer bobagem, mas é fácil se envolver com os personagens, que ganham muita força quando mostrados em suas fraquezas, como é o caso de Kinsey (Emilia Jones), a minha personagem favorita. E não só por ser linda. Mas aquela história de entrar na cabeça para se livrar do medo me deixou fascinado. A série sofre um pouco de uma barriga lá pelo meio, mas os dois últimos episódios são tão empolgantes, que fica difícil não ficar com uma ótima impressão. Que bom que no final tudo deu certo para a adaptação complicada deste trabalho de Joe Hill. Agora eu quero ler todas as HQs. Aliás, já estou com todos aqui do lado, esperando o momento certo, graças à generosidade de meu amigo Zezão.

INACREDITÁVEL (Unbelievable)

O que me deixou mais impactado emocionalmente em INACREDITÁVEL (2019) foi a solidão imensa da personagem da jovem Marie, vivida com brilhantismo por Kaitlyn Dever (a mesma do querido FORA DE SÉRIE, de Olivia Wilde). É uma menina que é estuprada e depois meio que forçam-na a dizer que mentiu sobre o ocorrido. Então, por mais que a partir do segundo episódio tenhamos uma ótima trama policial em busca do serial rapist, as vezes em que Kaitlyn aparece continuam pesando muito para a força da minissérie. Mas nada pode tirar o mérito das duas investigadoras, vividas pelas carismáticas Merrit Wever e Toni Collette. É muito bonita a relação que se estabelece entre elas diante de algo terrível. Não consegui deixar de chorar no final. Uma pedrada bem dada. Ainda bem que o Globo de Ouro deu destaque. Não fosse por isso, não teria chamado minha atenção. Mais um acerto da Netflix, que tem o hábito de apresentar muita coisa descartável, e por isso é preciso ficar de olho nos ótimos projetos que surgem.

SERVANT - PRIMEIRA TEMPORADA (Servant - Season One)

A trama de SERVANT (2019-2020) parte de algo que já foi visto em um terror B recente, BONECO DO MAL. Mas aí depois se revela algo muito mais sofisticado e interessante. Na trama, casal usa um boneco depois do trágico falecimento de seu filho recém-nascido. A mulher sofre de trauma e essa parece ser uma solução para ela acreditar que aquilo é um bebê de carne e osso. Um dia eles resolvem contratar uma babá. E as coisas mudam demais para eles. A menina que faz a babá (Nell Tiger Free) é ótima, passando tanto algo de perturbador e também de inocência. E o casal também (a atriz é Lauren Ambrose, a caçula da família da excelente A SETE PALMOS, de Allan Ball). Coincidência ou não, os dois episódios melhores são os dirigidos por M. Night Shyamalan, o primeiro e o nono. São mais bonitos plasticamente e os mais importantes do ponto de vista da trama/revelações. Ainda são guardadas algumas revelações para a próxima temporada, e eu não sei o quanto isso é bom. Por mais que os episódios sejam de meia hora, estender demais o mistério é para poucos e bons. Lançamento da Apple TV+.

MR. ROBOT - TEMPORADA 4 (Mr. Robot - Season 4)

Uma pena não ter me forçado a escrever com mais profundidade sobre esta última temporada de MR. ROBOT (2019). Ao final da série, fiquei tão impressionado e com o cérebro fervilhando com tanta informação que o episódio duplo trouxe, que deveria ter escrito algo, nem que fosse no calor do momento, embora a série seja bastante racional e necessite de uma mente mais centrada em fatos complexos. Acredito que Sam Esmail, como diretor de quase todos os episódios de sua criação, fez aqui sua obra-prima. Não sei se ele conseguirá se superar, mesmo estando no começo da carreira, ou se se encaminhará para outros projetos no cinema. Afinal, seu estilo faz muito mais o gênero cinema do que televisão. É muito ousada para a TV. Gosto de como esta temporada entrou mais na cabeça de Elliot e menos nas disputas com o Dark Army, embora tenha sido lindo o momento da transferência. Há um episódio especialíssimo (além dos dois finais), que é o episódio todo centrado em uma revelação do passado traumático do personagem, cara a cara com sua psicoterapeuta. Até a janela de aspecto mudou neste episódio (ficou em scope). Mas não pude deixar de me entusiasmar com a loucura que foram os dois últimos (os três, na verdade). E o final foi fantástico! Obrigado, Sam Esmail, Rami Malek, Carly Chaikin e todos os envolvidos.

MODERN LOVE - PRIMEIRA TEMPORADA (Modern Love - Season One)

John Carney continua sua especialização em unir o doce das histórias de amor com o agridoce das situações da vida, dos relacionamentos complicados etc. Mas, curiosamente, o episódio que mais me tocou não foi dirigido por Carney, mas pela atriz Emmy Rossum, que é aquele da garota que se aproxima de um homem mais velho por carência que teve do pai, que morreu cedo. Achei uma pequena pedrada. Talvez por eu já sentir o peso da idade, apesar de não ter passado ainda para a casa dos 50. Outro que me emocionou, ainda que muito simples, é o estrelado por Dev Patel e Catherine Keener, em que eles contam suas histórias de amor um para o outro. Alguns episódios são bastante centrados em diálogos mais longos, o que também é ótimo, como o da Tina Fey ou o da Sofia Boutella. E é emocionante também a história do casal gay que quer adotar uma criança. Ah, não dá para esquecer o mais inventivo de todos os episódios, o estrelado por Anne Hathaway, que brinca com o musical para tratar de um assunto muito sério, o de alguém vivendo com transtorno bipolar. Lindo, lindo.

sábado, março 07, 2020

VIVAMOS HOJE (Today We Live)

Um cineasta muito querido por mim da Velha Guarda de Hollywood, que começou a filmar ainda na fase muda do cinema, é Howard Hawks. Seus filmes têm uma assinatura tão marcante que até aqueles que são apenas roteirizados por ele, como o delicioso PILOTO DE PROVAS (1938), de Victor Fleming, tem a cara do realizador. Aqui temos Hawks exercitando um de seus temas favoritos: o dos grupos em tempos de guerra, além do gosto pela aviação. Algo que é mostrado também (falando apenas dos filmes de aviação) em filmes como A PATRULHA DA MADRUGADA (1930), HERÓIS DO AR (1936), O PARAÍSO INFERNAL (1938) e ÁGUIAS AMERICANAS aka FORÇA DE HERÓIS (1943).

Em VIVAMOS HOJE (1933), temos o primeiro filme feito com roteiro do romancista William Faulkner. Depois ele ainda faria com Hawks outros trabalhos ainda mais marcantes, como UMA AVENTURA NA MARTINICA (1944) e À BEIRA DO ABISMO (1946). É engraçado Hawks contando a Peter Bogdanovich de seu primeiro encontro com Faulkner, de como desejou matá-lo nos primeiros minutos. Mas, depois que saiu para tomar umas com ele, ficaram amigos.

O roteiro original, baseado no conto "Turn About", do próprio Faulkner, não tinha uma protagonista feminina. O que foi um problema quando o estúdio quis que Hawks fizesse o filme com a estrela Joan Crawford, linda e jovem, ainda que de mau gosto com os figurinos. Joan chorou intensamente quando leu o roteiro e não se viu em lugar nenhum. Assim, Faulkner teve o trabalho de reescrever a história, de modo que colocasse Joan em papel de destaque. Claramente, o filme é muito mais uma história de amizade masculina, algo muito comum nos trabalhos de Hawks, do que uma história de amor. Tanto é que seu final brusco parece de propósito da parte do diretor, para mostrar que estava pouco interessado em contar essa história de amor.

De todo modo, a coisa do triângulo amoroso funciona para estabelecer tensões e rivalidades. E por mais que alguns digam que o filme não é tão hawksiano na primeira parte, com as cenas de Joan com Gary Cooper e os outros rapazes no interior da Inglaterra, gosto do modo dramático como se dá o encontro do casal principal, e de como a morte do pai da personagem é sentido por toda a família. Há, inclusive, algo bastante hawksiano já nesta parte, que é a tentativa de não chorar diante das circunstâncias, de parecer forte. Isso é muito comum nos filmes do realizador.

Mas o filme ganha tintas mais bonitas mesmo quando o cenário muda para a Londres cinza da época da Primeira Guerra. E depois quando vão para a França lutar contra os austro-húngaros. Assim, de um lado temos um americano que chega à Inglaterra, se apaixona por uma mulher e acaba por aderir à guerra (Cooper), entrando nas força aérea; e de outro, os dois rapazes amigos de infância da protagonista (um deles prometido a casamento a ela; o outro irmão dela), vividos por Robert Young e Franchot Tone, que trabalham na parte naval, jogando torpedo nas bases dos inimigos.

No filme, podemos ver os ataques tanto nos ares quanto nas águas. Como Hawks era fascinado por aviação, as cenas aéreas são um dos pontos altos do filme. O personagem de Cooper, um tanto perversamente, leva o rival para o avião onde costumam trabalhar, lançando bombas aéreas e atirando no céu contra os aviões inimigos. Mas o personagem de Young é tão bobão que não sente sequer medo. Leva sua barata de estimação (!) junto com ele, em uma caixa de fósforos, para aquele passeio divertido.

As coisas ficam mais dramáticas, e ganham uma conclusão um pouco precipitada, mas totalmente coerente com o jeito heroico com que os personagens do realizador, especialmente nos filmes de guerra, tentam contribuir para a melhor resolução de tudo, ainda que seja se sacrificando. Não é como se a vida não tivesse muito valor. Ela tinha. E muito. Daí o sacrifício ser tão duramente abraçado.

+ TRÊS FILMES

O VENCEDOR (Champion) 

O filme que eu escolhi para homenagear Kirk Douglas, morto por esses dias, aos 103 anos, foi este, o seu primeiro grande sucesso. O curioso do filme é o quanto temos um personagem pelo que torcemos contra, por seus atos pouco nobres ou por tratar as pessoas como lixo. Depois do que ele faz com a bela Emma (Ruth Roman), como perdoá-lo? Mas aos poucos vemos o protagonista entrar em uma espiral de descontrole que só poderia encaminhar para algo trágico. Para o bem do próprio personagem, de seus amigos e família e para o espectador também. Não sei o quanto o filme foi pioneiro em mostrar o boxe de maneira mais violenta do que o costume, mas é algo a se pesquisar. Direção: Mark Robson. Ano: 1949.

MOEDA FALSA (T-Men) 

Meu primeiro contato com um film noir do Anthony Mann, que é sua especialidade nos anos 1940. Um dos charmes do filme é a utilização de uma narração de cunho governamental para contar a história de homens do tesouro nacional que se infiltram em grupos de falsificadores de dinheiro. Há dois personagens principais, e a parte mais interessante é vê-los se aproximando dos mafiosos para conseguir o que desejam. Há algumas cenas memoráveis, mas nada tão bom quanto o que Mann faria nos westerns dos anos 50. Qual será o melhor filme dele desses anos 40? Ano: 1947.

DA AMBIÇÃO AO CRIME (Crime of Passion) 

Se não fosse o trabalho de curadoria que o pessoal da Versátil faz nas coleções Filme Noir e outros, eu não teria tido contato com este filme. Afinal, o diretor deste título é desconhecido para mim, não é desses autores consagrados. Por isso é importante que esses trabalhos sejam apresentados ao público. Uma das coisas que fez eu desgostar um pouco do filme foi o fato de não gostar da personagem principal, da Barbara Stanywick. Ela é dominadora, chantagista e capaz de coisas que o espectador duvida. Mas é justamente por isso que a terceira parte do filme ganha força e um grau de drama que faz jus à era dos filmes noir. Sterling Hayden faz o detetive de polícia sem muita ambição que casa com ela, uma jornalista que se aposenta para viver com ele. Porém, não sei se é um filme feminista, como diz a pequena sinopse do box. Direção: Gerd Oswald. Ano: 1956.

quinta-feira, março 05, 2020

WE CAN’T GO HOME AGAIN

Que saudade de quando eu tinha mais tempo e energia e fazia as peregrinações pelas obras de alguns cineastas. Com a companhia de alguns livros, geralmente de entrevistas, já passei pelas obras de Hitchcock, Cukor, Hawks, Ford, Almodóvar e por um grande cineasta da velha guarda de Hollywood que tem um histórico de vida também interessante, Nicholas Ray. Acompanhei os vários trabalhos do diretor junto com a leitura do livro The Films of Nicholas Ray, de Geoff Andrew, que apresenta ensaios do autor sobre cada um dos títulos do cineasta.

Vi quase todos os longas-metragens de Ray, seja alugando, seja baixando da internet. Só ficava faltando WE CAN’T GO HOME AGAIN (1973), este trabalho experimental e considerado incompleto, já que o diretor apresentou-o pela primeira vez no Festival de Cannes em uma versão considerada não definitiva. Ray ficou trabalhando na versão final até morrer, em 1979, mas sem chegar ao fim. Aliás, quem tiver a curiosidade mórbida de ver os últimos dias do cineasta precisa ver o excelente UM FILME PARA NICK (1980), feito a quatro mãos com Wim Wenders.

Acho difícil falar de WE CAN’T GO HOME AGAIN, já que eu não embarquei no filme. Vi parcelado em três vezes, por não ser assim tão fácil de acompanhar. No início, ,pelas inúmeras janelas no mesmo quadro apresentando diferentes ações; depois, pelo fato de essas ações não terem nenhuma unidade narrativa - pelo menos, não do ponto de vista mais convencional.

O filme é um trabalho diferente de tudo que ele fizera até então. Foi como se Ray precisasse se juntar aos jovens para que tivesse uma espécie de recomeço. Um recomeço radical, já que o filme foi feito em conjunto com um grupo de estudantes de cinema. Assim, há filmagens e refilmagens de dramatizações específicas e um tanto confusas, mas há também conversas de Ray com seus alunos. Ele agia como uma espécie de pai e mentor, embora alguns alunos questionassem o que ele dizia. Uma garota chegou a dizer: “Você acha que você sempre tem razão, só por que é velho e fez muitos filmes?”. Ele disse que não saberia responder essa pergunta.

Aí entra algo que talvez tenha me tocado mais no filme, que é a velhice, a decadência física do diretor. Há uma cena em que alguém pergunta a ele por que usar um tapa-olho e ele diz que talvez por vaidade. Uma vaidade que, pelas vestimentas e pelos cabelos desgrenhados, já estava claramente diminuindo naquela etapa da vida do realizador. No filme, ele morre duas vezes: a primeira, atropelado vestido de Papai Noel; a segunda, enforcado, suicidando-se, para dar uma espécie de última lição a seus pupilos. Achei ambas as soluções ruins, mas certamente há razões de ser.

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INAUDITO

Uma coisa que mesmo nós, que vemos muito filmes e estamos preparados para experiências diferentes, é saber aceitar o filme pelo que ele é e não pelo que você esperava que fosse. Caí nessa armadilha com INAUDITO, talvez pela sinopse, que chama a atenção da importância do guitarrista Lanny Gordin na história de músicos como Caetano Veloso, Gal Costa, Jards Macalé, Gilberto Gil etc na virada dos anos 60 para os 70. O que o filme nos apresenta, porém, é o Gordin hoje, fazendo um tipo de música diferente e lidando com a questão da loucura, como o fato de ouvir vozes, de ter sido internado em um hospital psiquiátrico etc. O diretor acaba criando uma obra experimental, com tomadas estranhas, uma trilha sonora diferente e as palavras nem sempre compreensíveis de Gordin, que disserta sobre a natureza da música, sobre seu encontro com um E.T., sobre evolução espiritual etc. É um filme desafiador. Direção: Gregorio Gananian. Ano: 2017.

O FILME DO BRUNO ALEIXO

Se já é raro surgirem por aqui comédias portuguesas, ter um filme como este é uma oportunidade e tanto. Bruno Aleixo é um famoso personagem e apresentador de talk show de Portugal. O filme faz piada com várias celebridades portuguesas, o que pode perder um pouco da graça para nós que não os conhecemos, mas isso não prejudica a fruição e o prazer que dá essa brincadeira de tentar pensar argumentos de filmes. Não exatamente se trata de uma animação, embora haja animação também. Melhores momentos: a primeira ideia de Bruno para um filme (o Papa justiceiro); o filme de jovens cumprimentando as meninas; e o chocolate. Aliás, o ator que faz um dos personagens/atores me lembrou muito o Bolaños. Direção: João Moreira e Pedro Santo. Ano: 2019.

A CIDADE DOS PIRATAS

A presença de Laerte é tão interessante que eu acho uma pena esta animação experimental, por assim dizer, não se deter mais em sua história. Tudo bem que há um documentário sobre ele (e eu vou atrás para saber mais detalhes), mas o diretor Otto Guerra se mostra bem interessado. Pena que algumas das histórias que se mostram no filme não são tão empolgantes, como as aparições dos piratas do título. Por outro lado, o drama do câncer do cineasta é interessante, mas poderia ser mais explorado. Dos demais personagens, gosto do sujeito casado que se traveste escondido da esposa e a do político homofóbico que tem sonhos gays. Ano: 2018.

domingo, março 01, 2020

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man)

A Universal Pictures é uma produtora e distribuidora que tem um histórico bonito na década de 1930, quando foi a principal referência do que se fazia de cinema de horror em Hollywood. Começou a trazer os chamados monstros clássicos. Primeiro Drácula, depois Frankenstein, depois a Múmia, o Homem Invisível, o Lobisomem e o Monstro da Lagoa Negra. Além de variadas continuações e derivados desses personagens. Foi um sucesso estrondoso que durou mais de duas décadas.

Na última década, porém, a Universal havia tentado, em vão, sucesso em trazer de volta esses monstros, em nova roupagem. Tentaram com O LOBISOMEM (2010), com um diretor bom, Joe Johnston, e, apesar de o filme não ser ruim, pouca gente lembra. Em seguida, o estúdio teve a ideia de contar uma história diferente de um de seus ícones. O resultado foi DRÁCULA - A HISTÓRIA NUNCA CONTADA (2014), dirigido por Gary Shore, que acabou caindo no esquecimento. O mesmo ocorreu com VICTOR FRANKENSTEIN (2015), de Paul McGuigan, estrelado por Daniel Radcliffe, e chegou mesmo ao fundo do poço com A MÚMIA (2017), de Alex Kurtzman. Nem com a presença de Tom Cruise no elenco o filme conseguiu ganhar as audiências. Por isso, a ideia do estúdio de criar um chamado Dark Universe acabou sendo arquivada.

Assim, chegamos finalmente a O HOMEM INVISÍVEL (2020), que nem tinha um diretor de primeiro escalão ou com uma obra tão marcante à frente. O australiano Leigh Whannell, que até então só havia dirigido dois longas, sendo um deles o pouco inspirado SOBRENATURAL - A ORIGEM (2015), seria, portanto, o responsável por dar uma repaginada na história de Adrian Griffin (o primeiro nome não aparece no romance de H.G. Wells e é geralmente mudado a cada adaptação para o cinema), o homem que ficaria insano após uma experiência de se tornar invisível.

O grande acerto de Leigh Whannell, que assina também o roteiro, é que há agora uma mudança de ponto de vista, que passa a ser da esposa de Griffin, uma mulher abusada e violentada e que foge de uma moderna e sofisticada casa de vidro à beira-mar em uma primeira sequência cheia de tensão. Vivida pela excelente Elisabeth Moss, Cecilia Kass consegue unir a fragilidade e a fortaleza em um único personagem, uma mulher profundamente traumatizada pelo marido, que é tido como morto. Seria uma boa notícia, mas ele deu um jeito de ter forjado a própria morte e agora está invisível para atormentá-la. Obviamente ninguém acredita nessa história e ela é tida como louca. O próprio filme traz possibilidades de que tudo não passa de loucura da personagem.

O interessante de tudo é que não vemos os tais maus tratos sofridos por Cecilia durante o casamento, mas aceitamos de bom grado seu medo intenso do marido sádico e monstruoso. E o que é ainda mais fantástico é que o filme consegue passar um clima de medo e tensão constantes, à medida que sabemos que há alguém dentro daquele espaço grande da janela scope. Whannell é sábio também em não enfatizar espaços claustrofóbicos ou muitas tomadas em close-up. Temos várias cenas em que vemos o espaço da casa, com a protagonista aparecendo no canto, enquanto os móveis e as paredes ocupam os dois terços do quadro.

A elegância dos planos é um destaque, assim como é também o uso magnífico do som e da música, que dá um tom de ainda mais horror à situação de perseguição que a desacreditada personagem sofre o tempo inteiro. Vale destacar o nome do compositor: o inglês Benjamin Wallfisch, que havia trabalhado em filmes como BLADE RUNNER 2049 (2017) e IT - A COISA (2017), entre outros. Mas é neste O HOMEM INVISÍVEL que vemos a excelência de seu trabalho. Em entrevista ao site Moviemaker, ele contou que se inspirou na trilha de Bernard Herrmann para PSICOSE. Ou seja, há momentos de completo silêncio, e outros em que a música aparece cortando agressivamente como uma faca nas mãos de alguém louco ou desesperado.

Há outros elementos hitchcockianos em O HOMEM INVISÍVEL, como os twists, as surpresas. E podemos dizer que temos uma obra tão bem-sucedida, que consegue, diferentemente de muitos filmes do gênero, chegar ao seu clímax e continuar ainda forte, intenso, capaz de deixar o espectador prendendo a respiração. Há também uma dose generosa de gore e uma cena de ação fora de série (a cena do manicômio). Além do mais, ter uma atriz como a Elisabeth Moss, que já interpretou outras sobreviventes sofridas em séries como TOP OF THE LAKE e THE HANDMAID'S TALE, foi uma aquisição e tanto, e ela em si já é um símbolo desses tempos de luta contra a violência doméstica e o abuso sexual, dentro de uma obra que apresenta uma mulher à sombra de um relacionamento abusivo.

P. S: Quem tiver a oportunidade de ver o filme em uma sala IMAX, não deixe de aproveitar essa chance de ouro.

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A HORA DA SUA MORTE (Coutdown)

Para um filme que tem como intenção apenas a diversão de um público juvenil, até que A HORA DA SUA MORTE é bem-sucedido. Não faltam momentos de sustos (alguns nem sempre funcionam, é verdade, mas outros sim). A ideia é boa e ao que parece original. Afinal, ninguém havia feito um filme sobre um app de contagem para os dias de vida. Depois disso, a narrativa lembra um bocado a franquia PREMONIÇÃO, com a diferença que aqui temos uma espécie de demônio para buscar as pessoas na hora da morte. E o filme lida com o sobrenatural de maneira cristã, com ajuda de um padre e tudo. No mais, é redondinho, tem uma atriz linda como protagonista (a jovem Elizabeth Lail), mas também pode ser esquecível. Direção: Justin Dec. Ano: 2019.

MARIA E JOÃO - O CONTO DAS BRUXAS (Gretel & Hansel)

Há pelo menos dois motivos para ir ao cinema ver este filme: o primeiro é a presença brilhante da jovem Sophia Lillis, que cada vez mais vem se mostrando uma grande atriz; o segundo é o visual lindo (a fotografia, a direção de arte, os ângulos de câmera inusitados e até alguns momentos que lembram A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowsky). Achei um tanto confuso no modo como coloca a trama no início, mas tem uma bela construção de climas. E o aspecto bizarro é, de certa forma, suavizado (no sentido de não exagerar), dando às cenas mais características de filmes de horror um aspecto de sonho/pesadelo. Há também uma questão feminista forte, ligada ao protagonismo da mulher, associado à questão das bruxas e o medo que ela pode trazer aos homens. Para um diretor que fez o seu terceiro filme protagonizado por uma mulher, não deixa de ser um ponto de intersecção interessante. Direção: Oz Perkins. Ano: 2020.

ZUMBILÂNDIA - ATIRE DUAS VEZES (Zombieland - Double Tap)

Não lembro de ter gostado tanto do primeiro quanto gostei deste. Canção foda do Metallica nos créditos iniciais, Emma Stone mais linda e apaixonante do que nunca (e sem precisar se esforçar muito), elenco de apoio muito bom (a entrada de Rosario Dawson e a cena na nova Graceland são pontos altos), e um humor que quase sempre acerta. O problema é quando não acerta, mas isso é normal. Não dá pra ficar pedindo para rir de todas as cenas. Até porque tem piadas que parecem muito americanas. Além dos diálogos espirituosos, há boas coreografias nas cenas com os zumbis e bem-vindas referências pop. Eu veria um terceiro filme com essa turma muito de boa, mas não sei se haverá. Já não deve ter sido muito fácil reunir os três astros. Direção: Ruben Fleischer. Ano: 2019.

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

FOURTEEN

Curioso como alguns filmes parecem ao mesmo tempo atraentes e fugidios. Como se fossem sonhos bons. Ou nem tão bons, já que o tema abordado nem sempre é dos mais felizes. FOURTEEN (2019) representaria esse tipo de filme. E é um filme que fala sobre depressão. O diretor, o cinéfilo e crítico Dan Sallitt, decide contar sua história pelo olhar da amiga da pessoa que sofre com a doença.

Somos apresentados a duas jovens: Mara (Tallie Medel) e Jo (Norma Kuhling). Mara faz o tipo mais comum e parece ter um misto de admiração e inveja da amiga Jo, que faz um tipo sedutor, com uma beleza que remete a modelos. Enquanto Mara costuma ter apenas um namorado, Jo não se importa em brincar quando o assunto é relacionamento.

Mara costuma ajudar bastante a amiga, que está sempre passando por problemas, como nas várias vezes em que é demitida dos empregos. Até que, depois de anos, Mara perde a paciência com Jo. “Você sempre está precisando de alguma coisa; fica difícil”, desabafa a mais sensata das duas. Durante uma das cenas mais longas desse filme que parece uma sucessão de esquetes curtas, a câmera se aproxima de Jo, enquanto ela confidencia seus problemas à amiga, remetendo a algo ocorrido com ela aos quatorze anos de idade. O filme não explicita o que ocorreu, mas é fácil inferir.

No que se refere à estrutura narrativa e à dramaturgia, FOURTEEN lembra alguns trabalhos de Eric Rohmer, autor que, curiosamente, parece estar sendo um dos cineastas mais influentes para a nova geração de cineastas. As cenas são curtas, há muitos diálogos, encontros e reencontros. E há também enormes elipses temporais e uma brincadeira com o olhar do espectador em uma tomada de uma estação de trem.

Mas o que mais importa é o quanto o filme nos coloca igualmente interessados nas vidas das duas protagonistas. A beleza triste do final acentua a delicadeza dessa pequena grande obra.

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UMA MULHER ALTA (Dylda)

Acho problemático um filme cuja personagem-título se torne menos interessante que a suposta coadjuvante, a amiga ruiva que retorna da guerra para ver o filho que a amiga loira e alta cuidava. Como a maioria dos filmes russos, este aqui é duro e com pouco espaço para humor. Os momentos de riso trazem personagens com comportamentos estranhos. O sorriso no rosto de Masha é ao mesmo tempo belo e bizarro, já que aparece muitas vezes em ocasiões desconfortáveis. As duas atrizes estrearam com este filme, o segundo longa do realizador de TESNOTA (2017), um filme também um tanto difícil, mas, por ser mais contemporâneo, se aproxima mais de nossos costumes. Destaque mais uma vez para o belo uso das cores fortes (roupas, cores das portas), que se destacam em ambientes um tanto mortos. Prêmio de melhor direção na Mostra Un Certain Regard em Cannes. Direção: Kantemir Balagov. Ano: 2019.

FRANKIE

Só tenho acompanhado a carreira de Ira Sachs desde DEIXE A LUZ ACESA (2012), e tive a impressão de que este novo filme é diferente, não apenas por não abordar de maneira mais direta a homossexualidade, como os três anteriores, mas por ter uma relação mais próxima com o cinema europeu. É sempre um prazer ver a Isabelle Huppert em ação, e ter um elenco tão diverso e tão bom conta pontos demais a seu favor. Adoro uma cena específica de Huppert com Marisa Tomei (emotiva e contida, ao mesmo tempo); gosto demais de todas as vezes que Brendan Gleeson está em cena. Talvez o ponto fraco esteja em alguns personagens, como o casal que está se separando e a filha deles que vai à praia. Embora trate também de perda, não tem a mesma força da trama principal, por assim dizer. Ainda assim, adoro os silêncios e também os dois momentos ao som de piano. Se todo filme mediano fosse assim, eu ficaria mais feliz. Ano: 2019.

1917

Interessante como 1917, quando passa a se centrar em apenas um dos personagens e, com isso, perde o seu aspecto mais afetivo, vai se tornando algo próximo de um jogo, de um videogame, ou coisa assim. Há a missão a ser cumprida e os inúmeros obstáculos. A fotografia é linda e ver em IMAX é um deslumbre, há algumas cenas marcantes, mas à medida que o filme vai chegando ao seu clímax vai perdendo a força, em vez de causar um tipo de emoção gerada pelo cansaço físico e emocional do protagonista. A brincadeira com o uso do plano-sequência único é divertida, e é legal perceber que em alguns momentos deixamos de prestar atenção nesse aspecto, mas às vezes isso parece ser o principal sentido de existir de 1917. O Sam Mendes sensível de POR UMA VIDA MELHOR (2009) junto com o mestre na direção de ação de 007 - OPERAÇÃO SKYFALL (2012) poderiam ter resultado em algo melhor. Ano: 2019.

sábado, fevereiro 22, 2020

MENTIRAS (Gojitmal / Lies)

Estava procurando nos meus caderninhos de anotações dos filmes que via no cinema (infelizmente só passei a fazer essas anotações a partir de 1998), e fiquei curioso quando vi que só assisti MENTIRAS (1999) em janeiro de 2002, no então chamado Espaço Unibanco Dragão do Mar. Foi um impacto e tanto pra mim ver este filme. E esse impacto - e o modo como mexeu com algumas fantasias s&m que eu tinha e não sabia disso - ficou mais forte do que a própria lembrança da história. Claro que me lembrava de algumas coisas, como uma cena de sexo anal e principalmente das porradas na bunda com paus e gravetos, tanto na moça quanto no homem, mas quase vinte anos fazem muita diferença na memória de uma pessoa.

O que faz o trabalho de Sun-Woo Jang fugir da vulgaridade, mesmo se aproximando tanto de um filme pornô em alguns momentos, é sua sensibilidade em mostrar a evolução da relação um tanto doentia entre a garota de 18 anos Y (Tae Yon Kim) e o homem de mais de 40 J (Sang Hyun Lee). Na trama, ela é uma garota que, para não seguir o exemplo das duas irmãs mais velhas, que começaram sua vida sexual sendo estupradas, ela decide perder a virgindade com esse homem mais velho com quem ela tem se comunicado a distância.

Para isso, eles marcam de transar em um motel. E toda a expectativa, todo o início de tudo, o encontro, as preliminares, tudo é muito excitante. O misto de frio na barriga com outras sensações menos nobres, por assim dizer, são praticamente inevitáveis. E só por esse início MENTIRAS já valeria a espiada. Acontece que há muito mais a seguir, já que o personagem masculino tem por hábito a vontade de usar métodos de sadomasoquismo para encontrar um prazer maior. Como ele encontra a aceitação fácil da jovem, a relação dos dois passa a ser cada vez mais brutal, ainda que sempre consentida, sendo que inicialmente eles usam ferros, depois gravetos e depois até coisas mais pesadas.

Ele já havia tentado com a esposa, mas ela achava aquilo um absurdo e fugira disso. Como a esposa, uma pintora, passava boa parte do tempo em Paris, para ele era tranquilo encontrar com a jovem Y, que fica cada vez mais apaixonada por ele. Ao mostrar as feridas nos glúteos para a amiga (que fica ao mesmo tempo assustada e enciumada), devido à sessão de chicotadas que deixam marcas fortes, inclusive na coxas e na panturrilha, ela diz que gosta de tudo que o J faz.

O filme chega a um estágio em que o sujeito larga a vida profissional para ficar com a garota, vivendo apenas de sexo e porrada, procurando gravetos no chão como se fossem viciados em crack, enquanto pedem dinheiro emprestado para conseguirem lugar para morar e se alimentar.

MENTIRAS também não trata de culpar um ou outro pelo comportamento ou de apresentar aquilo como um traço horrível. Isso vai de acordo com a visão do espectador. O que podemos ver é também uma relação de afeto forte que se cria entre o casal de amantes. As últimas cenas, por exemplo, são de cortar o coração.

O interessante é que este foi o primeiro filme sul-coreano que eu vi. Mal sabia eu que poucos anos depois as produções do país virariam febre, a ponto de ter um filme ganhando melhor estatueta em festa do Oscar. Também não sabia o quanto os sul-coreanos são bons em lidar com o sexo. Anos depois eu assistiria o excelente e altamente excitante A CRIADA, de Chan-wook Park, e conheceria o maravilhoso Hong Sang-soo, que também usaria do sexo em seus primeiros trabalhos. Foi muito bom poder rever MENTIRAS e ver que continua cheio de força e uma capacidade enorme de excitar, por mais que também possa trazer sentimentos de angústia ou outro tipo de desconforto.

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O ÚLTIMO AMOR DE CASANOVA (Dernier Amour)

Acho até fácil se apaixonar pela Stacy Martin. Comprei as cenas dela tentando se fazer de difícil para o Casanova, criando uma carga de tensão sexual muito interessante, a ponto de um beijo já ser uma conquista e tanto. Isso, levando em consideração que o personagem masculino já havia visto a moça prestando serviços sexuais por dinheiro. Pena que o filme a certa altura perde um bocado do rumo, embora possamos dizer que isso talvez simbolize um pouco o sentimento do protagonista. De todo modo, dos filmes de Benoît Jacquot, ainda fico com ADEUS, MINHA RAINHA (2012) e com 3 CORAÇÕES (2014). Ano: 2019.

O CONTO (The Tale) 

Falta pouco para ser um grande filme. A história em si é impressionante e chocante, além de também ser bem inventiva no modo como ela é descortinada, até sabermos detalhes sobre o abuso sexual sofrido pela própria diretora em sua infância. O interessante do filme é como ele coloca a questão de maneira bem complexa. A garotinha que faz a Dern novinha é ótima. Direção: Jennifer Fox. Ano: 2018.

DESOBEDIÊNCIA (Disobedience)

Gostei demais dessa experiência de Sebastián Lelio no cinema de língua inglesa. Ainda mais com a força das duas Rachels: Weisz e McAdams. Muito fodas essas meninas. Faltou algo na parte do rabino. Eu não senti a dor dele. E talvez isso seja uma falha, não sei.. Mas me envolvi muito com o romance proibido das duas mulheres. E que linda que é a cena de sexo, hein. As cenas litúrgicas (dá pra chamar assim?) também são belas. Ano: 2017.

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

O GRITO (The Grudge)

Ao final de cada ano, vemos interessantes listas de melhores filmes de terror. Não é nenhuma surpresa perceber que a maior parte dos títulos presentes nessas listas se encontra inédita nos cinemas brasileiros, ou foi lançado de maneira discreta ou quase invisível em algum serviço de streaming. Enquanto isso, o número de filmes do gênero de baixa qualidade que chegam aos cinemas tem aumentado bastante.

Só neste ano tivemos AMEAÇA PROFUNDA (que é meio sci-fi e meio filme de ação também), A POSSESSÃO DE MARY, OS ÓRFÃOS e, nesta semana, O GRITO (2020), de Nicolas Pesce. Todos esses são filmes recebidos sem entusiasmo pela crítica e pelo público. Não comento coisas mais alternativas como O FAROL e ANTOLOGIA DA CIDADE FANTASMA, pois são filmes que são mais da linha arthouse, exibidos em festivais internacionais e selecionados por distribuidoras independentes que costumam fazer uma curadoria de suas aquisições.

Por que não existem distribuidoras independentes que se preocupam com a qualidade das obras a serem exibidas e ganham um bom nome, em vez de trazerem apenas tranqueiras? Tudo bem que para quem é fã de horror, as tranqueiras também são bem-vindas, mas não precisam exagerar. No caso de O GRITO, temos pelo menos dois motivos para sua chegada: primeiro, a boa popularidade da franquia na primeira metade dos anos 2000; e segundo, o fato de ser distribuído por uma major. O nome de Nicolas Pesce também poderia ser uma boa desculpa, já que seus filmes anteriores, OS OLHOS DA MINHA MÃE (2016) e PIERCING (2018), tiveram algum sucesso entre os fãs do gênero. Não deixa de causar uma curiosidade sua primeira incursão em uma produção de orçamento maior.

O GRITO não é uma refilmagem da produção americana de 2004 estrelada por Sarah Michelle Gellar, mas apresenta uma história diferente, ambientada no mesmo universo e naqueles anos de 2004-2006. É ao mesmo tempo uma sequência e um reboot. É um filme que tem os seus acertos, como a não vulgarização dos sustos, a preferência por uma atmosfera de angústia e desconforto na condução da trama, e uma interessante teia de linhas temporais. Além da linha principal, com a presença de Andrea Riseborough como uma detetive de polícia viúva que se interessa pelo caso e pela casa amaldiçoada, há duas outras linhas temporais: uma em 2004 e outra em 2006.

Outro ponto positivo do filme está na presença de duas atrizes que funcionam muito bem para o gênero horror: Jacki Weaver, que esteve presente em BIRDBOX, de Susanne Bier, e em A FACE DO MAL, de Mac Carter; Lin Shaye, rosto conhecido de quem viu a franquia SOBRENATURAL. Ambas têm um rosto muito expressivo para filmes de casa assombrada.

O mal estar que o novo O GRITO cria é de duas naturezas, sendo que uma delas é louvável, já que o mal gerado pela maldição que parece não ter fim depois que atormenta suas vítimas é um tanto perturbador mesmo. Nisso, o diretor tem os seus méritos. O outro mal estar se mostra presente no andamento tedioso da trama, que, com tantos personagens, alguns até bem interessantes, com o do corretor vivido por John Cho, não consegue fazer o espectador se encantar ou se importar com o filme. Uma pena. Mesmo assim, não é um filme que mereça o desprezo, não.

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ELI

Um dos méritos deste filme é seguir por um caminho que a gente jamais imaginaria que fosse seguir. Ao mesmo tempo, parece tudo muito forçado. Uma pena, já que o começo do filme é bem instigante e o foco no drama do garoto que tem fortes problemas alérgicos às voltas com uma casa/hospital estranho é bem interessante. O diretor é o mesmo do subestimado A ENTIDADE 2, um desses filmes que eu lembro de ter adorado ver na época, mas que ninguém nunca deu bola. Direção: Ciarán Foy. Ano: 2018.

ANTOLOGIA DA CIDADE FANTASMA (Répertoire des Villes Disparues)

Eis um filme que custou muito a me ganhar. Em certo momento, lembra um pouco LES REVENANTS, a série francesa. Mas o tom aqui é mais de mistério e terror, ainda que o medo esteja mais presente nos personagens e suas reações do que na atmosfera pretendida. Certamente, há metáforas que não percebi, mas, é o que sempre digo: filme de gênero, por mais arthouse que seja, precisa conquistar o espectador primeiro na forma e na narrativa, para depois ganhar no que ele apresenta abaixo da superfície. Na trama, uma cidade tem sua rotina mudada depois de um acidente (?) de carro que ocasionou a morte de um jovem de 21 anos. Direção: Denis Côté. Ano: 2019.

SEM SEU SANGUE

Vejo como um dos principais acertos do filme, por mais que eu não tenha embarcado na viagem, é o fato de ele ir se transformando aos poucos. Ou pelo menos não entrega sua proposta na primeira metade. Há desde o início uma relação forte com o mar, coisa que se potencializará em sua conclusão, mas a princípio o que vemos é uma história de amor que se transforma em uma história de luto, que depois se transforma em algo totalmente inesperado. Nem sempre vejo como acertadas as escolhas e, como filme com simbolismos, até pode ser bastante rico, mas parece faltar mais força na construção da atmosfera. Ainda assim, é um filme que merece ser visto quando entrar em cartaz. Direção: Alice Furtado. Ano: 2019.

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

AVES DE RAPINA - ARLEQUINA E SUA EMANCIPAÇÃO FANTABULOSA (Birds of Prey - And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn)

A DC/Warner parece não ter se incomodado muito com as críticas negativas de ESQUADRÃO SUICIDA (2016), quase uma unanimidade entre os piores filmes do universo de super-heróis já feitos ultimamente. Como a presença de Margot Robbie no papel de Arlequina foi um dos poucos - se não o único – acertos do filme, o estúdio resolveu investir em um novo filme que trouxesse a personagem, que no anterior aparece como a namorada do Coringa, aqui mais tratado como Mr. C (ou Mr. J, no original).

Já na época do ESQUADRÃO SUICIDA, muito foi falado sobre a questão do relacionamento abusivo e tóxico dos dois, e AVES DE RAPINA – ARLEQUINA E SUA EMANCIPAÇÃO FANTABULOSA (2020) começa justamente com a separação dos dois, o sofrimento de Arlequina e sua posterior volta por cima, com um misto de bom humor e violência. Aliás, é curioso como as cenas de violência parecem uma fusão da violência cartunesca dos antigos desenhos da Warner, como Pernalonga, e a violência dos próprios filmes de gângster do estúdio.

Ou seja, o que temos aqui é uma versão atualizada e hipercolorida desses filmes que fizeram a fama do estúdio. As cenas de Arlequina quebrando as pernas de seus inimigos - são duas que se destacam - são até bastante gráficas, embora não vejamos sangue. Ainda assim, há uma leveza na personagem, apesar de isso ser um tanto contraditório com parte de seus atos, como entrar com uma arma caracterizada ao seu estilo. Como as cenas de ação são apenas o.k., não trazendo nada de mais, o que acaba se destacando é a força do carisma de Margot, mesmo com uma personagem com diálogos fracos.

AVES DE RAPINA, aliás, começa até interessante, com uma narração que lembra um pouco os primeiros filmes de Quentin Tarantino, com idas e vindas no tempo, a partir do ponto de vista de Arlequina. Como ela é a personagem principal, as demais personagens femininas que se juntam para um bem comum no último ato do filme, acabam tendo bem menos força. A personagem de Mary Elizabeth Winstead, por exemplo, é uma pena que seja tão fraca. Outra personagem muito querida nos quadrinhos é a detetive de polícia Renee Montoya, vivida no filme por Rosie Perez, mas que também, infelizmente, não é nada carismática na versão para cinema. E aí temos a Canário Negro (Jurnee Smollet-Bell), que faz o papel da motorista do gângster vivido por Ewan McGregor (um desperdício para uma personagem tão icônica).

Por falar em McGregor, é impressionante como seu personagem é irritante. Até dá para relevar, levando em consideração o tom debochado do filme, mas esse deboche é tanto que passa aquela impressão de desprezo do estúdio pela própria produção, uma das menos hypadas dos filmes de super-heróis recentes. Será que isso já aponta para uma diminuição na popularidade dessas produções? É possível. Tudo chega ao fim.

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A GRANDE MENTIRA (The Good Liar)

Só em ter dois grandes atores como Helen Mirren e Ian McKellen, já passando da casa dos 70, em papel ótimo e muitas vezes físico, este filme já merece a atenção. Além de tudo, ainda é um belo thriller sobre um golpe perpetrado pelo personagem de McKellen, embora seja algo além de apenas isso. Acho que o filme perde um pouco o ritmo no momento do flashback, mas não poderia também ter deixado de lado. Acho que o problema é que os jovens atores não tinham o mesmo carisma dos veteranos. Talvez tenha sido isso. No mais, a produção também é muito bem cuidada. Direção: Bill Condon. Ano: 2019.

AMEAÇA PROFUNDA (Underwater)

Primeira produção de 2020 a chegar em nossos cinemas, o grande chamariz do filme é sem dúvida a presença de Kristen Stewart. Queria mesmo era vê-la em SEBERG, mas nem sei se este estreará nos cinemas. Aqui temos uma obra que parece um ALIEN debaixo d'água. Até mesmo a heroína com roupas de baixo, a exemplo de Ripley, nós temos. Mas o mais importante, que é a questão do envolvimento com o suspense, o mistério e as cenas de ação, tudo isso vai se perdendo ao longo da narrativa. Até começa bem e interessante, mas aos poucos o diretor vai perdendo a mão, mostrando que ele não tem nada de novo para apresentar. Uma pena. Direção: William Eubank.

EXTERMINADOR DO FUTURO - DESTINO SOMBRIO (Terminator – Dark Fate)

Vale mais pelas cenas de ação, pela novidade de trazer duas novas personagens femininas, por ser um filme protagonizado por mulheres e em que as mulheres são as donas da situação e por ter um Arnoldão ainda sabendo lidar com o humor. Melhores cenas: primeira perseguição na rodovia; embate 3 contra 1; a cena de ação dentro do avião (essa, na verdade, eu nem sei se é mesmo boa, mas vale pela coragem). Gostei da Mackenzie Davis. Ela é a loirinha de San Junipero, talvez o melhor episódio de BLACK MIRROR. No mais, na torcida para que não façam mais filmes de TERMINATOR. Já chega, né? Direção: Tim Miller. Ano: 2019.

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

OSCAR 2020

Foi sem dúvida uma das premiações mais importantes do Oscar em muito tempo. Não era exatamente uma novidade a presença de um candidato estrangeiro na lista dos melhores do ano. Já havia acontecido antes com A VIDA É BELA, de Roberto Benigni, AMOR, de Michael Haneke, e O TIGRE E O DRAGÃO, de Ang Lee, que não conseguiram o prêmio principal. Por isso foi uma surpresa e tanto ver o então favorito 1917, de Sam Mendes, sendo batido por PARASITA, o celebrado filme de Bong Joon Ho, que já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes e estava presente na maioria das listas de críticos de melhores do ano.

De fato, não parecia ter muito sentido premiar 1917. Por quê? Apenas pela proeza técnica? Algo que nem é nem uma novidade? Hitchcock já fizera essa experiência lá em 1948 com FESTIM DIABÓLICO, Aleksandr Sokurov fez isso em 2002 com ARCA RUSSA, e mais recentemente tivemos o filme norueguês UTOYA - 22 DE JULHO, de Erik Poppe.

Como o Oscar costuma seguir uma espécie de narrativa, não havia um motivo atual para que um filme que tivesse tão pouco a oferecer, como 1917, dentro da atual situação política mundial, ser o título laureado nos Estados Unidos (na Inglaterra, com o Bafta, até fez algum sentido). Houve, inclusive, uma matéria da Variety que falava justamente isso: o porquê de 1917 ser o último filme que deveria ganhar o Oscar. Ou seja, todos os demais candidatos pareciam mais relevantes, inclusive a premiação de cineastas consagrados como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, que entregaram obras lindas.

A cerimônia de ontem corria um pouco tediosa, sem nenhuma surpresa - os quatro prêmios para os atores e atrizes eram certos e foram confirmados - e aos poucos fomos vendo que era verdade que O IRLANDÊS sairia dali sendo o único dos nove indicados a melhor filme sem nenhuma estatueta. Assim, a grandeza de Scorsese ao menos seria reconhecida pela homenagem que Bong Joon Ho faria ao receber o prêmio principal no final da festa, quando todos pareciam impressionados com o feito da produção sul-coreana.

Quanto à cerimônia, as apresentações musicais das canções indicadas foram um tanto monótonas. Se bem que o show de Janelle Monáe abrindo com "Won't you be my neighbor?", de UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA, e depois fazendo referências a outros filmes, como NÓS, MIDSOMMAR e CORINGA, foi de dar gosto. No mais, foi no mínimo estranha a apresentação fora de roteiro de Eminem. Fiquei sem entender o motivo e, ao que parece, foi uma espécie de dívida da Academia, ou do própria artista, sendo paga. Mas ficou feio, principalmente porque o clipe musical com algumas canções marcantes exibido antes foi bem ruim.

Ajudou a tirar o gosto ruim a apresentação linda de Billie Eilish na seção In Memoriam, cantando "Yesterday", dos Beatles. A escolha da jovem cantora foi um acerto dos organizadores e ela conseguiu imprimir um tom de melancolia adequado àquele momento, de despedida respeitosa a artistas como Terry Jones, Agnès Varda, Danny Aiello, Stanley Doney, Anna Karina, Bibi Andersson, Doris Day, Rutger Hauer, Peter Fonda, Kirk Douglas, e tantos outros que se foram neste último ano.

Quanto aos discursos, o mais poderoso foi o de Joaquin Phoenix, cheio de amor e de gratidão para com aqueles que lhe deram segundas chances quando ele parecia não merecer. Algo que vai contra à atual cultura do cancelamento.

Para nós, brasileiros, a presença de DEMOCRACIA EM VERTIGEM entre os indicados a melhor documentário foi um presente, por mais que torcer por ele fosse um sonho e mais uma vontade de aumentar ainda mais a visibilidade do filme. De todo modo, a Netflix já fez um belo trabalho, tornando-o popular e disponível em várias partes do mundo, em muitos e muitos lares. Venceu o documentário produzido pelo casal Obama, INDÚSTRIA AMERICANA, que também tem sua relevância política.

A pergunta que fica no ar ao final da premiação e passado toda a surpresa é: a premiação de PARASITA representa uma abertura da Academia para o cinema internacional? O Oscar se tornará mais aberto e menos uma premiação quase exclusiva do cinema americano? Será o início de uma nova era para a academia? Ou haverá um recuo protecionista? É esperar para ver.

Os Premiados

Melhor Filme – PARASITA
Direção – Bong Joon Ho (PARASITA)
Ator – Joaquin Phoenix (CORINGA)
Atriz – Renée Zellweger (JUDY - MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS)
Ator Coadjuvante – Brad Pitt (ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD)
Atriz Coadjuvante –Laura Dern (HISTÓRIA DE UM CASAMENTO)
Roteiro Original – PARASITA
Roteiro Adaptado – JOJO RABBIT
Fotografia – 1917
Montagem – FORD VS. FERRARI
Trilha Sonora Original – CORINGA
Canção Original - "(I'm Gonna) Love Me Again", de ROCKETMAN
Mixagem de Som – 1917
Edição de Som – FORD VS. FERRARI
Efeitos Visuais – 1917
Design de produção – ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD
Figurino – ADORÁVEIS MULHERES
Maquiagem e cabelos – O ESCÂNDALO
Filme Estrangeiro – PARASITA (Coreia do Sul)
Longa de Animação – TOY STORY 4
Curta de Animação – HAIR LOVE
Curta-metragem – THE NEIGHBOR'S WINDOW
Documentário – INDÚSTRIA AMERICANA
Curta Documentário – LEARNING TO SKATEBOARD IN A WARZONE (IF YOU'RE A GIRL)

sábado, fevereiro 08, 2020

SYNONYMES

Um dos filmes mais marcantes do ano passado e o grande vencedor do Festival de Berlim, SYNONYMES (2019), de Nadav Lapid, é uma dessas obras que provocam reações distintas na audiência, muitas vezes reações de dúvida sobre o que acabaram de ver, ou sobre o quanto gostaram ou não gostaram do filme. Trata-se do terceiro longa-metragem de Lapid, que se inspirou em sua própria experiência de israelense morando em Paris, para construir uma história sobre negação da pátria para reconstrução da própria identidade, ou de uma nova identidade.

Já chama a atenção o modo como começa SYNONYMES, ao apresentar o protagonista, o jovem Yoav (o estreante Tom Mercier), nu em um grande apartamento, e tendo suas roupas roubadas. É como se Yoav tivesse sido jogado em uma pátria totalmente estranha de para-quedas, e sem roupas. Ele corre nu pelo prédio, com frio, desesperado, tentando se aquecer depois na banheira, e quase morrendo de frio. Um detalhe: essa cena foi a primeira gravada por Tom Mercier, e deixou Lapid e sua equipe impressionados com a performance do ator.

Para Lapid, seu cinema e sua crítica à Israel vão além de questões relacionados ao exército israelense e ao tratamento dado aos palestinos. Em entrevista à revista Cinema Scope, ele diz declarar guerra à própria essência da alma israelense. Daí ele trazer um personagem que quer esquecer todo o seu passado, mas também apresenta um outro judeu que vive em Paris e que provoca passageiros no metrô cantando o hino de Israel, acreditando que todos os europeus são antissemitas.

Um dado curioso e que aproxima o filme e Israel do Brasil e do nosso atual momento político: Israel atualmente conta com uma ministra da cultura extremamente repressiva e de extrema direita, que naturalmente não apoiou o filme e que ficou sem entender se se tratava ou não de uma peça anti-israelense. Por outro lado, quando foi noticiado que o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, todos os jornais do país pararam sua programação e noticiaram o fato, o que muito alegrou Lapid.

SYNONYMES tem uma estrutura que muito lembra uma sucessão de grandes cenas sem uma coesão muito visível, quase como se fosse uma excelente coleção de esquetes. Nesse sentido, é como se fosse possível você selecionar de maneira aleatória uma ou outra cena de modo a apreciá-la separadamente. Algumas são muito empolgantes, como a cena da danceteria, tocando "Pump up the jam", do Technotronic. Ver esta cena no cinema, com o som no talo, é uma experiência singular. Além do mais, é uma cena muito divertida. Ao contrário de outras tantas, que adentram de maneira intensa a mente confusa de Yoav, mesmo sem uso de voice-over ou nada do tipo, o que só aumenta nossa admiração com o trabalho essencialmente de cinema do cineasta.

Sua tentativa do personagem de se livrar do passado é inútil, já que várias memórias costumam assombrá-lo. Mesmo quando ele tenta falar apenas em francês, há quem queira que ele diga algo em hebraico (vide a cena do "bico"). A propósito, a cena de Yoav declamando a letra da Marselhesa é outro momento de intensidade, de destaque dessa dicotomia agressividade/sensibilidade do protagonista. Assim, por mais que ele tente se tornar menos israelense, mais ele percebe que é israelense. E aí chegamos àquela cena final fantástica, da porta. Que bom que o Festival de Berlim resolveu premiar este filme para chamar a atenção do mundo para o trabalho de seu diretor.

+ TRÊS FILMES

ATLANTIQUE

Aproveitei a oportunidade de ver no cinema um filme que muitos já viram na Netflix. É um belo filme, embora, dentre os premiados vistos até o momento da safra Cannes-2019 foi o que menos me impactou. O que mais eu gostei foi do visual, que equilibra tanto o aspecto fantástico do filme quanto seu realismo social. A fotografia é de Claire Mathon, a mesma do maravilhoso RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS. A textura que essa diretora de fotografia dá às suas obras é impressionante. Aqui quase sentimos o sal do mar, lugar tão presente e tão importante para a trama. Como história de amor talvez não seja tão bom, mas como filme fantástico é interessante e bonito. Mas, assim como vários filmes de 2019, é também um retrato da divisão de classes no mundo. O Senegal tem um abismo social gigante, pelo que podemos ver pelo filme. Direção: Mati Diop. Ano: 2019.

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced)

Um filme envolvente e que trata com carinho das angústias de seu protagonista, um rapaz que faz parte de uma importante escola de balé e que se apaixona por um colega recém-chegado. Isso numa Geórgia ainda muito preconceituosa e antiquada. O que me faltou foi uma maior identificação com o personagem e também um maior interesse/conhecimento em dança, para saber valorizar as coreografias. Também achei que o filme perde um pouco o foco, ou parece não encontrar o que deseja. Mas talvez isso seja coerente com o estado um tanto perdido do protagonista. Direção: Levan Akin. Ano: 2019.

A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS (Ahlat Ağacı)

É sempre bom ir preparado para um filme do Nuri Bilge Ceylan. Em WINTER SLEEP (2014) já se falava bastante. Neste aqui o diretor também não economiza nos diálogos. Em alguns momentos até parece excessivo, mas isso depende muito do grau de interesse no assunto. Há profundidade neles. A minha cena preferida é a do encontro do protagonista com uma garota da juventude, a cena da árvore, com o vento e tal. Aquilo é lindo demais. Uma das melhores cenas do ano. O registro das estações do ano através das imagens também é lindo. Há uma delicadeza comovente no modo como se dá o relacionamento do rapaz com seu pai e com sua mãe. O que incomoda é que o filme se arrisca em trazer um protagonista tão cheio de erros e um tanto arrogante e nada simpático. Ano: 2018.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (A Beautiful Day in the Neighborhood)

Há dias em que estamos particularmente mais sensíveis. E há filmes que, por uma razão ou outra, têm o poder de encontrar essa brecha mais frágil e nos levar por caminhos emocionais que jamais imaginávamos ir. Foi o caso, para mim, de UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (2019), filme que tem como destaque Fred Rogers, lendário apresentador de um programa infantil americano que já foi objeto de estudo do ótimo documentário WON'T YOU BE MY NEIGHBOR?, de Morgan Neville, e que neste filme é interpretado por Tom Hanks, especialista em tipos humanos mais próximos da bondade e da honestidade. Não há nenhum problema nisso, nessa escolha, e a interpretação de Hanks não é o que podemos chamar de uma imitação de Rogers. Mas a voz suave está lá. Tão suave e tão acolhedora que fala fundo a quem se permitir.

Embora o filme tenha me ganhado desde o começo com a proposta de emular o programa de Mr. Rogers, com a apresentação do próprio em tela quadrada, com um visual VHS e com cenários antiquados (usados desde o fim dos anos 1960 até o início do novo milênio) e pequenas miniaturas em forma de brinquedos de casas, prédios, carros e ruas; e a história do personagem principal, o jornalista Lloyd Vogel (Mathew Rhys), seja interessante e tocante, foi um momento, em particular, que me fez chorar quase convulsivamente. (Quem ainda não viu o filme, eu acho que deveria parar de ler por aqui, e só depois voltar.)

Trata-se do momento em que Mr. Rogers e Lloyd estão em um café. O jornalista já havia tirado sua carapaça mais cínica em relação a Mr. Rogers e já se considerava, diante de seu entrevistado, um ser pertencente ao grupo das "broken people", depois do que acabara de acontecer com seu pai e do longo período de mágoa. Mr. Rogers pede para que ele faça um pequeno exercício: dedique um minuto de silêncio para pensar em todas as pessoas que o amaram, que foram responsáveis por moldar seu caráter e sua personalidade.

Como que por um passe de mágica, todos no café também ficam calados e reflexivos. As lágrimas vêm. E aquele exercício pedido por Mr. Rogers é também um exercício que pode ser feito pelo espectador. E que eu fiz. Eu, que também tive meus problemas com meu pai. Pensei em minha família - minha mãe, minhas irmãs, em especial - e pensei também no meu grande amigo que estava ali do meu lado, vendo o filme. Não se tratava, portanto, de apenas se solidarizar com o personagem, mas de se fundir a ele, de certa forma. E é como se tudo o mais se tornasse pequeno, como se o amor recebido e o amor dado fossem o que há de mais importante em nossas vidas e um imenso sentimento de gratidão, de compreensão da vida e de amor nos abraçasse.

Claro que para chegar neste momento intenso, que acontece após uma hora de filme, é preciso acompanhar a trajetória de vida do personagem e também um pouco de seu encontro com esse homem tão especial, que é vegetariano, que faz orações diárias para pessoas com quem se importa, e que pede a pessoas que estão "mais próximas de Deus" que orem por ele. Isso, aliás, pode ser visto em uma determinada cena do filme, mas também podemos ler no artigo publicado na Esquire pelo jornalista.

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA pode ser visto como uma obra sobre perdão - curiosamente o filme anterior da cineasta se chama PODERIA ME PERDOAR? (2018), que ainda não vi -, mas pode ser mais do que isso, pode até mesmo ser uma obra que resgata a nossa esperança na humanidade, resgata a nossa fé em coisas que são possíveis de se fazer sem que machuquemos o outro ou a nós mesmos. A cena final que mostra Mr. Rogers ao piano demonstra o quanto ele se esforça para fazer isso, o quanto é também um ser imperfeito e necessitado de uma força imensa que ele parece possuir naturalmente.

Claro que tudo isso pode ser deixado de lado, pensar que o filme é uma bobagem sentimental, uma sucessão de clichês batidos de melodramas, ver tudo de maneira mais crítica, no sentido ruim da palavra. Também sabemos que há um limite para o que aceitamos ou não dentro de um filme que se utiliza de recursos emocionais mais intensos, e isso varia de pessoa para pessoa. Felizmente o filme também traz algo de estranheza, de algo quase surreal (para uma obra que se propõe ser uma versão de fatos) - o que dizer da cena do metrô? - e isso pode ser um elemento atraente para muitos.

O papel de Mr. Rogers (e deste filme que procura se moldar aos seus ensinamentos, à sua sabedoria e até ao seu estilo à moda antiga) é nos tirar da carapaça dura de autoproteção que nos torna mais cínicos e distantes de quem fomos um dia na infância, como se estivéssemos em um consultório de psicanálise e precisássemos lidar com nosso lado mais fragilizado para nos tornarmos mais fortes.

+ TRÊS FILMES

JUDY - MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS (Judy)

Uma obra um tanto acadêmica, meio quadrada, mas vale demais, tanto para embarcar um pouco nos sentimentos de Judy Garland naquele momento decadente de sua carreira, quanto pela performance de Renée Zellweger, especialmente quando está no palco. Marcada pela maldade humana desde a infância para se tornar uma estrela de Hollywood, Judy Garland cresceu viciada em drogas para inibir o apetite (e tirar o sono) e álcool. Muito bonita a cena final. E muito bela a atriz que faz a assistente de Judy em Londres (Jessie Buckley). Direção: Rupert Goold. Ano: 2019.

O ESCÂNDALO (Bombshell)

Interessante ver o passado recente dos Estados Unidos e nesse clima de fim dos silenciamentos das mulheres que foram abusadas. Como vivemos algo muito parecido com o que aconteceu com a eleição de Trump, há coisas que são assustadoramente parecidas, como os fanáticos de direita gritando o nome de seu candidato e agindo de maneira violenta, até a questão dos grupos separados, o fato de ter uma emissora essencialmente republicana como a Fox News, que queimava o filme de suas repórteres com tendências democratas (ótimo o exemplo da personagem de Kate McKinnon). A ascensão na importância da personagem de Margot Robbie é bem evidente e rendeu pelo menos uma cena emocionante. Já Charlize Theron representa o lado mais brutal do trio. O uso de próteses às vezes parece estranho, especialmente nas mulheres. Já no John Lithgow ficou perfeito. Ajudou a construir uma espécie de monstro por fora também. Jabba the Hut, como bem diz ele. Aguardando agora o filme sobre os escândalos de Harvey Weinstein. Será que alguém já está fazendo? Direção: Jay Roach. Ano: 2019.

DOIS PAPAS (The Two Popes)

O filme só perde a força quando conta eventos do passado do Papa Francisco, através de flashbacks. No mais, chega a ser hipnotizante acompanhar as conversas entre Francisco e Bento XVI, principalmente quando o argentino vai visitá-lo pela primeira vez. Anthony Hopkins e Jonathan Pryce estão assustadoramente parecidos com os retratados. E é sempre bom poder acompanhar os bastidores de algo que parece tão cheio distante de nossas realidades. Talvez seja o melhor trabalho de Fernando Meirelles, depois de CIDADE DE DEUS (2002). Ano: 2019.

domingo, fevereiro 02, 2020

MARISA MONTE NO I'MUSIC - FORTALEZA, 31 DE JANEIRO DE 2020

Marisa Monte é provavelmente a cantora brasileira que mais pessoas consegue reunir sempre que faz um show. Mais até do que grandes estrelas, como Maria Bethânia e Gal Costa. Ela consegue ser ao mesmo tempo muito popular, graças ao flerte com canções mais pop e também com algumas de dor de cotovelo, e uma sofisticação tanto nos arranjos, quanto nas escolhas de canções e parceiros nas composições. Foi assim desde o seu segundo disco de estúdio, Mais (1991).

Mesmo estando distante dos shows, por não me sentir mais à vontade em multidões, estava especialmente interessado em ir a este, dada a minha admiração por Marisa. Por isso quis me unir à minha amiga Natércia para vermos o espetáculo. Juntou-se à gente os meus amigos Júnior e Ane, que se demonstraram interessados em ir também. Uma turma que me fez bem o suficiente para eu me sentir à vontade.

Os artistas deste primeiro dia do festival confirmados eram Giulia Be (jovem artista iniciante de aparentemente um único hit), Silva e terminando com Marisa. Giulia Be tenta animar o público, mas talvez tenha agradado mais ao pessoal que estava mais próximo do palco. As pessoas, que estavam ali pela Marisa e provavelmente também pelo Silva, não se animaram tanto com as poucas canções da bela jovem. Ela se esforçou para grudar em nossos ouvidos o sucesso "Menina solta". De todo modo, vai que ela nos surpreende um dia e lança um baita álbum.

Falando em surpresa, que belo show o Silva fez, hein. Eu comecei a dançar com o único objetivo de disfarçar as minhas dores nas costas (não posso ficar de pé e parado durante muito tempo, sem ter uma dor na lombar). Então, dançar, me mexer, se fez necessário para diminuir ou anular as dores. E deu certo. E comecei a dançar com gosto mesmo quando Silva começou cantar canções de Caetano Veloso ("Me larga", "A luz de Tieta", "Meia lua inteira"), Gilberto Gil ("Toda menina bahiana") e Paralamas do Sucesso ("Uma brasileira"), entre outras.

Por mais que ele seja um grande artista e eu desconheça a obra dele, me ficou a impressão que essa nova geração (ele incluso) nunca alcançará a excelência de caras como Caetano e Gil, realmente gigantes, e a quem ele deve o crédito de ter conseguido incendiar a plateia quando cantou essas canções. A semelhança da voz de Silva com a de Caetano os aproxima. Achei estranho, porém, ele não ter cantado nada da Marisa Monte, já que fez um disco inteiramente dedicado a ela (Silva Canta Marisa Monte, 2016).

E eis que ela entra, infelizmente com o som um pouco baixo (coisa que não aconteceu no show do Silva) e com os telões ao lado pifados (logo no show dela!). É sempre assim: segunda vez que vejo um show dela e uma dificuldade de me aproximar, uma multidão imensa impedindo uma melhor visibilidade. E agora essa chateação de gente filmando o tempo todo com seus celulares atrapalhando a visão. É muito irritante. Se ao menos fosse só para tirar suas fotos. Mas não: filmam, postam em seus stories, filmam de novo e de novo. Um horror. Ao menos no cinema a gente pode reclamar disso.

Marisa Monte começa com "Maria de verdade", faixa que eu nem gosto muito, mas que foi marcante por abrir o histórico álbum Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão (1994). Em seguida, parte para algo mais novo milênio, com "Infinito particular", "Vilarejo" e "Ilusão". Nessa época, eu havia parado de acompanhar ativamente o trabalho de Marisa, de comprar seus álbuns, não sei bem o motivo. Talvez tenha sido erro da minha parte.

Volta para os anos 90 para começar uma dupla de canções de dor de cotovelo, "Dança da solidão" e "Depois", para depois cantar a que talvez seja a minha favorita dela, "Beija eu", de seu segundo disco. Acho uma canção com uma simplicidade e uma delicadeza tão únicas. E tem aquela guitarra do Arto Lindsay, genial.

Anima o público com a popular "Velha infância", primeira dos Tribalistas que ela canta, depois voltar no passado com "Diariamente", que rendeu aplausos efusivos ao final. Aliás, por ser uma canção mais para ouvir do que para cantar, foi o único momento em que as vozes do público se calaram para apreciar a voz única e maravilhosa de Marisa Monte, que tem a generosidade de elogiar a voz do coro e de querer que as pessoas cantem junto. Ao contrário de certos artistas, que mudam a canção só para não deixar as pessoas cantarem junto (alô, Roberto Carlos!).

As próximas faixas, "Preciso me encontrar" (linda!) e "A sua" antecipam aquela que me deixaria arrepiado, "Ainda bem", dessas faixas do novo milênio que ganharam muitos corações. E é uma canção sobre um momento de alegria intensa, embora deixe um tanto triste aqueles que ainda não encontraram sua cara-metade. Ela continua com "Baião do mundo", "Segue o seco" (foi mundo bom ouvir novamente essa canção tão marcante), "Eu sei (na mira)" e "Carnavália".

Quando estava reclamando que ela não tinha cantado nada do Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000), disco que representa a fase mais feliz de minha vida, ela entra com a deliciosa "Não vá embora", para encerrar o show com "Passa em casa".

Como ela estava com o pé torcido (quase não veio, mas teve que ficar o tempo todo ali no banquinho por causa disso), ela brincou que o bis seria sem fazer o charminho de sair e voltar. Cantou uma versão mais curta de "Amor, I love you". Manda chamar novamente o Waldonys para cantar de novo "Velha infância" (por que não foi outra?) e fechar com mais uma dos Tribalistas, "Já sei namorar". Essa grande quantidade de faixas dos Tribalistas no show se justifica talvez pela turnê recente de reencontro dela com o Carlinhos Brown e o Arnaldo Antunes.

As pessoas não param de pedir mais, porém a banda já vai embora. Como consolo, Marisa começa a cantar à capela "Bem que se quis", e vai embora, deixando o público cantando sozinho essa que foi seu primeiro hit. Faltou muita coisa boa, mas não se pode ter tudo. Belo show de uma grande e querida artista. Não é todo dia que ganhamos um presente desses, não.