Ainda não entendo a poética de Iñárritu. Nos primeiros filmes, a parceria com o roteirista Guillermo Arriaga fazia com que seus trabalhos tendessem a ser filmes sobre histórias cruzadas. Com a briga que durou décadas entre os dois, pudemos ver que o cineasta podia se apresentar de outra maneira, a partir de BIUTIFUL (2010). Depois ele dirigiria o que talvez seja o seu melhor trabalho, BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (2014) e depois faria o filme que daria o Oscar a Leonardo Di Caprio, o épico O REGRESSO (2015).
DIGGER (2026) é um filme que se aproxima mais de BIRDMAN, o que, de certa forma, me atrai. Mas sinto que minha relação com o filme poderia ter sido menos observacional, menos apática, mentir dizendo. Valorizo um diretor trabalhar em Hollywood e fazer um personagem que é a cara de Donald Trump e da estética tosca que o trumpismo trouxe. É também um filme que explicita o quanto a política estadunidense e de outros países alinhados com a extrema direita nega os problemas climáticos, preferindo extrair o máximo possível de petróleo, sem se importar com os riscos.
Gosto do Tom Cruise, e gosto de vê-lo dando um tempo novamente na carreira de astro de ação e voltando a buscar um papel oscarizável e trabalhando com um cineasta autoral. E se Tom Cruise uma vez já se esquivou de comentar sobre política, estar no elenco deste filme pode colocá-lo junto ao time de astros mais progressistas, por assim dizer. Se bem que, como diz o personagem de Jesse Plemons em determinado momento, o ator que interpreta na peça o velho branco que vive rodeado pelo alto escalão do poder executivo dos Estados Unidos traz algo de dignidade para aquele personagem, como se o entendesse. Não deixa de ser algo interessante, trazer algo de dúbio para o personagem, mas confesso que a mim é um personagem que nem fede nem cheira. E por isso não comprei a proposta e o resultado do filme.
A ambição de Iñárritu ao optar por um projeto grande como este, filmado em VistaVision, como O BRUTALISTA foi, e com Tom Cruise encabeçando um ótimo elenco, pode parecer autoindulgência, ainda mais quando não se compra a proposta, não se ri das piadas, não se acha o humor tão bom assim. Na sessão que estive, numa sala IMAX com poucas pessoas, havia uns dois gatos pingados que riam, e sei que não se trata aqui de uma comédia tradicional, e também sei que há piadas que podem ser “internas” para quem não está a par dos noticiários, não acompanha política e as questões climáticas; mas nem a brincadeira metalinguística me comprou, embora eu admire as mudanças de tom de Tom Cruise quando interpreta os dois personagens. O homem é bom, de fato. Enfim, acredito que DIGGER deva ser visto, sim, até porque cada pessoa assiste a um filme diferente. E que bom.
+ TRÊS FILMES
A ESPOSA DE TCHAIKOVSKI (Zhena Chaikovskogo)
Só soube hoje que esta trágica história de amor não correspondido entre o gênio da música Tchaikovsky e uma mulher profundamente e doentiamente apaixonada por ele ganhou também um filme dirigido por Ken Russell em 1971, mesmo ano que ele dirigiu a obra-prima OS DEMÔNIOS. Imagino que a versão de Russell deva focar mais no ponto de vista do músico. Kirill Serebrennikov, diretor do ótimo VERÃO (2018), conta aqui a triste história de Antonina Miliukova, vivida com brilho por Alyona Mikhaylova. A jovem se apaixona pelo músico e tem como projeto de vida convencê-lo de que ela é a mulher com quem ele deve se casar. Ela não sabia que o compositor tinha preferência sexual por homens e o filme não deixa explícito no início. Aos poucos, o casamento sem sexo acaba se tornando um tormento maior até para o próprio compositor, que não conseguia ter relações com a esposa. Ela, por sua vez, se humilha até não poder mais, embora sua humilhação possa também ser confundida com coragem e ousadia. O trabalho de direção é caprichado e muitas imagens parecem pinturas da época, com um uso lindíssimo e muito bem-aproveitado da janela scope. O filme foi proibido na Rússia, por mostrar um herói do país como ele realmente era: um homem gay, além de destacar também o submundo dos “invertidos” de maneira ousada para uma produção russa. Há também um olhar queer interessante e um olhar sensível também à viagem aos infernos dessa mulher.
ELA E EU
Belíssimo elenco lidando com uma situação complexa neste ELA E EU (2021), de Gustavo Rosa de Moura. Até achei que a história teria sido adaptação de algum romance, mas, na verdade, a ideia veio de três mulheres: Luisa Arraes, Andrea Beltrão e Larissa Kurata, sendo que apenas essa última é mais conhecida como roteirista. Fiquei imaginando como pode ter sido criado o roteiro, com várias ideias surgindo a partir das situações. A principal situação: mulher (Andrea Beltrão) entra em coma por 20 anos depois de dar a luz. Quando acorda do coma, ainda vive na mesma casa com o marido, mas agora esse homem vive com outra mulher. E ela vai acordando e melhorando aos poucos, como alguém que se recupera de um AVC. Alguns temas familiares são tocados, como o namoro da personagem de Jéssica Ellen, ou a relação de afeto da família com a empregada doméstica (Karine Teles), que inicia uma amizade mais próxima com a personagem de Beltrão. Por outro lado, é interessante também ver como a relação do casal Eduardo Moscovis-Mariana Lima se complica depois que a esposa comatosa acorda e deixa de ser aquela figura quase vegetal para ser uma pessoa participante, complexa e interessante.
MICHAEL
A primeira cinebiografia de Michael Jackson está fazendo um sucesso popular imenso. Salas lotadas desde os dias de pré-estreia. E a gente entende o motivo: pessoas de todas as idades gostam do Rei do Pop. Este filme vai dos primeiros ensaios do pequeno Michael, ainda criança com seus irmãos do Jackson 5, até o início da turnê de Bad (1987), o álbum que se seguiu ao estrondoso sucesso de Thriller (1982). MICHAEL (2026), o filme dirigido por Antoine Fuqua (DIA DE TREINAMENTO, 2001), foca especialmente na carreira do cantor, em sua criatividade, sua solidão, sua vontade de preservar o mistério de sua intimidade, e principalmente de seu embate com o pai, uma figura essencial para sua formação, mas pessoa que trouxe toxicidade, traumas que repercutiram na insegurança e no medo do cantor, que buscou ajuda para se livrar dessa figura paterna, mesmo com dificuldade. É interessante que já é o terceiro filme recente de cantores que vejo a figura paterna como figuras no mínimo complicadas: aconteceu em NOSSO SONHO e HOMEM COM H, mas nada tão danoso quanto a figura de Joe, vivido aqui por Colman Domingo. Sua presença é tão desagradável que basta ele sair de cena para o filme ficar mais leve, especialmente quando acompanhamos com prazer a música de Michael Jackson e sua genialidade. Destaque para quando vemos a construção de um projeto tão ambicioso quanto Thriller, que rendeu três ótimos videoclipes, um deles um curta-metragem dirigido por John Landis (UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES), uma homenagem de Michael a vários filmes de terror clássicos. Também achei muito curioso ver a ajuda que ele pede a membros de gangues, para compor o videoclipe de “Beat It”, um exemplo clássico, aliás, de representação de um cara durão, uma forma de esconder suas fragilidades e seu complexo de Peter Pan. Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, está bem como o astro na fase adulta. Ele consegue passar tanto seu talento nas coreografias quanto os momentos de tristeza do personagem, especialmente quando ele se vê diante da dificuldade de sair de casa, mesmo já sendo um homem milionário e famoso, um exemplo clássico de prisão numa família disfuncional disfarçada de família feliz. A montagem é boa e mal sentimos o tempo passar. Poderia ser mais ambicioso como cinema, mas não creio que fosse essa a preocupação dos produtores e até da própria família do cantor, que, dizem, interferiu bastante no projeto. O resultado foi muito melhor do que eu imaginava.