Um dia desses estava dirigindo enquanto escutava “Hello”, do Oasis, ou talvez fosse “Roll with It” ou “Some Might Say”, enfim, uma dessas maravilhas barulhentas e cheias de sentimento da obra-prima (What’s the Story) Morning Glory? (1995), e o sentimento que tive de gratidão foi imenso por estar escutando aquela canção. E é impressionante que estamos falando de uma obra de arte condensada em cerca de 3 a 5 minutos de duração, aproximadamente. Talvez justamente por isso que eu valorize tanto esse formato de canção, que o próprio Noel, ao tocar nesse retorno aos palcos depois de um hiato de 15 anos por causa de uma briga com o irmão Liam, o próprio Noel se admira de ter composto essas canções. Ou seja, é como se elas viessem de outro lugar, como algo mágico. Eu costumo dizer que os músicos são muito mais “antenas” de seu espírito do tempo do que qualquer outro artista. E por isso mesmo eles acabam sofrendo mais quando esse espírito de época muda e eles não conseguem se mostrar mais tão bons quanto foram um dia.
Eu não era exatamente um fã do primeiro disco do Oasis, o ótimo Definitey Maybe (1994), mas é possível dizer que esses dois álbuns constituem o par de anos mais inspirado de Noel Gallager, o compositor por trás das canções. Confesso que depois de Be Here Now (1997), que considero “excessivamente produzido”, gordurosos e com um alargamento desnecessário do tamanho das faixas, por mais que haja melodias ótimas, fui me afastando e perdendo um pouco mais de interesse pela banda. Foi o disco que acabou afastou dos discos seguintes da banda.
Assistindo na quinta-feira passada a OASIS – DON’T LOOK BACK IN ANGER (2026) na sala IMAX, vejo pelo repertório apresentado no filme que a preferência dos irmãos Liam e Noel Gallagher para o setlist dos shows da reunião são desse período dos dois álbuns e seus lados B, presentes em The Masterplan (1998). Ou seja, eles de fato percebem que o auge criativo aconteceu nesses anos. Noel, inclusive, diz que depois que o guitarrista Paul “Bonehead” Arthurs saiu da banda em 1999, o grupo perdeu muito de sua essência sonora. O documentário foi dirigido por Dylan Southern e Will Lovelace, cineastas especializados em registros de bandas de rock – há documentários deles sobre LCD SoundSystem, Blur, a cena novaiorquina do início dos anos 2000.
O documentário, depois de dar um breve resumo sobre o impacto da banda antes da separação e o quanto essa separação foi traumática para a banda e para os fãs, começa com os tensos primeiros momentos dos ensaios, após os dois irmãos concordarem com uma reunião para uma turnê mundial. Nesse primeiro ensaio, vemos apenas Noel e a banda passando o som, e expectativa da chegada do irmão, que chega de maneira pouco amigável, embora se mostre disposto a deixar seus vocais. Percebe-se nesse momento uma relação que parece estar o tempo todo prestes a se quebrar novamente. A maior parte da narração do filme vem de Noel. É dele principalmente que temos uma visão do que acontece, inclusive no quanto ele se mostra um fã da performance do irmão. Muito engraçado quando ele fala de Liam equilibrando o pandeiro em sua cabeça, como se fosse a coisa mais cool do mundo.
Há muitas passagens emocionantes e muito disso vem, claro, da força da música deles, que é potencializada numa sala de cinema, ainda mais numa IMAX. Então, é assistir o tempo todo sentindo muitos arrepios e até algumas lágrimas. Embora muito do que o filme mostre seja a emocionante reconciliação dos dois irmãos, eu diria que o filme vai muito além disso. Até porque não são dois irmãos quaisquer. São as pessoas responsáveis pela alegria de milhões de pessoas do mundo inteiro. O fato de o filme mostrar as turnês na Europa, na América e na Ásia mostram o quão influentes e queridos esses rapazes eram/são. E eles não esperavam nada tão poderoso, não esperavam receber tanto amor, tanta energia. E eu diria que OASIS – DON’T LOOK BACK IN ANGER é um filme sobre a força do amor, sobre a energia e o poder da música, embora seja também sobre a reunião de dois irmãos que tiraram um peso enorme dos ombros ao voltarem a se falar, e de como eles conseguiram recuperar a trajetória da banda para um momento de alegria. Mal comparando, é como se Paul e John fizessem as pazes e os Beatles voltassem.
É lindo demais ver a quantidade de pessoas que lotam os estádios, e até espaços ao redor do estádio, como em Manchester, terra natal dos irmãos, e se emocionam cantando a plenos pulmões “Don’t look back”, “Wonderwall”, “Rock’n’Roll Star”, “Champagne Supernova”, “Some Might Say”, “Supersonic”, “Live Forever”. Aliás, essa última foi dedicada a Gary “Mani” Mounfield, baixista dos Stone Roses, amigo da banda e por quem eles tinham muito amor. Ao ouvir “Live Forever” pensamos também em nossa mortalidade, em nosso momento breve na Terra, mas por isso mesmo um momento tão especial e precioso.
Tenho um amigo que mora em Dublin, o Alex, que disse que foi o melhor show que ele viu na vida. Quando ele disse achei que poderia estar exagerando, já que viu tantos shows de bandas gigantes, maiores que o Oasis. Mas vendo o documentário eu passei a acreditar.
+ TRÊS FILMES
LULA
Uma pena que LULA (2024), de Oliver Stone e Rob Wilson, não tenha sido lançado mais cedo. Acabou caindo na rede por causa da exibição num streaming espanhol, mas já chega um pouco velho, já que a história vai só até as eleições (emocionantes) de 2022, que deram a vitória (apertada) a Luiz Inácio Lula da Silva. É legal ver a parceria de Oliver Stone, que bem que poderia já ter um desses seus documentários políticos sobre Lula, sendo ele, Lula, um líder muito icônico que outros presidentes de esquerda da América Latina, perdendo só para Fidel, como figura mítica. Como cronista da política mundial e artista interessado nos destinos de países que ousaram peitar o seu país de origem, os Estados Unidos, Stone podia fazer um filme menos quadrado. Mesmo assim, entendemos que esta é uma obra endereçada principalmente a não- brasileiros, de modo a conhecerem a linda, ainda que dolorosa história de nosso maior presidente. Assim, o filme vai até a sua infância, em Caetés, para depois acompanhá-lo como líder sindical em São Bernardo do Campo – SP, para depois contar brevemente o cenário político brasileiro, de 21 anos de ditadura militar bancada pelos Estados Unidos, e a primeira eleição ganhada por Lula, em 2002. Enfim, é um resumão um tanto apressado de nossa história, mas é muito gostoso de acompanhar, emocionante de relembrar passagens mais recentes, como o dia de sua prisão, o dia de sua soltura, o debate em rede nacional do segundo turno contra Bolsonaro tendo o juiz Sérgio Moro, talvez o vilão mais tenebroso da política brasileira, como auxiliar. O emocionante dia da apuração também aparece. O que há de mais novo mesmo é a entrevista com Lula, e a forma como Stone ainda conhecia pouco da política brasileira. Mas tudo bem: vivemos num país bem complexo mesmo.
NO CÉU DA PÁTRIA NESSE INSTANTE
Desde O PROCESSO, de Maria Augusta Ramos, que a quantidade de documentários sobre a cena política brasileira anda crescendo. Desde o “golpeachment” da presidente Dilma que o Brasil acabou se tornando um espaço fértil para diferentes vozes. E, claro, com uma extrema direita totalmente lunática e violenta, acabamos passando por situações absurdas, como foi o caso do ataque às três casas representativas dos poderes do Brasil no dia 8 de janeiro de 2023. É um tipo de data tão marcante, aliás, que todo mundo sabe onde estava quando do ocorrido. Mas, para minha surpresa, NO CÉU DA PÁTRIA NESSE INSTANTE (2023) não é apenas sobre esse dia e suas consequências, como dá a entender. Na verdade, Sandra Kogut volta no tempo para o período anterior à terceira vitória de Lula como presidente e apresenta aquele momento através do ponto de vista de pessoas da esquerda, da extrema direita, do então candidato a Governador do Rio Marcelo Freixo e sua esposa e de pessoas ligadas ao processo de votação nas urnas, gente que trabalha como mesário. Não deixa de ser emocionante rever a vitória apertada do Lula ou de ouvir com um sorriso no rosto o hit "Tá na Hora do Jair Já Ir Embora".
APOCALIPSE NOS TRÓPICOS
Gostei do recorte que Petra Costa fez neste seu estudo sobre a junção das igrejas evangélicas com a extrema direita. Antes de o filme terminar, estava lamentado inclusive ele não ir mais longe, mas imagino que as imagens finais são, sim, capazes de mudar a cabeça de algum bolsonarista menos radical que pode pensar: “eu sou igual a esses caras?” O principal personagem de APOCALIPSE NOS TRÓPICOS (2024) é o pastor Silas Malafaia, que não deve ter imaginado que sua figura seria pintada do jeito que foi a cada visita que Petra Costa e sua pequena equipe faziam a ele (em seu gabinete, em sua casa, em seu carro). Petra funciona, aqui, como um cavalo de Troia, ainda que em alguns momentos ela questione certas afirmações do líder evangélico mais alucinado do Brasil e demonstre ser alguém da ala progressista. O filme é dividido em capítulos interessantes, que nem sempre são felizes em fazer associação com aspectos da religião cristã, mas acho totalmente perdoável, já que o que mais importa é como se trata de um exemplo de ótima montagem: a gente vê tudo com muito interesse e suas quase duas horas passam voando. Gosto da inteligente proposta de também contar a história de como as lideranças evangélicas mais fortes começaram a se tornar populares nos Estados Unidos, e depois sua chegada tímida ao Brasil, até se tornarem, como repete Malafaia, 30% da população do país. Da história brasileira, APOCALIPSE NOS TRÓPICOS parece começar onde DEMOCRACIA EM VERTIGEM (2019) terminou e, por isso mesmo, já torço por um terceiro filme, sobre a queda de Bolsonaro e o embate com o STF.
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