A reexibição nos cinemas de ANTES DO AMANHECER (1995) me trouxe um pouco de desapontamento no que se refere à qualidade da imagem. Custo a crer que aquela cópia seja a da remasterização de 2017 em 2K, que depois resultaria em lançamento do BD da Criterion. De todo modo, estava animado para rever no cinema depois de mais de 30 anos da primeira vez que o vi, em gloriosa película 35mm, numa das duas (saudosas) salas do Art Iguatemi. Na época, então na faixa dos 20 anos de idade, tinha a idade aproximada dos personagens, o que resultou em maior identificação. Hoje, quase um idoso, é natural que me identifique mais com o drama dos personagens de AS PONTES DE MADISON, de Clint Eastwood, revisto há pouco tempo em boa cópia em 1080p.
O que acontece é que, à medida que o tempo passa, meu distanciamento com aqueles personagens se acentua um pouco. Mas lembro que numa das vezes que o vi, em 2013, acho que me preparando para ver ANTES DA MEIA-NOITE (2013), o terceiro da trilogia, chorei copiosamente durante boa parte do filme. Em parte, chorei por ter deixado passar minha Celine, por não ter sido feliz em minha vida sentimental. Depois, noutra ocasião, em 2021, na pandemia, já vi o filme um pouco menos à flor da pele. Agora, cinco anos depois, com a Giselle (minha Celine do meu lado, enfim), ver o filme traz mais contentamento pela minha vida presente, mas um distanciamento maior pela ingenuidade daqueles dois jovens.
Mas também penso que a juventude tem uma qualidade que a maturidade não tem, mesmo fazendo suas escolhas erradas, dando suas cabeçadas na vida por falta de experiência. Essa qualidade está em ter a ousadia de pensar aprofundadamente em várias questões existenciais, e esses pensamentos surgem de maneira muito entusiasmada, intensa e apaixonada. E não precisamos lembrar que é na casa dos 20 que os mais importantes cantores e bandas se estabelecem. É na casa dos 20 que a mente está mais porosa, mais parecida com uma antena sintonizada ao zeitgeist.
Então, ver Ethan Hawke e Julie Delpy transmitindo a paixão de Jesse e Celine naquelas horas que passam no trem e nas ruas e lugares de Viena continua sendo muito gostoso, muito emocionante de ver. Para eles, nada mais é importante: nem os rapazes da peça de teatro, ou a mulher que supostamente lê as mãos ou o suposto poeta de rua. Aliás, essas pessoas parecem ter esse ponto em comum: eles não parecem exatamente profissionais, embora os artistas já se apresentem como amadores. Pode-se tanto desgostar dos momentos de cinismo (ou visão realista?) de Jesse ou da ingenuidade (ou visão romântica, mas não menos real) frente a esses personagens passageiros, mas o que a gente percebe é isso: essas pessoas não importam muito. O que importa para Jesse e Celine é somente o tempo que estão passando juntos.
A cena da “ligação” no restaurante continua sendo uma das mais bonitas, pois revela a percepção deles em relação ao outro: a percepção de Celine do beijo de adolescente de Jesse; a percepção de Jesse do sentimento que Celine estava tendo por ele. A cena na grama, dos dois deitados enquanto tomam vinho, com a fotografia que captura a escuridão da noite os emoldurando, é cheia de muita excitação. Não pelo sexo em si – Linklater, apesar de ser chamado de “o Rohmer texano”, está longe de conseguir passar o erotismo dos filmes do cineasta francês –, mas pela dúvida que os aflige no que se refere ao dilema: vão ou não se ver novamente depois do amanhecer?
Daí vem a semelhança novamente com AS PONTES DE MADISON e no quanto o pensar demais pode atrapalhar o futuro de uma relação. No caso do romance do homem e da mulher maduros, há a preocupação com os filhos e o marido, numa sociedade mais tradicional e cheia de preconceitos com mulheres separadas; no caso dos jovens, há a burrice de não terem trocado números de telefone. Mas aí é que está: a estupidez também faz parte da juventude. É nela que se vive mais intensamente, mas é nela também que se comete muitos erros, que podem nunca ser desfeitos.
+ TRÊS FILMES
NATAL AMARGO (Amarga Navidad)
É interessante notar que Almodóvar parece fazer aqui justamente aquilo que seu alter-ego, vivido por Leonardo Sbaraglia, faz: busca desesperadamente por inspiração para seu filme. Em NATAL AMARGO (2026), cineasta trabalha em torno de uma história, que se passa em 2004, envolvendo uma diretora de comerciais que já teve sucesso como cineasta no passado, ainda que um sucesso para poucos apreciadores. Essa mulher está sofrendo de uma forte enxaqueca (o que faz lembrar imediatamente o protagonista de DOR E GLÓRIA (2019)). Enquanto isso, ela tem o apoio do marido, o bombeiro e stripper nos fins de semana. É um filme que fala sobre o processo criativo e sobre a questão ética envolvendo a obtenção de inspiração de histórias reais dolorosas para compensar a falta de criatividade. Achei curiosa a trilha sonora de Alberto Iglesias parece feita para um filme mais frenético de suspense do que para uma obra mais pausada sobre culpa. Em certos momentos deu impressão de que era a trilha para um outro filme, remetendo aos melodramas clássicos hollywoodianos. Eu confesso que preciso ver de novo o filme para falar melhor a respeito, devido a problemas envolvendo sonolência em horários inconvenientes. Até porque eu gostei de praticamente todos os longos do cineasta dos últimos quinze anos. A impressão que tenho é que se trata do filme de que menos gostei dele desde ABRAÇOS PARTIDOS (2009). Mas tudo pode mudar numa revisão.
TERAPIA DO SEXO (Thanks for Sharing)
É interessante ver um filme sobre viciados em sexo buscando ajuda numa espécie de AA para esse problema, ainda mais sendo mostrados de forma leve. Não que os problemas não surjam e os dramas desses personagens não mostrem o quanto é difícil viver com esse vício. O caso do jovem médico (Josh Gad) já de cara apresenta o quanto esse seu apetite voraz por pornografia e qualquer coisa relacionada a ela prejudicou sua vida profissional, além de tornar nula uma vida afetiva. TERAPIA DO SEXO (2012), de Stuart Blumberg, se beneficia de dois grandes atores, Tim Robbins, o mais velho dos três homens, é casado e tem vários anos de distância do vício, o que o torna padrinho do personagem de outro grande ator, Mark Ruffalo, um homem solteiro com dificuldade de manter justamente aquilo que seria sua salvação: um relacionamento estável e tranquilo, monogâmico, algo que para ele talvez pudesse ser próximo do tedioso. Eis que aparece a personagem de Gwyneth Paltrow, mas há algo na química dos dois que não funciona muito. Fico pensando se a escalação de Paltrow não foi o problema, mas talvez não. O filme é franco ao mostrar abertamente os problemas, apresenta as quedas (ou quase quedas) de seus personagens e o quanto também se tornam mais fortes tendo o grupo como ajuda nos momentos de crise. É um bom (ou quase bom) filme de amizade em situações de crise.
A GRAÇA (La Grazia)
A palavra "graça" tem uma porção de significados. Neste novo filme de Paolo Sorrentino, ela tem pelo menos dois sentidos: há o sentido de perdão, que tem a ver com a ação do personagem de Toni Servillo, como presidente da Itália (e também com o perdão à própria esposa falecida e que segue sendo amada), e o perdão oficial a pessoas que estão presas, o chamado indulto. Os dois casos de indulto a serem pensados pelo presidente são de pessoas que provavelmente tiveram suas razões para ter matado: uma mulher que sofria com muita frequência a violência do marido e que muito provavelmente seria assassinada; e um homem que matou a própria esposa com Alzheimer. Mas Sorrentino vai muito além desses dois casos, embora ambos sejam muito interessantes e importantes para a trama. Isso porque, mais importante do que a trama é o modo como ele a apresenta, a elegância com que é apresentado cada quadro, além da sensibilidade com que o protagonista é tratado em sua solidão e sua dificuldade em sair da paralisia, dentro de um cargo que requer o mínimo de ação para que seja reconhecido. A GRAÇA (2025) é provavelmente o filme de que mais gostei de Sorrentino, este diretor que ainda vejo com um pé atrás, mas que começa a me ganhar aos poucos. Até então, havia gostado de A GRANDE BELEZA (2013) e de A JUVENTUDE (2015), principalmente por ambos tratarem da velhice. Sorrentino alia tanto o moderno quanto o clássico em sua visão de um país que também precisa conviver com esses dois aspectos de sua personalidade. Há uma cena que me tocou profundamente: a conversa do personagem de Servillo com uma redatora da revista Vogue. Que lindo!
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