Atualmente ando dando preferência aos filmes (há um mar de possibilidades e uma porção de tesouros a ver e rever) e evitando me apegar a novas séries e minisséries. Sei que algumas delas são muito atraentes e realmente muito boas, mas o máximo que ando conseguindo dar conta durante este período é de um filme por dia. Até por que também preciso trabalhar, ler os livros e quadrinhos, escrever, socializar (ainda que virtualmente), dormir etc.
Acho até que estou indo bem com a média de sete filmes por semana. Ainda assim, consegui ver algumas novas séries neste ano, graças a dicas de amigos, coisas que talvez não conhecesse de outra maneira. Como já faz um tempo que eu vi estas duas séries e esta minissérie abaixo, creio que é melhor relembrar o que escrevi na época em que terminei de vê-las e, quem sabe, acrescentar alguma coisa, ajudado pela memória ruim. Todas elas foram lançadas em 2020.
RUN - PRIMEIRA TEMPORADA (Run - Season One)
Gosto de como a série é ágil, tanto na velocidade com que brinca com as aventuras do casal fujão, quanto com o tanto de coisas que acontecem durante o período em que eles estão juntos. Domhnall Gleeson e Merritt Wever são ex-namorados que, depois de muitos anos, põem em prática o que haviam combinado um tempo atrás: responder um SMS de "Run" com outro "Run" e ambos se encontrarem em um local estipulado. Um dos méritos e também algo que pode decepcionar um pouco a série é ela ser algo totalmente diferente do que se espera. Ou seja, não é uma versão cômica da história de Jesse e Celine. É outra coisa bem diferente. E isso se acentua quando os dois passam a se aventurar fora do trem. Ótima a participação de Phoebe Waller-Bridge, que faz basicamente o mesmo papel de FLEABAG, mas a gente gosta mesmo assim. A criadora Vicky Jones dirigiu um espetáculo de Waller-Bridge e também contribuiu na supervisão de roteiros da série da amiga.
EM DEFESA DE JACOB (Defending Jacob)
Ótimo e um tanto perturbador drama criminal envolvendo uma família e o assassinato não resolvido de um garoto de uma escola. O principal suspeito do crime é o garoto Jacob (ótima performance de Jaeden Martell), filho de um respeitado procurador da cidade (Chris Evans) e de uma professora de educação infantil (Michelle Dockery). A minissérie vai mostrando a espiral de dúvida e de terror da família diante do inferno que se instala em suas vidas quando toda a cidade passa a ser inimiga deles, mas também por outra série de situações que ocorrem. Escrever mais sobre a minissérie pode estragar algumas surpresas. Entre os coadjuvantes, destaque para as vezes em que J.K. Simmons rouba as cenas. O criador da minissérie, Mark Bomback, tem altos e baixos em sua carreira de roteirista. Todos os episódios são dirigidos por Morten Tyldum (O JOGO DA IMITAÇÃO, 2014).
BETTER CALL SAUL - 5ª TEMPORADA (Better Call Saul - Season Five)
Levando em consideração a queda que da quarta temporada, esta quinta deu uma guinada muito boa para melhor, trazendo mais tensão e mais complexidade para os personagens. O nono episódio é sensacional. Corre o risco de ser o melhor da série como um todo. Que baita antagonista que é Lalo Salamanca (Tony Dalton). A relação entre Jimmy e Kim também dá um salto, mas confesso que achei a cena da união muito estranha, como já acho muito estranho o tipo de relação dos dois. Os criadores parece que não conseguem apostar em momentos de intimidade entre os atores, e de certa forma isso contribui positivamente para esse tipo de singularidade. Ao que parece a próxima temporada será a última. É uma série que está se mostrando mais valiosa do que se imaginava.
quarta-feira, julho 08, 2020
segunda-feira, julho 06, 2020
INSTINTO SELVAGEM (Basic Instinct)
Meu amor e admiração pelo cinema de Paul Verhoeven remontam aos primeiros anos de minha cinefilia. O primeiro filme dele que vi no cinema foi O VINGADOR DO FUTURO (1990), mas, se não me engano, já havia me admirado em casa com o sensacional CONQUISTA SANGRENTA (1985). O que ele fez com INSTINTO SELVAGEM (1992) foi algo por demais marcante. Trouxe para o estrelato Sharon Stone, que, injustamente, nem aparece com o nome destacado no cartaz (há apenas o de Michael Douglas), e também trouxe um tipo de cinema muito ousado no quesito sexo, principalmente dentro das produções classe A de Hollywood.
Claro que houve o aspecto negativo, que foi a proliferação de softcores de suspense baratos e sem graça pipocando por todos os lados. Mas nem vejo isso como um problema. A verdade é que Hollywood voltou a ficar careta quando ele a deixou, depois de O HOMEM SEM SOMBRA (2000).
Porém, o momento agora é de festejar. Enquanto ainda não é possível pensar numa revisão na telona do filme, tomei o cuidado para conseguir uma cópia muito boa em 1080p, em vez de uma revisão em DVD. Mesmo assim, recomendo o DVD da Universal pelos extras contidos no disco 2.
Curiosamente, na época que vi o filme, nem tinha passado pela minha cabeça sua estreita ligação com UM CORPO QUE CAI ,de Alfred Hitchcock, e também em PSICOSE (o picador de gelo, a peruca loira). Apenas o via como um neo-noir mais picante. Se pensarmos no quanto UM CORPO QUE CAI é erótico para sua época (ainda o é até hoje, na verdade), o que temos no filme de Verhoeven é uma atualização para os dias de hoje das relações mais físicas entre os personagens. Logo, por mais que alguém vá reclamar que as cenas de nudez seriam gratuitas, o corpo nu e também a violência gráfica são muito bem-vindos para tornar a apreciação do enredo ainda mais fácil de comprar.
Quando o detetive Nick Curran (Michael Douglas) transa pela primeira vez com a romancista Catherine Tramell (Sharon Stone) e diz para a namorada de Catherine que aquela mulher era a foda do século, era perfeitamente natural que também sentíssemos algo muito parecido, depois da experiência que ele acabara de ter e havíamos presenciado. Não era apenas pelo sexo em si, mas pelo perigo. Aquela mulher seria, muito provavelmente, uma assassina que acabaria com a vida dele enquanto ele estava amarrado na cama. Ou seja, a excitação pelo perigo fazem parte do jogo. Assim como antes foi tão perigosa a perseguição de automóveis nas ruas de São Francisco. Aliás, a cidade é outro elemento que remete a UM CORPO QUE CAI.
INSTINTO SELVAGEM é dessas obras que encantam desde a primeira cena, com a câmera dançando ao redor da cama e também por cima, mas sem revelar o rosto da loira. Enquanto isso, a trilha sonora de Jerry Goldsmith que emula Bernard Herrmann, torna tudo ainda mais belo e mágico, assim como a fotografia de Jan de Bont, parceiro de Verhoeven desde seus primeiros filmes na Holanda.
E o que dizer da cena mais famosa do filme? A da cruzada de pernas? Catherine Tramell usa um um penteado e um vestido branco que remetem mais uma vez a Kim Novak no filme de Hitchcock e, sem calcinha, responde, com a maior tranquilidade do mundo, às perguntas daqueles homens boquiabertos com sua beleza, sua ousadia, seu sex appeal, sua segurança em tudo que diz e faz.
E o que é aquele sorriso de Sharon Stone? Consegue trazer algo de muito forte de uma feminilidade mais agressiva, mas que por vezes traz algo de candura, algo bem próprio da própria mitologia que a atriz acabou criando em torno de si, principalmente a partir deste filme. Então, é muito fácil se apaixonar por ela. Sharon era possivelmente a mais bela das estrelas do cinema americano dos anos 1990. E neste filme ela está no auge, em seu momento mais glorioso.
Há também a trama, bastante intrincada, mas talvez nem tanto assim, já que nesta terceira vez que vi o filme consegui entender o final direitinho. Acredito que, das outras vezes, os hormônios em maior quantidade acabaram por prejudicar um pouco o fluxo de sangue para o cérebro.
Quanto ao DVD lançado em 2011, ele conta com uma entrevista de quase uma hora de Paul Verhoeven. É uma entrevista bem reveladora, inclusive no que se refere à sua relação com Sharon Stone durante as filmagens. A entrevista foi concedida antes da produção de A ESPIÃ (2006), quando o roteiro desse seu retorno à Holanda ainda estava sendo finalizado. Outra coisa interessante nos extras é ver Sharon Stone fazendo teste de algumas cenas. Sempre um prazer vê-la. Outro extra curioso é a transposição de algumas cenas com palavrões para a versão para a televisão. Chega a ser tosca a montagem/dublagem que eles fazem para enxertar uma palavra para substituir a fala original. Pra mim isso foi uma novidade.
+ TRÊS FILMES
A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (The Dressmaker)
É um filme todo errado. Vale pela presença, beleza, elegância e brilho de Kate Winslet. Gosto do aspecto meio sujo do ambiente também. Mas a trama é boba, os personagens são burros e a gente não se envolve nada. Ao contrário. Direção: Jocelyn Moorhouse. Ano: 2015.
JOGO DO DINHEIRO (Money Monster)
Queria ter me envolvido mais com este filme. A crise de garganta e o sono acabou atrapalhando um melhor julgamento. Aí não me envolvi com o filme, mas deu pra notar que é bem redondinho. O clima agridoce do final é bem interessante e o pessoal do elenco está muito bem. O cara da série THE AFFAIR já tem cara de mau caráter. Direção: Jodie Foster. Ano: 2016.
A GAROTA DO LIVRO (The Girl in the Book)
Eu achei bem interessante ver este filme menor, de baixo orçamento. Não que esse primeiro trabalho de Marya Cohn seja perfeito. Há vários problemas, e boa parte deles envolve personagens masculinos, principalmente o namorado da protagonista, e o que ela faz. Mas gosto da questão do trauma, do estrago que um sujeito pode fazer na cabeça e na vida de uma pessoa. E o filme se costura bem entre passado e presente também. É fluido. Ano: 2015.
Claro que houve o aspecto negativo, que foi a proliferação de softcores de suspense baratos e sem graça pipocando por todos os lados. Mas nem vejo isso como um problema. A verdade é que Hollywood voltou a ficar careta quando ele a deixou, depois de O HOMEM SEM SOMBRA (2000).
Porém, o momento agora é de festejar. Enquanto ainda não é possível pensar numa revisão na telona do filme, tomei o cuidado para conseguir uma cópia muito boa em 1080p, em vez de uma revisão em DVD. Mesmo assim, recomendo o DVD da Universal pelos extras contidos no disco 2.
Curiosamente, na época que vi o filme, nem tinha passado pela minha cabeça sua estreita ligação com UM CORPO QUE CAI ,de Alfred Hitchcock, e também em PSICOSE (o picador de gelo, a peruca loira). Apenas o via como um neo-noir mais picante. Se pensarmos no quanto UM CORPO QUE CAI é erótico para sua época (ainda o é até hoje, na verdade), o que temos no filme de Verhoeven é uma atualização para os dias de hoje das relações mais físicas entre os personagens. Logo, por mais que alguém vá reclamar que as cenas de nudez seriam gratuitas, o corpo nu e também a violência gráfica são muito bem-vindos para tornar a apreciação do enredo ainda mais fácil de comprar.
Quando o detetive Nick Curran (Michael Douglas) transa pela primeira vez com a romancista Catherine Tramell (Sharon Stone) e diz para a namorada de Catherine que aquela mulher era a foda do século, era perfeitamente natural que também sentíssemos algo muito parecido, depois da experiência que ele acabara de ter e havíamos presenciado. Não era apenas pelo sexo em si, mas pelo perigo. Aquela mulher seria, muito provavelmente, uma assassina que acabaria com a vida dele enquanto ele estava amarrado na cama. Ou seja, a excitação pelo perigo fazem parte do jogo. Assim como antes foi tão perigosa a perseguição de automóveis nas ruas de São Francisco. Aliás, a cidade é outro elemento que remete a UM CORPO QUE CAI.
INSTINTO SELVAGEM é dessas obras que encantam desde a primeira cena, com a câmera dançando ao redor da cama e também por cima, mas sem revelar o rosto da loira. Enquanto isso, a trilha sonora de Jerry Goldsmith que emula Bernard Herrmann, torna tudo ainda mais belo e mágico, assim como a fotografia de Jan de Bont, parceiro de Verhoeven desde seus primeiros filmes na Holanda.
E o que dizer da cena mais famosa do filme? A da cruzada de pernas? Catherine Tramell usa um um penteado e um vestido branco que remetem mais uma vez a Kim Novak no filme de Hitchcock e, sem calcinha, responde, com a maior tranquilidade do mundo, às perguntas daqueles homens boquiabertos com sua beleza, sua ousadia, seu sex appeal, sua segurança em tudo que diz e faz.
E o que é aquele sorriso de Sharon Stone? Consegue trazer algo de muito forte de uma feminilidade mais agressiva, mas que por vezes traz algo de candura, algo bem próprio da própria mitologia que a atriz acabou criando em torno de si, principalmente a partir deste filme. Então, é muito fácil se apaixonar por ela. Sharon era possivelmente a mais bela das estrelas do cinema americano dos anos 1990. E neste filme ela está no auge, em seu momento mais glorioso.
Há também a trama, bastante intrincada, mas talvez nem tanto assim, já que nesta terceira vez que vi o filme consegui entender o final direitinho. Acredito que, das outras vezes, os hormônios em maior quantidade acabaram por prejudicar um pouco o fluxo de sangue para o cérebro.
Quanto ao DVD lançado em 2011, ele conta com uma entrevista de quase uma hora de Paul Verhoeven. É uma entrevista bem reveladora, inclusive no que se refere à sua relação com Sharon Stone durante as filmagens. A entrevista foi concedida antes da produção de A ESPIÃ (2006), quando o roteiro desse seu retorno à Holanda ainda estava sendo finalizado. Outra coisa interessante nos extras é ver Sharon Stone fazendo teste de algumas cenas. Sempre um prazer vê-la. Outro extra curioso é a transposição de algumas cenas com palavrões para a versão para a televisão. Chega a ser tosca a montagem/dublagem que eles fazem para enxertar uma palavra para substituir a fala original. Pra mim isso foi uma novidade.
+ TRÊS FILMES
A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (The Dressmaker)
É um filme todo errado. Vale pela presença, beleza, elegância e brilho de Kate Winslet. Gosto do aspecto meio sujo do ambiente também. Mas a trama é boba, os personagens são burros e a gente não se envolve nada. Ao contrário. Direção: Jocelyn Moorhouse. Ano: 2015.
JOGO DO DINHEIRO (Money Monster)
Queria ter me envolvido mais com este filme. A crise de garganta e o sono acabou atrapalhando um melhor julgamento. Aí não me envolvi com o filme, mas deu pra notar que é bem redondinho. O clima agridoce do final é bem interessante e o pessoal do elenco está muito bem. O cara da série THE AFFAIR já tem cara de mau caráter. Direção: Jodie Foster. Ano: 2016.
A GAROTA DO LIVRO (The Girl in the Book)
Eu achei bem interessante ver este filme menor, de baixo orçamento. Não que esse primeiro trabalho de Marya Cohn seja perfeito. Há vários problemas, e boa parte deles envolve personagens masculinos, principalmente o namorado da protagonista, e o que ela faz. Mas gosto da questão do trauma, do estrago que um sujeito pode fazer na cabeça e na vida de uma pessoa. E o filme se costura bem entre passado e presente também. É fluido. Ano: 2015.
domingo, julho 05, 2020
A VOLTA DE FRANK JAMES / O RETORNO DE FRANK JAMES (The Return of Frank James)
É interessante notar uma espécie de gradação que ocorre entre cada filme dirigido por Fritz Lang. Lembremos que seu trabalho anterior havia sido uma espécie de comédia romântica, CASAMENTO PROIBIDO (1938). E por mais que tenha havido certa irregularidade no uso do humor nesse filme, há sim muitos momentos bem-sucedidos e um resultado bastante satisfatório. A VOLTA DE FRANK JAMES (1940), seu primeiro western e também seu primeiro filme em cores, traz um bocado desse senso de humor, dessa suavidade que parecia distante em seus trabalhos anteriores. Ainda assim, em alguns momentos, há algo de mais sombrio neste filme se o compararmos a seu antecessor, JESSE JAMES (1939), dirigido por Henry King.
A VOLTA DE FRANK JAMES é um filme de encomenda da Fox e que teve algumas restrições que o chefão Darryl F. Zanuck impusera. Lang não podia alterar certas partes do roteiro e questionou com o produtor o fato de não poder fotografar em close-up em cores. Lang não entendeu e eu ainda não entendi também, mas talvez tenha a ver com o fato de ser uma nova tecnologia.
Muitas coisas atraíram Lang para aceitar a oferta de dirigir este filme. Primeiramente, ele já tinha bastante interesse na mitologia de um país jovem como os Estados Unidos. Já havia passado um tempo com os índios, inclusive. O western para ele seria o equivalente às sagas e lendas de países mais antigos, como a lenda de Roland, na França, a saga dos nibelungos, na Alemanha, ou a lenda do Rei Artur, na Inglaterra. Os foras-da-lei foram tão romantizados quanto os homens da lei em seu tempo e se tornaram lendas. Aqui no Brasil podemos ter como exemplo também Lampião e outros líderes do cangaço.
O filme começa onde JESSE JAMES termina. Lang usa a cena do assassinato de Jesse pelas costas por Bob Ford como introdução e logo em seguida nos leva a seu irmão Frank, que já estava levando uma vida mais pacata, de lavrador e criador de gado, com um outro nome, junto com seus amigos Clem (Jackie Cooper) e Pinky (Ernest Whitman). Pinky é um homem negro que pertence ainda à era da escravatura e também possui resquícios de uma imagem muito engraçadinha dos negros americanos mostrados em filmes como ...E O VENTO LEVOU, por exemplo. A propósito, fiquei incomodado com o fato de Frank escolher ir atrás dos irmãos Ford para se vingar em vez de livrar Pinky da forca. Mas Lang ao menos lida com isso ao trazer a personagem de Gene Tierney questionando a execução de um homem inocente e funcionando como uma necessária consciência.
E Gene Tierney, no papel da jornalista (ou aspirante a jornalista) Eleanor Stone, é a melhor aquisição para o filme, que traz de volta alguns personagens/atores do anterior, como o advogado de defesa e editor da gazeta da cidade Rufus Cobb, interpretado por Henry Hull. Ele representa aqui, como já representava no filme anterior, o alívio cômico. Ele está excelente nas cenas de tribunal. Aliás, como é bacana ver que Lang estava bastante à vontade nessas cenas, depois de seu trabalho em FÚRIA (1936), em que fez pesquisas cuidadosas sobre como funcionavam as sessões nos tribunais americanos. Nas cenas no tribunal, o alívio cômico também tem a ver com a rixa existente entre sulistas e nortistas, em momento após a Guerra Civil. Nesse sentido, até o juiz se mostra parcial.
É interessante como o filme se esforça para tirar toda e qualquer culpa maior de Frank, que desde o épico de King já havia sido mostrado como o irmão mais moderado, em comparação com as tendências mais explosivas de Jesse. Frank, como vingador, não tem necessariamente que matar o assassino de Jesse. Ele acredita na justiça. Depois é que acaba por tentar se vingar quando vê que a justiça está corrompida. Mesmo assim, até para matar os inimigos, a morte é mostrada sempre como um acidente.
Mas o mais importante é que Lang faz um filme bem mais ágil que King, embora passe mais longe de sua grandiosidade. A VOLTA DE JESSE JAMES parece um filme de menor orçamento, até. Mas é impressionante como continua intenso nas cenas de perseguição a cavalo e de tiroteio. Fiquei particularmente admirado.
Quanto à personagem de Gene Tierney, atriz linda que debutava no cinema e se tornaria uma espécie de deusa dos filmes noir na década de 1940, os produtores até queriam que ela fosse de fato o par romântico de Frank, mas o estúdio ficou temeroso de que a viúva ou o filho do biografado fosse entrar com algum processo. Na dúvida, melhor deixar apenas no ar o interesse amoroso. De todo modo, seria uma bobagem, já que o filme em si não tem muito compromisso com a realidade, brinca mais com a lenda e acrescentando situações que não sujassem a imagem do protagonista.
A VOLTA DE FRANK JAMES deu tão certo que a Fox convidaria Lang para dirigir um outro western, CONQUISTADORES (1941). Falarei deste filme futuramente.
+ TRÊS FILMES
O ORGULHO (Le Brio)
Gosto de como o filme trata de um tema que me interessa, que é o estudo da oratória. Que eu nunca tive e que invejo quem tem esse dom ou essa prática. Pena que o filme se perca achando que o espectador é burro para tirar suas próprias conclusões. Além do mais, em alguns momentos, o texto é fraco. Vale pela relação que se estabelece entre professor e aluna. Direção: Yvan Attal. Ano: 2017.
O CONTADOR (The Accountant)
Não sei o que se passa com Hollywood quando fazem um filme como este. Aliás, até dá pra entender como existe, já que um nome famoso chama outro etc. Mas o resultado é um filme cansativo, com um personagem principal pouco interessante e tramas paralelas também pouco atraentes. Ben Affleck deveria ficar dirigindo, que ele se garante mais. Direção: Gavin O'Connor. Ano: 2016.
TERRA ESTRANHA (Strangerland)
Legal ver as atrizes que saíram da Oceania voltando para seus países de origem e fazendo filmes em lugares desertos, como este aqui. O filme vale pelo conflito familiar, pela trama que se descortina aos poucos e pela boa atuação de Nicole Kidman e do elenco de apoio. Direção: Kim Farrant. Ano: 2015.
A VOLTA DE FRANK JAMES é um filme de encomenda da Fox e que teve algumas restrições que o chefão Darryl F. Zanuck impusera. Lang não podia alterar certas partes do roteiro e questionou com o produtor o fato de não poder fotografar em close-up em cores. Lang não entendeu e eu ainda não entendi também, mas talvez tenha a ver com o fato de ser uma nova tecnologia.
Muitas coisas atraíram Lang para aceitar a oferta de dirigir este filme. Primeiramente, ele já tinha bastante interesse na mitologia de um país jovem como os Estados Unidos. Já havia passado um tempo com os índios, inclusive. O western para ele seria o equivalente às sagas e lendas de países mais antigos, como a lenda de Roland, na França, a saga dos nibelungos, na Alemanha, ou a lenda do Rei Artur, na Inglaterra. Os foras-da-lei foram tão romantizados quanto os homens da lei em seu tempo e se tornaram lendas. Aqui no Brasil podemos ter como exemplo também Lampião e outros líderes do cangaço.
O filme começa onde JESSE JAMES termina. Lang usa a cena do assassinato de Jesse pelas costas por Bob Ford como introdução e logo em seguida nos leva a seu irmão Frank, que já estava levando uma vida mais pacata, de lavrador e criador de gado, com um outro nome, junto com seus amigos Clem (Jackie Cooper) e Pinky (Ernest Whitman). Pinky é um homem negro que pertence ainda à era da escravatura e também possui resquícios de uma imagem muito engraçadinha dos negros americanos mostrados em filmes como ...E O VENTO LEVOU, por exemplo. A propósito, fiquei incomodado com o fato de Frank escolher ir atrás dos irmãos Ford para se vingar em vez de livrar Pinky da forca. Mas Lang ao menos lida com isso ao trazer a personagem de Gene Tierney questionando a execução de um homem inocente e funcionando como uma necessária consciência.
E Gene Tierney, no papel da jornalista (ou aspirante a jornalista) Eleanor Stone, é a melhor aquisição para o filme, que traz de volta alguns personagens/atores do anterior, como o advogado de defesa e editor da gazeta da cidade Rufus Cobb, interpretado por Henry Hull. Ele representa aqui, como já representava no filme anterior, o alívio cômico. Ele está excelente nas cenas de tribunal. Aliás, como é bacana ver que Lang estava bastante à vontade nessas cenas, depois de seu trabalho em FÚRIA (1936), em que fez pesquisas cuidadosas sobre como funcionavam as sessões nos tribunais americanos. Nas cenas no tribunal, o alívio cômico também tem a ver com a rixa existente entre sulistas e nortistas, em momento após a Guerra Civil. Nesse sentido, até o juiz se mostra parcial.
É interessante como o filme se esforça para tirar toda e qualquer culpa maior de Frank, que desde o épico de King já havia sido mostrado como o irmão mais moderado, em comparação com as tendências mais explosivas de Jesse. Frank, como vingador, não tem necessariamente que matar o assassino de Jesse. Ele acredita na justiça. Depois é que acaba por tentar se vingar quando vê que a justiça está corrompida. Mesmo assim, até para matar os inimigos, a morte é mostrada sempre como um acidente.
Mas o mais importante é que Lang faz um filme bem mais ágil que King, embora passe mais longe de sua grandiosidade. A VOLTA DE JESSE JAMES parece um filme de menor orçamento, até. Mas é impressionante como continua intenso nas cenas de perseguição a cavalo e de tiroteio. Fiquei particularmente admirado.
Quanto à personagem de Gene Tierney, atriz linda que debutava no cinema e se tornaria uma espécie de deusa dos filmes noir na década de 1940, os produtores até queriam que ela fosse de fato o par romântico de Frank, mas o estúdio ficou temeroso de que a viúva ou o filho do biografado fosse entrar com algum processo. Na dúvida, melhor deixar apenas no ar o interesse amoroso. De todo modo, seria uma bobagem, já que o filme em si não tem muito compromisso com a realidade, brinca mais com a lenda e acrescentando situações que não sujassem a imagem do protagonista.
A VOLTA DE FRANK JAMES deu tão certo que a Fox convidaria Lang para dirigir um outro western, CONQUISTADORES (1941). Falarei deste filme futuramente.
+ TRÊS FILMES
O ORGULHO (Le Brio)
Gosto de como o filme trata de um tema que me interessa, que é o estudo da oratória. Que eu nunca tive e que invejo quem tem esse dom ou essa prática. Pena que o filme se perca achando que o espectador é burro para tirar suas próprias conclusões. Além do mais, em alguns momentos, o texto é fraco. Vale pela relação que se estabelece entre professor e aluna. Direção: Yvan Attal. Ano: 2017.
O CONTADOR (The Accountant)
Não sei o que se passa com Hollywood quando fazem um filme como este. Aliás, até dá pra entender como existe, já que um nome famoso chama outro etc. Mas o resultado é um filme cansativo, com um personagem principal pouco interessante e tramas paralelas também pouco atraentes. Ben Affleck deveria ficar dirigindo, que ele se garante mais. Direção: Gavin O'Connor. Ano: 2016.
TERRA ESTRANHA (Strangerland)
Legal ver as atrizes que saíram da Oceania voltando para seus países de origem e fazendo filmes em lugares desertos, como este aqui. O filme vale pelo conflito familiar, pela trama que se descortina aos poucos e pela boa atuação de Nicole Kidman e do elenco de apoio. Direção: Kim Farrant. Ano: 2015.
sábado, julho 04, 2020
ATÉ O FIM
O cinema brasileiro, sabemos, é plural. Como o nosso país o é. Há tempos deixou de ser exclusividade do Rio de Janeiro e de São Paulo. Cidades do interior como Contagem-MG e agora também Cachoeira, no Recôncavo Baiano, aparecem no cinema brasileiro contemporâneo como áreas de explosão afetiva e artística. Os jovens cineastas baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio têm chamado a atenção desde CAFÉ COM CANELA (2017), o lindíssimo filme sobre amizade, superação diante das adversidades e valorização da cultura afro-brasileira. Isso dentro de uma estrutura que mistura experimentação com um pouco de classicismo.
A descrição até faz lembrar um bocado o mais novo filme, ATÉ O FIM (2020), exibido e premiado na 23ª Mostra Tiradentes. O filme foi ovacionado de pé e, pelas descrições, dá a entender que foi a mais intensa recepção popular de um filme na já tradicional mostra. Muito disso tem a ver com a aguardada expectativa de um novo filme da dupla, que em 2018 tinha exibido ILHA (2018), talvez o trabalho mais arriscado dos dois.
ATÉ O FIM me agrada mais por talvez ser tão feminino e tão cheio de afetividade quanto CAFÉ COM CANELA. Mas, em vez de se focar em amizades, aqui o elo que une, depois de tantos anos de distância, as protagonistas é um elo de sangue. Pelo menos três delas são irmãs. O filme começa, curiosamente, na mesma barraca de ILHA, além de fazer uma referência direta e explícita a essa obra. Isso acaba por trazer um tipo de familiaridade impressionante para quem tem ainda tão poucos filmes realizados.
É nesta barraca que conhecemos Geralda (Wal Diaz), uma mulher de meia idade que trabalha e é dona daquele espaço. Ela recebe a notícia da morte iminente de seu pai, que está internado no hospital. Essa situação será o elemento que reunirá as irmãs de Geralda. Primeiro aparece a simples e alegre Rose (Arlete Dias) e depois a premiada e bem-sucedida Bel (Maíra Azevedo). A quarta personagem aparecerá para balançar ainda mais a noite.
Toda a narrativa acontece no espaço de uma noite e muitas feridas são expostas. A começar por Geralda, que se sente abandona pelas irmãs, que deixaram a cidade sem muita explicação e Geralda ficou sozinha, cuidando do pai. E com o tempo vamos percebendo que o roteiro do filme até poderia se transformar muito bem em uma peça de teatro, já que a narrativa é toda pautada em diálogos, bem verborrágica. Mas isso não incomoda, até porque os diálogos são cheios de tensão, emoção e espontaneidade.
A figura do pai é importante, pois ele é o principal responsável pelos rumos distintos que ocorreram nas vidas daquelas mulheres. Ele nunca aparece, mas é como um espírito ruim que continua presente, cuja morte é esperada ansiosamente pela maior parte daquelas mulheres. O filme, nesse sentido, e a partir das várias discussões calorosas que ocorrem naquela mesa de bar, lida com a questão do abuso sexual, do ataque ao candomblé, da homofobia, da transfobia, do machismo etc.
Destaque para uma janela de aspecto em formato quadrado que passa um ar claustrofóbico e faz com que haja uma aproximação dentro do quadro daquelas personagens. Vez ou outra, vemos dois quadros. A movimentação e os ângulos de câmera também são bem atípicos e apontam para uma vontade de experimentar muito saudável. Então, o que temos aqui é uma junção muito bem orquestrada de um racionalismo ditado pela forma e de um sentimentalismo ditado pelos traumas e situações de fragilidade das personagens.
Além do mais, a presença da quarta personagem, Vilmar (Jenny Muller), faz com que essas emoções explodam em um convite às lágrimas, que nem sempre representam a tristeza, mas também uma mistura com a alegria de viver e de estar lidando com coragem com as dores do passado que seguem vivas no presente. Já sonho com a possibilidade de rever este filme na telona.
+ TRÊS FILMES
ILHA
Depois do lindo e feminino CAFÉ COM CANELA (2017), a dupla baiana faz algo mais masculino, centrado em dois personagens distintos: um cineasta que é capturado por um sujeito para realizar o filme de sua vida. O mais belo do filme são as cenas de calmaria, em que chegamos a um estado de espírito que, puxado por alguma emoção e também pelas ondas da ilha, que não param de bater, nos conecta a algo singular (a cena do baseado e a cena da cerveja, quando Henrique canta "Clube da Esquina 2" são os melhores exemplos). Muito provavelmente à alguma experiência que já tivemos. O filme lida com isso também, com as experiências, inclusive aquelas que ficaram um tanto esquecidas. E também com a verdade e a ficção: a ficção na verdade e vice-versa. Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio. Ano: 2018.
OS FAROFEIROS
Está longe de ser essa coisa horrível que muita gente está pintando. O negócio é aceitar o filme como ele é, uma diversão sem a menor intenção de ser algo inteligente. E tem sim vários momentos engraçados. Só não gosto de quando tenta abrir espaço para o drama. Mas isso quase toda comédia brasileira peca nesse aspecto. Direção: Roberto Santucci. Ano: 2018.
ALTAS EXPECTATIVAS
Até que a gente quer gostar do filme. E o Gigante Léo e a Camila Márdila são muito legais. Mas há muitas coisas que incomodam, como o próprio andamento, e toda essa questão da autopiedade do protagonista, que leva o filme lá pra baixo. Sem duplo sentido. Direção: Pedro Antônio e Álvaro Campos. Ano: 2017.
A descrição até faz lembrar um bocado o mais novo filme, ATÉ O FIM (2020), exibido e premiado na 23ª Mostra Tiradentes. O filme foi ovacionado de pé e, pelas descrições, dá a entender que foi a mais intensa recepção popular de um filme na já tradicional mostra. Muito disso tem a ver com a aguardada expectativa de um novo filme da dupla, que em 2018 tinha exibido ILHA (2018), talvez o trabalho mais arriscado dos dois.
ATÉ O FIM me agrada mais por talvez ser tão feminino e tão cheio de afetividade quanto CAFÉ COM CANELA. Mas, em vez de se focar em amizades, aqui o elo que une, depois de tantos anos de distância, as protagonistas é um elo de sangue. Pelo menos três delas são irmãs. O filme começa, curiosamente, na mesma barraca de ILHA, além de fazer uma referência direta e explícita a essa obra. Isso acaba por trazer um tipo de familiaridade impressionante para quem tem ainda tão poucos filmes realizados.
É nesta barraca que conhecemos Geralda (Wal Diaz), uma mulher de meia idade que trabalha e é dona daquele espaço. Ela recebe a notícia da morte iminente de seu pai, que está internado no hospital. Essa situação será o elemento que reunirá as irmãs de Geralda. Primeiro aparece a simples e alegre Rose (Arlete Dias) e depois a premiada e bem-sucedida Bel (Maíra Azevedo). A quarta personagem aparecerá para balançar ainda mais a noite.
Toda a narrativa acontece no espaço de uma noite e muitas feridas são expostas. A começar por Geralda, que se sente abandona pelas irmãs, que deixaram a cidade sem muita explicação e Geralda ficou sozinha, cuidando do pai. E com o tempo vamos percebendo que o roteiro do filme até poderia se transformar muito bem em uma peça de teatro, já que a narrativa é toda pautada em diálogos, bem verborrágica. Mas isso não incomoda, até porque os diálogos são cheios de tensão, emoção e espontaneidade.
A figura do pai é importante, pois ele é o principal responsável pelos rumos distintos que ocorreram nas vidas daquelas mulheres. Ele nunca aparece, mas é como um espírito ruim que continua presente, cuja morte é esperada ansiosamente pela maior parte daquelas mulheres. O filme, nesse sentido, e a partir das várias discussões calorosas que ocorrem naquela mesa de bar, lida com a questão do abuso sexual, do ataque ao candomblé, da homofobia, da transfobia, do machismo etc.
Destaque para uma janela de aspecto em formato quadrado que passa um ar claustrofóbico e faz com que haja uma aproximação dentro do quadro daquelas personagens. Vez ou outra, vemos dois quadros. A movimentação e os ângulos de câmera também são bem atípicos e apontam para uma vontade de experimentar muito saudável. Então, o que temos aqui é uma junção muito bem orquestrada de um racionalismo ditado pela forma e de um sentimentalismo ditado pelos traumas e situações de fragilidade das personagens.
Além do mais, a presença da quarta personagem, Vilmar (Jenny Muller), faz com que essas emoções explodam em um convite às lágrimas, que nem sempre representam a tristeza, mas também uma mistura com a alegria de viver e de estar lidando com coragem com as dores do passado que seguem vivas no presente. Já sonho com a possibilidade de rever este filme na telona.
+ TRÊS FILMES
ILHA
Depois do lindo e feminino CAFÉ COM CANELA (2017), a dupla baiana faz algo mais masculino, centrado em dois personagens distintos: um cineasta que é capturado por um sujeito para realizar o filme de sua vida. O mais belo do filme são as cenas de calmaria, em que chegamos a um estado de espírito que, puxado por alguma emoção e também pelas ondas da ilha, que não param de bater, nos conecta a algo singular (a cena do baseado e a cena da cerveja, quando Henrique canta "Clube da Esquina 2" são os melhores exemplos). Muito provavelmente à alguma experiência que já tivemos. O filme lida com isso também, com as experiências, inclusive aquelas que ficaram um tanto esquecidas. E também com a verdade e a ficção: a ficção na verdade e vice-versa. Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio. Ano: 2018.
OS FAROFEIROS
Está longe de ser essa coisa horrível que muita gente está pintando. O negócio é aceitar o filme como ele é, uma diversão sem a menor intenção de ser algo inteligente. E tem sim vários momentos engraçados. Só não gosto de quando tenta abrir espaço para o drama. Mas isso quase toda comédia brasileira peca nesse aspecto. Direção: Roberto Santucci. Ano: 2018.
ALTAS EXPECTATIVAS
Até que a gente quer gostar do filme. E o Gigante Léo e a Camila Márdila são muito legais. Mas há muitas coisas que incomodam, como o próprio andamento, e toda essa questão da autopiedade do protagonista, que leva o filme lá pra baixo. Sem duplo sentido. Direção: Pedro Antônio e Álvaro Campos. Ano: 2017.
quinta-feira, julho 02, 2020
JESSE JAMES
Na minha peregrinação por Fritz Lang, passo por este JESSE JAMES (1939), que Henry King dirigiu em sua casa, a Fox. Isso porque, um ano depois, Lang seria contratado para dirigir a continuação, A VOLTA DE FRANK JAMES. Mas isso é assunto para um próximo post. Falemos, então, desta produção muito bonita, o primeiro western em cores produzido em Hollywood, feito em um ano particularmente brilhante para o cinema americano, o mesmo ano de ...E O VENTO LEVOU e O MÁGICO DE OZ, ambos creditados a Victor Fleming, NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, de John Ford, NINOTCHKA, de Ernst Lubitsch, A MULHER FAZ O HOMEM, de Frank Capra, entre outros. Foi um ano glorioso que encerrou um momento luminoso para o cinema americano. Esse mesmo cinema que se tornaria sombrio na década seguinte, por ocasião da grande guerra que passou a assombrar o mundo.
Quanto a JESSE JAMES, é um filme que traz uma visão mais romântica do fora-da-lei, trazendo uma temática comum à época, de injustiças sociais, e introduzindo um motivo plausível para que Jesse (junto com seu irmão Frank) se tornassem pouco queridos pelas autoridades e pelos grandes empresários da época, especialmente o dono da empresa de ferrovia, que é talvez o grande vilão do filme. O xerife, interpretado pelo sempre simpático Randolph Scott, não é o antagonista de Jesse, mesmo sendo claramente interessado na namorada/esposa do rapaz.
Nem mesmo o sujeito que ganhou fama por ter matado Jesse, Bob Ford (vivido por John Carradine), pode ser considerado seu antagonista, tão desprezível o sujeito é. Aliás, é curioso como o personagem é desprezível também em alguns outros filmes que abordam essa história, como o mais recente O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD, de Andrew Dominik. Só mesmo Samuel Fuller quis entrar mais na pele do sujeito quando fez sua obra-prima MATEI JESSE JAMES, em 1949.
No JESSE JAMES de Henry King, Jesse é um bom rapaz vivido por Tyrone Power, que, junto com o irmão Frank (Henry Fonda), tentam defender a mãe da exploração da empresa que estava "comprando" as fazendas da região por uma ninharia para poder passar com os trilhos e construir também as estações. Este é um filme que, diferente de muitos outros que enaltecem o progresso que foi a chegada do trem nos Estados Unidos, olha para as pessoas que foram prejudicadas nesse processo. E, segundo o filme, foi a partir de um embate com um homem de mau caráter que estava pressionando a assinatura das pessoas da região para que abrissem mão de suas propriedades que Jesse e Frank começaram sua jornada de foras-da-lei.
Aos poucos, Jesse e Frank vão se tornando mais marginalizados. Principalmente Jesse, quando, para vingar a morte da mãe, atira e mata um homem. Não demora para que os dois formem um bando que passa a assaltar trens e bancos. Ao mesmo tempo, estabelece-se uma relação de forte afeto de Jesse com Zee (Nancy Kelly). Os dois se casam pouco antes de Jesse se entregar à polícia, a partir de um acordo que limparia seu nome depois de passar no máximo uns cinco anos na prisão. Ao ver que se tratava de uma cilada e que ele seria enforcado, o irmão consegue um meio de tirá-lo da cadeia. Até esse momento, o filme para mim estava perfeito. Depois, acho que perde um pouco a força e tem o seu ritmo prejudicado.
Quanto a Henry King, é curioso como é um cineasta pouco querido pelo pessoal adepto da teoria dos autores, talvez por ser mesmo "apenas" um respeitado artesão e ter uma versatilidade tão grande que acaba não transparecendo nenhuma obsessão. Não sei se existe do ponto de vista formal. Ainda assim, existem alguns defensores ferozes do trabalho de King, como Jacques Lourcelles, que o compara a seus contemporâneos, Allan Dwan, John Ford, Raoul Walsh e Cecil B. DeMille. Todos eles foram pioneiros, homens que ajudaram a construir o cinema hollywoodiano. Só isso já é o bastante para valorizarmos e estarmos mais atentos a ele.
JESSE JAMES foi um filme que fez bastante sucesso nas bilheterias, ganhou a já mencionada continuação por Fritz Lang e, mais à frente, um remake dirigido por Nicholas Ray, chamado QUEM FOI JESSE JAMES, em 1957.
+ TRÊS FILMES
THE EASTWOOD FACTOR
Tentei dois filmes diferentes anteontem e estava um pouco impaciente. Resolvi pegar este documentário sobre um dos maiores cineastas vivos. O diretor é um especialista em biografias e principalmente em docs sobre o Clint. Este aqui, de 2010, naturalmente cobre sua obra até INVICTUS (2009), um dos filmes dele de que menos gosto. Pra mim foi muito bom rever e me emocionar de novo com trechos de filmes como UM MUNDO PERFEITO (1993) e MENINA DE OURO (2004), e ver o quanto eu preciso ver certas coisas dele que ainda não vi e outras que preciso rever, principalmente AS PONTES DE MADISON (1995). Talvez na época que o vi eu precisasse me identificar com personagens mais jovens e não era o caso. Acho que agora já estou velho o suficiente. :) Curioso como certos filmes foram esnobados, preferiram nem tocar no assunto, talvez para que o documentário não ficasse tão maçante. Uma pena que o diretor do doc não seja tão preciosista com relação às janelas de aspecto. É tanta coisa esticada, cortada, que chega a incomodar. Atenção: há spoilers a dar com pau. Quem não tiver visto os filmes pode prejudicar a apreciação, pois mostra os seus finais. Direção: Richard Schinckel.
BLOW THE MAN DOWN
Um filme que tem, a princípio, um sabor daqueles suspenses dos anos 1970, quando o princípio da trama lida apenas com o esforço de duas irmãs de tentar se livrar do corpo de um homem morto por uma delas. Mas o filme aos poucos vai se mostrando mais complexo em seu enredo, trazendo mais mistérios e mais segredos para aquela comunidade litorânea e fria. Interessante o uso de pescadores cantando em determinados momentos, como se fossem um coro de tragédia grega. A atriz que faz a irmã mais nova é conhecida de quem assistiu a HOMELAND. Ela interpretou a filha do Sargento Brody. Direção: Bridget Savage Cole e Danielle Krudy. Ano: 2019.
RIFLE
Gosto do andamento do filme até certo momento, e do clima de espaço fantasma, e também da utilização de não-atores para a construção da trama, feita por alguém que realizou algo tão bom como CASTANHA (2014). Mas aqui a conclusão é insatisfatória. O filme, mesmo curto, parece ser maior do que é. Direção: Davi Pretto. Ano: 2016.
Quanto a JESSE JAMES, é um filme que traz uma visão mais romântica do fora-da-lei, trazendo uma temática comum à época, de injustiças sociais, e introduzindo um motivo plausível para que Jesse (junto com seu irmão Frank) se tornassem pouco queridos pelas autoridades e pelos grandes empresários da época, especialmente o dono da empresa de ferrovia, que é talvez o grande vilão do filme. O xerife, interpretado pelo sempre simpático Randolph Scott, não é o antagonista de Jesse, mesmo sendo claramente interessado na namorada/esposa do rapaz.
Nem mesmo o sujeito que ganhou fama por ter matado Jesse, Bob Ford (vivido por John Carradine), pode ser considerado seu antagonista, tão desprezível o sujeito é. Aliás, é curioso como o personagem é desprezível também em alguns outros filmes que abordam essa história, como o mais recente O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD, de Andrew Dominik. Só mesmo Samuel Fuller quis entrar mais na pele do sujeito quando fez sua obra-prima MATEI JESSE JAMES, em 1949.
No JESSE JAMES de Henry King, Jesse é um bom rapaz vivido por Tyrone Power, que, junto com o irmão Frank (Henry Fonda), tentam defender a mãe da exploração da empresa que estava "comprando" as fazendas da região por uma ninharia para poder passar com os trilhos e construir também as estações. Este é um filme que, diferente de muitos outros que enaltecem o progresso que foi a chegada do trem nos Estados Unidos, olha para as pessoas que foram prejudicadas nesse processo. E, segundo o filme, foi a partir de um embate com um homem de mau caráter que estava pressionando a assinatura das pessoas da região para que abrissem mão de suas propriedades que Jesse e Frank começaram sua jornada de foras-da-lei.
Aos poucos, Jesse e Frank vão se tornando mais marginalizados. Principalmente Jesse, quando, para vingar a morte da mãe, atira e mata um homem. Não demora para que os dois formem um bando que passa a assaltar trens e bancos. Ao mesmo tempo, estabelece-se uma relação de forte afeto de Jesse com Zee (Nancy Kelly). Os dois se casam pouco antes de Jesse se entregar à polícia, a partir de um acordo que limparia seu nome depois de passar no máximo uns cinco anos na prisão. Ao ver que se tratava de uma cilada e que ele seria enforcado, o irmão consegue um meio de tirá-lo da cadeia. Até esse momento, o filme para mim estava perfeito. Depois, acho que perde um pouco a força e tem o seu ritmo prejudicado.
Quanto a Henry King, é curioso como é um cineasta pouco querido pelo pessoal adepto da teoria dos autores, talvez por ser mesmo "apenas" um respeitado artesão e ter uma versatilidade tão grande que acaba não transparecendo nenhuma obsessão. Não sei se existe do ponto de vista formal. Ainda assim, existem alguns defensores ferozes do trabalho de King, como Jacques Lourcelles, que o compara a seus contemporâneos, Allan Dwan, John Ford, Raoul Walsh e Cecil B. DeMille. Todos eles foram pioneiros, homens que ajudaram a construir o cinema hollywoodiano. Só isso já é o bastante para valorizarmos e estarmos mais atentos a ele.
JESSE JAMES foi um filme que fez bastante sucesso nas bilheterias, ganhou a já mencionada continuação por Fritz Lang e, mais à frente, um remake dirigido por Nicholas Ray, chamado QUEM FOI JESSE JAMES, em 1957.
+ TRÊS FILMES
THE EASTWOOD FACTOR
Tentei dois filmes diferentes anteontem e estava um pouco impaciente. Resolvi pegar este documentário sobre um dos maiores cineastas vivos. O diretor é um especialista em biografias e principalmente em docs sobre o Clint. Este aqui, de 2010, naturalmente cobre sua obra até INVICTUS (2009), um dos filmes dele de que menos gosto. Pra mim foi muito bom rever e me emocionar de novo com trechos de filmes como UM MUNDO PERFEITO (1993) e MENINA DE OURO (2004), e ver o quanto eu preciso ver certas coisas dele que ainda não vi e outras que preciso rever, principalmente AS PONTES DE MADISON (1995). Talvez na época que o vi eu precisasse me identificar com personagens mais jovens e não era o caso. Acho que agora já estou velho o suficiente. :) Curioso como certos filmes foram esnobados, preferiram nem tocar no assunto, talvez para que o documentário não ficasse tão maçante. Uma pena que o diretor do doc não seja tão preciosista com relação às janelas de aspecto. É tanta coisa esticada, cortada, que chega a incomodar. Atenção: há spoilers a dar com pau. Quem não tiver visto os filmes pode prejudicar a apreciação, pois mostra os seus finais. Direção: Richard Schinckel.
BLOW THE MAN DOWN
Um filme que tem, a princípio, um sabor daqueles suspenses dos anos 1970, quando o princípio da trama lida apenas com o esforço de duas irmãs de tentar se livrar do corpo de um homem morto por uma delas. Mas o filme aos poucos vai se mostrando mais complexo em seu enredo, trazendo mais mistérios e mais segredos para aquela comunidade litorânea e fria. Interessante o uso de pescadores cantando em determinados momentos, como se fossem um coro de tragédia grega. A atriz que faz a irmã mais nova é conhecida de quem assistiu a HOMELAND. Ela interpretou a filha do Sargento Brody. Direção: Bridget Savage Cole e Danielle Krudy. Ano: 2019.
RIFLE
Gosto do andamento do filme até certo momento, e do clima de espaço fantasma, e também da utilização de não-atores para a construção da trama, feita por alguém que realizou algo tão bom como CASTANHA (2014). Mas aqui a conclusão é insatisfatória. O filme, mesmo curto, parece ser maior do que é. Direção: Davi Pretto. Ano: 2016.
terça-feira, junho 30, 2020
ESPELHO DE CARNE
Não recordo exatamente o ano em que vi pela primeira vez ESPELHO DE CARNE (1985) na televisão. Mas lembro do impacto que foi quando o vi, até por ter visto ainda muito jovem, com os hormônios em ebulição e muito animado com as cenas sensuais que o filme trazia. Mas, ao mesmo tempo que o filme me atraía pelo bom erotismo, foi também uma obra que durante muito tempo eu dizia que era o filme brasileiro que mais me assustava.
O que é um grande mérito para um filme que explora bastante o erotismo e consegue fazer essa virada de chave quando se aproxima de seu final. Claro que podemos dizer que o diabo que a personagem de Hileana Menezes diz ver é uma metáfora das mais profundas culpas diante de tanta libertinagem/liberdade que o espelho aflorou, mas, há, sim, uma busca no filme por um tom de terror.
Tive o prazer de assistir a um debate com o diretor Antonio Carlos da Fontoura na Mostra de Cinema Curta Circuito, que neste ano teve que se reinventar, em tempos de quarentena, mas que teve o lado bom de possibilitar que pessoas de várias cidades do mundo pudessem ter acesso aos filmes e aos debates. Fontoura contou que houve, durante as filmagens, uma série de eventos estranhos acontecendo, como o fato de Hileana afirmar que de fato viu um demônio.
Hoje em dia, infelizmente, o filme é mais lembrado pela cena do "quem perder, vira", na qual Daniel Filho e Dennis Carvalho apostam o acesso ao traseiro do outro. Não deixa de ser uma cena simbólica, tanto do machismo que ainda impera, quanto da posição de superioridade da pessoa que está desempenhando o lado "ativo" do sexo. Além do mais, tanto Daniel quanto Dennis já eram vistos como pessoas bastante poderosas da Rede Globo. A cena ainda continua divertida. Mas a culpa é do espelho.
O espelho misterioso e que traz à tona os instintos mais primitivos e os desejos mais ardentes das pessoas que estão ali perto é comprado em um leilão e instalado no quarto de um apartamento de um casal burguês (Dennis e Hilieana). Três visitas surgem e também são contaminados pela força do espelho: as personagens de Maria Zilda e Joanna Fomm e o já citado Daniel Filho.
Baseado em uma peça de teatro que não chegou a ser encenada, o filme se passa quase que inteiramente dentro do apartamento, principalmente no quarto e na sala. Isso barateou bastante os custos e possibilitou que a produção, naqueles tempos de Embrafilme, fosse bastante viável, além de também continuar sendo atraente, em especial quando trazia elencos globais como esse. Eu, por exemplo, na época da novela GUERRA DO SEXOS, de 1983, era apaixonado por Maria Zilda. Eu ainda era criança, mas ela, junto com Maitê Proença, talvez tenham sido as minhas primeiras aspirações no campo da sexualidade.
Há uma cena especialmente carregada de sensualidade e de alta temperatura erótica, que é a cena da diarista, que chega para fazer faxina no quarto e, sob influência do tal espelho, começa a tirar a roupa e a se masturbar. A cena ainda tem muita força e é representativa também do abismo social, já que as mulheres ricas veem o ato daquela mulher na cama como sendo um ultraje.
Enfim, foi ótimo poder rever o filme e ainda ter a honra de participar do debate com o realizador.
+ TRÊS FILMES
REPÚBLICA DOS ASSASSINOS
Um privilégio poder testemunhar um dos momentos mais brilhantes do cinema brasileiro. E em um instante em que o povo brasileiro estava com muita coisa entalada na garganta. Daí mostrar a polícia como um bando de bandidos prontos para executar as pessoas a sangue frio e como uma alegoria do país em tempos de ditadura. Além do mais, que puta elenco! Que interpretação assustadora do Tarcísio Meira! Que linda que está Sylvia Bandeira (mais ainda do que em BAR ESPERANÇA!) Que foda que é a cena do beijo na boca de Anselmo Vasconcelos e Tonico Pereira ao som de Roberto Carlos. Direção: Miguel Faria Jr. Ano: 1979.
DE PERNAS PRO AR 3
Resolvi dar uma chance a este terceiro filme da franquia da Ingrid Guimarães pelo simples fato de ser a Julia Rezende dirigindo. E, mesmo sem ter visto os demais, creio que possa ter feito alguma diferença. Ainda que ela tenha pegado uma franquia em andamento. Não sendo um filme para gargalhar o tempo todo, mas uma história de rejeição e readaptação de uma mulher, o filme tem força em vários momentos. Mas eu diria que muito da força está no elenco jovem: na menina que é a suposta rival da protagonista (Samya Pascotto - onde encontraram essa menina?) e no filho. Algumas cenas foram prejudicadas pelo excesso de exibição nos trailers. Ano: 2019.
UMA NOITE EM SAMPA
Diverti-me bastante com esta comédia sobre o medo paralisante gerado em boa parte pela paranoia das classes mais privilegiadas. Mas é verdade que é um dos trabalhos mais irregulares do Ugo Giorgetti. Ano: 2016.
O que é um grande mérito para um filme que explora bastante o erotismo e consegue fazer essa virada de chave quando se aproxima de seu final. Claro que podemos dizer que o diabo que a personagem de Hileana Menezes diz ver é uma metáfora das mais profundas culpas diante de tanta libertinagem/liberdade que o espelho aflorou, mas, há, sim, uma busca no filme por um tom de terror.
Tive o prazer de assistir a um debate com o diretor Antonio Carlos da Fontoura na Mostra de Cinema Curta Circuito, que neste ano teve que se reinventar, em tempos de quarentena, mas que teve o lado bom de possibilitar que pessoas de várias cidades do mundo pudessem ter acesso aos filmes e aos debates. Fontoura contou que houve, durante as filmagens, uma série de eventos estranhos acontecendo, como o fato de Hileana afirmar que de fato viu um demônio.
Hoje em dia, infelizmente, o filme é mais lembrado pela cena do "quem perder, vira", na qual Daniel Filho e Dennis Carvalho apostam o acesso ao traseiro do outro. Não deixa de ser uma cena simbólica, tanto do machismo que ainda impera, quanto da posição de superioridade da pessoa que está desempenhando o lado "ativo" do sexo. Além do mais, tanto Daniel quanto Dennis já eram vistos como pessoas bastante poderosas da Rede Globo. A cena ainda continua divertida. Mas a culpa é do espelho.
O espelho misterioso e que traz à tona os instintos mais primitivos e os desejos mais ardentes das pessoas que estão ali perto é comprado em um leilão e instalado no quarto de um apartamento de um casal burguês (Dennis e Hilieana). Três visitas surgem e também são contaminados pela força do espelho: as personagens de Maria Zilda e Joanna Fomm e o já citado Daniel Filho.
Baseado em uma peça de teatro que não chegou a ser encenada, o filme se passa quase que inteiramente dentro do apartamento, principalmente no quarto e na sala. Isso barateou bastante os custos e possibilitou que a produção, naqueles tempos de Embrafilme, fosse bastante viável, além de também continuar sendo atraente, em especial quando trazia elencos globais como esse. Eu, por exemplo, na época da novela GUERRA DO SEXOS, de 1983, era apaixonado por Maria Zilda. Eu ainda era criança, mas ela, junto com Maitê Proença, talvez tenham sido as minhas primeiras aspirações no campo da sexualidade.
Há uma cena especialmente carregada de sensualidade e de alta temperatura erótica, que é a cena da diarista, que chega para fazer faxina no quarto e, sob influência do tal espelho, começa a tirar a roupa e a se masturbar. A cena ainda tem muita força e é representativa também do abismo social, já que as mulheres ricas veem o ato daquela mulher na cama como sendo um ultraje.
Enfim, foi ótimo poder rever o filme e ainda ter a honra de participar do debate com o realizador.
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REPÚBLICA DOS ASSASSINOS
Um privilégio poder testemunhar um dos momentos mais brilhantes do cinema brasileiro. E em um instante em que o povo brasileiro estava com muita coisa entalada na garganta. Daí mostrar a polícia como um bando de bandidos prontos para executar as pessoas a sangue frio e como uma alegoria do país em tempos de ditadura. Além do mais, que puta elenco! Que interpretação assustadora do Tarcísio Meira! Que linda que está Sylvia Bandeira (mais ainda do que em BAR ESPERANÇA!) Que foda que é a cena do beijo na boca de Anselmo Vasconcelos e Tonico Pereira ao som de Roberto Carlos. Direção: Miguel Faria Jr. Ano: 1979.
DE PERNAS PRO AR 3
Resolvi dar uma chance a este terceiro filme da franquia da Ingrid Guimarães pelo simples fato de ser a Julia Rezende dirigindo. E, mesmo sem ter visto os demais, creio que possa ter feito alguma diferença. Ainda que ela tenha pegado uma franquia em andamento. Não sendo um filme para gargalhar o tempo todo, mas uma história de rejeição e readaptação de uma mulher, o filme tem força em vários momentos. Mas eu diria que muito da força está no elenco jovem: na menina que é a suposta rival da protagonista (Samya Pascotto - onde encontraram essa menina?) e no filho. Algumas cenas foram prejudicadas pelo excesso de exibição nos trailers. Ano: 2019.
UMA NOITE EM SAMPA
Diverti-me bastante com esta comédia sobre o medo paralisante gerado em boa parte pela paranoia das classes mais privilegiadas. Mas é verdade que é um dos trabalhos mais irregulares do Ugo Giorgetti. Ano: 2016.
segunda-feira, junho 29, 2020
CASAMENTO PROIBIDO (You and Me)
Ao que parece, há quase uma unanimidade entre a crítica ao dizer que CASAMENTO PROIBIDO (1938) é um dos filmes menos importantes de Fritz Lang. O crítico Lewis Jacob disse que era o menos importante, mesmo vendo-o como relevante no sentido de ajudar a quebrar certas fórmulas hollywoodianas. E acho isso muito curioso, pois eu achei o filme uma delícia, por mais que pareça desequilibrado na utilização do humor.
O filme é a terceira e última parceria de Lang com a atriz Sylvia Sidney, que esteve com ele em FÚRIA (1936) e em VIVE-SE UMA SÓ VEZ (1937), dois trabalhos muito mais próximos da tensão e da tragédia, enquanto que CASAMENTO PROIBIDO é uma comédia romântica leve, ainda que também trate com seriedade o assunto que já havia sido tratado no título anterior, que é o posicionamento da sociedade diante de ex-presidiários.
A trama pode ser até um pouco inverossímil, mas não me importo: um dono de uma loja de departamentos contrata um grande número de ex-presidiários, pessoas que ainda estão em liberdade condicional. Ele acredita que, mais do que doar dinheiro, o melhor meio de ajudar essas pessoas é oferecê-las um emprego, algo muito difícil numa sociedade que costuma maltratar e estigmatizar essas pessoas. É um tipo de empregador que, se existir, não deve ser nos Estados Unidos.
Um homem e uma mulher que trabalham na mesma loja de departamentos se apaixonam. O contato entre eles na loja já passa um tipo de carinho e sentimento muito bonito na cena em que eles se cruzam em um escada rolante e tocam a mão do outro. Logo ficamos sabendo que ele, Joe (George Raft), está mudando de cidade. Ela, Helen (Sylvia Sidney), sabe que ele já cumpriu pena, mas mesmo assim gosta dele. Não demora muito para que aquela tensão de um amor não contado exploda e os dois acabem se casando. Mas a confusão vem do fato de que ela esconde algo dele.
Sylvia Sidney está sensacional em uma cena em que dá uma aula de lucro/prejuízo a um grupo de gângsteres que desejava assaltar a loja. A cena é talvez o ponto alto da atriz dentro dessa trilogia de Lang, fugindo da figura de mulher carinhosa e um tanto chorona que permeava os trabalhos anteriores. Aqui vemos a jovem mulher dando uma lição nos marmanjos, depois de eles serem pegos em flagrante. Em muitas partes da cena é fácil nos pegarmos com um sorriso no rosto. E isso é muito bom, por mais que Lang pareça falhar ou ao menos deixar passar uma certa estranheza em uma cena que deveria mesmo ser hilária. É o caso da cena dos gângsteres falando do quanto sentem saudades dos tempos da prisão. Essa estranheza tem o seu charme. Até parece Lang tirando de seus filmes anteriores.
Outra coisa que chama a atenção logo de início é a música que abre o filme, que, a princípio, eu pensei se tratar de uma crítica ao capitalismo (afinal, a canção diz que tudo que você precisa, você tem que conseguir com dinheiro), mas é uma espécie de brincadeira com o lema "o crime não compensa". Não se pode conseguir as coisas na vida assim tão facilmente.
Pena que o filme tenha sido um fracasso nas bilheterias americanas e tenha deixado Lang em inatividade por dois anos, e trazendo um sentimento errôneo de que os seus trabalhos realizados na Alemanha eram superiores ao período hollywoodiano. Mas sua história nos Estados Unidos estava apenas começando.
+ TRÊS FILMES
MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia! Here We Go Again)
Um musical bem desleixado e feito meio que para aproveitar que havia um monte de gente boa pronta para o projeto e não porque havia uma boa ideia, um bom roteiro ou mesmo boas ideias para as cenas musicais. Ainda assim, achei emocionante a cena de "Dancing Queen". E olha que nem sou muito fã da canção. Mas fiquei arrepiado com o misto de sentimentos que a cena traz. Direção: Ol Parker. Ano: 2018.
KINGSMAN - O CÍRCULO DOURADO (Kingsman - The Golden Circle)
O primeiro filme, eu havia gostado, mas era um tipo de diversão escapista e esquecível, com exceção de algumas cenas, com a da igreja. Mas aí vem essa continuação que não é baseada em HQ nenhuma do Mark Millar. Só aproveitam para cagar em cima dos personagens que ele criou. E o problema não é só nas ideias, mas principalmente na condução da coisa. Mais irritante que comédia que não faz rir ou sorrir é filme de ação que se esforça para empolgar e só cansa. Ainda mais tendo quase duas horas e meia de duração. E o que é aquilo com o Elton John, hein? Estou querendo lembrar de uma parte do filme que eu gostei e não consigo. Direção: Matthew Vaughn. Ano: 2017.
DESPEDIDA EM GRANDE ESTILO (Going in Style)
É mais um filme bacana sobre amizade do que uma história cômica sobre um assalto. Mas funciona nos dois aspectos, graças ao excelente trio de veteranos. Só achei que me pareceu um pouco longo para uma comédia despretensiosa. O que importa também é que dá pra dar boas risadas. E tem uma parte que parece uma versão cômica de uma cena do filme recente do Loach. Direção: Zach Braff. Ano: 2017.
O filme é a terceira e última parceria de Lang com a atriz Sylvia Sidney, que esteve com ele em FÚRIA (1936) e em VIVE-SE UMA SÓ VEZ (1937), dois trabalhos muito mais próximos da tensão e da tragédia, enquanto que CASAMENTO PROIBIDO é uma comédia romântica leve, ainda que também trate com seriedade o assunto que já havia sido tratado no título anterior, que é o posicionamento da sociedade diante de ex-presidiários.
A trama pode ser até um pouco inverossímil, mas não me importo: um dono de uma loja de departamentos contrata um grande número de ex-presidiários, pessoas que ainda estão em liberdade condicional. Ele acredita que, mais do que doar dinheiro, o melhor meio de ajudar essas pessoas é oferecê-las um emprego, algo muito difícil numa sociedade que costuma maltratar e estigmatizar essas pessoas. É um tipo de empregador que, se existir, não deve ser nos Estados Unidos.
Um homem e uma mulher que trabalham na mesma loja de departamentos se apaixonam. O contato entre eles na loja já passa um tipo de carinho e sentimento muito bonito na cena em que eles se cruzam em um escada rolante e tocam a mão do outro. Logo ficamos sabendo que ele, Joe (George Raft), está mudando de cidade. Ela, Helen (Sylvia Sidney), sabe que ele já cumpriu pena, mas mesmo assim gosta dele. Não demora muito para que aquela tensão de um amor não contado exploda e os dois acabem se casando. Mas a confusão vem do fato de que ela esconde algo dele.
Sylvia Sidney está sensacional em uma cena em que dá uma aula de lucro/prejuízo a um grupo de gângsteres que desejava assaltar a loja. A cena é talvez o ponto alto da atriz dentro dessa trilogia de Lang, fugindo da figura de mulher carinhosa e um tanto chorona que permeava os trabalhos anteriores. Aqui vemos a jovem mulher dando uma lição nos marmanjos, depois de eles serem pegos em flagrante. Em muitas partes da cena é fácil nos pegarmos com um sorriso no rosto. E isso é muito bom, por mais que Lang pareça falhar ou ao menos deixar passar uma certa estranheza em uma cena que deveria mesmo ser hilária. É o caso da cena dos gângsteres falando do quanto sentem saudades dos tempos da prisão. Essa estranheza tem o seu charme. Até parece Lang tirando de seus filmes anteriores.
Outra coisa que chama a atenção logo de início é a música que abre o filme, que, a princípio, eu pensei se tratar de uma crítica ao capitalismo (afinal, a canção diz que tudo que você precisa, você tem que conseguir com dinheiro), mas é uma espécie de brincadeira com o lema "o crime não compensa". Não se pode conseguir as coisas na vida assim tão facilmente.
Pena que o filme tenha sido um fracasso nas bilheterias americanas e tenha deixado Lang em inatividade por dois anos, e trazendo um sentimento errôneo de que os seus trabalhos realizados na Alemanha eram superiores ao período hollywoodiano. Mas sua história nos Estados Unidos estava apenas começando.
+ TRÊS FILMES
MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia! Here We Go Again)
Um musical bem desleixado e feito meio que para aproveitar que havia um monte de gente boa pronta para o projeto e não porque havia uma boa ideia, um bom roteiro ou mesmo boas ideias para as cenas musicais. Ainda assim, achei emocionante a cena de "Dancing Queen". E olha que nem sou muito fã da canção. Mas fiquei arrepiado com o misto de sentimentos que a cena traz. Direção: Ol Parker. Ano: 2018.
KINGSMAN - O CÍRCULO DOURADO (Kingsman - The Golden Circle)
O primeiro filme, eu havia gostado, mas era um tipo de diversão escapista e esquecível, com exceção de algumas cenas, com a da igreja. Mas aí vem essa continuação que não é baseada em HQ nenhuma do Mark Millar. Só aproveitam para cagar em cima dos personagens que ele criou. E o problema não é só nas ideias, mas principalmente na condução da coisa. Mais irritante que comédia que não faz rir ou sorrir é filme de ação que se esforça para empolgar e só cansa. Ainda mais tendo quase duas horas e meia de duração. E o que é aquilo com o Elton John, hein? Estou querendo lembrar de uma parte do filme que eu gostei e não consigo. Direção: Matthew Vaughn. Ano: 2017.
DESPEDIDA EM GRANDE ESTILO (Going in Style)
É mais um filme bacana sobre amizade do que uma história cômica sobre um assalto. Mas funciona nos dois aspectos, graças ao excelente trio de veteranos. Só achei que me pareceu um pouco longo para uma comédia despretensiosa. O que importa também é que dá pra dar boas risadas. E tem uma parte que parece uma versão cômica de uma cena do filme recente do Loach. Direção: Zach Braff. Ano: 2017.
domingo, junho 28, 2020
THE SOUVENIR
Desconhecia o trabalho de Joanna Hogg. Aliás, sequer sabia da existência da cineasta, que já está em seu quarto longa-metragem. Quando vi THE SOUVENIR (2019) não sabia o quanto o projeto era pessoal para a diretora. Não apenas pessoal: é autobiográfico; baseado em suas memórias de quando tinha 20 e poucos anos. Até mesmo o apartamento em que morava foi reconstruído a partir de uma fotografia que ela tinha. A história se passa em Londres, no início da década de 1980. E aborda um relacionamento que hoje podemos facilmente observar como sendo tóxico.
O filme ganhou um dos principais prêmios do Festival de Sundance do ano passado e é curioso como não chegou a ter uma repercussão boa o suficiente no Brasil, talvez por não ter tido um lançamento nos cinemas. Foi lançado nos streamings neste período da quarentena. Ainda assim, acaba passando batido em meio a tantas opções disponíveis, mesmo que a grande maioria das opções não valha o nosso valioso tempo.
Só o fato de ser um filme baseado em uma memória já me provoca o interesse, já alimenta a minha relação com ele. A própria diretora hesitou bastante em materializá-lo, justamente por tratar de algo tão íntimo e tão incômodo. É um projeto que ela alimentou desde 2015. Para conseguir uma atriz para interpretar sua personagem na juventude ela escolheu a semi-estreante Honor Swinton Byrne, filha de Tilda Swinton. A atriz só tinha no currículo de atriz uma pequena participação em UM SONHO DE AMOR, de Luca Gaudagnino, estrelado por Swinton.
Na trama, Honor é Julie, uma jovem estudante de cinema que conhece um homem um pouco mais velho, Anthony (Tom Burke), por quem se interessa e se apaixona. O homem é arrogante, lacônico, costuma apontar defeitos na moça, quando ele mesmo não parece ter lá suas qualidades. Nem bonito ele é. Ele esconde uma vulnerabilidade que surgirá aos poucos, à medida que formos conhecendo mais o personagem.
Em entrevista com a diretora ao jornal britânico The Guardian, a atriz Honor Swinton Byrne afirma: "Toda pessoa na faixa dos 20 anos não sabe o que está acontecendo em sua vida. Você está tentando descobrir no que você é bom, quem você é, o que você quer, quais são seus limites. E você comete erros e tem problemas de auto-confiança." Então, o que Anthony faz com Julie é se aproveitar desse momento mais delicado de se estar em seus 20s. Por mais que possamos nos solidarizar com os problemas de Anthony mais perto da segunda metade do filme, a relação vampírica é difícil de perdoar, de aceitar, ainda mais sendo Julie uma pessoa tão doce.
É impressionante a atuação de Honor. Nem parece estar atuando, de tão natural que é sua performance. Seu trabalho também foi de pesquisa: ela chegou a ler os diários da diretora dos anos 1980, a fim de buscar identificação e conhecimento sobre ela e ajudar na formulação da personagem. E Joanna Hogg imprime um trabalho realista nos diálogos que torna o filme verdadeiro em muitos aspectos.
THE SOUVENIR causa bastante desconforto, pois, desde o começo, a relação que se estabelece entre Julie e Anthony não parece agradável. Vemos tudo com certo distanciamento, não parece ser fácil se apegar ao personagem masculino como ela se apegou. Fica-se o tempo todo querendo que ela saia desse relacionamento e a pergunta vem e é feita à própria diretora na referida entrevista: "Por que ela ficou com Anthony por tanto tempo?". Ela afirma que é uma pergunta que não é possível responder.
Há no filme uma espécie de valorização e de saudosismo do mundo analógico. E isso é mostrado tanto nas cenas em que Julie está fotografando os amigos nas festas intimistas, quanto nas aulas de cinema a que ela assiste ou nas fitas cassete que ela coloca para escutar em seu aparelho de som. Aliás, é muito bom o uso bastante pontual da música no filme, entrecortando os silêncios.
O filme foi rodado cronologicamente em 16 mm e percebemos claramente a textura diferente e o bonito grão na fotografia. Cada rolo de 16 mm tem duração de 11 minutos, então havia o aspecto divertido de lidar com essa limitação. E essa opção por filmar em ordem cronológica pode ter influenciado positivamente na construção dramática da protagonista.
No fim dos créditos, anuncia-se um THE SOUVENIR - PARTE 2, que já está em fase de pós-produção e será lançado no próximo ano. Segundo a diretora, a parte dois começa quase que imediatamente onde termina a primeira e vai de 1985 até o final da década. Fiquemos atentos para mais um mergulho na memória e nos sentimentos de Joanna Hogg.
+ TRÊS FILMES
STAR 80
E o filme de despedida de Bob Fosse foi este drama tenso sobre a morte de uma playmate e atriz iniciante, no filme vivida por uma Mariel Hemingway tão doce que às vezes chega a incomodar. Mas não tão incômodo quanto o namorado aproveitador e escroto vivido por Eric Roberts, um ator menor que talvez tenha aqui seu maior papel, como um psicopata difícil de se livrar. O filme se estrutura às vezes como um documentário, nas cenas em que alguns personagens contam para a polícia suas versões da história. A vítima é Dorothy Stratten, morta aos 20 anos de idade pelo ex-namorado. Seu último filme foi MUITO RISO E MUITA ALEGRIA, de Peter Bogdanovich, que teve uma depressão severa depois do ocorrido. Ano: 1983.
ALÉM DAS PALAVRAS (A Quiet Passion)
Conheço muito pouco ou quase nada da poesia de Emily Dickinson. Mas depois de ver este filme sempre que ler um poema dela vou ficar pensando na vida dela, no que ela passou (e não passou). Filme de silêncios, angústias e tentativas de autoafirmação diante de um mundo hostil. Cynthia Nixon está ótima, mas Jennifer Elhe rouba a cena também. Assim como a interpretação poderosa de Keith Carradine, como o pai de Emily. Direção: Terence Davies. Ano: 2016.
COMO VOCÊ É (Como as You Are)
Pra quem viveu de forma intensa a década de 1990 é bem interessante ver este filme que retrata uma juventude com dificuldade de lidar com a energia ou com os sentimentos. Tem algo na conclusão que não me agrada, mas até chegar lá é um belo filme. Direção: Miles Joris-Peyrafitte. Ano: 2016.
O filme ganhou um dos principais prêmios do Festival de Sundance do ano passado e é curioso como não chegou a ter uma repercussão boa o suficiente no Brasil, talvez por não ter tido um lançamento nos cinemas. Foi lançado nos streamings neste período da quarentena. Ainda assim, acaba passando batido em meio a tantas opções disponíveis, mesmo que a grande maioria das opções não valha o nosso valioso tempo.
Só o fato de ser um filme baseado em uma memória já me provoca o interesse, já alimenta a minha relação com ele. A própria diretora hesitou bastante em materializá-lo, justamente por tratar de algo tão íntimo e tão incômodo. É um projeto que ela alimentou desde 2015. Para conseguir uma atriz para interpretar sua personagem na juventude ela escolheu a semi-estreante Honor Swinton Byrne, filha de Tilda Swinton. A atriz só tinha no currículo de atriz uma pequena participação em UM SONHO DE AMOR, de Luca Gaudagnino, estrelado por Swinton.
Na trama, Honor é Julie, uma jovem estudante de cinema que conhece um homem um pouco mais velho, Anthony (Tom Burke), por quem se interessa e se apaixona. O homem é arrogante, lacônico, costuma apontar defeitos na moça, quando ele mesmo não parece ter lá suas qualidades. Nem bonito ele é. Ele esconde uma vulnerabilidade que surgirá aos poucos, à medida que formos conhecendo mais o personagem.
Em entrevista com a diretora ao jornal britânico The Guardian, a atriz Honor Swinton Byrne afirma: "Toda pessoa na faixa dos 20 anos não sabe o que está acontecendo em sua vida. Você está tentando descobrir no que você é bom, quem você é, o que você quer, quais são seus limites. E você comete erros e tem problemas de auto-confiança." Então, o que Anthony faz com Julie é se aproveitar desse momento mais delicado de se estar em seus 20s. Por mais que possamos nos solidarizar com os problemas de Anthony mais perto da segunda metade do filme, a relação vampírica é difícil de perdoar, de aceitar, ainda mais sendo Julie uma pessoa tão doce.
É impressionante a atuação de Honor. Nem parece estar atuando, de tão natural que é sua performance. Seu trabalho também foi de pesquisa: ela chegou a ler os diários da diretora dos anos 1980, a fim de buscar identificação e conhecimento sobre ela e ajudar na formulação da personagem. E Joanna Hogg imprime um trabalho realista nos diálogos que torna o filme verdadeiro em muitos aspectos.
THE SOUVENIR causa bastante desconforto, pois, desde o começo, a relação que se estabelece entre Julie e Anthony não parece agradável. Vemos tudo com certo distanciamento, não parece ser fácil se apegar ao personagem masculino como ela se apegou. Fica-se o tempo todo querendo que ela saia desse relacionamento e a pergunta vem e é feita à própria diretora na referida entrevista: "Por que ela ficou com Anthony por tanto tempo?". Ela afirma que é uma pergunta que não é possível responder.
Há no filme uma espécie de valorização e de saudosismo do mundo analógico. E isso é mostrado tanto nas cenas em que Julie está fotografando os amigos nas festas intimistas, quanto nas aulas de cinema a que ela assiste ou nas fitas cassete que ela coloca para escutar em seu aparelho de som. Aliás, é muito bom o uso bastante pontual da música no filme, entrecortando os silêncios.
O filme foi rodado cronologicamente em 16 mm e percebemos claramente a textura diferente e o bonito grão na fotografia. Cada rolo de 16 mm tem duração de 11 minutos, então havia o aspecto divertido de lidar com essa limitação. E essa opção por filmar em ordem cronológica pode ter influenciado positivamente na construção dramática da protagonista.
No fim dos créditos, anuncia-se um THE SOUVENIR - PARTE 2, que já está em fase de pós-produção e será lançado no próximo ano. Segundo a diretora, a parte dois começa quase que imediatamente onde termina a primeira e vai de 1985 até o final da década. Fiquemos atentos para mais um mergulho na memória e nos sentimentos de Joanna Hogg.
+ TRÊS FILMES
STAR 80
E o filme de despedida de Bob Fosse foi este drama tenso sobre a morte de uma playmate e atriz iniciante, no filme vivida por uma Mariel Hemingway tão doce que às vezes chega a incomodar. Mas não tão incômodo quanto o namorado aproveitador e escroto vivido por Eric Roberts, um ator menor que talvez tenha aqui seu maior papel, como um psicopata difícil de se livrar. O filme se estrutura às vezes como um documentário, nas cenas em que alguns personagens contam para a polícia suas versões da história. A vítima é Dorothy Stratten, morta aos 20 anos de idade pelo ex-namorado. Seu último filme foi MUITO RISO E MUITA ALEGRIA, de Peter Bogdanovich, que teve uma depressão severa depois do ocorrido. Ano: 1983.
ALÉM DAS PALAVRAS (A Quiet Passion)
Conheço muito pouco ou quase nada da poesia de Emily Dickinson. Mas depois de ver este filme sempre que ler um poema dela vou ficar pensando na vida dela, no que ela passou (e não passou). Filme de silêncios, angústias e tentativas de autoafirmação diante de um mundo hostil. Cynthia Nixon está ótima, mas Jennifer Elhe rouba a cena também. Assim como a interpretação poderosa de Keith Carradine, como o pai de Emily. Direção: Terence Davies. Ano: 2016.
COMO VOCÊ É (Como as You Are)
Pra quem viveu de forma intensa a década de 1990 é bem interessante ver este filme que retrata uma juventude com dificuldade de lidar com a energia ou com os sentimentos. Tem algo na conclusão que não me agrada, mas até chegar lá é um belo filme. Direção: Miles Joris-Peyrafitte. Ano: 2016.
sábado, junho 27, 2020
VIVE-SE UMA SÓ VEZ (You Only Live Once)
Todo homem - em seu nascimento - é dotado da nobreza de um rei. Mas a mancha do mundo logo o faz esquecer até o direito de nascimento.
Padre Dolan (em cena de VIVE-SE UMA SÓ VEZ)
Retomo hoje a peregrinação pela obra de Fritz Lang com seu segundo filme realizado nos Estados Unidos. É também sua segunda parceria com a atriz Sylvia Sidney, que combina muito bem com um ar de mulher carinhosa e amável. De fato sua personagem é tudo isso e muito mais. Ela espera o namorado (Henry Fonda) sair de um período de três anos da cadeia. E o filme começa justamente no momento da saída do personagem da prisão, sem aquela cara de alegria. Não foi sua primeira vez na cadeia e ele tem suas razões para acreditar que o mundo lá fora pode não deixar que ele sobreviva como uma pessoa honesta. Esse já era um assunto tratado, ainda que de maneira não tão direta, em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933).
VIVE-SE UMA SÓ VEZ (1937) é uma espécie de mix de Romeu e Julieta com Bonnie & Clyde. Seus heróis, Joan (Sidney) e Eddie (Fonda), estão destinados a um final infeliz, como já podemos prever desde as primeiras cenas do filme. Em determinada cena, o casal está em um de seus momentos mais felizes, recém-casados, em uma hospedagem bonita e bucólica e veem sapos. Eddie diz que quando um sapo morre, o outro morre também: não consegue viver sem o outro. Daí a lembrança de Romeu e Julieta logo nos primeiros momentos.
Herdeiro de uma safra de filmes de preocupação social dos anos 1930, da qual o anterior de Lang, FÚRIA (1936), também faz parte, VIVE-SE UMA SÓ VEZ também é uma espécie de proto-film noir. A atmosfera hostil está no ar. Mas aqui há uma tendência, inclusive pelo uso da música, muito presente, em canalizar para um melodrama, o que não chega a ser um problema, mas que em alguns momentos incomoda um pouco.
O filme também apresenta a sociedade como extremamente cruel. Primeiramente pela incapacidade de lidar com ex-presidiários, o que os deixa à margem e muito mais propensos a voltarem ao mundo do crime. O sistema judiciário é questionado, pela facilidade de levar pessoas inocentes para a prisão. A crueldade se manifesta de maneira mais forte em dois momentos do filme: quando Eddie corta os pulsos deliberadamente às vésperas da execução e é imediatamente levado para fazer uma transfusão de sangue para estar apto a ir para a cadeira elétrica (isso é muito cruel!); e na cena da expectativa dos editores dos jornais, que já têm guardadas três opções de primeira página no dia do julgamento, de acordo com o resultado, mas com uma espécie de torcida pela infelicidade do homem.
O filme possui umas elipses curiosas. Quando corta para a cena em que Eddie já está na véspera de ir para a cadeira elétrica, fiquei com a impressão de que aquilo tudo tinha sido resolvido da noite para o dia, quando na verdade são cinco meses. Ainda assim, um espaço de tempo curto. Não sei o quanto era condizente com o que de fato ocorria. O mesmo ocorre com o nascimento do bebê. Não deixa de ser um tipo de montagem mais moderna. Não sei se já era comum na época.
+ TRÊS FILMES
JOVEM MULHER (Jeune Femme)
Que baita filme esse, hein! Do início ao fim, respira e passa uma vitalidade impressionante. Que atriz que é essa jovem Laetitia Dosch. É mais um exemplar de um grande filme dirigido por uma mulher que pudemos ver no brilhante ano de 2017 de nosso Senhor. JOVEM MULHER nos pega pelo braço e não nos deixa desinteressados. Ao contrário: o desfecho é lindo. Direção: Léonor Serraille. Ano: 2017.
VICTORIA E ABDUL - O CONFIDENTE DA RAINHA (Victoria & Abdul)
O que houve com Stephen Frears? De toda maneira, este VICTORIA E ABDUL não deixa de ser um filme bem simpático e divertido, e que ajuda a enriquecer mais um momento da vida da Rainha Victoria nos cinemas. Os protagonistas estão ótimos e o outro ator que faz o segundo indiano é hilário. Ano: 2017.
NÃO SE PREOCUPE, ESTOU BEM (Je Vais Bien, Ne T'En Fais Pas)
Acho que nem sabia quem era Phillippe Lioret (o diretor), mas foi só ver o cartaz e as fotos da Mélanie Laurent no MKO que quis logo ver este filme.. E é um belíssimo filme sobre amor de irmã. E um bocado doloroso também. E que bom ver a Mélanie assim novinha, antes de fazer BASTARDOS INGLÓRIOS. E quanta força ela imprime na tela. Maravilhosa. Ano: 2006.
Padre Dolan (em cena de VIVE-SE UMA SÓ VEZ)
Retomo hoje a peregrinação pela obra de Fritz Lang com seu segundo filme realizado nos Estados Unidos. É também sua segunda parceria com a atriz Sylvia Sidney, que combina muito bem com um ar de mulher carinhosa e amável. De fato sua personagem é tudo isso e muito mais. Ela espera o namorado (Henry Fonda) sair de um período de três anos da cadeia. E o filme começa justamente no momento da saída do personagem da prisão, sem aquela cara de alegria. Não foi sua primeira vez na cadeia e ele tem suas razões para acreditar que o mundo lá fora pode não deixar que ele sobreviva como uma pessoa honesta. Esse já era um assunto tratado, ainda que de maneira não tão direta, em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933).
VIVE-SE UMA SÓ VEZ (1937) é uma espécie de mix de Romeu e Julieta com Bonnie & Clyde. Seus heróis, Joan (Sidney) e Eddie (Fonda), estão destinados a um final infeliz, como já podemos prever desde as primeiras cenas do filme. Em determinada cena, o casal está em um de seus momentos mais felizes, recém-casados, em uma hospedagem bonita e bucólica e veem sapos. Eddie diz que quando um sapo morre, o outro morre também: não consegue viver sem o outro. Daí a lembrança de Romeu e Julieta logo nos primeiros momentos.
Herdeiro de uma safra de filmes de preocupação social dos anos 1930, da qual o anterior de Lang, FÚRIA (1936), também faz parte, VIVE-SE UMA SÓ VEZ também é uma espécie de proto-film noir. A atmosfera hostil está no ar. Mas aqui há uma tendência, inclusive pelo uso da música, muito presente, em canalizar para um melodrama, o que não chega a ser um problema, mas que em alguns momentos incomoda um pouco.
O filme também apresenta a sociedade como extremamente cruel. Primeiramente pela incapacidade de lidar com ex-presidiários, o que os deixa à margem e muito mais propensos a voltarem ao mundo do crime. O sistema judiciário é questionado, pela facilidade de levar pessoas inocentes para a prisão. A crueldade se manifesta de maneira mais forte em dois momentos do filme: quando Eddie corta os pulsos deliberadamente às vésperas da execução e é imediatamente levado para fazer uma transfusão de sangue para estar apto a ir para a cadeira elétrica (isso é muito cruel!); e na cena da expectativa dos editores dos jornais, que já têm guardadas três opções de primeira página no dia do julgamento, de acordo com o resultado, mas com uma espécie de torcida pela infelicidade do homem.
O filme possui umas elipses curiosas. Quando corta para a cena em que Eddie já está na véspera de ir para a cadeira elétrica, fiquei com a impressão de que aquilo tudo tinha sido resolvido da noite para o dia, quando na verdade são cinco meses. Ainda assim, um espaço de tempo curto. Não sei o quanto era condizente com o que de fato ocorria. O mesmo ocorre com o nascimento do bebê. Não deixa de ser um tipo de montagem mais moderna. Não sei se já era comum na época.
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JOVEM MULHER (Jeune Femme)
Que baita filme esse, hein! Do início ao fim, respira e passa uma vitalidade impressionante. Que atriz que é essa jovem Laetitia Dosch. É mais um exemplar de um grande filme dirigido por uma mulher que pudemos ver no brilhante ano de 2017 de nosso Senhor. JOVEM MULHER nos pega pelo braço e não nos deixa desinteressados. Ao contrário: o desfecho é lindo. Direção: Léonor Serraille. Ano: 2017.
VICTORIA E ABDUL - O CONFIDENTE DA RAINHA (Victoria & Abdul)
O que houve com Stephen Frears? De toda maneira, este VICTORIA E ABDUL não deixa de ser um filme bem simpático e divertido, e que ajuda a enriquecer mais um momento da vida da Rainha Victoria nos cinemas. Os protagonistas estão ótimos e o outro ator que faz o segundo indiano é hilário. Ano: 2017.
NÃO SE PREOCUPE, ESTOU BEM (Je Vais Bien, Ne T'En Fais Pas)
Acho que nem sabia quem era Phillippe Lioret (o diretor), mas foi só ver o cartaz e as fotos da Mélanie Laurent no MKO que quis logo ver este filme.. E é um belíssimo filme sobre amor de irmã. E um bocado doloroso também. E que bom ver a Mélanie assim novinha, antes de fazer BASTARDOS INGLÓRIOS. E quanta força ela imprime na tela. Maravilhosa. Ano: 2006.
quinta-feira, junho 25, 2020
TIGERTAIL
Ainda que seja o primeiro longa-metragem de Alan Yang na direção, estamos diante da obra de um criador que teve a oportunidade de imprimir a sua marca na televisão, especialmente com a série MASTER OF NONE, da qual ele é cocriador, junto com Aziz Ansari. Ambos são pessoas nascidas nos Estados Unidos, mas com um aspecto físico que entregam que são descendentes de asiáticos. E TIGERTAIL (2020) é um filme muito pessoal de Yang, já que é inspirado nas memórias de seu pai.
Mas, embora possamos falar do aumento do número de cineastas americanos de origem asiática filmando nos Estados Unidos com uma língua que não o inglês, isso ainda é pouco, levando em consideração o número enorme de pessoas chinesas, taiwanesas, japonesas, coreanas, indianas etc. que vivem na chamada "terra das oportunidades". Mas falemos daquilo que talvez seja o principal mote de TIGERTAIL, que é a questão das escolhas na vida, de suas repercussões e da força das memórias.
Somos apresentados a Grover, um senhor sexagenário vivido por Tzi Ma, rosto muito conhecido inclusive de filmes hollywoodianos. Grover mora nos Estados Unidos há alguns anos e está de volta depois do funeral de sua mãe, que morava em Taiwan. Seu relacionamento com a jovem filha adulta Angela (Christine Ko) não é tão fácil. Ele é um homem muito fechado, não costuma ser a pessoa mais simpática do mundo e tem um histórico de ter sido bastante grosseiro com a filha durante a infância dela.
Yang faz um filme de idas e vindas no tempo, com as cenas de flashback gravadas em 16 mm, com aparência mais suja, e as cenas do presente em limpíssimo digital. Um dos méritos do filme é trazer o entusiasmo da juventude, representado principalmente pela relação que Grover teve com uma moça em Taiwan. Era uma jovem especial, o relacionamento dos dois era divertido, eles conversavam bastante. Mas eis que Grover conhece a filha do patrão e tem a chance de ir com ela para os Estados Unidos. Sem dinheiro e filho de família pobre, ele vê a possibilidade de casar com essa outra moça, com quem tem pouca aproximação e pouco interesse afetivo, como chance de vencer na vida. Mesmo que para isso tenha que abandonar o amor de sua vida.
Os hiatos apresentam os diferentes estágios da vida dos jovens casados, e inclusive oferece espaço para que conheçamos a vida da esposa de Grover, que, quando está distante do marido, se mostra outra pessoa, muito mais solta, mais feliz, o que só prova o quanto o marido era uma presença repressora.
Em entrevista ao site GQ.com, o cineasta conta que muito da ideia de filmar TIGERTAIL veio de suas conversas com o pai e especialmente de uma viagem que ambos fizeram para Taiwan, quando o pai o apresentou a lugares importantes de seu passado. E isso é mostrado no filme também, de forma a acentuar a forte memória que ele ainda carrega dos melhores anos de sua vida.
Por isso, o negócio é aproveitar que a Netflix dispõe de uma pequena joia como essa para ser vista e revista por um número imenso de pessoas no mundo inteiro. E, pelo amor de Deus, não façam a besteira de não ver o filme em suas belas línguas originais (mandarim, taiwanês e inglês) em detrimento de qualquer dublagem que seja.
+ TRÊS FILMES
PARASITA (Gisaengchung)
Tive dificuldade de colocar em palavras o quanto gostei e o tanto que me incomodou (ainda que esse incômodo seja algo positivo). É um filme que borra as fronteiras entre bem e mal, ao acentuar uma sociedade com um alto grau de diferença econômica, como EM CHAMAS (de outro diretor fantástico da Coreia do Sul), feito um ano antes. Mas a dobradinha que se faz de PARASITA é com NÓS, de Jordan Peele, sendo que ainda tem a vantagem de ser mais envolvente. Talvez por nos conquistar inicialmente como comédia para depois ir trazendo suas surpresas. Direção: Bong Joon-ho. Ano: 2019.
UM DIA DIFÍCIL (Kkeut-kka-ji-gan-da)
Filme muito louco de ação e suspense sobre sujeito que atropela um homem na estrada e dá um fim inusitado ao cadáver. É mais do que isso e o diretor faz questão mesmo de exagerar para provocar o riso e adotar um tom cartunesco. Muito boa a iniciativa da Fênix de trazer este filme para o nosso circuito. Direção: Seong-hun Kim. Ano: 2014.
TRUQUE DE MESTRE - O 2º ATO (Now You See Me 2)
O primeiro filme eu já tinha até esquecido. E este segundo, então, é um tédio só. Principalmente pra quem não liga muito pra esse lance de ilusionismo e o filme tenta a todo custo que você fique fascinado com as bobagens que mostram. Nem o bom elenco salva. Direção: de Jon M. Chu. Ano: 2016.
Mas, embora possamos falar do aumento do número de cineastas americanos de origem asiática filmando nos Estados Unidos com uma língua que não o inglês, isso ainda é pouco, levando em consideração o número enorme de pessoas chinesas, taiwanesas, japonesas, coreanas, indianas etc. que vivem na chamada "terra das oportunidades". Mas falemos daquilo que talvez seja o principal mote de TIGERTAIL, que é a questão das escolhas na vida, de suas repercussões e da força das memórias.
Somos apresentados a Grover, um senhor sexagenário vivido por Tzi Ma, rosto muito conhecido inclusive de filmes hollywoodianos. Grover mora nos Estados Unidos há alguns anos e está de volta depois do funeral de sua mãe, que morava em Taiwan. Seu relacionamento com a jovem filha adulta Angela (Christine Ko) não é tão fácil. Ele é um homem muito fechado, não costuma ser a pessoa mais simpática do mundo e tem um histórico de ter sido bastante grosseiro com a filha durante a infância dela.
Yang faz um filme de idas e vindas no tempo, com as cenas de flashback gravadas em 16 mm, com aparência mais suja, e as cenas do presente em limpíssimo digital. Um dos méritos do filme é trazer o entusiasmo da juventude, representado principalmente pela relação que Grover teve com uma moça em Taiwan. Era uma jovem especial, o relacionamento dos dois era divertido, eles conversavam bastante. Mas eis que Grover conhece a filha do patrão e tem a chance de ir com ela para os Estados Unidos. Sem dinheiro e filho de família pobre, ele vê a possibilidade de casar com essa outra moça, com quem tem pouca aproximação e pouco interesse afetivo, como chance de vencer na vida. Mesmo que para isso tenha que abandonar o amor de sua vida.
Os hiatos apresentam os diferentes estágios da vida dos jovens casados, e inclusive oferece espaço para que conheçamos a vida da esposa de Grover, que, quando está distante do marido, se mostra outra pessoa, muito mais solta, mais feliz, o que só prova o quanto o marido era uma presença repressora.
Em entrevista ao site GQ.com, o cineasta conta que muito da ideia de filmar TIGERTAIL veio de suas conversas com o pai e especialmente de uma viagem que ambos fizeram para Taiwan, quando o pai o apresentou a lugares importantes de seu passado. E isso é mostrado no filme também, de forma a acentuar a forte memória que ele ainda carrega dos melhores anos de sua vida.
Por isso, o negócio é aproveitar que a Netflix dispõe de uma pequena joia como essa para ser vista e revista por um número imenso de pessoas no mundo inteiro. E, pelo amor de Deus, não façam a besteira de não ver o filme em suas belas línguas originais (mandarim, taiwanês e inglês) em detrimento de qualquer dublagem que seja.
+ TRÊS FILMES
PARASITA (Gisaengchung)
Tive dificuldade de colocar em palavras o quanto gostei e o tanto que me incomodou (ainda que esse incômodo seja algo positivo). É um filme que borra as fronteiras entre bem e mal, ao acentuar uma sociedade com um alto grau de diferença econômica, como EM CHAMAS (de outro diretor fantástico da Coreia do Sul), feito um ano antes. Mas a dobradinha que se faz de PARASITA é com NÓS, de Jordan Peele, sendo que ainda tem a vantagem de ser mais envolvente. Talvez por nos conquistar inicialmente como comédia para depois ir trazendo suas surpresas. Direção: Bong Joon-ho. Ano: 2019.
UM DIA DIFÍCIL (Kkeut-kka-ji-gan-da)
Filme muito louco de ação e suspense sobre sujeito que atropela um homem na estrada e dá um fim inusitado ao cadáver. É mais do que isso e o diretor faz questão mesmo de exagerar para provocar o riso e adotar um tom cartunesco. Muito boa a iniciativa da Fênix de trazer este filme para o nosso circuito. Direção: Seong-hun Kim. Ano: 2014.
TRUQUE DE MESTRE - O 2º ATO (Now You See Me 2)
O primeiro filme eu já tinha até esquecido. E este segundo, então, é um tédio só. Principalmente pra quem não liga muito pra esse lance de ilusionismo e o filme tenta a todo custo que você fique fascinado com as bobagens que mostram. Nem o bom elenco salva. Direção: de Jon M. Chu. Ano: 2016.
quarta-feira, junho 24, 2020
7500
Longa-metragem de estreia do alemão Patrick Vollrath, 7500 (2019) consegue montar uma história de muita tensão que se passa totalmente dentro da cabine de um avião atacado por terroristas. O fato de termos uma visão limitada acaba por tornar tudo ainda mais interessante. Em uma produção convencional teríamos toda a reviravolta com os passageiros sofrendo a pressão e o terror da situação (ataque físico dos terroristas, avião prestes a cair etc). Em vez disso, e até como forma de diminuir os custos de produção, temos uma obra que foge da vulgaridade.
E é também uma obra que se pretende realista. O ator que interpreta o capitão do avião é um verdadeiro piloto, e muito do ótimo desempenho de Joseph Gordon-Levitt se deve ao fato de ele ter aprendido com o profissional e ter criado certa intimidade com a cabine, com seus botões, alavancas, meios de comunicação etc. Para trazer este realismo, o filme até namora o documentário, se iniciando com imagens de câmeras de segurança de um aeroporto de Berlim, com uso do silêncio como trilha sonora.
E, de fato, Vollrath parece querer construir um thriller anti-hollywoodiano, no sentido de sair das convenções da maioria dos filmes de ataques ou sequestros em aviões. A câmera não é estática, mas permanece boa parte do tempo focada no personagem de Gordon-Levitt, como se houvesse uma terceira pessoa ali dentro da cabine como testemunha. E essa testemunha somos nós, os espectadores.
O filme é bem-sucedido especialmente em sua primeira metade, quando a tensão crescente nos mantém interessados e muito curiosos com o desenrolar da situação. Porém, quando vemos que há uma resolução acontecendo pouco depois da segunda metade da narrativa, vemos que o diretor e seu corroteirista não souberam desenvolver um desfecho satisfatório.
Enquanto os terroristas estão apenas, com exceção de um deles, do lado de fora da cabine, lutando para entrar, o medo e a tensão se manifestam de maneira bastante intensa. Inclusive, com as ameaças de morte a membros da tripulação e de passageiros se intensificando e se tornando ainda mais dramáticas.
Talvez a estrutura de filme B também funcionasse melhor se o diretor optasse por um projeto de duração ainda menor, com cerca de 70 minutos, por exemplo. Isso tornaria o filme, além de mais enxuto, muito mais eficiente na construção da tensão e da densidade dramática, já que a meia hora final quase leva tudo a perder. Ainda assim, 7500 é um thriller muito bem-vindo e mais um exemplo de filme feito por um novo time de cineastas que têm surgido nesta virada de década.
+ TRÊS FILMES
PROJETO FLÓRIDA (The Florida Project)
Que filme lindo!! Demorou um pouco pra me ganhar, mas quando me ganhou, encheu meu coração. Estava precisando de uma obra dessas. E a garotinha, que gigante que é a performance da menina Brooklynn Prince. O diretor Sean Baker se revela um dos novos grandes cineastas surgidos nos últimos anos, filmando com uma luz extraordinariamente linda, como se para esconder a escuridão da vida dos personagens. Ano: 2017.
O CASTELO DE VIDRO (The Glass Castle)
É o caso de filme que tem uma narrativa prejudicada por tentar se ligar demais à obra original. Ou talvez nem seja só esse o problema: algumas opções da direção são bem manjadas. O que conta pontos a favor são os dois personagens principais: o pai meio sem noção vivido pelo Woody Harrelson e a filha, vivida pela Brie Larson na fase adulta. Interpretações bem boas. Direção: Destin Daniel Cretton. Ano: 2017.
CHRISTINE
O filme já se torna interessante pela própria história mórbida, da âncora que se mata ao vivo e em cores. Sinto falta de mais impacto, mas talvez o filme queira ser mais sutil mesmo, mais respeitoso com a personagem. E Rebecca Hall está sensacional! Performance digna de Oscar. Direção: Antonio Campos. Ano: 2016.
E é também uma obra que se pretende realista. O ator que interpreta o capitão do avião é um verdadeiro piloto, e muito do ótimo desempenho de Joseph Gordon-Levitt se deve ao fato de ele ter aprendido com o profissional e ter criado certa intimidade com a cabine, com seus botões, alavancas, meios de comunicação etc. Para trazer este realismo, o filme até namora o documentário, se iniciando com imagens de câmeras de segurança de um aeroporto de Berlim, com uso do silêncio como trilha sonora.
E, de fato, Vollrath parece querer construir um thriller anti-hollywoodiano, no sentido de sair das convenções da maioria dos filmes de ataques ou sequestros em aviões. A câmera não é estática, mas permanece boa parte do tempo focada no personagem de Gordon-Levitt, como se houvesse uma terceira pessoa ali dentro da cabine como testemunha. E essa testemunha somos nós, os espectadores.
O filme é bem-sucedido especialmente em sua primeira metade, quando a tensão crescente nos mantém interessados e muito curiosos com o desenrolar da situação. Porém, quando vemos que há uma resolução acontecendo pouco depois da segunda metade da narrativa, vemos que o diretor e seu corroteirista não souberam desenvolver um desfecho satisfatório.
Enquanto os terroristas estão apenas, com exceção de um deles, do lado de fora da cabine, lutando para entrar, o medo e a tensão se manifestam de maneira bastante intensa. Inclusive, com as ameaças de morte a membros da tripulação e de passageiros se intensificando e se tornando ainda mais dramáticas.
Talvez a estrutura de filme B também funcionasse melhor se o diretor optasse por um projeto de duração ainda menor, com cerca de 70 minutos, por exemplo. Isso tornaria o filme, além de mais enxuto, muito mais eficiente na construção da tensão e da densidade dramática, já que a meia hora final quase leva tudo a perder. Ainda assim, 7500 é um thriller muito bem-vindo e mais um exemplo de filme feito por um novo time de cineastas que têm surgido nesta virada de década.
+ TRÊS FILMES
PROJETO FLÓRIDA (The Florida Project)
Que filme lindo!! Demorou um pouco pra me ganhar, mas quando me ganhou, encheu meu coração. Estava precisando de uma obra dessas. E a garotinha, que gigante que é a performance da menina Brooklynn Prince. O diretor Sean Baker se revela um dos novos grandes cineastas surgidos nos últimos anos, filmando com uma luz extraordinariamente linda, como se para esconder a escuridão da vida dos personagens. Ano: 2017.
O CASTELO DE VIDRO (The Glass Castle)
É o caso de filme que tem uma narrativa prejudicada por tentar se ligar demais à obra original. Ou talvez nem seja só esse o problema: algumas opções da direção são bem manjadas. O que conta pontos a favor são os dois personagens principais: o pai meio sem noção vivido pelo Woody Harrelson e a filha, vivida pela Brie Larson na fase adulta. Interpretações bem boas. Direção: Destin Daniel Cretton. Ano: 2017.
CHRISTINE
O filme já se torna interessante pela própria história mórbida, da âncora que se mata ao vivo e em cores. Sinto falta de mais impacto, mas talvez o filme queira ser mais sutil mesmo, mais respeitoso com a personagem. E Rebecca Hall está sensacional! Performance digna de Oscar. Direção: Antonio Campos. Ano: 2016.
terça-feira, junho 23, 2020
HARAKIRI
Nunca tinha experimentado fazer uma peregrinação com um vai e vem voluntário. Mas é mesmo deliberado isso, já que tenho mais dificuldades de ver os filmes mudos, e ganho muito entusiasmo quando vejo os clássicos falados. A intenção é ver todos os filmes de Fritz Lang. Creio que eu chego lá. Assim, volto agora no tempo para o seu segundo longa-metragem disponível, ainda que a cópia que eu tenha visto seja bem precária, mal dando para ver direito o rosto dos personagens.
HARAKIRI (1919) foi um filme feito entre os dois episódios de AS ARANHAS, mas é claramente uma obra muito mais modesta. Inclusive na duração (cerca de uma hora), seja pelos cenários, seja pelo uso mais corajoso da câmera, coisa que já se manifestava de maneira forte em AS ARANHAS: PARTE 1 - O LAGO DOURADO (1919), com o forte senso de aventura, mas principalmente pela produção mesmo.
Já HARAKIRI, por ter uma origem teatral, já tem por si só um caráter mais centrado nos atores. Não necessariamente nas falas, já que, por ser cinema mudo, economizava-se nas palavras. A peça do americano David Belasco, Madame Butterfly, inclusive, é querida do cinema e da televisão, tendo sido adaptada já diversas vezes. Ao que parece, Lang foi o primeiro a adaptá-la para o cinema.
É mais um filme desses do início da carreira de Lang que mostra certo fascínio pelas culturas exóticas, e provavelmente deve trazer algumas informações erradas sobre a cultura japonesa e o budismo. De todo modo, o que conta aqui é o tom de tragédia, que é o aspecto que mais chama a atenção e desperta algum interesse logo no começo, quando o pai da protagonista deve cometer suicídio com uso da espada. Sua filha vai, então, de futura sacerdotisa a gueixa e depois a esposa de um oficial da marinha europeu em muito pouco tempo. Dá impressão de que a narrativa é um pouco apressada ou atabalhoada, mas pode ter sido falta de atenção de minha parte.
Engraçado ver esses filmes em estado ruim de imagem, ainda mais sendo mudos e com personagens com os rostos todos brancos. Passa a impressão de que estamos vendo fantasmas, assistindo histórias de fantasmas. Dá um certo ar místico à experiência. Mas confesso que agradeço o fato de o filme só ter uma hora de duração. E sei que sua importância é mais por ser um treino e um aprendizado para o grande cineasta que estava surgindo.
+ TRÊS FILMES
NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (Kaze no Tani no Naushika)
Talvez na década de 1980 a mensagem ecológica e de amor aos bichos e à natureza fosse tão urgente quanto é agora, mas, por razões óbvias, fica difícil não imaginar que esse tipo de filme não se aplica ao momento atual. Segundo longa-metragem de Hayao Miyazaki, é uma ficção científica distópica que se passa em um mundo pós-apocalíptico, um universo que o cineasta cria de maneira bastante inventiva. E há essa heroína fantástica, que tem uma relação linda com os animais, chegando até a ter uma espécie de superpoder. Ainda acho que o filme cai um pouco com a chegada da rainha má e das guerras, mas isso faz parte. É preciso haver o problema. E Miyazaki estava só começando. Fiquei interessado no mangá, que deve sair pela JBC em breve. Ano: 1984.
A DESPEDIDA (The Farewell)
Bela comédia dramática sobre a reunião de uma família em torno da doença terminal da matriarca. É um filme que se pretende pequeno, inclusive nos gestos, que são contidos, mesmo quando alguns personagens não se aguentam e começam a chorar, como na cena do filho da matriarca ou a do neto, durante uma festa. A trama envolvendo uma mentira lembra um pouco o inferior ADEUS, LÊNIN!. Este é bem mais simpático e mais complexo na apresentação da união das culturas chinesa, americana e japonesa, já que a família mora em diferentes países. Mas quem brilha mesmo é Awkwafina, como a neta da Nai Nai. É através dela que muito do sentimento do filme é filtrado e chega ao espectador. Destaque também para o bem cuidado desenho de produção. Direção: Lulu Wang. Ano: 2019.
A MULHER QUE SE FOI (Ang Babaeng Humayo)
Achei um bocado inferior aos outros dois filmes do Lav Diaz que vi. Dá impressão de que o prêmio em Veneza foi mais pelo conjunto da obra, mas ainda assim tem a sua força. Também posso por a culpa no meu corpo fragilizado, que não estava aguentando ar condicionado pesado numa sala com uma dúzia (no máximo) de pessoas. Em outras circunstâncias, certamente teria gostado mais. Ano: 2016.
HARAKIRI (1919) foi um filme feito entre os dois episódios de AS ARANHAS, mas é claramente uma obra muito mais modesta. Inclusive na duração (cerca de uma hora), seja pelos cenários, seja pelo uso mais corajoso da câmera, coisa que já se manifestava de maneira forte em AS ARANHAS: PARTE 1 - O LAGO DOURADO (1919), com o forte senso de aventura, mas principalmente pela produção mesmo.
Já HARAKIRI, por ter uma origem teatral, já tem por si só um caráter mais centrado nos atores. Não necessariamente nas falas, já que, por ser cinema mudo, economizava-se nas palavras. A peça do americano David Belasco, Madame Butterfly, inclusive, é querida do cinema e da televisão, tendo sido adaptada já diversas vezes. Ao que parece, Lang foi o primeiro a adaptá-la para o cinema.
É mais um filme desses do início da carreira de Lang que mostra certo fascínio pelas culturas exóticas, e provavelmente deve trazer algumas informações erradas sobre a cultura japonesa e o budismo. De todo modo, o que conta aqui é o tom de tragédia, que é o aspecto que mais chama a atenção e desperta algum interesse logo no começo, quando o pai da protagonista deve cometer suicídio com uso da espada. Sua filha vai, então, de futura sacerdotisa a gueixa e depois a esposa de um oficial da marinha europeu em muito pouco tempo. Dá impressão de que a narrativa é um pouco apressada ou atabalhoada, mas pode ter sido falta de atenção de minha parte.
Engraçado ver esses filmes em estado ruim de imagem, ainda mais sendo mudos e com personagens com os rostos todos brancos. Passa a impressão de que estamos vendo fantasmas, assistindo histórias de fantasmas. Dá um certo ar místico à experiência. Mas confesso que agradeço o fato de o filme só ter uma hora de duração. E sei que sua importância é mais por ser um treino e um aprendizado para o grande cineasta que estava surgindo.
+ TRÊS FILMES
NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO (Kaze no Tani no Naushika)
Talvez na década de 1980 a mensagem ecológica e de amor aos bichos e à natureza fosse tão urgente quanto é agora, mas, por razões óbvias, fica difícil não imaginar que esse tipo de filme não se aplica ao momento atual. Segundo longa-metragem de Hayao Miyazaki, é uma ficção científica distópica que se passa em um mundo pós-apocalíptico, um universo que o cineasta cria de maneira bastante inventiva. E há essa heroína fantástica, que tem uma relação linda com os animais, chegando até a ter uma espécie de superpoder. Ainda acho que o filme cai um pouco com a chegada da rainha má e das guerras, mas isso faz parte. É preciso haver o problema. E Miyazaki estava só começando. Fiquei interessado no mangá, que deve sair pela JBC em breve. Ano: 1984.
A DESPEDIDA (The Farewell)
Bela comédia dramática sobre a reunião de uma família em torno da doença terminal da matriarca. É um filme que se pretende pequeno, inclusive nos gestos, que são contidos, mesmo quando alguns personagens não se aguentam e começam a chorar, como na cena do filho da matriarca ou a do neto, durante uma festa. A trama envolvendo uma mentira lembra um pouco o inferior ADEUS, LÊNIN!. Este é bem mais simpático e mais complexo na apresentação da união das culturas chinesa, americana e japonesa, já que a família mora em diferentes países. Mas quem brilha mesmo é Awkwafina, como a neta da Nai Nai. É através dela que muito do sentimento do filme é filtrado e chega ao espectador. Destaque também para o bem cuidado desenho de produção. Direção: Lulu Wang. Ano: 2019.
A MULHER QUE SE FOI (Ang Babaeng Humayo)
Achei um bocado inferior aos outros dois filmes do Lav Diaz que vi. Dá impressão de que o prêmio em Veneza foi mais pelo conjunto da obra, mas ainda assim tem a sua força. Também posso por a culpa no meu corpo fragilizado, que não estava aguentando ar condicionado pesado numa sala com uma dúzia (no máximo) de pessoas. Em outras circunstâncias, certamente teria gostado mais. Ano: 2016.
segunda-feira, junho 22, 2020
WASP NETWORK - REDE DE ESPIÕES (Wasp Network)
Uma pena que Olivier Assayas tenha errado a mão. Ele é um dos cineastas franceses mais importantes surgidos nos últimos 40 anos. Vi cerca de uma dúzia de filmes dele e nunca vi nada tão desconjuntado até então. Talvez tenha faltado uma melhor amarração da trama, que por ser de espionagem, já se torna complicada. Mas as opções que ele toma não parecem ter sido felizes. Não há motivos práticos, por exemplo, para contar a história com jogos cronológicos de idas e vindas.
A primeira aparição de Gael García Bernal, quando o filme volta um pouco no tempo, serve para esclarecer para o espectador o jogo de espionagem que ocorre. Até então, ficava no ar uma sensação de falta de reais motivações por parte dos personagens cubanos que deixaram a terra natal para tentar algo melhor nos Estados Unidos. Pelo menos, é o que se poderia pensar a princípio: que se tratava de um filme que criticava o governo de Fidel Castro.
A narração fica à mercê de uma montagem confusa e alguns personagens secundários não parecem ter tanta importância assim. A importância de alguns deles só se materializa de fato no final, quando o filme vai falar dos destinos dos personagens reais. O próprio personagem do Leonardo Sbaraglia é um desses, que não diz muito a que veio. Coadjuvante de luxo.
De todo modo, foi bom ver tanta gente da América Latina e da Espanha junta, todos atores e atrizes muito bons, que mereciam um filme melhor, claro. Mas quem em sã consciência ia achar que WASP NETWORK - REDE DE ESPIÕES (2019) ia resultar em um desastre, tendo Olivier Assayas na direção e com um elenco de peso desses? Há quem diga que é um filme de produtor, do brasileiro Rodrigo Teixeira. Mas será que diriam o mesmo se fosse um sucesso?
Quanto ao elenco, é uma das poucas coisas que fazem valer a pena ver o filme, apesar de tudo. Temos representantes de peso de vários países: Penélope Cruz (Espanha), Edgar Ramírez (Venezuela), Gael García Bernal (México), Ana de Armas (Cuba), Wagner Moura (Brasil) e o já citado Leonardo Sbaraglia (Argentina). Ou seja, todos eles já muito conhecidos de produções internacionais de peso, sejam de Hollywood, sejam europeias ou mesmo brasileiras, no caso do nosso Wagner Moura.
Aliás, é bom perceber ao menos que Moura está melhor do que no horrível SERGIO, exibido recentemente também na Netflix. Inclusive, ele faz par romântico com Ana de Armas em ambos os filmes. E os momentos dos dois juntos funcionam melhor aqui do que as confusas situações envolvendo conspirações internacionais. Até uma cena sensual com eles novamente. E aqui parece menos gratuita, mais natural, com a beleza em flor de Ana.
Mas gigante mesmo é Penélope Cruz. Há pelo menos uma cena emocionante com ela. Uma das últimas é a mais tocante. Na trama, ela vive com o marido (Ramírez) em Cuba. Ele é piloto de aviões; ela trabalha em uma fábrica de borracha. Os dois têm uma filha pequena. Ele pega o avião e vai para Miami, deixando-a, e passa a ser visto no país como um traidor. As reais intenções do marido veremos a seguir.
A tal Wasp Network do título é uma rede de espiões cubanos que trabalham nos Estados Unidos para deter uma contrarrevolução que segue com força no início dos anos 1990 contra Cuba, uma espécie de guerra fria tardia. O filme é baseado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais.
Pelo que dizem algumas críticas de pessoas que puderam fazer uma comparação entre as duas obras (literária e cinematográfica), uma das armadilhas a que Assayas caiu foi tentar ser fiel demais ao livro e acabar não dando conta de tantos personagens e subtramas. Uma cena que lembra um pouco Assayas é a de um jovem que implanta bombas em hotéis. Um dos poucos momentos dignos do filme. Ainda assim, é uma obra que merece ser vista, nem que seja por consideração ao cineasta.
+ TRÊS FILMES
A GRANDE JOGADA (Molly's Game)
Se não fosse a Jessica Chastain eu não teria aguentado este filme. É o típico filme de roteiro e cujo enredo não é suficientemente interessante. No caso, todas as cenas de jogos eu achei desinteressantes, por mais que o filme se esforce para não aborrecer o espectador, com a rapidez típica dos americanos. Gostei da participação do Kevin Costner como o pai. Direção: Aaron Sorkin. Ano: 2017.
VERÃO 1993 (Estiu 1993)
Eu, que geralmente não tenho muita paciência para filmes com crianças, gostei bastante deste. A diretora Carla Simón foi muito feliz em contar essa história em que parece que nada acontece, mas justamente por isso há uma força nas imagens e no modo delicado como a mudança na vida da criança é retratada. Ano: 2017.
MA MA
Acho que fazia tempo que eu não via um filme recente que se entregasse de corpo e alma ao melodrama sem medo de ser cafona. Linda essa história, e linda a Penélope. Também gosto muito da montagem, do modo como Julio Medem intercala tempos diferentes num vai e vém temporal muito bem acertado. Além do mais, chorar um litro de lágrimas não faz mal a ninguém. É catarse bem-vinda. Ano: 2015.
A primeira aparição de Gael García Bernal, quando o filme volta um pouco no tempo, serve para esclarecer para o espectador o jogo de espionagem que ocorre. Até então, ficava no ar uma sensação de falta de reais motivações por parte dos personagens cubanos que deixaram a terra natal para tentar algo melhor nos Estados Unidos. Pelo menos, é o que se poderia pensar a princípio: que se tratava de um filme que criticava o governo de Fidel Castro.
A narração fica à mercê de uma montagem confusa e alguns personagens secundários não parecem ter tanta importância assim. A importância de alguns deles só se materializa de fato no final, quando o filme vai falar dos destinos dos personagens reais. O próprio personagem do Leonardo Sbaraglia é um desses, que não diz muito a que veio. Coadjuvante de luxo.
De todo modo, foi bom ver tanta gente da América Latina e da Espanha junta, todos atores e atrizes muito bons, que mereciam um filme melhor, claro. Mas quem em sã consciência ia achar que WASP NETWORK - REDE DE ESPIÕES (2019) ia resultar em um desastre, tendo Olivier Assayas na direção e com um elenco de peso desses? Há quem diga que é um filme de produtor, do brasileiro Rodrigo Teixeira. Mas será que diriam o mesmo se fosse um sucesso?
Quanto ao elenco, é uma das poucas coisas que fazem valer a pena ver o filme, apesar de tudo. Temos representantes de peso de vários países: Penélope Cruz (Espanha), Edgar Ramírez (Venezuela), Gael García Bernal (México), Ana de Armas (Cuba), Wagner Moura (Brasil) e o já citado Leonardo Sbaraglia (Argentina). Ou seja, todos eles já muito conhecidos de produções internacionais de peso, sejam de Hollywood, sejam europeias ou mesmo brasileiras, no caso do nosso Wagner Moura.
Aliás, é bom perceber ao menos que Moura está melhor do que no horrível SERGIO, exibido recentemente também na Netflix. Inclusive, ele faz par romântico com Ana de Armas em ambos os filmes. E os momentos dos dois juntos funcionam melhor aqui do que as confusas situações envolvendo conspirações internacionais. Até uma cena sensual com eles novamente. E aqui parece menos gratuita, mais natural, com a beleza em flor de Ana.
Mas gigante mesmo é Penélope Cruz. Há pelo menos uma cena emocionante com ela. Uma das últimas é a mais tocante. Na trama, ela vive com o marido (Ramírez) em Cuba. Ele é piloto de aviões; ela trabalha em uma fábrica de borracha. Os dois têm uma filha pequena. Ele pega o avião e vai para Miami, deixando-a, e passa a ser visto no país como um traidor. As reais intenções do marido veremos a seguir.
A tal Wasp Network do título é uma rede de espiões cubanos que trabalham nos Estados Unidos para deter uma contrarrevolução que segue com força no início dos anos 1990 contra Cuba, uma espécie de guerra fria tardia. O filme é baseado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais.
Pelo que dizem algumas críticas de pessoas que puderam fazer uma comparação entre as duas obras (literária e cinematográfica), uma das armadilhas a que Assayas caiu foi tentar ser fiel demais ao livro e acabar não dando conta de tantos personagens e subtramas. Uma cena que lembra um pouco Assayas é a de um jovem que implanta bombas em hotéis. Um dos poucos momentos dignos do filme. Ainda assim, é uma obra que merece ser vista, nem que seja por consideração ao cineasta.
+ TRÊS FILMES
A GRANDE JOGADA (Molly's Game)
Se não fosse a Jessica Chastain eu não teria aguentado este filme. É o típico filme de roteiro e cujo enredo não é suficientemente interessante. No caso, todas as cenas de jogos eu achei desinteressantes, por mais que o filme se esforce para não aborrecer o espectador, com a rapidez típica dos americanos. Gostei da participação do Kevin Costner como o pai. Direção: Aaron Sorkin. Ano: 2017.
VERÃO 1993 (Estiu 1993)
Eu, que geralmente não tenho muita paciência para filmes com crianças, gostei bastante deste. A diretora Carla Simón foi muito feliz em contar essa história em que parece que nada acontece, mas justamente por isso há uma força nas imagens e no modo delicado como a mudança na vida da criança é retratada. Ano: 2017.
MA MA
Acho que fazia tempo que eu não via um filme recente que se entregasse de corpo e alma ao melodrama sem medo de ser cafona. Linda essa história, e linda a Penélope. Também gosto muito da montagem, do modo como Julio Medem intercala tempos diferentes num vai e vém temporal muito bem acertado. Além do mais, chorar um litro de lágrimas não faz mal a ninguém. É catarse bem-vinda. Ano: 2015.
domingo, junho 21, 2020
A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN (Mischief)
É ótimo quando a gente redescobre um filme e fica encantado. Assim aconteceu com A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN (1985), de Mel Damski, filme que assisti na época que foi exibido na televisão. Tive que pesquisar e ver que foi em 1989. Eu estava na escola ainda e lembro da repercussão que houve entre os amigos. Aliás, era impressionante como os filmes exibidos em TV aberta eram populares e sempre motivo de debate entre as pessoas logo no dia seguinte.
Em 1989 eu já era por assim dizer um cinéfilo. Foi meu primeiro ano de cinefilia. Mas eu confesso que desmerecia esses filmes de juventude da década de 80. Até mesmo os de John Hughes eu até um dia desses não fiz muita questão de rever, mesmo já sendo quase uma unanimidade entre a crítica como exemplar do que de melhor se fazia sobre filmes sobre a juventude.
Então, o meu interesse em rever A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN, passados mais de 30 anos (!!!), era apenas para rever a tal cena da primeira transa do rapaz com a belíssima Kelly Preston, com a maravilhosa imagem de seus gloriosos seios. Pode não ser um motivo muito nobre, eu sei, mas se eu fosse um poeta conseguiria convencer vocês do quanto isso transcende a mera esfera da excitação baseada em imagens gráficas.
Pois bem. Eis que, desde o começo do filme, com canções clássicas dos anos 1950 emoldurando a trama e seus personagens e tornando a experiência de ver o filme muitíssimo agradável, fui conquistado. E a conquista só aumenta à medida que vamos nos aproximando dos personagens colegiais, o desengonçado Jonathan (Doug McKeon), o novato na cidade e com pinta de conquistador Gene (Chris Nash), e seus respectivos interesses amorosos, a loira Marilyn (Kelly Preston) e a morena Bunny (Catherine Mary Stewart).
Gene logo se torna uma espécie de guru das conquistas para Jonathan. E também um defensor do rapaz, que costuma sofrer bullying na escola. O sonho de Jonathan é poder ao menos beijar Marilyn. Mas Gene diz que isso é pouco. Ele deve ir até o fim. E tirar de vez a virgindade. A amizade dos dois é bonita de ver e mais à frente veremos que o filme é mais sobre essa amizade do que sobre o relacionamento com as belas meninas. E também sobre as descobertas da vida jovem, as dores e as delícias das primeiras experiências.
A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN é também um filme de provocar muitos risos. E é de fato um clássico, já que muitas cenas eu me lembrava. A cena do lenço para tentar dar um volume na calça; o lápis caindo no chão para ver a calcinha de Marilyn na sala de aula; a professora mandando Jonathan se levantar da cadeira; a famosa cena dos amassos no carro. Todas elas são um convite ao riso.
Vi numa excelente cópia em 1080p com legendas em inglês para surdos que trazem as letras de todas as canções. Assim pude pesquisar a linda canção que toca na primeira vez de Jonathan com Marilyn: "My prayer", clássico da banda The Platters. Antes de eles se beijarem ela faz uma citação a UM LUGAR AO SOL, de George Stevens, diz ser fã da Elizabeth Taylor etc. E a cena em si é uma beleza.
Aliás, referências cinematográficas não faltam. Há uma mais do que explícita a JUVENTUDE TRANSVIADA, de Nicholas Ray. Gene e o rival, namorado de Bunny, arriscam uma daqueles desafios de carros, inclusive. Isso, depois da sessão do filme de Ray no drive-in.
O filme lida com dois diferentes tipos de interesses amorosos: aqueles que estão mais centrados no desejo e no sexo, como é o caso de Jonathan com Marilyn (que, por mais que tentem taxá-la como superficial, ela é bastante carinhosa e gentil); quanto o de Gene e Bunny, de paixão e uma conexão mais espiritual. O fato é que, para minha surpresa, A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN se tornou um dos meus filmes favoritos sobre a juventude.
+ TRÊS FILMES
TE PEGUEI! (Tag)
Muito divertido este filme sobre um bando de marmanjos quarentões que ainda brincam de pega-pega. Dá pra dar umas boas gargalhadas. E há espaço para as mulheres brilharem nas cenas engraçadas também. Legal também saber que é baseado em uma história real. Direção: Jeff Tomsic. Ano: 2018.
SEXY POR ACIDENTE (I Feel Pretty)
O filme se mantém bem mesmo prolongando a piada ao longo de toda sua metragem. Pena que não consiga evitar o discurso açucarado que estraga e fala o que já era óbvio. Dessas coisas de dar vergonha mesmo. Mas Amy Schumer não teve culpa. Está muito bem. Direção: Abby Kohn e Marc Silverstein. Ano: 2018.
BAYWATCH - S.O.S. MALIBU (Baywatch)
Esperava mais de BAYWATCH. Ainda assim, é uma comédia com momentos muito bons. Zac Efron continua ajudando a dar brilho às comédias que participa. E a Alexandra Daddario... meodeos! Direção: Seth Gordon. Ano: 2017.
Em 1989 eu já era por assim dizer um cinéfilo. Foi meu primeiro ano de cinefilia. Mas eu confesso que desmerecia esses filmes de juventude da década de 80. Até mesmo os de John Hughes eu até um dia desses não fiz muita questão de rever, mesmo já sendo quase uma unanimidade entre a crítica como exemplar do que de melhor se fazia sobre filmes sobre a juventude.
Então, o meu interesse em rever A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN, passados mais de 30 anos (!!!), era apenas para rever a tal cena da primeira transa do rapaz com a belíssima Kelly Preston, com a maravilhosa imagem de seus gloriosos seios. Pode não ser um motivo muito nobre, eu sei, mas se eu fosse um poeta conseguiria convencer vocês do quanto isso transcende a mera esfera da excitação baseada em imagens gráficas.
Pois bem. Eis que, desde o começo do filme, com canções clássicas dos anos 1950 emoldurando a trama e seus personagens e tornando a experiência de ver o filme muitíssimo agradável, fui conquistado. E a conquista só aumenta à medida que vamos nos aproximando dos personagens colegiais, o desengonçado Jonathan (Doug McKeon), o novato na cidade e com pinta de conquistador Gene (Chris Nash), e seus respectivos interesses amorosos, a loira Marilyn (Kelly Preston) e a morena Bunny (Catherine Mary Stewart).
Gene logo se torna uma espécie de guru das conquistas para Jonathan. E também um defensor do rapaz, que costuma sofrer bullying na escola. O sonho de Jonathan é poder ao menos beijar Marilyn. Mas Gene diz que isso é pouco. Ele deve ir até o fim. E tirar de vez a virgindade. A amizade dos dois é bonita de ver e mais à frente veremos que o filme é mais sobre essa amizade do que sobre o relacionamento com as belas meninas. E também sobre as descobertas da vida jovem, as dores e as delícias das primeiras experiências.
A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN é também um filme de provocar muitos risos. E é de fato um clássico, já que muitas cenas eu me lembrava. A cena do lenço para tentar dar um volume na calça; o lápis caindo no chão para ver a calcinha de Marilyn na sala de aula; a professora mandando Jonathan se levantar da cadeira; a famosa cena dos amassos no carro. Todas elas são um convite ao riso.
Vi numa excelente cópia em 1080p com legendas em inglês para surdos que trazem as letras de todas as canções. Assim pude pesquisar a linda canção que toca na primeira vez de Jonathan com Marilyn: "My prayer", clássico da banda The Platters. Antes de eles se beijarem ela faz uma citação a UM LUGAR AO SOL, de George Stevens, diz ser fã da Elizabeth Taylor etc. E a cena em si é uma beleza.
Aliás, referências cinematográficas não faltam. Há uma mais do que explícita a JUVENTUDE TRANSVIADA, de Nicholas Ray. Gene e o rival, namorado de Bunny, arriscam uma daqueles desafios de carros, inclusive. Isso, depois da sessão do filme de Ray no drive-in.
O filme lida com dois diferentes tipos de interesses amorosos: aqueles que estão mais centrados no desejo e no sexo, como é o caso de Jonathan com Marilyn (que, por mais que tentem taxá-la como superficial, ela é bastante carinhosa e gentil); quanto o de Gene e Bunny, de paixão e uma conexão mais espiritual. O fato é que, para minha surpresa, A PRIMEIRA TRANSA DE JONATHAN se tornou um dos meus filmes favoritos sobre a juventude.
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TE PEGUEI! (Tag)
Muito divertido este filme sobre um bando de marmanjos quarentões que ainda brincam de pega-pega. Dá pra dar umas boas gargalhadas. E há espaço para as mulheres brilharem nas cenas engraçadas também. Legal também saber que é baseado em uma história real. Direção: Jeff Tomsic. Ano: 2018.
SEXY POR ACIDENTE (I Feel Pretty)
O filme se mantém bem mesmo prolongando a piada ao longo de toda sua metragem. Pena que não consiga evitar o discurso açucarado que estraga e fala o que já era óbvio. Dessas coisas de dar vergonha mesmo. Mas Amy Schumer não teve culpa. Está muito bem. Direção: Abby Kohn e Marc Silverstein. Ano: 2018.
BAYWATCH - S.O.S. MALIBU (Baywatch)
Esperava mais de BAYWATCH. Ainda assim, é uma comédia com momentos muito bons. Zac Efron continua ajudando a dar brilho às comédias que participa. E a Alexandra Daddario... meodeos! Direção: Seth Gordon. Ano: 2017.
sábado, junho 20, 2020
FÚRIA (Fury)
Interessante a comparação que costumam fazer entre Fritz Lang e Alfred Hitchcock. Ambos seguem trajetórias com algumas similaridades, como o ótimo uso do suspense. Porém, foi Hitchcock quem soube melhor enfatizar este aspecto e ganhar o título de mestre do gênero. Mas temos outro ponto em comum: no ano de lançamento de FÚRIA (1936), Lang e Hitchcock trabalharam com a mesma atriz. Sylvia Sidney também esteve em SABOTAGEM, produção inglesa do mestre do suspense. Mas sua parceria seria maior com Lang, com quem faria uma trilogia que acompanhava o cinema social americano dos anos 1930. Depois de FÚRIA, os filmes seguintes foram VIVE-SE UMA SÓ VEZ (1937) e CASAMENTO PROIBIDO (1938).
É importante vermos que Lang era um estranho em terras americanas. Chegou até mesmo a ser tido como arrogante ou metido a besta por ter vergonha de atender uma ligação do chefão da MGM Louis B. Mayer, por causa de seu inglês ruim. Porém, acabou sendo um ótimo aluno e adentrou a cultura americana através de jornais, de ouvir conversas em ônibus e bares, e até mesmo de visitar tribunais para poder trazer mais realismo para sua primeira realização nos Estados Unidos. Quanto ao inglês, foi uma língua que ele fez questão de falar, já que queria evitar o alemão por causa da relação que naquela época havia com o nazismo, que ele mesmo abominava.
Quando comecei a ver o filme lembrei-me de O HOMEM ERRADO, obra-prima da década de 1950 de Hitchcock. Afinal, o principal momento de ação e suspense de FÚRIA começa com Joe Wilson (Spencer Tracy) sendo confundido com um sequestrador de crianças. Ele é preso e tenta poupar sua noiva Katherine (Sidney) dessa situação complicada. Katherine esperava por ele, depois de muito tempo que os dois viviam em estados separados para construírem uma situação financeira melhor e se casarem.
Eis que a multidão daquela pequena cidade fica sabendo que aquele que seria o sequestrador de crianças estava na delegacia e resolve, então, entrar e fazer justiça com as próprias mãos, não importando se o xerife e seus subordinados estavam ali para tentar impedir a entrada. O pobre Joe percebe a encrenca em que se encontra e a multidão incendeia a delegacia. Katherine consegue chegar a tempo de ver o seu amado noivo nas grades, em meio às chamas. Ela, então, desmaia. É uma situação extremamente tensa e perturbadora. Lembra um outro filme feito em Hollywood nos anos 1940, CONSCIÊNCIAS MORTAS, de William Wellman, que também discute o linchamento.
Apesar de eu estar escrevendo sobre a trama do filme aqui, imagino que este texto seja lido para quem já viu o filme, já que surpresas acontecem. Eu preferi ver o filme sem saber nada do enredo e isso foi muito positivo, até para não estar preparado para algo o que viria a seguir. Uma mudança de ritmo é adotada na segunda metade da narrativa, após a loucura que foi a cena da invasão à delegacia.
Uma coisa que eu preciso prestar mais atenção nesses filmes mais antigos de Hollywood é a participação dos negros, ainda que em papéis muito pequenos. Aqui, como se trata de um filme sobre linchamento, poderiam muito bem fazer um filme sobre algo que ocorria com certa frequência nos Estados Unidos: linchamentos de pessoas negras.
Lang não faz um filme para apontar o culpado ou os culpados. Ele, assim como em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931), torna complexa a situação das pessoas que carregam a culpa. Até a obra anterior, LILIOM (1934), também trazia essa questão da necessidade do perdão, ou pelo menos da compreensão dos atos. No caso das pessoas que agiram com a vontade de linchar o homem, vemos que eles agem, principalmente, por causa de uma espécie de explosão de revolta que costuma acometer multidões em circunstâncias de extrema tensão. Por outro lado, vemos um personagem que, de certa pureza apresentada até então, é dominado pelo ódio e pelo sentimento de vingança.
A ida de Lang para os Estados Unidos foi um presente para o cinema americano.
+ TRÊS FILMES
REDEMOINHO (Maelström)
Talvez o menos inspirado dos filmes de Denis Villeneuve, mas fundamental para ajudar a compor a sua filmografia tão coerente. Aqui, mais uma vez temos um protagonista vivendo as pegadinhas da vida. Isso é possível ver em toda a obra do diretor. De 32 DE AGOSTO NA TERRA (1998) até BLADE RUNNER 2049 (2017). Há uma questão moral que me incomodou um pouco, mas depois o filme se acerta. Ah, e Marie-Josée Croze é encantadora. Ano: 2000.
UM HOMEM DE FAMÍLIA (A Family Man / The Headhunter's Calling)
Pode até não ser lá tão bom, mas é um eficiente melodrama sobre trabalho vs. família quando um membro da família está muito doente. Como teve pelo menos um momento que me levou ás lágrimas, já ganhou o meu respeito, mesmo que daqui a um tempo eu o esqueça. Direção: Mark Williams. Ano: 2016.
DOCINHO DA AMÉRICA (American Honey)
Até dá pra entender o motivo de um filme como esse cair direto no Netflix, já que não é de tão fácil digestão. E tem também a questão da duração. Mas há filmes bem mais difíceis e que não passaram por Cannes que vão parar no circuito alternativo. AMERICAN HONEY é um mergulho pelo interior dos Estados Unidos e dos sentimentos da protagonista, uma moça que resolve largar tudo para encarar o novo. Até porque a vida que levava era bem ruim. Direção: Andrea Arnold. Ano: 2016.
É importante vermos que Lang era um estranho em terras americanas. Chegou até mesmo a ser tido como arrogante ou metido a besta por ter vergonha de atender uma ligação do chefão da MGM Louis B. Mayer, por causa de seu inglês ruim. Porém, acabou sendo um ótimo aluno e adentrou a cultura americana através de jornais, de ouvir conversas em ônibus e bares, e até mesmo de visitar tribunais para poder trazer mais realismo para sua primeira realização nos Estados Unidos. Quanto ao inglês, foi uma língua que ele fez questão de falar, já que queria evitar o alemão por causa da relação que naquela época havia com o nazismo, que ele mesmo abominava.
Quando comecei a ver o filme lembrei-me de O HOMEM ERRADO, obra-prima da década de 1950 de Hitchcock. Afinal, o principal momento de ação e suspense de FÚRIA começa com Joe Wilson (Spencer Tracy) sendo confundido com um sequestrador de crianças. Ele é preso e tenta poupar sua noiva Katherine (Sidney) dessa situação complicada. Katherine esperava por ele, depois de muito tempo que os dois viviam em estados separados para construírem uma situação financeira melhor e se casarem.
Eis que a multidão daquela pequena cidade fica sabendo que aquele que seria o sequestrador de crianças estava na delegacia e resolve, então, entrar e fazer justiça com as próprias mãos, não importando se o xerife e seus subordinados estavam ali para tentar impedir a entrada. O pobre Joe percebe a encrenca em que se encontra e a multidão incendeia a delegacia. Katherine consegue chegar a tempo de ver o seu amado noivo nas grades, em meio às chamas. Ela, então, desmaia. É uma situação extremamente tensa e perturbadora. Lembra um outro filme feito em Hollywood nos anos 1940, CONSCIÊNCIAS MORTAS, de William Wellman, que também discute o linchamento.
Apesar de eu estar escrevendo sobre a trama do filme aqui, imagino que este texto seja lido para quem já viu o filme, já que surpresas acontecem. Eu preferi ver o filme sem saber nada do enredo e isso foi muito positivo, até para não estar preparado para algo o que viria a seguir. Uma mudança de ritmo é adotada na segunda metade da narrativa, após a loucura que foi a cena da invasão à delegacia.
Uma coisa que eu preciso prestar mais atenção nesses filmes mais antigos de Hollywood é a participação dos negros, ainda que em papéis muito pequenos. Aqui, como se trata de um filme sobre linchamento, poderiam muito bem fazer um filme sobre algo que ocorria com certa frequência nos Estados Unidos: linchamentos de pessoas negras.
Lang não faz um filme para apontar o culpado ou os culpados. Ele, assim como em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931), torna complexa a situação das pessoas que carregam a culpa. Até a obra anterior, LILIOM (1934), também trazia essa questão da necessidade do perdão, ou pelo menos da compreensão dos atos. No caso das pessoas que agiram com a vontade de linchar o homem, vemos que eles agem, principalmente, por causa de uma espécie de explosão de revolta que costuma acometer multidões em circunstâncias de extrema tensão. Por outro lado, vemos um personagem que, de certa pureza apresentada até então, é dominado pelo ódio e pelo sentimento de vingança.
A ida de Lang para os Estados Unidos foi um presente para o cinema americano.
+ TRÊS FILMES
REDEMOINHO (Maelström)
Talvez o menos inspirado dos filmes de Denis Villeneuve, mas fundamental para ajudar a compor a sua filmografia tão coerente. Aqui, mais uma vez temos um protagonista vivendo as pegadinhas da vida. Isso é possível ver em toda a obra do diretor. De 32 DE AGOSTO NA TERRA (1998) até BLADE RUNNER 2049 (2017). Há uma questão moral que me incomodou um pouco, mas depois o filme se acerta. Ah, e Marie-Josée Croze é encantadora. Ano: 2000.
UM HOMEM DE FAMÍLIA (A Family Man / The Headhunter's Calling)
Pode até não ser lá tão bom, mas é um eficiente melodrama sobre trabalho vs. família quando um membro da família está muito doente. Como teve pelo menos um momento que me levou ás lágrimas, já ganhou o meu respeito, mesmo que daqui a um tempo eu o esqueça. Direção: Mark Williams. Ano: 2016.
DOCINHO DA AMÉRICA (American Honey)
Até dá pra entender o motivo de um filme como esse cair direto no Netflix, já que não é de tão fácil digestão. E tem também a questão da duração. Mas há filmes bem mais difíceis e que não passaram por Cannes que vão parar no circuito alternativo. AMERICAN HONEY é um mergulho pelo interior dos Estados Unidos e dos sentimentos da protagonista, uma moça que resolve largar tudo para encarar o novo. Até porque a vida que levava era bem ruim. Direção: Andrea Arnold. Ano: 2016.
sexta-feira, junho 19, 2020
PIEDADE
A demora na pós-produção e posterior lançamento de PIEDADE (2019), ocorrido apenas no Festival de Gramado, no fim do ano passado, poderia ser um indicativo de que se tratava de uma obra problemática. Não problemática no sentido de cenas polêmicas, como até se poderia esperar de Cláudio Assis, mas de tentar montar uma narrativa satisfatória a partir do material bruto conseguido. Na verdade, porém, Assis teve um AVC após as filmagens e isso foi um dos principais motivos da demora.
Em tempos de pandemia, o filme, que estava programado para lançamento nos cinemas em abril deste ano, está tendo um pré-lançamento online no festival de pré-estreias que o Espaço Itaú de Cinema está promovendo. A esperança dos realizadores e das distribuidoras (e também dos espectadores, claro) é que esses filmes sejam exibidos em salas de cinema assim que possível.
Ainda assim, por mais que possa ser considerada a obra menos inspirada de Assis, seu quinto longa-metragem já carrega a força das realizações de um diretor em pleno domínio de seu ofício, embora seja paradoxal que tenha resultado em um produto irregular.
O curioso é que minha primeira impressão do filme foi suas semelhanças com a trama da telenovela global AMOR DE MÃE: temos uma história de uma mãe em busca de um filho por décadas e temos também a luta contra uma grande e poderosa corporação que tem feito males terríveis ao meio-ambiente. E ainda temos em comum também a participação de Irandhir Santos, que em vez de vilão (como na novela) aparece aqui como Omar, o filho atencioso de Dona Carminha (Fernanda Montenegro).
Quem aparece invicto como parceiro eterno de Assis é Matheus Nachtergaele, que interpreta Aurélio, o representante da Petrogreen, empresa interessada em comprar/indenizar o terreno onde fica o bar de Dona Carminha, à beira-mar. Tanto por causa da poluição quanto por constantes ataques de tubarão, o pequeno comércio tem sido obrigado a comprar peixe em outro lugar para poder sobreviver.
Aliás, é curioso como o filme parece apontar no início para uma luta dos jovens contra a megacorporação através de ações cibernéticas, mas isso acaba se dissipando. O que se torna mais importante é a questão familiar, que parece ter muito mais de Hilton Lacerda, um dos roteiristas, do que do próprio Assis. Lembrando que uma relação carinhosa entre pai e filho já havia sido mostrada em um trabalho recente de Lacerda, FIM DE FESTA (2019), que conta pontos a favor por mostrar cenas muito mais bonitas entre pai e filho em momentos em que um misto de tranquilidade e melancolia se apresenta. Em PIEDADE, o pai e o filho são Sandro (Cauã Reymond) e Marlon (Gabriel Leone).
O filho acompanha os pais no negócio, um cinema pornô com cabines eróticas, que faz algum sucesso para o público masculino da cidade fictícia. Ecos de BAIXIO DAS BESTAS (2006), o filme mais intenso de Assis, se fazem presentes neste lugar, tanto por uma exibição em película na sala do filme em si (a controversa cena de gang bang/estupro coletivo com Dira Paes), quanto pela utilização de um plongée do ambiente somado a uma luz vermelha que cita o referido filme de Assis. Imagens de cartazes de filmes exploitation da época da Boca do Lixo também estampam o espaço, enfatizando um ar de decadência.
Um dos destaques positivos do filme é a bela fotografia, a cargo de Marcelo Durst, que havia trabalhado com Assis em BIG JATO (2016). A beleza das cores é de dar gosto, assim como as movimentações de câmera - podemos destacar a reunião da comunidade para definir a aceitação ou não dos termos da corporação, com a opção do cineasta por ir mostrando aos poucos a quantidade de pessoas presentes.
Talvez o momento mais problemático do filme sejam as cenas de sexo. Talvez Assis tenha ficado um pouco desconfortável em filmar sexo homossexual - em especial em uma cena no hotel. Quem sabe se ele resolvesse codirigir o filme com Hilton Lacerda o resultado fosse mais positivo nesse sentido.
A narrativa também se prejudica de certos buracos nas ações, dando a impressão de que muita coisa ficou na sala de montagem. Ainda assim, o desfecho um tanto brusco tem a sua beleza, e a única cena de Cauã com Fernanda Montenegro tem um brilho singular. Assim, por mais que estejamos diante de um filme cheio de imperfeições, ainda assim é uma obra fundamental especialmente para os apreciadores do cinema de Cláudio Assis. Inclusive, o filme é dedicado à mãe do cineasta. Assim, nada como trazer Fernanda Montenegro em toda sua glória para personificar a imagem de uma matriarca querida.
+ TRÊS FILMES
ORGANISMO
Belo filme sobre a difícil fase de transição na vida de um homem que ficou tetraplégico. Pode ser só mais uma história sobre o tema, mas não é. O filme foca na questão do ser, a partir de memórias e do encarar as próprias falhas através da visão do protagonista e de sua namorada. Outro grande momento de Rômulo Braga e também de Bianca Joy Porte. Acertada estreia na direção e no roteiro de Jeorge Pereira. Ano: 2017.
GABRIEL E A MONTANHA
As ambições de Fellipe Barbosa com este longa talvez não tenha atingido a sensibilidade necessária. Ou é só impressão minha. Mas é uma obra especial, sem dúvida, tanto pela abordagem, quanto pela reconstituição e convite à viagem e ao perigo. E Caroline Abras está um amor. De novo. Ano: 2017.
AS DUAS IRENES
É impressão minha ou tem aparecido bastante filmes de coming of age brasileiros? MULHER DO PAI, O FILME DA MINHA VIDA e este AS DUAS IRENES, que é uma beleza. As duas meninas são ótimas, principalmente a primeira Irene. Algumas soluções bem pouco óbvias do roteiro são também louváveis. Quando se pensa que algo vai acontecer, acontece diferente. Isso é muito bom. Um dos melhores brasileiros do ano. Direção: Fabio Meira. Ano: 2017.
Em tempos de pandemia, o filme, que estava programado para lançamento nos cinemas em abril deste ano, está tendo um pré-lançamento online no festival de pré-estreias que o Espaço Itaú de Cinema está promovendo. A esperança dos realizadores e das distribuidoras (e também dos espectadores, claro) é que esses filmes sejam exibidos em salas de cinema assim que possível.
Ainda assim, por mais que possa ser considerada a obra menos inspirada de Assis, seu quinto longa-metragem já carrega a força das realizações de um diretor em pleno domínio de seu ofício, embora seja paradoxal que tenha resultado em um produto irregular.
O curioso é que minha primeira impressão do filme foi suas semelhanças com a trama da telenovela global AMOR DE MÃE: temos uma história de uma mãe em busca de um filho por décadas e temos também a luta contra uma grande e poderosa corporação que tem feito males terríveis ao meio-ambiente. E ainda temos em comum também a participação de Irandhir Santos, que em vez de vilão (como na novela) aparece aqui como Omar, o filho atencioso de Dona Carminha (Fernanda Montenegro).
Quem aparece invicto como parceiro eterno de Assis é Matheus Nachtergaele, que interpreta Aurélio, o representante da Petrogreen, empresa interessada em comprar/indenizar o terreno onde fica o bar de Dona Carminha, à beira-mar. Tanto por causa da poluição quanto por constantes ataques de tubarão, o pequeno comércio tem sido obrigado a comprar peixe em outro lugar para poder sobreviver.
Aliás, é curioso como o filme parece apontar no início para uma luta dos jovens contra a megacorporação através de ações cibernéticas, mas isso acaba se dissipando. O que se torna mais importante é a questão familiar, que parece ter muito mais de Hilton Lacerda, um dos roteiristas, do que do próprio Assis. Lembrando que uma relação carinhosa entre pai e filho já havia sido mostrada em um trabalho recente de Lacerda, FIM DE FESTA (2019), que conta pontos a favor por mostrar cenas muito mais bonitas entre pai e filho em momentos em que um misto de tranquilidade e melancolia se apresenta. Em PIEDADE, o pai e o filho são Sandro (Cauã Reymond) e Marlon (Gabriel Leone).
O filho acompanha os pais no negócio, um cinema pornô com cabines eróticas, que faz algum sucesso para o público masculino da cidade fictícia. Ecos de BAIXIO DAS BESTAS (2006), o filme mais intenso de Assis, se fazem presentes neste lugar, tanto por uma exibição em película na sala do filme em si (a controversa cena de gang bang/estupro coletivo com Dira Paes), quanto pela utilização de um plongée do ambiente somado a uma luz vermelha que cita o referido filme de Assis. Imagens de cartazes de filmes exploitation da época da Boca do Lixo também estampam o espaço, enfatizando um ar de decadência.
Um dos destaques positivos do filme é a bela fotografia, a cargo de Marcelo Durst, que havia trabalhado com Assis em BIG JATO (2016). A beleza das cores é de dar gosto, assim como as movimentações de câmera - podemos destacar a reunião da comunidade para definir a aceitação ou não dos termos da corporação, com a opção do cineasta por ir mostrando aos poucos a quantidade de pessoas presentes.
Talvez o momento mais problemático do filme sejam as cenas de sexo. Talvez Assis tenha ficado um pouco desconfortável em filmar sexo homossexual - em especial em uma cena no hotel. Quem sabe se ele resolvesse codirigir o filme com Hilton Lacerda o resultado fosse mais positivo nesse sentido.
A narrativa também se prejudica de certos buracos nas ações, dando a impressão de que muita coisa ficou na sala de montagem. Ainda assim, o desfecho um tanto brusco tem a sua beleza, e a única cena de Cauã com Fernanda Montenegro tem um brilho singular. Assim, por mais que estejamos diante de um filme cheio de imperfeições, ainda assim é uma obra fundamental especialmente para os apreciadores do cinema de Cláudio Assis. Inclusive, o filme é dedicado à mãe do cineasta. Assim, nada como trazer Fernanda Montenegro em toda sua glória para personificar a imagem de uma matriarca querida.
+ TRÊS FILMES
ORGANISMO
Belo filme sobre a difícil fase de transição na vida de um homem que ficou tetraplégico. Pode ser só mais uma história sobre o tema, mas não é. O filme foca na questão do ser, a partir de memórias e do encarar as próprias falhas através da visão do protagonista e de sua namorada. Outro grande momento de Rômulo Braga e também de Bianca Joy Porte. Acertada estreia na direção e no roteiro de Jeorge Pereira. Ano: 2017.
GABRIEL E A MONTANHA
As ambições de Fellipe Barbosa com este longa talvez não tenha atingido a sensibilidade necessária. Ou é só impressão minha. Mas é uma obra especial, sem dúvida, tanto pela abordagem, quanto pela reconstituição e convite à viagem e ao perigo. E Caroline Abras está um amor. De novo. Ano: 2017.
AS DUAS IRENES
É impressão minha ou tem aparecido bastante filmes de coming of age brasileiros? MULHER DO PAI, O FILME DA MINHA VIDA e este AS DUAS IRENES, que é uma beleza. As duas meninas são ótimas, principalmente a primeira Irene. Algumas soluções bem pouco óbvias do roteiro são também louváveis. Quando se pensa que algo vai acontecer, acontece diferente. Isso é muito bom. Um dos melhores brasileiros do ano. Direção: Fabio Meira. Ano: 2017.
quinta-feira, junho 18, 2020
CORAÇÃO DE APACHE / CORAÇÃO VADIO (Liliom)
Como os dois títulos brasileiros são menos conhecidos do que o original, tratemos CORAÇÃO DE APACHE (1934), como, ao que parece foi o título que originalmente o filme recebeu quando lançado nos cinemas brasileiros - CORAÇÃO VADIO, talvez em um lançamento posterior, não sei dizer onde ou em que bitola - como LILIOM, o título original, mais famoso e nome do personagem principal, aqui interpretado por Charles Boyer, que em Hollywood ficou famoso quando fez DUAS VIDAS, de Leo McCarey, e À MEIA LUZ, de George Cukor, entre outros.
Sobre LILIOM, o célebre filme francês de Fritz Lang, chamado de interlúdio, pois foi rodado entre a primeira fase alemã e a fase americana do cineasta, confesso que tive meus problemas, embora goste de muitos aspectos do filme. O que mais me incomodou foi a questão da violência doméstica. Sei que Lang é um humanista, mas, como costumam dizer que ele é um cineasta misógino, em LILIOM tem-se um prato cheio, já que o protagonista agride a esposa, uma esposa amorosa e cuidadosa. E isso me incomodou um bocado.
Principalmente quando vi as cenas finais, com a filha perguntando à mãe: "Há tapas que não doem, mãe?", e a mãe responde que sim, lembrando do marido morto. Claro que não é tão simples assim e o filme explora um pouco da psicologia mais complexa de Liliom, de certa forma. Mas sobram momentos de malandragem do personagem e faltam mais momentos de carinho por parte dele. Assim, todo o amor, toda a entrega na relação, parece vir sempre de Julie (Madeleine Ozeray), que se recusa a deixar um marido que não quer trabalhar.
Aliás, não deixa de ser curioso ver tanto ela quanto a outra mulher, a Madame Muscat, dizerem que Liliom era um artista, que merecia tratamento diferente da sociedade. E entramos aí em outra questão interessante: a de como a sociedade é injusta para as pessoas mais pobres. Assim na Terra como no céu, inclusive. Mesmo no céu, Deus não está disponível para um homem pobre como ele; o céu como espelho da justiça da Terra.
Outro aspecto positivo de Liliom se manifesta no momento em que ele recebe uma espécie de ultimato de sua patroa/namorada e prefere largar o emprego sem nenhum tostão e ir embora com as duas moças, um tanto tocado pelo doce olhar de Julie. Além do mais, ele não deseja ser considerado propriedade de ninguém. É um posicionamento nobre. Ainda mais para um perigoso sedutor de mulheres, como afirmou o policial na cena do banco de praça. É lá que Julie diz: "Quando eu amo alguém, eu não tenho medo de nada."
LILIOM é adaptação de uma peça de Ferenc Molnár, e que já recebeu algumas tantas adaptações para o cinema e para a televisão. Para cinema, as mais famosas são esta do Lang, uma anterior, de 1930, dirigida por Frank Borzage, e uma chamada CARROSSEL, de Henry King, lançada em 1956. Não sei se essas outras versões entregam (ou não) logo no início que o filme trará momentos que sairão do território do realismo.
Como produção para cinema, percebe-se que se trata de uma obra de orçamento pequeno. Do parque de diversões do início, por exemplo, é mostrado muito pouco. Só o carrossel, a bilheteria e um ou outro brinquedo. Mas isso faz parte da magia do cinema. No entanto, isso acaba por impedir um momento de virtuosismo de Lang no uso da câmera, algo que já podíamos presenciar em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), para citar uma obra imediatamente anterior.
Para não dizer que não elogiei o filme (na verdade, enquanto eu escrevo sobre ele, mais eu gosto), preciso lembrar do momento mais bonito: a morte de Liliom. Um dia desses, aliás, estava vendo outro filme (um brasileiro, chamado ILHA) e um homem pergunta ao outro como ele desejaria morrer. E eu fiquei pensando: morrer nos braços da mulher amada seria uma morte doce. E é o que ganha Liliom, nesta cena belíssima que destaca mais uma vez o amor gigantesco de Julie.
+ TRÊS FILMES
O MEDO DEVORA A ALMA (Angst Essen Seele Auf)
Nada como um cineasta gay para tratar da questão do preconceito com tanta propriedade. Se aqui não temos o preconceito da relação entre duas pessoas do mesmo sexo, há um casal talvez ainda mais controverso: o de um homem muçulmano com uma senhora alemã vinte anos mais velha que ele. Rainer Werner Fassbinder reconstrói o melodrama sirkiano do jeito dele, com um jeito mais seco, com quase ausência de música e um trabalho visual lindo (fotografia, direção de arte). Talvez tenha faltado a mim mais empatia para me colocar no lugar dos personagens. Tanto que, quando o sujeito vai até o apartamento da loira, até acho que ele está tomando a decisão certa, já que chega um momento em que a relação entre o casal parece não evoluir para algo de cunho mais romântico ou sexual. Mas o diretor sabe lidar com todos esses problemas complexos. Ano: 1974.
O DIA MAIS FELIZ DA VIDA DE OLLIE MÄAKI (Hymyilevä Mies)
Uma das coisas mais belas deste filme é o amor do boxeador Olie Mäaki pela namorada. Tudo o mais, inclusive o boxe, fica em segundo plano. Em tempos em que o amor romântico vem sendo problematizado e subvalorizado eu ainda gosto de filmes assim. Direção: Juho Kuosmanen. Ano: 2016.
ELON NÃO ACREDITA NA MORTE
Filme admirável tecnicamente. Lembra um pouco alguns trabalhos dos irmãos Dardenne com a aproximação da câmera. A atuação de Rômulo Braga é espetacular. Mas falta alguma coisa para o filme alcançar a excelência. Direção: Ricardo Alves Jr. Ano: 2016.
Sobre LILIOM, o célebre filme francês de Fritz Lang, chamado de interlúdio, pois foi rodado entre a primeira fase alemã e a fase americana do cineasta, confesso que tive meus problemas, embora goste de muitos aspectos do filme. O que mais me incomodou foi a questão da violência doméstica. Sei que Lang é um humanista, mas, como costumam dizer que ele é um cineasta misógino, em LILIOM tem-se um prato cheio, já que o protagonista agride a esposa, uma esposa amorosa e cuidadosa. E isso me incomodou um bocado.
Principalmente quando vi as cenas finais, com a filha perguntando à mãe: "Há tapas que não doem, mãe?", e a mãe responde que sim, lembrando do marido morto. Claro que não é tão simples assim e o filme explora um pouco da psicologia mais complexa de Liliom, de certa forma. Mas sobram momentos de malandragem do personagem e faltam mais momentos de carinho por parte dele. Assim, todo o amor, toda a entrega na relação, parece vir sempre de Julie (Madeleine Ozeray), que se recusa a deixar um marido que não quer trabalhar.
Aliás, não deixa de ser curioso ver tanto ela quanto a outra mulher, a Madame Muscat, dizerem que Liliom era um artista, que merecia tratamento diferente da sociedade. E entramos aí em outra questão interessante: a de como a sociedade é injusta para as pessoas mais pobres. Assim na Terra como no céu, inclusive. Mesmo no céu, Deus não está disponível para um homem pobre como ele; o céu como espelho da justiça da Terra.
Outro aspecto positivo de Liliom se manifesta no momento em que ele recebe uma espécie de ultimato de sua patroa/namorada e prefere largar o emprego sem nenhum tostão e ir embora com as duas moças, um tanto tocado pelo doce olhar de Julie. Além do mais, ele não deseja ser considerado propriedade de ninguém. É um posicionamento nobre. Ainda mais para um perigoso sedutor de mulheres, como afirmou o policial na cena do banco de praça. É lá que Julie diz: "Quando eu amo alguém, eu não tenho medo de nada."
LILIOM é adaptação de uma peça de Ferenc Molnár, e que já recebeu algumas tantas adaptações para o cinema e para a televisão. Para cinema, as mais famosas são esta do Lang, uma anterior, de 1930, dirigida por Frank Borzage, e uma chamada CARROSSEL, de Henry King, lançada em 1956. Não sei se essas outras versões entregam (ou não) logo no início que o filme trará momentos que sairão do território do realismo.
Como produção para cinema, percebe-se que se trata de uma obra de orçamento pequeno. Do parque de diversões do início, por exemplo, é mostrado muito pouco. Só o carrossel, a bilheteria e um ou outro brinquedo. Mas isso faz parte da magia do cinema. No entanto, isso acaba por impedir um momento de virtuosismo de Lang no uso da câmera, algo que já podíamos presenciar em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), para citar uma obra imediatamente anterior.
Para não dizer que não elogiei o filme (na verdade, enquanto eu escrevo sobre ele, mais eu gosto), preciso lembrar do momento mais bonito: a morte de Liliom. Um dia desses, aliás, estava vendo outro filme (um brasileiro, chamado ILHA) e um homem pergunta ao outro como ele desejaria morrer. E eu fiquei pensando: morrer nos braços da mulher amada seria uma morte doce. E é o que ganha Liliom, nesta cena belíssima que destaca mais uma vez o amor gigantesco de Julie.
+ TRÊS FILMES
O MEDO DEVORA A ALMA (Angst Essen Seele Auf)
Nada como um cineasta gay para tratar da questão do preconceito com tanta propriedade. Se aqui não temos o preconceito da relação entre duas pessoas do mesmo sexo, há um casal talvez ainda mais controverso: o de um homem muçulmano com uma senhora alemã vinte anos mais velha que ele. Rainer Werner Fassbinder reconstrói o melodrama sirkiano do jeito dele, com um jeito mais seco, com quase ausência de música e um trabalho visual lindo (fotografia, direção de arte). Talvez tenha faltado a mim mais empatia para me colocar no lugar dos personagens. Tanto que, quando o sujeito vai até o apartamento da loira, até acho que ele está tomando a decisão certa, já que chega um momento em que a relação entre o casal parece não evoluir para algo de cunho mais romântico ou sexual. Mas o diretor sabe lidar com todos esses problemas complexos. Ano: 1974.
O DIA MAIS FELIZ DA VIDA DE OLLIE MÄAKI (Hymyilevä Mies)
Uma das coisas mais belas deste filme é o amor do boxeador Olie Mäaki pela namorada. Tudo o mais, inclusive o boxe, fica em segundo plano. Em tempos em que o amor romântico vem sendo problematizado e subvalorizado eu ainda gosto de filmes assim. Direção: Juho Kuosmanen. Ano: 2016.
ELON NÃO ACREDITA NA MORTE
Filme admirável tecnicamente. Lembra um pouco alguns trabalhos dos irmãos Dardenne com a aproximação da câmera. A atuação de Rômulo Braga é espetacular. Mas falta alguma coisa para o filme alcançar a excelência. Direção: Ricardo Alves Jr. Ano: 2016.
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