sábado, dezembro 26, 2020

UNDINE



Hoje podemos dizer que, dos realizadores alemães da geração surgida na virada do milênio, Christian Petzold é o mais brilhante. Se há outro que o supere, não está recebendo o crédito devido. Felizmente o cineasta tem mantido uma regularidade em tempo e em qualidade de seus trabalhos, que contêm uma assinatura muito clara, mesmo quando a temática, o tempo narrativo e até o gênero se diversifica. Seu novo trabalho, por exemplo, flerta com o cinema fantástico (fantasia, horror) para contar uma história de amor.

Depois da trilogia do amor em tempos repressivos, formada por BARBARA (2012), PHOENIX (2014) e EM TRÂNSITO (2018), Petzold inicia uma nova com UNDINE (2020), que promete ser o primeiro de uma nova trilogia, baseada em mitos. O mito presente aqui é o da ondina, uma elemental associada à água, surgida na mitologia germânica. Na lenda, essas criaturas femininas procuram o amor dos homens da terra. Porém, quando ele as trai, elas têm a tarefa de matá-los.

O primeiro diálogo do filme, em um café, já traz essa situação de maneira bastante direta com o rompimento de uma relação e a posterior ameaça de Undine. Isso acaba trazendo uma carga de estranheza que nos chama logo a atenção. Paula Beer, atriz que esteve no filme anterior do cineasta, é a personagem-título, uma jovem mulher que trabalha em um museu urbano, fazendo visitas guiadas contando a história da cidade de Berlim.

O curioso é que Petzold consegue estabelecer uma relação entre a capital alemã, em momento pós-unificação, e a criatura mitológica. Podemos fazer uma conexão entre essa cidade destruída, dividida e novamente unificada e reerguida com a própria personagem, que, depois da traição, encontra novamente um novo amor e segue em frente fortalecida, esquecendo a missão de matar o ex.

O novo amor aparece na figura do amável Christoph (Franz Rogowski, protagonista do filme anterior do diretor), um mergulhador que fica absolutamente encantado com Undine. A magia desse amor romântico tem como instante-chave a quebra, por acidente, do aquário do café. Estações de trem, como ambientes tipicamente românticos de filmes clássicos, aparecem com frequência ao longo da relação do casal. Assim como também se destacam as cenas de intimidade entre os dois no quarto, embora não seja exatamente um filme que explore tanto a sensualidade, já que o intuito maior aqui é fazer uma obra de natureza mais espiritual, etérea.

A impressão que fica é de que UNDINE é um desses filmes que deve se beneficiar ainda mais de revisões. Embora Petzold seja adepto do classicismo, sua sofisticação na condução narrativa faz toda a diferença.   

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão. 

+ TRÊS FILMES

FREAKY - NO CORPO DE UM ASSASSINO (Freaky)

Se o bem-sucedido A MORTE TE DÁ PARABÉNS (2017) e sua sequência de 2019 já tinham um tom cômico acentuado, a opção por ter a comédia à frente do horror neste novo filme de Christopher Landon, foi um acerto e tanto. Em tempos de poucas boas comédias, é bom ver uma que consegue arrancar gargalhadas em quantidade muito maior do que arranca sustos. E o curioso é que a trama de FREAKY - NO CORPO DE UM ASSASSINO (2020) é um tanto boba (a jovem protagonista e um assassino serial trocam de corpos) mas funciona muito bem. E Vince Vaughan, que já tem um bom histórico na comédia, está ótimo no papel. Na verdade, o filme funciona melhor quando os corpos estão trocados e diversas situações são desenvolvidas. Há até uma situação dramática interessante (que lembra uma de A MORTE TE DÁ PARABÉNS). Talvez tenha faltado um epílogo perfeito, mas, como o filme não tem tantas ambições e nunca se leva a sério, está tudo bem.

AMIZADE MALDITA (Z)

O que chama a atenção neste AMIZADE MALDITA (2019), de Brandon Christensen, é que ele começa tratando de uma premissa já muitas vezes explorada nos filmes de horror, que é a questão do amigo imaginário de uma criança, mas segue por caminhos diferentes do convencional. Não deixa de ser um risco e tanto, mas as escolhas que o filme faz são inteligentes, corajosas, inusitadas, em especial quando se inicia a conclusão da história. Há pouca apelação para o jump scare, os efeitos especiais são discretos e há uma ênfase na construção da atmosfera e há de fato momentos aterrorizantes. Isso com um orçamento explicitamente baratíssimo, quase sempre dentro de interiores.

O SOM DO SILÊNCIO (Sound of Metal)

Creio que hoje estou com um sentimento mais afinado para um filme como esse, que lida com o mal estar presente no processo acelerado de perda da audição de um jovem músico, um baterista em uma dupla de rock. Um dos méritos de O SOM DO SILÊNCIO, de Darius Marder, é contar a história sem a necessidade de ser um enredo de superação ou algo do tipo. É mais na linha shit happens e a gente tenta consertar, mas nem tudo que parece ser uma salvação pode ser uma ótima saída. Muito bom o uso de efeitos sonoros para nos colocar no lugar do protagonista. Exemplo perfeito é o da mesa de jantar com os surdos, que fazem barulho na mesa com os gestos e batidas na madeira, enquanto ele se sente completamente sozinho. Há cenas bem dolorosas, mas muito sutis, de dor represada. Cenas com Paul Raci e com Olivia Cooke. E o que é aquela última cena? Um filme-pedrada.

sexta-feira, dezembro 25, 2020

CINCO LONGAS BRASILEIROS VISTOS NO 14º FOR RAINBOW



Ainda pretendo escrever um pouco mais sobre alguns filmes (ou temas específicos) desta ótima edição do For Rainbow. Muitos títulos ficaram grudados em minha memória afetiva e trouxeram um bocado de reflexão sobre a vida, sobre o indivíduo e sobre sua por vezes difícil relação em sociedade. Em breve farei um texto para o site da Aceccine. Avisarei por aqui quando estiver pronto. Enquanto isso, vamos de textos curtos sobre os longas brasileiros vistos no festival, já que hoje o tempo está curto.

AS CORES DO DIVINO

Um documentário de estilo tradicional, mas que conquista nossa simpatia pela presença de vários personagens fortes e alguns depoimentos emocionantes. Este é AS CORES DO DIVINO (2020). Gosto especialmente do depoimento da jovem que se descobre lésbica e precisa enfrentar não apenas a igreja, mas também a família. E o modo como ela conta é também muito bem narrado. Para este tipo de documentário de depoimentos o acaso exerce uma importância bem maior. Victor Costa Lopes é um diretor que começou com ficção, no ótimo filme coletivo O ANIMAL SONHADO (2015). Sua migração para o documentário foi feliz e certamente a temática é em si atraente: a relação entre pessoas LGBTQ com a religião, que é geralmente um espaço de pouco acolhimento para essas pessoas.

LIMIAR

Acho sempre admirável esse tipo de trabalho que demanda anos para ficar pronto. No caso deste belo documentário, a diretora Coraci Ruiz tem registros do nascimento de sua filha e de sua transição, durante a adolescência, para o gênero masculino. Como vemos LIMIAR (2020) pelo ponto de vista da diretora, sentimos um bocado seu desconforto com algumas mudanças que se aproximam, mas há também um apoio muito bonito ao filho, que deve ter passado, diariamente, por fases muito difíceis, até porque a adolescência não é um momento fácil da vida. Acho o filme bem melancólico, talvez por conta da trilha sonora. Também há citações a momentos recentes da política brasileira, o que contribui pra esse sentimento.

PRAZER EM CONHECER

Um filme que parece ter um tom assumidamente educativo. Embora haja algumas cenas de intimidade e sensualidade entre pessoas gays em PRAZER EM CONHECER (2020), o foco principal da diretora Susanna Lira é falar com seriedade da importância de se cuidar, de evitar o contágio com o HIV com novos métodos e conscientização. Em alguns momentos parece um documentário, apresentando o nome dos personagens, como o médico LGBT que trata com atenção seus pacientes e conversa sobre diversão com seu personal trainer. Esse misto de programa educativo com filme transgressivo resulta em um objeto estranho bem interessante.

ADVENTO DE MARIA

Embora seja um filme que possa causar estranhamento do ponto de vista dramatúrgico, o estranhamento é bem-vindo, funciona como um diferencial em uma obra que flerta com o kitsch várias vezes. Temos em ADVENTO DE MARIA (2020), de Vinícius Machado, uma história de um(a) adolescente que está passando por um processo de mudança, de compreensão de sua identidade de gênero. É também um filme sobre amizade e também sobre preconceito religioso, já que a amiga do(a) protagonista é do candomblé e a narrativa apresenta essa série de tabus e de situações envolvendo diferenças de crenças e de compreensão da alma. O título do filme faz uma relação direta com o catolicismo, mas representa também o surgimento de uma nova vida.

MÃES DO DERICK

Uma das coisas que mais me chamou a atenção em MÃES DO DERICK (2020), de Denise Kelm, foi uma cena em que uma das personagens asperge sangue menstrual de uma lunação específica no signo tal em plantas. A relação da tradição feminina ligada a bruxaria e a rezadeiras também comparece neste filme sobre uma família composta por quatro mães e um garoto vivendo em uma área rural do Paraná. É um tipo de cinema que absorve home movies para a construção de um tipo de documentário mais moderno, mas começa a ganhar o espectador a partir de uma cena inesperada de música, com as personagens cantando raps sobre empoderamento feminino, resistência etc. Muito bom. 

quinta-feira, dezembro 24, 2020

TOMMASO



Como ainda não terminei de ver os filmes de Fritz Lang, posso dizer que Abel Ferrara foi o meu grande companheiro durante os dias de pandemia. Foi muito feliz da minha parte escolhê-lo para aprofundar o conhecimento sobre sua obra. Tinha muitas lacunas e a revisão de praticamente todos os seus filmes foi essencial para ir compreendendo sua poética. Dentre os longas, ficou faltando eu ver alguns poucos documentários feitos nos anos 2000 e 2010 e dois filmes de ficção para a televisão produzidos nos anos 1980.

Graças à sua inquietação, só neste ano tivemos dois novos filmes dele, o dream-like SIBÉRIA (2020), exibido em Berlim, e o documentário SPORTIN' LIFE (2020), exibido em Veneza. Os dois fizeram parte da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Aliás, foi ótimo poder, pela primeira vez, acompanhar a Mostra, ainda que nesse modelo "novo". Os dois filmes mostraram o quanto Ferrara está disposto a se despir ainda mais em seus novos filmes, a fazer uma espécie de terapia através da arte, a confrontar seus demônios interiores.

O mesmo pode ser dito de TOMMASO (2019), que antecipa muito SIBÉRIA, já que mostra um diretor de cinema, vivido por Willem Dafoe, parceiro de Ferrara desde GO GO TALES (2007), trabalhando no projeto sobre um homem chamado Clint que vai parar em um lugar deserto e gelado para conhecer mais de si mesmo, talvez na mesma proporção que foge do mundo. Porém, se SIBÉRIA me pareceu um filme de difícil penetração, TOMMASO é muito mais acessível, além de ser ainda mais um retrato das dificuldades vividas pelo cineasta.

Chega a ser divertido ver as óbvias relações autobiográficas que o filme faz com a vida do realizador , seu passado de uso pesado de álcool e drogas, sua batalha para permanecer sóbrio, suas ligações com o catolicismo e com outras religiões. Mas há especialmente um interesse em tratar de um desejo reprimido em um casamento com uma mulher mais jovem (Cristina Chiriac, a bela esposa de Ferrara).

O que ele faria de maneira muito mais intensa em SIBÉRIA aqui se mostra de forma mais discreta e pontual, que são as cenas com chaves de sonho, que surgem de vez em quando ao longo da narrativa. Aliás, fica a dúvida em algumas cenas sobre se é sonho, delírio ou realidade. Em determinado momento, ele vê a filhinha pequena (Anna Ferrara, filha de Ferrara) ser atropelada para, logo em seguida, ver que aquilo não passava de um delírio, provavelmente fruto do medo da perda. O mesmo pode valer para uma possível perda da esposa, a suposta traição, que ao final fica a dúvida se teria de fato acontecido ou seria fruto de paranoia e insegurança.

Ele tem consciência que casou com uma mulher bem mais jovem e fala sobre isso quando desabafa com amigos do AA ou com outras pessoas de sua convivência, como a professora de italiano, por exemplo, ou mesmo uma aluna de teatro de quem ele se aproxima e beija no carro. O desejo e a sexualidade do personagem aparecem tanto nas cenas oníricas (como a da moça nua oferecendo café) quanto na própria beleza e sensualidade natural das jovens alunas do grupo de teatro.

TOMMASO foi o primeiro filme de ficção de Ferrara desde PASOLINI (2014), também feito em parceria com Dafoe, e é que continha uma carga de catolicismo ainda mais forte. O curioso da cena de Dafoe na cruz em TOMMASO é que o ator já esteve na cruz em sua representação de Jesus em A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, de Martin Scorsese. Pareceu ser uma feliz coincidência. Se é que existem coincidências.

Gosto muito de como as cenas mais realistas funcionam bem. Destaque para a cena com o paquistanês bêbado. Tommaso desce para calar a boca do sujeito, que está incomodando sua filha e esposa, gritando na rua. Ele estaria disposto a dar um soco no sujeito, mas consegue dialogar com o homem, e parece se sentir bem com isso. É uma cena bonita. Assim como são bonitas, algumas ligeiramente dolorosas, as cenas de intimidade com a esposa, seja fazendo o almoço, seja reclamando que a mulher não se lembrou dele na hora da refeição. As cenas de sexo frustrado também se destacam nesses momentos de intimidade.

É a tal coisa: não adianta sentir saudade do Ferrara louco e genial da década de 1990, talvez o seu auge criativo. Afinal, o novo Ferrara, sóbrio e disposto a conhecer a si mesmo, cavando fundo nos problemas e no quanto errou no passado, é também bem-vindo. Que bom que ele tem encontrado apoio para a realização de seus filmes na Europa. Ainda assim, ao que parece, seu próximo filme, ZEROS AND ONES, ainda sem data de lançamento, terá produção americana, embora seja com locação na Itália, seu novo lar.

Agradecimentos à Paula, que viu o filme comigo em esquema de distanciamento social. 

+ TRÊS FILMES

A VOZ SUPREMA DO BLUES (Ma Rainey's Black Bottom)

A semelhança deste filme com UM LIMITE ENTRE NÓS, de Denzel Washington vem de suas origens teatrais, mas também do fato de Washington estar como produtor e Viola Davis ser uma das protagonistas, a personagem-título. Sua Ma Rainey é impressionante em sua busca de dignidade durante um processo de gravação. Mas quem rouba mesmo o filme para si é Chadwick Boseman, que deixou sua melhor performance para o final e nos deixou também na dúvida sobre o quão alto ele chegaria se continuasse vivo por mais algumas décadas. Em A VOZ SUPREMA DO BLUES (2020), de George C. Wolfe, ele interpreta um trompetista cheio de paixão e que ambiciona ter sua própria banda, galgar sucesso na música, por mais que lhe atormente o passado. Dizem que é um filme que cresce à medida que pensamos nele, e eu não duvido. Há um trabalho admirável de atuação, principalmente. Sem falar no quanto é simbólico e bem-vindo nesse novo momento do black power na arte e no comportamento.

MOSQUITO

O cinema português anda com um vigor impressionante. Aqui temos um drama de guerra passado em Moçambique em que o protagonista se perde de seu pelotão e faz uma verdadeira viagem ao inferno em território desconhecido. MOSQUITO (2020), de João Nuno Pinto, é crítico ao orgulho colonialista dos portugueses e ao próprio absurdo da guerra. Isso se mostra tanto nas cenas de Zacarias (João Nunes Monteiro) em postos de oficiais portugueses quanto nos demais encontros que o herói tem ao longo de sua jornada. Gosto do final, tanto pelo impacto quanto pelo gesto simbólico.

PALM SPRINGS

Variação muito bacana e bonita de FEITIÇO DO TEMPO. Aliás, depois de ver tantas variações do filme, fico pensando se a obra supostamente original também não seria uma variação de outra. Enfim, o que há como diferencial em PALM SPRINGS (2019), de Max Barbakow, principalmente, é ter um segundo protagonista para compartilhar o viver o mesmo dia forever and ever, no que há de céu e no que há de inferno. Gostei da atriz (Cristin Milioti), de olhos expressivos e grandes, e sem fazer esforço para sensualizar. Ainda assim, cria uma química muito legal com o personagem do Andy Samberg. Há uma cena com o J.K. Simmons que é ao mesmo tempo engraçada e comovente. Porém, como é uma obra bem dinâmica, o aspecto sentimental fica um pouco mais de lado em prol do bom humor.

quarta-feira, dezembro 23, 2020

DOMICÍLIO INCERTO



Quem entrou em contato com os curtas de Davi Mello, em especial os dois anteriores, A BORDO (2015) e AS VIAJANTES (2019), sabe que está diante de um cineasta no mínimo muito talentoso. Não sei se o meu gosto pelo cinema fantástico contribui para eu ter gostado tanto desses filmes, mas para qualquer gênero que se disponha a fazer é bom que haja talento.

Com a pandemia, Davi Mello, de São Paulo, trocou cartas com a amiga Deborah Perrotta, em Turim, Itália. Mas não cartas usuais. Aliás, as cartas usuais, elas já têm uma aproximação com a arte em si. Lembro de minha professora de Literatura Portuguesa falando que a melhor coisa do período barroco em Portugal foram cinco cartas de amor de uma freira.

O que Davi Mello e Deborah Perrotta fazem em DOMICÍLIO INCERTO é arte com as palavras, mas também com as imagens. Aproveitando o ócio, a angústia e os tantos pensamentos que vieram à mente nos primeiros meses da pandemia, os dois trocaram vídeo-cartas. Ou cartas-vídeo. E adotaram um estilo de fluxo de consciência muito parecido com o de uma das autoras citadas, Virginia Woolf, mas também o de filme-ensaio de linha mais experimental como os de Agnès Varda.

Aliás, bastou eu pensar em Varda, nas semelhanças com o cinema dela, que Davi Mello logo a cita em determinado momento, ao falar de batatas. E assim como se fala de batatas, se fala da infância, de livros, do olhar a janela do outro e flagrar uma intimidade, da transitoriedade da vida e dos fantasmas que vivem nos filmes, da relação de estranheza com o próprio rosto, de se perguntar como nosso mundo será quando passar essa pandemia. Enfim, é um misto de filosofia e poesia. Essa liberdade do fluxo livre de pensamentos só não se torna uma bagunça pelo cuidado e carinho com que percebemos como esse projeto é tratado.

Como sou um amante tanto de palavras quanto de imagens achei uma delícia ver este média-metragem de pouco mais de 40 minutos, que até poderia ser um longa se os realizadores resolvessem continuar a brincadeira por mais tempo. Mas o que há de bonito no média é essa espécie de rebeldia com o modelo comercial estabelecido: ao mesmo tempo que necessita de um tempo maior para ser visto (como um longa), é com frequência pouco visto pelo grande público, menos do que os curtas até. E por isso, com frequência, muitos deles se tornam pequenas joias escondidas.

+ TRÊS CURTAS

À BEIRA DO CAMINHO MAINHA SOPROU A GENTE

Curtindo demais essa leva de curtas que lidam com afetos, com proximidades com o cotidiano e com a intimidade, embora também tratem de algo tão relevante quanto a compreensão e aceitação por parte dos pais (no caso, da mãe) de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. As duas personagens/diretoras de À BEIRA DO CAMINHO MAINHA SOPROU A GENTE (2020), Bruna Barros e Bruna Castro, falam com poesia da relação que têm entre si, dos pequenos gestos, da fragilidade (o filme começa com uma delas dizendo o quão fácil é pra ela chorar). É filme de feridas abertas, mas é também de celebração da vida.

SE ALGO ACONTECER... TE AMO (If Anything Happens I Love You)

Bom a Netflix trazer esses curtas como alternativas diferentes para o público do canal. Este aqui tem um apelo emocional bastante forte, que remete a alguns curtas da Pixar, mas com um conteúdo talvez mais adulto. A história de SE ALGO ACONTECER... TE AMO (2020), de Michael Govier e Will McCormack, sem diálogos, e apostando na força das imagens, conta a história de um casamento abalado pela falta que faz a filha de um casal. A conclusão e o motivo do título do filme é o que pega mais forte o espectador. Ainda assim, esperava me emocionar mais. Talvez tenha visto com a mente muito inquieta.

NIMIC

Tenho um respeito grande Yorgos Lanthimos desde que ele me fez sentir medo no cinema com O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017). Além do mais, os outros filmes dele que vi são no mínimo interessantes com sua estranheza bela. Contar a história de um curta como NIMIC (2019), mesmo que o comecinho dela, é praticamente um spoiler. Se bem que, no caso deste filme, contar um pouco que seja pode até não ser exatamente o que acontece. Temos um homem casado e com filhos (Matt Dillon) e temos uma mímica. O uso de lentes olho de peixe como em A FAVORITA (2018) contribui com o estranhamento, assim como o som do violoncelo surgindo de maneira solene traz uma carga de gravidade às situações domésticas.

segunda-feira, dezembro 21, 2020

A BESTA HUMANA (La Bête Humaine)



Uma das coisas que eu tenho que agradecer muito a Fritz Lang é ter me aproximado mais de Jean Renoir, ainda que indiretamente. Graças às suas duas refilmagens de obras do cineasta francês em Hollywood, levando o trágico para o noir, eu fui me interessando e apreciando ainda mais as obras do diretor francês. Claro que já amava os clássicos A GRANDE ILUSÃO (1937) e A REGRA DO JOGO (1939), e havia gostado de sua versão de MADAME BOVARY (1934), visto na minha peregrinação pelas adaptações da obra-prima de Gustave Flaubert. Mas as coisas mudaram quando vi recentemente A CADELA (1931). Comecei a perceber que estava também diante de um diretor bastante interessado na condição degradante do ser humano, nas sombras.

E esse interesse pelas sombras está muito explícito em A BESTA HUMANA (1938), adaptação do romance de Émile Zola, na qual Renoir parece estabelecer as bases para o que viria a ser o filme noir, estilo adotado pelos cineastas da velha Hollywood na década de 1940. Esse filme antecipa o subgênero em aspectos fundamentais, como as já citadas sombras, os personagens com senso de moral duvidosa, crimes brutais e uma femme fatale capaz de convencer o amante a matar o marido.

Mas tem muito mais, já que o personagem de Jean Gabin é um sujeito que tem eventualmente surtos psicóticos que o tornam extremamente perigoso. Em visita que faz a seus familiares, ele encontra uma jovem por quem tem afeição e, depois de uns beijos, ele começa a estrangulá-la. Esse lado bestial vem e vai e a garota só é salva quando o homem escuta o apito do trem, que o acorda do transe.

O trem é o amor que faz bem a Jacques Lantier, o personagem de Gabin. Ele trabalha dentro da locomotiva, trabalho duro de usar carvão e também controlar o destino daquele transporte. Também é nesse trabalho que ele se sente bem, sentindo o vento bater no rosto quando o trem cruza cidades e túneis em alta velocidade.

Na luta por conter esse demônio interior, Lantier encontra alguma paz. Até que ele é picado pelo mosquito da paixão. A paixão na forma de uma mulher perigosa, ainda que também frágil e perturbada. Séverine, vivida por uma Simone Simon anterior a SANGUE DE PANTERA, é uma mulher que carrega lembranças pesadas da infância e tem uma relação bastante confusa com os homens. Ela parece ser livre ao se envolver com outros dois homens estando casada com Roubaud (Fernand Ledoux), funcionário da ferrovia. O marido tem uma crise de ciúme tão grande que resolve traçar um plano para matar o sujeito com quem ela se deitou, um homem bem mais velho e antigo patrão de sua mãe, talvez até seu próprio pai. E a leva junto para efetuar o crime.

A fim de evitar que Lantier, que a viu no corredor no momento seguinte ao assassinato, conte para a polícia sobre os dois, ela resolve se aproximar do homem, que aos poucos vai se apaixonando por aquela mulher de aspecto felino e um jeito delicado e sensual.

A BESTA HUMANA traz sequências de tirar o fôlego. Não exatamente pelo suspense em si, mas principalmente pelo sentimento intoxicante dos personagens. De Lantier, de Séverine, de Roubaud. O final do filme, ainda que deixe essa energia densa no ar, não deixa de ser uma espécie de alívio, frente às situações desesperadoras e trágicas da vida desses personagens.

Eis um filme que quanto mais eu penso mais eu gosto dele. Mal posso esperar para ver a versão de Fritz Lang.

+ TRÊS FILMES

O SONHO NÃO ACABOU

Um filme que já começa errado a partir do cartaz, que mostra Lauro Corona e Lucélia Santos, sendo que seus personagens são tão apagados que só mesmo a beleza do casal para vender o filme que mostra um grupo de jovens com pouca unidade que vive na Brasília da época do pós-punk. Há pouca coisa que funciona, muito pouca mesmo. E Miguel Falabella tem o hábito de pegar personagens detestáveis. O SONHO NÃO ACABOU (1982), estreia na direção de longa de ficção de Sérgio Rezende, é um desperdício de talentos. Felizmente, ele conseguiu fazer trabalhos bem melhores e com atores famosos ao longo das décadas. Não sei se foi por sorte ou se por ter influência no meio. Ao menos a preocupação social e política já se mostra presente.

O ROUBO DO SÉCULO (El Robo del Siglo)

O meu retorno ao cinemas depois de meses sem telona foi com este O ROUBO DO SÉCULO (2020), de Ariel Winograd, filme de assalto leve, mas baseado em uma história real ocorrida na Argentina, em 2006. Embora o roubo tenha mesmo sido espetacular e os atores principais tenham algum carisma, o filme tem um gosto um pouco requentado de outros tantos filmes do subgênero que já vimos. Eu, particularmente, fico sonolento com esses filmes que tratam o roubo de maneira muito leve e como algo fruto da inteligência de uma ou mais pessoas, que também precisam de outras para que a empreitada seja bem-sucedida. Prefiro os filmes de assalto mais tensos, violentos e dramáticos. Por isso, em determinado momento, eu acordei e me interessei, pois entra uma situação passional que traz uma reviravolta para a trama. De todo modo, é um filme por vezes divertido.

NÃO MATARÁS (Krótki Film o Zabijaniu)

Está longe de ser um filme que nos deixe feliz este NÃO MATARÁS (1988), de Krzysztof Kieslowski. A própria escolha por uma fotografia escura, muitas vezes deixando parte da tela sem que vejamos absolutamente nada, pode ser vista como uma técnica para nos engolfar nesta obra povoada por pessoas vivendo uma espécie de inferno na Terra. No caso, tanto o sujeito que comete o homicídio quanto o jovem advogado que tenta livrá-lo da pena de morte. Está muito longe daqueles dramas de pena de morte que Hollywood faz e deixa a gente chorando, como OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM ou À ESPERA DE UM MILAGRE. Aqui é muito mais seco, mais áspero, mais real, mais desagradável. Um baita filme.

sábado, dezembro 19, 2020

FIRST COW



Pode ser o início de uma nova era. E não me refiro, necessariamente, ao advento do Corona Vírus e suas consequências, mas à tendência atual do aumento do número de filmes dirigidos por mulheres. A presença feminina também tem aumentado em outras áreas, tanto culturais quanto na política e na ciência, mas vamos nos ater ao cinema. E começar lembrando que o filme em cartaz nas salas com maior interesse dos espectadores atualmente é também dirigido por uma mulher, MULHER-MARAVILHA 1984.

Recentemente, o crítico Chico Fireman comentou no podcast Cinema na Varanda que acreditava que, pela primeira vez na história, a lista dos indicados a melhor direção no Oscar pode conter de três a quatro mulheres entre os cinco candidatos. Isso se deve ao enorme sucesso de crítica de filmes como o ganhador do Leão de Ouro NOMADLAND, de Chloé Zhao, a sensação do cinema indie NUNCA, RARAMENTE, ÀS VEZES, SEMPRE, de Eliza Hittman, e o nosso filme em questão, FIRST COW (2019), de Kelly Reichardt, que foi eleito melhor filme do ano pelo New York Critics Circle e pela revista Time, e apareceu em posições muito boas em votações de veículos como Sight & Sound, The Guardian, The Wrap, Hollywood Reporter, Los Angeles Times e Indiewire.

O caso de Kelly Reichardt é muito curioso, já que seus filmes nunca chegaram ao nosso circuito de cinema. No máximo, passaram em mostras internacionais. O que é algo muito estranho, levando em consideração o alto nível de seus trabalhos, e considerando os que eu tive a oportunidade de ver, como WENDY E LUCY (2008) e CERTAS MULHERES (2016), dois filmaços. Em FIRST COW, a diretora vai além do registro de pontos de vista de personagens femininas e conta uma história de amizade entre dois homens.

FIRST COW também já foi descrito como o filme de assalto mais sutil já feito, o que também diz muito do filme, assim como o modo como critica a agressividade masculina ao mostrar dois homens interessados em culinária, em decoração da casa e em trazer sofisticação para um mundo grosseiro de formação da civilização. A história se passa em Oregon, durante a corrida ao ouro nos anos 1820.

Assim como WENDY E LUCY, aqui também vemos uma discussão muito interessante sobre capitalismo. A começar pela pergunta: quão correto (ou errado) é roubar um pouco de um rico proprietário para sobreviver e/ou galgar uma posição mais confortável na vida e na sociedade? Isso, claro, lembrando que o fruto das grandes riquezas geralmente vem de roubo, assassinato e estupro.

O curioso de FIRST COW é que o primeiro encontro entre os dois homens, vividos por John Magaro e Orion Lee, é que um deles se encontra completamente nu. Cookie (Magaro) dá, então, vestimenta, comida e abrigo a King-Lu (Lee), que dizia estar com muita fome. Dentro daquele cenário de poucas opções de alimentação, Cookie fazia milagres. Ele era o cozinheiro de um grupo de homens em um negócio de peles de animais. Depois dessa amigável ajuda, os dois se reencontram, começam a morar juntos e têm a brilhante ideia de "pegar emprestado" o leite da primeira e única vaca da região para iniciar seu empreendimento.

O andamento lento do filme é cativante, ainda mais por que ele consegue trazer empolgação e também tensão, já que a empreitada dos dois homens é um tanto perigosa. E há também uma ternura que muito sutilmente vai aparecendo da amizade entre eles que é também algo muito poderoso. Assim como o cuidado com a imagem, que aqui adota a janela 1,33:1. Reihardt constrói sua direção de arte basicamente com a beleza da natureza.

FIRST COW é baseado no romance The Half Life, de Jonathan Raymond, amigo e colaborador da diretora em filmes como ANTIGA ALEGRIA (2006), WENDY E LUCY, O ATALHO (2010) e MOVIMENTOS NOTURNOS (2013).

Agradecimentos à Paula pela companhia à distância durante a apreciação do filme.

+ TRÊS FILMES

SOU SUA MULHER (I'm Your Woman)

Bom ver Rachel Brosnahan brilhando em um papel dramático depois da glória conquistada na comédia com a série THE MARVELOUS MRS. MAISEL. SOU SUA MULHER (2020), de Julia Hart, tem um gosto de Supercine, mas é um thriller bem eficiente e que vai ficando melhor em sua segunda metade. Na trama, Brosnahan é a esposa de um gângster que recebe do marido um bebê e depois precisa fugir de casa por causa de encrencas desconhecidas do sujeito. Há uma boa reconstituição de época (anos 70), uma boa perseguição e uma conclusão redondinha. Os dois atores de apoio são muito bons e ajudam muito a trazer humanidade e calor para o filme.

MULHER OCEANO

O trabalho de composição visual é o que há de mais bonito neste primeiro filme de Djin Sganzerla como diretora. Em MULHER OCEANO (2020), ela exerce dois papéis: o da escritora de livros de ficção e o da personagem do tal livro. A melhor parte do filme se passa no Japão. O visual do país (e não apenas a tecnologia e a arquitetura moderna, mas também a natureza) contribui muito para a beleza das imagens. E há também o sentimento de solitude da personagem, que resolve ficar distante da família e do marido para pensar em seu trabalho literário e também em sua vida, tudo no seu devido tempo. Não gosto tanto quando o filme volta para o Rio e mostra a história da personagem criada. É como se fosse outro filme, com outro visual e outro ritmo. Ainda assim, gostei bastante desse caminho diferente traçado por Djin, diferente do caminho da mãe e do pai.

AOS OLHOS DE ERNESTO

Belo filme sobre a solidão e a velhice, com excelente momento do uruguaio Jorge Bolani, no papel-título. Ele é um senhor que enxerga muito mal, que mora sozinho em um apartamento e que começa a fazer amizade com uma jovem talvez pouco confiável (Gabriela Poester). Ambos sentem a solidão de maneira forte, ainda que de forma muito distinta. E a melancolia de AOS OLHOS DE ERNESTO (2019) é um sentimento recorrente, ainda que haja espaço vez ou outra para um discreto humor. Temos Júlio Andrade no filme, mas infelizmente em um papel pequeno. A sorte é que Bolani é tão bom que leva o filme praticamente sozinho muito bem. Interessante ver Ana Luiza Azevedo (e Jorge Furtado, como corroteirista) saindo do universo juvenil de ANTES QUE O MUNDO ACABE (2009) e ingressando nos dilemas da terceira idade.

quinta-feira, dezembro 17, 2020

23 CURTAS PRESENTES NO 14º FOR RAINBOW



Neste ano, muitos festivais tiveram que se adaptar e adotar o formato digital para não passar em branco. O For Rainbow, o Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, aconteceu em transmissão para quem quiser ver no YouTube. Faltou aquele calor humano típico do festival, mas é o que tem pra hoje. Tive a oportunidade e a honra este ano de fazer parte do júri da crítica, junto com dois colegas da Aceccine. Vamos aos comentários rápidos sobre os curtas da edição deste ano, então.

FOTOS PRIVADAS

Interessante filme sobre o efeito que uma terceira pessoa pode fazer ao entrar na vida de duas pessoas que têm um relacionamento íntimo mais prolongado. O trabalho de direção privilegia tanto os corpos, nas cenas de intimidade, quanto percepções individuais, como a cena em que um deles fotografa o corpo nu do outro. E há também a DR bem construída e uma cena final agridoce e bonita. Direção: Marcelo Grabowsky. RJ, 2020.

HOJE EU NÃO FICO NO VESTIÁRIO

Há coisas que mal são pensadas e refletidas, pelo menos por mim. Uma delas é o fato de o futebol ser um espaço essencialmente heteronormativo e com muita homofobia (as pessoas estão acostumadas a ver o tipo de xingamento que aparece nos estádios). Raramente se vê um jogador de futebol assumidamente gay. Por outro lado, há uma tendência de achar que as jogadoras de futebol podem ser lésbicas. Neste documentário que pega emprestado o nome do filme de Daniel Ribeiro temos, de maneira bem simples, uma breve discussão sobre esse assunto, entre homens e mulheres gays e apreciadores e profissionais do futebol, para em seguida ver a história breve da formação de um time de futebol só com pessoas gays. Direção: Nicole Lopes. PR, 2019.

OS ÚLTIMOS ROMÂNTICOS DO MUNDO

Um filme cujo maior mérito está nas brincadeiras formais do que na trama, que é bem simples, ainda que com uma reviravolta interessante. Na história, o mundo vai acabar com a chegada de uma enorme nuvem cor-de-rosa. Bem legal a utilização de um estilo que remete aos anos 1980, às sessões exibidas na Globo com dublagem, às fitas VHS envelhecidas pelo tempo. Destaque para a divertida cena com "Total Eclipse of the Heart". Também podemos destacar as discussões sobre o destino dos gays no pós-vida, uma amostra de que a culpa cristã ainda não está totalmente dissolvida. Direção: Henrique Arruda. MT, 2020.

DE VEZ EM QUANDO EU ARDO

É muito bom quando a gente fica empolgado com um filme a ponto de ficar curioso com os outros trabalhos do realizador. No caso, este é o terceiro filme de Carlos Segundo, sendo que o segundo foi um longa-metragem chamado FENDAS (2019), que gostaria de conhecer. A força deste curta está no clima, na montagem, no mistério que se estabelece tanto no trabalho da fotógrafa/artista vivida por Rubia Bernasci quanto no que surge a partir da chegada de uma modelo (Carla Luz). Até as cenas que se passam na residência, com um cuidado especial com o que mostrar e o que esconder, se revestem de uma importância metafísica. RN, 2020.

ALGO_1

Um trabalho de composição de luz e de imagem que parece simular um gozo. Jesuíta Barbosa mais uma vez se mostrando amigo dos filmes LGBTQ neste curta bem curtinho mesmo, mas que impressiona visualmente. Às vezes lembra um pouco a linguagem publicitária, em outras um trabalho experimental herdeiro da videoarte. Na montagem, há a valorização do corpo masculino de uma maneira bem sensual, mas também há uma combinação com outras imagens a fim de trazer ressignificações. Direção: Diego Martins. SP, 2020.

ITINERÂNCIAS DE GÊNERO

Interessante ver um filme que trata de um processo de "retorno às origens" de pessoas trans. O personagem mais importante do filme é Antônio Neto, que não voltou ao gênero masculino por causa de nenhuma religião. Segundo ele, foi um processo de sua psique, ele já não se sentia tão bem como uma mulher. Há outros personagens interessantes, mas Neto é o protagonista e o mais interessante (chegou a escrever um livro sobre sua vida, chamado Mel e Fel), mais eloquente e mais carismático. Há, portanto, essa irregularidade entre um personagem muito bom e outros mostrados rapidamente. Direção: Alexandre Veras. CE, 2019.

DESYRRÊ

Mais um exemplar de documentário que apresenta um perfil de uma personagem interessante, no caso, Desyrrê, transexual que dá duro na vida, trabalhando em um restaurante e fazendo curso técnico de radiografia, além de ter que lutar diariamente para conseguir o respeito das pessoas, até por morar em uma cidade pequena como Triunfo, interior de Pernambuco. Há uma simplicidade bonita no doc que combina com a personagem retratada. Direção: Coletivo Documentando. PE, 2020.

ELA QUE MORA NO ANDAR DE CIMA

Um filme que se destaca muito mais por seus aspectos formais, por mais que tenha o brilho de Marcélia Cartaxo no elenco. É que o cuidado com a fotografia, a direção de arte e o figurino salta aos olhos de imediato. A opção por um amor platônico de uma mulher por outra acaba tornando o filme sutil nos gestos, nas intenções e nos desejos reprimidos. Ótima a inclusão de "Coração de papel", clássico da Jovem Guarda na voz de Sérgio Reis. Direção: Amarildo Martins. PR, 2020.

A VAPOR

O fato de termos um protagonista tão desconfortável quanto o espectador comum o coloca em uma posição de fácil identificação. O personagem de João Fontenele chega a esse lugar secreto onde homens se preparam para relaxar, paquerar, transar, assistir a shows de transformistas cantando, ou só ficar olhando para o céu. A inquietação do personagem dá um tom de filme de gênero ao filme, à medida que o som e recursos emprestados do cinema de horror vão se juntando à narrativa, ainda que de maneira discreta. Detalhe para a transição um pouco mais demorada em tela escura entre uma cena e outra, acentuando o clima de mistério. Direção: Sávio Fernandes. CE, 2020.

HOMENS INVISÍVEIS

Documentário muito interessante sobre o tratamento duro que homens trans recebem no sistema prisional. É cada história impressionante. São pessoas que tiveram sua dignidade destruída na prisão (um deles chegou a dizer que passou um ano com a mesma cueca). Há problemas que sequer imaginava, como a visita necessária a ginecologistas e o quanto isso também é um tratamento diferenciado por parte dos profissionais, segundo eles disseram. Outros problemas já se imaginam, como a privação do tratamento hormonal. Muito bons os personagens entrevistados, sendo que alguns deles preferiram não mostram o rosto. Direção: Luís Carlos Alencar. RJ, 2020.

LETÍCIA, MONTE BONITO, 04

Um filme que encanta pela simplicidade e pelo modo sutil com que as duas meninas se aproximam lentamente durante uma tarde/noite de verão bem quente no sul do país. Destaque para Maria Galant, jovem atriz que vem despontando como uma das mais talentosas de sua geração. O romantismo do filme também tem uma ligação com a época em que se passa, algo em torno do início dos anos 2000, com CDs e DVDs em alta, discman, tevês de tamanho menor, série da Xena etc. Outro ponto positivo é o cuidado com fotografia e as cores do quarto, o lugar onde se passa a maior parte da ação. Direção: Julia Regis. RS, 2020.

CLOVITO 2069

Embora lá pelo meio eu tenha achado que o filme perde um pouco o foco (quando começa a falar sobre quadros de temática indígena de Clovito), o personagem em si é uma figura e tanto. Quem mora em Mato Grosso certamente conhece muito bem esse artista plástico tão singular e que teve a coragem de tatuar o rosto todo de preto. Acabou virando uma marca registrada, ainda que tenha sido um problema quando ele viajava. Senti falta de um estudo maior da obra, mas deu pra ter um gostinho da pessoa, da figura diferente e ao mesmo tempo bastante humilde de Clovito Hugueney. Direção: João Manteufel. RJ, 2020.

INABITÁVEIS

Interessante que as cenas de dança (contemporânea) entre os bailarinos me pareceram bastante naturais, por mais que a homoafetividade masculina esteja em pauta. Vemos aqui um filme que se interessa tanto pela arte, quanto pela política (no sentido amplo do termo, pois a herança da escravidão é claramente debatida), quanto pela religião (de linha africana), aparecendo um pouco em chave de fantasia. Em alguns momentos o filme se aproxima do sonho, como na cena das mãos douradas se aproximando de um dos personagens como criaturas da floresta. E há a dança final, com um cuidado de luz e sombra caprichado. Direção: Anderson Bardot. ES, 2020.

O QUE PODE UM CORPO?

Filme bastante tocante sobre um rapaz que teve complicações no nascimento, complicações que ele carrega consigo até o resto da vida. É menos um filme sobre a sexualidade do corpo e mais sobre o enfrentamento das dificuldades provenientes desse corpo nascido diferente. Há também a comunicação artística de Victor, o entrevistado, sua relação forte com a arte, a partir de sua sensibilidade própria. Mas acabei me comovendo mesmo com o monólogo final dele. Direção: Victor Di Marco e Márcio Picoli. RS, 2020.

BALIZANDO 2 DE JULHO

A pluralidade de documentários, especialmente os de curta-metragem, nos ensina muita coisa. Coisas que a gente desconhece. Como não sou de Salvador, desconhecia esse desfile cívico que acontece em 2 de julho, Dia da Independência da Bahia, e o quanto o grupo LGBT foi conquistando espaço nas balizas, que é uma espécie de coreografia com banda. A alegria do grupo que participa está estampado em seus rostos e só por isso esse evento já é válido. No curta, há depoimentos interessantes, inclusive de Jean Wyllis e também de um doutorando que estuda as balizas e as fanfarras do 2 de julho pela perspectiva dos grupos LGBT. Direção: Fabíola Aquino e Marcio Lima. BA, 2019.

BATOM VERMELHO SANGUE

Filme que nos apresenta ao cotidiano duro de quatro mulheres que moram em uma casa humilde e cada uma delas luta para sobreviver à sua maneira no mundo perverso em que vivemos. Lá pelo meio vemos que a protagonista é Ashley, que trabalha em um bar de garçonete. É um filme duro, com uma melancolia que se apresenta já na cena do karaokê mas que se intensifica lá pelo final. Boas atuações, bom desenvolvimento do enredo. Direção: R.B. Lima. PB, 2019.

BHOREAL

Ainda veremos muitos filmes ambientados no contexto da Covid-19. Este aqui nos apresenta ao artista plástico Lorenzzo di Padilla que se traveste de drag queen nas noites de São Paulo para entregar quentinhas para moradores de rua. Mas esse nem é o aspecto mais importante do filme. O mais importante é o depoimento que ele dá enquanto se maquia, sobre suas lembranças de uma grande amiga de infância. É onde o filme se reveste de uma delicadeza muito bonita. Direção: Bernardo de Assis. RJ, 2020.

IAURAETE

Interessante misto de filme experimental com cinema de horror e estudo sobre mitologias amazônicas associadas a figuras LGBT. Aqui temos uma espécie de mulher-onça ou mulher-jaguar que também se confunde com uma criatura da mata ou um demônio. Isso acaba também trazendo uma espécie de ar maldito para essa figura que não se sabe se é homem ou mulher, como ela mesma diz. Uso interessante do som, da música tradicional e do mistério associado ao medo. Direção: Xan Marçall. PA, 2020.

O MISTÉRIO DA CARNE

A primeira coisa que chama atenção neste filme é a expressividade das jovens atrizes. O desejo da protagonista começa a se apresentar de estranhas formas, trazendo uma relação direta com o sangue. Embora no final fique uma sensação de que algo está faltando, talvez seja apenas uma sensação, já que todas as cenas são boas e curiosas, seja a do grupo de jovens se acariciando durante a aula de religião, seja a cena da piscina, seja a brilhante coreografia que emula Jesus e os apóstolos. O filme já conta com alguns prêmios internacionais e participações em festivais importantes, como Sundance, Biarritz e Brasília. Direção: Rafaela Camelo. RN, 2018.

PARA VERÔNICA

A simplicidade deste filme é um de seus principais trunfos. Ao nos apresentar a um senhor idoso que se veste de mulher quando recebe um pacote em sua casa. O filme cresce muito nos momentos desse senhor com a mulher que cuida dele. E se encerra de maneira poética e delicada, nos fazendo pensar no quanto as convenções sociais servem/serviram de prisão para tantas pessoas. Direção: Fran Lipinski. SP, 2019.

PERIFERICU

Ainda que seja um filme relativamente solar, o tom de melancolia frente às dificuldades de vida das duas personagens LGBT acaba sendo enfatizado, por mais que haja sim um senso de humor bem ácido nas cenas com a família. Os momentos mais fortes do filme estão na expressão artística como forma de desabafo, principalmente o poema endereçado a Deus, no final. Direção: Nay Mendl, Rosa Caldeira, Vita Pereira, Stheffany Fernanda. PR, 2019.

QUEBRAMAR

Uma das coisas mais bonitas neste filme de Cris Lyra é a espontaneidade com que um registro que a princípio é documental e se transforma em algo muito próximo do ficcional. Sabemos que isso não é novidade e que há uma série de filmes que utilizam esse tipo de recurso, mas para fazer funcionar e fluir bem é mais difícil. Aqui o carinho com que as personagens têm uma pena outra é passado do lado de cá da tela, especialmente na cena dos fogos de ano novo. SP, 2019.

VÓ, A SENHORA É LÉSBICA?

A pergunta que dá título ao filme poderia indicar que se trata de uma obra sobre uma pessoa gay na terceira idade. De certa forma é, mas é muito mais sobre a neta dessa avó, que também vem se descobrindo interessada em moças, pelo menos em uma moça em especial da escola. Bem montado o paralelismo perto do final. Direção: Larissa Lima e Bruna Fonseca. RJ, 2018.

terça-feira, dezembro 15, 2020

MULHER-MARAVILHA 1984 (Wonder Woman 1984)



Eis um filme que pode ser amado pelos mesmos motivos que pode ser odiado. Há uma intenção de ser mesmo intenso, flertando com o cafona até, e isso não vem apenas do colorido que tenta emular o ano do título, o ano em que se passa a história, mas dos sentimentos sentidos e despertados. A escolha da Warner de lançar MULHER-MARAVILHA 1984 (2020) perto do Natal faz todo o sentido, mesmo em cenário de pandemia. Até para trazer um pouco de fé na vida nestes tempos tenebrosos.

Ainda que seja uma aventura de fantasia, podemos dizer que o novo título-solo da mais querida das amazonas é um filme sobre um embate de valores: a verdade, a honra e a bondade versus a vaidade, a inveja e a cobiça. Desde o primeiro ato, percebemos que alguns personagens sentem uma vontade imensa de serem mais do que são. Barbara Minerva, a personagem de Kristen Wiig, é uma mulher que não recebe atenção de seus colegas, passa desapercebida e tem baixa autoestima. Por isso fica com um pouco de inveja da nova amiga, Diana Prince (Gal Gadot), que é linda, gentil e elegante.

E temos Max Lord, vivido por Pedro Pascal, um sujeito falido financeiramente que se esconde em uma fachada de sucesso. Ao se apossar de uma pedra mágica que concede desejos às pessoas, ele finalmente pode conseguir tudo que tanto almeja. Ou será que não?

Assim como o filme de 2017, esta sequência também se ancora na fantasia para a construção de seu enredo. E é algo que funciona muito bem para uma heroína inspirada na mitologia grega. A magia está presente desde o prólogo, que é ambientado na infância de Diana, e em uma lição de vida, e está presente também em sua atuação elegante e discreta, ao salvar vidas e impedir um assalto a banco, nos Estados Unidos do ano de 1984.

Patty Jenkins, que volta para dirigir esta sequência, parece mais à vontade em lidar com a emoção, sem se preocupar que tudo soasse excessivamente melodramático. Esse sentimento de liberdade transparece na interação entre os personagens, no sentimento que transborda de cada um deles. Diferente do primeiro filme, que tem um vilão mais estereotipado, aqui os dois vilões são pessoas comuns que caíram por causa de sentimentos e desejos equivocados. O bonito do filme é que a bondade de Diana consegue florir a atmosfera.

Por mais que Jenkins não seja uma grande diretora de ação, considero eficientes várias cenas. Destaques para a cena da estrada e para a luta de Diana com a personagem de Wiig, usando um outro uniforme. A forma suave e ao mesmo tempo poderosa com que Diana combate é de encher os olhos, especialmente quando ela parece voar, com seu laço mágico.

E há o retorno de Steve Trevor, o interesse amoroso de Diana, vivido por Chris Pine. Até para trazer de volta esse personagem o filme recorre à magia. No entanto, tudo funciona de maneira muito bonita e orgânica. Ter um roteirista de quadrinhos (Geoff Johns) também ajuda. Além do mais, a música de Hans Zimmer está inspirada e no tom adequado para a narrativa.

No mais, temos algumas surpresinhas muito legais envolvendo a mitologia da heroína. E a Gal Gadot... meu Deus! Sem palavras para o encanto dessa mulher. Uma das melhores escolhas em elenco de filmes de super-heróis de todos os tempos, rivalizando com o Superman de Christopher Reeve. Por isso a DC precisa mesmo apostar naquilo que lhe é mais característico do que ficar imitando a Marvel, como aconteceu em LIGA DA JUSTIÇA.

+ TRÊS FILMES

O DESPERTAR DE FANNY LYE (Fanny Lye Deliver'd)

Estava sentindo falta na Mostra de São Paulo de um filme que se aproximasse do gênero horror e afins. Eis que temos este belo e tenso thriller que se passa na época do domínio de John Crowell na Inglaterra, uma época mais obscurantista. Em O DESPERTAR DE FANNY LYE (2019), de Thomas Clay, acompanhamos a história de um homem e uma mulher que chegam nus a uma casa administrada com mão de ferro por um senhor. Esses jovens mudarão a vida daquela família, principalmente da personagem-título. Muito interessante o embate que se estabelece quando o rapaz se apresenta como um "herege" para os padrões dos puritanos. Gosto de como o filme brinca com os pré-conceitos de bem e mal dos quatro personagens principais. Há também uma bela discussão sobre feminismo.

A PASTORA E AS SETE CANÇÕES (Laila Aur Satt Geet)

Que beleza de filme este A PASTORA E AS SETE CANÇÕES (2020), de Pushpendra Singh. Tanto nos agrada na narrativa, nos jogos de Laila frente a um esposo um tanto covarde e um sujeito que insiste em assediá-la, quanto na beleza das imagens, cujas paisagens rurais parecem pinturas, especialmente nas cenas diurnas. É muito interessante ver um filme saído da Índia e de uma região cuja religião é o Islamismo contar uma história assim, de linha feminista forte e poderosa. A atriz que faz Laila (Navjot Randhawa) é ótima. Fiquei um tanto confuso em alguns momentos, mas no geral é tudo muito envolvente. E o final é lindo, dotado de um simbolismo poderoso. Um filme que me surpreendeu em muitos sentidos.

RUN

E Aneesh Chaganty, diretor de BUSCANDO... (2018), acertou de novo ao construir um clima de tensão e suspense muito bem orquestrado. Em RUN (2020), há um estilo mais over na construção da personagem de Sarah Paulson, mas achei uma delícia, na verdade. Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção neste filme foi o fato de a jovem estreante em longas Kiera Allen ser cadeirante como sua personagem e ter dado tudo de si neste projeto. Aliás, adoro a brincadeira do cartaz. "You can't escape a mother's love", anunciando o filme para lançamento no dia das mães nos Estados Unidos. Pode ser que se torne um pequeno clássico. Rápido, dinâmico, com o horror andando de mãos dadas com o suspense e um duelo de ótimas interpretações femininas das duas protagonistas. E é melhor não saber muito da trama, para não estragar as surpresas.

domingo, dezembro 13, 2020

OS CORRUPTOS (The Big Heat)



"Guess a scar isn't so bad, not if it's only on one side. I can go through life sideways"
Debbie Marsh, personagem de Gloria Grahame


Não é à toa que OS CORRUPTOS (1953) é considerado uma das obras-primas de Fritz Lang. Eu já tinha visto o filme há alguns anos e mesmo assim fiquei impressionado nesta revisão. Inclusive, havia me esquecido de quase tudo. O que foi bom, de certa forma. Por isso a cena mais emocionalmente impactante me pegou tão forte. E por mais que Lang seja um diretor que prefira não usar violência explícita na tela, este é um dos filmes mais violentos que já vi. Até me lembrei de OS BONS COMPANHEIROS, do Scorsese, nesse sentido, de trazer a violência mais para o sentimento do que para o visual.

Isso acontece, pois o sentimento de perda é de fato sentido e assim temos Glenn Ford como o protagonista com muito ódio no coração e em busca de vingança, um pouco como o Spencer Tracy em FÚRIA (1936) ou Arthur Kennedy em O DIABO FEITO MULHER (1952). Mais aqui a intensidade desse sentimento chega do lado de cá da tela com mais força. Nessa fase, Lang estava trazendo para o estilo de filme policial (noir) um melodrama poderoso. Por isso, quando somos apresentados ao lar e à família do protagonista já ficamos apaixonados por aquele ambiente cheio de amor, que faz oposição ao mundo frio, opulento e agressivo das residências dos gângsteres.

No que se refere à violência, mais uma vez, é curioso que Peter Bogdanovich, quando entrevista Lang para seu livro Afinal, Quem Faz os Filmes, chega a dizer que até o ritmo do filme é violento. O filme já começa com uma cena de um suicídio: um policial atira na própria cabeça e deixa uma carta para o promotor de justiça. A esposa age de maneira fria, esconde a carta e faz uma ligação para o grande chefão do crime da cidade, vivido por Alexander Scourby.

O grande diferencial no que se refere ao desejo de vingança entre OS CORRUPTOS e O DIABO FEITO MULHER - em ambos vemos um homem tentando se vingar de um crime cometido a sua amada - é que aqui não temos uma "distração", como é a presença de Marlene Dietrich no citado western. Em OS CORRUPTOS, por mais que Gloria Grahame seja uma personagem adorável e envolvente, jamais passa pela cabeça do protagonista e talvez nem da do espectador, que apareça ali um envolvimento amoroso. Afinal, a ferida ainda está aberta e a obsessão de pegar os responsáveis pela morte da esposa é o que mais importa. Por isso a personagem de Grahame tem essa função maior de auxiliar o herói nessa missão, já que ela se vê constantemente agredida pelo namorado vivido por Lee Marvin. Principalmente depois da chocante cena do café quente.

Aliás, a performance de Grahame no filme é brilhante. Ela combina o já reconhecido sex appeal em filmes noir da época com uma espontaneidade muito bonita de sua personagem. Acho tocante o momento final dela. O trabalho seguinte de Lang, DESEJO HUMANO (1954), também conta com a dobradinha Ford-Grahame. (Já estou ansioso para ver.)

Quanto ao aspecto visual, ver OS CORRUPTOS em uma cópia HD é de dar gosto. Isso porque o trabalho de Lang em Hollywood, especialmente nos filmes em preto e branco, são um colírio. O diretor levou seu estilo próximo do expressionista para os Estados Unidos e o solidificou, especialmente na década de 1940. Quando as produções eram um pouco mais caras, como é este o caso, esse cuidado com as imagens fica bem mais evidente.

+ TRÊS FILMES

SONHO DE MORTE (Dead of Night)

No mesmo ano do clássico NOITE DO TERROR, Bob Clark fez esta pequena joia sobre um soldado que morre na guerra do Vietnã e que volta para casa como um zumbi. A ideia de SONHO DE MORTE (1974) é interessante, mas é de difícil desenvolvimento. Por isso são bastante satisfatórias as escolhas do diretor e do roteirista com esse personagem. Afinal, por mais que Andy, o morto-vivo, esteja se comportando de maneira estranha, vamos percebendo que ele tem perfeita consciência de sua condição. Os dois pontos altos do filme são: a perseguição ao médico e o incidente no cinema drive-in. Uma prova de que existe uma pluralidade de filmes de zumbis pós 1968: nem todos são derivados de Romero.

OS ÚLTIMOS EMBALOS DA DISCO (The Last Days of Disco)

Não sei se ando com a cabeça muito lenta e peguei um dia não muito bom para acompanhar a rapidez intensa dos filmes de Whit Stillman - mas lembro que quando vi AMOR & AMIZADE (2016) também fiquei um tanto desnorteado. Eu até queria me envolver mais com os personagens, mas isso não aconteceu. Talvez um pouco mais com a personagem da Chloë Sevigny. De todo modo, há algo muito singular - e talvez bem menos universal - nas discussões que o diretor/roteirista promove neste OS ÚLTIMOS EMBALOS DA DISCO (1998), chegando a trazer um papo interessante sobre moral e caráter na animação A DAMA E O VAGABUNDO, da Disney. Gosto também de como o filme vai nos aproximando dos personagens, quando vai se encaminhando para sua conclusão, mas aí já é um tanto tarde. Ficaria mais próximo deles em uma apresentação menos rápida e mais aprofundada nos personagens, principalmente os masculinos, que são os mais prejudicados nesse sentido.

APOCALYPSE NOW - FINAL CUT

Mais de 18 anos depois da experiência de REDUX, lá fui eu ao cinema novamente ver este novo corte de APOCALYPSE NOW (1979), que Francis Ford Coppola acredita ser o melhor e diz ser o definitivo. Ainda continuo achando o filme bem irregular. Não gosto tanto das cenas finais, mas adoro todos os momentos em que o Robert Duvall está em cena ("Cavalgada das Valquírias", surf no meio do bombardeio). Coppola consegue trazer humor para o horror e nos fazer rir no meio daquilo tudo. Gosto bastante também da cena com os franceses, que aqui foi diminuída na duração em relação à versão REDUX. Segue sendo um baita filme, com certeza, mas ainda prefiro os outros três que o Coppola realizou nos anos 1970.

quinta-feira, dezembro 10, 2020

MANK



Um dos filmes mais aguardados do ano, MANK (2020), de David Fincher, finalmente chega e deixa, para muitos, um gostinho de desapontamento. Afinal, o último longa-metragem do cineasta havia sido o ótimo GAROTA EXEMPLAR (2014) e já faz um bom tempo. Fincher vinha se dedicando à série MINDHUNTER (2017-2019), uma série tão boa que acabou por enfatizar o nome já cultuado do diretor. Inclusive, há quem tenha um pouco de raiva de MANK por ter sido um possível impedimento para a continuidade da série. Mas parece que a história não é tão simples em se tratando da descontinuidade da série.

MANK estava desde o início do ano sendo esperado como o grande filme cotado ao Oscar 2021, o que aliás até pode se concretizar, principalmente em aspectos técnicos, mas o fato de ter desagradado a muitos espectadores e vários críticos e também de não ter entrado no top 10 das produções mais assistidas da Netflix durante sua semana de lançamento pode ser um fator a depor contra. De todo modo, a expectativa de popularidade de MANK talvez estivesse sendo um pouco exagerada, já que é um filme que deve interessar a um público menor, o de fãs do cineasta e o de interessados pelos bastidores da velha Hollywood.

E eu me incluo mais no segundo grupo, embora aprecie também o trabalho do diretor. E achei uma pena que o filme tenha sido uma tarefa tão penosa para mim, por mais que em alguns momentos eu tenha gostado. O fato é que MANK é um filme muito travado, talvez por um excesso de respeito ao roteiro escrito pelo pai, Jack Fincher, e também respeito ao universo que desejava emular, o de CIDADÃO KANE.

Inclusive, ver CIDADÃO KANE é um pré-requisito para ver MANK. E não apenas ver a obra-prima de Orson Welles, mas também saber um pouco das histórias por trás de um dos filmes mais cultuados do mundo pode tornar a tarefa de ver MANK menos árdua. Eu, pelo menos, comecei a ver o filme em partes (por achar bem pouco fluido), enquanto tentava buscar interesse durante a leitura (ótima) do famoso ensaio de Pauline Kael, "Criando Kane", publicado em livro aqui no Brasil pela Editora Record.

O texto de Kael é longo e é uma delícia. O fato de ser contestado e pouco confiável acaba sendo um mero detalhe, levando em consideração que ele parece ser a base para a tese do filme, de que Herman J. Mankiewicz seria o verdadeiro autor de CIDADÃO KANE, ou pelo menos o principal responsável pela existência da obra, em um momento em que a teoria dos autores estava sendo fortemente aceita. Acontece que mesmo os adeptos do autorismo concordam que o cinema é, sim, uma arte colaborativa. Afinal, o que seria do filme também sem a excelente fotografia de Greg Toland o a música de Bernard Hermann? Isso para citar o nome de apenas dois técnicos extraordinários.

Mas, sim, é importante o fato de que o filme celebre e enfatize a importância do roteirista na construção de uma obra cinematográfica. Até hoje são poucos os roteiristas que ganham nome na indústria. Recentemente podemos citar o caso de Charlie Kaufman, que depois se tornou também diretor. Mas o que acontecia na década de 1930 em Hollywood era muito mais grave. Mankiewicz foi contratado por Welles para ser um ghost writer. E aceitou a proposta. Afinal, já estava acostumado a colaborar em Hollywood para grandes sucessos sem ser creditado. O que ele quis, ao final, foi ser, daquela vez, creditado. Nada mais justo. O fato de ter ganhado o único Oscar do filme, o de roteiro, junto com Welles, não deixa de ser uma pequena desforra.

Quanto à obra de Fincher, é uma pena que o cineasta tenha se perdido tanto em sua obra, que parece toda errada. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross pode até ser boa, mas, junto ao filme, parece contribuir para uma sensação de desconforto que a obra provoca em sua incapacidade de despertar o interesse, seja pelos personagens, seja pela trama, de causar um mínimo deleite no espectador interessado em histórias de Hollywood, ou simplesmente em boas narrativas.

Talvez MANK tenha absorvido, inconscientemente, o cinismo de seu protagonista, seu sentimento de amargura em relação a Hollywood, especialmente os produtores e seu jogo político, que também encontra fortes paralelos com os Estados Unidos da era Trump. Esse cinismo e esse desinteresse com a vida em si acaba também tornando o personagem de Mank irritante, pouco atraente. O fato de ser um alcoólatra também contribui e a performance de Gary Oldman parece estar sempre acima do tom. A cena em que ele solta os cachorros em uma festa de William Randolph Hearst (Charles Dance) e vomita no lugar era para ter sido um grande momento. Infelizmente não é. 

Mesmo a personagem Marion Davies, estrela da Hollywood da era silenciosa, vivida por Amanda Seyfried, que deveria ser uma espécie de raio de sol para o filme, acaba não significando muita coisa, não passando sentimento. Talvez seja esse o principal problema do filme como um todo: a falta de sentimento. Por mais que se queira construir um filme amargo e cínico, mesmo esses sentimentos poderiam estar presentes de maneira minimamente eficiente.

O que sobra é uma tentativa de fazer algo parecido com CIDADÃO KANE, mas que fica no meio do caminho. Afinal, por que filmar em janela 2,20:1 quando se podia filmar em 1,37:1, já que havia um interesse em emular o filme de Welles? Por que não fazer em película em vez de digital e simulando de vez em quando uns cigarrette burns? Mas isso é o de menos para um filme que promove tédio até mesmo em fãs de histórias da tão querida, ainda que falha, velha Hollywood.

+ TRÊS FILMES

ALICE GUY-BLACHÉ - A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA PRIMEIRA CINEASTA DO MUNDO (Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché )

A história apagada, mas aos poucos reconstruída, desta cineasta fundamental para a História do Cinema mundial, é ao mesmo tempo feliz, por estar havendo uma descoberta empolgante, pois é um trabalho de arqueologia que está sendo feito, mas também bastante triste, principalmente quando vemos trechos de seus filmes e percebemos que ali há coisas geniais, coisas que vão muito além do simples fato de ela ter sido a primeira cineasta mulher. Fiquei curioso para ver os filmes. ALICE GUY-BLACHÉ - A HISTÓRIA NÃO CONTADA DA PRIMEIRA CINEASTA DO MUNDO (2018), o documentário de Pamela M. Green, tem uma dinâmica que funciona muito bem na primeira hora, mas que vai se tornando cansativa com a repetição do estilo. Ainda assim, é um prazer poder ver.

ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO (I'm Thinking of Ending Things)

O que dizer de um filme que traz cenas incrivelmente fascinantes e algumas discussões bem interessantes, mas que, no balanço, tem um monte de sequências insuportáveis e de deixar a gente "pensando em acabar com tudo"? Gosto muito da direção de arte. Já chama a atenção as roupas da protagonista (gostei bastante de Jessie Buckley) com os detalhes do papel de parede da casa do namorado estranho (Jesse Plemons). Curto demais a cena no carro na nevasca, com uma construção atmosférica de dar gosto. Mas depois entra uma solução que tira totalmente o prazer que o filme muito duramente havia conquistado. De todo modo, como ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO (2020) é um filme que trata de assuntos delicados, é bom prestar atenção em alguns detalhes, de modo a vê-lo com um olhar mais carinhoso. Infelizmente está mais para SINÉDOQUE, NOVA YORK (2008) do que para ANOMALISA (2015), para citar filmes dirigidos por Charlie Kaufman.

MAGNATAS DO CRIME (The Gentlemen)

Parece que Guy Ritchie perdeu toda a vergonha na cara com este filme, no que se refere às comparações que se fazia no começo de sua carreira com Tarantino. Em MAGNATAS DO CRIME (2019), ele imita até a famosa tomada clássica do porta-malas de carro do seu colega americano. Mas é um filme que tem o seu charme, tem um elenco bacana. Arranjaram um jeito de incluir um americano carismático (Matthew McConaughey) para contracenar com um bom elenco britânico. E tem o Hugh Grant, que pra mim sempre foi um chamariz. Ele continua divertido, mesmo em um filme que muitas vezes é maçante, mesmo quando tenta ser esperto. Ainda assim, deu pra se entreter. Mas bem que podiam ter diminuído a duração. Chega uma hora que cansa mesmo. E olha que vi no cinema, numa projeção boa e tudo mais.

segunda-feira, dezembro 07, 2020

M8 - QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA



Vivemos um momento em que finalmente certos temas têm vindo à tona de maneira explícita. Entramos no século XXI e os temas do machismo e do racismo estão muito presentes, até porque também é um momento em que a extrema direita se estrebucha, inconformada, com os progressos que as classes menos favorecidas da sociedade vêm conquistando aos poucos. Por isso a política de cotas, ainda que polêmica para alguns, segue sendo uma saída importante para a diminuição das desigualdades sociais.

M8 - QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA (2019), de Jeferson De, utiliza elementos sobrenaturais emprestados do cinema de horror para contar uma história sobre invisibilidade e preconceito. Na trama, Maurício (Juan Paiva) é um rapaz que ingressou na Faculdade de Medicina, mesmo sendo preto e de família humilde. E de fato ele é o único jovem negro da turma, o que já o coloca em uma situação um pouco desconfortável. Afinal, há quem o confunda com alguém que trabalha nos serviços gerais da universidade. 

Na aula de anatomia, ele percebe que os três corpos utilizados para serem dissecados durante as aulas são de pessoas negras. E um desses corpos surge para ele em sonhos, faz uma espécie de comunicação com ele. Ao mesmo tempo, ele percebe o grupo de mulheres que protesta nas ruas pelo desaparecimento de seus filhos. E Maurício passa a acreditar na hipótese de que pelo menos um daqueles cadáveres é de uma pessoa desaparecida e conta isso para seu pequeno clube de amigos (um deles, sua namorada). 

O filme é um convite à reflexão sobre o racismo presente no do dia a dia, como no momento em que o colega de Maurício, no ônibus, apenas por estar perto de um rapaz negro, se sente desconfortável achando ser ele um ladrão. Mais duro ainda é quando a polícia confunde Maurício com um ladrão e já age da maneira mais violenta. Detalhe: um dos policiais que o agride é também negro. Ou seja, o Estado não tem o menor interesse em ter uma postura mais humanista e menos racista. "O que você está fazendo em bairro de playboy?", pergunta o policial a Maurício. 

Levando em consideração o que foi exposto, é possível que o filme tenha um aspecto panfletário, mas talvez hoje em dia certos assuntos precisem ser ditos da maneira mais direta possível. O próprio Spike Lee, aquele que talvez seja o cineasta negro mais atuante e mais longevo no trato com o tema, tem preferido adotar uma postura mais direta, tanto para protestar quanto para valorizar a cultura negra. E isso vemos em M8 também, que tem uma trilha sonora interessante, com destaque para "Ponta de Lança (Verso Livre)", de Rincon Sapiência. A trama é tecida de maneira envolvente e há momentos de emoção genuína, como na cena mais tocante de Maurício com a mãe (Mariana Nunes).

Aliás, que beleza de elenco de apoio. Além de Mariana, há participações de Zezé Motta, Ailton Graça e pontas de Rocco Pitanga e Lázaro Ramos.

+ TRÊS FILMES

MUDANÇA

É sempre uma dificuldade fazer filme de época no Brasil com a cara e a coragem. Aqui temos uma história ambientada em janeiro de 1985, no dia que Tancredo Neves foi eleito o primeiro presidente do Brasil da redemocratização. E assim como o futuro obscuro mas animador que se apresentava para o país, assim é este terceiro longa de Fabiano de Souza, tanto quando acompanha a história do menino vivido por Guili Arenzon, quanto a do seu pai, o sociólogo vivido por Gustavo Machado. MUDANÇA (2020), de Fabiano de Souza, ainda conta com uma Rosanne Mulholland tão bela quanto misteriosa e um Fernando Alves Pinto vivendo um sujeito pouco confiável. O tom solar ainda que ligeiramente agridoce do final parece positivo frente à jornada pela noite do jovem. Mas sabemos como é este país e suas pegadinhas de mau gosto.

CASA DE ANTIGUIDADES

O único filme brasileiro escolhido para integrar a inexistente edição de Cannes-2020 foi esta estreia na direção de João Paulo Miranda Maria, diretor de A MOÇA QUE DANÇOU COM O DIABO (2016), curta que obteve uma boa repercussão nos festivais e que já se destacava pela beleza plástica. Em CASA DE ANTIGUIDADES (2020), gosto especialmente dos efeitos no céu em dois momentos específicos do filme. Houve, porém, uma série de dificuldades para mim. Não é nem pelo andamento bem lento, mas pela dificuldade de o filme passar um sentimento de mal estar frente a cada agressão feita ao personagem de Antonio Pitanga. Além do mais, o começo do filme, com aquela ênfase nazista e uma alfinetada à elite do sul do país, acaba se perdendo no desenvolvimento, assim como o nosso interesse pelo protagonista ou os demais personagens que surgem. De todo modo, há uma rebeldia bonita de ver do homem que veio do norte, e o que ele adota como vestimenta é algo que traz um ar surreal interessante. Mas não foi o suficiente para me ganhar.

O CEMITÉRIO DAS ALMAS PERDIDAS

Já é o quinto longa-metragem de Rodrigo Aragão, mas o primeiro que vi, por vacilo meu, já que ele é talvez o mais próximo que podemos dizer de um herdeiro de Mojica. O que vi em CEMITÉRIO DAS ALMAS PERDIDAS (2020) foi uma obra que mergulha fundo no gênero horror com direito a mortos-vivos, feitiços satânicos e muito gore, mas também com doses de aventura. As duas linhas do tempo são bem costuradas para chegar ao clímax, no cemitério do título. Gosto mais dos dois terços iniciais, em que o dom de narrar uma história e de reverenciar o gênero se apresentam de maneira admirável. Os efeitos especiais são ótimos, ainda mais levando em consideração o esquema de guerrilha da produção. E há um vilão que assume o protagonismo que é muito bom. Cena mais memorável: o ataque dos índios canibais.

sábado, dezembro 05, 2020

OS ESPIÕES (Spione)



Quando a gente aprende a admirar um cineasta, o corpo do seu trabalho vai se tornando cada vez mais querido, mesmo os filmes menores, como é o caso deste OS ESPIÕES (1928), penúltimo filme de Fritz Lang da fase silenciosa, e que, embora seja um pouco confuso, o que é normal em títulos de espionagem, é de dar gosto, principalmente pelos elementos visuais, que na cópia restaurada e remasterizada ficam ainda mais bonitos. Lang é um mestre do visual e isso já salta aos olhos nas primeiras imagens.

Há também que se destacar o excelente trabalho de seus atores, principalmente o grande Rudolf Klein-Rogge, que mais uma vez faz o papel de um super-vilão, depois de ficar eternizado como o mestre dos disfarces de DR. MABUSE, O JOGADOR (1922) e o inventor de METRÓPOLIS (1927). Aqui ele faz quase uma reprise do personagem, em muitos aspectos. Aliás, desde os primeiros filmes Lang já havia demonstrado um especial interesse por esses super-vilões, mas naquele momento em especial, com a ascensão do nazismo na Alemanha, o espírito da época deu novamente um empurrãozinho.

Ainda que seja irregular (acho a sequência do diplomata japonês um tanto quebrada dentro da narrativa, por exemplo), OS ESPIÕES é um dos mais empolgantes da safra de filmes mudos do diretor. A montagem paralela dos dois espiões apaixonados em vagões e trens diferentes é fantástica, assim como a cena de suspense no final. 

Aliás, como estava falando dos atores, que maravilhosa que é Gerda Maurus, austríaca que faz o papel de uma espiã russa que se envolve com o detetive-espião adversário, mas que acaba por se apaixonar por ele. A paixão dos dois se torna mais importante que qualquer detalhe da trama de espionagem e é agente catalisador de cenas de suspense e ação que ocorrerão ao longo da conclusão do filme (como a cena do trem e a cena do banco). Gerda Maurus ainda apareceria em outro trabalho importante de Lang, A MULHER NA LUA (1929).

Ver OS ESPIÕES é também sentir um certo alívio pelo retorno de Lang ao estilo de DR. MABUSE, O JOGADOR, depois de ter optado pelo formalismo e pela super-estilização em OS NIBELUNGOS (1924) e METRÓPOLIS. Assim, um dos maiores interesses do realizador aqui é o trabalho de tensão, deixar o espectador segurando o braço da cadeira em várias ocasiões. E, passadas tantas décadas, o suspense ainda é muito eficiente. Inclusive, deixo um elogio para a excelente trilha sonora que a nova versão do filme traz. Ajuda bastante a dinamizar a história e aproxima o filme da era sonora que estava chegando.

+ TRÊS FILMES

O MÉDICO E A IRMÃ MONSTRO (Dr. Jekyll and Sister Hyde)

Curioso que no IMDB este filme é classificado apenas como horror e sci-fi. Não como comédia. Será que o humor do filme é involuntário? Ou foi bem pensado? De todo modo, só a ideia já me parece ter um senso de humor espirituoso: pegar a clássica história de O Médico e o Monstro e trocar o monstro por uma mulher muito bonita, atraente mas também selvagem e psicótica. E nisso há também uma questão que parece ser uma novidade, que é a questão trans. Na trama de O MÉDICO E A IRMÃ MONSTRO (1971), de Roy Ward Baker, Dr. Jekyll é um cientista que pesquisa uma espécie de poção para a vida prolongada e acredita encontrar isso nos hormônios femininos. Achei uma pena que o filme não explore mais a questão da sexualidade feminina da personagem transformada. Talvez por falta de tempo, já que a história envolve assassinatos e se passa na mesma cidade e época de Jack, o Estripador.

A MALETA FATÍDICA (Nightfall)

Interessante escolher filme pela duração. Este de Jacques Tourneur tem apenas 76 minutos, mas acabei vendo um extra de 25 minutos do box da Versátil, que traz uma análise sobre o filme e também sobre a poética do cineasta. Ainda gosto mais de seus quatro filmes de horror mais famosos (A MORTA-VIVA, 1943, é maravilhoso!) e também de FUGA DO PASSADO (1947), mas esta produção modesta é uma beleza. Em A MALETA FATÍDICA (1956), Aldo Ray está muito bem como o rapaz envolvido em uma situação perigosa. O filme traz Anne Bancroft linda e cerca de dez anos mais jovem que em A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM. Enquanto Ray representa a noite, o estar escondido, ela representa o dia, o estar à vista, por ser uma modelo. E o que temos é um noir que começa a ter um aspecto solar, nos anos que anunciavam o crepúsculo do subgênero.

LAURA

Havia visto esta maravilha no início de minha cinefilia, em algum Corujão da Globo. Mas não lembrava de praticamente nada. Assim, com esse gosto de filme totalmente novo, fiquei surpreso com cada reviravolta da trama de LAURA (1944), de Otto Preminger, e de como o filme passa a transcender o próprio subgênero filme noir quando vemos um detetive de polícia apaixonado por uma mulher que está morta, a fascinante Laura. E Gene Tierney está de fato apaixonante como a mulher misteriosa e bastante levada por paixões. A trama, embora muito boa e cheia de detalhes precisos (se há algum furo, eu não percebi), é o de menos neste filme tão poderoso na construção do suspense, do mistério e dos sentimentos, que quando cheguei à última cena, tive que me levantar para ver com toda a atenção o que ia acontecer. Obra-prima! No DVD duplo da Fox vem um ótimo documentário sobre a tumutuada e triste vida de Gene Tierney.

sexta-feira, dezembro 04, 2020

A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (La Double Vie de Véronique)



Ah, o tempo. Esse mano velho que passa tão rapidamente e nos ensina coisas que depois a gente esquece. São duas coisas então de que estou me queixando. Da rapidez das horas e do fato de nos esquecermos tão facilmente das coisas. Poderia estar me queixando de uma terceira coisa também: da minha incapacidade de me lembrar melhor mesmo daquelas coisas que me fascinam. No caso de filmes que me deixam apaixonado, o que me deixa frustrado é ele desaparecer de minha memória de maneira tão rápida. Deve ser culpa da quantidade maior do que o normal de filmes que vejo, não sei. Ou apenas os efeitos das drogas que consumi ao longo do tempo. Por isso que quando estava vendo este filme em especial queria tanto me apegar àquele universo presente na telona, pois já sabia que aquela experiência seria eventualmente dissipada.

O fato é que quando eu estava no cinema, em outubro, quando o Cinema do Dragão retomou discretamente suas atividades neste período de pandemia, eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo enquanto revia A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (1991), mesmo com o desconforto da máscara. Já tinha visto o filme há muito tempo em VHS, mas isso nem conta: só havia a lembrança de algumas poucas cenas e de maneira muito nublada.

O caso dos filmes de Krzysztof Kieslowski é muito especial, já que há algo de pouco palpável e ao mesmo tempo muito atraente neles, como se estivéssemos próximos de um sonho muito bom a que não queremos nos afastar. Cada cena de A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE é de uma poesia, de uma beleza impressionantes. A fotografia de Slawomir Idziak, o mesmo que trabalharia com Kieslowski em A LIBERDADE É AZUL (1993), ilumina cada objeto, cada olhar, cada local, como se tudo fosse estritamente essencial. De certa forma, é uma sensação que me faz lembrar o cinema de Andrei Tarkovski, nesse sentido.

Um filme sobre escolhas na vida (um tema recorrente em sua obra) e sobre as peças que o destino prega. Irène Jacob, na flor dos seus 24/25 anos, carrega uma beleza tão forte que dói no peito. Apaixonante, tanto quando interpreta a versão polonesa, quanto a versão francesa da(s) personagem(s). E há também a música de Zbigniew Preisner, colaborador frequente do cineasta e catalisador de emoções em conjunto com as imagens.

Na trama, há Weronika, uma soprano polonesa extremamente apaixonada pelo que parece ter nascido para fazer, ou seja, cantar; e há também Véronique, uma professora de música que resolve, depois de um desconforto espiritual, abandonar esse caminho em sua vida para se dedicar ao amor, em especial à paixão por um jovem rapaz. Há uma breve cena de sexo/nudez que é como presenciar o florescer da juventude em sua mais impressionante beleza.

Ao contrário de certos filmes que lidam com o tema do duplo, Kieslowski não usa recursos de antagonismo ou de horror. As jovens coexistem e se completam mesmo sem saberem da existência uma da outra. Tanto que, quando uma não mais está, a outra sente terrivelmente o baque. Temas fortes como a morte, a solidão, o destino, o acaso, a paixão etc. são pincelados de maneira tal que seriam necessárias várias revisões desta obra para poder apreender o que nos é fornecido. 

A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE foi exibido em uma mostra que incluíam todos os longas do realizador feitos para o cinema. Espero consegui falar um pouco sobre outros que julgo serem suficientemente especiais para merecerem mais do que apenas um parágrafo.

+ TRÊS FILMES DE KIESLOWSKI

A CICATRIZ (Blizna)

Primeiro longa-metragem para cinema de Kieslowski, A CICATRIZ (1976) demorou a me ganhar. Na verdade, tive dificuldade de me atrair pelos personagens e pela trama. É tudo propositadamente áspero, inclusive a fotografia, que acentua aquelas cores de terra do espaço que está sendo usado para a construção de uma fábrica. Talvez o fato de o complexo de culpa do protagonista não se mostrar tão facilmente compreensível e de haver muitas elipses nem sempre também fáceis, isso pode ter contribuído para o meu distanciamento em relação à obra.

SEM FIM (Bez Konca)

Diferente do primeiro, SEM FIM (1985) já apresenta um cuidado maior na direção e um gosto pela melancolia que se tornariam marcas do diretor. Só de começar com um morto contando a história de sua morte e depois vermos o que se sucede após a sua partida, isso já me causou muito interesse. Ainda assim, há um pouco de desequilíbrio (de forças) entre a trama da mulher do morto e a do velho advogado que fica com o seu caso, um caso envolvendo questões políticas. O filme se passa no início dos anos 1980 quando o país viveu lei marcial. Adorei a atriz que faz a protagonista. Se o filme se centrasse apenas nela seria uma obra-prima.

SORTE CEGA (Przypadek)

A impressão que eu tive vendo este SORTE CEGA (que foi rodado em 1981, mas por causa da censura ficou na geladeira por seis anos, em 1987) é de que parece uma adaptação toda picotada de um desses romances difíceis de adaptar. Mas não é. É um roteiro original de Kieslowski. Ver este filme é também um exercício de experimentar uma gramática diferente, por assim dizer, por conta de uma montagem diferente (muitas elipses), principalmente, e com uma cultura e uma situação política a que não estou tão a par. O mal estar se concentra principalmente no sentimento de dúvida de um jovem rapaz sobre que caminho seguir na vida, em uma Polônia dividida. Tenho meus senões quanto ao final, mas, quem sabe, lendo a respeito, passo a valorizá-lo.

terça-feira, dezembro 01, 2020

ERA UMA VEZ UM SONHO (Hillbilly Elegy)



Uma surpresa positiva este ERA UMA VEZ UM SONHO (2020), de Ron Howard. Por ser um cineasta sem muita identidade e que trafegou por diferentes caminhos, não dá para esperar algo de grande impacto dele. Por outro lado, é justamente por isso, e por ele ter alguns acertos em sua carreira, que esse tipo de surpresa pode ocorrer. Lembremos que Howard tem em seu currículo obras empolgantes como O PREÇO DE UM RESGATE (1996) e FROST/NIXON (2008) - sim, eu sei que acabam sendo exceções em uma filmografia extensa e com muitos deslizes.

ERA UMA VEZ UM SONHO está longe de ser uma obra sutil no tratamento das emoções, mas talvez seja justamente disso que eu tenha gostado. É um filme que não tem medo de chafurdar na lama da pobreza e da decadência humana frente ao vício nas drogas, que é o aspecto que mais pesa na história da família. 

No mais, é comovente a luta do protagonista J.D. (Gabriel Basso na fase adulta; Owen Aztalos na adolescência) de buscar um caminho de sucesso na carreira, vindo de uma família tão problemática e com tão pouca grana. Trata-se de mais um filme que escancara as desigualdades americanas e que mostra o quanto os Estados Unidos são um país que não tem a menor intenção em trazer benefícios aos mais pobres, sem um sistema de saúde pública e com uma educação superior caríssima.

Glenn Close está ótima como a avó disposta a tudo para ajudar o neto. Ela é o coração do filme. Tocante a cena em que o garoto, depois de amargar notas muito baixas na escola, mostra para a avó a nota alta que tirou em matemática, como que agradecendo-a por ter se esforçado para ajudá-lo, diante das dificuldades impostas pelos problemas familiares. Quanto a Amy Adams, a atriz parece uma continuação mais decadente de sua personagem de SHARP OBJECTS, a série da HBO.

O filme é adaptação do best-seller de J.D. Vance, que expôs de maneira corajosa a história de sua família, e que agora ganhará ainda mais visibilidade com um filme produzido pela Netflix. Quem fez a adaptação para o cinema foi Vanessa Taylor, a roteirista de A FORMA DA ÁGUA, de Guillermo del Toro.

Quanto às chances do filme na temporada de premiações, talvez ainda seja muito cedo para dizer, pois tudo está muito atípico neste ano, inclusive com este novo calendário do Oscar. Mas creio que as maiores chances são mais para Glenn Close do que para qualquer outro técnico ou intérprete. Lembremos que Close já concorreu ao Oscar em sete ocasiões e não venceu em nenhuma.

+ TRÊS FILMES

O DIABO DE CADA DIA (The Devil All the Time)

É uma obra surpreendente em muitos aspectos. Não esperava o grau de violência e uma abordagem da fé cega e estúpida com tamanha intensidade. Algumas coisas funcionam mais que outras e muito do valor do filme está no belo desempenho de Tom Holland. É em O DIABO DE CADA DIA (2020) que eu finalmente percebo o quanto o garoto é ótimo ator. Por outro lado, Robert Pattinson não está bem. Não sei se por culpa de Antonio Campos, o diretor, ou se ele mesmo escolheu um caminho ruim para fazer o seu pastor mau caráter e abusador de garotas. Já Harry Melling ficou perfeito como um fanático louco. Grande atuação. Gosto também do modo como o filme vai se livrando de seus personagens ao longo da narrativa, que se estende por uns dez ou doze anos. É um bom retrato de um mundo cão do interior americano. Em alguns momentos senti influências de Martin Scorsese, tanto no uso da narração (do próprio romancista) quanto do uso da violência.

BORAT - FITA DE CINEMA SEGUINTE (Borat - Subsequent Moviefilm)

Tenho pouca lembrança do filme de 2006, mas se não me engano era um pouco menos irregular, embora também fosse um filme baseado em esquetes. Este aqui, porém, tem um significado maior por causa da era da pós-verdade. BORAT - FITA DE CINEMA SEGUINTE (2020), dirigido por Jason Woliner, deve servir para que alguns republicanos (ou bolsonaristas de linha "ideológica" brasileiros) vejam o absurdo da bolha em que vivem. Há coisas tão pesadas do ponto de vista político (como a saudação nazista feita por redneck) que precisam borrar o rosto da pessoa que está sendo filmada. A cena com Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, deixa dúvidas se houve alguma combinação, pela posição das câmeras e atos do sujeito, mas tudo é possível. No mais, excelente a adição de Maria Bakalova no papel de filha de Borat. Ela traz novo frescor e tem um timing cômico muito bom.

O QUE FICOU PARA TRÁS (His House)

Mais um exemplar de cinema de horror que trata de assuntos sociais, em especial de personagens negros, trazendo questões vindas da terra natal, já que o casal está fugindo de uma guerra civil em seu país, o Sudão do Sul, e buscando abrigo na Inglaterra. Em O QUE FICOU PARA TRÁS (2020), de Remy Weeks, o casal, que já sofreu em conviver com uma perda, passa a ser assombrado na casa que lhe é fornecida pelo governo. Alguns sustos são clássicos, mas funcionam muito bem; aos poucos o filme vai abandonando esse recurso e procurando destacar a psicologia dos protagonistas e sua relação distinta com os fantasmas.