terça-feira, junho 03, 2014

JOVEM E BELA (Jeune & Jolie)



François Ozon, ao mesmo tempo em que é subestimado ou esnobado por uma parcela da crítica ou do público mais exigente, é também valorizado e visto por outra parcela, que tem acompanhado religiosamente cada trabalho seu. No Brasil, a sorte é que todos os seus filmes têm chegado ao nosso circuito exibidor desde o início dos anos 2000. E ele nem é um cineasta facilmente reconhecível, fazendo filmes bastante diferentes entre si.

Em JOVEM E BELA (2013), Ozon conta a história de uma jovem que resolve ser garota de programa algum tempo depois de ter se iniciado sexualmente. Como em A BELA DA TARDE, de Buñuel, ela costuma fazer isso durante o dia, escondido de sua família. Não é um tema novo, mas não deixa de ser sempre excitante, no sentido amplo do termo.

Ozon gosta do mistério, tendo já feito, inclusive, um filme fantástico (RICKY, 2009), e esse mistério também foi trabalhado utilizando a estética de um film noir, como em SWIMMING POOL – À BEIRA DA PISCINA (2003). Mas em JOVEM E BELA o mistério e o fantástico se juntam em um momento específico da história: quando Isabelle (Marine Vatch) perde a virgindade e se vê a si mesmo, como um duplo, testemunhando o ato.

Essa sequência não é explicada, deixando no ar algumas possíveis interpretações: seria a despedida do aspecto puro de Isabelle? Pouco provável, já que o seu jeito frio de ver a vida e sua curiosidade para com os assuntos da intimidade já estavam lá antes do referido ato. Aliás, essas características se tornam cada vez mais acentuadas a cada experiência sua com um novo cliente.

O mais encantador do filme de Ozon é sua capacidade de nos envolver com sua história, mesmo carecendo de suspense por causa de algumas elipses. Ainda assim, alguns momentos são especiais, como seu último encontro com o senhor de idade que foi tão carinhoso com ela.

Já no aspecto familiar, o filme não rende muito bem, a não ser nas conversas com o estranho irmão mais novo, que não se sabe se é gay ou se tem tesão pela irmã (ou as duas coisas). Há também uma sutil atração (ou possibilidade de atração) entre ela e o padrasto (Frédéric Pierrot) e isso funciona bem no filme. Já a relação com a mãe parece destituída de interesse. Não sei se por erro do realizador ou se é algo proposital.

Nenhum comentário: