terça-feira, julho 28, 2026

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (Notting Hill)

 
Uma bela surpresa rever UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (1999) com a Giselle e perceber o quanto o filme ainda me ganha. Acho que até mais do que quando o vi pela primeira vez, provavelmente em agosto/1999, apenas poucos meses antes de conhecer a Giselle. Talvez o impacto tenha sido maior hoje pois estava desacostumado com esse tipo de comédia romântica tão bem cuidada, como eram as dos anos 1990 e início dos 2000.

E este trabalho de Roger Michell com roteiro de Richard Curtis tem também uma simplicidade que encanta. A simplicidade está na trama, mas o trato carinhoso com os personagens e a sofisticação visual em certas cenas fazem a diferença, como quando o personagem de Hugh Grant atravessa estações do ano enquanto caminha pelo seu bairro depois que a personagem de Julia Roberts o deixa. Cativou-me o quanto esses dois protagonistas são mostrados de forma quase despida, do ponto de vista emocional. Há uma cena em que Anna Scott, a atriz vivida por Roberts, tem o olhar inquieto de uma garotinha se declarando para um menino. E ele também revela que não está preparado para ter seu coração partido novamente, na antológica cena na livraria.

Então, há essa quase inocência que parece ausente dos filmes atuais. Então, quando me peguei em lágrimas nos momentos finais, com aquela cena do “sim” na coletiva de imprensa, puxa, aquilo ali é muito lindo. Só eles dois, William e Anna, sabiam o que estavam sentindo e o que viveram e passaram e o que pretendem viver (juntos) a partir de então. Mas também há algo de muito presente nas comédias românticas, que é o quanto a publicização do amor do casal frente a um determinado público, seja ele pequeno ou grande, é importante para a materialização da relação afetiva. Quase como um pré-casamento, uma espécie de noivado dos filmes.

E, nessa cena, em específico, Julia Roberts e Hugh Grant emprestam seus sorrisos de maneira tão genuína que tudo parece perfeito, ao som de “She”, interpretada brilhantemente por Elvis Costello. Grant, na época, era o maior astro de comédias românticas do cinema britânico. Havia feito QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL em 1994 (também com roteiro de Richard Curtis) e NOVE MESES e RAZÃO E SENSIBILIDADE em 1995. Juntar-se a uma atriz americana do porte de Julia Roberts naquele 1999 o tornou ainda maior no subgênero. O que ele costuma emprestar a seus personagens é geralmente um misto de timidez e sarcasmo; e às vezes um pouco de cinismo. E Julia tem aquele sorrisão imenso, aquela aura de estrela que foi revelada em UMA LINDA MULHER. E considero o seu papel neste filme de Michell um dos melhores de sua carreira, até pelo quanto ela consegue combinar a dor e a delícia de ser uma estrela de Hollywood com certa vulnerabilidade diante de um homem por quem está apaixonada.

Uma coisa, porém, que não mencionei até agora é o quanto o sucesso do filme também se deve aos momentos engraçados, quanto o personagem do colega de aluguel de Grant, vivido por Rhys Ifans, o Spike, é importante para que o riso venha fácil. É um personagem que lembra um pouco o Kramer da série SEINFELD pelo jeito excêntrico de ser. E aí temos também os familiares do protagonista e a cena do jantar com Anna Scott, que é outro momento delicioso e que ajuda também a apresentar outros coadjuvantes importantes, inclusive para a conclusão da trama. Conquistar o riso do espectador é uma ótima maneira de pegá-lo desprevenido e chorando lá no final. Parabéns aos envolvidos.

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PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (Wicked Little Letters)

É legal ver PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (2023), de Thea Sharrock, agora, sob a perspectiva de já ter visto Jessie Buckley brilhar em HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET e como franco-favorita ao Oscar de melhor atriz. Nesta comédia ambientada na Inglaterra rural dos anos 1920, ela é uma jovem mãe irlandesa cujo comportamento mais libertário choca parte de uma pequena comunidade. Ela se vê enredada numa teia de intrigas acerca de cartas de teor violento e contendo palavras de baixo calão enviadas à personagem de Olivia Colman, uma solteirona beata que mora com os pais idosos. A partir do momento que a personagem de Buckley é presa como principal suspeita do envio das tais cartas, passamos a observar o comportamento machista e misógino dessa comunidade, a começar pela personagem da policial, que precisa ser lembrada que é uma policial mulher, com restrições em suas ações na delegacia e proibida de investigar o caso. Quando essa personagem policial (Anjana Vasan) ganha mais protagonismo na trama, esse aspecto mais misógino dos personagens vai de encontro com o quanto o filme passa a mostrar as mulheres ajudando umas às outras no julgamento e na investigação. Mesmo quando o filme apresenta a rivalidade entre as duas personagens principais, vemos essa situação mais como fruto de uma sociedade patriarcal que pune e oprime as mulheres do que como ações malignas de determinada personagem. A diretora de COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (2016) constrói uma história que deixa claro o carinho por suas personagens femininas, assim como destaca também uma série de situações tanto de vulnerabilidade quanto de coragem dessas mulheres.

LEGALMENTE LOIRA (Legally Blonde)

Na época que este filme estreou no circuito, eu confesso que tive certo preconceito. Provavelmente não estava muito disposto a diversões aparentemente mais despretensiosas, embora muitas vezes aquilo que se apresenta desta maneira guarde mais valor do que muito filme dito "de arte" por aí. LEGALMENTE LOIRA (2001), de de Robert Luketic, entrou no cardápio da Mubi e, rolando as opções do streaming com a Giselle, ela escolheu este filme, que eu não lembrava se havia visto ou não – depois vi que não havia assistido mesmo. E tive uma surpresa muito boa, e não foi de nostalgia ao ver gente como Selma Blair e Ali Larter (e até a diva dos anos 1960 Raquel Welch), mas principalmente a boa condução narrativa, a jornada da heroína subestimada que vai a uma faculdade de elite intelectual (o curso de Direito de Harvard) para mostrar seu valor para o ex-namorado. Sua intenção pode até ter sido fútil, mas é também digna. Reese Witherspoon está uma graça como essa garota rica e de bom coração, mas de estilo superficial, que leva essa generosidade e leveza a um lugar onde habitam pessoas de nariz empinado. Com sua cara de sessão da tarde, o filme aparece na curadoria da Mubi por algum motivo que vai além da forma, creio eu. Está mais ligado aos aspectos de sororidade e feminismo. Além do mais, este é um daqueles casos de comédias que se tornam clássicos com o tempo, pelo impacto que provoca no público e pelo quanto se mantém viva ao longo dos anos. Atualmente há uma série com uma proposta de ser uma prequel de LEGALMENTE LOIRA, de nome ELLE, estrelada pela jovem Lexi Minetree, e focando na vida de Elle na escola.

TOY STORY 5

Que gostoso sentir novamente o encantamento do primeiro TOY STORY (1995) neste quinto filme da franquia, realizado 31 anos após o original. Há tempos dizem que essas continuações são caça-níqueis (na verdade, caça-milhões), mas se há uma boa história para contar e um bom desenvolvimento de personagens e direção, essa já é uma boa justificativa. TOY STORY 5 (2026), de McKenna Harris e Andrew Stanton, é o primeiro que conta com uma mulher na direção (ainda que codireção) e aqui foi necessário para garantir uma sensibilidade feminina, pois a protagonista da vez é Jessie, a vaqueira de brinquedo que se revela extremamente carismática quando sai de cena (parcialmente) o caubói Woody. É ela a condutora da ação, aquela que mais sofre e mais luta para que sua criança, a pequena Bonnie, sentindo-se solitária e sem meninos de sua idade para brincar com ela, enfrenta a nova era de tecnologia, a do consumo abusivo de telas. O pequeno dinossauro de brinquedo chora, dizendo que não aguentará uma nova extinção. O filme tem uma sensibilidade muito própria, tornando-nos interessados pela trama e pelo drama dos personagens, tanto dos brinquedos quanto dos humanos, aqui alheios ao que está acontecendo ao redor, com os brinquedos correndo para diferentes casas, montando cavalos e subindo em carros, tudo para cuidar melhor de Bonnie. A intenção de Jessie, Buzz e cia. é menos evitar que eles se tornem rejeitados e ultrapassados diante da nova conjuntura, e mais em diminuir o sofrimento de Bonnie, que se vê numa situação de negar a si mesma para não se sentir tão diferente das outras crianças, que praticam bullying na menina por ainda brincar com bonecos. No mais, achei lindo esse novo passo mais romântico da cinessérie, ao trazer um Buzz apaixonado e com a intenção de pedir Jessie em casamento, lutando contra a timidez e a insegurança para fazer o pedido. TOY STORY 5 é daqueles filmes que transbordam amor. E faz isso com inteligência, sensibilidade e muito humor. E ainda introduz novos personagens muito bons.

quinta-feira, julho 23, 2026

A ODISSEIA (The Odyssey)

 
Depois de A ODISSEIA (2026), não tenho mais como pegar no pé de Christopher Nolan. Além de já o admirar como um cineasta influente para a resistência do cinema frente ao sistema de streamings, agora percebo que Nolan chega a seu auge com uma ambiciosa adaptação da obra clássica de Homero, incluindo também a passagem que não consta do livro, e que talvez seja a mais famosa da lendária Guerra de Troia: a da invasão de Troia através do cavalo de madeira, uma artimanha criada por Odisseu, aqui vivido por Matt Damon, que convence como esse herói trágico e corroído pela culpa, como uma espécie de continuação espiritual de OPPENHEIMER (2023).

Mal o filme estreou e já se vê uma série de críticas em torno das liberdades poéticas de Nolan em relação à obra original. Fala-se da ausência dos deuses e de certos eventos, da dimensionalidade de certos personagens, da falta de uma maior profundidade nas personagens femininas (em especial a Penélope de Anne Hathaway), da opção por designs diferentes para as armaduras e os navios etc. Ou seja, o que mais se tem criticado é o que há de diferente na obra cinematográfica, como se Nolan tivesse a obrigação de seguir à risca a narrativa de Homero.

Garanto que se ele seguisse resultaria numa obra passível de críticas negativas do mesmo jeito, pois a literatura e o cinema são duas artes distintas, sendo o cinema a tal arte impura, aquela que é composta pelas outras artes. E, por isso, por essa impureza, que o cinema é tão incrível. Afinal, na literatura não temos uma música tão incrível quanto a composta pelo sueco Ludwig Göransson (OPPENHEIMER, PECADORES), que pensou em trabalhar com instrumentos que possivelmente existiam nos tempos de Homero; e não temos uma fotografia lindíssima como a do mestre Hoyte van Hoytema (de NÃO! NÃO OLHE! e outros trabalhos de Nolan), que sabe muito bem trabalhar a escala da produção e o claro e o escuro quando necessário.

Nolan optou por dar a Odisseu uma dimensão mais “humana”, mais realista e mais próxima da contemporaneidade. Na obra clássica e na consciência da época, saquear uma vila ou matar centenas de pessoas durante uma guerra ou invasão era por assim dizer normal, aceitável e até visto como heróico. Na própria Bíblia, podemos pegar a história de Josué, que invadiu Canaã e matou todos que lá estavam porque aquela era supostamente a terra prometida do povo hebreu. Se ali havia um outro povo vivendo sua vida em paz, isso pouco importava. Do mesmo modo, se pegarmos outro exemplo bíblico, na passagem em que Deus endurece o coração do faraó para que ele envie seus soldados para perecerem no Mar Vermelho, isso acontece para a glória de Deus e de Moisés.

Além do mais, talvez um dos motivos de eu ter gostado tanto de A ODISSEIA tenha sido minha ignorância com relação à obra original de Homero (ou da pessoa ou pessoas que assinaram com o nome Homero). Ou seja, não havia visto até então nenhuma adaptação para cinema ou televisão da história clássica e nem havia lido o livro. Havia lido, com muito prazer, sim, A Ilíada, a obra anterior, que apresenta parte da batalha de Troia e enfatiza heróis como Agamenon, Heitor, Aquiles e o próprio Odisseu.

No filme de Nolan, aliás, gostei muito de como é apresentado Agamenon: um sujeito de armadura negra e de altura enorme, vivido por Benny Safdie, que mal mostra o rosto. Ele é um pouco a representação do poder imenso (e sombrio) dos gregos frente àquele povo que se vê indefeso diante da invasão, saque e carnificina. Aliás, que imagem magnífica aquela de cima, quando se vê várias áreas da fortaleza sendo violada pelos homens de Odisseu e Agamenon. A opção de só mostrar essa imagem mais explícita da batalha durante o monólogo de Odisseu para Penélope foi de uma inteligência de tirar o chapéu. Pode até ter quebrado um pouco o tom melancólico da fala do herói amargurado, mas talvez a opção tenha sido tanto fugir à sentimentalidade quanto enfatizar a violência brutal. Isso Nolan consegue. Assim como sua montadora, Jennifer Lame.

Entremos agora noutra seara, a do elenco estelar, que é outro ponto que aparece em algumas críticas ao filme, como um elemento de distração. Claro que isso pode prejudicar um pouco no sentido de que ao vermos Charlize Theron vemos a atriz e não Calipso; ao vermos Robert Pattinson vemos o ator e não Antínoo. Se bem que Pattinson imprime uma vilania tão boa ao personagem, e é tão fácil gostar de odiá-lo que, sim, é possível muito bem acreditar na força de certos atores na representação dos personagens. O exemplo maior tem sido dado à incrível performance de Samantha Morton como a feiticeira Circe. Aqui apenas feiticeira, mas em alguns relatos é vista como uma deusa ou filha do deus Hélio, o deus do sol. Simplesmente maravilhosa a passagem de Circe e o que ela faz com os soldados de Odisseu. De encher os olhos de maravilhamento e terror. Algo que só as antigas fábulas e as antigas histórias eram capazes de fazer. Nolan gostou tanto dos elementos de terror desta e de outras partes de A ODISSEIA que estuda agora fazer seu próximo filme do gênero horror.

Ter um elenco estelar é também um trunfo para ter sucesso em Hollywood. Zendaya tem um papel muito pequeno, ainda que importante, mas seu poder de atrair audiências é imenso. E além do mais há Tom Holland (como o filho de Odisseu, Telêmaco), Elliot Page como Sinon, John Leguizamo como o cego porqueiro Eumaeus, Mia Goth como uma das criadas de Penélope, Jon Bernthal como Menelau, Lupita Nyong'o como Helena, além dos astros já citados. Ou seja, ter essa quantidade de bons astros conta a favor quando a intenção aqui é também criar um filme comercial, que venda muito, o que não quer dizer que deixe de ser autoral. Nolan ganhou esse status, além de ser o maior guardião do IMAX. Tanto que foi ele o primeiro a fazer um filme totalmente filmado em IMAX, com uma câmera mais leve, uma tecnologia evoluída.

Falar de A ODISSEIA é também deixar de falar sobre várias coisas impressionantes, várias cenas marcantes, como a das sereias, do ciclope, dos gigantes, de Circe, da ilha do Sol, do encontro com os mortos em Hades, do cachorro idoso de Odisseu, da angústia de Penélope, dos dois embates de Odisseu com seus inimigos, da opção por uma montagem que alterna presente e diversos passados entrecortados de maneira tão brilhante que nunca somos confundidos, das cenas de batalha, que não são tão sangrentas mas que possuem o barulho, o caos, a perturbação e a violência necessários. Enfim, um filme imenso.

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PRIMAVERA

De estrutura bem clássica e convencional, PRIMAVERA (2025), de Damiano Michieletto, não tem a intenção de inovar na forma, obviamente, mas é bem cuidado na reconstituição de época (a Veneza do séc. XVIII), e no carinho com que lida com a protagonista, Cecilia (Tecla Insonia), uma jovem que cresce num orfanato feminino que tem como tradição educar as jovens no caminho da música, enquanto uma ou outra é aceita ou tomada como esposa de algum pretendente. Inclusive, Cecilia até já está reservada a um militar que está em combate. Mas seu verdadeiro amor é a música, especialmente quando conhece o grande Antonio Vivaldi (Michele Riondino), que vai parar nesse orfanato para trabalhar e ganhar alguns trocados enquanto cria maravilhas da música barroca. A relação de Cecilia com Vivaldi é de admiração mútua, mas o músico além de padre é também um homem de poucas ações práticas, o que é comum em grandes artistas. Senti falta no filme de momentos realmente impactantes, ou elevadores, levando em consideração que havia a poderosa música de Vivaldi para usar. De todo modo, é um bom filme, especialmente no que se refere à trajetória de Cecilia.

EM SEGREDO (In Secret)

Alguns filmes, a gente não encontra: eles encontram a gente. Foi o caso deste EM SEGREDO (2013), de Charlie Stratton, que Giselle e eu achamos enquanto zapeávamos por um streaming. De cara, havia de interessante a presença de três grandes atores: Elizabeth Olsen, Oscar Isaac e Jessica Lange. A história é baseada no clássico romance naturalista Thérèse Raquin, de Émile Zola. Como nunca havia lido o livro e nem visto outra adaptação, tudo pra mim foi novidade e fiquei muito surpreso com o desenrolar da trama. Zola pega o que os escritores realistas fizeram, como o enfoque ao adultério, e levam suas tramas para caminhos ainda mais sombrios. Os heróis de EM SEGREDO são não apenas amantes, mas também conspiradores da morte de alguém. E é interessante ver Olsen interpretando um papel assim antes de fazer a minissérie AMOR E MORTE e ver Isaac também antecipando o tema do adultério que estaria presente na minissérie CENAS DE UM CASAMENTO. EM SEGREDO tem o sabor de fábulas góticas, em que os heróis são levados a seus infernos pessoais, mais do que à atmosfera dos filmes noir, talvez por se ambientar na Paris do século XIX.

OTHON (Les Yeux Ne Veulent Pas en Tout Temps Se Fermer, ou Peut-être Qu'un jour Rome Se Permettra de Choisir à Son Tour)

Em poucos minutos de OTHON (1970) desejei estar lendo um livro. Com um livro eu poderia voltar, reler o começo, fazer anotações com calma para compreender o enredo complexo. No cinema, nos resta acompanhar e buscar entender a trama com os diálogos rápidos feito metralhadoras dos não-atores em seus desempenhos deliberadamente despidos de emoção, muito mais do que nos filmes de Bresson. OTHON foi a primeira produção feita na Itália de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, filmado nas ruínas da Roma antiga e com os intérpretes usando figurinos de época, mas com a inclusão proposital da imagem e do som dos carros do século XX, numa avenida movimentada. Isso acentua o aspecto autoconsciente do filme. É interessante notar as escolhas dos diretores nos momentos em que os diversos atores/personagens conversam: achei especialmente bela uma cena em que, em vez de optar pelo campo/contracampo, há uma utilização virtuosística de uma câmera saindo de um close-up para um plano mais aberto. De todo modo, o ideal seria ver o filme conhecendo um pouco mais da trama, da peça original de Pierre Corneille (1606-1684) ou da própria história dos personagens, caso seja baseada em fatos.

segunda-feira, julho 20, 2026

XICA DA SILVA

 
Gostei mais de XICA DA SILVA (1976) desta vez, na revisão, embora seja, ainda, um filme que me cause sentimentos mistos. Ver no cinema também ajuda, claro. Terceira vez que vejo, acho. A primeira foi lá na adolescência, quando passou na Globo numa daquelas exibições bem-sucedidas de clássicos modernos do cinema brasileiro (filme brasileiro sempre era sucesso popular quando exibido na TV aberta) e depois, outra vez, em 2018. A cópia remasterizada em 4K está lindona e lamento que não seja maior a quantidade de restaurações e lançamentos de remasterizações de filmes brasileiros em nossas salas.

A sorte dos trabalhos de Cacá Diegues é que ele foi um dos cineastas que mais presença marcou nos festivais internacionais, dos tempos do cinema novo até a época da retomada. E XICA DA SILVA talvez seja uma das melhores escolhas para relançamento, levando em consideração ter aqui o que muitos dizem ser o primeiro filme brasileiro com uma heroína negra. (Não tenho certeza se é de fato.) E Cacá gosta do tema da escravização do negro no Brasil, além de também ser um cineasta que valoriza o protagonismo negro, como podemos ver em GANGA ZUMBA (1963) e A GRANDE CIDADE (1966), os dois com Antonio Pitanga.

XICA DA SILVA é uma espécie de apresentação carnavalesca do período colonial brasileiro, quando era comum encontrar um negro escravizado com um colar de ferro na rua, ou sendo chicoteado à beira de um rio, enquanto os brancos enriquecem com as riquezas minerais, especialmente da região de Minas, onde se passa a história. Xica é uma mulher que vive numa casa e é querida pelo seu dono e pelo filho, mas justamente por fazer sexo de um jeito que ninguém jamais viu igual. O que ela faz de tão extraordinário, inclusive, nem é mostrado, até para acentuar o aspecto mitológico da personagem.

Vivida por Zezé Motta, a heroína consegue uma chance de mudar de vida quando conhece um homem recém-chegado de Portugal, o Comendador João Fernandes, vivido por Walmor Chagas. Ela logo trata de deixá-lo muito interessado e ela é logo comprada e depois transformada numa espécie de rainha daquele vilarejo. Para desespero e ódio da classe mais privilegiada do lugar, em especial Hortência, a personagem de Elke Maravilha, que tem uma queda pelo comendador. Xica da Silva não é mostrada apenas como uma mulher negra que sobe de vida em tempos de escravização e possui dons sexuais especiais, mas como alguém que tinha uma inteligência afiada para agir politicamente, e isso é enfatizado quando seu figurino muda para uma veste negra.

Vale destacar também a presença de José Wilker, que está brilhante como o Conde de Valadares. A cena de Xica dançando para ele é um dos pontos altos do filme. Pensar que Wilker fez esse personagem no mesmo ano que interpretou o Vadinho de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS é acreditar que os astros estavam a seu favor naquele 1976.

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LUIZ GONZAGA – LÉGUA TIRANA

Escolher o recorte do biografado é uma tarefa difícil. Não é sempre que um realizador tem a sorte de contar a história da vida de um cantor famoso, por exemplo, abrangendo um longo período de tempo e ter sucesso – HOMEM COM H é uma rara exceção. Geralmente o melhor a se fazer é escolher determinada fase da vida do biografado. E, nesse sentido, LUIZ GONZAGA – LÉGUA TIRANA (2025), de , de Marcos Carvalho e Diogo Fontes, me pegou de surpresa, já que a maior metragem do filme é para contar a infância do Gonzagão. Inclusive, o ator que interpreta o cantor quando criança é muito bom. E há um cuidado em contar essa história até com algum toque de misticismo, como se houvesse um destino de rei para aquele jovem Luiz – nome de rei, alguém diz em determinado momento. As próprias locações parecem sair de contos de fadas, ou alguns encontros mágicos, como o cego que diz se chamar Assum Preto. Além do mais, há também algo que remete o filme a obras de décadas passadas, sem ter medo de mostrar o início do interesse da criança pela nudez das mulheres, bem como sua primeira vez na juventude, num prostíbulo - uma cena, aliás, de bom gosto. Quem também merece destaque é o casal que faz os pais de Gonzaga, sempre interessados na melhor educação, dentro do que se podia ter quem era pobre - ir à escola, por exemplo, não era direito dos mais pobres. Como já há um filme que trata da carreira de sucesso do cantor, o ótimo GONZAGA – DE PAI PRA FILHO, ter essa outra opção é bem válido, não importando que este novo filme perca bastante na comparação com a obra de Breno Silveira.

MAURÍCIO DE SOUSA – O FILME

Não dá pra comparar esta cinebiografia de Mauricio de Sousa com os três filmes live-actions de seus personagens, especialmente com o adorável filme do Chico Bento, mas até que há mais semelhanças na história do criador de Mônica e cia. do que eu imaginava (e gostaria). Pra começar, MAURÍCIO DE SOUSA – O FILME (2025), de Pedro Vasconcelos, começa com a infância do personagem e com sua vontade de ganhar dinheiro com seus desenhos. Aliás, talvez tenha me incomodado um pouco essa questão de ele pensar em ganhar dinheiro com os desenhos e não com suas histórias ou seus personagens. Mas isso diz mais de mim do que do Maurício retratado, vivido por Mauro Taqueda de Sousa, o próprio filho do Maurício, e hoje diretor do MSP Studios. De todo modo, quem teve os quadrinhos como elemento muito importante em sua vida, como é o meu caso, vai se identificar bastante com o protagonista, como quando ele descobre a paixão pelos quadrinhos antes mesmo de aprender a ler, por exemplo. É também muito bom ver pessoas ilustres que passaram pela vida de Maurício surgindo em algum momento do filme, como é o caso de Ziraldo e de Jayme Cortez. Mesmo quem não tem muita intimidade com quadrinhos vai gostar de acompanhar o duro que Mauricio deu para conquistar seu sucesso, graças também a pessoas importantes como sua avó e seu pai. Pra mim ficou faltando algo que me encantasse de fato – o ator parece demais com o Maurício, é a cara dele, mas ele ser o coração do filme e não ser um grande ator acaba prejudicando um pouco.

REJEITO

Na época da tragédia de Brumadinho em 2019, eu achei a coisa tão absurda que imaginei que veríamos uma quantidade imensa de filmes sobre o assunto. Os poucos que surgem são pequenos documentários como este, REJEITO (2023), de Pedro di Filippis, que não atingem o público que se deveria. Este aqui começa melhor do que termina, mas é compreensível, já que o diretor foi buscando mais material ao longo dos anos e um desses materiais bons para o filme é a cena dos moradores de Socorro que são obrigados, mais uma vez, a deixar suas casas, por ordem das autoridades. O absurdo é ter uma tragédia em Mariana (em 2015) e tudo continuar sendo feito pela Vale como se nada tivesse acontecido. E aí veio Brumadinho em 2019, com 272 mortos, centenas de famílias traumatizadas e sem lugar e a morte da fauna e da flora da região. Ver aquela vaca cheia da lama do rejeito doeu muito no peito, assim como nos deixa indignados demais ouvir o sujeito da Vale comparando o ocorrido em Brumadinho com um acidente de avião. Canalhas. É triste sair do cinema com esse sentimento de impotência, mas acho importante demais que isso nunca seja esquecido. Afinal, é isso que eles querem.

terça-feira, julho 14, 2026

TUBARÃO (Shark)

 
Depois da obra-prima O BEIJO AMARGO (1964), Samuel Fuller amargou dificuldades em filmar nos Estados Unidos. E este TUBARÃO (1969) até parece um filme feito para a televisão, com a utilização muito maior de close-ups (não sei se isso veio da influência dos westerns de Sergio Leone). Sentimos um sabor de sessão da tarde preguiçosa, o que não é de todo ruim, mas há uma distância imensa entre este antecessor do TUBARÃO do Spielberg e as obras maiores anteriores de Fuller, nos anos 1950-60. Há um roteiro meio desleixado e uma montagem meio estranha. O próprio Fuller se desentendeu com os produtores e abandonou as filmagens em determinado momento e o mexicano Rafael Portillo assumiu até o fim, embora não tenha sido creditado.

Filmado no México, mas ambientado no Sudão, no norte da África, a trama acompanha um contrabandista de armas (Burt Reynolds) que foge da polícia local, mas que perde o seu caminhão, indo parar numa localidade distante. Sem dinheiro, vê como alternativa o trabalho de assistente de um suposto cientista que investiga algo no fundo do mal. Na verdade, ele e sua companheira estão de olho no ouro que está afundado num navio naufragado ali perto, num mar cheio de tubarões.

O personagem de Reynolds é um picareta, mas os outros personagens, esses, sim, são vilões. Sua relação de amizade com um menino de rua local o coloca entre os personagens ambíguos de Fuller mais dotados de solidariedade e coração. Pena que isso é uma das poucas coisas que funcionem no filme, no quesito relações humanas. Se bem que há algo de humano em determinada cena com o médico alcoólatra vivido por Arthur Kennedy, um ator, aliás, que estava alternando produções em Hollywood com produções internacionais (Itália, Argentina). O próprio Burt Reynolds também já havia experimentado o gostinho de estrelar um western spaghetti com JOE, O PISTOLEIRO IMPLACÁVEL, do talentoso Sergio Corbucci. Era um tempo de reformulação em Hollywood.

Eu diria que a existência de uma cópia em BluRay (lá fora) deste TUBARÃO só existe por causa do nome de Fuller. Não fosse por isso, seria uma dessas obras esquecidas, por mais que possa ser vendida como um terror ecológico, embora não o seja, de fato: trata-se mais de um thriller sobre trambiqueiros vivendo em local inóspito e numa caça ao tesouro que destaca a ambição e a cobiça do que um filme que enfatize o ataque dos tubarões, embora haja, sim, boas cenas de tensão envolvendo os peixes mais perigosos do oceano.

Começando a ver esta nova fase de decadência, por assim dizer, de Fuller, com um misto de tristeza e curiosidade, mesmo sabendo que ainda há obras-primas nos anos 1980 pela frente.

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A MÁQUINA DE ESCREVER, O RIFLE E A CÂMERA (The Typewriter, the Rifle & the Movie Camera)

Que lindo este documentário de pouco menos de uma hora de duração sobre a obra de Samuel Fuller. Nem parece extra de DVD. Aqui temos a emoção de ver Fuller falando sobre sua experiência lutando na Segunda Guerra Mundial, na dor de ver colegas literalmente em pedaços, experienciar o horror de estar em combate e ainda responde à pergunta como é matar alguém na guerra. E Fuller levou sua experiência para vários filmes seus, de CAPACETE DE AÇO (1951) a AGONIA E GLÓRIA (1980). Entre os entrevistados do documentário, há participações de Tim Robbins (entrevistando Fuller), Quentin Tarantino (visitando o quarto de Fuller junto com Robbins, após a morte do realizador marginal) e comentários preciosos de Martin Scorsese e Jim Jarmusch. O documentário apresenta o jovem Fuller, entusiasta do jornalismo desde criança, sua experiência na guerra, seus temas recorrentes, imagens dos principais filmes, de seu interesse por pessoas distantes do heroísmo, como em EU MATEI JESSE JAMES (1949), passando pelo noir do lindíssimo ANJO DO MAL (1954), a maldade masculina de filmes como A LEI DOS MARGINAIS (1961), passando pela dificuldade de Fuller de conseguir filmar durante o período da mudança na época da Nova Hollywood. A MÁQUINA DE ESCREVER, O RIFLE E A CÂMERA (1996) está presente no box A Arte de Samuel Fuller.

TURBULÊNCIA (Turbulence)

Depois de ter visto uma história megalomaníaca de produção milionária de mais um americano salvando o mundo (DEVORADORES DE ESTRELAS), é muito bom ver uma produção mais barata, mas sem medo de pensar grande em suas possibilidades. TURBULÊNCIA (2025) me surpreendeu muito, tanto pelo tanto de tensão que é capaz de causar dentro daquele cenário com apenas quatro pessoas, um balão, quanto pela metáfora com a turbulência de um relacionamento a dois, especialmente quando o marido é um mau-caráter. Aliás, o próprio ator, Jeremy Irvine (que estreou no cinema com CAVALO DE GUERRA, do Spielberg), tem um physique du rôle de vilão, o que de certa forma ajuda o filme a nos deixar confusos em alguns momentos com a possibilidade de ele ser inocente. O ideal é entrar na sessão sem saber nada, mas o próprio cartaz já entrega muita coisa, o que não quer dizer que surpresas não apareçam o tempo inteiro ao longo dessa jornada dentro do balão envolvendo uma mulher que quer se vingar e outra que é inocente, mas que se revela a grande heroína, vivida pela islandesa Hera Hilmar (MÁQUINAS MORTAIS). Percebe-se que há muito uso de CGI. Afinal, não temos aqui uma megaprodução estilo Missão: Impossível que banque cenas aéreas com dublês e tudo o mais. Mas, mesmo assim, é tudo muito empolgante e a sensação de perigo fica presente o tempo inteiro. Até porque não se trata apenas de sobreviver a um balão com problemas, mas também de lidar com outras pessoas, algumas delas cheias de veneno para dar. Adoro a cena final, representativa da libertação da heroína. A direção é do suíço Claudio Fäh, que tem no currículo alguns filmes de aventura e ação, mas seu trabalho anterior era sobre um avião caindo num mar cheio de tubarões, DESESPERO PROFUNDO (2024), que chegou a passar nos cinemas brasileiros (talvez só em cópias dubladas) e eu não dei muita bola.

AS CONDENADAS DA PRISÃO DO INFERNO (The Big Doll House)

Esse filão WIP (Women in Prison), nascido de desejos e fetiches masculinos, já rendeu bastante nas décadas de 1970/80. Até o Brasil soube aproveitar essa onda para capitalizar internacionalmente alguns filmes. São obras assumidamente sensacionalistas e apelativas, seja pela violência, seja pela sensualidade. E de vez em quando acontecia de esses filmes serem também muito bons, como é o caso deste AS CONDENADAS DA PRISÃO DO INFERNO (1971), do mesmo Jack Hill do estranho SPIDER BABY (1967) e de dois dos mais representativos exemplares do blaxploitation, COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973) e FOXY BROW (1974), ambos estrelados pela musa Pam Grier, que, aliás, também está neste WIP, como uma das presidiárias bonitas da mesma cela. Ou seja, uma das protagonistas. Ao contrário do que se poderia imaginar, até que o aspecto apelativo deste filme é suave. As cenas de violência são pouco gráficas e as cenas de tortura se aproximam são rápidas e interessam à trama, além de importantes para enfatizar a maldade das vilãs frente às moças, que só querem fugir da prisão, sendo que uma delas pertence a um grupo revolucionário. O filme cresce quando passa a ser um filme sobre fuga de prisão, um dos subgêneros, inclusive, que muito me agradam desde a infância, quando vi FUGINDO DO INFERNO, de John Sturges, pela primeira vez na televisão. Um dos atores-fetiche de Jack Hill está aqui, Sid Haig, que até chegou a trabalhar com Tarantino em KILL BILL. Rodado nas Filipinas, esta pequena joia do WIP conta com momentos bem divertidos e cenas memoráveis e aparece como extra do box Cinema Exploitation 4, da Versátil.

domingo, julho 12, 2026

O CORPO ARDENTE

 
A Gênese de Marcelo Rondi em Noite Vazia e O Corpo Ardente, de Walter Hugo Khouri

(Texto originalmente publicado na revista Cinese nº 1, disponível no site da Aceccine)

Minhas lembranças de quando comecei a ver os filmes de Walter Hugo Khouri se misturam. Não sei dizer ao certo se comecei a vê-los quando nem sabia quem era o realizador, apenas atraído pela beleza das atrizes em cenas sensuais, em filmes como O CONVITE AO PRAZER (1980) ou EU (1987), na época que foram exibidos na TV aberta; se foi com NOITE VAZIA (1964), numa exibição na TV Cultura, quando já era um cinéfilo iniciante e leitor da melhor fase da revista SET, e o filme era considerado um clássico até por críticos que não tinham por hábito exaltar a obra do realizador; ou se aconteceu nas várias vezes que entrava na locadora do centro da cidade e saía, feliz da vida, com o VHS de EROS – O DEUS DO AMOR (1981) debaixo do braço. Eros viria a ser o trabalho de Khouri que eu mais veria e que se tornaria o mais querido por mim.

Há um diálogo num filme pouco lembrado de Khouri, PAIXÃO E SOMBRAS (1977), em que o protagonista, interpretado por Fernando Amaral, vivendo um cineasta chamado Marcelo Rondi (nome recorrente e para muitos estudiosos e críticos, o alter-ego do realizador), ao ser perguntando se as pessoas vão compreender a relação entre cenário e pintura em seu filme, diz que, se o público não compreender, ele poderá sentir. E aqui podemos destacar o verbo “sentir”.

Eis o motivo de a obra do cineasta ter essa força que prevalece ao longo dos anos: se alguém busca seus filmes pelo erotismo, poderá sentir e receber algo em troca, sejam citações filosóficas ou artísticas, um cuidado plástico impressionante da obra cinematográfica em si ou simplesmente algo de misterioso que não saberão muito bem explicar.

Ou seja, é possível que muitos que adentram o universo khouriano acabem ficando apaixonados por ele por diversos motivos, acontecendo, portanto, uma espécie de sintonia, como se algo quase sobrenatural tivesse acontecido durante a apreciação da obra. Ter essa sensação é o que geralmente mantém vivo e entusiasmado o apreciador de arte, seja ela qual for.

Recentemente, ao adquirir o livro Walter Hugo Khouri – O Ensaio Singular (2023), de Andrea Ormond, recebi da autora uma dedicatória que diz “para o irmão em Khouri Ailton Monteiro”. Ou seja, ter essa relação de afeição e paixão pelo cinema do diretor paulistano faz com que nos sintamos membros de uma espécie de confraria. E hoje o aumento do número de espectadores que veem o cinema de Khouri com olhos mais generosos se deve principalmente a essas pessoas apaixonadas por seu trabalho que fazem questão de verbalizar essa paixão, de levar a palavra. Ormond, aliás, foi uma das responsáveis por esse enriquecimento da fortuna crítica de qualidade sobre o cineasta, em seu hoje lendário blog Estranho Encontro.

Hoje, aliás, existe uma oferta considerável de livros sobre o realizador. O mais recente lançamento é o ótimo O Cinema de Walter Hugo Khouri (2025), de Donny Correia. Mas nem sempre foi assim. Khouri foi uma espécie de lobo solitário, de alguém que não queria e nem fazia muita questão de fazer parte daquele clube que significava prestígio para a crítica e para a intelectualidade, o clube do Cinema Novo. Tanto que chegou a ser criticado por Glauber Rocha por fazer um suposto “cinema burguês” ou “alienado”.

Até hoje, do ponto de vista da crítica, se pegarmos, por exemplo, o livro 100 Melhores Filmes Brasileiros, criado pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, já nos anos 2010, teremos apenas um filme de Khouri presente na lista dos 100, NOITE VAZIA, enquanto um diretor considerado “maldito” como José Mojica Marins aparece com vários títulos. Ainda há, sim, uma preferência pelos filmes do Cinema Novo, ou até do cinema marginal, com Mojica correndo por fora, tendo ganhado um prestígio que ultrapassa a fronteira de nosso país.

Para este ensaio gostaria de destacar dois filmes anteriores ao surgimento oficial de Marcelo Rondi, o referido personagem recorrente dos filmes de Khouri, surgido pela primeira vez em AS AMOROSAS (1968) e pela última vez em PAIXÃO PERDIDA (1998). Os títulos em questão são NOITE VAZIA e O CORPO ARDENTE (1966), filmes que ajudariam a tornar mais perceptível o estilo de Khouri, sua assinatura, e que ajudam a pensar a gênese de Marcelo. Essas duas obras representaram um salto de qualidade, ou melhor dizendo, de autoralidade, em comparação com o que o diretor havia feito até então.

Renato Luiz Pucci Jr., em seu livro O Equilíbrio das Estrelas - Filosofia e Imagens no Cinema de Walter Hugo Khouri (2001), apresenta a teoria de que Marcelo seria a síntese de Luís e Nelson. Ou, ao contrário, Luís e Nelson, de NOITE VAZIA, representariam uma espécie de gênese de Marcelo. Ou seja, a persona mais cínica e mulherenga de Marcelo estaria em Luís, enquanto Nelson apresenta o Marcelo mais sensível e mais claramente angustiado, desde sua primeira aparição, com um close-up bastante expressivo do rosto do ator italiano Gabriele Tinti.

Também podemos ver Márcia, a protagonista de O CORPO ARDENTE, como uma espécie de versão feminina de Marcelo, em sua angústia, em sua busca por sentido na vida, em seu tédio, em sua ânsia por liberdade, especialmente quando visualiza o corcel negro fugido de seu dono e que aparece como símbolo de liberdade. Uma liberdade que ela inveja. Sente-se maravilhada ao olhar para o animal, e por isso tenta protegê-lo dos capatazes.

Para aqueles não familiarizados com o cinema de Khouri, Marcelo Rondi é este homem amaldiçoado por um vazio que o destrói por dentro, por mais que ele busque meios de atenuar a angústia a partir, principalmente, do sexo, das relações entre as várias mulheres que habitam sua existência, entre elas sua esposa e sua filha. Ou seja, por mais que o espectador incauto não perceba, Khouri estava mais interessado em tratar menos do desejo e mais do desassossego.

Assim, em NOITE VAZIA, dois homens burgueses ou de classe média saem em busca de mulheres numa São Paulo habitada por pessoas tristes. Luís é o que toma a iniciativa, o que tem dinheiro para pagar as prostitutas, enquanto Nelson se sente desconfortável, mas não deixa de participar, de usufruir da noitada regada a sexo e bebidas, por mais que demore a alcançar satisfação. Porém, diferente do amigo, consegue fechar a noite abraçado à personagem de Norma Bengell, a prostituta mais romântica, por assim dizer.

Já em O CORPO ARDENTE, acompanhamos a inquietação de Márcia (Barbara Laage) na festa em sua casa, enquanto ela e o marido esperam um tal conde. Na festa, estão lá seus dois amantes. Márcia se sente atraída também por mulheres na festa. Ou seja, não é tão diferente assim do que se veria nas obras em que Marcelo Rondi apareceria já em meia-idade, como O PRISIONEIRO DO SEXO (1978) ou O CONVITE AO PRAZER.

Ambos os filmes contam com momentos elevadores, próximos do sobrenatural: o carro de Luís e Nelson passando por dentro de um túnel escuro em Noite Vazia e o “reencontro” com o corcel negro através da filmagem em super-8, apresentada pelo filho de Márcia, em O CORPO ARDENTE. São duas cenas perto do final do filme que tanto encerram uma jornada quanto trazem momentos próximos do transcendental, para usar uma palavra recorrente nos filmes de Khouri, o cineasta que ousou fazer cinema claramente autoral durante cinco décadas num país que não tratava muito bem seus cineastas.

+ TRÊS FILMES

DOUVINA

Uma meditação sobre a importância da memória, seja a memória que se ausentou da mente de Dona Douvina, quanto a memória do acervo de seu marido, Cristiano Câmara, detentor de uma das maiores coleções de discos e filmes em diferentes mídias de Fortaleza. Seu acervo contém música datadas dos anos 1930 em diante, e seu amor pelo cinema clássico hollywoodiano se explicita nos quadros e cartazes que preenchem o espaço de sua casa. Uma vez que não está mais entre nós o casal, a filha Zuleika é a principal responsável pela manutenção e cuidado do material presente na casa, situada próxima à Catedral Metropolitana e ao Mercado Central. São do Mercado, aliás, as primeiras imagens de DOUVINA (2026), imagens que mostram um centro da cidade ainda muito vivo. Essa efervescência popular se contrapõe, ou se completa, ao silêncio da casa de Douvina, em especial em seus dias de maior fragilidade física, sob os cuidados da filha e de uma equipe de enfermagem, que transforma a casa numa espécie de hospital. O diretor Márcio Câmara (RUA DA ESCADINHA 162, 2003) mistura ficção com documentário neste filme que tem uma função mais de nos fazer sentir do que de informar, o que faz com que seu trabalho ganhe em força espiritual. Em alguns momentos, sente-se a proximidade da morte, nas cenas de Douvina, mas também da tempestade. As cenas dramatizadas trazem também uma atmosfera onírica que enriquece a obra. Ao final, até posso ter sentido mais falta da história de amor de Christiano e Douvina, mas o pouco que é mostrado é suficiente para que procuremos completar as lacunas, e nos emocionarmos com o relacionamento do casal. Tive a oportunidade de ver DOUVINA numa sessão fechada, mas já anseio pela primeira exibição oficial. Que seja em breve.

PARA VIGO ME VOY

Quando PARA VIGO ME VOY (2025), documentário sobre Cacá Diegues dirigido por Lírio Ferreira e Karen Harley, começou, confesso que fiquei assustado com a cena em que o vemos já muito velhinho e debilitado levando um tombo no set do ainda inédito DEUS AINDA É BRASILEIRO, continuação de seu filme de 2003. Fiquei pensando se o documentário não estaria expondo em demasia o estado físico do cineasta. Mas, depois, percebi que essa cena, junto com outras que apontam seu estado de saúde nos últimos meses de vida, serviram para contrastar com sua longa e militante vida. Diegues foi um dos primeiros cineastas brasileiros a colocar um ator negro, Antonio Pitanga em GANGA ZUMBA (1963), como protagonista. E depois seguiria fazendo questão de valorizar o negro em outros filmes importantes, como A GRANDE CIDADE (1966), XICA DA SILVA (1976) e QUILOMBO (1984). Suas passadas por Cannes o fizeram querido do festival e da França, tanto que até fez um filme com Jeanne Moureau, JOANNA FRANCESA (1973). Seu posicionamento político foi corajoso, atacando o autoritarismo em tempos de ditadura - chegou a ficar exilado por alguns anos. É bom ver este doc e passear pela filmografia de Diegues. Mesmo não se gostando de todos os seus filmes, é difícil não simpatizar com o cineasta, é difícil não admirar sua postura e sua visão da brasilidade e também sua sensibilidade para com pessoas excluídas, como idosos (CHUVAS DE VERÃO, 1978), artistas pobres de circo (BYE BYE BRASIL, 1980) e escravizados, como nos filmes anteriormente citados. O documentário tem um quê de incompleto, mas é muito prazeroso para os cinéfilos.

VANDO VULGO VEDITA

Ver na telona este filme da dupla Leonardo Mouramateus e Andréia Pires faz toda a diferença. Muito bom ter tido esta oportunidade, graças a uma mostra especial promovida pela Aceccine no Cinema do Dragão. O trabalho de Mouramateus já era conhecido por mim desde MAURO EM CAIENA (2012), e desde então tenho acompanhado seu trabalho. Quanto a Andréia Pires, não consta outro crédito de direção seu no IMDB. De todo modo, VANDO VULGO VEDITA (2017), é um dos trabalhos mais solares e mais cheios de alegria com o nome de Mouramateus nos créditos. Adoro aqueles jovens pintando seus cabelos de loiro e se dirigindo à Barra do Ceará para se divertir, conversar, cantar, falar bobagem. É um filme muito mais preocupado com a atmosfera do que com diálogos, embora não se deva menosprezar o que é dito pelos vários personagens. Há um momento de tensão, lá perto do final, que faz com que o filme tome um outro sentido, mas, até isso, que acaba provocando certo mal-estar, é bem-vindo, levando em consideração a força das imagens e o quanto ele é cheio de vida, de juventude, de sensualidade, mas também de maldade juvenil.

sábado, julho 11, 2026

A MORTE DO DEMÔNIO – EM CHAMAS (Evil Dead Burn)

 
Acho interessante que a marca Evil Dead tenha virado uma espécie de cinessérie que homenageia o trabalho de Sam Raimi, com a diferença que diminui o humor e aumenta a violência gráfica e o tom de tragédia. O que não é algo ruim. É a tendência do cinema de horror do século XXI. Tanto que fica muito claro vendo tanto A MORTE DO DEMÔNIO – A ASCENSÃO (2023) quanto este A MORTE DO DEMÔNIO – EM CHAMAS (2026) que há uma preocupação em trazer o horror para os temas contemporâneos. No novo filme, o tema é a violência doméstica, a masculinidade tóxica.

A suíça Souheila Yacoub (que está nos ótimos CLIMAX, de Gaspar Noé, e O SAL DAS LÁGRIMAS, de Philippe Garrel), interpreta a francesa Alice, uma jovem mulher que amargou violências terríveis de um cara que era visto pela família (dele) como um homem de bem e tal. Depois da morte do sujeito, num acidente de carro aterrorizante, ela encara o horror de ir para a casa dos pais do morto. Essa é talvez a principal história do filme, já que a trama que segue a partir de quando Evil Dead entra é uma variação dos outros filmes, especialmente do anterior, de Lee Cronin, quando pessoas da família são possuídas por entidades malignas que matam os vivos para possuírem seus corpos.

Um dos aspectos mais interessantes de Evil Dead, e em especial deste filme, é o quanto me fez pensar no conceito de “horror”, que tem mais relação com repulsa, nojo e choque do que com medo, atmosfera, mistério ou suspense. Ou seja, os fãs de gore e de filmes que destacam mais esses elementos podem se sentir comtemplados, embora eu perceba, principalmente no prólogo, um pouco de desleixo na direção, na montagem, no roteiro: o prólogo não tem impacto e a história dos dois amigos pescadores tem uma ligação muito pobre com a trama principal, da família Price e das mulheres (a namorada, a esposa, a sogra e a velha matriarca).

Também senti que há uma barriga ali pelo meio, ou na terça parte, quando o filme perde um pouco da força, embora siga chamando a atenção e mantendo o interesse nas cenas de maior choque, como a da caneta no ouvido ou a do beijo “romântico” de marido e mulher. A adaga, por exemplo, é um mcguffin. Mas um mcguffin que ajuda a empurrar a história para frente, na trajetória difícil da heroína/final girl.

Por outro lado, o trabalho de câmera de Sébastien Vanicek (INFESTAÇÃO, 2023) é quase sempre muito inventivo, emulando a capacidade que os corpos endemoniados têm de subir as paredes ou de pularem em cima de suas vítimas, não importando a altura ou o estrago que uma queda fará no corpo adotado pelos demônios. Cena mais clara disso é a do pai da família dando tiros na própria cabeça na frente de seus familiares.

Ou seja, considero MALDIÇÃO DA MÚMIA um Evil Dead melhor que este novo Evil Dead. Lee Cronin pode ter tentado passar a perna em seu colega francês, além de saber construir obras plasticamente mais bonitas.

+ TRÊS FILMES

MARIO BAVA – MAESTRO DO MACABRO (Mario Bava – Maestro of the Macabre)

Aproveitando que vi O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA (1970) recentemente, aproveitei para ver este documentário feito para a televisão britânica de cerca de uma hora de duração que busca enaltecer o legado de Mario Bava, um dos mais importantes cineastas italianos. E talvez o mais influente: sua obra influenciou gente diversa como Fellini, Argento, Lynch, Scorsese, Tim Burton, entre outros, além de influências diretas em obras como ALIEN, O 8º PASSAGEIRO e SEXTA-FEIRA 13 – PARTE 2. Bava foi um cineasta que fez obras geniais com orçamentos mínimos, e este documentário cobre quase tudo de sua filmografia, de forma muito rápida, provavelmente para caber nos 60 minutos. E está tudo bem. Outros livros e documentários podem dar conta de seus filmes individualmente, ou mais aprofundadamente. Inclusive o autor do mais importante livro sobre Bava, Tim Lucas, está presente entre os entrevistados. MARIO BAVA – MAESTRO DO MACABRO (2000) começa destacando os primeiros filmes de horror de Bava, A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO (1960) e AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963), e se percebe que há uma divisão em blocos de assunto: o terror, o giallo, o pré-slasher, os outros gêneros pelos quais ele se aventurou, como o western, a ficção cinética e o peplum. Sobre o western, conta-se que ele não ficava à vontade com o gênero, por preferir trabalhar em estúdios e poder controlar melhor as cores, os cenários, algo que acabou se tornando uma de suas maiores marcas, seu enfoque visual, o quanto ele se importava mais com a imagem e menos com os atores e os diálogos. É bom ver este documentário para dar vontade de voltar a seus filmes e, se for o caso, ver aqueles que ainda não foram vistos.

ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (Oddity)

Comecei a ver este segundo filme de Damian MCarthy com a expectativa de ver no mesmo dia o novo HOKUM – O PESADELO DA BRUXA (2026). E até baixei há pouco seu primeiro longa, O ALERTA (2020). O fato é que gostei bastante de ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (2024). Antes tarde do que nunca tê-lo visto. A gente percebe que há um cineasta que trabalha com rigor formal por trás das câmeras e que a estranheza, o medo e o bom desenvolvimento da história vêm junto com a elegância. O prólogo nos apresenta a uma mulher que enfrenta um dilema: seu marido está trabalhando numa clínica de psiquiatria e ela está sozinha numa casa na floresta. Eis que um sujeito com um olho de vidro bizarro que pede pra entrar dizendo que havia um homem perigoso dentro da casa. A mulher fica nervosa e em dúvida sobre que atitude tomar, uma vez que havia deixado seu telefone no carro. Essa tensão e o resultado do que acontece nesta noite é só o começo dessa história que envolve psicopatia, mas principalmente eventos sobrenaturais, principalmente graças à presença de uma vidente cega (Carolyn Bracken, aqui em dois papéis) e de objetos que têm tanto valor quanto maldição. Um filme para não se esquecer.

LINK – O ANIMAL ASSASSINO (Link)

O fato de eu ter gostado tanto de O PRIMATA, de Johannes Roberts, me deixou curioso para conferir este ancestral dos anos 1980 dirigido pelo talentoso Richard Franklin, que vinha de ótimos filmes no currículo, como ENIGMA NA ESTRADA (1981) e PSICOSE II (1983). A opção de usar animais de verdade e não pessoas vestidas de macaco foi bastante arriscada, embora, para a época tenha sido o melhor a fazer. Ainda assim, senti que o orangotango Link me pareceu demasiado simpático para o vermos como um animal perigoso e assustador. Na trama de LINK – O ANIMAL ASSASSINO (1986), Elizabeth Shue é uma jovem estudante de zoologia que se oferece para ser assistente de um professor da universidade que trabalha com primatas, mais especificamente estudando a inteligência desses animais. Quando a moça se vê sozinha naquela casa enorme, distante da cidade, tendo que lidar com o perigo de uma fera, ela passa a exercitar seu instinto de sobrevivência se não quiser ter o mesmo destino de outros. Visto no box Obras-Primas do Terror – Animais em Fúria.

domingo, julho 05, 2026

O CONVITE (The Invite)

 
Assistir a O CONVITE (2026) é garantia de quase duas horas de sorriso no rosto, ainda que nem tudo sejam risos neste terceiro longa-metragem de Olivia Wilde, nascido após a repercussão de fofocas e do contexto de sua separação conjugal durante as filmagens de NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (2022), uma obra mais ambiciosa do ponto de vista da produção.

Para O CONVITE, Wilde opta por fazer uma obra menos complexa no que se refere a locações e maior quantidade de atores, o que não quer dizer que seja menos sofisticada em condução narrativa num espaço fechado: o filme se passa quase que inteiramente num apartamento em San Francisco. E a diretora (e aqui um dos quatro protagonistas também) sabe transformar em cinema aquilo que poderia parecer teatro filmado nas mãos de alguém sem talento. O espaço do apartamento é muito bem aproveitado, além dos close-ups da expressão nos rostos dos atores. Logo no início do filme, com a cena no conservatório, há um interesse em fugir do uso convencional da imagem e uma intenção de fazer algo pensado para o cinema – a opção pelo 35 mm e uma fotografia um pouco esmaecida também é deliberado.

Na revista Time, Olivia Wilde comenta em entrevista uma frase de Phoebe Waller-Bridge, a genial criadora da série FLEABAG: a atriz e roteirista afirma que nós nunca estamos tão vulneráveis quando estamos rindo, uma frase que achei interessante, principalmente se pensarmos no impacto dos dramas dos personagens de O CONVITE, no quanto esses dramas são transformados em humor; e depois no quanto eles se apresentam sérios, dramáticos e tocantes. Há quem diga que Wilde transformou sua dor (de sua vida privada) em algo cômico, mas também catártico.

Não à toa o filme foi tão bem avaliado e chegou a ter várias ofertas de compra até parar nas mãos da A24. Houve uma guerra de lances e o filme chegou a ser objeto de desejo também da Netflix, da Neon, da Sony e da Searchlight Pictures. Muita gente interessada e hoje há até rumores de uma possível indicação ao Oscar, principalmente de Penélope Cruz, que é quem, de longe, brilha mais no filme, no papel de uma psicoterapeuta e sexóloga que, junto com o marido, um ex-bombeiro (Edward Norton), recebe o convite dos vizinhos de baixo (Olivia Wilde e Seth Rogen) para um jantar.

Na verdade, a ideia do jantar vem da personagem de Wilde, que arruma a casa toda, comprando um tapete caríssimo, para receber esse casal, que tem atrapalhado suas noites de sono com o barulho dos gritos de orgasmo da espanhola. Para o casal de baixo, esses gritos de prazer também funcionam como mais um lembrete do quanto estão distantes daquela realidade de gozo de vida sexual, já que há muitos meses não fazem sexo e passam o tempo todo discutindo.

Seth Rogen está ótimo, ainda que fazendo mais uma vez o papel de sujeito engraçado e desengonçado; Olivia Wilde está perfeita como a mulher desesperada por uma mudança de vida (a atriz e diretora estava muito insegura como atriz e a princípio queria outra atriz para o papel); Edward Norton está ótimo como esse sujeito seguro de si e que não se importa em falar de detalhes da vida sexual do casal e de suas próprias preferências sexuais. Mas Penélope, que atriz, que papel. Talvez seu melhor no cinema internacional. Só na Espanha, com Bigas Luna e Pedro Almodóvar, chegou a se apresentar tão brilhante.

Uma alegria poder ver O CONVITE e sentir algo parecido com o que sentíamos no auge da carreira de Woody Allen. Além disso, o filme fala a um público 40+, que hoje é também um frequentador assíduo das salas de cinema.

+ TRÊS FILMES

VELHOS BANDIDOS

Fernanda Montenegro escolheu trabalhar com seus familiares em seus últimos projetos de atriz. Basta lembrar de sua pequena participação em AINDA ESTOU AQUI, estrelado pela filha Fernanda Torres, de VITÓRIA, dirigido pelo genro Andrucha Waddington, e agora é a vez de ser dirigida pelo filho, Claudio Torres, que não é o mais talentoso da Conspiração Filmes, mas que me faz lembrar um bom trabalho seu, REDENTOR (2004). Sua especialidade é filmes mais leves, como A MULHER INVISÍVEL (2009) e O HOMEM DO FUTURO (2011). Em VELHOS BANDIDOS (2026), agora com 96 anos, contracena com outros atores veteranos, como Ary Fontoura, Vera Fischer, Reginaldo Faria e Tony Tornado. No campo dos atores jovens, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta são dois ladrões de casas que planejam fazer um roubo para mudar de vida, irem para Bora Bora. Eis que acabam assaltando os velhos errados, já que o casal de nonagenários tem planos mais ambiciosos e os colocam no devido lugar. Achei que faltou um melhor acerto na comédia. Foram poucas as vezes que fui fisgado pelo humor. Me pareceu um filme muito travado.

SEX

Eu adoro filmes falados, muito falados. Principalmente quando o texto é muito bem escrito. E podemos dizer isso do texto dos filmes de Dag Johan Haugerud, diretor da trilogia SEX, LOVE e DREAMS, todos de 2024, a chamada trilogia de Oslo. É de dar gosto acompanhar os dilemas de seus personagens, e o modo como o diretor não passa a impressão de estar se repetindo ao falar do mesmo assunto. Até porque o que temos em SEX, o primeiro dos três filmes da trilogia, é um aprofundamento gradual de uma questão que é apresentada já nos primeiros minutos na conversa entre dois amigos que trabalham como limpadores de chaminés: um deles teve, pela primeira vez na vida, uma experiência homossexual com um cliente. Aquilo chocou o amigo e passou a fazer um estrago grande para a família desse homem, que, afinal, fez questão de contar o ocorrido para a esposa, que não reagiu de maneira simpática a essa aventura de seu cônjuge. Enquanto isso, o outro amigo também vai percebendo, principalmente depois de sonhos recorrentes com David Bowie, que há algo preso em sua vida, algo que ele não sabe muito bem explicar. Gosto de como o filme se mantém muito envolvente até o fim de suas mais de duas horas de longas DRs e conversas que vão fundo em questões sobre desejo, ação, sexo e traição. Haviam dito que SEX era inferior a DREAMS, e de fato é; mas não fica tão distante assim, até por terem um tom diferente, sendo um mais masculino e outro mais feminino, mas ambos dispostos a explorar as inquietações de seus personagens.

NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS

Numa dessas zapeadas pelo cardápio dos streamings que tenho disponíveis junto com a Giselle, damos de cara com esta comédia inspirada em contos de Nelson Rodrigues que eu havia visto e curtido em 2015. NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS (2015) pareceu uma boa e leve pedida para um fim de noite. E de fato o filme passa rapidinho e todas as histórias são interessantes e atraentes, trazendo um pouco de volta o tom das adaptações do querido dramaturgo que tanto fizeram a festa nas décadas de 1970 e 80. E com direito a uma boa dose de sensualidade e humor, além da crítica social ácida e muito própria de Nelson. O diretor Clovis Mello tem uma filmografia muito curta. Além deste longa, ele só faria mais um outro (espírita). Quem quiser ler meu texto publicado em novembro de 2015, só clicar AQUI.

domingo, junho 21, 2026

DIA D (Disclosure Day)

 
Pela primeira vez, em minha vida adulta, deixei de ver um jogo do Brasil na Copa e fui ao cinema (o jogo contra o time do Marrocos). Por mais que não seja entusiasta de futebol, toda essa movimentação do maior campeonato de seleções futebolísticas em escala global acaba respingando em mim. Mas comecei a ficar desinteressado por esse evento a partir da Copa de 2002 e depois nem me lembro mais das outras copas (a não ser a do 7x1), embora tenha visto pelo menos os jogos do Brasil, em casa ou em outro lugar.

Até estava chateado, achando que o fato de os jogos acontecerem à noite atrapalharia o meu cinema. Para minha surpresa, os cinemas de shopping estavam abertos no dia do primeiro jogo e até tinha muita gente na sessão de DIA D (2026), o novo trabalho de Steven Spielberg. E era uma sala IMAX, que costuma caber mais gente. A daqui, do UCI Iguatemi, tem a capacidade de 424 lugares e havia mais ou menos a metade dos acentos ocupados.

Aliás, tenho percebido um entusiasmo maior por parte do público das salas de cinema ultimamente. Pelo menos, nas de cinema de shopping. Vejo pessoas entusiasmadas com vários filmes de apelo popular, como a cinebiografia de Michael Jackson, a continuação de O DIABO VESTE PRADA ou o filme do He-Man, ou produções de terror mais sofisticadas, que têm ficado mais tempo em cartaz, como OBSESSÃO e BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR. Um filme novo de Steven Spielberg, confesso que não esperava que fosse ser tão bem recebido como este foi, pelo menos na primeira semana. Isso porque não vejo mais Spielberg como aquele cara que chamava multidões ao cinema, como foi até os anos 2000. Ainda assim, é um grande autor, sabe dominar as emoções, tem uma assinatura, merece nosso respeito e nossa atenção.

Uma coisa que vai deixar muita gente frustrada é como o filme se apresenta como algo diferente do que se poderia pensar a partir dos trailers veiculados. Por outro lado, se pensarmos bem, Spielberg tem um olhar muito mais ligado à fantasia do que à ficção científica (vide, principalmente, E.T. – O EXTRATERRESTRE) e é justamente isso que ele faz em DIA D. A própria aparência dos alienígenas na forma de animais bonitinhos e feitos em CGI é algo que puxa o filme para um tom mais fantasioso e menos realista, por mais que a trama geral lide com imagens vazadas de ETs sendo maltratados (há uma cena, vale destacar, que a imagem dessa maldade dos homens frente aos ETs faz lembrar o holocausto dos judeus) e explorados pelos militares, principalmente no mitológico acidente de Roswell, no Novo México, em 1947.

Inclusive, isso nem parece ser mais novidade. E esse é um dos pontos fracos do filme, parecendo um roteiro antigo que não contou com muitas atualizações. Assim como considero desnecessária toda aquela parte em que a personagem de Eve Hewson (FLORA E FILHO – MÚSICA EM FAMÍLIA) fica desesperada ao ter sua fé abalada ao saber da verdade sobre a existência de outras criaturas inteligentes habitando o universo. Aquela conversa dela com a freira vivida por Elizabeth Marvel chega a ser constrangedora.

DIA D se divide em duas tramas principais interligadas. Temos a subtrama de Josh O’Connor e Eve Hewson, casal que foge de uma organização de dentro do governo americano, chefiado pelo personagem de Colin Firth (aqui num papel bem caricato, mas interessante como o vilão do filme). Sua função é evitar que esse rapaz, o personagem de O’Connor, divulgue as imagens dos ETs para o mundo. Colman Domingo (sempre muito bom) está também no grupo da divulgação da verdade, nos bastidores.

A outra trama, eu diria que é mais interessante: é a trama da jornalista vivida por Emily Blunt, aqui em seu melhor papel em muito tempo. Ela, assim com o personagem de O’Connor, tem a capacidade de compreender a linguagem dos alienígenas e isso acaba rendendo momentos muito bons, que tanto funcionam para mostrar a grandeza da atriz como para trazer elementos mais intrigantes para a trama. A cena dela falando a língua dos extra-terrestres em rede nacional já é um clássico.

Há uma cena muito boa de ação no filme, que traz aquele Spielberg dono da tradição dos blockbusters de ação desde os anos 1970, que é a cena com Blunt e O’Connor dentro de um carro sendo empurrando para um trem em movimento. Ótima a cena, mas que parece um enxerto, uma concessão num filme cuja ação mais se parece com a de thrillers de espionagem da década de 1970. Aliás, ver o filme é mais uma maneira de ver Spielberg como um dos grandes herdeiros dessa geração incrível.

No mais, há uns problemas de roteiro e dá a impressão de que algumas cenas ficaram na mesa de edição, levando em consideração que há muita coisa confusa naquele começo. As cenas das pessoas apavoradas e fugindo nas estradas ficam mal explicadas e são a maior evidência dessa possibilidade. Sendo um filme de cerca de 2h30, é possível que exista uma “versão do diretor” por aí. De todo modo, é sempre um privilégio ter um filme novo do Spielberg em cartaz. Nem havia me dado conta que seu anterior, OS FABELMANS, é de 2022. Foi o maior espaço de tempo entre um filme e outro do realizador. Ainda mais levando em consideração que teve ano que ele conseguiu nos presentear com duas obras-primas, como foram os casos de JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993) com A LISTA DE SCHINDLER (1993) e de GUERRA DOS MUNDOS (2005) e MUNIQUE (2005).

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AVATAR – FOGO E CINZAS (Avatar – Fire and Ash)

Pelo tanto que odiei o segundo filme (2022), até que me surpreendi positivamente com este terceiro título da franquia, por mais que muita coisa continuasse me incomodando. O que houve de novo aqui neste AVATAR – FOGO E CINZAS (2025) foi o acréscimo do vermelho nos tons, graças ao novo povo do fogo apresentado. Inclusive, gostei muito da líder, uma espécie de vilã, que se une ao grande vilão, o Coronel Miles Quarich (Stephen Lang), que agora só aparece no corpo de um na'vi, ou seja, do mesmo tamanho do povo a quem ele deseja atacar. James Cameron continua cafona pra caramba, até na utilização da música, mas principalmente no modo como ele lida com as questões ecológicas, em especial nas cenas dos garotos contracenando com os seres aquáticos apresentados no segundo filme. Gostei de algumas soluções que ele deu para a conclusão: cresce na terça parte final e é admirável também como o diretor consegue lidar com tantos elementos dentro do quadro, principalmente quando são pássaros voando no céu junto com outros objetos da geografia do lugar. Há uma maior participação do "menino macaco", também conhecido como "Spider", bem como dos filhos de Jake (Sam Worthington), o grande herói da cinessérie, junto com sua esposa Neytiri (Zoe Saldaña). Não dá para reclamar de qualquer coisa no que se refere a aspectos técnicos, mas esse tipo de filme continua fazendo eu querer ver filme de gente comum assim que saio da sessão. Aliás, não conheço nenhuma pessoa que se declara um megafã de Avatar. Portanto, não entendo como pode ter feito tanto sucesso de bilheteria. Não creio que se deva ao fator TITANIC (1997).

PREDADOR – TERRAS SELVAGENS (Predator – Badlands)

Não sou tão entusiasta da franquia Predador. Mesmo o primeiro filme, de 1987, que é muito bom, não vejo como justificativa para terem feito tantos filmes assim com a criatura alienígena. Tanto que depois do segundo, de 1990, que é diferente por ser ambientado na selva de pedra, não cheguei a acompanhar tudo que saía de novidade. O anterior, O PREDADOR – A CAÇADA (2022), havia recebido boas críticas, e é do mesmo realizador, Dan Trachtenberg, que chega essa bela surpresa que ainda conta com a presença luminosa de Elle Fanning, como uma androide muito simpática que se oferece como parceira bastante improvável do carrancudo jovem predador que saiu traumatizado de seu planeta natal, mas disposto a cumprir sua missão, apesar do bullying pra lá de agressivo da família. PREDADOR – TERRAS SELVAGENS (2025) tem um ótimo senso de humor, ótimas cenas de ação e um final que deixa a gente com um sorriso no rosto, com vontade de ver mais filmes com aquele trio de amigos em altas aventuras por planetas distantes e selvagens. No fim das contas, o real motivo de eu ter ido ver o filme foi a Fanning mesmo. Que menina linda e talentosa, hein.

DRÁCULA – UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (Dracula - A Love Tale / Dracula)

Luc Besson, o cineasta francês que consegue fazer as produções mais caras com o dinheiro de seu país, como produto para exportação em língua inglesa, voltou aos holofotes neste ano com duas histórias de amor: a primeira delas foi um filme noir às avessas, JUNE E JOHN (2025), que muito me agradou, e o segundo é esta nova adaptação do romance de Bram Stoker, com bem mais liberdades e uma interessante maneira de preencher lacunas da história, especialmente quando a gente pensa nela a partir da lembrança de NOSFERATU, ainda mais porque ainda estão frescas na memória as imagens e as opções estéticas de Robert Eggers para o seu DRÁCULA – UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (2025). Neste trabalho de Besson, a história começa no tempo das cruzadas, quando um príncipe do século XV é enviado para lutar ("por Deus", segundo a igreja) contra os muçulmanos. Mas ele amaldiçoa a Deus pois sua amada é morta pelos inimigos e passa a vagar sem conseguir morrer, tornando-se o Conde Drácula. Sua missão passa a ser encontrar a encarnação de sua amada Elizabeta. Besson tem em mãos um elenco muito bom: tanto o jovem Caleb Landry Jones (melhor ator em Cannes por NITRAN) quanto o duas vezes vencedor do Oscar Christophe Waltz como o padre especializado em vampiros. Do elenco feminino, duas moças se destacam: a americana Zoë Bleu, como Mina Harker, e a italiana Matilda De Angelis, como Maria. Há mais romance do que terror nesta versão de Besson, mas ele também não poupa cenas sangrentas. Há algo de humor, e às vezes parece involuntário, às vezes parece rir de si mesmo, como nas cenas de Drácula em sua peregrinação pelos diversos países da Europa, mas diria que isso é até bem-vindo: tira um pouco de um peso que o próprio diretor parece que não queria mesmo executar para essa história. Não gostei tanto assim do final, mas tem sua beleza. A trilha sonora (animadinha) é de Danny Elfman e isso acaba fazendo muita diferença no tom do filme. Além do mais, seu Drácula se assemelha muito, de forma até bem descarada, ao DRÁCULA DE BRAM STOKER, do Coppola. Mas ele faz o bom e velho "copia, mas faz diferente".

quarta-feira, junho 17, 2026

O BEIJO AMARGO (The Naked Kiss)

 
Quando comecei a escrever sobre os filmes de Samuel Fuller, tomei como base principal o livro Samuel Fuller, de Phil Hardy. Não é o livro que eu gostaria de ter sobre o mais querido dos cineastas marginais americanos – queria um livro que tivesse textos sobre todos os seus filmes em ordem cronológica –, mas é um livro bem interessante em sua proposta de dividir a obra do autor em cinco categorias: 1) um sonho americano, 2) jornalismo e estilo, 3) uma realidade americana, 4) Ásia e 5) a violência do amor. Acredito que esses temas não são exclusivos dos filmes a eles relacionados, que eles se interrelacionam, mas gosto da divisão. O BEIJO AMARGO (1964) se situa no grupo “a violência do amor”, junto com EU MATEI JESSE JAMES (1949), O BARÃO AVENTUREIRO (1950) e DRAGÕES DA VIOLÊNCIA (1957).

É um bocado diferente dos três filmes relacionados, dado ser um Fuller mais apartado de seu tempo, uma espécie de noir tardio, um neo-noir, como diriam depois, além de ter uma atmosfera típica do cinema americano da primeira metade dos anos 1960, com uma música que interfere de forma muito interessante no drama da personagem de Constance Towers, sendo totalmente compreensível que tenha sido colocado junto com filmes que lidam com a crueldade, com o amor e aqui com um certo tipo de maldade que habita a sociedade dos Estados Unidos. Se antes Fuller já havia criticado seu país das mais diversas formas, não apenas quando faz filmes de guerra, em O BEIJO AMARGO, ele mostra uma visão ainda mais pessimista dessa sociedade.

Além do mais, não é o primeiro filme de Fuller que aponta a mulher como grande vítima das ações do homem. Podemos ver isso pelo menos em dois dos meus favoritos do realizador: CASA DE BAMBU (1955) e NO UMBRAL DA CHINA (1957), filmes visualmente distintos em suas propostas, mas que apresentam mulheres que enfrentam situações extremamente difíceis, especialmente no que se refere ao olhar da sociedade. No caso de O BEIJO AMARGO, a protagonista Kelly (Towers) carrega uma espécie de marca consigo: a de ter sido prostituta. Por mais que esteja disposta a se livrar desse passado e ter uma nova vida como enfermeira numa clínica para crianças deficientes, o passado parece vir à tona com frequência. Até porque um homem que cruzou a sua vida, o policial vivido por Anthony Eisly, é uma espécie de dono das casas de prostituição do lugar, e não perdoou Kelly quando ela preferiu escolher um outro caminho, quando acaba sendo objeto do desejo de um homem muito rico da cidade, Grant, vivido por Michael Dante. O problema ocorre quando ela descobre algo sobre Dante e o filme, que já havia me ganhado desde o começo, me deixa sem chão, de olhos marejados, especialmente a partir da sequência musical das crianças. É como se Fuller usasse o musical já um pouco ultrapassado do cinema daquela época e revirasse do avesso.

E o curioso é que eu já havia visto o filme em DVD em 2005, ou seja, há mais de vinte anos, mas na época não havia gostado tanto. No texto daquele ano, se não me engano destaquei minha estranheza com a montagem no início do filme, que de fato nos engana um pouco, quando parece querer ir para um flashback e não vai. Além do mais, há certos saltos temporais que também nos convidam a uma maior atenção a tudo que está acontecendo. Não que seja tão vanguardista, não é nenhum Resnais, mas é muito moderno, sim, em sua proposta, além de ser um filme com muita vontade de enfatizar a falsidade que é o American way of life, chegando ao ponto de tratar de um tema tão espinhoso e tão grave como a pedofilia. 

Ao mesmo tempo, a estranheza que o filme provoca já antecipa a vontade de Fuller de fazer uma obra autoconsciente. Tão autoconsciente quanto os filmes mais arthouse da França ou da Itália. Aqui, Fuller faz referência direta a seu filme anterior, PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963), cujo título aparece na fachada de um cinema da cidade; além de fazer também referência a seu próprio livro The Dark Page, que seria adaptado para o cinema por Phil Karlson, e aqui se chamou ESCÂNDALO (1952). O livro seria novamente referenciado em AGONIA E GLÓRIA (1980), um dos últimos grandes filmes do realizador. Mesmo assim, confesso que “entrei” no filme como se ele fosse o mais naturalista dos melodramas hollywoodianos. E talvez por isso o tenha colocado tão alto em meu ranking dos títulos do realizador, até o momento. No mínimo ganhou uma vaga no top 5 Fuller. 

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PAI MÃE FILHA FILHO (Father Mother Sister Brother)

É como se Jim Jarmusch quisesse emular ou prestar tributo a Hong Sangsoo neste PAI MÃE FILHA FILHO (2025). Há a repetição, os diálogos simples, as relações familiares, o constrangimento, os elogios. Isso se dá principalmente nos dois primeiros segmentos, “Pai” e “Mãe”, em que se escancaram os gestos de certos personagens que mentem e se aproveitam de familiares. O terceiro segmento, “Irmã Irmão”, já gera certa ruptura, ao parecer mais terno e respeitoso com a ausência dos pais. Se bem que vejo ainda espaço para alguma desconfiança por parte desses irmãos gêmeos. Jarmusch continua tendo muito prestígio em Hollywood e consegue trazer para o elenco de seu filme pesos pesados como Cate Blanchett, Tom Waits, Adam Driver, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, entre outros. E ainda vencer o Leão de Ouro por um filme tão pequeno. Se bem que seus demais trabalhos são todos assim, menores, independentes, ainda que muitas vezes grandiosos no que inovam na forma. Vemos duas repetições em parcerias: Tom Waits já trabalhou com o diretor em DAUNBAILÓ (1986) e depois em SOBRE CAFÉS E CIGARROS (2003); Adam Driver esteve em PATERSON (2016) e OS MORTOS NÃO MORREM (2019). Quanto ao aspecto visual, acho interessante o uso do digital tão escancarado, como se fosse uma produção do início dos anos 2000, ainda em fase de experimentação, embora haja cores bem vivas e imagens geralmente muito nítidas. Mas talvez o que mais conte seja a capacidade do realizador de nos fazer prestar atenção nos detalhes, nos enquadramentos, na passagem do tempo, nos olhares e opções de montagem. É um filme autoconsciente e com um tom que mistura o enigmático com o terno.

O TESTAMENTO DE ANN LEE (The Testament of Ann Lee)

O que me deixou mais intrigado com O TESTAMENTO DE ANN LEE (2025) talvez até seja uma qualidade: o fato de a diretora Mona Fastvold (e seu marido, e aqui corroteirista Brady Corbet) não julgar a personagem, uma vez que seria fácil destacar de forma mais explícita sua visão, seu pensamento sobre o sexo como pecado (mesmo depois do casamento) como talvez o elemento que mais se destaca. Seria fácil pintá-la pura e simplesmente como uma fanática religiosa. No pouco que vemos da infância da personagem já é mostrado o seu asco com o sexo, quando vê os pais na intimidade. Há uma narração em voice-over no início que é largada em pouco tempo, quando entra em cena a heroína na idade adulta. Fastvold faz mais uma vez um filme de época sobre intolerância, sendo o anterior UM FASCINANTE NOVO MUNDO (2020), ótimo drama sobre o amor proibido entre duas mulheres nos Estados Unidos do século XIX. Aqui há um interessante retrato de um momento e de um lugar (que depois muda para os Estados Unidos pouco antes da independência), e desse povo, os shakers. Eles eram chamados assim pois, durante os cultos, ficavam tremendo, dançando, se balançando, um elemento que foi importado no Brasil por algumas igrejas pentecostais. As cenas musicais e de dança são boas e a fotografia é deliberadamente escura, que depois de um tempo a gente se acostuma.

A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA (The Long Walk)

E no finalzinho do ano passado vi um dos filmes que mais me impressionou, em muitos aspectos. A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA (2025), de Francis Lawrence, baseado em romance de Stephen King e com roteiro adaptado por JT Mollner, o cara responsável pela direção do excelente DESCONHECIDOS. E o roteiro é bem escrito, com ótimos diálogos, que funcionam harmoniosamente bem na boca daqueles rapazes que conseguem até fazer amizade naquela trajetória que só contará com um único homem vivo, num jogo cruel que está mais para BATALHA REAL do que para JOGOS VORAZES, uma vez que a violência é mais brutal. No entanto, há um tom solene e trágico que muito me agrada, que me faz solidário daqueles rapazes. Mesmo aquele que tem uma tendência de ser o mais perverso do grupo. O coração do filme está no personagem de David Jonsson, um jovem negro que diz palavras de sabedoria para o outro protagonista (Cooper Hoffman, filho de Philip Seymour Hoffman, que aqui foge do registro de LICORICE PIZZA). Assim, a narrativa se apresenta tanto como um filme sobre amizade como um filme sobre a violência de um estado autoritário. Impressiona e me agrada o quanto o aspecto poético se une com harmonia com o horror mais físico.

domingo, junho 14, 2026

ANTES DO AMANHECER (Before Sunrise)

 
A reexibição nos cinemas de ANTES DO AMANHECER (1995) me trouxe um pouco de desapontamento no que se refere à qualidade da imagem. Custo a crer que aquela cópia seja a da remasterização de 2017 em 2K, que depois resultaria em lançamento do BD da Criterion. De todo modo, estava animado para rever no cinema depois de mais de 30 anos da primeira vez que o vi, em gloriosa película 35mm, numa das duas (saudosas) salas do Art Iguatemi. Na época, então na faixa dos 20 anos de idade, tinha a idade aproximada dos personagens, o que resultou em maior identificação. Hoje, quase um idoso, é natural que me identifique mais com o drama dos personagens de AS PONTES DE MADISON, de Clint Eastwood, revisto há pouco tempo em boa cópia em 1080p.

O que acontece é que, à medida que o tempo passa, meu distanciamento com aqueles personagens se acentua um pouco. Mas lembro que numa das vezes que o vi, em 2013, acho que me preparando para ver ANTES DA MEIA-NOITE (2013), o terceiro da trilogia, chorei copiosamente durante boa parte do filme. Em parte, chorei por ter deixado passar minha Celine, por não ter sido feliz em minha vida sentimental. Depois, noutra ocasião, em 2021, na pandemia, já vi o filme um pouco menos à flor da pele. Agora, cinco anos depois, com a Giselle (minha Celine do meu lado, enfim), ver o filme traz mais contentamento pela minha vida presente, mas um distanciamento maior pela ingenuidade daqueles dois jovens.

Mas também penso que a juventude tem uma qualidade que a maturidade não tem, mesmo fazendo suas escolhas erradas, dando suas cabeçadas na vida por falta de experiência. Essa qualidade está em ter a ousadia de pensar aprofundadamente em várias questões existenciais, e esses pensamentos surgem de maneira muito entusiasmada, intensa e apaixonada. E não precisamos lembrar que é na casa dos 20 que os mais importantes cantores e bandas se estabelecem. É na casa dos 20 que a mente está mais porosa, mais parecida com uma antena sintonizada ao zeitgeist.

Então, ver Ethan Hawke e Julie Delpy transmitindo a paixão de Jesse e Celine naquelas horas que passam no trem e nas ruas e lugares de Viena continua sendo muito gostoso, muito emocionante de ver. Para eles, nada mais é importante: nem os rapazes da peça de teatro, ou a mulher que supostamente lê as mãos ou o suposto poeta de rua. Aliás, essas pessoas parecem ter esse ponto em comum: eles não parecem exatamente profissionais, embora os artistas já se apresentem como amadores. Pode-se tanto desgostar dos momentos de cinismo (ou visão realista?) de Jesse ou da ingenuidade (ou visão romântica, mas não menos real) frente a esses personagens passageiros, mas o que a gente percebe é isso: essas pessoas não importam muito. O que importa para Jesse e Celine é somente o tempo que estão passando juntos.

A cena da “ligação” no restaurante continua sendo uma das mais bonitas, pois revela a percepção deles em relação ao outro: a percepção de Celine do beijo de adolescente de Jesse; a percepção de Jesse do sentimento que Celine estava tendo por ele. A cena na grama, dos dois deitados enquanto tomam vinho, com a fotografia que captura a escuridão da noite os emoldurando, é cheia de muita excitação. Não pelo sexo em si – Linklater, apesar de ser chamado de “o Rohmer texano”, está longe de conseguir passar o erotismo dos filmes do cineasta francês –, mas pela dúvida que os aflige no que se refere ao dilema: vão ou não se ver novamente depois do amanhecer?

Daí vem a semelhança novamente com AS PONTES DE MADISON e no quanto o pensar demais pode atrapalhar o futuro de uma relação. No caso do romance do homem e da mulher maduros, há a preocupação com os filhos e o marido, numa sociedade mais tradicional e cheia de preconceitos com mulheres separadas; no caso dos jovens, há a burrice de não terem trocado números de telefone. Mas aí é que está: a estupidez também faz parte da juventude. É nela que se vive mais intensamente, mas é nela também que se comete muitos erros, que podem nunca ser desfeitos. 

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NATAL AMARGO (Amarga Navidad)

É interessante notar que Almodóvar parece fazer aqui justamente aquilo que seu alter-ego, vivido por Leonardo Sbaraglia, faz: busca desesperadamente por inspiração para seu filme. Em NATAL AMARGO (2026), cineasta trabalha em torno de uma história, que se passa em 2004, envolvendo uma diretora de comerciais que já teve sucesso como cineasta no passado, ainda que um sucesso para poucos apreciadores. Essa mulher está sofrendo de uma forte enxaqueca (o que faz lembrar imediatamente o protagonista de DOR E GLÓRIA (2019)). Enquanto isso, ela tem o apoio do marido, o bombeiro e stripper nos fins de semana. É um filme que fala sobre o processo criativo e sobre a questão ética envolvendo a obtenção de inspiração de histórias reais dolorosas para compensar a falta de criatividade. Achei curiosa a trilha sonora de Alberto Iglesias parece feita para um filme mais frenético de suspense do que para uma obra mais pausada sobre culpa. Em certos momentos deu impressão de que era a trilha para um outro filme, remetendo aos melodramas clássicos hollywoodianos. Eu confesso que preciso ver de novo o filme para falar melhor a respeito, devido a problemas envolvendo sonolência em horários inconvenientes. Até porque eu gostei de praticamente todos os longos do cineasta dos últimos quinze anos. A impressão que tenho é que se trata do filme de que menos gostei dele desde ABRAÇOS PARTIDOS (2009). Mas tudo pode mudar numa revisão.

TERAPIA DO SEXO (Thanks for Sharing)

É interessante ver um filme sobre viciados em sexo buscando ajuda numa espécie de AA para esse problema, ainda mais sendo mostrados de forma leve. Não que os problemas não surjam e os dramas desses personagens não mostrem o quanto é difícil viver com esse vício. O caso do jovem médico (Josh Gad) já de cara apresenta o quanto esse seu apetite voraz por pornografia e qualquer coisa relacionada a ela prejudicou sua vida profissional, além de tornar nula uma vida afetiva. TERAPIA DO SEXO (2012), de Stuart Blumberg, se beneficia de dois grandes atores, Tim Robbins, o mais velho dos três homens, é casado e tem vários anos de distância do vício, o que o torna padrinho do personagem de outro grande ator, Mark Ruffalo, um homem solteiro com dificuldade de manter justamente aquilo que seria sua salvação: um relacionamento estável e tranquilo, monogâmico, algo que para ele talvez pudesse ser próximo do tedioso. Eis que aparece a personagem de Gwyneth Paltrow, mas há algo na química dos dois que não funciona muito. Fico pensando se a escalação de Paltrow não foi o problema, mas talvez não. O filme é franco ao mostrar abertamente os problemas, apresenta as quedas (ou quase quedas) de seus personagens e o quanto também se tornam mais fortes tendo o grupo como ajuda nos momentos de crise. É um bom (ou quase bom) filme de amizade em situações de crise.

A GRAÇA (La Grazia)

A palavra "graça" tem uma porção de significados. Neste novo filme de Paolo Sorrentino, ela tem pelo menos dois sentidos: há o sentido de perdão, que tem a ver com a ação do personagem de Toni Servillo, como presidente da Itália (e também com o perdão à própria esposa falecida e que segue sendo amada), e o perdão oficial a pessoas que estão presas, o chamado indulto. Os dois casos de indulto a serem pensados pelo presidente são de pessoas que provavelmente tiveram suas razões para ter matado: uma mulher que sofria com muita frequência a violência do marido e que muito provavelmente seria assassinada; e um homem que matou a própria esposa com Alzheimer. Mas Sorrentino vai muito além desses dois casos, embora ambos sejam muito interessantes e importantes para a trama. Isso porque, mais importante do que a trama é o modo como ele a apresenta, a elegância com que é apresentado cada quadro, além da sensibilidade com que o protagonista é tratado em sua solidão e sua dificuldade em sair da paralisia, dentro de um cargo que requer o mínimo de ação para que seja reconhecido. A GRAÇA (2025) é provavelmente o filme de que mais gostei de Sorrentino, este diretor que ainda vejo com um pé atrás, mas que começa a me ganhar aos poucos. Até então, havia gostado de A GRANDE BELEZA (2013) e de A JUVENTUDE (2015), principalmente por ambos tratarem da velhice. Sorrentino alia tanto o moderno quanto o clássico em sua visão de um país que também precisa conviver com esses dois aspectos de sua personalidade. Há uma cena que me tocou profundamente: a conversa do personagem de Servillo com uma redatora da revista Vogue. Que lindo!