quarta-feira, junho 17, 2026

O BEIJO AMARGO (The Naked Kiss)

 
Quando comecei a escrever sobre os filmes de Samuel Fuller, tomei como base principal o livro Samuel Fuller, de Phil Hardy. Não é o livro que eu gostaria de ter sobre o mais querido dos cineastas marginais americanos – afinal, queria um livro que tivesse textos sobre todos os seus filmes em ordem cronológica –, mas é um livro bem interessante em sua proposta de dividir a obra do autor em cinco categorias: um sonho americano, jornalismo e estilo, uma realidade americana, Ásia e a violência do amor. Acredito que esses temas não são exclusivos dos filmes a eles relacionados, que eles se interrelacionam, mas gosto da divisão. O BEIJO AMARGO (1964) se situa justamente no grupo “violência do amor”, junto com EU MATEI JESSE JAMES (1949), O BARÃO AVENTUREIRO (1950) e DRAGÕES DA VIOLÊNCIA (1957).

É tão diferente dos três filmes relacionados, dado já ser um Fuller mais apartado de seu tempo, fazendo uma espécie de noir tardio, ou um neo-noir, como diriam depois, além de ter uma atmosfera típica do cinema americano da primeira metade dos anos 1960, com um tipo de música que interfere de forma muito interessante no drama da personagem de Constance Towers, mas é totalmente compreensível que tenha sido colocado junto com filmes que lidam com a crueldade, com o amor e aqui com um certo tipo de maldade que coexiste na sociedade dos Estados Unidos. Se antes Fuller já havia criticado o seu país das mais diversas formas, e não apenas quando faz filmes de guerra, em O BEIJO AMARGO, ele mostra uma visão totalmente pessimista daquela sociedade.

Além do mais, não é o primeiro filme de Fuller que aponta a mulher como grande vítima das ações do homem. Podemos ver isso em dois dos meus favoritos do realizador: CASA DE BAMBU (1955) e NO UMBRAL DA CHINA (1957), filmes visualmente distintos em suas propostas, mas que apresentam mulheres que enfrentam situações extremamente difíceis, especialmente no que se refere ao olhar da sociedade. No caso de O BEIJO AMARGO, a protagonista Kelly (Towers) carrega uma espécie de marca consigo: a de ter sido prostituta. Por mais que esteja disposta a se livrar dessa vida e fazer uma nova vida como enfermeira numa clínica de crianças deficientes físicas, o passado parece vir à tona com frequência. Até porque um homem que cruzou a sua vida, o policial vivido por Anthony Eisly, é uma espécie de dono das casas de prostituição do lugar, e não a perdoou quando ela preferiu escolher um outro caminho, sendo que acaba sendo objeto do desejo de um homem muito rico da cidade, Grant, vivido por Michael Dante. O problema ocorre quando ela descobre algo sobre Dante e o filme, que já havia me ganhado desde o começo, me deixa sem chão, de olhos marejados, especialmente a partir da sequência musical das crianças. É como se Fuller usasse o musical já um pouco ultrapassado do cinema daquela época e revirasse do avesso.

E o curioso é que eu já havia visto o filme em DVD em 2005, ou seja, há mais de vinte anos, mas na época não havia gostado tanto. No texto desse ano, destaquei já minha estranheza na montagem no início do filme, que de fato nos engana um pouco, quando parece querer ir para um flashback e não vai. Além de tudo, há certos saltos temporais que também nos convidam a uma maior atenção a tudo que está acontecendo. Não que seja tão vanguardista, mas é muito moderno, sim, em sua proposta, além de ser um filme com muita força de destacar a falsidade que é o American way of life, chegando ao ponto de tratar de um tema tão espinhoso e tão grave como a pedofilia.

Ao mesmo tempo, a estranheza que o filme provoca já antecipa a vontade de Fuller de fazer uma obra autoconsciente. Tão autoconsciente quanto os filmes mais arthouse da França ou da Itália. Aqui, Fuller faz referência direta a seu filme anterior, PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963), cujo título aparece na fachada de um cinema da cidade; além de fazer também referência a seu livro The Dark Page, que seria adaptado para o cinema por Phil Karlson, e aqui se chamou ESCÂNDALO (1952). O livro seria novamente referenciado em AGONIA E GLÓRIA (1980), um dos últimos grandes filmes do realizador. Mesmo assim, confesso que “entrei” no filme como se ele fosse o mais naturalista dos melodramas hollywoodianos. E talvez o tenha colocado tão alto em meu ranking dos títulos do realizador, até o momento.

+ TRÊS FILMES

PAI MÃE FILHA FILHO (Father Mother Sister Brother)

É como se Jim Jarmusch quisesse emular ou prestar tributo a Hong Sangsoo neste PAI MÃE FILHA FILHO (2025). Há a repetição, os diálogos simples, as relações familiares, o constrangimento, os elogios. Isso se dá principalmente nos dois primeiros segmentos, “Pai” e “Mãe”, em que se escancaram os gestos de certos personagens que mentem e se aproveitam de familiares. O terceiro segmento, “Irmã Irmão”, já gera certa ruptura, ao parecer mais terno e respeitoso com a ausência dos pais. Se bem que vejo ainda espaço para alguma desconfiança por parte desses irmãos gêmeos. Jarmusch continua tendo muito prestígio em Hollywood e consegue trazer para o elenco de seu filme pesos pesados como Cate Blanchett, Tom Waits, Adam Driver, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, entre outros. E ainda vencer o Leão de Ouro por um filme tão pequeno. Se bem que seus demais trabalhos são todos assim, menores, independentes, ainda que muitas vezes grandiosos no que inovam na forma. Vemos duas repetições em parcerias: Tom Waits já trabalhou com o diretor em DAUNBAILÓ (1986) e depois em SOBRE CAFÉS E CIGARROS (2003); Adam Driver esteve em PATERSON (2016) e OS MORTOS NÃO MORREM (2019). Quanto ao aspecto visual, acho interessante o uso do digital tão escancarado, como se fosse uma produção do início dos anos 2000, ainda em fase de experimentação, embora haja cores bem vivas e imagens geralmente muito nítidas. Mas talvez o que mais conte seja a capacidade do realizador de nos fazer prestar atenção nos detalhes, nos enquadramentos, na passagem do tempo, nos olhares e opções de montagem. É um filme autoconsciente e com um tom que mistura o enigmático com o terno.

O TESTAMENTO DE ANN LEE (The Testament of Ann Lee)

O que me deixou mais intrigado com O TESTAMENTO DE ANN LEE (2025) talvez até seja uma qualidade: o fato de a diretora Mona Fastvold (e seu marido, e aqui corroteirista Brady Corbet) não julgar a personagem, uma vez que seria fácil destacar de forma mais explícita sua visão, seu pensamento sobre o sexo como pecado (mesmo depois do casamento) como talvez o elemento que mais se destaca. Seria fácil pintá-la pura e simplesmente como uma fanática religiosa. No pouco que vemos da infância da personagem já é mostrado o seu asco com o sexo, quando vê os pais na intimidade. Há uma narração em voice-over no início que é largada em pouco tempo, quando entra em cena a heroína na idade adulta. Fastvold faz mais uma vez um filme de época sobre intolerância, sendo o anterior UM FASCINANTE NOVO MUNDO (2020), ótimo drama sobre o amor proibido entre duas mulheres nos Estados Unidos do século XIX. Aqui há um interessante retrato de um momento e de um lugar (que depois muda para os Estados Unidos pouco antes da independência), e desse povo, os shakers. Eles eram chamados assim pois, durante os cultos, ficavam tremendo, dançando, se balançando, um elemento que foi importado no Brasil por algumas igrejas pentecostais. As cenas musicais e de dança são boas e a fotografia é deliberadamente escura, que depois de um tempo a gente se acostuma.

A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA (The Long Walk)

E no finalzinho do ano passado vi um dos filmes que mais me impressionou, em muitos aspectos. A LONGA MARCHA – CAMINHE OU MORRA (2025), de Francis Lawrence, baseado em romance de Stephen King e com roteiro adaptado por JT Mollner, o cara responsável pela direção do excelente DESCONHECIDOS. E o roteiro é bem escrito, com ótimos diálogos, que funcionam harmoniosamente bem na boca daqueles rapazes que conseguem até fazer amizade naquela trajetória que só contará com um único homem vivo, num jogo cruel que está mais para BATALHA REAL do que para JOGOS VORAZES, uma vez que a violência é mais brutal. No entanto, há um tom solene e trágico que muito me agrada, que me faz solidário daqueles rapazes. Mesmo aquele que tem uma tendência de ser o mais perverso do grupo. O coração do filme está no personagem de David Jonsson, um jovem negro que diz palavras de sabedoria para o outro protagonista (Cooper Hoffman, filho de Philip Seymour Hoffman, que aqui foge do registro de LICORICE PIZZA). Assim, a narrativa se apresenta tanto como um filme sobre amizade como um filme sobre a violência de um estado autoritário. Impressiona e me agrada o quanto o aspecto poético se une com harmonia com o horror mais físico.

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