segunda-feira, outubro 12, 2026

MORTE E VIDA MADALENA

 
Quanta diferença ver num dia SE EU FOSSE VOCÊ 3 e no outro rever MORTE E VIDA MADALENA (2025). Não se trata apenas de um dos filmes parecer vir de um esquema industrial e o outro ser um trabalho mais artesanal: há um abismo imenso do ponto de vista formal. Guto Parente é um grande cineasta e isso se percebe em cada enquadramento, em cada movimento de câmera, seja uma panorâmica, sejam as aproximações estranhas para o rosto da protagonista Madalena (Noá Bonoba, ELUSÃO).

MORTE E VIDA MADALENA é o 8½ cearense, é o A NOITE AMERICANA cearense. Inclusive, o filme de Fellini é citado explicitamente. Guto Parente tem deixado homenagens a seus heróis do cinema em seus trabalhos. No anterior ESTRANHO CAMINHO (2023), a menção a PICKPOCKET, de Robert Bresson, é mais ou menos explícita. O humor em MORTE E VIDA MADALENA é muito próprio, e muitas vezes pode se misturar com os sentimentos de dor e aflição de seus personagens. E esses sentimentos podem se misturar com a alegria, como na cena em que o grupo de filmagens canta junto “Porto Solidão”, de Jessé, num karaokê.

O humor aparece especialmente na presença de dois ótimos atores: o paraibano Tavinho Teixeira, no papel de um ator meio pirado que ganha a chance de dirigir o filme, e o baiano Marcus Curvelo, no papel de ex-marido de Madalena e diretor do filme – até determinado momento, pelo menos. Lembrando que tanto Teixeira quanto Curvelo são também cineastas de mão cheia, e sabem lidar com o humor com propriedade. Curvelo é mais conhecido por seus próprios e geniais trabalhos e é muito bom vê-lo se juntar à trupe de Parente. O senso de humor do filme é muito próprio e muitas vezes nos pegando rindo por causa de Tavinho Teixeira, que faz um ator que tem a oportunidade de ser diretor por alguns dias e faz muitas presepadas. O que dizer da filmagem interrompida por um paredão tocando forró na praça ao lado?

Uma das coisas que chama a atenção no filme é a textura de suas imagens. Apesar de ter sido realizado em formato digital, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo cria um visual sujo que simula filmes antigos em película, inclusive com a utilização deliberada de ruídos (de som e de imagem).

Na trama, Noá Bonoba é Madalena, uma produtora de cinema que procura materializar o projeto de um filme de ficção científica imaginado pelo pai recentemente falecido. Há a estranheza de ter aqui uma atriz trans no papel de uma mulher cis grávida, mas gosto da provocação. Madalena ainda vive o luto do pai e produz o filme numa cidadezinha do litoral do Ceará com uma equipe pequena. Pequena, mas carente do dinheiro, que o banco demora a liberar. Enquanto isso, Madalena sofre com as reclamações de parte da equipe, com o sumiço do diretor, com as presepadas de um dos atores, com o perigo de uma arma real no set. Há ainda lembranças traumáticas da infância, que surgem como alucinações, e isso acaba por aproximar mais este filme com ESTRANHO CAMINHO. E aí vemos o quanto Parente tem essa relação forte e interessante com o cinema de gênero. Já mostrou seu carinho pelos filmes de horror, fantasia e ficção científica em alguns belos exemplares: A MISTERIOSA MORTE DE PÉROLA (2014), O ESTRANHO CASO DE EZEQUIEL (2016) e o delicioso O CLUBE DOS CANIBAIS (2018).

Guto Parente é um diretor que trabalhou muito em esquema de colaboração, seja junto com o coletivo Alumbramento, seja em parceria com outros cineastas, sendo o mais recorrente Pedro Diógenes, com quem ele assinou INFERNINHO (2018), um de seus mais celebrados títulos. E o esquema colaborativo é o coração de MORTE E VIDA MADALENA (2025), que trata do amor pelo fazer cinema.

É também muito bonito ver a paixão do diretor pela realização fílmica nas cenas nos sets, até no que concerne às dificuldades financeiras, e ele faz isso com muito interesse em manter e explicitar o nosso sotaque cearense, deixando tudo mais autêntico e agradavelmente estranho e familiar. Diria que é um dos melhores filmes brasileiros lançados neste ano. De Parente, meu preferido ainda é o delicioso O CLUBE DOS CANIBAIS, mas este novo só cresce à medida que penso nele.

+ TRÊS FILMES

SE EU FOSSE VOCÊ 3

Na época do primeiro SE EU FOSSE VOCÊ (2006) eu nem quis ver no cinema, por puro preconceito. Depois vi e acabei gostando e admirando o trabalho de Daniel Filho na direção. Infelizmente este novo filme não conta com sua direção e ainda por cima só recicla a ideia dos anteriores. Não que se esperasse algo diferente. O que há de diferente aqui é passar o bastão de protagonismo para Cleo Pires e Rafael Infante, que trocam de corpos e vivem altas confusões. Infante é especialista em comédia e o filme acaba usando isso a seu favor, embora o tipo de humor seja um tanto ultrapassado, trabalhando os velhos estereótipos de masculinidade e feminilidade. Lembro que no início de minha cinefilia assisti a um filme de troca de corpos de gêneros diferentes que deve ter sido o que inspirou a “trilogia” brasileira. Trata-se de SWITCH – TROCARAM MEU SEXO, de Blake Edwards, um mestre da comédia. Dos exemplares mais recentes, acho bem divertido FREAKY – NO CORPO DE UM ASSASSINO, de Christopher Landon. Quanto ao novo SE EU FOSSE VOCÊ 3 (2026), dirigido por Anita Barbosa, é tão anódino que não chega a incomodar. Mesmo acreditando que há espaço para todo mundo, a comédia brasileira no cinema precisa se renovar.

NEM TODA HISTÓRIA DE AMOR ACABA EM MORTE

A ideia da gente era ver VIRTUOSAS, de Cíntia Domit Bittar, mas o filme só seria exibido no dia seguinte - com a confusão/correria dos dias atuais não prestei muita atenção. Ao chegarmos no Cinema do Dragão, estava sendo exibido no mesmo horário um filme pequeno, e, para nossa surpresa, muito simpático, além de ter um cuidado formal todo próprio e um tipo de dramaturgia que foge do naturalismo das telenovelas e que nem sempre, claro, é sinal de qualidade. NEM TODA HISTÓRIA DE AMOR ACABA EM MORTE (2025), de Bruno Costa, já causa estranheza de início, quando vemos que todo o filme é pensado para ser exibido para a acessibilidade de surdos, tanto com profissionais de libras nos cantos das telas, quanto legendas. Uma vez que percebemos a presença de uma personagem surda na trama, uma das três protagonistas, tudo passa a fazer sentido e fica muito mais interessante e mais fácil de abraçar a proposta. Na trama, Sol (Chiris Gomes), professora da educação infantil, dá fim ao casamento com Miguel (Octavio Camargo). Ela percebe que seu casamento acabou. Acaba conhecendo Lola (Gabriela Grigolom), mãe de uma aluna de Sol, surda, lésbica e artista performática. O interessante é que a história não abandona Miguel para se concentrar apenas nas duas mulheres, até porque ele é um personagem interessante como homem falido que depois do fim do casamento também procura mudar de vida. O filme tem momentos de humor bem eficientes e a locação em Curitiba também traz algo de diferente para os lugares a que estamos habituados. Bom filme que surge na Semana do Surdo, no chamado Setembro Azul, e o Cinema do Dragão tem trazido programações para esse movimento de inclusão social tão importante.

MINHA MELHOR AMIGA

Susana Garcia está fazendo um baita sucesso de público com este MINHA MELHOR AMIGA (2026). A diretora já havia conseguido êxitos gigantes de bilheteria com MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 (2019) e MINHA IRMÃ E EU (2023). Então, podem até falar mal de seus filmes (eu acho todos um barato), mas não de sua capacidade de unir tino comercial com o talento de atores para a comédia. A parceria que ela fez com Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, desta vez juntas, foi bem acertada e ainda mira num público 50+, um público hoje em dia bem presente nas salas de cinema, e que foi deixado de lado com frequência nas produções que miram o sucesso popular. O Brasil está envelhecendo, mas talvez esteja envelhecendo bem, em comparação com o Brasil de gerações passadas. Hoje é mais possível fazer um filme sobre duas mulheres da faixa dos 50 anos que resolvem viajar juntas para Portugal, paquerar, transar, uma vez que estão frustradas com seus momentos atuais de suas vidas (profissional, afetiva). A química das duas atrizes funciona muito bem e só não ri quem está de mal com a vida. Não sei se gosto tanto da parte dramática do filme, mas faz parte, é do jogo certo ar cafona nas comédias mais populares, e é possível relevar isso. Até porque o filme tem se comunicado muito bem com um grande público, principalmente o feminino e adulto. Ajuda falar com bom humor das alterações no corpo da mulher na perimenopausa. A cena do xixi ao som de David Bowie é bem engraçada. Além do mais, assim como em MINHA IRMÃ E EU, a fórmula do road movie com mulheres fazendo presepadas funciona mais uma vez. O filme ainda tem o mérito de criar uma liga boa para unir as esquetes, ou seja, as cenas de humor. A cena do check-in num hotel da Espanha é uma de minhas favoritas, talvez a que mais me arrancou gargalhadas. Ingrid Guimarães tentando falar espanhol é impagável. Além do mais, ainda é possível curtir as paisagens dos países da Península Ibérica, deixando na gente aquele gostinho de querer viajar também. E, como bom road movie, este também tem a função de mostrar a transformação da vida de suas personagens.

sexta-feira, outubro 02, 2026

DIGGER

 
Ainda não entendo a poética de Iñárritu. Nos primeiros filmes, a parceria com o roteirista Guillermo Arriaga fazia com que seus trabalhos tendessem a ser filmes sobre histórias cruzadas. Com a briga que durou décadas entre os dois, pudemos ver que o cineasta podia se apresentar de outra maneira, a partir de BIUTIFUL (2010). Depois ele dirigiria o que talvez seja o seu melhor trabalho, BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (2014) e depois faria o filme que daria o Oscar a Leonardo Di Caprio, o épico O REGRESSO (2015).

DIGGER (2026) é um filme que se aproxima mais de BIRDMAN, o que, de certa forma, me atrai. Mas sinto que minha relação com o filme poderia ter sido menos observacional, menos apática, melhor dizendo. Valorizo um diretor trabalhar em Hollywood e fazer um personagem que é a cara de Donald Trump e da estética tosca que o trumpismo trouxe. É também um filme que explicita o quanto a política estadunidense e de outros países alinhados com a extrema direita nega os problemas climáticos, preferindo extrair o máximo possível de petróleo, sem se importar com os riscos.

Gosto do Tom Cruise, e gosto de vê-lo dando um tempo novamente na carreira de astro de ação e voltando a buscar um papel oscarizável e trabalhando com um cineasta autoral. E se Tom Cruise uma vez já se esquivou de comentar sobre política, estar no elenco deste filme pode colocá-lo junto ao time de astros mais progressistas, por assim dizer. Se bem que, como diz o personagem de Jesse Plemons em determinado momento, o ator que interpreta na peça o velho branco que vive rodeado pelo alto escalão do poder executivo dos Estados Unidos traz algo de dignidade para aquele personagem, como se o entendesse. Não deixa de ser algo interessante, trazer algo de dúbio para o personagem, mas confesso que a mim é um personagem que nem fede nem cheira. E por isso não comprei a proposta e o resultado do filme.

A ambição de Iñárritu ao optar por um projeto grande como este, filmado em VistaVision, como O BRUTALISTA foi, e com Tom Cruise encabeçando um ótimo elenco, pode parecer autoindulgência, ainda mais quando não se compra a proposta, não se ri das piadas, não se acha o humor tão bom assim. Na sessão que estive, numa sala IMAX com poucas pessoas, havia uns dois gatos pingados que riam, e sei que não se trata aqui de uma comédia tradicional, e também sei que há piadas que podem ser “internas” para quem não está a par dos noticiários, não acompanha política e as questões climáticas; mas nem a brincadeira metalinguística me comprou, embora eu admire as mudanças de tom de Tom Cruise quando interpreta os dois personagens. O homem é bom, de fato. Enfim, acredito que DIGGER deva ser visto, sim, até porque cada pessoa assiste a um filme diferente. E que bom.

+ TRÊS FILMES

A ESPOSA DE TCHAIKOVSKI (Zhena Chaikovskogo)

Só soube hoje que esta trágica história de amor não correspondido entre o gênio da música Tchaikovsky e uma mulher profunda e doentiamente apaixonada por ele ganhou também um filme dirigido por Ken Russell em 1971, o mesmo ano que ele dirigiu a obra-prima OS DEMÔNIOS. Imagino que a versão de Russell deva focar mais no ponto de vista do músico. Kirill Serebrennikov, diretor do ótimo VERÃO (2018), conta aqui a triste história de Antonina Miliukova, vivida com brilho por Alyona Mikhaylova. A jovem se apaixona pelo músico e tem como projeto de vida convencê-lo de que ela é a mulher com quem ele deve se casar. Ela não sabia que o compositor tinha preferência sexual por homens e o filme não deixa explícito no início. Aos poucos, o casamento sem sexo acaba se tornando um tormento maior até para o próprio compositor, que não conseguia ter relações com a esposa. Ela, por sua vez, se humilha até não poder mais, embora sua humilhação possa também ser confundida com coragem e ousadia. O trabalho de direção é caprichado e muitas imagens parecem pinturas da época, com um uso lindíssimo e muito bem-aproveitado da janela scope. O filme foi proibido na Rússia, por mostrar um herói do país como ele realmente era: um homem gay, além de destacar também o submundo dos “invertidos” de maneira ousada para uma produção russa. Há também um olhar queer interessante e um olhar sensível também à viagem aos infernos dessa mulher.

ELA E EU

Belíssimo elenco lidando com uma situação complexa neste ELA E EU (2021), de Gustavo Rosa de Moura. Até achei que a história teria sido adaptação de algum romance, mas, na verdade, a ideia veio de três mulheres: Luisa Arraes, Andrea Beltrão e Larissa Kurata, sendo que apenas essa última é mais conhecida como roteirista. Fiquei imaginando como pode ter sido criado o roteiro, com várias ideias surgindo a partir das situações. A principal situação: mulher (Andrea Beltrão) entra em coma por 20 anos depois de dar a luz. Quando acorda do coma, ainda vive na mesma casa com o marido, mas agora esse homem vive com outra mulher. E ela vai acordando e melhorando aos poucos, como alguém que se recupera de um AVC. Alguns temas familiares são tocados, como o namoro da personagem de Jéssica Ellen, ou a relação de afeto da família com a empregada doméstica (Karine Teles), que inicia uma amizade mais próxima com a personagem de Beltrão. Por outro lado, é interessante também ver como a relação do casal Eduardo Moscovis-Mariana Lima se complica depois que a esposa comatosa acorda e deixa de ser aquela figura quase vegetal para ser uma pessoa participante, complexa e interessante.

MICHAEL

A primeira cinebiografia de Michael Jackson está fazendo um sucesso popular imenso. Salas lotadas desde os dias de pré-estreia. E a gente entende o motivo: pessoas de todas as idades gostam do Rei do Pop. Este filme vai dos primeiros ensaios do pequeno Michael, ainda criança com seus irmãos do Jackson 5, até o início da turnê de Bad (1987), o álbum que se seguiu ao estrondoso sucesso de Thriller (1982). MICHAEL (2026), o filme dirigido por Antoine Fuqua (DIA DE TREINAMENTO, 2001), foca especialmente na carreira do cantor, em sua criatividade, sua solidão, sua vontade de preservar o mistério de sua intimidade, e principalmente de seu embate com o pai, uma figura essencial para sua formação, mas pessoa que trouxe toxicidade, traumas que repercutiram na insegurança e no medo do cantor, que buscou ajuda para se livrar dessa figura paterna, mesmo com dificuldade. É interessante que já é o terceiro filme recente de cantores que vejo a figura paterna como figuras no mínimo complicadas: aconteceu em NOSSO SONHO e HOMEM COM H, mas nada tão danoso quanto a figura de Joe, vivido aqui por Colman Domingo. Sua presença é tão desagradável que basta ele sair de cena para o filme ficar mais leve, especialmente quando acompanhamos com prazer a música de Michael Jackson e sua genialidade. Destaque para quando vemos a construção de um projeto tão ambicioso quanto Thriller, que rendeu três ótimos videoclipes, um deles um curta-metragem dirigido por John Landis (UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES), uma homenagem de Michael a vários filmes de terror clássicos. Também achei muito curioso ver a ajuda que ele pede a membros de gangues, para compor o videoclipe de “Beat It”, um exemplo clássico, aliás, de representação de um cara durão, uma forma de esconder suas fragilidades e seu complexo de Peter Pan. Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, está bem como o astro na fase adulta. Ele consegue passar tanto seu talento nas coreografias quanto os momentos de tristeza do personagem, especialmente quando ele se vê diante da dificuldade de sair de casa, mesmo já sendo um homem milionário e famoso, um exemplo clássico de prisão numa família disfuncional disfarçada de família feliz. A montagem é boa e mal sentimos o tempo passar. Poderia ser mais ambicioso como cinema, mas não creio que fosse essa a preocupação dos produtores e até da própria família do cantor, que, dizem, interferiu bastante no projeto. O resultado foi muito melhor do que eu imaginava.