quarta-feira, abril 24, 2019

21 CURTAS BRASILEIROS


CARAMUJO-FLOR

Para se ver cinema-poesia é preciso estar em um estado de espírito bem apropriado. Acho que estava um pouco quando vi OLHO NU (2014), do Pizzini, longa-metragem que contou com Ney Matogrosso. Na época do longa, muito se falava deste curta, também com o Ney, mas com uma proposta totalmente distinta. Confesso que nem sei dizer sobre o que é o filme, mas gosto da força das imagens, tanto as primeiras, focadas na cidade grande, quanto as da natureza e dos corpos humanos e animais. Direção: Joel Pizzini. Ano: 1998.

CHÁ VERDE E ARROZ

Belo filme sobre exibidores japoneses de cinema itinerante no interior paulista. Quase todo falado em japonês, o filme se passa nos anos 50 e conta a história de um ex-benshi (narrador de filmes mudos) que agora tem a missão de exibir filmes japoneses para comunidades. O personagem do menino lembra um pouco o de CINEMA PARADISO, mas as condições aqui são mais precárias. Direção: Olga Futemma. Ano: 1989.

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DAS GENTES DE SANTOS

Época ainda em que os curtas brasileiros faziam sucesso lá fora, mesmo quando a retomada ainda estava iniciando. Havia também esse tipo de filme bem-humorado um pouco herdeiro da TV PIRATA, que brinca de maneira inteligente com o documentário para contar uma longa história da cidade de Santos desde a colonização até a redemocratização. Ney Latorraca aparece como diversos personagens. Direção: André Klotzel. Ano: 1996.

EL MACHO

Admirável animação que aborda a libido masculina frente a uma mulher com uma voluptuosidade digna de Druuna, mas ainda mais acentuada pelos exageros cartunescos. Ainda assim, o filme, ao mesmo tempo que tira onda do desejo masculino, também namora a moça no elevador, passando por baixo de seu vestido e acentuando os faróis acesos. Não conhecia e fiquei admirado. Só não gosto tanto da segunda metade, centrada na possessividade. Direção: Ennio Torresan. Ano: 1993.

BRASIL PITORESCO: VIAGENS DE CORNÉLIO PIRES

Um filme que requer olhares curiosos sobre o Brasil dos anos 1920 e sobre o que há de registrado desse país em filme. Este é um filme de uma viagem do diretor à Bahia, passando primeiro por Salvador e depois adentrando outras cidades, com aspecto mais "exótico". Brigas de galos, pessoas subindo no coqueiro, a pesca etc. Curiosamente o final não tem cara de final. Ou então se perdeu no meio do caminho. Direção: Cornélio Pires. Ano: 1925.

DEUS É PAI 

Curta bastante anárquico sobre uma DR entre Deus e Jesus em um consultório de psicanálise. O diretor faz questão de deixar sua técnica de animação tão anárquica quanto as palavras do rebelde Jesus, que tem ressentimento do pai, que por sua vez lamenta certos atos do filho. Queria ter achado mais graça. Talvez depois de 20 anos a heresia tenha deixado de ser tão forte. Direção: Allan Sieber. Ano: 1999.

O ATAQUE DAS ARARAS 

O filme tem um clima anárquico e aparentemente descompromissado que parece não ter muito interesse em contar em detalhes sobre a viagem de Jairo Ferreira, acompanhando um grupo de teatro. Mesmo com a narração divertida de Carlos Reichenbach, a impressão que fica é que o grupo ali formado é do pessoal da Boca, já que são eles os citados. Gostaria de saber mais detalhes dos bastidores deste curta. Direção: Jairo Ferreira. Ano: 1975.

CANTOS DE TRABALHO

Além da ideia ser muito boa (selecionar cantos de trabalho de diferentes tipos de labuta e mostrar homens e mulheres trabalhando), as imagens de Humberto Mauro são sempre certeiras e poéticas, com uma montagem brilhante. Com o distanciamento temporal, é fácil achar tudo muito estranho: aquelas canções, as imagens etc, mas isso é normal. As canções já eram velhas em 1955. Leon Hirszman fez algo parecido posteriormente. Ano: 1955.

CARRO DE BOIS 

Filmaço este último trabalho de Humberto Mauro e o único colorido de sua carreira. Com narração linda de Hugo Carvana, o filme tem um tom de poesia dolorida. O próprio som do carro de bois já é um lamento em si, e ver aqueles animais passando pelos mais diversos obstáculos para fazerem aquele trabalho não é tão fácil. Em meio à dor, a poesia, a beleza tanto do trabalho quanto da inteligência do homem em saber lidar com aquilo que lhe é possível ter e fazer. Em algum momento, o filme tenta ser um tanto didático, mas só em algum momento. Em sua maior parte é poesia pura. Tanto em imagens quanto na palavra narrada. Ano: 1974.

HANDEBOL 

Pra quem viu e gostou de MATE-ME POR FAVOR vai gostar bastante de voltar ao universo escolar e juvenil de meninas tão atraentes quanto enigmáticas, tão violentas quanto doces. A primeira cena remete a Crepúsculo e achei que fosse entrar como uma versão melhorada do blockbuster, mas o filme nega isso e vai por um outro caminho, nunca deixando de ser intrigante. As imagens são lindas. Baita realizadora a Anitta. Direção: Anitta Rocha da Silveira. Ano: 2010. 

DOV'È MENEGHETTI? 

Passei muito tempo para finalmente ver este curta, que já era famoso antes mesmo de Beto Brant se tornar o cineasta prestigiado que se tornou. Hoje é um dos meus preferidos realizadores em atividade. Aqui ele faz um filme quase todo falado em italiano sobre um ladrão difícil de ser capturado pela polícia e que tem muita intimidade com os telhados. As cenas dos telhados com as imagens ao fundo são admiráveis do ponto de vista formal. Mas o filme não me empolgou, não. Fodas mesmo são os longas do Brant. Ano: 1988.

DI 

Impressionante como fiquei incomodado com o grau de irreverência com que Glauber Rocha se utiliza do velório do pintor Di Cavalcanti pra fazer seu filme. Tudo bem que não deixa de ser uma homenagem e espantar a tristeza pode ser uma ótima pedida, mas ainda assim a sobreposição de músicas com a narração em voice-over do próprio Glauber, com aquele jeito todo próprio de falar, como se estivesse vendendo mais uma vez o projeto do Cinema Novo, tudo é um bocado estranho. Como estranheza é algo bem-vindo no cinema, e Di é desses filmes cultuados, é obra imperdível sim. Eu é que tenho cisma com o diretor. Ano: 1977.

CARTÃO VERMELHO 

Havia esquecido que já tinha visto este filme. Não achei tão marcante, ainda mais que me incomoda no começo a menina ficar chutando bola nas bolas dos meninos. Mas isso tem uma razão de ser no conto, embora eu também ache questionável a conclusão, por mais que tenha sido pensado por uma mulher. Dá impressão que hoje a atitude de revanche dos meninos seria vista como quase um estupro, e extremamente traumatizante para a protagonista. Mas isso pode ser sinal de que o curta ainda segue forte. Direção: Laís Bodanzky. Ano: 1994.

CHAPELEIROS 

A princípio pode parecer um filme tedioso sobre operários trabalhando em uma fábrica de chapéus em Campinas-SP. E não há nenhum diálogo, apenas imagens do trabalho desses homens e dessas mulheres. Mas é preciso que a câmera insista nas imagens, inclusive na cena da saída da fábrica, para que finalmente possamos perceber o quanto é desumana a rotina de trabalho dessas pessoas. E isso faz com que o filme cresça muito na memória. Direção: Adrian Cooper. Ano: 1983.

O BANDO DOS TANGARÁS 

Eis um filme que vale mais pelo valor histórico, por ser a única imagem em movimento com Noel Rosa, e também por ter usado técnicas mais antigas de sincronização que as de O CANTOR DE JAZZ. A lata com o negativo foi descoberta em 1992 e o clipe foi restaurado. A música é "Vamo fallá do Norte" e Rosa fez parte do grupo por cerca de dois anos. Direção: Paulo Benedetti. Ano: 1930. 

DIAS DE GREVE 

Confesso que gostei mais deste curta do que dos longas seguintes de Adirley, embora reconheça que ele foi se tornando mais sofisticando e se mostrando cada vez mais preocupado com as desigualdades sociais. Não sei se por ser mais compacto, mais aqui Adirley consegue passar o sentimento de impotência do trabalhador diante do patrão, mesmo quando ele se vê no direito de fazer uma greve. A cena do desfile da escola de samba é bem representativa da realidade brasileira; do quanto o pobre tem aquele momento de alegria junto com o rico, mas fica que não fica muito além disso. Direção: Adirley Queirós. Ano: 2009.

BOCA ABERTA 

Muito boa a discussão que o filme traz sobre o cinema brasileiro que insistia em sobreviver em tempos de crise. Na época, foi com o advento do sexo explícito na Boca do Lixo. E por isso há dentre os quatro cineastas presentes um que defende o sexo explícito, Ody Fraga. Quem se manifesta mais saudoso da época de seu sucesso como realizador de bangue-bangues é Alex Prado, que apresenta para um pequeno público um de seus filmes. Ozualdo Candeias e Tony Vieira também entram na ótima discussão, que hoje em dia muda um pouco, mas o cinema continua em crise. Direção: Rubens Xavier. Ano: 1985.

CAROLINA 

Breve e contundente filme sobre Carolina de Jesus, a primeira (creio eu) escritora negra com obra publicada no Brasil. Vivendo na favela e com dificuldades imensas de manter a si e a filha pequena, ela consegue ainda assim esse feito. Os trechos da obra Quarto de Despecho são fortes, assim como as imagens de arquivo e a dramatização de Zezé Motta. Terminar com Racionais Mc's só aumenta o impacto da obra, já que a busca de igualdade social do negro ainda permanece até os dias hoje. Direção: Jeferson De. Ano: 2003.

ATÉ A CHINA 

Delícia de animação sobre a primeira viagem à China do diretor. Dá para gargalhar diversas vezes com as experiências pelo que o cineasta passou, e tudo narrado com um tom de conversa entre amigos. Isso porque a narrativa foi adaptada de e-mails que ele mandava diariamente para os amigos contando de sua experiência no país. Divertido demais. E a técnica de animação é muito legal, sem a limpeza dos rascunhos, deixando as imagens ainda mais bonitas. É coisa de se assistir com um sorriso de orelha a orelha do início ao fim. Não à toa ficou em 13º na lista da Abraccine de melhores animações brasileiras. Direção: Marão. Ano: 2015. (Foto)

BAILÃO 

Belo documentário sobre a vida um tanto escondida dos homens gays de meia-idade. O título do filme se refere a uma boate em que há predominância gay. Mas o forte do filme são os depoimentos de alguns homens que sofreram no passado com o preconceito e com a dificuldade de lidar com o seu desejo no trabalho, na família ou em outros ambientes públicos. Há bastante melancolia, mas há também uma sensação de liberdade muito bonita. Direção: Marcelo Caetano. Ano: 2009.

BRASÍLIA - CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA 

Um filme que ficou perdido durante muito tempo por conta de seu tom crítico em pleno regime militar, quando foi realizado. O documentário de Joaquim Pedro de Andrade só pôde ser conhecido mais recentemente, quando uma cópia foi encontrada no MAM e restaurada para lançamento no DVD de Macunaíma. O filme mostra o contraste daquela cidade muito nova, limpa e asséptica feita para abrigar os políticos e a realidade dos trabalhadores nas cidades satélites, gente que chegou lá para trabalhar na construção, mas que ficou sem emprego com a finalização da cidade. Destaque para a entrevista em um ônibus em direção à cidade, com mais nordestinos em um busca do sonho de uma vida digna. Ano: 1967.

sábado, abril 20, 2019

VIDAS DUPLAS (Doubles Vies)

Os filmes anteriores de Olivier Assayas, ACIMA DAS NUVENS (2014) e PERSONAL SHOPPER (2016), são bastante ambiciosos na forma. Por isso a impressão de que VIDAS DUPLAS (2018) é um trabalho menor e menos desafiador, semelhante talvez a HORAS DE VERÃO (2008), que também é um filme sobre pessoas conversando sobre comportamento, mudanças no cenário político e social e sobre relacionamentos. É como se o cineasta estivesse descansando um pouco enquanto prepara outra obra-prima.

Mas engana-se quem subestima VIDAS DUPLAS (2018), que encanta não apenas por trazer um elenco muito talentoso, mas por colocar nas bocas de seus personagens falas tão inteligentes e sensíveis que fazem com que eles se materializem em criaturas reais. O que dizer, por exemplo, de Vincent Macaigne, que brilha como o romancista Léonard Spiegel, um homem inseguro que coloca todos os seus dramas e relacionamentos em suas obras literárias? Os momentos em que ele se mostra especialmente deprimido, ao lado do editor vivido por Guillaume Canet, da amante vivida por Juliette Binoche ou da esposa interpretada por Nora Hamzavi, são pontos altos de um filme cheio de pontos altos.

No caso das cenas envolvendo Macaigne, uma espécie de coração do filme, elas se tornam grandes por serem mais relacionadas a discussões da vida real, de problemas ligados a relacionamentos. Os outros personagens se tornam menos sensíveis por discutirem mais assuntos do mundo contemporâneo, como o fim ou não do livro de papel, a diminuição do número de leitores de livros, a popularização dos audio-books etc. E o filme faz isso dando nomes aos bois: Facebook, YouTube, Kindle, Twitter.

Todo esse filosofar sobre o mercado editorial também vem junto com discussões acerca da natureza autobiográfica da arte e de sua imunidade a essas mudanças. Assayas, que havia trazido à tona um debate bem interessante sobre os blockbusters em ACIMA DAS NUVENS, mostra-se agora tão entusiasmado com a discussão sobre a revolução trazida pela internet que chega a contagiar. E no debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, para A FITA BRANCA e STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA.

Falando nesses dois filmes, um dos momentos mais engraçados de VIDAS DUPLAS envolve sexo oral durante a sessão de um dos filmes e o modo como isso é contado em um romance. Sim, há o cuidado para não cansar o espectador com tanta discussão sobre internet e mercado editorial, já que a ciranda de amores dos personagens se tornam tão ou mais importantes do que o debate. Quase todos no filme têm um(a) amante e isso é outra coisa que diverte: nos fazer cúmplices de seus personagens. Ao final, a sensação de bem-estar faz com que gostemos tanto do filme, de seus personagens tão vivos, de suas discussões tão empolgantes, que o sentimento de gratidão pelo diretor e por todo o elenco se torna inevitável.

+ TRÊS FILMES

APRENDIZ DE ALFAIATE (Petit Tailleur)

Média-metragem cheio de paixão e de sentimentos de estar à deriva de seus personagens. Que baita diretor que o jovem Louis Garrel se tornou, seguindo os passos do pai e da Nouvelle Vague. Aqui temos um aprendiz de alfaiate que quer deixar a carreira quando conhece uma jovem atriz que também tem uma relação de amor e ódio com a profissão. Os dois se apaixonam, mas o destino parece não contribuir para a união dos dois, por mais que haja paixão. Aliás, como não ficar apaixonado por Léa Seydoux, pelo amor de Deus? Nunca ela esteve tão bela quanto aqui. Ano: 2010.

MEU ANJO (Gueule d'Ange)

Primeiro longa-metragem de Vanessa Filho e que já ganha um espaço no Festival de Cannes. Marion Cotillard faz mais uma personagem um tanto desestruturada emocionalmente. Não é uma personagem tão boa quanto a de UM INSTANTE DE AMOR, mas é bem interessante, inclusive por nos fazer julgar a personagem por seus atos irresponsáveis. Mas é a garotinha Ayline quem conquista a plateia. O grito dela de "não me deixe sozinha" é tocante. Ano: 2018.

DE CARONA PARA O AMOR (Tout le Monde Debout)

Uma comédia bem divertida sobre homem que finge ser cadeirante para se dar bem em uma situação e acaba não sabendo desfazer a mentira. Ri a valer, por mais que reconheça que muitos acharão bobo ou coisa parecida. Estou começando a tomar gosto pelas comédias mais comerciais francesas. Direção: Franck Dubosc. Ano: 2018.

sexta-feira, abril 05, 2019

SHAZAM!

É interessante notar a guinada que a Warner/DC deu até chegar em SHAZAM! (2019), de David F. Sandberg, o filme mais voltado para a comédia do Universo Compartilhado DC até o momento. No entanto, embora a Warner tenha uma tradição de fazer produções mais sombrias desde suas origens com os filmes de gângster, lá pelos anos 1990, houve o trabalho de Joel Schumacher nos filmes do Homem-Morcego; além do mais, muita gente quer esquecer do fracasso que foi LANTERNA VERDE, de Martin Campbell, que também enveredava pelo terreno da comédia.

De todo modo, o caminho que MULHER-MARAVILHA começou de maneira suave, que LIGA DA JUSTIÇA tentou sem sucesso, e que AQUAMAN conquistou rindo de si mesmo, atinge o seu auge em SHAZAM!, que tem uma leveza muito bem-vinda ao contar a história de um garoto que, através de um encontro quase que casual com um mago, se transforma em um super-herói muito poderoso.

O que não deixa de ser uma ironia é o fato de que atualmente são super-heróis de segundo escalão da DC Comics que estão conseguindo sucesso entre os fãs. Primeiro Aquaman; agora o Capitão Marvel/Shazam. Ambos super-heróis que tiveram uma trajetória bastante tortuosa nos quadrinhos. No caso do Capitão Marvel, pode-se dizer que houve até mesmo uma auto-sabotagem por parte da DC, já que o personagem foi inspirado no Superman e, ainda por cima, tinha esse problema de ter o mesmo nome de um super-herói da Marvel. Tanto que no filme o herói não tem um codinome, e ainda brinca muito com isso.

SHAZAM! começa apresenta o arqui-inimigo do herói, na figura de um bem jovem Dr. Thadeus Silvana, quando ele tem o seu primeiro contato com o Mago Shazam (Djimon Hounsou) e é rejeitado por não ser considerado digno - ele é tentado pelos demônios dos sete pecados capitais. Só muitos anos depois, com o desespero do envelhecido e enfraquecido mago, que um adolescente assume, não exatamente com tanta vontade, a imagem e os poderes do Capitão Marvel, uma entidade que tem os poderes e as virtudes de figuras mitológicas como Hércules, Sansão, Zeus etc.

O bom humor do filme é contagiante, sabendo brincar com os estereótipos das falas de vilões e também do Mago. Há também um belo colorido que serve não apenas para destacar o uniforme do herói, mas também para dar ao filme um ar de produção feita para agradar também aos bem mais jovens, por mais que os atos do supervilão possam parecer bem violentos, se vistos por crianças pequenas.

O filme ainda tem o mérito de, em meio à comédia, lidar com questões delicadas, como o sentimento de abandono dos órfãos, como é o caso de Billy Batson (Asher Angel), o menino que viria a ser o Shazam, e de seu irmão nerd Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que é quem ajuda o inexperiente herói a lidar com seus novos e desconhecidos poderes. Ambos são acolhidos por uma família muito carinhosa que cuida de vários meninos e meninas adotados.

SHAZAM! tem tudo para ser um sucesso. Só não tem o selo Marvel, que é quem está com toda a força atualmente no que se refere à conquista dos corações de milhões de pessoas.

+ TRÊS FILMES

HOMEM-FORMIGA E A VESPA (Ant-Man and the Wasp)

Sequência que só comprova a bela fase que a Marvel está passando, com uma pluralidade de filmes muito interessante. Este aqui, se não é tão divertido quanto o primeiro, tem algumas cenas quase que inacreditáveis, como a perseguição nas ruas envolvendo mini-carros. Mesmo sendo mais sério que o primeiro filme, fica muuito leve depois da porrada que foi VINGADORES - GUERRA INFINITA. Mas tudo bem. Era pra ser assim mesmo. Só achei que o filme é rápido demais e acaba ficando raso. Nem sobra espaço para o romance do casal de protagonistas. Direção: Peyton Reed. Ano: 2018.

OS INCRÍVEIS 2 (Incredibles 2)

Beleza de aventura, que deixa no chão um monte de outros filmes de super-heróis em sua homenagem não só ao Quarteto Fantástico, mas aos filmes de espionagem e de ação dos anos 60, com um sabor retrô muito bom. A música do Michael Giacchino é ótima e conduz muito bem o filme. Legal também focar na Mulher Elástica como protagonista da ação fora de casa, enquanto o marido fica cuidando da casa e das crianças. Direção: Brad Bird. Ano: 2018.

POWER RANGERS

Quase que o diretor Dean Israelite consegue fazer um belo filme. O problema é mesmo a fonte. Não tinha como se afastar muito do original, e acho que ele até tenta, fazendo em boa parte da metragem uma história sobre a autodescoberta e a amizade de um grupo de adolescentes. E dá liga. Fica chato quando entram os monstros, a vilã etc. e o diretor parece não se interessar em fazer algo legal com isso. Ano: 2017.

quinta-feira, abril 04, 2019

ELEGIA DE UM CRIME

Há quem diga que Cristiano Burman, diretor de ELEGIA DE UM CRIME (2018), construiu sua obra (ou boa parte dela) em torno da morte de três familiares seus. Para quem não sabe, este novo trabalho é o terceiro da chamada trilogia do luto, que começou com os filmes CONSTRUÇÃO (2007), sobre a morte do pai do diretor, e MATARAM MEU IRMÃO (2013), de título autoexplicativo.

Como não cheguei a ver ainda os dois anteriores, só posso falar de ELEGIA DE UM CRIME, que considero um trabalho bem impactante e diria que bastante respeitoso no que se refere à figura da mãe. Pode haver algum oportunismo, mas a história das obras de arte é cheia desse tipo de situação, em que artistas procuram transformar uma tragédia ou uma dor em algo belo, transcendental.

ELEGIA DE UM CRIME traz à tona uma série de questionamentos, a partir da apresentação de familiares e da história que vai sendo construída da vida e da morte de Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo namorado, aos 52 anos de idade. O crime ocorreu em 2011 e Burlan volta a Uberlândia para conversar com os irmãos e também com outras pessoas próximas sobre fatos relativos à mãe.

E eis que no meio de tudo isso, uma revelação sobre o próprio diretor é feita: ele foi adotado. Isso pode trazer à tona alguns questionamentos a respeito da natureza do sangue como possível elemento de dádiva ou maldição para uma família. Afinal, Cristiano parece muito diferente dos outros dois irmãos, que enveredaram pelo crime e passaram pela prisão mais de uma vez.

Um dos irmãos, inclusive, é o personagem mais trágico da história, mostrando-se extremamente fragilizado, física e espiritualmente, e muito arrependido de tudo que fez na vida. Conta do preconceito que sofre por ter fama de ladrão, mas logo em seguida o diretor faz questão de mostrar que o mesmo rapaz cairia mais uma vez, como se roubar ou cometer um crime fosse uma doença, tanto quanto o alcoolismo ou o vício em outras drogas. Mas sabemos que as circunstâncias econômicas e sociais são também fundamentais para o que ocorre com essa família.

Mas, voltando à questão da adoção, o momento mais emocionante do filme é a conversa de Cristiano com a irmã, que diz já saber sobre ele ter sido adotado e até conta a comovente história de Isabel e o filho que nasceu morto. Daí ela ter compensado com uma criança adotada e até fantasiava um parto de Cristiano, como se para apagar a perda da criança que não sobreviveu.

E o curioso é que essas questões se mostram até mais intensas na estrutura dramática do filme do que a própria morte da mãe de Burlan, que é o motivo de o filme existir. De todo modo, a figura da mãe e as circunstâncias trágicas de sua morte fornecem muitos momentos fortes, como o descaso da polícia, coisa que já aparece desde o prólogo, com Cristiano ligando para a Polícia Militar de uma cidade informando o paradeiro do assassino e recebendo a resposta de que isso não é da alçada deles. Há também a visita à casa onde ocorreu o crime etc. Assim, se há oportunismo por parte do cineasta, o resultado do filme faz com que nos esqueçamos disso e nos solidarizemos com o drama daquela família.

+ TRÊS FILMES

O SILÊNCIO DOS OUTROS (El Silencio de Otros)

Filme importante para estes tempos de ascensão da extrema direita no mundo. O caso da Espanha tem semelhanças com o que ocorreu na América Latina e em outros países, com ditaduras sendo levantadas e patrocinadas pelos Estados Unidos para bloquear o comunismo e levando à morte e à tortura de muitos. No caso da Espanha, a situação foi bem complicada, pois a Lei da Anistia também perdoou aqueles que torturaram. O filme começa em 2010 e vai até 2017, acompanhando o drama de pessoas que buscam justiça.O final é emocionante. Na minha sessão, houve gritos de "Lula livre". Direção: Almudena Carracedo e Robert Bahar. Ano: 2018.

SEXO NOS QUADRINHOS (Sex in the Comix)

Belo documentário exibido na GNT sobre quadrinhos eróticos. Contém depoimentos de mestres da nona arte, como Milo Manara, Robert Crumb, Zep, Bastien Vivès, que eu nem sabia que tinha escrito erótico... E ainda tem uma apresentadora-quadrinista gatíssima (Molly Crabapple). Deu vontade de ler mais obras do gênero. Atualmente tenho achado que diminuiu bastante a publicação. Até Manara está saindo pouco. Direção: Joëlle Oosterlinck. Ano: 2012.

BERGMAN 100 ANOS (Bergman – A Year in the Life)

Uma beleza este documentário comemorativo de um dos maiores gênios do cinema mundial. O que me assustou foi o tanto de coisas com que eu me identifiquei com o atormentado Bergman. Pena que não tenho o talento nem a sorte com as mulheres, só as dores e as angústias. O formato é bem tradicional, com entrevistados e cenas dos filmes e relatos mais ou menos em ordem cronológica, mas funciona muito bem. Direção: Jane Magnusson. Ano: 2018.

segunda-feira, abril 01, 2019

UMA CANTA, A OUTRA NÃO (L'une Chante l'Autre Pas)

Como o blog anda meio parado e a última em vez que escrevi aqui foi para homenagear o cineasta Domingos de Oliveira, falecido recentemente, e como agora a homenagem é para outro cineasta que se foi para um novo plano astral, fica essa impressão de que esse espaço se transformou em um local de despedida de pessoas queridas e, no caso desses, em especial, também de lamento pelo fato de não ter visto os filmes que deveria. No caso de Agnès Varda, a situação ainda é pior para mim, levando em consideração que ela tem mais de 50 títulos na direção.

Figura importante na história do cinema francês e contemporânea da turma da Nouvelle Vague, ainda que pertencente a outro grupo, junto com o então marido Jacques Demy, Varda foi vítima do machismo que impera em nossa sociedade e que o cinema naturalmente assimilou. É por isso que atualmente tem se buscado uma maneira de diminuir essa diferença de louvação de diretores homens e mulheres, através do reconhecimento e descoberta do trabalho das grandes cineastas da história do cinema. E não há dúvidas de que Agnès Varda está entre as mais importantes do mundo.

Atuando por sete décadas, a cineasta que faleceu aos 90 anos no último dia 29, experimentou bastante, fazendo tanto ficção quanto documentário e sendo uma das pioneiras de um cinema essencialmente feminista. UMA CANTA, A OUTRA NÃO (1977), por exemplo, é um desses filmes em que esse tema se mostra poderoso.

Acompanhamos aqui a história da amizade entre duas mulheres de diferentes estilos de vida ao longo de quase duas décadas. Começando em 1962, a trama apresenta Pauline aka Pomme (Valérie Mairesse) e Suzanne (Thérèse Liotard) passando por pelo menos duas situações perturbadoras. Uma delas é o aborto da amiga mais velha, Suzanne, que, ao não ter condições financeiras de manter um terceiro filho, é encorajada pela jovem amiga de então 17 anos a fazer um aborto. A outra situação é ainda mais perturbadora, e embora seja algo que as una espiritualmente ainda mais, será o fator que as distanciará fisicamente.

Vivendo em cidades diferentes, Pomme e Suzanne se encontrarão novamente apenas 10 anos depois, durante uma manifestação a favor do aborto. A questão do direito de ter filhos quando desejar é tão importante na trama quanto a dádiva e a alegria de ser mãe. Assim, há momentos musicados no filme em que os dois temas são cantados. Inclusive, uma das cenas mais belas é a ida de um grupo de mulheres em um barco para uma clínica de aborto na Holanda.

É lá que Pomme passa a namorar um rapaz iraniano, Darius (Ali Rafie), que está passando alguns meses na Europa. Pomme gosta de cantar e participa de apresentações musicais. Quando a peça em que está participando não dá certo, ela aceita o convite de Darius de ir com ele até o Irã. Apaixonada, ela aceita a proposta. Enquanto isso, Suzanne se sente tentada a ter um relacionamento com mais um homem casado.

Um dos méritos do filme é contar a história dessas duas mulheres com idas e vindas no tempo de maneira muito hábil e estabelecendo uma proximidade com as personagens, através dos textos dos cartões postais usados para correspondência entre as duas. Assim, depois de um salto de 10 anos, o filme volta no tempo para contar o que aconteceu entre os anos de distância entre as duas protagonistas.

Embora tenha gostado mais de Suzanne , o filme dá mais destaque a Pomme , até por ela ter uma vida mais ativa, sem filhos para prendê-la ao lar durante mais tempo. Assim, enquanto Pomme é alegre e sempre disposta a aventuras, Suzanne tem um sorriso geralmente triste, talvez por carregar o trauma da morte do antigo companheiro, mas também por não ter muita sorte nos relacionamentos e na vida financeira.

Por mais que alguns cineastas homens tenham lidado muito bem com a alma feminina, como Bergman ou Cukor, ter uma cineasta mulher abordando assuntos da feminilidade com força e sensibilidade faz muita diferença. Além do mais, quem só conhece Varda do recente VISAGES, VILLAGES (2017), pode ver em ELA CANTA, A OUTRA NÃO um momento em que a diretora já gostava de filmar em viagens no interior não-atores participando das cenas. Não à toa, Varda é tão querida: ela expande o amor para além de suas personagens.

+ TRÊS FILMES

IMAGEM E PALAVRA (Le Livre d’Image)

Não deixa de ser uma experiência bem interessante poder ver uma colagem de imagens do Jean-Luc Godard em pleno 2019. Pena que as imagens são mostradas de maneira tão rápida e com um ruído tão incômodo que fica muito difícil de estabelecer conexões e entender os elos, de modo a buscar uma aproximação maior com a obra. Sabemos que Godard dificilmente é fácil e o filme é pra ser incômodo mesmo, mas poderia ao menos ter saído da sessão com certos questionamentos. Acabei saindo com sono mesmo. Ano: 2018.

NORMANDIA NUA (Normandie Nue)

O curioso deste filme, que lembra bastante o inglês OU TUDO OU NADA pela temática (mas sem a mesma graça, claro), é o quanto ele consegue ser careta. Talvez a intenção seja aproximar-se das pessoas do vilarejo, que ficam em polvorosa com a história da fotografia com todos nus. Não deixa de ser um filme simpático (o diretor é o mesmo do ótimo A VIAGEM DE MEU PAI), mas isso não é suficiente. Quando eu penso em cinema francês, jamais vou querer pensar nesse tipo de cinema. Direção: Philippe Le Guay. Ano: 2018.

O PARQUE (Le Parc)

É um filme que cresce à medida que pensamos nele. Muitas imagens ficam fortes na lembrança. Ele se constrói de maneira realista, como uma espécie de romance tímido entre dois jovens, mas depois vai ficando mais misterioso. Na trama, dois jovens se encontram pela primeira vez em um parque. Seria um encontro amoroso, mas um deles não se interessa tanto a ponto de querer um relacionamento. Grande filme. Direção: Damien Manivel. Ano: 2016.

quinta-feira, março 28, 2019

PAIXÃO E ACASO

A vida de cinéfilo só não deve ser tão angustiante quanto a vida de um bibliófilo, ou seja lá como se chamam os amantes de livros de literatura. Afinal, ler um romance, um livro de contos ou algo de outra natureza costuma levar bem mais tempo do que ver um filme, que em geral tem menos de duas horas de duração. Ainda assim, um cinéfilo, ainda mais aquele que vive atarefado com um trabalho que consome muito de seu tempo e de sua energia, acaba ficando angustiado com o fato de não conseguir preencher lacunas fundamentais, como a obra de cineastas importantes, tanto do Brasil quanto de outros países.

Escrevo isso lamentando o fato de não ter visto a grande maioria dos filmes de um cineasta de quem gosto muito e que, infelizmente, foi para outro plano nessa semana, o carioca Domingos de Oliveira, autor de clássicos como TODAS AS MULHERES DO MUNDO (1966) e EDU, CORAÇÃO DE OURO (1968). Uma pena que, mesmo com seu retorno às produções tão pessoais com AMORES (1998), seguindo a retomada do cinema brasileiro na década de 90, ele não tenha alcançado uma popularidade necessária para ter um reconhecimento de um público maior do que o pequeno círculo de cinéfilos que se importam com o cinema brasileiro de baixo orçamento. Em Fortaleza, por exemplo, o último filme dele que entrou em cartaz foi TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS (2008), e lá se vai uma década.

Assim, com a minha enorme lacuna, quis homenageá-lo vendo pelo menos um filme inédito seu. No caso, o que o destino reservou para mim foi PAIXÃO E ACASO (2012), o primeiro que completou o download, dentre os cinco que tentei pegar. Trata-se de um de seus trabalhos menores, com aquela cara de produção barata, mas feito com tanto carinho e esmero que fica difícil não se deliciar, até por ser do gênero comédia romântica intelectual.

No filme, Vanessa Gerbelli, luminosa, faz o papel de uma psicanalista que se apaixona primeiramente por um rapaz e depois pelo pai do rapaz. Isso depois de ter sido visitada pelo espírito de seu pai, que já lhe antecipara que seu período longe das paixões estaria prestes a ter um fim. De repente, ela se vê numa posição de não conseguir escolher apenas um dos homens e trata de organizar um horário de encontro com eles, adotando a mentira como rotina diária.

O filme começa com os créditos em tom apaixonado e um tanto exagerado e de cores fortes, lembrando um pouco Almodóvar, e trazendo a canção “A vida é confusão”, de Nico Nicolaiewsky, um belo exemplar de um romantismo que não tem medo de parecer cafona. A canção, aliás, retorna na narrativa em um dos momentos mais belos, que é o do beijo da protagonista com o rapaz, na livraria.

Se PAIXÃO E ACASO não tem o mesmo sabor de despedida ou de celebração à própria história do cineasta como o filme-testamento BR 716 (2016), traz uma ciranda de amores deliciosa e que é a cara de Oliveira, tão preocupado e interessado nas questões do coração. Viva Domingos de Oliveira e seu cinema do afeto!

+ TRÊS FILMES

SUEÑO FLORIANÓPOLIS

Muito boa esta comédia alto astral sobre família argentina passando férias em Florianópolis. Ver o filme é como se estivéssemos passando férias com eles e nos divertindo, embora eu preferisse que outros sentimentos além da alegria também fossem mais explorados, já que há muitas emoções em jogo nas cirandas amorosas. Direção: Ana Katz. Ano: 2018.

UM AMOR INESPERADO (El Amor Menos Pensado)

Nós, brasileiros, estamos precisando de um filme tão bom como esse e que atinja um grande público, junto. E com um casal tão bom quanto Ricardo Darín e Mercedes Morán. UM AMOR INESPERADO não é um filme que recusa o cafona: ele abraça, inclusive nas cores bem vivas e nas canções (tem uma canção brasileira que me deixou surpreso e emocionado!). Talvez falte um pouco mais de emoção no modo como nos pega na torcida pelo casal retornar, mas do jeito que ficou, um tanto assim contido, ficou muito bonito. E mal sentimos a duração, de tão interessados que ficamos na trajetória dos dois. Sem falar que há várias cenas bem engraçadas. Direção: Juan Vera. Ano: 2018.

EMMA E AS CORES DA VIDA (Il Colore Nascosto delle Cose)

Muito gratificante ver o cinema italiano se reerguendo em filmes pequenos e bonitos como esse, que pouca gente viu. Quase não li crítica ou repercussão a respeito, mesmo sendo de um diretor relativamente conhecido. Valeria Golino está muito boa e o sujeito que faz o rapaz mulherengo também é ótimo. Criativo e sensível o jogo de enquadramentos usando janelas diferentes, a partir do sentimento geral do filme. Direção: Silvio Soldini. Ano: 2017.

sexta-feira, março 22, 2019

MALIGNO (The Prodigy)

Os filmes de horror que têm chegado ao nosso circuito não têm passado exatamente por uma curadoria, por assim dizer. As distribuidoras em geral querem apenas jogar o produto para os fãs que costumam prestigiar o gênero, por pior que seja o material. Isso, com o tempo, acaba gerando uma falta de interesse até pelos próprios fãs, que se vêem entristecidos pela falta de qualidade dos filmes que chegam, dando até a impressão de que não há mais bons exemplares atualmente. O que depois se confirma como uma mentira, quando vemos várias listas de filmes do gênero e muitos dos melhores não têm a chance de chegar ao nosso circuito, e muitas vezes nem mesmo aos serviços de streaming.

Felizmente, MALIGNO (2019), do cineasta americano Nicholas McCarthy, é dessas gratas surpresas que encontramos. Um filme que funciona sem necessariamente procurar ser inovador ou algo do tipo. Ao contrário, ao acompanhar a história do garoto Miles sentimos até um sentimento de familiaridade com os filmes de horror produzidos nas décadas de 1960 a 1980. O enredo em si traz elementos que lembram filmes tão distintos quanto BRINQUEDO ASSASSINO e A ÓRFÃ.

Na trama, Taylor Schilling (da série ORANGE IS THE NEW BLACK) é Sarah Blume, uma jovem mulher que dá à luz uma criança que aos poucos vai se revelando um prodígio: com poucos meses já começa a falar e logo cedo é enviado para uma escola de crianças superdotadas. Mas há algo de errado com o pequeno Miles (Jackson Robert Scott, de IT - A COISA): aos poucos ele passa a manifestar uma maldade pouco comum até para crianças perversas de sua idade.

Um dos méritos do filme é conseguir criar uma atmosfera de terror e medo crescente. Uma vez que se descobre que o corpo do garoto está coabitado pelo espírito de um homem muito perigoso, e experienciamos momentos de puro medo em certas cenas envolvendo imagens do tal homem, rapidamente nos vemos envolvidos pelo drama daquela mãe. O pai também é importante para a trama, mas ele a princípio não acredita na teoria de que o espírito do garoto está duelando com o espírito do psicopata.

Soltando alguns alguns spoilers aqui: o que dizer da cena em que Sarah está sozinha na cama e o pequeno Miles pede para dormir com ela? De arrepiar! E a cena da hipnose, da batalha entre o garoto e o homem que descobriu seu segredo? E a ida de Sarah até a casa da última vítima do assassino serial? São apenas algumas, mas talvez as mais marcantes desse filme tão bem conduzido e tão envolvente que é uma pena que não esteja recebendo o devido mérito.

Quem sabe no futuro MALIGNO seja lembrado como uma das melhores obras do gênero de nosso tempo. Mas isso só o futuro irá dizer. No mais, não custa dar uma espiada nos longas anteriores de McCarthy: PESADELOS DO PASSADO (2012) e NA PORTA DO DIABO (2014).

+ TRÊS FILMES

NÃO OLHE (Look Away)

É um filme que se beneficiaria de um olhar mais crítico do próprio realizador para aproveitar melhor as boas ideias e não tropeçar no andamento. O que poderia ser um filme bem eficiente sobre a insegurança de uma adolescente, acaba ganhando contornos meio bobos quando se assume como filme de terror teen. Isso, depois de ganhar uma audiência de filmes menos convencionais, por causa de seu andamento mais lento e da elegância dos planos. Aí põe tudo a perder no final. Há uma cena de sexo que poderia ser ótima se o filme não insistisse em mostrar a personagem alterada como uma vilã qualquer com o uso de uma música de mistério. Se deixassem um tom mais dúbio seria tão melhor. Há também momentos em que os excessos nos distanciam do filme, como as maldades de um garoto da escola em relação à protagonista. Direção: Assaf Bernstein. Ano: 2018.

A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2 (Happy Death Day 2U)

Com essa onda de reciclagens de FEITIÇO DO TEMPO (a última foi a série BONECA RUSSA), perde até a graça ver essas novas produções que brincam com esse negócio de reviver o mesmo dia. A diferença deste aqui em relação ao primeiro é que agora entra a noção de multiverso, como em DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II. Alguns momentos engraçados e divertidos, mas, no geral, bem sem-graça. E a parte dramática, não sei se chega a comover alguém da audiência. Direção: Christopher Landon. Ano: 2019.

A MALDIÇÃO DA FREIRA (The Devil's Doorway)

O problema nem é os filmes de found footage já estarem fora de moda e terem se esgotado nas ideias. O problema é que mesmo se fosse novidade esse recurso, este A MALDIÇÃO DA FREIRA não tinha ser como ser considerado ao menos razoável. E que idiotice colocar trilha sonora em material supostamente encontrado nos anos 60? O filme piora ainda mais quando se aproxima do final, quando já não ligamos mais em saber as origens das estátuas chorando sangue ou coisa do tipo. Direção: Aislinn Clarke. Ano: 2018.

quinta-feira, março 21, 2019

15 CURTAS BRASILEIROS

O ÁTOMO BRINCALHÃO

Confesso que tenho dificuldade de falar sobre obras assim mais experimentais, que não tem exatamente um fio de narrativa ou algo próximo disso. No caso, o que conta mais para mim é a história do curta. O diretor desenhou no intervalo de três anos este curta de quatro minutos nos próprios fotogramas. Acredito que numa revisão abstrações possam vir à mente. Direção: Roberto Miller. Ano: 1964.

AMOR SÓ DE MÃE

Na revisão, AMOR SÓ DE MÃE se mostrou ainda mais intenso e perturbador. Talvez por ver em uma televisão maior, mas diria que é mérito do filme mesmo, que se mantém forte passados alguns anos de sua realização. Na trama, homem é desafiado por uma prostituta a deixar sua mãe e ir embora com ela do povoado. Acontece que as coisas são muito mais mórbidas e macabras do que isso. As cenas de possessão são impressionantes. Um dos melhores filmes de terror já feitos no Brasil. Direção: Dennison Ramalho. Ano: 2003.

À MEIA NOITE COM GLAUBER ROCHA

Filme de colagem com a intenção de homenagear poeticamente não apenas Glauber Rocha, mas também Hélio Oiticica, Torquato Neto e outros. Cenas não apenas do Cinema Novo e dos filmes de Glauber especificamente, mas também do cinema marginal, do tropicalismo e até de obras estrangeiras. Há falas de Glauber tomando para si a fundação do Cinema Novo e elevando o cinema como a mais importante das artes. Em outro momento, ele lamenta a pobreza cultural brasileira. Direção: Ivan Cardoso. Ano: 1997.

ALMA NO OLHO

Ao mesmo tempo que se mostra uma louvação do corpo e do espírito do negro, também traz a questão da chegada no negro à cultura ocidental e no quanto isso pode representar uma volta às correntes do tempo da escravidão. Parece mais uma performance de teatro, mas, por outro lado, em um teatro não seria possível haver os cortes que no cinema tem das imagens, tanto dos closes quanto das mudanças de figurino. A música-tema é de Coltrane, homenageado explicitamente no início do filme, embora as batidas sejam bem brasileiras. Direção: Zózimo Bulbul. Ano: 1974.

AMOR!

Já tinha visto esse curta na TV (ou em VHS, talvez). Acho que talvez tenha envelhecido um pouco. Na época me parecia mais esperto, mais ácido e mais engraçado. Mas ainda é bem divertido. E as mudanças de narrações, da voz do Paulo José para a do Pereio, funcionam que é uma beleza. Até podia dizer que é um filme sem esperança, se o próprio filme parecesse se levar a sério. Acho que não é o caso. Direção: José Roberto Torero. Ano: 1994.

ANIMANDO

Teria curtido mais se fosse de menor duração. É um trabalho admirável de brincar de Deus com um pequeno boneco usando inteligentemente os recursos da animação. Dar um pouco de consciência para sua criação é o melhor momento do filme, quando o boneco se rebela com as cores/roupas que lhe são dadas/pintadas. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1987.

UM APÓLOGO

Um dos mais famosos contos de Machado de Assis (até as crianças o conhecem), Um Apólogo ganha uma simpática adaptação para o cinema por um de nosso pioneiros mestres. O filme tem um sabor de tesouro arqueológico pela época em que foi realizado e por parecer velho mesmo, mas justamente por isso que ganha força e até os efeitos especiais parecem muito bons. O começo, falando sobre Machado de Assis e um pouco de sua obra, dá um ar de curta-metragem feito para alguma televisão educativa governamental, embora na época ainda não existisse televisão. Direção: Humberto Mauro. Ano: 1939.

ARRAIAL DO CABO

O que mais me chamou a atenção neste curta de Saraceni e Carneiro foi o quanto as imagens mostradas na tela parecem distantes das de hoje, de nossa realidade. Talvez pelo fato de terem pegado uma humilde vila de pescadores. Aí passa-se a impressão de que um cinema feito no começo dos anos 60 parece mais primitivo do que os trabalhos de Humberto Mauro dos anos 30. O bom é que a narrativa é dispensada rapidamente e as imagens se detêm nos pescadores, muitas vezes flagrados contra a luz do sol. A música ajuda a dar um ar mais lírico. Ainda assim me incomodou o meu distanciamento a uma obra tão incensada e importante dentro da história do cinema brasileiro. Direção: Mario Carneiro e Paulo Cezar Saraceni. Ano: 1960.

ARUANDA

Uma espécie de pai de VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos, ARUANDA é pioneiro em mostrar o povo preto e pobre do sertão nordestino, do jeito que eles são de fato. E não deixa de ser impressionante para nós, criados em cidade grande, ver o modo de vida e de sobrevivência de quem tem que se virar com o que tem, ou seja, o barro, a água barrenta e os galhos secos para fazerem tanto os potes quanto a própria casa. Uma longa jornada da escravidão até a vida de pequenos proprietários de terra na sertão. Direção: Linduarte Noronha. Ano: 1960.

DIVERSÕES SOLITÁRIAS

O ponto de vista de uma pessoa que se diverte na solidão, embora aparentemente muito feliz com seu walkman, passeando nas ruas e ouvindo um bom rock. A cidade de São Paulo é um personagem na história que praticamente só conta com um protagonista e umas duas coadjuvantes que o abordam em dois momentos distintos. Há uma espécie de crítica àqueles que condenam os que consomem cultura pop estrangeira. Direção: Wilson Barros. Ano: 1983.

A PASSAGEM DO COMETA

Cada novo filme de Juliana Rojas é uma alegria, pois todos os seus trabalhos são no mínimo ótimos. Agora, então, que já tem longas premiados e devidamente louvados, está no domínio ainda maior de seu trabalho. Aqui ela conta a história de uma jovem que vai fazer um aborto na época em que o cometa Haley está passando. É gostoso de ver e um tanto enigmático. Ano: 2017. (foto)

NOTURNO

Não me sinto apto para analisar animações mais abstratas e que principalmente foram produzidas em uma outra época, em que esse tipo de produção era mais raro no Brasil, era um feito de fato heroico. Este pequeno e belo curta de Aída Queiroz se encaixa nesse quesito. O filme ficou na posição de número 57 da lista das melhores animações segundo a Abraccine. Ano: 1986.

O PROJETO DO MEU PAI

Que desenho lindo! Encanta já desde o começo, quando a diretora/narradora conta sobre como era sua família quando ela era pequena e como ela os desenhava, com os tradicionais bonecos-palito. A questão da ausência do pai dói um pouco no tom agridoce do filme e se torna ainda mais forte nas emoções quando a narradora-personagem reencontra o pai quando adulta. De dar uma leve dor no peito. Direção: Rosaria. Ano: 2016.

O VIOLEIRO FANTASMA

Um filme que mistura elementos da cultura nordestina, como o cantador de repente, com coisas da cultura mexicana, como o culto aos mortos, e até a coisas relativas à cultura japonesa (pelo que eu entendi ou remeti), nas cenas em que o filme ganha ares de sonho, com cabeças voadoras e coisas parecidas. Só faltou eu me conectar mais com o trabalho, mesmo gostando muito do visual, das cores etc. Direção: Wesley Rodrigues. Ano: 2017.

MENINA DA CHUVA

Outra belezura de trabalho de Rosaria, que dessa vez trata da solidão através do drama de uma garotinha de cor roxa que não encontra inclusão entre as meninas da sua idade nem entre os adultos. Quem tem uma relação mais forte com a solidão é fácil entrar em sintonia tanto com o filme quanto com a personagem, no sentido de que é possível trafegar por momentos de tristeza e por outros de satisfação, mesmo sozinha, como na bela cena da chuva. Há também uma valorização da visualização da vida cotidiana como elemento de graça para a vida a sós. Ano: 2010.

terça-feira, março 19, 2019

A MENINA DO LADO

Um dos filmes marcantes do início de minha cinefilia foi este A MENINA DO LADO (1987), de Alberto Salvá (embora só tenha visto na televisão). Hoje eu vejo que nem é a grande história de amor contada pelo diretor catalão naturalizado brasileiro. Sua obra-prima e seu filme-testamento, NA CARNE E NA ALMA (2012), tem muito mais impacto emocional, embora seja quase invisível para o grande público. Já A MENINA DO LADO, por outro lado, até por causa das polêmicas na época (se fossem nos dias de hoje o diretor seria apedrejado), ganhou uma fama enorme.

Vencedor de dois prêmios em Gramado, um para Reginaldo Faria e outro para a jovem atriz revelação Flávia Monteiro, o filme conta a história de amor entre uma adolescente que passa uns dias em uma casa de praia sozinha e um jornalista, um homem de meia-idade, que também passava os dias sozinho na casa ao lado, a fim de escrever um livro. A MENINA DO LADO trata de mostrar muito bem os contrastes entre a energia e o modo de ver a vida dos dois personagens.

Como se trata de um filme sem voice over, complementamos a interpretação de Faria com nosso próprio modo de ver aquela jovem doce que age com tanta naturalidade que parece impossível não se encantar, mesmo que de modo distante, ainda mais diante do aspecto proibido da relação. Assim, o personagem de Faria não é pintado como um tarado ou algo do tipo. Ao contrário, o sentimento que ele cria pela garota é de fato uma paixão intensa, paixão que pode ser muito bem compartilhada pelo espectador, causando alguma idenfiticação.

Em entrevista para o site Devo Tudo ao Cinema, a amiga e companheira de Salvá, Olga Pereira Costa, conta que o processo criativo do diretor era muito de cortar e colar experiências da vida dele e de seus amigos. Ele era um sujeito muito observador e a vida era a principal fonte de inspiração para a criação dessas obras. No caso de A MENINA DO LADO, trata-se da adaptação do conto "Alice", de sua própria autoria, que o cineasta escreveu para a revista Status, para a seção Contos Eróticos. O conto foi premiado, e ele resolveu transformar em roteiro e filme.

Flávia Monteiro nunca tinha feito cinema na vida e foi escolhida logo no teste, que consistia apenas em passar batom em frente ao espelho. Assim que a viu, Salvá logo disse para a equipe: "temos a nossa Alice!". E de fato Flávia se materializou em Alice. O conto, não sei se é fácil de conseguir ver, mas creio que se pegarmos para ler, o rosto da jovem atriz aparecerá facilmente em nossa mente. Uma pena que o diretor passou tanto tempo para realizar o seu longa-metragem seguinte, justamente o seu último.

+ TRÊS FILMES

FULANINHA

Delícia de filme do David Neves, grande cronista da vida no Rio de Janeiro. Aqui achei que o filme ia caminhar pela obsessão do personagem de Marzo pela ninfeta, que é realmente linda, mas FULANINHA acaba seguindo por outros caminhos e também enriquecendo sua fauna de personagens interessantes e simpáticos. A moça que faz a personagem-título, Mariana de Moraes, bem que podia ter feito mais sucesso. Um achado de linda. Ela tinha 17 anos na época do filme, mas sua personagem tem 14. Pela idade, não sei se cenas de nudez são proibidas hoje no ECA, ou apenas se houver algo mais apimentado. Se for proibido, é bem possível que este filme nunca ganhe uma cópia remasterizada. Ano: 1986.

RIO BABILÔNIA

Vi a famosa cópia sem cortes de RIO BABILÔNIA. Ao que parece passou nos cinemas com cortes e também quando exibida na TV paga. De ousadia temos membros masculinos eretos e em uma cena dá impressão de que houve penetração (logo na cena com a Denise Dumont!). O filme parece sofrer de uma falta de lugar para ir, mas há vários momentos muito bons e às vezes dá para rir das festas de suruba. Ainda assim, acho que a cena mais bonita plasticamente é a com a Christiane Torloni em cena de sexo suave com o Joel Barcelos. No mais, não deixa de ser curioso ver Jardel Filho no meio de tanta putaria. Mas é uma putaria que não chega a excitar mais, acredito eu. Não como nos melhores filmes da Boca do Lixo, por exemplo. Mas o cinema carioca tinha as suas vantagens, como encher o elenco de atores famosos e ter um trabalho de som muito melhor. Um luxo. Direção: Neville d'Almeida. Ano: 1982.

KARINA, OBJETO DE PRAZER

No mesmo ano da obra-prima TCHAU AMOR (1982), Jean Garrett fez esta outra parceria com a atriz Angelina Muniz. Aí é um drama muito mais carregado de erotismo, desses de dar gosto mesmo. A cena de Karina fazendo sexo com o sujeito que ela conhece no cassino é uma das melhores que eu já vi no cinema brasileiro. Aliás, o filme já começa com um caprichadíssimo striptease da protagonista. Mas pra não dizer que o filme é machista, a trama e a moral da história é justamente o contrário: Garrett fez um belo drama feminista. Ano: 1982.

quinta-feira, março 07, 2019

CAPITÃ MARVEL (Captain Marvel)

Curioso como, mesmo tendo uma longevidade e um vigor tão grandes, a Marvel ainda não tinha uma heroína solo que rivalizasse com a Mulher Maravilha, da DC Comics. Isso levando em consideração tanto a popularidade quanto o poderio da personagem. Tanto que muitos cobravam um filme-solo de uma heroína feminina, que poderia muito bem ser da Viúva Negra, já que era uma personagem já apresentada e muito interessante. No entanto, os pensadores do Universo Cinematográfico Marvel sabem o que fazem e precisavam de alguém que fizesse um link com as histórias épicas e estelares que culminariam em VINGADORES - ULTIMATO, o filme que fechará a terceira e mais bem-sucedida fase do estúdio.

Daí tirar da manga Carol Danvers, personagem que ganhou força novamente nos anos 2000, graças à sua importância nas populares histórias dos Vingadores escritas por Brian Michael Bendis. Isso, ainda sob o nome de Miss Marvel. No entanto, por mais que fosse uma personagem querida pelo roteirista e por muitos leitores, Miss Marvel ainda não tinha uma base sólida, uma história que a tornasse tão humana quanto os melhores e mais populares heróis da Marvel. A chamada "Casa das Ideias", inclusive, se caracteriza justamente por dar esse trato mais humano a seus heróis.

A personagem passou por uma mudança drástica em 2012, quando passou a adotar a alcunha de Capitã Marvel e deixar de lado o maiô sexy e usar uma vestimenta mais compatível com os dias atuais, de menor objetificação do corpo feminino nas HQs. Assim, mesmo forçando um pouco a barra, os estúdios Marvel trazem a heroína para o universo já estabelecido e justo para um momento anterior a quase tudo que foi mostrado até então, já que a trama se passa nos anos 1990. Aliás, quem curte a década, vai se deliciar não apenas com as canções que aparecem no filme, mas também com imagens queridas daqueles anos, como a capa de Mellon Collie and the Infinite Sadness, álbum dos Smashing Pumpkins, ou um cartaz de TRUE LIES, de James Cameron.

Para quem é fã dos quadrinhos há uma boa quantidade de personagens conhecidos em CAPITÃ MARVEL (2019), a começar pelos skrulls, a raça transmorfa verde e de queixo enrugado que costuma aparecer com mais frequência nas histórias dos Vingadores. Dos personagens já estabelecidos, apenas Nick Fury (Samuel L. Jackson) surge, ainda sem o tapa-olho, e o jovem Agente Coulson (Clark Gregg), ambos da S.H.I.E.L.D. Eles surgem quando a Capitã Marvel (Brie Larson), então chamada pela raça kree de Vers, cai no planeta Terra, dentro de uma videolocadora. A bela loira estava naquele lugar estranho também para descobrir muito de si mesma, já que havia memórias intensas, mas bastante confusas, de uma vida naquele mundo de tecnologia inferior.

Embora o filme dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck (de SE ENLOUQUECER, NÃO SE APAIXONE, 2010) tropece quando parte para a ação (que parece não ser a praia dos diretores), não estamos diante de um filme aborrecido. Talvez justamente por suas falhas e por conter elementos novos (como o gato alienígena, por exemplo), CAPITÃ MARVEL mantém o interesse. Até porque, em determinados momentos, a produção remete a ficções científicas dos tempos em que o gênero era sinônimo de filmes camp de baixo orçamento, principalmente nas cenas em que Jude Law aparece, seja no início, seja perto do final.

Em comparação com vários outros filmes do universo Marvel, CAPITÃ MARVEL é um dos mais modestos em se tratando de elenco estelar. Até porque a intenção aqui é preparar terreno para a conclusão do épico dos Vingadores e introduzir a personagem na próxima aventura. Por mais que ainda seja uma heroína com pouca personalidade (não se sabe quase nada sobre quem ela foi, na verdade), o filme trata de fazê-la brilhar o suficiente para mostrar que Brie Larson tem mais carisma do que se dizia dela, além de ter sido uma bela escolha para vestir o manto da heroína mais poderosa da Casa das Ideias. Que venha novamente Thanos e os Vingadores.

+ TRÊS FILMES

ANIMAIS FANTÁSTICOS - OS CRIMES DE GRINDELWALD (Fantastic Beasts - The Crimes of Grindelwald)

Que filme chato! Claro que quem se envolve com o universo de Harry Potter vai achar interessante. Ou não. O fato é que em nenhum momento me envolvi com nada dos personagens. Nem mesmo o charme de Katherine Waterston. Não digo que não haja nada de interessante, e não há como negar a beleza da direção de arte, mas isso não pode ser tudo num filme. E mais uma trilha sonora óbvia e tramas de família que parecem saídas de novelas das nove. Aproveitem as próximas três continuações. Estou fora. Direção: David Yates. Ano: 2018.

BUMBLEBEE

Só pelas críticas positivas que resolvi dar uma chance a esse spin-off de TRANSFORMERS. Não gosto nada dos filmes desses brinquedos. Mas é difícil não simpatizar com uma heroína vivida pela Hailee Steinfeld. E também quando o filme já começa a sua sucessão de canções dos anos 80 com "Bigmouth strikes again", dos Smiths, dá para ficar animado de cara. Só acho meio chato quando tem a briga dos robozões, e parece que o próprio diretor também não se entusiasma, pois o foco acaba sendo o sentimento de amor entre a protagonista e o Bumblebee. Confesso que queria ter gostado mais, mas já está bom demais o saldo para um filme da franquia. Direção: Travis Knight. Ano: 2018.

ALITA - ANJO DE COMBATE (Alita - Battle Angel)

Comecei a gostar do filme em sua terça parte final, talvez por começar a perceber um pouco da característica trágica da personagem e da trama. Mas Robert Rodriguez é o tipo de diretor que quase sempre deixa a gente na mão, com um produto torto e desleixado. Esse aqui, como é produção do James Cameron, parece um pouco mais caprichado, mas a falta de interesse pelos personagens logo entrega que há algo errado ali. Não conhecia o material original. Ano: 2019.

quarta-feira, março 06, 2019

OITO CURTAS CEARENSES

VANGO VULGO VEDITA

Acho sempre interessantes os filmes com a assinatura do Leonardo Mouramateus. E há coisas que eu gosto muito e outras que não gosto nem tanto, mas mesmo essas coisas (como a briga dos meninos etc.) são recorrentes e a cara do diretor. Gosto da liberdade e da alegria da cena na praia, e de como isso é quebrado. Direção: Andréia Pires e Leonardo Mouramateus. Ano: 2017.

A CANÇÃO DE ALICE

Um filme cuja primeira coisa que chama a atenção é a fotografia, de uma beleza impressionante. Petrus Cariry é um de nossos melhores fotógrafos de cinema, sem dúvida. Depois tem o destaque para o lirismo das falas, do sentimento de saudade, da expressão no rosto da personagem da avó/mãe, de suas recordações. E tem o mar pontuando as emoções. Muito bonito. Direção: Barbara Cariry. Ano: 2018. (Foto)

BOCA DE LOBA

É um filme que se beneficiaria de uma revisão para poder captar melhor o que ele quer dizer com seus simbolismos e suas imagens justapostas a uma narração em voice over que não parece ter estreita relação com o que é mostrado nas cenas. Destaque para o centro de Fortaleza de madrugada, sendo explorado em toda sua glória. Ou falta de. Direção: Bárbara Cabeça. Ano: 2018.

CARTUCHOS DE SUPER NINTENDO EM ANÉIS DE SATURNO

Tenho um pouco de resistência a filmes brasileiros que utilizam a ficção científica para tratar de seus temas. Mas é interessante que este filme do Leon Reis impressiona no quesito qualidade dos efeitos. E ainda manda uma mensagem, um tanto cifrada, sobre a questão do preconceito. Direção: Leon Reis. Ano: 2018.

NEGO TEM QUE SE VIRAR

Como uma espécie de elogio à maconha e ao modo de vida mais, digamos, marginal, o filme também tem um aspecto bem desapegado às regras mais clássicas. "Cinema é charlação", aparece em determinado momento. Interessante que não tem cara de filme que quer pregar as suas verdades ao público. Direção: Mike Dutra. Ano: 2018.

PONTE VELHA

Descrito a princípio como um documentário, Ponte Velha vai aos poucos se desconstruindo. Até flerta com algum didatismo, ao mostrar uma foto de 1929 da ponte e dar algumas explicações da Fortaleza da Bélle Époque, mas depois entra numas de fantasia para depois voltar a um registro bem pessoal. Parece tatear o seu caminho o tempo todo. E isso é interessante. Direção: Victor de Melo. Ano: 2018.

SUDESTINOS

Que filme bonito e emocional. A ideia de pegar depoimentos de pessoas em um trajeto que sai de São Paulo até Fortaleza por si só já é muito boa. E o resultado acaba sendo muito positivo, pois muitos dos depoimentos são belos e emocionantes. É o caso de pensar no quanto é um universo a vida de cada um. A opção pelo preto e branco foi feliz. Direção: Germano de Sousa. Ano: 2018.

TETO

Um trabalho que privilegia o som de maneira impressionante. Em certos momentos, lembra David Lynch com o uso do som e também com o uso de uma câmera que parece estar em estado de vigília perigosa. Há também um cuidado com as texturas nas cores que impressiona. Seria interessante ver um longa do diretor. Direção: Darwin Marinho. Ano: 2018.

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

OSCAR 2019

Para um Oscar com poucos indicados ótimos dentre os oito da categoria principal, até que a festa se mostrou boa, com alguns momentos memoráveis, como a premiação a Spike Lee pelo excelente INFILTRADO NA KLAN. Ainda que tenha sido na categoria de roteiro adaptado, a alegria foi muito maior, com Lee subindo nos braços do amigo Samuel L. Jackson. A comemoração foi muito maior do que quando Alfonso Cuarón subiu para receber a estatueta de melhor direção por ROMA. Sem falar que o discurso de Lee foi o melhor da noite, metendo o dedo na ferida sem dó.

Outro momento muito bonito, talvez o mais bonito da noite, foi a apresentação de "Shallow", cantada por Lady Gaga e Bradley Cooper, de forma comovente e bem destacada das demais canções que disputadas. A cantora e Cooper não saíram de trás do palco, nem tiveram seus nomes chamados por alguém. Já começou daí a diferença. O prêmio já era garantido.

Falando em música, se na edição deste ano não tivemos um host, ao menos a festa começou ao som de Queen, com Adam Lambert substituindo Freddie Mercury, como foi quando a banda se apresentou na edição do Rock in Rio de 2015. Pena que foi muito rápido, apenas versões compactas de duas canções muito famosas ("We will rock you" e "We are the champions"). Ainda assim, o suficiente para alegrar a audiência presente e dar uma pontada de inveja de quem só viu pela televisão.

Do ponto de vista político, foi um Oscar bastante misto e muito interessado em tratar das questões raciais. Três dos oito filmes tratavam do assunto, cada um à sua maneira: PANTERA NEGRA, INFILTRADO NA KLAN e GREEN BOOK - O GUIA. E três também tratavam de relações homoafetivas: BOHEMIAN RHAPSODY, GREEN BOOK - O GUIA e A FAVORITA. E dois filmes tratam da conjuntura política do passado para falar do presente: INFILTRADO NA KLAN e VICE.

E não devemos esquecer de ROMA, que também tem tudo a ver com esse momento atual, de construção de pontes para "proteger" os americanos dos imigrantes. Quando Javier Bardem subiu ao palco para dar o prêmio de filme estrangeiro para Cuarón isso ficou muito claro. Além do mais, em determinado momento, Barbra Streisand, ao falar de Spike Lee e de INFILTRADO NA KLAN, disse "A verdade é muito importante nos dias de hoje." A gente aqui do Brasil sente na pele isso também.

No terreno das premiações, além do Oscar para Spike Lee, também foi uma surpresa boa a premiação de melhor atriz para Olivia Colman, o único Oscar para A FAVORITA. Tudo bem que o mais justo seria premiar as três atrizes do filme, já que as três são protagonistas, mas na falta dessa opção, muito melhor dar um prêmio de um trabalho ótimo de uma atriz do que um prêmio pelo "conjunto da obra" para um filme morno como A ESPOSA, o então favorito a ganhar na categoria. Foi tão surpreendente que nem Colman nem Glenn Close acreditaram.

Outra zebra da noite foi o prêmio de melhores efeitos visuais para O PRIMEIRO HOMEM, que desbancou o favorito, o épico da Marvel/Disney VINGADORES - GUERRA INFINITA. A Disney também perdeu na categoria de animação para a animação da Sony HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que já era a favorita na categoria e de fato apresenta algo novo.

E é isso. Para quem reclamava do Oscar so white, tivemos até o momento a premiação com o maior número de Oscars para atores e técnicos negros em muito tempo. Sem falar nos prêmios para ROMA (se bem que no fim das contas, Cuarón foi quem subiu ao palco as três vezes, já que a direção de fotografia também era dele).

Uma pena, porém, que a Academia resolveu premiar como melhor filme uma obra tão ultrapassada como GREEN BOOK - O GUIA, uma versão pouco inteligente e muito demasiadamente pacificadora da questão racial. Depois de alguns prêmios acertados, ver a equipe do filme de Peter Farrelly subindo ao palco deixou um amargo na boca. Talvez, afinal, fosse querer demais da Academia uma postura ao mesmo tempo progressista e revolucionária. Raramente isso é possível.

Os Premiados

Melhor Filme – GREEN BOOK - O GUIA
Direção – Alfonso Cuarón (ROMA)
Ator – Rami Malek (BOHEMIAN RHAPSODY)
Atriz – Olivia Colman (A FAVORITA)
Ator Coadjuvante – Mahershala Ali (GREEN BOOK - O GUIA)
Atriz Coadjuvante –Regina King (SE A RUA BEALE FALASSE)
Roteiro Original – GREEN BOOK - O GUIA
Roteiro Adaptado – INFILTRADO NA KLAN
Fotografia – ROMA Montagem – BOHEMIAN RHAPSODY
Trilha Sonora Original – PANTERA NEGRA
Canção Original - "Shallow", de NASCE UMA ESTRELA
Mixagem de Som – BOHEMIAN RHAPSODY
Edição de Som – BOHEMIAN RHAPSODY
Efeitos Visuais – O PRIMEIRO HOMEM
Design de produção – PANTERA NEGRA
Figurino – PANTERA NEGRA
Maquiagem e cabelos – VICE
Filme Estrangeiro – ROMA (México)
Longa de Animação – HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Curta de Animação – BAO
Curta-metragem – SKIN
Documentário – FREE SOLO Curta Documentário – ABSORVENDO O TABU

segunda-feira, fevereiro 18, 2019

O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE? (Cosa Avete Fatto a Solange?)


Acabei esbarrando neste giallo porque no box da Versátil que eu comprei tem uma espécie de continuação do filme. Aí resolvi ver primeiro este aqui. Qual não foi minha surpresa quando me deparo com o melhor exemplar do gênero que eu já vi. Talvez melhor até que os filmes do Argento e do Bava, mas teria que rever vários para ter certeza.

É o tipo de filme que conquista o espectador desde a cena inicial, com o professor e a aula em um rio, namorando, quando acontece um assassinato. Depois disso, há todo um mistério em torno de mais mortes que surgem. O filme tem um visual lindo, um andamento narrativo de dar gosto, um pouco de sexo e violência e muitos elementos clássicos dos gialli - o assasino de luvas pretas, o seu ponto de vista.

O diretor é Massimo Dallamano, que tem um currículo maior como diretor de fotografia e assumiu a carreira de cineasta já na virada dos anos 50 para 60, tendo feito tanto spaghetti westerns quanto dramas eróticos, filmes de horror e comédias. Mas o que marcou mesmo sua carreira foram os gialli, sendo O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE? (1972) o seu trabalho mais festejado, presente em várias listas de melhores filmes do gênero de todos os tempos.

Eu confesso que não sabia da fama desta obra e estava um tanto afastado do cinema de gênero italiano. Nem sei dizer o motivo. O fato é que atualmente estou passando por uma fase de revalorização das obras italianas que possuem um toque pulp – tanto é que estou adorando os fumetti de Dylan Dog e sentindo mais vontade de ler mais coisas parecidas também.

Os italianos têm (e nas décadas de 60 e 70 eram especialmente ótimos nisso) uma capacidade impressionante de pegar criações de outros países e transformar em algo diferente e envolvente, ainda que com um leve toque de imitação. No caso dos filmes policiais, a atração que eles têm por países de língua inglesa é algo que já deve ter sido objeto de estudo por muitos acadêmicos. Afinal, por que motivo a história teria que se passar na Inglaterra e não na Itália? De todo modo, eles tinham um fino faro para negócios e sabiam que o mercado era mais receptivo para obras de gênero saídas dos Estados Unidos e da Inglaterra. Por isso, as dublagens em inglês eram tão populares no mercado internacional.

Hoje em dia, porém, há uma preferência pelo áudio em italiano pelos aficionados pelos gialli e filmes de horror produzidos na Itália. Há um encanto todo particular que essas produções provocam. No caso de O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, temos uma narrativa envolvente do início ao fim. O que é admirável, levando em consideração os caminhos que a obra percorre, dando a imaginar que alguma coisa vai sair muito errado no filme a qualquer momento, levando em consideração a trama em que não se sabe quem é o assassino de luvas pretas que mata as mulheres com uma facada na genitália.

Para nossa alegria, Massimo Dallamano conduz de maneira magistral a narrativa, brincando com as expectativas do espectador, tanto em relação a Elizabeth, personagem vivida pela bela e jovem espanhola Cristina Galbó, quanto pela introdução da personagem Solange, do título. Há que se destacar também a força do protagonista, vivido pelo italiano Fabio Testi. Ele faz o papel do professor de Educação Física casado que tem um caso com uma de suas alunas. A personagem da esposa, interpretada pela alemã Karin Baal, também tem uma importância fundamental no enredo, e há uma reviravolta interessante na personagem.

O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE faz parte de uma trilogia inacabada de Dallamano sobre jovens estudantes em perigo. O segundo filme foi O QUE ELES FIZERAM A SUAS FILHAS? (1974), também presente em um dos boxes da Versátil. Infelizmente, o diretor morreu em 1976, antes de completar a trilogia.

+ TRÊS FILMES

ESCAPE ROOM

Um filme que tem os seus méritos, principalmente antes de chegar à sua conclusão. Até então funciona como boa distração. Mas depois bate até saudade de O ALBERGUE e JOGOS MORTAIS, já que segue-se a mesma linha, só que sem o gore e os excessos, que se tornaram coisa de mau gosto nos dias atuais. Mas até que eu me divertia. Foi bom também para rever Deborah Ann Woll, a melhor personagem de TRUE BLOOD. Direção: Adam Robitel. Ano: 2019.

O TERCEIRO ASSASSINATO (Sandome No Satsujin)

Hirokazu Koreeda se sai muito melhor quando trata de dramas familiares. Aqui ele trata de uma investigação sobre um assassinato. Em alguns momentos do filme eu fiquei um tanto desinteressado ou pensando em outras coisas. O que eu vejo como um problema (meu em relação ao filme, ao menos). Mas há uma discussão interessante sobre sentir-se impotente diante do que o destino nos reserva e também sobre justiça. Ano: 2017.

MUSEU (Museo)

O grande barato de MUSEU é procurar fugir dos clichês de filmes de roubo. Principalmente na cena do roubo, por mais tensa que ela seja. Depois vemos que não é exatamente um filme de roubo, talvez seja mais sobre frustrações e tentativas toscas de seguir um caminho grandioso, no caso, conseguindo dinheiro "fácil" com um roubo inédito. Destaque também para várias tomadas atípicas. Só achei que podia ser um pouco mais curto. Direção: Alonso Ruizpalacios. Ano: 2018.

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

CLIMAX

Às vezes basta uma cena para que um filme se torne memorável. Mesmo quando esse filme é cheio de problemas e que provoca mais insatisfações do que alegrias. Aliás, falar de alegrias quando o assunto é Gaspar Noé é até um pouco complicado, ainda que as intenções do diretor de provocar náuseas e outras reações ruins dêem com os burros n’água. Com relação à tal cena marcante de CLIMAX (2018), trata-se de uma sucessão de performances solo dos dançarinos e dançarinas, mostrada através de uma câmera que visualiza a ação de cima. Aquilo é tão belo e sensual e a música é tão intensa e envolvente que, por alguns minutos, até parece que estamos vendo um dos melhores filmes do ano.

A cena acontece depois que vamos conhecendo um grupo relativamente grande de dançarinos prontos a participar de uma experiência um tanto misteriosa, mas apresentada de uma maneira interessante e ao mesmo tempo dispersiva que abre o filme. É dispersiva principalmente para quem gosta de livros, filmes e estantes. Do lado de uma televisão há duas prateleiras que completam a tela scope da janela com livros e capas de VHS (o filme se passa nos anos 90) relacionados a cinema ou a temas ao gosto do diretor: Buñuel, Argento, Fassbinder, Pasolini, Nietzsche, entre outros.

Falando em Buñuel, o fato de as pessoas não poderem sair daquele espaço em que estão (só depois atentei para uma ligação da cena que serve de prólogo, de uma mulher agonizando no gelo, com o espaço em que eles se encontram confinados), o fato de que elas estão naquele espaço lembra um pouco O ANJO EXTERMINADOR, do mais talentoso dos cineastas espanhóis. Mas esse elemento acaba sendo esquecido ao longo das conversas entre os personagens, muitas delas sobre sexo. Destaque para o papo entre dois homens sobre quais mulheres do grupo eles já transaram e quais desejam transar e como vão fazer.

Uma pena que Noé tenha essa obsessão quase infantil por querer chocar a plateia e transforma algo que poderia ser impactante do ponto de vista formal, sensual e poético em algo que vai para uma linha do desagradável, como já é tradicional no cinema do diretor, desde antes de ele ficar famoso mundialmente pela cena prolongada de estupro de IRREVERSÍVEL (2002). Assim, o terceiro ato do filme tenta emular o estado de perturbação dos personagens, depois de terem sido drogados por uma substância alucinógena, abrindo espaço para cenas de câmeras rodopiantes e algumas cenas de violência gráfica e brutal (não é nada agradável ver uma mulher grávida receber chutes na barriga).

Ainda assim, a lembrança que guardarei desta experiência filmada apenas com um fiapo de roteiro de cinco páginas e muita vontade de fazer algo diferente, será das referidas danças sensuais ao som de um áudio poderoso. Lembrarei de como esse filme poderia ser tão mais gostoso se não precisasse efetivamente contar uma história.

+ TRÊS FILMES

CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)

Não tenho acompanhado todos os filmes do Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS (2011). Este é certamente um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTOS (que prefiro). Ano: 2018.

A NOSSA ESPERA (Nos Batailles)

Que baita filme lindo! Apresenta a porrada da vida real sem nos dar muito espaço para chorar e descarregar as emoções de tanta emoção. Aí o que fica é um nó na garganta. A história não é apenas a de um homem que é abandonado pela esposa e tem que cuidar dos dois filhos pequenos. Isso é apenas o tronco de uma árvore que apresenta diversos galhos, diversas dores. Adoro uma cena do Duris com a personagem da irmã (que linda!), as cenas de apoio dos amigos que também passam por situação difícil etc. Meus agradecimentos a todos os envolvidos. Direção: Guillaume Senez. Ano: 2018.

O VALOR DE UM HOMEM (La Loi du Marché)

O diretor Stéphane Brizé parece ter se especializado em dramas sobre pessoas vivendo os piores momentos de suas vidas. Bom que está cercado sempre de atores e atrizes muito bons, como é o caso aqui de Vincent Lindon. Na trama, ele é um homem de meia idade que está enfrentando uma dificuldade de encontrar emprego. E mesmo quando consegue, o filme se torna ainda mais incômodo. Ano: 2015.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

BOY ERASED - UMA VERDADE ANULADA (Boy Erased)

Os dias estão cada vez mais sombrios em nosso país e no mundo. Por isso que certos filmes que uma década atrás teriam um peso menor adquirem um gesto político muito mais intenso e cheio de fúria. BOY ERASED - UMA VERDADE ANULADA (2018) ganhou os holofotes recentemente por ter tido sua estreia nos cinemas cancelada no Brasil pela Universal, sua distribuidora, que não quis se arriscar com um filme menor e que não recebeu nenhuma indicação ao Oscar - Lucas Hedges havia recebido uma indicação de ator no Globo de Ouro.

Não é a primeira vez que Hedges, 22, interpreta um jovem gay tendo que esconder do mundo o que ele é - pudemos ver em menor escala no ótimo LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig um papel parecido, quase uma prévia do que ele faria no filme de Joel Edgerton.

O impacto de BOY ERASED para o espectador, principalmente o espectador de linha progressista, é de raiva mesmo, a cada sessão que o protagonista tem que passar na terrível terapia de reorientação sexual. Há igrejas que não chegam ao cúmulo de fazer ou criar tais terapias, mas acabam por também fazer com que as pessoas vivam em negação e auto-enfrentamento de seus desejos, ao pensar que tudo o que pensam e querem é fruto do pecado, de tentações demoníacas.

Na trama, Jared Eamons (Hedges) é um jovem que inicia a vida universitária e é quase estuprado por um colega. O tal colega, passando por um momento difícil, deseja se confessar para Eamons, mas depois começa a achar que o rapaz será um perigo para ele. Por isso, o garoto prefere dizer mentiras sobre Eamons aos pais dele, que começam a questionar o filho sobre sua orientação sexual. Detalhe: o pai de Jared, vivido por Russell Crowe, é um pastor evangélico.

Na mesma noite, Jared resolve contar aos pais que tem pensamentos com homens, e que acredita ser homossexual. A mãe (Nicole Kidman) também fica muito transtornada. A solução que o pai encontra é chamar homens da igreja para orar e tomar medidas que possam "ajudar" o filho. A ajuda, então, vem na forma da terapia de reorientação sexual. Cada cena que se passa nesse lugar é carregado de uma aura tão pesada que é impossível não ficar com raiva de tudo aquilo.

Jared Eamons é o alter-ego de Garrard Conley, autor do livro de memórias que deu origem ao filme. Pelo que vemos, ele chegou a testemunhar pouca coisa. Poderia ter ficado mais tempo para contar mais detalhes dos bastidores terríveis desse lugar. Mas o que viu foi suficiente para escrever um artigo para o The Times e depois um livro.

Há uma cena em BOY ERASED, de diálogo entre pai e filho, que dá para fazer uma paralelo com o diálogo do pai do garoto de ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino. A diferença é que aqui a realidade dói mais, pois temos um pai com uma dificuldade muito grande de aceitar o filho como ele é, devido à sua formação moral e religiosa.

+ TRÊS FILMES

A ROTA SELVAGEM (Lean on Pete)

Do mesmo diretor de 45 ANOS (2015), este filme segue a tortuosa vida de um jovem adolescente que mora só com o pai que não tem dinheiro para lhe sustentar. É então que ele resolve trabalhar como ajudante de um homem que cuida de cavalos de corrida. O elenco é bom e o rapaz que faz o protagonista é ótimo. Há pelo menos três cenas muito boas e fortes. Pena que eu estava muito cansado no dia. Direção: Andrew Haigh. Ano: 2017.

EU NÃO SOU UMA BRUXA (I Am Not a Witch)

Depois de ver PERSONA, de Bergman, ver este filme aqui é um balde de água fria. Não que não tenha sua importância no quesito de denúncia sobre um caso absurdo. Mas é tão absurdo que parece surreal o que é mostrado na tela. Ainda não tive a chance de ver se o que apresentam na trama acontece de fato na Zâmbia. Acho que me incomodei também com o país. Mesmo o Brasil de hoje fica parecendo um paraíso. Direção: Rungano Nyoni. Ano: 2017.

MEU QUERIDO FILHO (Weldi)

O filme, pela temática, lembra um pouco OS COWBOYS, de Thomas Bidegain, mas tem menos força na hora de nos colocar no lugar dos personagens. Mesmo o personagem do pai parece um tanto bobo em sua busca pelo melhor para o filho. E o filho, do modo como é pintado, acaba sendo visto por nós como digno de nosso desprezo e do destino ruim que ele escolheu. Embora haja esse pano de fundo da situação na Síria, o filme é até bem universal, na questão de pais e filhos. Direção: Mohamed Ben Attia. Ano: 2018.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

A FAVORITA (The Favourite)

O grego Yorgos Lanthimos é o caso de cineasta que conseguiu prestígio internacional através, primeiramente, do caráter único de seus filmes. O indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira DENTE CANINO (2009) foi a obra que deu início ao domínio mundial desse cineasta cheio de idiossincrasias. Nesse filme já se percebia um gosto tanto pelo bizarro quanto por um senso de humor muito particular. Afinal, por mais que alguém ache o filme um tanto perturbador em diversos aspectos, há ali tantos momentos desconcertantes que às vezes o que nos resta é rir.

O gosto pelo surreal inundou o seu primeiro filme em língua inglesa, O LAGOSTA (2015), que contou com astros de Hollywood de primeiro escalão (Colin Farrell e Rachel Weisz).Trata-se de uma obra difícil de classificar, embora alguns possam imaginá-la como uma comédia romântica perversa e bizarra. A trama nos apresenta a um mundo em que pessoas que não conseguem um par são condenadas a se transformarem em animais. Detalhe: elas tem o direito de escolher que animal se tornar.

O trabalho seguinte de Lanthimos, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), já se encaminhava mais para o gênero horror, embora fuja dos clichês e seja igualmente estranho. Mas é inegável o flerte pela atmosfera de medo, que intensifica os climas dos trabalhos anteriores do diretor. O filme contou novamente com Colin Farrell, no papel de um cirurgião, e mais uma vez em um trabalho de dramaturgia estranha, como pede o diretor, e também com Nicole Kidman, no papel da esposa. Os dois são perturbados por um jovem adolescente com sede de vingança.

Eis que o cineasta grego chuta a porta com os dois pés em seu mais recente trabalho, já que A FAVORITA (2018) recebeu 10 indicações ao Oscar. Trata-se de um filme bem mais acessível, do ponto de vista das esquisitices, mas ainda assim pega desprevenido muitos espectadores que vão ao cinema ver um drama de época inglês típico. Para começar, há quem entre na sala sem saber que o filme também lida com a temática do relacionamento homossexual. Como estamos vivendo um período em que o conservadorismo está mais forte, isso pode incomodar a alguns desavisados.

Mas A FAVORITA é, antes de tudo, um filme sobre o jogo de poder. E há tempos não vemos um trio de atrizes tão fortes representando seus papéis com tanta beleza que até parece que o jogo de poder também acontece por trás das câmeras, no sentido de que Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman, que se tornou famosa nos Estados Unidos com este filme, parecem disputar não apenas o seu papel, mas também o nosso respeito e admiração.

Na trama, Emma Stone é uma jovem pobre que é recebida para trabalhar no palácio de Anne (Colman), Rainha da Inglaterra do início do século XVIII. Além de ela chegar toda cheia de lama e fezes, ainda é ridicularizada pela mulher que é o braço direito da rainha (Weisz, inspirada). O que a jovem descobre, graças à sua inteligência e luta pela sobrevivência naquele ninho de cobras, é que as personagens de Colman e Weisz também são amantes. É então que ela percebe o caminho para conquistar o seu lugar ao sol, através daquela rainha que na maioria das vezes mais parece uma criança mimada.

Para contar essa história, Lanthimos usa lente grande angular que se destaca principalmente nos interiores. Há também cenas com utilização apenas de luz natural, o que só aumenta a comparação que o filme vem recebendo com BARRY LYNDON, de Stanley Kubrick. Há também uma suntuosidade nos cenários e figurinos que é de dar gosto, mesmo a quem não está muito interessado no enredo. Se bem que é difícil não se divertir com a trama e com o show de interpretação das três atrizes. Gostei especialmente de Stone, que ganha talvez até mais tempo de cena que a Olivia Colman. As cenas dela tentando seduzir um dos nobres do castelo a base de porrada são muito engraçadas.

Em tempos de safra fraca de filmes indicados à categoria principal do Oscar, A FAVORITA é um alívio e tanto.

A FAVORITA recebeu indicações ao Oscar nas categorias de filme, direção, atriz (Olivia Colman), atrizes coadjuvantes (Emma Stone e Rachel Weisz), roteiro original, desenho de produção, figurino, direção de fotografia e montagem.

+ TRÊS FILMES

GREEN BOOK - O GUIA (Green Book)

Que safra horrível a do Oscar deste ano, hein! O que é isso, meu Deus? Há tempos eu não vejo um filme tão medíocre assim. Não é que seja ruim, mas tem toda pinta de filme ultrapassado, que até se costumava a ver em premiações dos anos 80, por exemplo. E que discussões rasas que o filme provoca. Um desperdício de uma dupla de atores ótimos. Na  trama, homem branco e rude de origem italiana é contratado para ser o chofer de um músico negro nos Estados Unidos dos anos 1960. Indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Mahershala Ali), roteiro original e montagem. Direção: Peter Farrelly. Ano: 2018.

A ESPOSA (The Wife)

Perde na originalidade e na construção dramática para o MONSIEUR & MADAME ADELMAN, de Nicolas Bedos, mas não dá para negar que é um filme que consegue capturar o espectador do início ao fim. Gosto bastante das cenas de flashback e da personagem jovem. Como não é uma história real, mas baseado em um romance, fica difícil comprar às vezes a trama. Ainda mais em pelo século XX. Indicado ao Oscar de melhor atriz para Glenn Close. Direção: Björn L Runge. Ano: 2017.

ASSUNTO DE FAMÍLIA (Manbiki Kazoku)

Difícil não gostar do Koreeda e do modo sensível com que ele aborda os dramas familiares. Acho que ainda gosto mais de PAIS & FILHOS e DEPOIS DA TEMPESTADE, mas este aqui tem algo em comum com o primeiro. O interessante é que primeiro o filme faz com que a gente goste daquelas pessoas imperfeitas para depois fazê-las entrar em situações mais dramáticas, longe da rotina de comer e se socializar em família. O último frame é lindo. Indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira. Direção: Hirokazu Koreeda. Ano: 2018.