domingo, junho 08, 2014

O GRANDE MESTRE (Yi Dai Zong Shi/The Grandmaster)



Vou me permitir a fazer um texto bem pessoal. Não que os outros não sejam, mas muitos procuram disfarçar um pouco. E também vou me permitir a fazer algo do tipo "gosto/não gosto", até para repensar o que eu preciso evitar ou o que eu preciso aprender a gostar. Antes de mais nada, é bom dizer que minha relação com o cinema de Wong Kar-wai nunca foi muito amigável. Principalmente quando ele coloca em seus filmes elementos históricos da cultura chinesa ou de Hong Kong especificamente que me deixam um pouco perdido. Mas aí eu culpo a minha ignorância. Quem mandou eu não estudar História da China?

Também não vou pedir que um cineasta abandone o seu estilo visual e narrativo em prol de algo de fácil compreensão para o público ocidental, que em sua maioria não é muito conhecedor de certas particularidades culturais da China. No caso de O GRANDE MESTRE (2013), por exemplo, ficamos "sabendo" sobre a Guerra Civil (o Norte contra o Sul) que ocorreu no país antes de sua incursão na Segunda Guerra Mundial e antes da terrível invasão japonesa.

Acontece que Kar-wai se atropela em sua narrativa e cria uma obra muito confusa, não necessariamente por causa dos vaivens no tempo, mas no que parece ser um problema de edição mesmo. Dizem que a edição chinesa é bem melhor (nem sabia desse corte até hoje), mas que também não ajuda muito a compreender a trama. Até aí tudo bem. Há vários filmes que prendem o espectador sem que queira deles compreensão do enredo, mas que o leva a viagens sensoriais ou psicológicas. Certamente isso ocorreu com quem gostou do filme, mas não deu certo comigo.

O curioso é que o filme até começa bem, mantendo o foco na vida de Ip Man (Tony Leug), o homem que seria essencial para o estilo e o crescimento de Bruce Lee nas artes marciais. E há também a beleza sempre exuberante de Zhang Ziyi, que já havia mostrado que além de linda também é mestra na coreografia das artes marciais em três filmes fundamentais para o renascimento dos filmes de artes marciais para as plateias dos anos 2000, O TIGRE E O DRAGÃO, de Ang Lee, e dois trabalhos de Zhang Yimou, HERÓI e o sensacional O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS.

E se Kar-wai parece dar conta razoavelmente dos personagens de Leung e Ziyi, o mesmo não pode ser dito do vilão, o "Navalha" (Chang Chen), que certamente foi decapitado no corte final, o que prejudicou bastante a segunda metade do filme e isso prejudica o andamento narrativo e faz com que certos filmes pareçam mais longos do que realmente são. No caso de O GRANDE MESTRE, por exemplo, isso se torna ainda mais complicado quando vemos três epílogos diferentes, como se o cineasta quisesse tirar onda com a cara do espectador, que já está impaciente e louco pra que o filme termine, e ele manda não uma, mas duas pegadinhas.

Ao sair da sessão, a vontade que eu tinha de ver os filmes anteriores de Kar-wai que ainda não vi, bem como os próximos que virão, foram bastante afetadas. E quando digo que meu favorito dele é justamente UM BEIJO ROUBADO (2007), falado em inglês, com duas beldades de Hollywood, e fora de seu habitat natural, muita gente acha um absurdo.

Outra coisa que percebi é que eu gosto mesmo é de ver lutas de artes marciais verdadeiramente violentas, e não coreografias de balé que ficam ainda mais sonolentas com o tradicional uso da câmera lenta do diretor. Juntando a confusão na edição e no enredo, a História da China passando como um raio (e eu nem aí pra saber mais sobre os "n" estilos de luta do kung fu) e uma história de amor sem graça, esse é O GRANDE MESTRE pra mim.

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