quarta-feira, junho 25, 2014

TABU (Tabu – A Story of the South Seas)



F.W. Murnau é um cineasta tão incrível que basta ver um único filme seu para saber que estamos diante da obra de um gênio. Pelo menos foi assim comigo quando vi A ÚLTIMA GARGALHADA (1924) e que aumentou exponencialmente quanto vi AURORA (1927), que considero um dos melhores filmes do mundo. Não sei bem por que motivo eu não dei continuidade a apreciação de todos os filmes do diretor ainda, mas comprei aquela edição de FAUSTO (1926) que saiu com libreto pela Folha de S. Paulo não faz muito tempo. Só não sei quando o verei. E até hoje eu nunca vi o seu filme mais popular: NOSFERATU (1922). Pois é.

Acabei vendo TABU (1931) no ano passado, logo depois de ter visto o outro TABU (2012), o de Miguel Gomes, que me deixou tão entusiasmado que até cheguei a dizer que seria um filme melhor que o de Murnau. Provavelmente algo bem apressado a se dizer. De todo modo, são dois filmes espetaculares, mas, mesmo tendo vários elementos em comum, são bastante distintos. E é sempre bom lembrar que o filme de Miguel Gomes só existe por causa do filme de Murnau. É uma homenagem. Mas deixemos o título português de lado para tratar dessa produção que o cineasta alemão fez em Hollywood.

Curiosamente, há muitos diretores e críticos que consideram TABU superior a AURORA, que é um título muito mais presente nas listas de melhores filmes de todos os tempos. O cineasta e crítico francês Eric Rohmer, que tanto bebeu de Murnau em sua rica filmografia, é um deles. O que acaba por deixar um gosto amargo com relação a TABU é o fato de ter sido o seu último filme, lançado no mesmo ano em que o cineasta morreu em um acidente automobilístico em Santa Barbara, na Califórnia, uma semana antes da estreia nos cinemas.

Murnau tinha 40 anos quando resolveu ir para o Taiti em 1929. Antes de viajar, conheceu Robert J. Flaherty, famoso por seus documentários inovadores, sendo NANOOK DO NORTE (1922) o mais celebrado, até pelo aspecto antropologista do trabalho, mostrando em primeira mão a muitos como viviam os esquimós do Polo Norte.

TABU, seria, portanto, um filme com características de documentário, dada a interferência de Flaherty, que entrou como um dos roteiristas, mas que tinha visões bem opostas às do cineasta alemão: Flaherty via o lugar como um paraíso; Murnau, via-o como um lugar onde o mal predominava, como em qualquer lugar do mundo. Predominou Murnau, que criou uma história de amor trágica, utilizando nativos locais para os papéis e fazendo um tipo bem diferente de dramaturgia, nada comum na Hollywood daquela época.

O filme começa com um tom alegre, mostrando, em harmonia, um grupo de jovens homens pescando no mar, enquanto as mulheres tomam banhos em cascatas. E logo conhecemos os nosso heróis apaixonados. Em uma das imagens mais icônicas do filme, a moça encosta a cabeça no peito do rapaz. Ambos estão apaixonados e estão muito felizes naquele momento.

Porém – há sempre um porém –, surge algo que irá acabar com a festa dos dois. Como Murnau teve experiência com o cinema de horror, que costuma começar com harmonia para depois dar continuidade em pesadelo, é natural que haja também no filme não apenas isso, mas até mesmo elementos fantásticos. O grande obstáculo surge quando a moça é escolhida para ser uma espécie de santa, virgem para sempre, intocável, a fim de afastar os maus agouros que surgiram logo depois de ataques de tubarões ao lugar. Assim, ela se torna proibida a qualquer homem da tribo, inclusive ao herói. Ele, no entanto, não aceita isso e planeja fugir com a amada.

Há um certo ar de maldição no filme. Tanto na história em si, como a impressão de que uma desgraça vai acontecer com o casal a qualquer momento, quanto com o fato de Murnau ter ficado enfeitiçado pelo lugar. Ele escrevia em cartas dizendo que não desejava mais voltar para os Estados Unidos ou para sua terra-natal. Talvez fosse melhor mesmo. A morte o esperava na Califórnia.

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