sábado, junho 21, 2014

NA CARNE E NA ALMA



A frase escrita no cartaz de NA CARNE E NA ALMA (2012) define um pouco o drama de Rodrigo (Karan Machado): "Você já se apaixonou? Bem-vindo ao inferno". A postura de total entrega dele em relação a ela no cartaz também mostra o quanto sua mente fica intoxicada pela presença física e espiritual da mulher, no caso, a jovem Mariana (Raquel Maia).

O filme foi dirigido por Alberto Salvá, mais lembrado por A MENINA DO LADO (1987), filme que, aliás, foi seu último longa até ele resolver fazer mais esta história de amor crua e cruel, pouco antes de morrer, em outubro de 2011, aos 73 anos. E que bom que ele nos deixou essa pequena pérola que tem sido exibido atualmente no Canal Brasil e que também pode ser encontrado em sites de compartilhamento.

Se A MENINA DO LADO mostrava uma relação que hoje seria um tanto complicada para explorar, dada a idade de Flávia Monteiro, que tinha por volta de 15 anos quando fez o filme, contendo cenas eróticas com um homem mais velho vivido por Reginaldo Faria, no novo filme, a idade dos protagonistas é equivalente e as cenas são mais gráficas e corajosas, embora servindo mais para mostrar a trajetória da relação de Rodrigo e Mariana.

O filme também lembra um pouco LOUCA PAIXÃO, de Paul Verhoeven, tendo em vista o total desembaraço ao lidar com coisas tão íntimas e ao mesmo tempo tão tabus em filmes, como fezes, urina e sexo com menstruação como parte do pacote. Inclusive, essa crueza está presente também nos diálogos cheios de palavras de baixo calão, que destoam do cinema politicamente correto que se faz hoje no Brasil. Assim, ver NA CARNE E NA ALMA é como se tivéssemos encontrado uma cópia rara de um filme dos anos 1980.

Nota-se que é uma produção de orçamento bem baixo, com elenco desconhecido, precário em aspectos técnicos e muitas cenas se passando em interiores. Mas, em compensação, há um cuidado narrativo que não deixa o espectador ficar desinteressado com a história dos dois em nenhum momento. E tudo parece estar no lugar certo, com planos curtos e uma voice-over que só agrada, ajudando a manter a história mais intimista, oferecendo o ponto de vista de Rodrigo e dando a Mariana um ar um tanto mais misterioso, já que é uma personagem que sai do desagradável para o encantador em questão de segundos. Muda de anjo para demônio, mas nunca deixa de ser um objeto de desejo.

Na trama, Rodrigo é um rapaz acostumado a levar garotas para sua casa, mas não tem a menor intenção de ter com elas um envolvimento afetivo. Depois do sexo, virava para dormir e aquilo era página virada. Até o dia em que ele conheceu Mariana e essa rotina mudou completamente. A iluminação veio quando ele acendeu as luzes e deu de cara com os lindos seios da moça. Para ele, algo próximo do divino. Rodrigo chega a dizer que se existe Deus, ele deve ter seios.

Essa relação de intimidade crescente, que também conta com brigas e outras situações típicas de quem já teve um relacionamento intenso de paixão carnal como esse (muito próximo de uma doença), pode fisgar muitos espectadores que se identificarem com o personagem ou com seus sentimentos. E mesmo que não haja identificação, é sempre muito bom ver um grande filme brasileiro de vez em quando.

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