Na década de 1990, no auge dos meus twenties, a minha sede por filmes eróticos, com temas abordando a sexualidade e certas fantasias sexuais era bem forte. É fácil entender pela idade, com os hormônios transbordando, mas sei que esse tipo de interesse em erotismo/pornografia não é algo comum a todos. Pra mim continua sendo, aliás, ainda que de maneira um pouco mais suave.
Embora não seja uma novidade da década em si o erotismo no cinema (sempre existiu, em menor ou maior grau, dependendo da censura e da cultura de cada país), podemos dizer que INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, foi um divisor de águas e trouxe uma chuva de softcores nas locadoras, no cinema e na programação das TVs.
TÓKIO EM DECADÊNCIA (1992), mesmo sendo do mesmo ano do filme estrelado por Sharon Stone, chegou ao Brasil apenas três anos depois. Não lembro se chegou a passar em alguma sala de cinema na cidade – talvez não – e o vi pela primeira vez em VHS. Como se trata de um filme japonês, já se espera algo um pouco mais bizarro e incomum de nossos irmãos nipônicos.
Abordando o universo S&M, o filme de Ryû Murakami, romancista autor de AUDIÇÃO (1999), de Takashi Miike, foi adaptado da obra do próprio Murakami. Pelo que eu li pela internet ele adaptou cinco histórias e a transformou na narrativa de Ai, uma jovem pura e inocente, vivida por Miho Nikaido, uma atriz que fez eu me lembrar de uma personagem de um filme recente de Kiyoshi Kurosawa, O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO.
A cena que minha memória tratou de tornar mais forte é uma das primeiras. Ai é contratada por um gângster da Yakuza para satisfazer os seus desejos sádicos. Ela deve ficar na janela de um grande edifício seminua, dançando sensualmente, se contorcendo, até que aquela situação de humilhação se torne tão excitante que ela fique bem molhada. E passam-se horas, a noite chega, e aquela pobre menina ficou de fato muito excitada. O gângster a apalpa para verificar.
Como fantasia erótica S&M, achei isso fabuloso. E nem foi a única coisa que Ai fez durante aquele período de prestação de serviços com esse homem. Mais situações aparecerão durante a longa noite, principalmente quando chega a esposa do sujeito. Mas foi aquela cena da janela que me pegou que não saiu da minha memória e me fez querer ver o filme de novo, desta vez em uma ótima cópia.
E uma coisa que eu reparei nesta revisão é que o filme ganha ainda mais força no aspecto humano, no quanto a obra aprofunda os dramas existenciais de Ai, sua vontade de encontrar um grande amor, mesmo tendo que trabalhar para esse tipo de cliente. Se o filme fosse apenas uma sucessão de cenas excitantes e exploratórias já seria muito bom. Consegue transcender esse aspecto, com suas cenas mais longas e contemplativas.
A primeira cena, da injeção, passa uma sensação de impotência, de uma impossibilidade de sair do jogo, uma vez entrando e já dá o tom de algo sombrio. E também vale destacar a cena da dominatrix humilhando o seu cliente, que age feito um cachorrinho e é obrigado a beber urina. Não é bem obrigado, na verdade. Ele estava curtindo aquilo, foi para isso que ele contratou os serviços dessa outra moça, que enricou com esse negócio. Por tabela, o filme também acaba falando do vazio existencial desses homens, sejam eles sádicos ou masoquistas. E o Japão talvez seja um misto de sociedade doente, mas ao mesmo tempo em que tem conseguido se libertar de certos tabus através da arte (cinema, mangás, literatura etc.).
+ TRÊS FILMES
LÁMEN SHOP (Ramen Teh)
Que filme bonito, hein! Além de tratar da comida de maneira quase espiritual (como é comum de ver em algumas obras japonesas), tem toda uma questão familiar que acaba falando mais forte e traz muita emoção. Fui ver o filme achando apenas ser ok e acabei me comovendo bastante. Há uma questão política envolvendo a relação Japão/Singapura também e que pode passar batido por quem não conhece nada dos países. Mas o forte é mesmo a relação familiar e a questão da comida. Por mais filmes do Eric Khoo no circuito! Ano: 2018.
AFTER
É melhor do que eu esperava. Muito por causa da atriz, uma graça chamada Josephine Langford. Ela lembra tanto a Sarah Michelle Gellar quanto uma versão teen de Cybill Shepherd. E por isso muito do interesse do filme jaz em sua personagem e no modo como ela vê a vida como algo muito excitante, já que ainda é virgem e está bem apaixonada pelo rapaz que conhece na faculdade. Não há cenas de nudez, mas as cenas de amor/sexo são bem sensuais e bonitas. Interessante ver Peter Gallagher, que eu conheci em SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, fazendo um papel pequeno em um filme como esse, que lembra tanto CREPÚSCULO quanto CINQUENTA TONS DE CINZA em diversos aspectos. Direção: Jenny Gage. Ano: 2019.
RAINHA DE COPAS (Dronningen)
É um filme interessante para causar reflexões sobre o caso apresentado: mulher passa a fazer sexo com o enteado de 17 anos. Confesso que fiquei sem entender se o filme é moralista, ou se pensar que é moralista já denota alguém com problema. De todo modo, é um drama tenso e envolvente, com uma ótima atriz dinamarquesa fazendo um papel forte em uma história controversa, com direito a uma cena de sexo bastante ousada (ainda que curta) para os dias de hoje. Direção: May el-Toukhy. Ano: 2019.
quarta-feira, novembro 13, 2019
segunda-feira, novembro 11, 2019
IMPÉRIO DO CRIME (The Big Combo)
Recentemente fiz uma farra de compras com os descontos nos boxes da Versátil na Livraria Cultura. Acabei comprando cinco caixas da série Filme Noir, talvez a que apresente mais títulos. O filme que escolhi para inaugurar os boxes foi este O IMPÉRIO DO CRIME (1955), de Joseph H. Lewis, que já estava nos meus planos de ver um tempo atrás, mas por alguns motivos que nem me lembro mais, acabei deixando para outro dia.
Uma das coisas que me encantam no gênero é o quanto aquele universo parece irreal, mas muito representativo da realidade. As ruas e as casas mal iluminadas, os tons um tanto acima dos diálogos, o fato de termos personagens que borram a fronteira entre o bem e o mal, como o charmoso vilão, vivido por Richard Conte, ou sua namorada, a loira platinada vivida por Jean Wallace, que não resiste à lascívia do amante, mesmo sabendo que ele é um gângster. E há a figura do herói capaz de peitar o chefão, vivido por Cornel Wilde. Ele é o policial obcecado em prender o mais poderoso gângster da cidade.
Em entrevista a Peter Bogdanovich, o diretor Joseph H. Lewis afirmou que gosta do filme, embora não tanto quanto de MORTALMENTE PERIGOSA (1950). E de fato concordo com ele. Mas IMPÉRIO DO CRIME não ganhou título de clássico por acaso. Ele foi o primeiro filme americano a "mostrar" uma cena de sexo oral (para desespero de Cornel Wilde, marido de Jean Wallace) e foi muito inventivo, para dizer o mínimo, na hora de mostrar a morte de um dos bandidos. E o que dizer da cena da tortura?
O filme também brinca muito com o roteiro intrincado, envolvendo uma mulher misteriosa (só o seu nome é inicialmente citado), suspeitas fortes de assassinato que serviriam de prova para finalmente incriminar o Mr. Brown (Conte), um capitão de um navio que tem algo a esconder, entre outras coisas que vão surgindo, como se luzes fossem sendo acendidas na escuridão. Mais ou menos como faz a personagem de Jean Wallace, apontando um dos faróis de um carro para o grande vilão.
+ TRÊS FILMES
O ASSASSINO MORA NO 21 (L'Assassin Habite... au 21)
Primeiro filme de Henri-Georges Clouzot, feito durante a ocupação alemã por uma empresa dos nazistas. A fotografia lembra um bocado o expressionismo alemão e se não fosse tão exagerado na quantidade de diálogos seria um filme melhor, com mais tempo para respirar. Ainda assim, funciona em muitos aspectos, principalmente no quesito humor. É uma espécie de whodunit em que um detetive de polícia tenta descobrir quem é o assassino serial dentro de uma pensão cheia de tipos exóticos. Ano: 1942.
TARTUFO (Tartüff)
Não é todo dia que se tem a chance de ver um F.W. Murnau no cinema. O Cine São Luiz está com um projeto de filmes mudos. Vi que são exibições em DVD, mas a qualidade de projeção não deixa nada a desejar. Ainda mais para filmes em preto e branco dessa época. E é impressionante como TARTUFO se mantém atual nesses dias de hoje, em que impera a hipocrisia e a intenção de ganhar dinheiro com a ingenuidade e a fé dos outros. O filme é bem compacto, curto, ainda mais que carrega uma estrutura de filme dentro do filme, mas funciona que é uma beleza. É o menos inspirado dentro os trabalhos do genial diretor que eu vi até o momento, mas ainda assim é uma beleza. Depois deste filme, ele faria FAUSTO (1926) e depois sua obra-prima máxima, AURORA (1927). Ano: 1925.
ELEGIA DE OSAKA (Naniwa Erejî)
Dizem que foi a primeira obra de mestre de Kenji Mizoguchi. Não sei se é verdade. Há tantas outras feitas anteriores a esta. De todo modo, além de mais uma história sobre a mulher sofrendo em um mundo injusto e preconceituoso, é também um filme que tem algo de inventivo no campo formal, como as cenas que mostram a ação do lado de fora da casa. Ainda assim, dos Mizoguchis que eu vi até agora foi o menos brilhante. Ano: 1936.
Uma das coisas que me encantam no gênero é o quanto aquele universo parece irreal, mas muito representativo da realidade. As ruas e as casas mal iluminadas, os tons um tanto acima dos diálogos, o fato de termos personagens que borram a fronteira entre o bem e o mal, como o charmoso vilão, vivido por Richard Conte, ou sua namorada, a loira platinada vivida por Jean Wallace, que não resiste à lascívia do amante, mesmo sabendo que ele é um gângster. E há a figura do herói capaz de peitar o chefão, vivido por Cornel Wilde. Ele é o policial obcecado em prender o mais poderoso gângster da cidade.
Em entrevista a Peter Bogdanovich, o diretor Joseph H. Lewis afirmou que gosta do filme, embora não tanto quanto de MORTALMENTE PERIGOSA (1950). E de fato concordo com ele. Mas IMPÉRIO DO CRIME não ganhou título de clássico por acaso. Ele foi o primeiro filme americano a "mostrar" uma cena de sexo oral (para desespero de Cornel Wilde, marido de Jean Wallace) e foi muito inventivo, para dizer o mínimo, na hora de mostrar a morte de um dos bandidos. E o que dizer da cena da tortura?
O filme também brinca muito com o roteiro intrincado, envolvendo uma mulher misteriosa (só o seu nome é inicialmente citado), suspeitas fortes de assassinato que serviriam de prova para finalmente incriminar o Mr. Brown (Conte), um capitão de um navio que tem algo a esconder, entre outras coisas que vão surgindo, como se luzes fossem sendo acendidas na escuridão. Mais ou menos como faz a personagem de Jean Wallace, apontando um dos faróis de um carro para o grande vilão.
+ TRÊS FILMES
O ASSASSINO MORA NO 21 (L'Assassin Habite... au 21)
Primeiro filme de Henri-Georges Clouzot, feito durante a ocupação alemã por uma empresa dos nazistas. A fotografia lembra um bocado o expressionismo alemão e se não fosse tão exagerado na quantidade de diálogos seria um filme melhor, com mais tempo para respirar. Ainda assim, funciona em muitos aspectos, principalmente no quesito humor. É uma espécie de whodunit em que um detetive de polícia tenta descobrir quem é o assassino serial dentro de uma pensão cheia de tipos exóticos. Ano: 1942.
TARTUFO (Tartüff)
Não é todo dia que se tem a chance de ver um F.W. Murnau no cinema. O Cine São Luiz está com um projeto de filmes mudos. Vi que são exibições em DVD, mas a qualidade de projeção não deixa nada a desejar. Ainda mais para filmes em preto e branco dessa época. E é impressionante como TARTUFO se mantém atual nesses dias de hoje, em que impera a hipocrisia e a intenção de ganhar dinheiro com a ingenuidade e a fé dos outros. O filme é bem compacto, curto, ainda mais que carrega uma estrutura de filme dentro do filme, mas funciona que é uma beleza. É o menos inspirado dentro os trabalhos do genial diretor que eu vi até o momento, mas ainda assim é uma beleza. Depois deste filme, ele faria FAUSTO (1926) e depois sua obra-prima máxima, AURORA (1927). Ano: 1925.
ELEGIA DE OSAKA (Naniwa Erejî)
Dizem que foi a primeira obra de mestre de Kenji Mizoguchi. Não sei se é verdade. Há tantas outras feitas anteriores a esta. De todo modo, além de mais uma história sobre a mulher sofrendo em um mundo injusto e preconceituoso, é também um filme que tem algo de inventivo no campo formal, como as cenas que mostram a ação do lado de fora da casa. Ainda assim, dos Mizoguchis que eu vi até agora foi o menos brilhante. Ano: 1936.
domingo, novembro 03, 2019
SEGREDOS OFICIAIS (Official Secrets)
Uma beleza este thriller político na tradição dos melhores produzidos pela Nova Hollywood nos anos 70, mas com aquele toque de maior realismo das produções britânicas. Em SEGREDOS OFICIAIS (2019), temos o caso real de uma jovem mulher, Katharine Gun, vivida com brilhantismo por Keira Knightley, que trabalhou em uma agência de inteligência da Inglaterra e que obteve um memorando bombástico que mostrava uma tentativa dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido de pressionar demais países a aderir à guerra contra o Iraque em 2003, tendo como principal desculpa a existência das famosas armas de destruição.
O filme é narrado com uma maestria impressionante, ainda que de maneira bem clássica. Talvez o maior mérito seja do roteiro do que da direção (o diretor Gavin Hood é um dos roteiristas), que consegue amarrar tão bem todos os personagens, que são apresentados nos momentos certos e a trama se costura de uma forma envolvente.
É interessante como certos filmes, mesmo tratando de eventos ocorridos com uma distância temporal relativamente grande, ainda fala ao momento atual. Afinal, estamos vivendo um momento em que vazamentos de informações estão cada vez mais nas manchetes dos jornais. Na Inglaterra, pelo que o filme mostra, o sistema é muito mais seguro e opressivo do que nos Estados Unidos, havendo, possivelmente por isso, muito menos casos de pessoas que têm a coragem de vazar informações.
SEGREDOS OFICIAIS não mostra Gun como uma heroína, mas como uma pessoa comum que sente a necessidade de impedir uma guerra (infelizmente os Estados Unidos iniciam o ataque, mesmo sem o apoio da ONU) e que tem sua vida virada de cabeça para baixo. Seu marido, inclusive, por ser imigrante, corre o risco de ser deportado, e ela corre o perigo de ser presa.
O enredo vai sendo tecido com cuidado e esmero. Após a apresentação da personagem de Keira Knightley e as ações fundamentais para que o memorando ganhe o mundo, somos apresentados aos jornalistas do The Observer, principalmente àquele que escreveria a história, Martin Bright (Matt Smith). Depois entra em cena o advogado Ben Emmerson, vivido por Ralph Fiennes, que será responsável pela defesa da jovem.
O excelente trabalho dos atores e o modo como o filme lida de forma realista o mundo da redação dos jornais e da mídia e todo o drama de ordem kafkiana de Gun, tudo isso contribui para que SEGREDOS OFICIAIS não fique atrás de obras como SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy; CONSPIRAÇÃO E PODER, de James Vanderbilt, ou THE POST - A GUERRA SECRETA, de Steven Spielberg. E para quem não conhece a história real de Katharine Gun, melhor não ler nada, pois o final é surpreendente.
+ TRÊS FILMES
DOWNTON ABBEY
Pena não ter visto a série para ter podido aproveitar melhor este filme. Não que não dê para entender, mas o segredo, percebe-se, está nas entrelinhas. E há uma vasta quantidade de personagens. Ao menos a trama envolvendo a chegada do rei e da rainha à mansão é divertida, ajuda a manter a agitação pelo lugar e a trazer sentimentos contraditórios: para muitos, há a nostalgia de uma Inglaterra aristocrática e extremamente elitista; para outros a imagem de um bando de pessoas que se fartam da miséria humana para viverem no luxo. Não que isso seja mostrado, mas achei difícil não pensar. Direção: Michael Engler. Ano: 2019.
GUERRA FRIA (Zimna Wojna)
Mais um belo filme de Pawel Pawlikowski. Depois de IDA (2013), a gente fica um pouco mais familiarizado com seu estilo visual, mas não exatamente preparado para tanta beleza nas imagens. O que é isso, meu Deus? Não estou conseguindo me lembrar de outro filme em preto e branco tão bonito visualmente. Quanto à parte dramática, queria ter me apaixonado pela personagem feminina tanto quanto o protagonista. Um pouco menos de frieza ajudaria a nos aproximar. Mas é tudo muito bom e de dar gosto. O céu mais uma vez é destaque. Ano: 2018.
A FESTA (The Party)
O elenco em si já chama a atenção. Onde podemos ver um baita elenco desses em um filme pequeno? E por mais que a diretora Sally Potter não tenha conseguido ser engraçada em cada momento, ela consegue em vários momentos. E todo mundo ali parece estar se divertindo muito. Um barato o personagem do Bruno Ganz. Já a Patricia Clarkson parece estar fazendo o mesmo papel da minissérie SHARP OBJECTS, só que com mais senso de humor (negro). Ano: 2017.
O filme é narrado com uma maestria impressionante, ainda que de maneira bem clássica. Talvez o maior mérito seja do roteiro do que da direção (o diretor Gavin Hood é um dos roteiristas), que consegue amarrar tão bem todos os personagens, que são apresentados nos momentos certos e a trama se costura de uma forma envolvente.
É interessante como certos filmes, mesmo tratando de eventos ocorridos com uma distância temporal relativamente grande, ainda fala ao momento atual. Afinal, estamos vivendo um momento em que vazamentos de informações estão cada vez mais nas manchetes dos jornais. Na Inglaterra, pelo que o filme mostra, o sistema é muito mais seguro e opressivo do que nos Estados Unidos, havendo, possivelmente por isso, muito menos casos de pessoas que têm a coragem de vazar informações.
SEGREDOS OFICIAIS não mostra Gun como uma heroína, mas como uma pessoa comum que sente a necessidade de impedir uma guerra (infelizmente os Estados Unidos iniciam o ataque, mesmo sem o apoio da ONU) e que tem sua vida virada de cabeça para baixo. Seu marido, inclusive, por ser imigrante, corre o risco de ser deportado, e ela corre o perigo de ser presa.
O enredo vai sendo tecido com cuidado e esmero. Após a apresentação da personagem de Keira Knightley e as ações fundamentais para que o memorando ganhe o mundo, somos apresentados aos jornalistas do The Observer, principalmente àquele que escreveria a história, Martin Bright (Matt Smith). Depois entra em cena o advogado Ben Emmerson, vivido por Ralph Fiennes, que será responsável pela defesa da jovem.
O excelente trabalho dos atores e o modo como o filme lida de forma realista o mundo da redação dos jornais e da mídia e todo o drama de ordem kafkiana de Gun, tudo isso contribui para que SEGREDOS OFICIAIS não fique atrás de obras como SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS, de Tom McCarthy; CONSPIRAÇÃO E PODER, de James Vanderbilt, ou THE POST - A GUERRA SECRETA, de Steven Spielberg. E para quem não conhece a história real de Katharine Gun, melhor não ler nada, pois o final é surpreendente.
+ TRÊS FILMES
DOWNTON ABBEY
Pena não ter visto a série para ter podido aproveitar melhor este filme. Não que não dê para entender, mas o segredo, percebe-se, está nas entrelinhas. E há uma vasta quantidade de personagens. Ao menos a trama envolvendo a chegada do rei e da rainha à mansão é divertida, ajuda a manter a agitação pelo lugar e a trazer sentimentos contraditórios: para muitos, há a nostalgia de uma Inglaterra aristocrática e extremamente elitista; para outros a imagem de um bando de pessoas que se fartam da miséria humana para viverem no luxo. Não que isso seja mostrado, mas achei difícil não pensar. Direção: Michael Engler. Ano: 2019.
GUERRA FRIA (Zimna Wojna)
Mais um belo filme de Pawel Pawlikowski. Depois de IDA (2013), a gente fica um pouco mais familiarizado com seu estilo visual, mas não exatamente preparado para tanta beleza nas imagens. O que é isso, meu Deus? Não estou conseguindo me lembrar de outro filme em preto e branco tão bonito visualmente. Quanto à parte dramática, queria ter me apaixonado pela personagem feminina tanto quanto o protagonista. Um pouco menos de frieza ajudaria a nos aproximar. Mas é tudo muito bom e de dar gosto. O céu mais uma vez é destaque. Ano: 2018.
A FESTA (The Party)
O elenco em si já chama a atenção. Onde podemos ver um baita elenco desses em um filme pequeno? E por mais que a diretora Sally Potter não tenha conseguido ser engraçada em cada momento, ela consegue em vários momentos. E todo mundo ali parece estar se divertindo muito. Um barato o personagem do Bruno Ganz. Já a Patricia Clarkson parece estar fazendo o mesmo papel da minissérie SHARP OBJECTS, só que com mais senso de humor (negro). Ano: 2017.
segunda-feira, outubro 28, 2019
O REI DA COMÉDIA (The King of Comedy)
Uma das coisas que têm me deixado triste nos últimos anos é o fato de eu não poder mais ler livros velhos. A laringite alérgica tem incomodado bastante e basta eu pegar um livro empoeirado ou com qualquer coisa que faça minha garganta formigar que eu já vejo que aquilo é material para eu manter distância. Para quem tem uma mini-biblioteca com livros de cinema e quadrinhos, entre outros gêneros (romances, poesia, livros sobre música, espiritualidade etc.), isso é motivo para algum desânimo.
Por isso estava demorando para ir lá no "quarto dos livros" buscar o meu livro de entrevistas do Martin Scorsese, por Richard Schickel, a propósito de ter assistido a O REI DA COMÉDIA (1982) recentemente, muito por culpa da turma do Cinema na Varanda, mas também, por tabela, pelo efeito CORINGA. E para poder ler com tranquilidade as páginas em que o diretor trata do filme eu as fotografei. Que bom que ao menos os dias de hoje oferecem algum tipo de compensação: certas facilidades que um smartphone pode trazer, por exemplo.
Quanto à entrevista, o que me incomodou foi que o aspecto desagradável que o filme passa em nos colocar no lugar do personagem de Robert De Niro também se apresenta em toda a entrevista do Scorsese. É como se ele tivesse guardado todo o mal estar provocado por aquele período das filmagens e o materializasse para aquele momento. O fato de ele ter lembrado de um momento das gravações, quando Jerry Lewis o chama para conversar e lhe pedir para avisar quando não precisar dele naquela gravação, e como isso o deixou um pouco transtornado, tudo isso tem a ver com o que o filme passa.
O conceito de vergonha alheia talvez nunca tenha sido tão bem explorado por outro diretor. E se nos filmes de gângster do diretor isso aparece poderosamente (basta lembrar da cena do Joe Pesci sendo lembrado que foi engraxate em OS BONS COMPANHEIROS), aqui essa vergonha é elevada à enésima potência. Não basta apenas o sujeito chegar com uma fitinha para visitar o seu ídolo e ser reconhecido como ótimo comediante a ponto de ser apresentado na televisão; é preciso que ele seja tão inconveniente que passa a humilhação de ser jogado para fora pelos seguranças.
O personagem me lembrou muito um colega meu, da época do estágio no Banco do Nordeste. O sujeito, com o tempo, foi cada vez mais trazendo delírios sobre ter tido contado com tal artista, ou diretor, ou produtor, que iria viajar para os Estados Unidos para fazer curso de cinema etc. Um dia, encontrei-o na rua e ele falou que tinha acabado de tomar um café com a Norah Jones. É o tipo de coisa que me deixa bem perturbado, já que todos nós temos sonhos e temos frustrações, mas há pessoas que não conseguem lidar com a realidade. Talvez ela seja dura demais para elas.
No caso de Rupert Pupkin, o personagem de De Niro, ele nem se mostra engraçado em momento algum. A montagem do filme também não oferece nenhum momento que justifique o fato de ele ser minimamente engraçado ou inteligente (a inteligência e o humor andam lado a lado). Talvez apenas quando ele não se dá conta de sua doença, ao conversar com fotos em tamanho grande de Liza Minelli e Jerry Langford (o personagem de Jerry Lewis). Mas talvez nem seja realmente engraçado, apenas patético.
No mais, impressionante ver o filme e notar o tanto de citações e referências explícitas usadas por Todd Phillips para compor o seu CORINGA. Ou seja, o que Phillips fez foi uma nova versão de O REI DA COMÉDIA, ainda que menos brilhante e mais explícito na violência - o filme de Scorsese, por sua vez, eu tinha a má recordação de que era mais tenso na cena do sequestro.
+ TRÊS FILMES
VICE
Acabei gostando mais do que de A GRANDE APOSTA, talvez por já saber o que me esperava. E também por tratar de um assunto mais importante, no sentido de ter uma repercussão maior no mundo como um todo. E também por mostrar os bastidores do jogo de poder nas últimas décadas. Gosto da primeira metade do filme e acho que ele perde a força quando se aproxima do final. A gente fica um pouco esgotado do ritmo, aborrecido um pouco. E às vezes o diretor parece querer só mostrar que é inteligente ou engraçado. Se bem que eu até que gostei de algumas brincadeiras. Então tá valendo. Direção: Adam McKay. Ano: 2018.
A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don't Worry, He Won't Get Far on Foot)
Gosto do filme, mas não sei por que Gus Van Sant optou por uma cinebiografia tão convencional. Por outro lado, a entrega emocional que ele pretende fazer do personagem vivido por Joaquin Phoenix é muito bonita. Não há o menor pudor em lidar com seus problemas, seus traumas, etc. Jonah Hill está quase tão bom quanto Phoenix aqui. E Rooney Mara está mais uma vez apaixonante. Ano: 2018.
DENTE CANINO (Kynodontas)
Depois de apreciar tanto os últimos filmes de Yorgos Lanthimos, é natural querer conhecer um pouco de sua obra pregressa. Acabei não entrando muito no clima deste DENTE CANINO, mas é um filme coerente com o que se veria depois. O diretor gosta de brincar com o patético e de mostrar histórias que lidam com regras bem bizarras. Ano: 2009.
Por isso estava demorando para ir lá no "quarto dos livros" buscar o meu livro de entrevistas do Martin Scorsese, por Richard Schickel, a propósito de ter assistido a O REI DA COMÉDIA (1982) recentemente, muito por culpa da turma do Cinema na Varanda, mas também, por tabela, pelo efeito CORINGA. E para poder ler com tranquilidade as páginas em que o diretor trata do filme eu as fotografei. Que bom que ao menos os dias de hoje oferecem algum tipo de compensação: certas facilidades que um smartphone pode trazer, por exemplo.
Quanto à entrevista, o que me incomodou foi que o aspecto desagradável que o filme passa em nos colocar no lugar do personagem de Robert De Niro também se apresenta em toda a entrevista do Scorsese. É como se ele tivesse guardado todo o mal estar provocado por aquele período das filmagens e o materializasse para aquele momento. O fato de ele ter lembrado de um momento das gravações, quando Jerry Lewis o chama para conversar e lhe pedir para avisar quando não precisar dele naquela gravação, e como isso o deixou um pouco transtornado, tudo isso tem a ver com o que o filme passa.
O conceito de vergonha alheia talvez nunca tenha sido tão bem explorado por outro diretor. E se nos filmes de gângster do diretor isso aparece poderosamente (basta lembrar da cena do Joe Pesci sendo lembrado que foi engraxate em OS BONS COMPANHEIROS), aqui essa vergonha é elevada à enésima potência. Não basta apenas o sujeito chegar com uma fitinha para visitar o seu ídolo e ser reconhecido como ótimo comediante a ponto de ser apresentado na televisão; é preciso que ele seja tão inconveniente que passa a humilhação de ser jogado para fora pelos seguranças.
O personagem me lembrou muito um colega meu, da época do estágio no Banco do Nordeste. O sujeito, com o tempo, foi cada vez mais trazendo delírios sobre ter tido contado com tal artista, ou diretor, ou produtor, que iria viajar para os Estados Unidos para fazer curso de cinema etc. Um dia, encontrei-o na rua e ele falou que tinha acabado de tomar um café com a Norah Jones. É o tipo de coisa que me deixa bem perturbado, já que todos nós temos sonhos e temos frustrações, mas há pessoas que não conseguem lidar com a realidade. Talvez ela seja dura demais para elas.
No caso de Rupert Pupkin, o personagem de De Niro, ele nem se mostra engraçado em momento algum. A montagem do filme também não oferece nenhum momento que justifique o fato de ele ser minimamente engraçado ou inteligente (a inteligência e o humor andam lado a lado). Talvez apenas quando ele não se dá conta de sua doença, ao conversar com fotos em tamanho grande de Liza Minelli e Jerry Langford (o personagem de Jerry Lewis). Mas talvez nem seja realmente engraçado, apenas patético.
No mais, impressionante ver o filme e notar o tanto de citações e referências explícitas usadas por Todd Phillips para compor o seu CORINGA. Ou seja, o que Phillips fez foi uma nova versão de O REI DA COMÉDIA, ainda que menos brilhante e mais explícito na violência - o filme de Scorsese, por sua vez, eu tinha a má recordação de que era mais tenso na cena do sequestro.
+ TRÊS FILMES
VICE
Acabei gostando mais do que de A GRANDE APOSTA, talvez por já saber o que me esperava. E também por tratar de um assunto mais importante, no sentido de ter uma repercussão maior no mundo como um todo. E também por mostrar os bastidores do jogo de poder nas últimas décadas. Gosto da primeira metade do filme e acho que ele perde a força quando se aproxima do final. A gente fica um pouco esgotado do ritmo, aborrecido um pouco. E às vezes o diretor parece querer só mostrar que é inteligente ou engraçado. Se bem que eu até que gostei de algumas brincadeiras. Então tá valendo. Direção: Adam McKay. Ano: 2018.
A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don't Worry, He Won't Get Far on Foot)
Gosto do filme, mas não sei por que Gus Van Sant optou por uma cinebiografia tão convencional. Por outro lado, a entrega emocional que ele pretende fazer do personagem vivido por Joaquin Phoenix é muito bonita. Não há o menor pudor em lidar com seus problemas, seus traumas, etc. Jonah Hill está quase tão bom quanto Phoenix aqui. E Rooney Mara está mais uma vez apaixonante. Ano: 2018.
DENTE CANINO (Kynodontas)
Depois de apreciar tanto os últimos filmes de Yorgos Lanthimos, é natural querer conhecer um pouco de sua obra pregressa. Acabei não entrando muito no clima deste DENTE CANINO, mas é um filme coerente com o que se veria depois. O diretor gosta de brincar com o patético e de mostrar histórias que lidam com regras bem bizarras. Ano: 2009.
domingo, outubro 27, 2019
QUATRO SÉRIES
Em outras circunstâncias eu teria facilmente dedicado um tempo para escrever textos maiores para cada uma destas séries, mas nem é preciso mais dizer os motivos. Então, vamos de texto menores, mas tentando não ser tão sucinto assim. São duas séries da HBO e duas da Netflix. Com a Netflix eu costumo ser bem mais seletivo, já que eles lançam muito lixo, mas de vez em quando temos obras que são ótimas e que merecem a nossa atenção até mais que as da HBO. Como tempo virou artigo de luxo e como eu sou mais consumidor de filmes do que de séries (pelo menos quero ser assim), as séries precisam ser bem escolhidas.
EUPHORIA - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Euphoria - The Complete First Season)
Que final foi esse dessa série, hein? Acabei me lembrando do final de NEON GENESIS EVANGELION. Tanto por ser sombrio quanto por ser diferente e cheio de simbolismos. Ainda tem o fato de nos confundir. Como fiquei bastante encantado com Jules, a personagem de Hunter Schafer, fui primeiro procurar saber mais sobre a atriz. Gostei, mas acabei entrando em um desses vídeos explicativos do final da série. Se eu tinha achado tudo muito estranho e menos atraente do que toda a temporada, essa teoria acabou fazendo com que a série ganhasse mais pontos. E Zendaya está ótima como a jovem viciada em drogas Rue. Gosto também de como ela narra as histórias dos outros jovens. E de como a série é capaz de criar um personagem tão odioso como o Nate (Jacob Elordi), representante comum de um tipo de homem homofóbico e que tem problemas com sua masculinidade, no caso, talvez um pouco herdado do pai. Trata-se de uma série importante também para entendermos um pouco mais essa nova geração, suas angústias e suas alegrias, embora a série foque mais nas angústias, nos infernos pessoais. Muito a fim de uma segunda temporada. Alguns momentos são dignos de lembrança: a cena de Rue com uma depressão tão imensa que não tem coragem de sair da cama para ir ao banheiro, segurando o xixi até ficar muito doente. Outra: Jules, ansiosa para descobrir o admirador secreto que tem lhe enviado mensagens pelo whatsapp, vai até lá se encontrar com ele. Outra: Rue totalmente desesperada para falar com a amiga depois que não consegue aguentar e lhe dá um beijo. Enfim, é uma série que só cresce no meu conceito. Dos oito episódios, cinco são dirigidos pelo criador, Sam Levinson. Ah, e quanto a Zendaya, se eu não havia gostado tanto dela como MJ nos filmes do Homem-Aranha, passei a amar esta menina extraordinária nesta série. Baita atriz.
MINDHUNTER - SEGUNDA TEMPORADA (Mindhunter - Season Two)
A segunda temporada mantém o bom nível da primeira, ainda que eu tenha sentido falta da atriz que interpretou a namorada de Holden (Jonathan Groff) na primeira (Hannah Gross). Simplesmente fazem de conta que a personagem nunca existiu, privando Holden de uma vida privada, ao contrário de seus parceiros Bill (Holt McCallany) e Wendy (Anna Torv). A pegada diferente desta nova temporada está menos nas entrevistas a assassinos seriais e mais no caso dos meninos desaparecidos em Atlanta, a história principal que os detetives do FBI terão que resolver, já que são eles os grandes especialistas no assunto. Em paralelo, há um caso envolvendo o filho pequeno de Bill e a inclusão de uma namorada para Wendy, que procura ser discreta na exposição de suas preferências sexuais. Ainda gosto bem mais da primeira, mas se essa série conseguir manter a constância, continuará sendo uma das melhores produções da Netflix. Quanto aos assassinos entrevistados, os que chamam a atenção nesta temporada são Charles Mason (vivido pelo mesmo ator que fez o personagem em ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD) e o Filho de Sam. Não destaco nenhuma cena em particular, mas todas as sequências tensas que se passam em Atlanta são ótimas.
BIG LITTLE LIES - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Big Little Lies - The Complete Second Season)
Pode até não ser tão boa quanto a primeira temporada, mas é nesta aqui que o amor que sentimos pelas personagens ganha força, se solidifica. Reese Witherspoon está maravilhosa, sua personagem ganha muito com uma situação dramática no lar e que acaba sendo um dos pontos altos da temporada. E aquilo que quase me fez chorar no final. E o que dizer do duelo de Celeste (Nicole Kidman) e Mary Louise (Meryl Streep)? Além de tenso e empolgante, traz um debate sério, sobre a agressão doméstica. A série aprofunda ainda mais o sentimento de sororidade que já se manifestava na primeira, já que aqui temos as cinco de Monterey, unidas por um segredo. Ainda achei que a personagem de Shailene Woodley ficou pequena e sem muita força em comparação com as demais. E Laura Dern é aquela força da natureza. Bom demais. Dos homens da série, como não são muitos, destaque, de longe, para o Ed (Adam Scott). Personagem que a gente respeita. Aguardemos uma possível terceira temporada. Difícil é juntar esse time de novo, hein? Haja grana e agendas que não conflitem. Momento de destaque: quando Ed descobre a traição de Madeline e as repercussões. Atriz de destaque: Meryl Streep como a odiosa sogra de Madeline, pronta para descobrir o que de fato aconteceu com o filho, morto em circunstâncias estranhas. No mais, David E. Kelley capricha nos textos.
BLACK MIRROR - QUINTA TEMPORADA (Black Mirror - Series 5)
A menos inspirada das temporadas de BLACK MIRROR, esta quinta tem, inclusive, um segmento que eu acho difícil de comprar deste o começo, embora seja divertido: "Rachel, Jack and Ashley Too". Exageram no vilanismo da tia da cantora pop (vivida por Miley Cyrus) e não gosto da solução que elas encontram para resolver o problema da rebeldia da cantora. Afinal, para fabricar uma cantora pop basta uma equipe de compositores boa. O melhor episódio é "Smithereens", e nem é pela inventividade no que se refere ao uso da tecnologia como elo de ligação de todos os capítulos. O tal aplicativo viciante acaba sendo apenas um detalhe em uma trama de suspense e tensão normal, ainda que bem conduzida. Já a história "Striking Vipers" lida com a questão da realidade virtual, e traz uma boa reflexão sobre sexo dentro de um ambiente usado principalmente para jogar. Não deixa de ser divertido ver os personagens questionando sua heterossexualidade. Uma pena ter caído tanto de qualidade, em comparação com a temporada anterior, que, inclusive, contou com o dobro de episódios. Parece que Charlie Brooker não está mais conseguindo ter tantas ideias boas como antes. Mesmo assim, para quem nunca viu a série, não ligue para o efeito-modinha e veja principalmente as demais temporadas - as primeiras não tiveram nenhum dinheiro da Netflix envolvido.
EUPHORIA - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Euphoria - The Complete First Season)
Que final foi esse dessa série, hein? Acabei me lembrando do final de NEON GENESIS EVANGELION. Tanto por ser sombrio quanto por ser diferente e cheio de simbolismos. Ainda tem o fato de nos confundir. Como fiquei bastante encantado com Jules, a personagem de Hunter Schafer, fui primeiro procurar saber mais sobre a atriz. Gostei, mas acabei entrando em um desses vídeos explicativos do final da série. Se eu tinha achado tudo muito estranho e menos atraente do que toda a temporada, essa teoria acabou fazendo com que a série ganhasse mais pontos. E Zendaya está ótima como a jovem viciada em drogas Rue. Gosto também de como ela narra as histórias dos outros jovens. E de como a série é capaz de criar um personagem tão odioso como o Nate (Jacob Elordi), representante comum de um tipo de homem homofóbico e que tem problemas com sua masculinidade, no caso, talvez um pouco herdado do pai. Trata-se de uma série importante também para entendermos um pouco mais essa nova geração, suas angústias e suas alegrias, embora a série foque mais nas angústias, nos infernos pessoais. Muito a fim de uma segunda temporada. Alguns momentos são dignos de lembrança: a cena de Rue com uma depressão tão imensa que não tem coragem de sair da cama para ir ao banheiro, segurando o xixi até ficar muito doente. Outra: Jules, ansiosa para descobrir o admirador secreto que tem lhe enviado mensagens pelo whatsapp, vai até lá se encontrar com ele. Outra: Rue totalmente desesperada para falar com a amiga depois que não consegue aguentar e lhe dá um beijo. Enfim, é uma série que só cresce no meu conceito. Dos oito episódios, cinco são dirigidos pelo criador, Sam Levinson. Ah, e quanto a Zendaya, se eu não havia gostado tanto dela como MJ nos filmes do Homem-Aranha, passei a amar esta menina extraordinária nesta série. Baita atriz.
MINDHUNTER - SEGUNDA TEMPORADA (Mindhunter - Season Two)
A segunda temporada mantém o bom nível da primeira, ainda que eu tenha sentido falta da atriz que interpretou a namorada de Holden (Jonathan Groff) na primeira (Hannah Gross). Simplesmente fazem de conta que a personagem nunca existiu, privando Holden de uma vida privada, ao contrário de seus parceiros Bill (Holt McCallany) e Wendy (Anna Torv). A pegada diferente desta nova temporada está menos nas entrevistas a assassinos seriais e mais no caso dos meninos desaparecidos em Atlanta, a história principal que os detetives do FBI terão que resolver, já que são eles os grandes especialistas no assunto. Em paralelo, há um caso envolvendo o filho pequeno de Bill e a inclusão de uma namorada para Wendy, que procura ser discreta na exposição de suas preferências sexuais. Ainda gosto bem mais da primeira, mas se essa série conseguir manter a constância, continuará sendo uma das melhores produções da Netflix. Quanto aos assassinos entrevistados, os que chamam a atenção nesta temporada são Charles Mason (vivido pelo mesmo ator que fez o personagem em ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD) e o Filho de Sam. Não destaco nenhuma cena em particular, mas todas as sequências tensas que se passam em Atlanta são ótimas.
BIG LITTLE LIES - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Big Little Lies - The Complete Second Season)
Pode até não ser tão boa quanto a primeira temporada, mas é nesta aqui que o amor que sentimos pelas personagens ganha força, se solidifica. Reese Witherspoon está maravilhosa, sua personagem ganha muito com uma situação dramática no lar e que acaba sendo um dos pontos altos da temporada. E aquilo que quase me fez chorar no final. E o que dizer do duelo de Celeste (Nicole Kidman) e Mary Louise (Meryl Streep)? Além de tenso e empolgante, traz um debate sério, sobre a agressão doméstica. A série aprofunda ainda mais o sentimento de sororidade que já se manifestava na primeira, já que aqui temos as cinco de Monterey, unidas por um segredo. Ainda achei que a personagem de Shailene Woodley ficou pequena e sem muita força em comparação com as demais. E Laura Dern é aquela força da natureza. Bom demais. Dos homens da série, como não são muitos, destaque, de longe, para o Ed (Adam Scott). Personagem que a gente respeita. Aguardemos uma possível terceira temporada. Difícil é juntar esse time de novo, hein? Haja grana e agendas que não conflitem. Momento de destaque: quando Ed descobre a traição de Madeline e as repercussões. Atriz de destaque: Meryl Streep como a odiosa sogra de Madeline, pronta para descobrir o que de fato aconteceu com o filho, morto em circunstâncias estranhas. No mais, David E. Kelley capricha nos textos.
BLACK MIRROR - QUINTA TEMPORADA (Black Mirror - Series 5)
A menos inspirada das temporadas de BLACK MIRROR, esta quinta tem, inclusive, um segmento que eu acho difícil de comprar deste o começo, embora seja divertido: "Rachel, Jack and Ashley Too". Exageram no vilanismo da tia da cantora pop (vivida por Miley Cyrus) e não gosto da solução que elas encontram para resolver o problema da rebeldia da cantora. Afinal, para fabricar uma cantora pop basta uma equipe de compositores boa. O melhor episódio é "Smithereens", e nem é pela inventividade no que se refere ao uso da tecnologia como elo de ligação de todos os capítulos. O tal aplicativo viciante acaba sendo apenas um detalhe em uma trama de suspense e tensão normal, ainda que bem conduzida. Já a história "Striking Vipers" lida com a questão da realidade virtual, e traz uma boa reflexão sobre sexo dentro de um ambiente usado principalmente para jogar. Não deixa de ser divertido ver os personagens questionando sua heterossexualidade. Uma pena ter caído tanto de qualidade, em comparação com a temporada anterior, que, inclusive, contou com o dobro de episódios. Parece que Charlie Brooker não está mais conseguindo ter tantas ideias boas como antes. Mesmo assim, para quem nunca viu a série, não ligue para o efeito-modinha e veja principalmente as demais temporadas - as primeiras não tiveram nenhum dinheiro da Netflix envolvido.
quinta-feira, outubro 24, 2019
CORINGA (Joker)
O tempo vai passando, o corpo cansando devido à dura labuta e eu me peguei hoje lendo textos meus escritos para o blog em 2010. Era um tempo em que eu também reclamava da falta de tempo, de prazos para cumprir etc., mas tinha uma disciplina maior de escrever algo que justificasse a ida diária dos leitores ao espaço. Infelizmente, não é o que tem acontecido nos últimos anos por uma série de fatores. O maior deles, creio que seja o cansaço de estar dando aula durante dois turnos e o corpo ter reclamado bastante disso. Como estou também fazendo musculação, um dos outros motivos é o cansaço da academia, principalmente após um longo dia de trabalho.
Estou devendo meus dois tostões sobre um dos filmes mais badalados do ano. Confesso que me deu até um pouco de preguiça de escrever e mesmo refletir sobre, por mais que eu veja no filme várias qualidades. CORINGA (2019), de Todd Philips, chamou a atenção desde os primeiros trailers, mas, mais ainda, quando venceu o Leão de Ouro em Veneza. Afinal, não é todo dia que um filme de super-herói (super-vilão, no caso) ganha o prêmio máximo de um festival que tem o arthouse como produto principal.
Mas a verdade é que CORINGA não é um filme de super-herói como outro. Na verdade, Phillips poderia muito bem ter utilizado a imagem de qualquer palhaço que não o arquiinimigo do Batman para contar a sua história, derivada de O REI DA COMÉDIA. Aliás, só revendo o filme de Martin Scorsese que eu percebi o quanto CORINGA é devedor. É quase um remake ou uma reinvenção, inclusive com a participação especial de Robert De Niro, desta vez em um papel inverso, o papel de um comediante e apresentador de televisão famoso, e não o perseguidor maluco. Quem não reviu O REI DA COMÉDIA, veja. É impressionante a semelhança.
Mas CORINGA tem um ar mais trágico, é mais violento, e o sofrimento do protagonista, vivido com brilhantismo por Joaquin Phoenix, é até um pouco além da conta. Afinal, não basta sofrer bullying e ser rejeitado, ele também é espancado duas vezes no início do filme, em sequências que querem trazer o espectador para um sentimento de solidariedade, embora, nesse sentido, não seja bem-sucedido.
Afinal, por mais que possa haver uma identificação do público com o personagem, o que o filme parece querer é justificar os atos do personagem. Não necessariamente na primeira vez que ele mata, na cena no metrô, mas nas sequências mais próximas do final.
Por outro lado, a estranheza de certas cenas que parecem tentar trazer um pouco de glamour ou no mínimo dignidade para o personagem é um de seus maiores trunfos, e também o que mais deixa o espectador sem entender as motivações do realizador, como se o psicopata tivesse todo o direito de ser alçado a herói, com direito a canções e danças que remetem à velha Hollywood. A famosa cena da escada é um desses momentos bizarros.
Mas o que fica forte mesmo na memória do espectador é a risada de Arthur Fleck, uma risada que sai da dor e vem nos momentos mais inapropriados, como quando ele quer chorar e não consegue parar de rir. Isso acontece pelo menos umas três vezes em momentos bastante tensos do filme. Isso gera um desconforto impressionante. CORINGA também tem o mérito de trazer riso do público minutos após um momento de violência brutal, como na cena com o anão no apartamento. Enfim, é possível mesmo que CORINGA seja essa obra extraordinária que tantos críticos andam afirmando. O tempo dirá.
+ TRÊS FILMES
PROJETO GEMINI (Gemini Man)
Minha primeira experiência com high frame rate e em 3D. Muito interessante, mas acho que talvez a incompatibilidade com os novos aparelhos de projeção compliquem um pouco: às vezes gera má sincronia nos diálogos. Pelo menos foi o que aconteceu aqui, mesmo sendo numa sala ótima a que eu vi (uma XPlus da UCI). A trama é tão mais ou menos que imagina-se que ela tenha sido criada apenas depois da decisão de fazer um filme com a tal tecnologia e também de ter pensado os efeitos especiais de transposição de uma versão jovem do Will Smith. E ainda falham lá perto do final, com uns efeitos toscos. Mas gosto de um bocado de coisas do filme, desde os diálogos de filme de espionagem B, passando pela cena meio videogame com as motos, e os diálogos tortos do Smith com a Mary Elizabeth Winstead. Vale a ida ao cinema, especialmente para ver em 3D. É um dos poucos filmes recentes que valem a pena ver com essa tecnologia. Direção: Ang Lee. Ano: 2019.
SILVIO E OS OUTROS (Loro)
Acho tão difícil gostar de verdade dos filmes do Paolo Sorrentino. Mas não há como não negar uma marca, uma obsessão do diretor, o que não quer dizer que isso seja agradável. Ao menos é bom de ver pelo visual, pela beleza dos corpos femininos nus e seminus, pelo contraste entre velhice e juventude já bastante explorada em sua obra. Mas é também importante a gente ver pelo contexto político atual, de governantes de extrema direita. Perto de um tosco Bolsonaro, Silvio Berlusconi é de uma elegância fascinante. Fiquei na dúvida, aliás, se Sorrentino queria torná-lo patético. Toni Servillo, ótimo ator, acabou lhe dando até um pouco de honradez. Destaque também para uma outra ótima performance de Riccardo Scamarcio. Ano: 2018.
O GÊNIO E O LOUCO (The Professor and the Madman)
Eis um daqueles filmes acadêmicos chatos que só mesmo a presença de Mel Gibson e Sean Penn faz com que a gente fique até o fim da projeção. Há também o curioso caso da realização de um dicionário ambicioso, com o intento de congregar todas as palavras da língua inglesa. Gibson faz o estudioso de línguas escocês que lidera a difícil missão; Penn é o prisioneiro louco que o ajuda bastante, apesar das tantas dificuldades que sofre, inclusive pelo peso da culpa de uma morte. As cenas mais supostamente dramáticas são as que mais atestam a incapacidade do filme de funcionar. Direção: Farhad Safinia. Ano: 2019.
Estou devendo meus dois tostões sobre um dos filmes mais badalados do ano. Confesso que me deu até um pouco de preguiça de escrever e mesmo refletir sobre, por mais que eu veja no filme várias qualidades. CORINGA (2019), de Todd Philips, chamou a atenção desde os primeiros trailers, mas, mais ainda, quando venceu o Leão de Ouro em Veneza. Afinal, não é todo dia que um filme de super-herói (super-vilão, no caso) ganha o prêmio máximo de um festival que tem o arthouse como produto principal.
Mas a verdade é que CORINGA não é um filme de super-herói como outro. Na verdade, Phillips poderia muito bem ter utilizado a imagem de qualquer palhaço que não o arquiinimigo do Batman para contar a sua história, derivada de O REI DA COMÉDIA. Aliás, só revendo o filme de Martin Scorsese que eu percebi o quanto CORINGA é devedor. É quase um remake ou uma reinvenção, inclusive com a participação especial de Robert De Niro, desta vez em um papel inverso, o papel de um comediante e apresentador de televisão famoso, e não o perseguidor maluco. Quem não reviu O REI DA COMÉDIA, veja. É impressionante a semelhança.
Mas CORINGA tem um ar mais trágico, é mais violento, e o sofrimento do protagonista, vivido com brilhantismo por Joaquin Phoenix, é até um pouco além da conta. Afinal, não basta sofrer bullying e ser rejeitado, ele também é espancado duas vezes no início do filme, em sequências que querem trazer o espectador para um sentimento de solidariedade, embora, nesse sentido, não seja bem-sucedido.
Afinal, por mais que possa haver uma identificação do público com o personagem, o que o filme parece querer é justificar os atos do personagem. Não necessariamente na primeira vez que ele mata, na cena no metrô, mas nas sequências mais próximas do final.
Por outro lado, a estranheza de certas cenas que parecem tentar trazer um pouco de glamour ou no mínimo dignidade para o personagem é um de seus maiores trunfos, e também o que mais deixa o espectador sem entender as motivações do realizador, como se o psicopata tivesse todo o direito de ser alçado a herói, com direito a canções e danças que remetem à velha Hollywood. A famosa cena da escada é um desses momentos bizarros.
Mas o que fica forte mesmo na memória do espectador é a risada de Arthur Fleck, uma risada que sai da dor e vem nos momentos mais inapropriados, como quando ele quer chorar e não consegue parar de rir. Isso acontece pelo menos umas três vezes em momentos bastante tensos do filme. Isso gera um desconforto impressionante. CORINGA também tem o mérito de trazer riso do público minutos após um momento de violência brutal, como na cena com o anão no apartamento. Enfim, é possível mesmo que CORINGA seja essa obra extraordinária que tantos críticos andam afirmando. O tempo dirá.
+ TRÊS FILMES
PROJETO GEMINI (Gemini Man)
Minha primeira experiência com high frame rate e em 3D. Muito interessante, mas acho que talvez a incompatibilidade com os novos aparelhos de projeção compliquem um pouco: às vezes gera má sincronia nos diálogos. Pelo menos foi o que aconteceu aqui, mesmo sendo numa sala ótima a que eu vi (uma XPlus da UCI). A trama é tão mais ou menos que imagina-se que ela tenha sido criada apenas depois da decisão de fazer um filme com a tal tecnologia e também de ter pensado os efeitos especiais de transposição de uma versão jovem do Will Smith. E ainda falham lá perto do final, com uns efeitos toscos. Mas gosto de um bocado de coisas do filme, desde os diálogos de filme de espionagem B, passando pela cena meio videogame com as motos, e os diálogos tortos do Smith com a Mary Elizabeth Winstead. Vale a ida ao cinema, especialmente para ver em 3D. É um dos poucos filmes recentes que valem a pena ver com essa tecnologia. Direção: Ang Lee. Ano: 2019.
SILVIO E OS OUTROS (Loro)
Acho tão difícil gostar de verdade dos filmes do Paolo Sorrentino. Mas não há como não negar uma marca, uma obsessão do diretor, o que não quer dizer que isso seja agradável. Ao menos é bom de ver pelo visual, pela beleza dos corpos femininos nus e seminus, pelo contraste entre velhice e juventude já bastante explorada em sua obra. Mas é também importante a gente ver pelo contexto político atual, de governantes de extrema direita. Perto de um tosco Bolsonaro, Silvio Berlusconi é de uma elegância fascinante. Fiquei na dúvida, aliás, se Sorrentino queria torná-lo patético. Toni Servillo, ótimo ator, acabou lhe dando até um pouco de honradez. Destaque também para uma outra ótima performance de Riccardo Scamarcio. Ano: 2018.
O GÊNIO E O LOUCO (The Professor and the Madman)
Eis um daqueles filmes acadêmicos chatos que só mesmo a presença de Mel Gibson e Sean Penn faz com que a gente fique até o fim da projeção. Há também o curioso caso da realização de um dicionário ambicioso, com o intento de congregar todas as palavras da língua inglesa. Gibson faz o estudioso de línguas escocês que lidera a difícil missão; Penn é o prisioneiro louco que o ajuda bastante, apesar das tantas dificuldades que sofre, inclusive pelo peso da culpa de uma morte. As cenas mais supostamente dramáticas são as que mais atestam a incapacidade do filme de funcionar. Direção: Farhad Safinia. Ano: 2019.
segunda-feira, outubro 21, 2019
GRETA
O longa-metragem de estreia de Armando Praça, GRETA (2019), é baseado na peça Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá, de Fernando Melo, escrita e encenada como comédia. A mudança da comédia para o melodrama foi uma opção do cineasta, que achava que aquela história era muito mais próxima de um drama do que de uma comédia. Aliás, é interessante quando um diretor busca um espaço entre o drama e a comédia para contar suas histórias, como fazia Almodóvar em seus primeiros filmes, que hoje podem ser vistos até como histórias cheias de envolvimento dramático.
No caso de GRETA, não que não haja espaço para o humor – há bastante –, mas é definitivamente uma história sobre dor, sobre busca de sentido para uma vida que está próxima do fim e muita, muita solidão e rejeição. Mesmo sendo um filme com protagonistas homossexuais, certas coisas são universais. Afinal, difícil encontrar quem nunca passou por sentimentos de solidão e rejeição.
Na trama de GRETA, Marco Nanini é Pedro, um enfermeiro septuagenário que procura ajudar sua amiga transexual Daniela (Denise Weinberg), que passa por uma doença terminal e sofre muitas dores. A escalação de uma mulher cis para viver uma mulher trans tem sido bastante questionada, com alguma razão, mas difícil não se emocionar com a performance de Denise cantando “Bate coração”, canção do repertório de Elba Ramalho. A carga dramática que ela empresta à canção e amplifica o sentido da letra é tocante.
Mas o filme está mesmo mais interessado na trajetória de Pedro e sua busca por prazer para aliviar a dor, sua busca por alguém que o ame. Ele é um homem que costuma masturbar alguns pacientes do hospital em que trabalha, tenta marcar encontros e frequenta saunas gay, um espaço favorável para o sexo casual. Há uma cena com um misto de humor e drama bem marcante que se passa nesse espaço. Vale destacar que há cenas em que o sexo aparece bastante pulsante dentro dos leitos de hospital, inclusive.
A vida de Pedro ganha novo sentido quando ele, para encontrar uma vaga para a amiga Daniela no hospital, leva um homem responsável pela morte de outra pessoa, ferido, para sua casa. Com esse homem potencialmente perigoso vivido por Démick Lopes, Pedro cria uma relação de ajuda, desejo e afeto. O homem, a princípio muito reticente em ter relações sexuais com aquele homem idoso, aos poucos começa a se aproximar. Há um diálogo muito bonito e doloroso em que Daniela pergunta a Pedro se ele ainda está tendo um caso com esse homem que cometeu um crime e é procurado pela polícia. “É o único que eu tenho”, Pedro diz, com um misto de alegria e tristeza.
A entrega de Marco Nanini a esse papel é admirável. O grande ator não se incomodou em se entregar também de maneira física nas cenas que envolvem sexo e nudez. Isso contribui para que o filme ganhe ainda mais força na materialização desse universo marginal.
+ TRÊS FILMES
AS FILHAS DO FOGO (Las Hijas del Fuego)
Aqui eu vejo mais o mérito pela coragem da diretora em fazer uma obra que trafega pela pornografia dentro do mainstream do que exatamente por conseguir um grau de erotismo que ultrapasse a provocação e os flertes com o S&M. Gosto do terço inicial do filme e quase nada do terço final. A questão de ser uma obra que quer ser mais política do que erótica acaba pesando um bocado. Essa coisa de querer questionar a objetificação dos corpos e a ditadura da beleza normativa e tal acabou não funcionando pra mim. Mas vai ver é só falta de identificação com a sensibilidade mesmo. Direção: Albertina Carri. Ano: 2018.
EUFORIA
Um dos grandes destaques deste filme de Valeria Golino é a forte presença de cena de Ricardo Scamarcio, mais conhecido do grande público por sua interpretação de Santino, o vilão de JOHN WICK 2. Aqui podemos vê-lo de maneira mais naturalista, como um irmão que esconde do outro que o outro está com câncer em estado terminal. Ele acredita que entretê-lo e trazer alegria para o seu dia a dia será melhor. O fato de o personagem do Scarmacio ser gay e o outro não também rende bons momentos de humor na história. Muito agradável de ver e com alguns momentos bem tocantes. Direção: Valeria Golino. Ano: 2018.
COMER, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)
Não tenho acompanhado todos os filmes de Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS. Este é talvez um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTO (que prefiro). Ano: 2018.
No caso de GRETA, não que não haja espaço para o humor – há bastante –, mas é definitivamente uma história sobre dor, sobre busca de sentido para uma vida que está próxima do fim e muita, muita solidão e rejeição. Mesmo sendo um filme com protagonistas homossexuais, certas coisas são universais. Afinal, difícil encontrar quem nunca passou por sentimentos de solidão e rejeição.
Na trama de GRETA, Marco Nanini é Pedro, um enfermeiro septuagenário que procura ajudar sua amiga transexual Daniela (Denise Weinberg), que passa por uma doença terminal e sofre muitas dores. A escalação de uma mulher cis para viver uma mulher trans tem sido bastante questionada, com alguma razão, mas difícil não se emocionar com a performance de Denise cantando “Bate coração”, canção do repertório de Elba Ramalho. A carga dramática que ela empresta à canção e amplifica o sentido da letra é tocante.
Mas o filme está mesmo mais interessado na trajetória de Pedro e sua busca por prazer para aliviar a dor, sua busca por alguém que o ame. Ele é um homem que costuma masturbar alguns pacientes do hospital em que trabalha, tenta marcar encontros e frequenta saunas gay, um espaço favorável para o sexo casual. Há uma cena com um misto de humor e drama bem marcante que se passa nesse espaço. Vale destacar que há cenas em que o sexo aparece bastante pulsante dentro dos leitos de hospital, inclusive.
A vida de Pedro ganha novo sentido quando ele, para encontrar uma vaga para a amiga Daniela no hospital, leva um homem responsável pela morte de outra pessoa, ferido, para sua casa. Com esse homem potencialmente perigoso vivido por Démick Lopes, Pedro cria uma relação de ajuda, desejo e afeto. O homem, a princípio muito reticente em ter relações sexuais com aquele homem idoso, aos poucos começa a se aproximar. Há um diálogo muito bonito e doloroso em que Daniela pergunta a Pedro se ele ainda está tendo um caso com esse homem que cometeu um crime e é procurado pela polícia. “É o único que eu tenho”, Pedro diz, com um misto de alegria e tristeza.
A entrega de Marco Nanini a esse papel é admirável. O grande ator não se incomodou em se entregar também de maneira física nas cenas que envolvem sexo e nudez. Isso contribui para que o filme ganhe ainda mais força na materialização desse universo marginal.
+ TRÊS FILMES
AS FILHAS DO FOGO (Las Hijas del Fuego)
Aqui eu vejo mais o mérito pela coragem da diretora em fazer uma obra que trafega pela pornografia dentro do mainstream do que exatamente por conseguir um grau de erotismo que ultrapasse a provocação e os flertes com o S&M. Gosto do terço inicial do filme e quase nada do terço final. A questão de ser uma obra que quer ser mais política do que erótica acaba pesando um bocado. Essa coisa de querer questionar a objetificação dos corpos e a ditadura da beleza normativa e tal acabou não funcionando pra mim. Mas vai ver é só falta de identificação com a sensibilidade mesmo. Direção: Albertina Carri. Ano: 2018.
EUFORIA
Um dos grandes destaques deste filme de Valeria Golino é a forte presença de cena de Ricardo Scamarcio, mais conhecido do grande público por sua interpretação de Santino, o vilão de JOHN WICK 2. Aqui podemos vê-lo de maneira mais naturalista, como um irmão que esconde do outro que o outro está com câncer em estado terminal. Ele acredita que entretê-lo e trazer alegria para o seu dia a dia será melhor. O fato de o personagem do Scarmacio ser gay e o outro não também rende bons momentos de humor na história. Muito agradável de ver e com alguns momentos bem tocantes. Direção: Valeria Golino. Ano: 2018.
COMER, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)
Não tenho acompanhado todos os filmes de Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS. Este é talvez um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTO (que prefiro). Ano: 2018.
quarta-feira, outubro 16, 2019
A NOITE AMARELA
"No estado que as coisas se encontram hoje, eu realmente acredito que o horror é o gênero narrativo que mais se aproxima da nossa realidade. Primeiro, porque nossa realidade está se dissolvendo, e essa é uma característica essencial das histórias de horror. Depois, porque nossa vida diária está infectada, como em um body horror de David Cronenberg minutos antes da metamorfose se completar e o monstro surgir entre nós. Logo, eu acredito que só o Horror mesmo pra salvar a gente de falar sobre esse mundo sem pé, nem cabeça que a gente vive."
Ramon Porto Mota
Tem sido muito gratificando ler as entrevistas do cineasta paraibano Ramon Porto Mota, que estreia seu primeiro longa-metragem, depois da experiência em coletivo em O NÓ DO DIABO (2018), em um momento especialmente feliz para o cinema de gênero brasileiro. Vejam só: na mesma semana em que o seu filme estreou, entrou em cartaz também em outras salas do país MORTO NÃO FALA, de Dennison Ramalho, e AMOR ASSOMBRADO, de Wagner de Assis. E na semana anterior havia estreado O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente. Ou seja, o que ele fala acima tem tudo a ver com esse momento tão especial em que o cinema de horror brasileiro está deixando de ser rejeitado e está sendo abraçado por uma parcela cada vez maior de espectadores, ao mesmo tempo em que estamos vivendo um momento político também singular.
Nas entrevistas de Mota, ele afirma que não tinha a menor intenção de que seu filme A NOITE AMARELA (2019) sequer fornecesse metáforas para o momento político brasileiro. Mas acontece que a percepção da obra de arte, ainda mais essa do tipo mais livre e cheia de espaços, pode trazer interpretações diversas, sim. E isso já não está mais nas mãos do artista. Além do mais, o artista costuma ter antenas que captam o espírito da época. Assim, o mal estar com o mundo contemporâneo se faz bastante presente.
A NOITE AMARELA, como experiência fílmica, está destinado a ser aquele tipo de filme que pode não ser apreciado por um público grande, por sua opção em quase se desvincular de uma trama no sentido convencional, especialmente a partir de seu terço final, e se deixar levar pela atmosfera de sonho/pesadelo, fazendo com que vejamos as pessoas sendo engolfadas pela escuridão, por algo não muito fácil de ser compreendido. O escuro é um aspecto predominante no filme. Quase todas as cenas se passam à noite, desde o começo, quando os jovens secundaristas chegam à ilha para passar uns dias e comemorar a formatura do ensino médio.
A opção de Ramon Porto Mota em adotar uma fotografia suja, áspera, com pouca iluminação, como se fosse um filme feito nas primeiras experiências com o digital, contribui para a sensação de que estamos vendo uma produção estranha a esses tempos em que as imagens são cada vez mais nítidas. Ao mesmo tempo, difícil não apreciar o belo trabalho de direção de arte e fotografia, com um uso de cores que remetem ao cinema italiano de horror dos anos 1970. Além do mais, reparem no cuidado com a realização do cartaz.
A NOITE AMARELA é um filme marcado por sua geografia, seu sotaque paraibano, seus diálogos aparentemente espontâneos, mas que na verdade foram memorizados pelos atores. O tipo de dramaturgia também é diferente, estranho. Nas entrevistas, Mota vem comentando que seu filme é mais herdeiro das experiências com o cinema de horror de Walter Hugo Khouri e Jean Garrett do que com o cinema de horror estrangeiro. De fato, quem viu os filmes de Khouri e Garrett sabe do que ele está falando e vai concordar. A intenção é fazer uma obra atemporal, cuja estranheza atravessará décadas.
Na trama, um grupo de adolescentes chega a uma ilha praticamente desabitada e sem sinal de celular. Depois de se estabeleceram em uma casa, uma das meninas, Karina (Rana Sui), desaparece, e a missão da turma passa a ser procurar pela amiga pela noite escura. Eles resolvem se separar e acabam se deparando com estranhas coisas que lhes assombram, como a presença de duplos. No meio disso tudo, há um grande flashback que dá uma quebrada no filme, como se o tirasse do gênero horror e o colocasse em um daqueles filmes dos anos 1950, com jovens duelando. Isso contribui para a estranheza, mas não deixa de ser no mínimo divertido.
Além do mais, a presença desses jovens atores e de um cinema que não tem medo de experimentar, traz um frescor necessário para este momento em que há filmes de gênero que se esforçam para dialogar mais com grandes audiências. Quanto mais pluralidade, melhor.
+ TRÊS FILMES
PYEWACKET - ENTIDADE MALIGNA (Pyewacket)
Um baita exemplo de como às vezes ter um orçamento muito baixo, mas muita criatividade e senso de direção pode ser recompensador. Se PYEWACKET não estreasse no circuito, não saberia sequer de sua existência. Por isso é preciso que as distribuidoras façam mais um trabalho de curadoria, para nos apresentar obras tão impressionantes como essa. Um dos grandes méritos do filme é o quanto se constrói uma atmosfera de medo, apreensão, arrependimento e outras coisas apenas com expressões faciais e movimentos de câmera precisos, nada mirabolantes. Na história, garota, revoltada com a mãe que quer tirá-la da escola e da cidade, tenta se vingar dela através de um feitiço de magia negra. Vi o filme em casa, mas certamente é filme que merece ser visto no cinema. Direção: Adam MacDonald. Ano: 2017.
IT - CAPÍTULO 2 (It - Chapter Two)
Uma tarefa muito difícil tornar crível e assustadora esta continuação, agora com os personagens adultos, na faixa de 40 anos, tendo que se comportar como em filme de adolescente para matar o monstro, o palhaço assassino de crianças (e adultos também). Infelizmente o filme funciona em alguns momentos, mas, à medida que vai se aproximando de sua conclusão, vai perdendo a força. A escalação do elenco adulto foi boa (Jessica Chastain, James McAvoy e Bill Hader, principalmente) e as várias cenas pequenas de flashback com o elenco infantil e carismático são legais, mas o principal, que é a metodologia para matar a criatura talvez só funcione no romance. É muito complicado tornar gráfico e ao mesmo tempo assustador tudo aquilo. Também senti falta de uma maior conexão afetiva com os personagens adultos. Enfim, uma pequena decepção para um filme ambicioso como esse. Direção: Andy Muschietty. Ano: 2019.
KARDEC
Eis o candidato a filme mais chato e aborrecido do ano. Perderam a oportunidade de contar uma história interessante de maneira agradável e o que temos é um filme que mais se parece com aquelas produções de época de quinta categoria lançadas diretamente em home video. Além do mais, há um tom solene que enche o saco, com uma música que traz a tentativa de exaltar o legado de Allan Kardec e sua coragem de peitar a Igreja Católica e as instituições. Pode ser uma pá de cal na chamada nova era dos filmes espíritas. Direção: Wagner de Assis. Ano: 2019.
Ramon Porto Mota
Tem sido muito gratificando ler as entrevistas do cineasta paraibano Ramon Porto Mota, que estreia seu primeiro longa-metragem, depois da experiência em coletivo em O NÓ DO DIABO (2018), em um momento especialmente feliz para o cinema de gênero brasileiro. Vejam só: na mesma semana em que o seu filme estreou, entrou em cartaz também em outras salas do país MORTO NÃO FALA, de Dennison Ramalho, e AMOR ASSOMBRADO, de Wagner de Assis. E na semana anterior havia estreado O CLUBE DOS CANIBAIS, de Guto Parente. Ou seja, o que ele fala acima tem tudo a ver com esse momento tão especial em que o cinema de horror brasileiro está deixando de ser rejeitado e está sendo abraçado por uma parcela cada vez maior de espectadores, ao mesmo tempo em que estamos vivendo um momento político também singular.
Nas entrevistas de Mota, ele afirma que não tinha a menor intenção de que seu filme A NOITE AMARELA (2019) sequer fornecesse metáforas para o momento político brasileiro. Mas acontece que a percepção da obra de arte, ainda mais essa do tipo mais livre e cheia de espaços, pode trazer interpretações diversas, sim. E isso já não está mais nas mãos do artista. Além do mais, o artista costuma ter antenas que captam o espírito da época. Assim, o mal estar com o mundo contemporâneo se faz bastante presente.
A NOITE AMARELA, como experiência fílmica, está destinado a ser aquele tipo de filme que pode não ser apreciado por um público grande, por sua opção em quase se desvincular de uma trama no sentido convencional, especialmente a partir de seu terço final, e se deixar levar pela atmosfera de sonho/pesadelo, fazendo com que vejamos as pessoas sendo engolfadas pela escuridão, por algo não muito fácil de ser compreendido. O escuro é um aspecto predominante no filme. Quase todas as cenas se passam à noite, desde o começo, quando os jovens secundaristas chegam à ilha para passar uns dias e comemorar a formatura do ensino médio.
A opção de Ramon Porto Mota em adotar uma fotografia suja, áspera, com pouca iluminação, como se fosse um filme feito nas primeiras experiências com o digital, contribui para a sensação de que estamos vendo uma produção estranha a esses tempos em que as imagens são cada vez mais nítidas. Ao mesmo tempo, difícil não apreciar o belo trabalho de direção de arte e fotografia, com um uso de cores que remetem ao cinema italiano de horror dos anos 1970. Além do mais, reparem no cuidado com a realização do cartaz.
A NOITE AMARELA é um filme marcado por sua geografia, seu sotaque paraibano, seus diálogos aparentemente espontâneos, mas que na verdade foram memorizados pelos atores. O tipo de dramaturgia também é diferente, estranho. Nas entrevistas, Mota vem comentando que seu filme é mais herdeiro das experiências com o cinema de horror de Walter Hugo Khouri e Jean Garrett do que com o cinema de horror estrangeiro. De fato, quem viu os filmes de Khouri e Garrett sabe do que ele está falando e vai concordar. A intenção é fazer uma obra atemporal, cuja estranheza atravessará décadas.
Na trama, um grupo de adolescentes chega a uma ilha praticamente desabitada e sem sinal de celular. Depois de se estabeleceram em uma casa, uma das meninas, Karina (Rana Sui), desaparece, e a missão da turma passa a ser procurar pela amiga pela noite escura. Eles resolvem se separar e acabam se deparando com estranhas coisas que lhes assombram, como a presença de duplos. No meio disso tudo, há um grande flashback que dá uma quebrada no filme, como se o tirasse do gênero horror e o colocasse em um daqueles filmes dos anos 1950, com jovens duelando. Isso contribui para a estranheza, mas não deixa de ser no mínimo divertido.
Além do mais, a presença desses jovens atores e de um cinema que não tem medo de experimentar, traz um frescor necessário para este momento em que há filmes de gênero que se esforçam para dialogar mais com grandes audiências. Quanto mais pluralidade, melhor.
+ TRÊS FILMES
PYEWACKET - ENTIDADE MALIGNA (Pyewacket)
Um baita exemplo de como às vezes ter um orçamento muito baixo, mas muita criatividade e senso de direção pode ser recompensador. Se PYEWACKET não estreasse no circuito, não saberia sequer de sua existência. Por isso é preciso que as distribuidoras façam mais um trabalho de curadoria, para nos apresentar obras tão impressionantes como essa. Um dos grandes méritos do filme é o quanto se constrói uma atmosfera de medo, apreensão, arrependimento e outras coisas apenas com expressões faciais e movimentos de câmera precisos, nada mirabolantes. Na história, garota, revoltada com a mãe que quer tirá-la da escola e da cidade, tenta se vingar dela através de um feitiço de magia negra. Vi o filme em casa, mas certamente é filme que merece ser visto no cinema. Direção: Adam MacDonald. Ano: 2017.
IT - CAPÍTULO 2 (It - Chapter Two)
Uma tarefa muito difícil tornar crível e assustadora esta continuação, agora com os personagens adultos, na faixa de 40 anos, tendo que se comportar como em filme de adolescente para matar o monstro, o palhaço assassino de crianças (e adultos também). Infelizmente o filme funciona em alguns momentos, mas, à medida que vai se aproximando de sua conclusão, vai perdendo a força. A escalação do elenco adulto foi boa (Jessica Chastain, James McAvoy e Bill Hader, principalmente) e as várias cenas pequenas de flashback com o elenco infantil e carismático são legais, mas o principal, que é a metodologia para matar a criatura talvez só funcione no romance. É muito complicado tornar gráfico e ao mesmo tempo assustador tudo aquilo. Também senti falta de uma maior conexão afetiva com os personagens adultos. Enfim, uma pequena decepção para um filme ambicioso como esse. Direção: Andy Muschietty. Ano: 2019.
KARDEC
Eis o candidato a filme mais chato e aborrecido do ano. Perderam a oportunidade de contar uma história interessante de maneira agradável e o que temos é um filme que mais se parece com aquelas produções de época de quinta categoria lançadas diretamente em home video. Além do mais, há um tom solene que enche o saco, com uma música que traz a tentativa de exaltar o legado de Allan Kardec e sua coragem de peitar a Igreja Católica e as instituições. Pode ser uma pá de cal na chamada nova era dos filmes espíritas. Direção: Wagner de Assis. Ano: 2019.
segunda-feira, outubro 07, 2019
UM AMOR IMPOSSÍVEL (Un Amour Impossible)
No ano passado, o blog esteve praticamente entregue às baratas, de tão parado que estava. E os poucos leitores que ainda me seguem talvez não imaginem o quanto isso me incomodou. E essa fase continuou neste 2019, embora mais recentemente eu tenha procurado mudar um pouco a situação. Por isso, muita coisa boa que eu vi no cinema e em casa acabou não sendo escrita ou pensada neste espaço. Penso que a experiência fílmica só se torna completa quando a obra em questão é refletida, seja através de um bate-papo bem direcionado, seja através da escrita. E é essa a minha forma de dar continuidade à experiência, inclusive para saber qual o tamanho da minha relação de afetividade com o filme.
Por isso acho importante falar aqui de UM AMOR IMPOSSÍVEL (2018), de Catherine Corsini, que vi já faz alguns meses, mas que ainda está passeando por algumas cidades no circuito alternativo. Pelo título, parece uma dessas obras bem água com açúcar, mas o que temos aqui é uma verdadeira pedrada.
A história é contada por Chantal (Jehnny Betty, na fase adulta) e a personagem principal é sua mãe, Rachel (Virginie Efira, que vive a mesma personagem desde a tenra juventude até a velhice, o que é um risco). A princípio, o foco da narrativa se prende ao relacionamento entre Rachel e Philippe (Niels Schneider). Ela vem de uma classe mais humilde da sociedade; ele é um rapaz que conseguiu escapar da guerra da Argélia por influências de sua família rica e culta.
A relação dos dois parece correr muito bem, mas Rachel começa a ficar um tanto triste quando Philippe diz que tem entre seus princípios jamais se casar. E essa decisão não muda nem mesmo quando Rachel se vê grávida. A posição covarde de Philippe em não reconhecer oficialmente a paternidade de Chantal se torna até pequena diante do que veremos perto do final do filme.
Ainda que a figura de Philippe continue sendo de fundamental importância para a história, mesmo ele aparecendo para visitar a filha e Rachel de vez em quando, lá pelo meio, UM AMOR IMPOSSÍVEL se transforma em um filme sobre a relação de proximidade entre mãe e filha, e do quanto, mais adiante, Philippe fará parte de maneira mais próxima da vida de Chantal.
A cineasta Catherine Corsini vem de um belo filme sobre a relação afetiva entre duas jovens mulheres de estilos diferentes – UM BELO VERÃO (2015) – e aqui novamente mostra um cinema interessado em lidar com as questões relativas ao lugar da mulher no mundo moderno. No novo filme, entretanto, vemos uma protagonista por demais sofrida, seja por causa de uma paixão não correspondida, seja pela sociedade que não vê com bons olhos uma mãe solteira, entre outros problemas. Nesse sentido, é também um estudo sobre a evolução da mulher na sociedade ocidental (ou pelo menos francesa) a partir do final dos anos 1950.
+ TRÊS FILMES
O SÉTIMO CÓDIGO (Sebunsu Kôdo)
Resolvi finalmente ver este filme do Kiyoshi Kurosaw devido às comparações feitas com o maravilhoso O FIM DA VIAGEM, O INÍCIO DE TUDO (2019). E embora haja muitas coisas em comum (a atriz, a locação em país estrangeiro, uma personagem desolada, a música), aqui há uma trama de espionagem/suspense que traz uma reviravolta na segunda metade. Gosto mais da primeira, mas é bom ver que temos um cineasta que não tem medo de arriscar e de fugir do lugar comum, trazendo sempre filmes para nos deixar desconfortáveis ou admirados. A duração é bem curtinha: apenas uma hora. Ano: 2013.
LUCIA CHEIA DE GRAÇA (Tropa Grazia)
É difícil desde já se envolver com a proposta inicial: a de uma jovem mulher que recebe um pedido de Maria Mãe de Deus para construir uma igreja. Há um humor que não funciona, situações inusitadas que parecem despropositadas, personagens sem força e sem carisma. Enfim, há tudo que podia ser necessário para que um filme como esse despertasse o mínimo interesse. E nem é pela questão religiosa, que é tratada com certa leveza. É por não saber lidar com o que tem em mãos mesmo. Direção: Gianni Zanasi. Ano: 2018.
FILHAS DO SOL (Les Filles du Soleil)
A diretora (cujo trabalho eu desconhecia até então) pesa a mão neste drama de guerra sobre um batalhão de mulheres curdas em uma guerra no Curdistão. O diferencial está no fato de ser uma história verídica em que mulheres assumem o protagonismo em uma guerra contemporânea. Mas achei difícil me emocionar e me importar com as personagens, por mais que algumas cenas dentro da edição de idas e vindas no tempo sejam boas, como a fuga de um cativeiro, por exemplo. Direção: Eva Husson. Ano: 2018.
Por isso acho importante falar aqui de UM AMOR IMPOSSÍVEL (2018), de Catherine Corsini, que vi já faz alguns meses, mas que ainda está passeando por algumas cidades no circuito alternativo. Pelo título, parece uma dessas obras bem água com açúcar, mas o que temos aqui é uma verdadeira pedrada.
A história é contada por Chantal (Jehnny Betty, na fase adulta) e a personagem principal é sua mãe, Rachel (Virginie Efira, que vive a mesma personagem desde a tenra juventude até a velhice, o que é um risco). A princípio, o foco da narrativa se prende ao relacionamento entre Rachel e Philippe (Niels Schneider). Ela vem de uma classe mais humilde da sociedade; ele é um rapaz que conseguiu escapar da guerra da Argélia por influências de sua família rica e culta.
A relação dos dois parece correr muito bem, mas Rachel começa a ficar um tanto triste quando Philippe diz que tem entre seus princípios jamais se casar. E essa decisão não muda nem mesmo quando Rachel se vê grávida. A posição covarde de Philippe em não reconhecer oficialmente a paternidade de Chantal se torna até pequena diante do que veremos perto do final do filme.
Ainda que a figura de Philippe continue sendo de fundamental importância para a história, mesmo ele aparecendo para visitar a filha e Rachel de vez em quando, lá pelo meio, UM AMOR IMPOSSÍVEL se transforma em um filme sobre a relação de proximidade entre mãe e filha, e do quanto, mais adiante, Philippe fará parte de maneira mais próxima da vida de Chantal.
A cineasta Catherine Corsini vem de um belo filme sobre a relação afetiva entre duas jovens mulheres de estilos diferentes – UM BELO VERÃO (2015) – e aqui novamente mostra um cinema interessado em lidar com as questões relativas ao lugar da mulher no mundo moderno. No novo filme, entretanto, vemos uma protagonista por demais sofrida, seja por causa de uma paixão não correspondida, seja pela sociedade que não vê com bons olhos uma mãe solteira, entre outros problemas. Nesse sentido, é também um estudo sobre a evolução da mulher na sociedade ocidental (ou pelo menos francesa) a partir do final dos anos 1950.
+ TRÊS FILMES
O SÉTIMO CÓDIGO (Sebunsu Kôdo)
Resolvi finalmente ver este filme do Kiyoshi Kurosaw devido às comparações feitas com o maravilhoso O FIM DA VIAGEM, O INÍCIO DE TUDO (2019). E embora haja muitas coisas em comum (a atriz, a locação em país estrangeiro, uma personagem desolada, a música), aqui há uma trama de espionagem/suspense que traz uma reviravolta na segunda metade. Gosto mais da primeira, mas é bom ver que temos um cineasta que não tem medo de arriscar e de fugir do lugar comum, trazendo sempre filmes para nos deixar desconfortáveis ou admirados. A duração é bem curtinha: apenas uma hora. Ano: 2013.
LUCIA CHEIA DE GRAÇA (Tropa Grazia)
É difícil desde já se envolver com a proposta inicial: a de uma jovem mulher que recebe um pedido de Maria Mãe de Deus para construir uma igreja. Há um humor que não funciona, situações inusitadas que parecem despropositadas, personagens sem força e sem carisma. Enfim, há tudo que podia ser necessário para que um filme como esse despertasse o mínimo interesse. E nem é pela questão religiosa, que é tratada com certa leveza. É por não saber lidar com o que tem em mãos mesmo. Direção: Gianni Zanasi. Ano: 2018.
FILHAS DO SOL (Les Filles du Soleil)
A diretora (cujo trabalho eu desconhecia até então) pesa a mão neste drama de guerra sobre um batalhão de mulheres curdas em uma guerra no Curdistão. O diferencial está no fato de ser uma história verídica em que mulheres assumem o protagonismo em uma guerra contemporânea. Mas achei difícil me emocionar e me importar com as personagens, por mais que algumas cenas dentro da edição de idas e vindas no tempo sejam boas, como a fuga de um cativeiro, por exemplo. Direção: Eva Husson. Ano: 2018.
sábado, outubro 05, 2019
O CLUBE DOS CANIBAIS
Estamos passando por um momento muito especial do cinema brasileiro, em que uma pluralidade cada vez maior de estilos, gêneros, maneiras de se fazer filmes está surgindo. O CLUBE DOS CANIBAIS (2018) representa tanto este momento especial do cinema de gênero no Brasil, quanto também uma espécie de consolidação de uma chamada "primavera do cinema cearense", como alguns já vêm denominando este momento próspero e rico.
O CLUBE DOS CANIBAIS é também a afirmação de um cinema voltado para o horror e com um cuidado muito especial com a forma. Seu diretor, Guto Parente, já havia mostrado isso no ótimo A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA (2014), feito sem recurso algum do Estado, com um valor de produção próximo do zero. Parente escreveu o roteiro de O CLUBE DOS CANIBAIS em 2013, aplicou o projeto em edital em 2014 e finalizou as filmagens em 2016, tendo suas primeiras exibições em festivais ligados ao gênero fantástico em 2018.
Ou seja, o filme atravessou todo esse turbilhão de situações de pesadelo pelo que tem passado o Brasil ao longo desta década. A crítica à elite, que come os mais pobres - e pardos e pretos - e que elogia o "primeiro mundo" continua atual. Na verdade, ela nunca deixou de ser uma realidade do nosso país. Apenas as máscaras caíram.
O CLUBE DOS CANIBAIS conta a história de Otávio (Tavinho Teixeira), dono de uma empresa de segurança privada, e Gilda (Ana Luiza Rios), sua esposa, que adora ficar na piscina tomando uns drinques enquanto sensualiza para o caseiro. Os caseiros, logo veremos, passam por uma rotatividade intensa na casa, já que são sugados para a cilada de seus patrões. Gilda os atrai para o sexo enquanto o patrão está supostamente indo para Fortaleza.
A cena que mostra o sexo de Gilda com o caseiro, a masturbação de Otávio, o machado na cabeça da vítima, o êxtase, tudo isso é tudo muito cheio de sensualidade, assim como a visão de Gilda, descendo as escadas, com o corpo nu banhado de sangue, como uma espécie de versão maligna e poderosa da inocente Carrie (difícil não lembrar do filme do De Palma).
O interessante é que o gore, a violência gráfica, não parecem tão perturbadores neste filme que conta com um senso de humor satírico muito agradável. Sem falar que Guto Parente, sendo um esteta, preza pela beleza das imagens. Assim, o vermelho do sangue e tudo o mais que compõem essas cenas fazem parte de uma intenção de fazer cinema mais ligado ao prazer visual, à valorização da fotografia e do desenho de produção, do que ao choque pelo choque, muito comum em alguns filmes do subgênero torture porn, em moda na década passada.
Além do mais, percebemos que o filme não se atém simplesmente a uma repetição desses eventos na casa de Otávio e Gilda. Na verdade, há uma cena em especial que mudará o destino dos personagens. Isso acontece quando, em uma festa do tal clube, Gilda flagra o grande líder, Borges (Pedro Domingues), um deputado influente, em um ato secreto. Impagável a cena de Gilda indo conversar com Borges no dia seguinte. Um convite à gargalhada e um sinal de que Guto Parente e seu filme já haviam ganhado o espectador.
O CLUBE DOS CANIBAIS conta com uma equipe de dar gosto. Fernando Catatau, guitarrista célebre de Fortaleza, faz a trilha sonora, que valoriza tanto os sintetizadores quanto a bateria, amplificando o prazer fílmico. A supervisão de efeitos especiais é de Rodrigo Aragão, famoso por sua filmografia voltada ao horror gore. E há toda uma turma que vem crescendo cada vez mais no cinema cearense, como Ticiana Augusto Lima, Breno Baptista, Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Samuel Brasileiro, Lia Damasceno, Luciana Vieira, entre outros, que fazem parte do filme em variadas funções.
Por isso, não seria um exagero colocar O CLUBE DOS CANIBAIS na mesma lista de obras como AS BOAS MANEIRAS, de Julian Rojas e Marco Dutra; O ANIMAL CORDIAL, de Gabriela Amaral Almeida; e, por que não?, BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, filme que, segundo Parente, é um divisor de águas deste momento. Sem falar que há toda uma questão muito ligada ao ataque por parte da elite às classes menos favorecidas, que permeia todas essas obras.
No mais, difícil terminar este texto sem elogiar a elegante performance de Ana Luiza Rios, como Gilda, e também de Tavinho Teixeira, claro. Nosso cinema está cada vez mais pulsante, nadando contra a maré de ataques do governo federal. Haveremos de sobreviver gloriosamente.
+ TRÊS FILMES
SOLDADOS DA BORRACHA
Este é outro daqueles serviços de utilidade pública muito importante para que saibamos mais sobre essas pessoas que foram invisibilizadas pelo Governo e pela sociedade, mesmo sendo tão importantes, tanto para a vitória dos aliados na Segunda Guerra quanto para o sucesso do Brasil nas exportações de borracha em tempos de guerra, quando Getúlio Vargas fez um negócio da China com os Estados Unidos. O que esse povo passou não é mole. Ainda assim, o documentário de Wolney Oliveira é cheio de momentos divertidos, os personagens são muito bons e ele teve uma sorte tremenda de encontrar velhinhos cheios de alegria e vivacidade, e com histórias fascinantes para contar. Ano: 2019.
CURRAIS
Um filme necessário. A histórias dos campos de concentração no Ceará na seca de 32 são muito pouco mencionados em filmes e se existem em livros de História eles ganham pouca repercussão. Algo que a elite daquele época sempre quis: acobertar os atos criminosos e bestiais que faziam com os flagelados da seca. Ver este filme é lembrar mais uma vez que a máscara de bom moço do brasileiro esconde muita coisa suja e feia. O recurso dos diretores aqui se mostrou feliz, ao trazer para a ficção algo que seria puramente documental. E Rômulo Braga é um baita ator. Funcionou muito bem como o sujeito que faz a investigação. Um verdadeiro filme de horror. Direção: David Aguiar e Sabina Colares. Ano: 2019.
NOTÍCIAS DO FIM DO MUNDO
O que há de melhor e mais gostoso neste filme é o tom anárquico, que muito lembra os filmes brasileiros da época do Cinema Marginal. Mas a sintonia é mesmo com os tempos de hoje, inclusive fazendo uma boa sessão dupla com BACURAU, já que se trata também de uma espécie de filme "perigoso". Ao que parece, já passou da hora de ficar triste e agir. O filme às vezes parece ter sido feito a partir de sobras do figurino de OS POBRES DIABOS, mas, se parece não haver o mesmo cuidado com as imagens, há bem mais ousadias de discurso, com destaque para as falas do Everaldo Pontes, grande ator. Direção: Rosemberg Cariry. Ano: 2019.
O CLUBE DOS CANIBAIS é também a afirmação de um cinema voltado para o horror e com um cuidado muito especial com a forma. Seu diretor, Guto Parente, já havia mostrado isso no ótimo A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA (2014), feito sem recurso algum do Estado, com um valor de produção próximo do zero. Parente escreveu o roteiro de O CLUBE DOS CANIBAIS em 2013, aplicou o projeto em edital em 2014 e finalizou as filmagens em 2016, tendo suas primeiras exibições em festivais ligados ao gênero fantástico em 2018.
Ou seja, o filme atravessou todo esse turbilhão de situações de pesadelo pelo que tem passado o Brasil ao longo desta década. A crítica à elite, que come os mais pobres - e pardos e pretos - e que elogia o "primeiro mundo" continua atual. Na verdade, ela nunca deixou de ser uma realidade do nosso país. Apenas as máscaras caíram.
O CLUBE DOS CANIBAIS conta a história de Otávio (Tavinho Teixeira), dono de uma empresa de segurança privada, e Gilda (Ana Luiza Rios), sua esposa, que adora ficar na piscina tomando uns drinques enquanto sensualiza para o caseiro. Os caseiros, logo veremos, passam por uma rotatividade intensa na casa, já que são sugados para a cilada de seus patrões. Gilda os atrai para o sexo enquanto o patrão está supostamente indo para Fortaleza.
A cena que mostra o sexo de Gilda com o caseiro, a masturbação de Otávio, o machado na cabeça da vítima, o êxtase, tudo isso é tudo muito cheio de sensualidade, assim como a visão de Gilda, descendo as escadas, com o corpo nu banhado de sangue, como uma espécie de versão maligna e poderosa da inocente Carrie (difícil não lembrar do filme do De Palma).
O interessante é que o gore, a violência gráfica, não parecem tão perturbadores neste filme que conta com um senso de humor satírico muito agradável. Sem falar que Guto Parente, sendo um esteta, preza pela beleza das imagens. Assim, o vermelho do sangue e tudo o mais que compõem essas cenas fazem parte de uma intenção de fazer cinema mais ligado ao prazer visual, à valorização da fotografia e do desenho de produção, do que ao choque pelo choque, muito comum em alguns filmes do subgênero torture porn, em moda na década passada.
Além do mais, percebemos que o filme não se atém simplesmente a uma repetição desses eventos na casa de Otávio e Gilda. Na verdade, há uma cena em especial que mudará o destino dos personagens. Isso acontece quando, em uma festa do tal clube, Gilda flagra o grande líder, Borges (Pedro Domingues), um deputado influente, em um ato secreto. Impagável a cena de Gilda indo conversar com Borges no dia seguinte. Um convite à gargalhada e um sinal de que Guto Parente e seu filme já haviam ganhado o espectador.
O CLUBE DOS CANIBAIS conta com uma equipe de dar gosto. Fernando Catatau, guitarrista célebre de Fortaleza, faz a trilha sonora, que valoriza tanto os sintetizadores quanto a bateria, amplificando o prazer fílmico. A supervisão de efeitos especiais é de Rodrigo Aragão, famoso por sua filmografia voltada ao horror gore. E há toda uma turma que vem crescendo cada vez mais no cinema cearense, como Ticiana Augusto Lima, Breno Baptista, Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Samuel Brasileiro, Lia Damasceno, Luciana Vieira, entre outros, que fazem parte do filme em variadas funções.
Por isso, não seria um exagero colocar O CLUBE DOS CANIBAIS na mesma lista de obras como AS BOAS MANEIRAS, de Julian Rojas e Marco Dutra; O ANIMAL CORDIAL, de Gabriela Amaral Almeida; e, por que não?, BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, filme que, segundo Parente, é um divisor de águas deste momento. Sem falar que há toda uma questão muito ligada ao ataque por parte da elite às classes menos favorecidas, que permeia todas essas obras.
No mais, difícil terminar este texto sem elogiar a elegante performance de Ana Luiza Rios, como Gilda, e também de Tavinho Teixeira, claro. Nosso cinema está cada vez mais pulsante, nadando contra a maré de ataques do governo federal. Haveremos de sobreviver gloriosamente.
+ TRÊS FILMES
SOLDADOS DA BORRACHA
Este é outro daqueles serviços de utilidade pública muito importante para que saibamos mais sobre essas pessoas que foram invisibilizadas pelo Governo e pela sociedade, mesmo sendo tão importantes, tanto para a vitória dos aliados na Segunda Guerra quanto para o sucesso do Brasil nas exportações de borracha em tempos de guerra, quando Getúlio Vargas fez um negócio da China com os Estados Unidos. O que esse povo passou não é mole. Ainda assim, o documentário de Wolney Oliveira é cheio de momentos divertidos, os personagens são muito bons e ele teve uma sorte tremenda de encontrar velhinhos cheios de alegria e vivacidade, e com histórias fascinantes para contar. Ano: 2019.
CURRAIS
Um filme necessário. A histórias dos campos de concentração no Ceará na seca de 32 são muito pouco mencionados em filmes e se existem em livros de História eles ganham pouca repercussão. Algo que a elite daquele época sempre quis: acobertar os atos criminosos e bestiais que faziam com os flagelados da seca. Ver este filme é lembrar mais uma vez que a máscara de bom moço do brasileiro esconde muita coisa suja e feia. O recurso dos diretores aqui se mostrou feliz, ao trazer para a ficção algo que seria puramente documental. E Rômulo Braga é um baita ator. Funcionou muito bem como o sujeito que faz a investigação. Um verdadeiro filme de horror. Direção: David Aguiar e Sabina Colares. Ano: 2019.
NOTÍCIAS DO FIM DO MUNDO
O que há de melhor e mais gostoso neste filme é o tom anárquico, que muito lembra os filmes brasileiros da época do Cinema Marginal. Mas a sintonia é mesmo com os tempos de hoje, inclusive fazendo uma boa sessão dupla com BACURAU, já que se trata também de uma espécie de filme "perigoso". Ao que parece, já passou da hora de ficar triste e agir. O filme às vezes parece ter sido feito a partir de sobras do figurino de OS POBRES DIABOS, mas, se parece não haver o mesmo cuidado com as imagens, há bem mais ousadias de discurso, com destaque para as falas do Everaldo Pontes, grande ator. Direção: Rosemberg Cariry. Ano: 2019.
domingo, setembro 29, 2019
PREDADORES ASSASSINOS (Crawl)
No início dos anos 2000, o nome de Alexandre Aja foi celebrado como um dos expoentes de um vindouro novo cinema de horror produzido na França. Tal foi o rebuliço que causou o seu ALTA TENSÃO (2003), que trazia alguns elementos de violência gráfica que seriam bastante característicos daquela década, que trouxe exemplares extremos como A INVASORA, de Alexandre Bustillo e Julien Maury; EM MINHA PELE, de Marina de Van; MÁRTIRES, de Pascal Laugier; (A) FRONTEIRA, de Xavier Gens; e, por que não?, IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, e DESEJO E OBSESSÃO, de Claire Denis.
Aja foi logo acolhido por Hollywood e seu primeiro filme nos Estados Unidos também foi bem recebido, embora fosse um remake de um clássico, VIAGEM MALDITA (2006). Pena que seus trabalhos seguintes não foram assim tão inspirados. ESPELHOS DO MEDO (2008) é bem esquecível; o remake PIRANHA 3D (2010) tem um interessante tom de comédia; e os posteriores, AMALDIÇOADO (2013) e A NONA VIDA DE LOUIS DRAX (2016), praticamente passaram batidos. Ou seja, nos Estados Unidos, Aja ganhou a fama de só ter tido sucesso com duas refilmagens.
Por isso seu nome deixou de ser tão importante agora, quando surge com o novo trabalho. PREDADORES ASSASSINOS (2019) é vendido com o nome de Sam Raimi, um tanto afastado da direção há alguns anos e agora assumindo mais a cadeira de produtor. O que temos neste novo filme de Aja é uma obra bem despretensiosa sobre uma garota que tenta salvar o pai de uma tempestade, mas tem mesmo é que salvar a ele e a si mesma de dois jacarés enormes que estão no porão da velha casa da família.
As questões familiares são poucos exploradas. Apenas o suficiente para que saibamos da ligação de proximidade entre Haley (Kaya Scodelario, que parece estar se "especializando" em filmes de gênero) e seu pai, Dave (Barry Pepper). Interessante notar que ambos estiveram na franquia MAZE RUNNER. Esse pode ter sido um dos motivos da reunião da dupla nesta difícil luta contra dois animais imensos e ávidos por carne e sangue.
O filme tem o mérito não só de nos manter tensos e na torcida pela salvação dos heróis, quanto pela criatividade em trazer tentativas dos personagens de lidarem com essa situação desesperadora. Não bastasse o fato de eles estarem feridos e incomunicáveis com a cidade, o nível da água está subindo e o tempo que lhes resta é muito pouco para ficarem simplesmente esperando a tempestade passar.
Como filmar na água é por si só uma tarefa complicada para qualquer cineasta, há que se dar o devido crédito a Aja, que leva seus heróis a situações bem intensas e até mesmo apavorantes. Outra coisa positiva é que o diretor não queria fazer um filme sobre jacarés tornados gigantes através de radiação ou coisa do tipo. Ou muito menos jacarés girando dentro de um tornado (para citar a franquia trash SHARKNADO). Isso faz com que seu trabalho fique mais próximo do realismo e muito mais fácil de ser comprado pelo espectador.
+ TRÊS FILMES
GODZILLA II - REI DOS MONSTROS (Godzilla - King of the Monsters)
Mais uma superprodução que é um desperdício de tudo: do talento de seus atores, do dinheiro gasto e também de nosso tempo na sala escura. Logo o tempo, o mais precioso dos bens. Mas, enfim, cinema é risco também e eu tinha gostado do primeiro GODZILLA. Este aqui é fraco em tudo: tanto no desenvolvimento dos personagens, quanto na idealização e luta dos monstros, quanto na falta de uma história minimamente interessante (já que a direção também não ajuda). É possível que haja público interessado e até entusiasmado, mas para isso é preciso comprar o filme desde o início, já que o filme parece não querer ganhar o espectador em nenhum momento. A primeira cena do Godzilla é para ser algo épico, mas é só mais um monstro em CGI que ninguém (ou pouca gente) liga. Direção: Michael Dougherty. Ano: 2019.
BRIGHTBURN - FILHO DAS TREVAS (Brightburn)
Muito bom quando vemos um filme de terror com tal domínio de narrativa e inteligente ao reinventar a origem do Superman: o que aconteceria se o garoto que caiu na Terra fosse poderoso e também muito malvado? BRIGHTBURN é envolvente e parece um exemplar raro de filme de terror de qualidade estreando em nosso circuito. Fiquei até curioso para ver o longa anterior do diretor, A COLMEIA (2014), que deve ter estreado só em algum canal de streaming e quase ninguém deve ter visto. Direção: David Yarovesky. Ano: 2019.
OPERAÇÃO OVERLORD (Overlord)
Não vi em IMAX, mas acho que vale ver sim, para melhorar a experiência. Foi um dos filmes recentes que mais me surpreendeu positivamente. O trailer não me pareceu nada atraente. Quando vi estava dentro de um drama de guerra intenso que descamba para um horror com gore e tudo. E é um filme que não se prejudica com os seus excessos. Muito bom! As cenas iniciais no avião são tão boas, que lembram as cenas de aviação dos filmes dos anos 30. Direção: Julius Avery. Ano: 2018.
Aja foi logo acolhido por Hollywood e seu primeiro filme nos Estados Unidos também foi bem recebido, embora fosse um remake de um clássico, VIAGEM MALDITA (2006). Pena que seus trabalhos seguintes não foram assim tão inspirados. ESPELHOS DO MEDO (2008) é bem esquecível; o remake PIRANHA 3D (2010) tem um interessante tom de comédia; e os posteriores, AMALDIÇOADO (2013) e A NONA VIDA DE LOUIS DRAX (2016), praticamente passaram batidos. Ou seja, nos Estados Unidos, Aja ganhou a fama de só ter tido sucesso com duas refilmagens.
Por isso seu nome deixou de ser tão importante agora, quando surge com o novo trabalho. PREDADORES ASSASSINOS (2019) é vendido com o nome de Sam Raimi, um tanto afastado da direção há alguns anos e agora assumindo mais a cadeira de produtor. O que temos neste novo filme de Aja é uma obra bem despretensiosa sobre uma garota que tenta salvar o pai de uma tempestade, mas tem mesmo é que salvar a ele e a si mesma de dois jacarés enormes que estão no porão da velha casa da família.
As questões familiares são poucos exploradas. Apenas o suficiente para que saibamos da ligação de proximidade entre Haley (Kaya Scodelario, que parece estar se "especializando" em filmes de gênero) e seu pai, Dave (Barry Pepper). Interessante notar que ambos estiveram na franquia MAZE RUNNER. Esse pode ter sido um dos motivos da reunião da dupla nesta difícil luta contra dois animais imensos e ávidos por carne e sangue.
O filme tem o mérito não só de nos manter tensos e na torcida pela salvação dos heróis, quanto pela criatividade em trazer tentativas dos personagens de lidarem com essa situação desesperadora. Não bastasse o fato de eles estarem feridos e incomunicáveis com a cidade, o nível da água está subindo e o tempo que lhes resta é muito pouco para ficarem simplesmente esperando a tempestade passar.
Como filmar na água é por si só uma tarefa complicada para qualquer cineasta, há que se dar o devido crédito a Aja, que leva seus heróis a situações bem intensas e até mesmo apavorantes. Outra coisa positiva é que o diretor não queria fazer um filme sobre jacarés tornados gigantes através de radiação ou coisa do tipo. Ou muito menos jacarés girando dentro de um tornado (para citar a franquia trash SHARKNADO). Isso faz com que seu trabalho fique mais próximo do realismo e muito mais fácil de ser comprado pelo espectador.
+ TRÊS FILMES
GODZILLA II - REI DOS MONSTROS (Godzilla - King of the Monsters)
Mais uma superprodução que é um desperdício de tudo: do talento de seus atores, do dinheiro gasto e também de nosso tempo na sala escura. Logo o tempo, o mais precioso dos bens. Mas, enfim, cinema é risco também e eu tinha gostado do primeiro GODZILLA. Este aqui é fraco em tudo: tanto no desenvolvimento dos personagens, quanto na idealização e luta dos monstros, quanto na falta de uma história minimamente interessante (já que a direção também não ajuda). É possível que haja público interessado e até entusiasmado, mas para isso é preciso comprar o filme desde o início, já que o filme parece não querer ganhar o espectador em nenhum momento. A primeira cena do Godzilla é para ser algo épico, mas é só mais um monstro em CGI que ninguém (ou pouca gente) liga. Direção: Michael Dougherty. Ano: 2019.
BRIGHTBURN - FILHO DAS TREVAS (Brightburn)
Muito bom quando vemos um filme de terror com tal domínio de narrativa e inteligente ao reinventar a origem do Superman: o que aconteceria se o garoto que caiu na Terra fosse poderoso e também muito malvado? BRIGHTBURN é envolvente e parece um exemplar raro de filme de terror de qualidade estreando em nosso circuito. Fiquei até curioso para ver o longa anterior do diretor, A COLMEIA (2014), que deve ter estreado só em algum canal de streaming e quase ninguém deve ter visto. Direção: David Yarovesky. Ano: 2019.
OPERAÇÃO OVERLORD (Overlord)
Não vi em IMAX, mas acho que vale ver sim, para melhorar a experiência. Foi um dos filmes recentes que mais me surpreendeu positivamente. O trailer não me pareceu nada atraente. Quando vi estava dentro de um drama de guerra intenso que descamba para um horror com gore e tudo. E é um filme que não se prejudica com os seus excessos. Muito bom! As cenas iniciais no avião são tão boas, que lembram as cenas de aviação dos filmes dos anos 30. Direção: Julius Avery. Ano: 2018.
quarta-feira, setembro 25, 2019
15 CURTAS BRASILEIROS
O HOMEM NA CAIXA
Belo conto de horror sobre um mágico que, por um infortúnio, vai preso. Dizer mais do filme pode estragar as surpresas. Os diretores conseguem criar um interesse pelo personagem e pelo seu destino a todo instante. No começo, pensei se tratar de um drama político, depois fui vendo que se tratava de outra coisa. A animação é simples, mas realista, e com efeitos de movimento muito eficientes. O final fecha tudo com chave de ouro, lembrando, por alguma razão, algum conto de Poe. Direção: Alvaro Furloni, Ale Borges e Guilherme Gehr. Ano: 2018.
PLANTAE
Animação em tons épicos e sem nenhum diálogo sobre a repercussão fantástica de uma árvore que acabou de ser cortada frente ao homem responsável pelo ato. Podia funcionar como um belo libelo a favor da natureza, mas acabei não vendo muita graça, por mais que haja beleza na arte desenhada e na música utilizada para enfatizar o aspecto espiritual da árvore. Direção: Guilherme Gehr. Ano: 2018.
LÉ COM CRÉ
Animação lindinha e muito inteligente que traz depoimentos reais de crianças sobre determinados temas, sendo que elas são substituídas em imagens por bonecos (um elefante, uma criança, um adulto etc.). Adoro a maneira poética como a criança descreve certas coisas, como o dinheiro, o medo, e a diferença entre meninos e meninas, exatamente os temas abordados no curto espaço de tempo de LÉ COM CRÉ. Bem que podia ser um pouco maior na duração. Direção: Cassandra Rios. Ano: 2018.
ORAÇÃO AO CADÁVER DESCONHECIDO
Muito interessante esta incursão na ficção científica dentro de uma trama com clima de sonho. Há algo entre a primeira e a última semana que me pareceu fora de lugar, mas que talvez por isso tenha feito com que o filme tenha um caráter enigmático para mim. Fiquei impressionado com os efeitos visuais para um filme de orçamento muito limitado. Direção: Sávio Fernandes. Ano: 2019.
MARCO
Antes de mais nada, fiquei impressionado com a atriz principal do filme, que até já conhecia de um filme do Leonardo Mouramateus, se não me engano. Aqui ela é uma jovem mulher que volta à sua cidade natal por um motivo muito especial. Antes de chegar lá, o filme a mostra passando em um bar, andando com uma amiga, conversando com um tio, saindo com os amigos, para só entrar na questão do drama familiar. Que fica um tanto confuso no final, mas o que temos é um conjunto de belas cenas. Direção: Sara Benvenuto. Ano: 2019.
O TEMPO DO OLHAR E O OLHAR NO TEMPO
Samuel Brasileiro já havia mostrado em outros filmes, pelo menos os que eu vi, como no coletivo O ANIMAL SONHADO (2015) e o curta BIQUÍNI PARAÍSO (2015), que tem domínio da linguagem narrativa mais convencional, por assim dizer. Aqui o que temos é um trabalho mais experimental, com a presença da avó e de fotos sendo descritas. Basicamente é isso, mas há algo de muito poético no modo como ele dispõe as imagens e a fala. Ano: 2019.
MARIE
Alguém banque logo um longa-metragem para Leo Tabosa. Tudo neste filme é tão profissional e bonito e intenso que eu fiquei maravilhado. Ele teve a sorte de trabalhar antes, no curta NOVA YORK, com Hermila Guedes. Aqui é com Rômulo Braga, um baita ator. A história envolve dois amigos de infância que viajam para enterrar um senhor idoso em longo trajeto. Um deles passou pela transição de gênero e agora se chama Marie. O filme é composto por umas seis ou sete cenas, mas é impressionante como cada uma é disposta de maneira elegante, com um enquadramento específico com câmera parada, a fotografia deslumbrante de Petrus Cariry e a intensidade dramática. Há uma em especial que me deixou muito arrepiada. É o tipo de filme que a gente lamenta não ser visto por mais pessoas, justamente por ser um curta. A atriz transgênero Wallie Ruy é sensacional! Ano: 2019. (Foto)
RUA AUGUSTA, 1029
Interessante como este filme nos coloca dentro de um cenário de ocupação, tendo a polícia no encalço, parecendo ser muito real e transitando ora pela linguagem do documentário, ora pela dos filmes de found footage (se é que foi essa a intenção ou foi algo acidental). O filme é bem conciso, mas reflete um mês em que houve uma forte ocupação de prédios em São Paulo, durante o ano de 2015. Em um cenário político em que os empresários e a elite são os donos de tudo, inclusive da verdade, é preciso lembrar que a moradia é um direito de todos. Direção: Mirrah Iañez. Ano: 2019.
O GRANDE AMOR DE UM LOBO
O filme que mais alegrou o público no festival por conta de seu jeito moleque de contar a história de um garoto que quer ser cineasta e conta exatamente como será seu filme. Há muita inteligência em usar tanto o humor quanto os poucos recursos para que haja um resultado mais do que satisfatório. A história se passa no município de São Miguel do Gostoso, lugar paradisíaco que tem uma estreia ligação com a história do Diário de um Cinéfilo. Curiosamente, o produtor do filme é Eugenio Puppo, que deve ter ajudado os jovens talentos lá da cidade para a materialização desta obra. Direção: Adrianderson Barbosa e Kennel Rógis. Ano: 2019.
ILHAS DE CALOR
Filme simpático sobre grupo de estudantes de uma escola de Viçosa, uma cidade do interior de Alagoas. O filme traz tanto a realidade de uma sala de aula, sempre um tanto complicada para quem é professor, tendo que lidar com agente da ordem para dirimir o caos, mas há principalmente a liberdade dos estudantes fora da sala de aula, mas dentro das dependências da escola, seja para brincar, seja para namorar. O personagem Fabrício inicia e finaliza o filme. É seu o ponto de vista mais explorado. Direção: Ulisses Arthur. Ano: 2019.
POP RITUAL
Mais uma vez Mozart Freire dá uma aula de filme caprichado na direção de arte. Este aqui talvez seja o seu trabalho mais bem acabado até o momento. O que vemos é um padre que prende um vampiro em uma cama para utilizar de seu sangue. Há ecos de NOSFERATU pela aparência do rapaz que faz o vampiro, mas há quem vá se lembrar de A FORMA DA ÁGUA também. É um filme que se sustenta apenas com as imagens, sem a necessidade de diálogos, e ainda consegue passar uma mensagem política dentro desse cinema de gênero. Ano: 2019.
EU, MINHA MÃE E WALLACE
Filme muito bonito, todo pautado nos silêncios, nos olhares, nos diálogos curtos, na tensão entre os personagens a partir da chegada de um rapaz que esteve distante de todos (Fabricio Boliveira). Não há trilha sonora, e os olhos são todos muito discretos e simples, mas a carga emocional que o filme é capaz de passar é impressionante. Direção: Irmãos Carvalho. Ano: 2018.
COPACABANA-AUSCHWITZ
Filmes sobre o holocausto sempre me doem muito, pois lembramos o quão baixo o ser humano é capaz de chegar em termos de maldade. Este curta aqui é narrado por um sobrevivente dos campos de concentração e o diretor opta por um registro mais de imagens da natureza, opondo o céu azul do Brasil com o céu cinza da Alemanha no inverno dos anos 40. A simplicidade está mais a favor do que contra o filme, mas ainda assim, eu esperava me emocionar mais. Porém, sei que o problema pode ser comigo, que ando com a sensibilidade um pouco alterada. Direção: Jaiê Saavedra. Ano: 2018.
NOIR BLUE - DESLOCAMENTOS DE UMA DANÇA
Um filme que teve um hype bem grande entre o circuito mais fechado de cinéfilos. Eu particularmente gosto mais do filme graças à voz doce da diretora, que fala sem pressa de sua ida à África em busca de suas origens, do quanto ela tem em comum, como brasileira negra, com aquele continente tão receptivo e alegre. São as palavras dela que dão o tom de prazer do doc, mais do que as imagens. E é isso que me incomoda um pouco. Se bem que, como eu sou um apreciador forte das palavras, então, está valendo. Direção: Ana Pi. Ano: 2018.
A PRIMEIRA FOTO
O filme faz parte de uma leva de obras afetivas e familiares que lidam com a questão da ausência/presença de alguém. O diretor (ou eu lírico), que foi rejeitado pelo pai, assume o avô como verdadeiro pai e o que vemos é uma bonita homenagem a um homem. Há o recurso da fala suave presente em outros trabalhos do tipo (inclusive em NO INTENSO AGORA, do João Moreira Salles) e aqui das imagens esmaecidas ou desgastadas pelo tempo. Achei que poderia ser de menor duração, mas entendo e respeito o tempo e a necessidade do artista. Direção: Tiago Pedro. Ano: 2018.
segunda-feira, setembro 23, 2019
O MAL NÃO ESPERA A NOITE – MIDSOMMAR (Midsommar)
Quando Ari Aster estreou em longa-metragem com o ótimo HEREDITÁRIO (2018), muita gente ficou impressionada com a habilidade e a elegância do cineasta em lidar com a câmera. Estávamos diante de um novo caso de garoto prodígio do cinema. Agora com A MORTE NÃO ESPERA A NOITE - MIDSOMMAR (2019), que traz uma dose bem maior de humor, procura-se ainda mais tentar decifrar as intenções de seu realizador.
Pesquisando por seus curtas no IMDB podemos notar que a maior parte deles possui a combinação drama-terror-comédia. Logo, se tivermos a oportunidade de ver essas obras iniciais poderemos compreender melhor esse novo cineasta. Afinal, um diretor cujo primeiro filme é sobre um filho que molesta sexualmente o próprio pai não deve ser muito normal. O que, em se tratando de cinema, e para quem gosta, por exemplo, de David Lynch, é uma maravilha.
Em entrevista ao The Guardian, Aster contou que assistiu aos 11 anos de idade a LARANJA MECÂNICA e a VELUDO AZUL e odiou ambos por considerá-los extremamente perversos. Porém, não parou de rever os tais filmes para compreender o fato de não ter gostado. Entendeu, então, que seu destino era também fazer filmes que incomodassem.
MIDSOMMAR (melhor tratar a partir daqui pelo título original) é descrito pelo cineasta como um filme de fim de relacionamento. Não deixa de ser curioso, mas conta o cineasta que o roteiro foi inspirado em uma situação pessoal de rompimento.
Na trama, Florence Pugh é Dani, uma jovem com problemas de depressão que tem seu mundo devastado com a notícia da morte de sua família. Seu único amigo é o namorado Christian (Jack Reynor). Os amigos de Christian não gostam nada da garota, consideram-na grudenta e problemática. Daí ficam irritados quando Dani resolve ir com eles a uma viagem para a Suécia, mais especificamente para uma cidadezinha chamada Hälsingland, um paraíso que promove a cada ano um festival pagão milenar um tanto estranho para olhos estrangeiros.
Lembrando à primeira vista o clássico O HOMEM DE PALHA (1973), o filme acompanha de forma lenta a descoberta do grupo de jovens americanos aos costumes locais e também a situações bem bizarras, como o desaparecimento de alguns jovens estrangeiros.
A beleza das imagens, a maioria delas na deslumbrante luz do dia (a noite, nessa época do ano, é bem curta) faz do filme um diferencial diante da grande maioria dos filmes de horror, que optam pela noite como momento ideal para as cenas de ação e medo. Aqui alguns momentos que chocam os personagens acontecem com o sol bem presente, como a cena do sacrifício dos anciões da aldeia.
Talvez um dos problemas do filme seja não ser tão forte no que se refere a trazer a loucura para o espectador, já que, há, ao longo da narrativa, um prazer narrativo que nos distancia do incômodo, diferente, por exemplo, de LARANJA MECÂNICA, para citar um dos filmes que incomodou o pequeno Aster. Há, inclusive, uma cena de sexo desconcertante que provoca mais risos que mal estar, ainda que o espírito bizarro esteja lá presente. Aliás, mais uma vez, é sempre bom levar em consideração o senso de humor todo próprio do cineasta.
O nome de Ari Aster se tornou tão importante quanto o de Robert Eggers. Ambos são jovens cineastas que estão chegando ao segundo filme de horror depois de estreias que chamaram muito a atenção da crítica e do público mais exigente e mais interessado em ter novas experiências dentro do gênero. Assim, do mesmo modo que esperávamos com ansiedade MIDSOMMAR esperamos agora a volta de Eggers com O FAROL, previsto para estrear aqui no Halloween.
E podemos dizer que o que Aster traz em seu MIDSOMMAR, e que já havia mostrado em HEREDITÁRIO, é muito mais herdeiro de um cinema de horror mais ligado ao paganismo do que aquele tradicionalmente cristão. A BRUXA também o é, mas traz uma oposição, uma quebra com os preceitos cristãos, a fim de trazer uma ideia de liberdade de espírito bastante transgressora.
Em MIDSOMMAR, os personagens não se mostram religiosos. A presença deles naquele espaço novo é, a princípio, excitante pelo que há de diferente, de exótico. Depois, uma vez que o desaparecimento de alguns deles e o sacrifício humano é mostrado como algo pertencente às tradições milenares daquela comunidade, o elemento do horror vai se formando, mas isso independe do Cristianismo. Aliás, um dos personagens até faz uma comparação de certas tradições com costumes presentes na cultura indiana.
Um elemento claramente comum entre HEREDITÁRIO e MIDSOMMAR é a performance poderosa das duas atrizes protagonistas. No primeiro, Toni Collette; no novo filme, Florence Pugh, jovem que já havia chamado muito a atenção no ótimo LADY MACBETH.
Que Aster continue a nos surpreender. MIDSOMMAR, que hoje divide opiniões, tem tudo para se tornar um clássico no futuro próximo.
+ TRÊS FILMES
VERÃO DE 84 (Summer of 84)
Interessante este filme que bebe na onda de saudosismo dos anos 80. Aqui a semelhança com STRANGER THINGS é grande, embora seja um filme com um pé no realismo. Não há nada de sobrenatural, apenas a história de um garoto que acredita que o policial que mora na casa ao lado é o serial killer que está aterrorizando sua região. E aí ele sai com os outros três amigos usando walkie-talkies para investigar por conta própria o caso. Há também a linda moça vizinha que é desejada/sonhada por ele e que tem um papel bem simpático. Gosto da escolha que os diretores fizeram de demorar bastante até entrar sequências de ação. Desse modo, é até um filme leve, embora surpreenda em sua conclusão. Direção: François Simard, Anouk Whissell e Yoan-Karl Whissell. Ano: 2018.
HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO (Scary Stories to Tell in the Dark)
Muito interessante este filme com ar de terror oitentista (os protagonistas parecem versões mais velhas dos meninos de STRANGER THINGS (de novo!), com seus walkie-talkies), embora se passe em 1968. A trama principal envolve um livro encontrado em uma casa assombrada. Este livro será fundamental para o destino dos personagens. Legal que o filme se preocupa com a evolução dos personagens e a parte dos monstros também é uma boa sacada. O que cansa um pouco é a resolução, como é de praxe na maioria dos filmes do gênero. Direção: André Øvredal. Ano: 2019.
BRINQUEDO ASSASSINO (Child's Play)
Uma refilmagem que ganha pontos por uma série de coisas, como a atualização/mudança da história original. Além do mais, o filme conta com a presença maravilhosa de Aubrey Plaza. ❤ E eu gostei do garoto também, Gabriel Bateman, que havia aparecido em QUANDO AS LUZES SE APAGAM. A fuga da questão sobrenatural foi interessante, assim como a beleza das cores, das imagens, o ponto de vista do brinquedo, a tecnologia e o senso de humor. Pena que lá pelo meio o filme perca o rumo e se transforme em algo tão desnecessário quanto já imaginávamos inicialmente que fosse. Direção: Lars Klevberg. Ano: 2019.
domingo, setembro 22, 2019
PITTY NA PRAÇA VERDE DO DRAGÃO DO MAR - FORTALEZA, 21 DE SETEMBRO DE 2019
Minha mania de achar que vou ficar deprimido ao ir a um show sozinho não chegou a se dissipar totalmente com essa experiência aqui, mas é tudo questão de estado de espírito. Talvez não estivesse tão feliz comigo mesmo a ponto de ignorar o meu sentimento de solidão e inadequação que tem me incomodado recentemente. De todo modo, foi bom ter a chance de enfrentar esse pequeno e inofensivo monstro. Ainda mais, durante um show como esses, em que as pessoas que estão lá estão todas (ou quase todas) em sintonia com a artista, em comunhão.
Como meu interesse era ver o show de uma artista cujo trabalho eu muito aprecio e já acompanho há muito tempo, e nunca tinha visto nada ao vivo mesmo, embora já tenha assistido quase todos os registros ao vivo dela lançados em DVD (o {Des}concerto ao Vivo, de 2007, segue sendo o melhor registro de um show dela e um dos melhores feitos no Brasil em todos os tempos, por uma série de motivos, mas principalmente pela energia única). Ter chegado atrasado para a apresentação dela no Ceará Music de 2010 foi muito triste pra mim (só peguei as canções finais, mas adorei o que vi/ouvi).
Vale dizer que conseguir companhia para ir a um show da cantora não foi muito fácil para mim. No ano passado, quando ela esteve aqui para a primeira fase da turnê Matriz, convidei umas cinco ou seis pessoas, que não quiseram ir. Acabei desistindo de ir. Deve ser um problema generacional, não sei. As pessoas da minha idade não apreciam ou não conhecem muito o trabalho da cantora. Se bem que eu também convidei pessoas mais jovens do que eu. Enfim, não gastei muita energia para convidar tantas pessoas assim este ano, estando desde já disposto a ir sozinho desta vez. Primeira experiência em um show ao vivo só. E devo dizer que valeu, embora o sentimento de uma leve tristeza estivesse um tanto presente em mim ao longo da noite.
Ainda assim, apreciei o trabalho do DJ que se apresentou antes e principalmente da banda de abertura, a cearense Ouse, que faz um trabalho voltado explicitamente para questões relativas aos direitos das mulheres. O som deles é muito bom e a vocalista July Pessoa tem uma presença de palco incrível. Aliás, só de ver pessoas da geração dela fazendo rock nesses tempos em que o pop impera no cenário internacional já é muito bom. O rock está, desde o início dos anos 2000, em estado de resistência. Mas falemos da Pitty, de seu show.
A cantora e sua banda entra no palco ao som de "Ninguém é de ninguém", do álbum novo. A recepção é calorosa e a canção já está na boca do público. Logo depois vem duas dos primeiros discos, "Admirável chip novo" e "Memórias" (essa com elementos de "bad guy", da Billy Eilish). São duas canções que ainda guardam um frescor impressionante, mesmo tendo sido tantas vezes cantadas e ouvidas. Mas "Memórias" funcionou melhor e fez o público pular, até pela pungência das guitarras (ou união forte do baixo com a guitarra).
"Setevidas", do álbum homônimo de 2014, segue sendo uma canção ainda muito forte nos shows. O álbum, aliás, é um dos mais felizes da banda. Feliz no sentido de ser bem-sucedido, não no sentido do clima do disco, feito após uma experiência de quase morte da cantora, de maior consciência da própria finitude.
A conexão com o disco novo retorna com "Noite inteira", um dos momentos mais bonitos da noite. Para mim, desde a primeira vez que escutei essa canção eu já percebi o potencial incendiário para uma apresentação ao vivo, tanto por ser dançante quanto pelo belo casamento do baixo com a guitarra. "Te conecta" é outra que também funciona bem ao vivo e traz o público para um momento mais relaxante, já que se trata de um reggae. O cheirinho de erva subiu quando essa canção rolou, em versão um pouco mais estendida. Pitty estava curtindo o som.
A candidata a melhor canção da Pitty ever, "Na sua estante", uma porrada sobre a falta que uma pessoa faz depois do fim de um relacionamento, aliado à busca de seguir em frente para esquecer, a faz especialmente forte. Afinal, quem nunca passou por isso? De arrepiar a estrofe final: "Só por hoje não quero mais te ver/só por hoje não vou tomar minha dose de você".
O clima de balada e relacionamentos segue com "Motor", do novo disco. Trata-se de uma canção da banda baiana Maglore de 2013, e que também vem ganhando força recentemente na voz de Gal Costa. Para mim, lembra as canções de dor de cotovelo do Tim Maia. E isso é um elogio. Mas não deixa de ser algo estranho de ver dentro de um álbum da Pitty, que sempre só cantou músicas próprias. Aliás, não é a única cover do disco, não.
Logo em seguida, veio a parte acústica do show, com direito a três banquinhos, com a presença apenas do guitarrista Martin Mendonça, da própria Pitty, claro, e do baixista Guilherme Almeida, todos de posse de seus violões. Foi um momento bem especial, talvez o momento mais bonito do show inteiro. Rolou uma versão diferente e bonitona de "Teto de vidro" e logo em seguida uma homenagem a um dos nossos maiores cantores e compositores do Ceará e do Brasil, Belchior. "Sujeito de sorte" tem um sido um hino para esses dias difíceis. "Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro" segue sendo uma espécie de mantra. "Salve Belchior", ela disse ao final. Senti-me um privilegiado neste momento, ao vê-la cantando esta canção.
Logo em seguida, um resgate de uma canção do projeto Agridoce, a linda "Dançando". Nessa hora eu vi algo muito bonito do meu lado. Um casal de garotas que assistiam ao show abraçadinhas. A garota que estava na frente, deixava cair algumas lágrimas enquanto os versos "O mundo acaba hoje e eu estarei dançando com você" ecoavam. Para aquela garota aquele momento certamente vai ser para a vida toda. E fiquei feliz por ela.
Logo em seguida, em momento de transição da fase acústica com a elétrica, vem "Submersa", do novo disco, e a animada "Roda", com participação não exatamente presente da banda BaianaSystem. "Me adora", grande hit, foi a única do disco Chiaroscuro a entrar no setlist. "Máscara" segue sendo imprescindível e foi a que fechou o show antes de a banda voltar para mais duas canções: "Equalize" e "Serpente".
Aliás, é fantástico como "Serpente" ganhou esse espaço para encerramento dos shows da cantora desde a turnê do SETEVIDAS. Nada mais justo, tanto pela beleza e sentimento de serenidade da canção, como pelo fato de ela seguir ressoando até a nossa volta para as nossas casas. Guardadas as devidas proporções, virou uma espécie de "Hey Jude" da cantora, no sentido de que o público segue cantando à capela ao final do show.
Foi um belo e marcante espetáculo. Quanto à minha tristeza, a canção que encerrou o show já dizia tudo: "a sustentação é que amanhã já vem".
sábado, setembro 21, 2019
RAMBO - ATÉ O FIM (Rambo - Last Blood)
Sylvester Stallone perdeu a chance de fazer um baita filme de vingança com o novo RAMBO - ATÉ O FIM (2019), dirigido por Adrian Grunberg, de PLANO DE FUGA (2012). As motivações que ele tem depois que membros de um cartel mexicano sequestram sua filha adotiva são suficientes para esquecermos o quão estereotipados eles são mostrados. O resgate de um familiar sequestrado já é algo que estamos acostumados a ver nos filmes de ação estrelados por Liam Neeson. O diferencial aqui é colocar o lendário John Rambo no encalço dos bandidos.
E também há um diferencial na questão da vulnerabilidade. Stallone não é como Tom Cruise, por exemplo, que quer sempre sair bem na fita nos filmes de ação, com um ego gigante. Stallone parece não se importar, por exemplo, em aparecer levando uma surra de dezenas de homens e ficar no chão. Afinal, seu surgimento foi levando muita porrada no lindo ROCKY, UM LUTADOR.
John Rambo só quer ficar em paz, mas as pessoas não deixam. Isso, aliás, é basicamente o plot do pequeno clássico RAMBO - PROGRAMADO PARA MATAR (1982). Ele só queria curtir a sua solidão em paz. Em ATÉ O FIM ele aparece ainda mais pacífico, bem mais velho e morando com uma família formada por uma garota órfã de mãe e abandonada pelo pai biológico. Ele é o Tio John, mas é o mais próximo de um pai que a garota tem. Há também uma senhora mexicana que cuida da casa e funciona como uma espécie de mãe.
A garota, na ânsia de conhecer o pai biológico, vai parar no México, contra a vontade de John, e acaba sendo raptada e colocada em um grupo de mulheres forçadas a se prostituir. John Rambo vai até lá com o intuito de resgatá-la. E é com essa simplicidade de trama que se constrói RAMBO - ATÉ O FIM.
E dá-lhe cenas de violência gráfica explícita, que até há alguns anos poderia ser mais celebrada pelos fãs de filmes de ação e terror, mas que não parecem chocar a audiência dos dias de hoje. Mas o problema é mesmo a falta de uma melhor solução para a trama, que leva o personagem para o velho exército de um homem que não empolga e esfria o interesse pela vingança, esse elemento tão fácil de gerar a solidariedade do espectador. No mais, o filme poderia ter aproveitado melhor a personagem de Paz Vega, que parece saída de algum filme dos anos 70. Falta de sensibilidade e inteligência dos realizadores, nesse sentido? Talvez.
+ TRÊS FILMES
RAINHAS DO CRIME (The Kitchen)
Estreia na direção da roteirista Andrea Berloff. Não chega a ser um filme ruim, mas é meio problemático na incapacidade de trazer sentimentos de angústia e incômodo tanto pelas cenas violentas quanto pela mudança radical de vida das três mulheres, que passam a chefiar a máfia da Cozinha do Inferno depois que os três maridos são presos. O filme tem uma veia feminista forte e isso é um de seus méritos. Também gosto das três atrizes, mas sempre acho injusto quando surge uma Elisabeth Moss para humilhar as demais. Se bem que a Tiffany Haddish está ótima também. Podia ser algo melhor nas mãos de um bom diretor, talvez. Ano: 2019.
VELOZES & FURIOSOS - HOBBS & SHAW (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw)
No começo, este spin off da galinha dos ovos de ouro da Universal parece até ser bem bacana, com uma boa maneira de unir novamente os dois protagonistas que se odeiam para uma missão. Há um paralelismo bem interessante, assim como temos uma Vanessa Kirby pra lá de sensual e carismática. Mas depois o filme se estende por tempo demais e quando chega na parte de Samoa a gente quer que tudo termine. Outro problema desses filmes de ação sem muita novidade é que eles ficaram muito para trás depois do evento John Wick, pelo menos dentro do cinema ocidental contemporâneo. Também incomoda um pouco o modo como a franquia foi se distanciando da fisicalidade para ingressar em um pastiche de James Bond com toques de ficção científica no meio. E sem conseguir um resultado bacana com isso. Direção: David Leitch. Ano: 2019.
ATENTADO AO HOTEL TAJ MAHAL (Hotel Mumbai)
Interessante que aqui não temos a Índia colorida de O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD. A intenção é mesmo provocar um choque de contraste entre a extrema miséria das ruas de Mumbai e o luxo de cair o queixo do hotel onde se passa a história. É um thriller envolvente e eficiente feito por um diretor iniciante para longas. Os atores estão bem como heróis nascidos das circunstâncias; todo os cinco atores principais. E até os terroristas saem um pouco do preto no branco na cena da ligação de um deles para o pai. No fim, todos são vítimas. Atenção para a bela iraniana Nazanin Boniadi. Já tinha visto a moça em HOMELAND, mas não sabia de onde a conhecia. Direção: Anthony Maras. Ano: 2018.
E também há um diferencial na questão da vulnerabilidade. Stallone não é como Tom Cruise, por exemplo, que quer sempre sair bem na fita nos filmes de ação, com um ego gigante. Stallone parece não se importar, por exemplo, em aparecer levando uma surra de dezenas de homens e ficar no chão. Afinal, seu surgimento foi levando muita porrada no lindo ROCKY, UM LUTADOR.
John Rambo só quer ficar em paz, mas as pessoas não deixam. Isso, aliás, é basicamente o plot do pequeno clássico RAMBO - PROGRAMADO PARA MATAR (1982). Ele só queria curtir a sua solidão em paz. Em ATÉ O FIM ele aparece ainda mais pacífico, bem mais velho e morando com uma família formada por uma garota órfã de mãe e abandonada pelo pai biológico. Ele é o Tio John, mas é o mais próximo de um pai que a garota tem. Há também uma senhora mexicana que cuida da casa e funciona como uma espécie de mãe.
A garota, na ânsia de conhecer o pai biológico, vai parar no México, contra a vontade de John, e acaba sendo raptada e colocada em um grupo de mulheres forçadas a se prostituir. John Rambo vai até lá com o intuito de resgatá-la. E é com essa simplicidade de trama que se constrói RAMBO - ATÉ O FIM.
E dá-lhe cenas de violência gráfica explícita, que até há alguns anos poderia ser mais celebrada pelos fãs de filmes de ação e terror, mas que não parecem chocar a audiência dos dias de hoje. Mas o problema é mesmo a falta de uma melhor solução para a trama, que leva o personagem para o velho exército de um homem que não empolga e esfria o interesse pela vingança, esse elemento tão fácil de gerar a solidariedade do espectador. No mais, o filme poderia ter aproveitado melhor a personagem de Paz Vega, que parece saída de algum filme dos anos 70. Falta de sensibilidade e inteligência dos realizadores, nesse sentido? Talvez.
+ TRÊS FILMES
RAINHAS DO CRIME (The Kitchen)
Estreia na direção da roteirista Andrea Berloff. Não chega a ser um filme ruim, mas é meio problemático na incapacidade de trazer sentimentos de angústia e incômodo tanto pelas cenas violentas quanto pela mudança radical de vida das três mulheres, que passam a chefiar a máfia da Cozinha do Inferno depois que os três maridos são presos. O filme tem uma veia feminista forte e isso é um de seus méritos. Também gosto das três atrizes, mas sempre acho injusto quando surge uma Elisabeth Moss para humilhar as demais. Se bem que a Tiffany Haddish está ótima também. Podia ser algo melhor nas mãos de um bom diretor, talvez. Ano: 2019.
VELOZES & FURIOSOS - HOBBS & SHAW (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw)
No começo, este spin off da galinha dos ovos de ouro da Universal parece até ser bem bacana, com uma boa maneira de unir novamente os dois protagonistas que se odeiam para uma missão. Há um paralelismo bem interessante, assim como temos uma Vanessa Kirby pra lá de sensual e carismática. Mas depois o filme se estende por tempo demais e quando chega na parte de Samoa a gente quer que tudo termine. Outro problema desses filmes de ação sem muita novidade é que eles ficaram muito para trás depois do evento John Wick, pelo menos dentro do cinema ocidental contemporâneo. Também incomoda um pouco o modo como a franquia foi se distanciando da fisicalidade para ingressar em um pastiche de James Bond com toques de ficção científica no meio. E sem conseguir um resultado bacana com isso. Direção: David Leitch. Ano: 2019.
ATENTADO AO HOTEL TAJ MAHAL (Hotel Mumbai)
Interessante que aqui não temos a Índia colorida de O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD. A intenção é mesmo provocar um choque de contraste entre a extrema miséria das ruas de Mumbai e o luxo de cair o queixo do hotel onde se passa a história. É um thriller envolvente e eficiente feito por um diretor iniciante para longas. Os atores estão bem como heróis nascidos das circunstâncias; todo os cinco atores principais. E até os terroristas saem um pouco do preto no branco na cena da ligação de um deles para o pai. No fim, todos são vítimas. Atenção para a bela iraniana Nazanin Boniadi. Já tinha visto a moça em HOMELAND, mas não sabia de onde a conhecia. Direção: Anthony Maras. Ano: 2018.
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