domingo, junho 01, 2014

MALÉVOLA (Maleficent)



É curioso o modo como a Disney (e outras produtoras também) tem tentado reinventar os contos de fada, seja tirando as princesas da posição passiva, como em VALENTE, seja evitando vilões óbvios, como em FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE. E é da casa do Mickey que chega também às telas a fantasia MALÉVOLA (2014), que vai mais além nesse sentido, ao recontar a história da Bela Adormecida do ponto de vista da vilã, aqui mostrada muito mais como vítima, embora intoxicada pelo mal em alguns momentos.

Trata-se de uma bela ideia, e que é muito bem incorporada por Angelina Jolie no papel de Malévola, em sua versão adulta. No filme, a personagem é vista desde criança em um bosque cercado por criaturas fantásticas, e ela é a maior das fadas do lugar, tendo o mesmo tamanho dos humanos e ostentando um par de chifres, olhos amarelos e grandes asas, imagem comumente associada a criaturas malignas. Pra completar, em sua versão adulta, a maquiagem também acentua as maçãs do rosto, pontudas.

O vilão do filme acaba sendo um humano, Stefan, um sujeito que conheceu Malévola quando ambos eram ainda adolescentes. Depois de algum tempo, ele retorna para visitá-la e os dois fazem as pazes. O problema é que as figuras fantásticas do bosque não são bem-vistas pelo rei e elas também não o aceitam como seu soberano. O rei, mesmo moribundo, oferece a sua coroa àquele que matar Malévola. Stefan, movido pela cobiça, aproveita-se de sua proximidade com a fada para traí-la, cortando-lhe suas grandes asas depois de lhe dar um sonífero para beber.

Ao acordar, Malévola se enche de ódio e planeja uma vingança ao rei. E essa vingança é diretamente ligada à sua filha recém-nascida: aos 16 anos, ela furará o dedo numa máquina de fiar e dormirá para sempre, só podendo ser despertada com o beijo de um amor verdadeiro. Curiosamente, o filme já trata essa ideia de "amor verdadeiro" como algo que não existe. Isso também é uma novidade em se tratando de contos de fadas, mas foi também explorado em FROZEN, de certa forma.

Não deixa de ser algo bem diferente e pode ajudar a criar uma juventude mais realista e menos crente no amor romântico. Porém, não se sabe o quanto isso pode ter efeitos negativos, já que pode gerar uma juventude mais cínica com certos aspectos da vida, também. De todo modo, não se trata de um filme censura livre, já que pode assustar crianças menores.

A propósito, a própria produção do filme custou a encontrar crianças pequenas que pudessem contracenar com Angelina Jolie com aquela maquiagem assustadora, fazendo com que sua própria filha vivesse a pequena Aurora aos cinco anos de idade, já que a menina estava acostumada com a mãe no set. A reviravolta da trama é bonita, com a protagonista contaminada pelo amor e pela pureza de Aurora (Elle Fanning, na versão adolescente).

O principal problema de MALÉVOLA talvez esteja em seu andamento, muitas vezes moroso. Dar mais de duas horas ao filme não parece ter sido uma decisão muito sábia. Além do mais, por mais que a ideia e a caracterização da personagem sejam ótimas no papel, a direção e o roteiro quadrados, tão convencionais e monótonos quanto a maioria dos filmes de fantasia hollywoodianos, atrapalham, deixando no ar a sensação de que foi uma ótima ideia desperdiçada por uma direção e um roteiro pouco inspirados.

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