quinta-feira, maio 14, 2020

M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (Eine Stadt Sucht Einen Mörder)

Como ainda não tenho tanta intimidade com o cinema de Fritz Lang, acabo ficando um pouco intimidado para escrever a respeito, ainda mais em se tratando de uma obra tão grandiosa quanto M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931). Mas tentarei falar um pouco de algumas impressões que tive. A intenção é ver mais obras de Lang (quase todas), a fim de preencher as enormes lacunas.

O que mais me chamou a atenção nesta revisão de M foi o uso do som. Até dei uma "googlada" em alguns textos e vi que há alguns estudos imensos sobre a abordagem do som neste filme em particular, que foi, sim, revolucionária. Afinal, quando falamos de filmes do início dos anos 1930, sentimos aquele problema de um uso do som ainda um tanto deficiente, já que era um momento de transição. Lang, ainda por cima, fez do som um elemento fundamental para a narrativa, já que o assassino (Peter Lorre) está sempre assobiando quando se aproxima de uma de suas vítimas, sempre uma criança.

A ideia para o filme veio através de discussões entre Lang e sua então esposa Thea von Harbou, que co-assinou o roteiro junto com o diretor. Na discussão, eles se perguntavam qual seria o crime mais bárbaro, mais repugnante para ser abordado em seu futuro filme. E a partir dessa discussão veio o consenso de fazer um filme sobre um assassino de crianças. Não apenas um assassino, mas também um estuprador, o que é algo ainda mais terrível.

E para não ficar apenas nas estatísticas e na informação em si, o filme já começa mostrando a situação de desespero de uma mãe, que prepara a mesa para sua filha, que estava voltando da escola. Infelizmente, a pequena Elsie não volta. Ela é a nova vítima do maníaco. A primeira aparição do assassino é também bem memorável, com utilização de uma sombra sobre um cartaz que oferece recompensa para a captura do monstro.

Outra coisa que chama a atenção em M é o quanto os personagens principais demoram a se destacar, já que a narrativa nos apresenta a muitas pessoas comuns lidando com a situação, seja se revoltando em conversas em bares, seja confundindo homens inocentes na rua, seja se preparando para uma caçada coletiva ao assassino - sensacional a formação conjunta de mendigos nas ruas como espiões para a caçada. Destaque também para a montagem de cenas que mostram a mobilização tanto da polícia, quanto da organização criminosa, que estava se sentindo prejudicada em seus negócios e percebe que precisaria juntar forças para apanhar o assassino também.

Um dos aspectos mais curiosos de M está no fato de que, uma vez que conhecemos mais de perto o assassino, através daquele monólogo antológico, quando ele enfrenta um julgamento popular no submundo do crime, é que ele não se vê como a pior pessoa do mundo. Afinal, ele não consegue domar o demônio interior que o força a cometer os assassinatos, enquanto que a maioria das pessoas age conscientemente do mal que estão fazendo. É uma ousadia e tanto para um filme, algo que muito dificilmente seria aceito se M fosse rodado em Hollywood.

E há essa ligação de Lang, essa aproximação dele com o criminoso, talvez por ele também carregar algum tipo de culpa. Ele mesmo, que foi chamado de assassino depois que sua esposa anterior cometeu suicídio após flagrá-lo na cama com a então amante Thea von Harbou. Durante algum tempo, Lang foi suspeito de assassinato da esposa. E o filme também nos dá um final aberto, o que o deixa ainda mais intenso, com a visão das três mães.

As novas cópias disponíveis acentuam a beleza da fotografia de Fritz Arno Wagner, que tem em seu currículo obras como NOSFERATU, de F.W. Murnau, e um trabalho anterior de Lang, OS ESPIÕES (1928). No elenco, além de Lorre, brilham também Gustav Gründgens, que faz o rei do crime de luvas pretas, e Otto Wernicke, no papel do inspetor Karl 'Fatty' Lohmann.

+ TRÊS FILMES

A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built)

Dos melhores trabalhos do Lars von Trier, este filme sobre a psicopatia de um homem tem muita semelhança com o trabalho anterior do diretor. Se antes era o sexo o tema, agora é a violência, mas ambos os filmes trazem co-narradores que dialogam com o protagonista em sua história de declínio espiritual. Há pelo menos uma cena bem barra pesada, mas o que me encantou foi mesmo a sequência final. Como aconteceu com ANTICRISTO (2009), é filme para ficar pensando a respeito bastante.

O ANIMAL CORDIAL

Eu não esperava encontrar um dos filmes mais incômodos que eu já vi neste primeiro longa-metragem de Gabriela Amaral Almeida, que já tinha uma bem-sucedida carreira de curtas. Adoro A MÃO QUE AFAGA (2012) e principalmente ESTÁTUA! (2014). Então, a gente já sabia de seu gosto e interesse pelo filme de gênero, e o quanto de valioso ela ia adicionar ao nosso cinema. O que me surpreendeu foi o modo como ela mostrou a violência não como algo fascinante, como em um filme do Peckinpah, do Tarantino ou do Scorsese, mas como um sentimento extremamente perturbador mesmo. E ainda tratar de questões sociais, como as relações entre empregada e patrão, de preconceito etc. Ano: 2017.

CUSTÓDIA (Jusqu'à la Garde)

Tendo a Supo Mungam Films já deu pra notar que estávamos diante de um filme diferente do que normalmente se vê no Festival Varilux. E que bom. CUSTÓDIA é tenso desde o começo, mas essa tensão vai crescendo. Arriscado dizer que pessoas muito sensíveis podem achar o filme muito pesado, psicologicamente. Destaque para os planos mais longos. Direção: Xavier Legrand. Ano: 2017.

quarta-feira, maio 13, 2020

AMANTES (Two Lovers)

Não estava nos meus planos rever AMANTES (2008), de James Gray, tão cedo. Mas o pessoal do Cinema na Varanda fez uma votação entre os leitores para discussão no quadro "Cinemateca da Varanda" e este filme acabou ganhando de outros três. Eu mesmo votei em AMANTES para rever, inclusive. E ouvir a discussão da turma foi o que mais me incentivou a escrever sobre o filme hoje. Ia deixar para amanhã ou outro dia. Durante a discussão, alguns membros, principalmente Tiago Faria, comentaram sobre o quanto a percepção sobre a obra mudou em relação à primeira vez que viram o filme, na época em que ele foi lançado nos cinemas. Eu também tive essa percepção bem distinta.

Quando vi o filme nos cinemas, eu estava apaixonado. Muito em sintonia com o sentimento confuso de Leonard, o personagem de Joaquin Phoenix. Se não me engano, eu sequer percebi o quanto a vizinha Michelle, vivida por Gwyneth Paltrow, não estava mesmo dando bola para o protagonista. Só porque a loira foi simpática e afetuosa com ele não quer dizer que ele tivesse tanta chance. Enquanto que o relacionamento mais certo porém sem paixão com a personagem Sandra (Vinessa Shaw), a morena, se tornava menos interessante, talvez justamente por isso. Claro que tem a questão da beleza e de certa atratividade com o fato de a loira ser uma garota cheia de problemas; isso tudo conta pontos na cabeça de pessoas mais românticas. E por românticas falo de pessoas que têm um pé nos excessos e até mesmo na morbidez.

Fui reler o que escrevi sobre o filme em 2009 sob os efeitos da paixão e achei interessante o quanto consegui ainda ser razoavelmente racional mesmo estando em uma situação de embriaguez emocional e dor no peito (ou algo parecido). De todo modo, com o distanciamento e com o coração livre de hoje (por assim dizer), percebo o quanto Leonard se deixa levar pela fantasia de querer jogar tudo para cima e fugir com a mulher amada (o que quase acontece), e o quanto ele podia estar perdendo uma chance de ouro ao ter ao lado de si uma pessoa tão carinhosa e especial como Sandra.

Outro aspecto que poderia ser levado em consideração seria o quanto a família representava uma espécie de prisão para Leonard, não apenas por tentar procurar ajudá-lo, até mesmo apontando uma namorada para ele, mas também por não dar o devido espaço ao rapaz para que ele pudesse agir de maneira mais livre, por mais que seu transtorno bipolar e seu comportamento suicida fossem sim motivos de preocupação. Agora, vendo o filme, eu entendo o quanto essa família também é extremamente amorosa, tanto a mãe, quanto o pai. E o pessoal da Varanda lembra, de maneira feliz, da cena da escada, do abraço, com Isabella Rossellini simbolizando a matriarca que deseja o melhor para o filho.

Mas AMANTES não seria tão especial se não fosse tão rico como cinema. Passei boa parte do texto falando sobre a minha relação de identificação e empatia com os personagens e não falei no quanto James Gray foi fantástico ao dirigir certas cenas. As duas cenas no terraço do prédio se passam com pouca iluminação, uma delas quando o sol ainda estava nascendo. Essa ambientação traz um sentimento muito especial para aquela situação de desejo intenso de Leonard por Michelle. E também representativo de um estado de espírito mais nebuloso. Há também uma cena de tempestade, quando Leonard recebe uma ligação de Michelle precisando de ajuda: ela acabara de sofrer um aborto espontâneo.

Enquanto isso, as cenas com Sandra são agradáveis e impregnadas de um tipo de paz interior, ainda que essa paz seja pouco valorizada por Leonard, figura tão mais interessada em explosões de sentimentos, tão mais atraído pelas paixões, por mais que ele entenda que paixão também significa sofrimento. Em determinado momento do filme ele diz para Michelle: eu sei o que é amor, eu já amei alguém. E, de fato, Michelle pode ter provocado uma vontade de viver que estivesse faltando na vida do rapaz. Sei disso também por experiência própria, inclusive, agradecendo a uma moça que não me quis lá por 2007, mas que trouxe de volta esse sentimento intenso novamente.

AMANTES é uma prova de que o amor e o cinema sempre andam de mãos dadas. E essa confusão de sentimentos, de pensamentos, de dualidades, de ambiguidades que um filme como este é capaz de trazer só reforça essa união.

+ TRÊS FILMES

EMA

Eu costumo me irritar, por um motivo ou outro, com os filmes do Pablo Larraín. Por isso que fiquei tão surpreso ao ter adorado JACKIE (2016), sua experiência em cinema de língua inglesa. Aqui, de volta ao seu país, ele novamente nos apresenta a uma mulher que vive um turbilhão de emoções e tribulações. Ela e o marido devolveram para adoção a criança que eles tinham como filho, depois de algumas presepadas pesadas do menino. Junta o sentimento de culpa com o julgamento da sociedade. E depois uma busca criativa de redenção de Ema. Mariana Di Girolamo é sim uma mulher atraente, especialmente quando olha nos olhos daquelas pessoas a quem quer seduzir; mas às vezes parece que o filme não consegue fazer com que nos apaixonemos por ela, talvez pela busca do diretor por um cinema tão focado na forma que o sentimento acaba sendo prejudicado. E o que é aquele aviso de sexo explícito no início do filme? Se tem, eu não vi. Ano: 2019.

YESTERDAY

Uma ode aos Beatles, à genialidade desses caras que mudaram o mundo. O ponto de partida do filme por si só já é muito atraente e confere um monte de situações divertidas. Só não achei que funcionou como química a questão do romance entre o protagonista e a bela amiga vivida por Lily James. Acredito que o filme foi apressado em muitos aspectos, inclusive em não fornecer uma base maior e melhor para a construção do sentimento entre os dois. Isso o tornaria tão mágico quanto outros clássicos roteirizados por Richard Curtis. E com as canções dos Beatles, então, teria sido ainda mais mágico. Mas não há muito o que reclamar além disso. O filme é uma delícia de ver e mais uma vez pensamos no quanto o quarteto de Liverpool foi fantástico em criar um conjunto de canções tão impressionante em um espaço de tempo tão curto. Nenhuma outra banda faria algo igual. Direção: Danny Boyle. Ano: 2019.

ENTRE TEMPOS (Ricordi?)

Segundo filme italiano seguido que me faz renovar a esperança num reerguimento da cinematografia do país. É um filme que exige um pouquinho mais do espectador. A montagem é um tanto recortada, lembrando os primeiros filmes de Alain Resnais, embora em alguns momentos também lembre Khouri. É um filme sobre a memória na vida de um homem e uma mulher que se conhecem e se apaixonam. As memórias, como lhe são características, não obedecem muito bem uma linha cronológica. Mas mesmo tendo algum vai e vem, ENTRE TEMPOS é um filme que segue uma linha do presente para o futuro, tendo o passado como um tanto borrado. Gosto muito das digressões dos personagens sobre o tempo e sobre a memória. Nos faz pensar no quanto cada momento acaba se tornando algo muito pouco palpável, mesmo quando estamos apreciando o momento presente. Direção: Valerio Mieli. Ano: 2018.

terça-feira, maio 12, 2020

CUJO

Quando eu era criança (ou pré-adolescente) via e revia nas sessões noturnas na televisão um filme sobre um cachorro demoníaco que assombra uma família suburbana chamado CÃO DO DIABO, dirigido por Curtis Harrington. Na época, eu não era um cinéfilo e nem assistia a todos os tipos de filmes. Mas sentia uma atração por filmes de horror e este filme talvez tenha sido o primeiro a me aproximar do gênero. Lembro que eu e minha irmã ficávamos assistindo e nossos pais insistindo para que fôssemos dormir logo, pois estava tarde.

A lembrança disso veio recentemente, quando tive a oportunidade de ver CUJO (1983), de Lewis Teague, que surgiu no cardápio da Netflix recentemente, e em ótima qualidade de imagem e som. O filme é inacreditável como um exemplar de tensão crescente e de como uma ideia aparentemente ridícula - um amigável cão S. Benardo é mordido por morcegos e passa a matar as pessoas em sua volta - pode resultar em um filme mais do que eficiente.

Na verdade, a ideia vem de um romance de Stephen King. Desde que Brian De Palma levou CARRIE  - A ESTRANHA para o cinema, no final da década de 1970, o número de obras do escritor adaptadas para as telas cresceu muito. Só no ano de 1983, além de CUJO, tivemos dois filmes de diretores consagrados adaptados do romancista best-seller: NA HORA DA ZONA MORTA, de David Cronenberg, e CHRISTINE - O CARRO ASSASSINO, de John Carpenter. Ou seja, King era mestre em pegar ideias aparentemente fora dos padrões da realidade mais pé no chão e transformá-las em algo realmente assustador.

A fim de dar suporte ao suspense e ao terror que tomariam a segunda metade do filme, a narrativa de CUJO nos aproxima de uma família que está passando por problemas derivados de um caso extraconjugal. A esposa, vivida pela bela Dee Wallace (que havia trabalhado em E.T. - O EXTRATERRESTRE, de Steven Spielberg), está preocupada com seu casamento, por estar indo pra cama com outro homem que mora nas proximidades e que inclusive frequenta sua casa. Com sentimento de culpa, até por perceber o quanto seu marido (Daniel Hugh-Kelly, veterano de telenovelas americanas) é carinhoso consigo e com o filho pequeno, ela está prestes a encerrar a relação.

Em paralelo, vamos acompanhando a evolução do cão Cujo, o S. Bernardo do título, que aos poucos vai sendo dominado pela raiva, a ponto de atacar e matar o próprio dono. Toda essa preparação é necessária para que nos importemos com os personagens, especialmente a mulher e o filho. Aliás, o menino (Danny Pintauro) entrega uma interpretação tão impressionante que fiquei me perguntando qual teria sido o método para a atuação, e se ele não teria ficado, de alguma maneira, traumatizado após as filmagens.

Lewis Teague dá um show de direção nas cenas de ataque do cachorro ao carro, inclusive com tomadas que mostram o interior do veículo por todos os lados, acentuando uma situação de se estar acuado. E de aproximar o espectador do medo que aquela mulher e aquele garotinho de seis anos estão passando.

Há algo de bastante moralista na trajetória de sofrimento da mulher. Afinal, ela tinha cometido adultério. Esse tipo de coisa era bastante comum nos filmes de horror da década de 1980, especialmente os slashers, mas depois fiquei me perguntando se também era comum na literatura de horror, já que Stephen King foi o grande idealizador de tudo. Isso não sei responder, mas com certeza não tira em nada o mérito do filme. Apenas traz à tona um tipo de pensamento que pode representar uma espécie de "verdade" aceita pela sociedade da época.

+ TRÊS FILMES

MEGATUBARÃO (The Meg)

Como diversão despretensiosa com cara de filme B, mas com orçamento de filme A, e momentos absurdos, é um filme até bem legal. Embora a gente saiba que vai esquecer dele em questão de dias. Ou será que não? No mais, efeitos bons, elenco internacional bem legal (gostei muito da atriz Bingbing Li, lindíssima) e o Rainn Wilson será o eterno Dwight. Jason Stathan convence como grande herói em registro de humor. Direção: Jon Turteltaub. Ano: 2018.

ILHA DOS CACHORROS (Isle of Dogs)

Não sou exatamente um fã de Wes Anderson, mas é sempre um prazer visual poder ver a perfeição com que ele situa seus personagens. Há espaço para a melancolia, mas interessante como isso nunca chegou a me comover. Talvez porque esse elemento é mostrado de uma maneira tão singular. O lance das vozes de atores e atrizes famosos na animação é outro ponto muito positivo. Ano: 2018.

PERIGO PRÓXIMO (Better Watch Out)

Bela surpresa, tanto por ser um filme que passaria batido por mim se não fosse a dica de um amigo, quanto pelo próprio plot em si. É melhor ver sem saber nada a respeito. Na trama, uma noite antes do Natal, casal sai e deixa seu filho de 12 anos com uma jovem babá (Olivia DeJonge), afinal a casa da família fica numa rua calma de subúrbio, num bairro considerado seguro. O menino logo tenta conquistar o amor da babá até que eles se deparam com estranhos invadindo a casa. Direção: Chris Peckover. Ano: 2016.

segunda-feira, maio 11, 2020

MARIA (Mary)

Ontem, ao terminar de ver MARIA (2005), escrevi umas palavras que hoje já não me representam tanto assim. O que eu disse foi: "Quando a gente começa a amar os filmes de Ferrara, até obras menores e consideradas imperfeitas como MARIA se revestem de uma profundidade e de uma relevância impressionantes." Após passadas algumas horas e tendo lido alguns textos fantásticos sobre o filme, só percebo que, assim como outros trabalhos dele imediatamente anteriores, uma revisão imediata deste trabalho de Abel Ferrara só faria bem e o engrandeceria ainda mais. E que este filme não é em nada uma de suas obras menores.

MARIA parece ser diferente dos outros trabalhos do diretor, pois aqui não temos sequer personagens que transitam pelo mundo da criminalidade, embora possamos ver o personagem de Forest Whitaker como um jornalista de poucos escrúpulos que lembra um dos vampiros dos filmes de Ferrara, ou o próprio diretor do filme dentro do filme ("This Is My Blood" é o título), vivido por Mathew Modine, como um sujeito arrogante, mas que, ao representar o próprio Ferrara, também tem a qualidade de defender o próprio filme, inclusive com uma arma na mão, sozinho na sala de cinema.

E há o terceiro ponto do triângulo de protagonistas, talvez o ponto que fica mais acima dos outros, que é Marie, a personagem de Juliette Binoche. Marie, uma vez que interpreta Maria Madalena no filme de Tony (Modine), resolve largar tudo e ir para Jerusalém, em busca de Cristo e de si mesma. Ou das duas coisas. A compreensão de sua atitude acontece aos poucos no filme. A princípio parece uma atitude de loucura, depois como a representação do caminho - ou o próprio caminho - para a salvação.

No caso, falamos da salvação em especial da esposa e do filho do personagem de Whitaker. Desesperado, ele tem apenas Marie como uma pessoa que poderia trazer-lhe uma orientação para a salvação almejada. Ao trair a esposa (Heather Graham) para ir para a cama com uma amiga de Marie, vivida por Marion Cotillard (que no IMDB curiosamente aparece creditada como Gretchen Mol, ainda que nos créditos do filme seja apenas Gretchen), e acarretar o nascimento prematuro de seu filho, o jornalista se vê consumido pela culpa, mas sua escolha é a busca pela religião como resolução de seus problemas.

MARIA é um filme sobre fé feito de uma maneira diferente do que Ferrara vinha fazendo até então. Há menos veneno e mais fervor religioso, dentro do que se pode esperar do cineasta, com a fé vista como uma espécie de energia em que as pessoas se atiram cegamente, como se correndo dentro de um nevoeiro, seja pela certeza de encontrar o caminho da verdade (Binoche), seja pelo desespero (Whitaker).

Há outros aspectos muito interessantes em MARIA, como a discussão sobre a natureza de Jesus a partir de evangelhos apócrifos encontrados no século XX e que trazem novas visões sobre Cristo, Maria Madalena e toda a mitologia envolvendo a história da cristandade. Alguns teólogos célebres são convidados para o debate e aparecem para a discussão no programa sobre a vida e a morte de Jesus. Daí a necessidade de se ver mais vezes ou com mais atenção os filmes de Ferrara: se em O VÍCIO (1995), a filosofia trazia ainda mais profundidade para a narrativa dos vampiros, em MARIA, as discussões teológicas surgem como outro elemento enriquecedor, principalmente levando em consideração que o catolicismo sempre esteve presente na obra do cineasta.

+ TRÊS FILMES

CARAVAGGIO - A ALMA E O SANGUE (Caravaggio - L'Anima e il Sangue)

Impressionante como filmes sobre pintores ilustres lotam as salas de cinema alternativos. E quase sempre as pessoas acham os filmes ótimos. Eu quase sempre acho-os suspeitos. Este CARAVAGGIO é desses documentários modorrentos, que fazem da vida intensa de um artista algo pouco atraente até. E mesmo as descrições das obras são incômodas, quando tentam de início mostrar um pedaço da obra, deixando-me querendo ver o todo. A voz do narrador me deu sono e tudo. O filme até tenta ser algo diferente de um documentário para a TV, mas creio que se fosse estilo doc para TV seria sim mais interessante. Direção: Jesus Garces Lambert. Ano: 2018.

UMA RAZÃO PARA VIVER (Breathe)

Belo melodrama baseado na história real de um homem com uma vida extraordinária, marcada por um imenso obstáculo. Não sei se gosto da interpretação do Garfield em geral, mas neste filme ele está mais convincente que no drama do Mel Gibson. E Claire Foy aos poucos vai se tornando apaixonante. A janela do filme é larga, como a de OS OITO ODIADOS. Não por acaso é o mesmo diretor de fotografia, Robert Richardson. Pena que no Iguatemi não aproveitaram os lados da tela toda para a exibição. E eu, que cheguei atrasado, não quis ir sair pra reclamar e perder mais ainda. Direção: Andy Serkis. Ano: 2017.

A ESPERA (L'Attesa)

Que bela surpresa esse flme, hein. E por que chega aqui com tanto atraso? Grande momento tanto de Juliette Binoche quanto da jovem Lou de Laâge. Gosto muito da atmosfera sombria que o filme propõe desde o início. Na trama, Binoche sabe da morte do filho e recebe a namorada do rapaz em sua casa. A garota desconhece o ocorrido e o espera chegar. Direção: Piero Messina. Ano: 2015.

domingo, maio 10, 2020

ESTA RUA TÃO AUGUSTA


É tentador escrever sobre um filme de Carlos Reichenbach sem se apegar a memórias afetivas de nossos encontros com esse que é um dos mais importantes cineastas brasileiros de todos os tempos. Isso se deve à forma generosa com que o diretor gaúcho, mas de espírito paulistano, lidava com as pessoas, não importando se eram jovens cinéfilos ou técnicos de cinema com ainda pouca bagagem cultural acumulada. O que mais lhe interessava eram a paixão e a sede de cultura.

Essa relação de proximidade com as pessoas também era combustível para a realização de seus filmes. Para enriquecer os diálogos de seus personagens, o cineasta costumava pegar ônibus e escutar conversas de trabalhadores (operárias, professoras etc.). E por isso é possível perceber uma diferença entre o que ele fazia em seus longas, em geral melodramas da linha de Rainer Werner Fassbinder e Valerio Zurlini, e o que ele gostava de colocar na maioria de seus curtas, que tinham um caráter mais experimental, quase sempre afastados da forma narrativa mais clássica.

E já que vamos falar de um primeiro filme de um diretor, podemos começar com a seguinte pergunta: seria a obra de estreia de um cineasta-autor a síntese em estado bruto do que veríamos posteriormente em sua filmografia? No caso de ESTA RUA TÃO AUGUSTA (1968), pode-se dizer que essa afirmativa é verdadeira. Ainda que o próprio Carlos Reichenbach tenha finalizado o filme por insistência de seu mentor Luiz Sérgio Person, e que só tenha começado a criar um pouco de gosto pelo trabalho quando conheceu o pintor naif Waldomiro de Deus, que possuía uma irreverência que chocava a burguesia que frequentava o local, com sua minissaia, botinhas e pinturas provocantes; apesar dessa espécie de rejeição do próprio pai à sua cria, ESTA RUA TÃO AUGUSTA foi ganhando o respeito e a admiração de críticos e cinéfilos.

Eis, portanto, um primeiro elemento em comum entre esse curta e as demais obras de Carlão: o elemento humano. Foi por causa de Waldomiro de Deus e também pela figura do poeta cult Lindolf Bell que ESTA RUA TÃO AUGUSTA deixou de ser apenas uma paródia de um documentário institucional sobre uma das ruas mais famosas de São Paulo para se tornar principalmente uma homenagem aos artistas apresentados.

Se em seus longas-metragens, o diretor tem um evidente interesse por dramas de pessoas de diferentes classes sociais, em especial de classes menos favorecidas, na maioria de seus curtas Carlão aproveitou a oportunidade para fazer um elogio à arte. Vejamos: em ESTA RUA TÃO AUGUSTA, um pintor e um poeta; em SANGUE CORSÁRIO (1979), o poeta, ator e amigo Orlando Parolini; em O M DA MINHA MÃO (1979), o acordeonista Mario Gennari Filho; em OLHAR E SENSAÇÃO (1994), a arquitetura da megalópole paulista; e em EQUILÍBIO E GRAÇA (2003), ele traz música, dança e pintura para compor mais um exercício de sensibilidade.

A exceção de seus curtas talvez seja apenas SONHOS DE VIDA (1979), que funciona como uma espécie de gênese para os filmes de Carlão sobre mulheres da classe operária, ANJOS DO ARRABALDE (1986), GAROTAS DO ABC (2003) e FALSA LOURA (2007).

Carlão é um cineasta humanista, portanto. Porém, é importante destacar Reichenbach como sendo um dos diretores que mais enaltecem a grande megalópole brasileira, ao lado de Walter Hugo Khouri e Luiz Sérgio Person. Assim, ao longo de sua obra, é possível notar o modo como a cidade de São Paulo é mostrada com carinho. Portanto, não é apenas o aspecto humano que se destaca em seu primeiro filme, e que se faria presente em suas obras seguintes, mas também a arquitetura da cidade.

Começando com um trecho do famoso discurso de Martin Luther King, ESTA RUA TÃO AUGUSTA destaca o trecho “We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality.” As citações de grandes homens (poetas, filósofos, políticos etc.) seriam outra marca dos filmes de Carlão e já é algo presente em seu filme de estreia. Não por acaso, a citação do militante pastor americano traz relação com a figura do pintor negro que ousa transgredir os costumes e a religião em prol de sua arte.

O texto entregue para a narração de Oswaldo Calfat, famoso por apresentar diversos documentários institucionais, confere ao filme um contraste com o que é visto nas imagens. O cinema brasileiro e as artes como um todo já haviam chegado a um novo patamar de modernidade naquele momento, últimos anos da década de 1960. A cena dos jovens dançando ao som de “Day tripper”, dos Beatles, ajuda a mostrar as profundas transformações daqueles anos na sociedade. A disputa entre conservadorismo e progressismo estava bem acirrada.

No entanto, isso não impediu que Waldomiro de Deus fosse embora do Brasil para mostrar sua arte na Europa, como podemos ver na cena que encerra ESTA RUA TÃO AUGUSTA. Vê-se que nosso país está longe de ser tão generoso quanto Carlão foi para os artistas.

Texto originalmente publicado no livro Curta Brasileiro - 100 Filmes Essenciais, produzido pela Abraccine, com organização de Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva. Disponível para venda.

+ TRÊS CURTAS

THE FALL

É sempre bom quando vemos algo que nos deixa totalmente atordoados e sem saber o que acabamos de ver. É assim que ficamos ao ver este curta de menos de 6 minutos de Jonathan Glazer, que estreou no MUBI. Há uma turma de homens com máscaras bizarras, um poço, uma forca, uma trilha sonora um bocado boa, um bocado de escuridão e uma saudade de novos longas de Glazer. O último foi em 2013, e está entre os melhores da década. Ano: 2019.

THE STRANGE THING ABOUT THE JOHNSONS

Totalmente assombrado e impactado com o que acabei de ver. Este curta é a estreia na direção de Ari Aster, o filme de conclusão de curso, realizado pelo AFI. É um negócio tão assustador que eu fiquei sem palavras. Um filme sobre um abuso sexual em família é sempre pesado, mas inverter os papéis como esse filme faz, não só para causar estranheza, mas horror mesmo, dentro da estrutura doméstica, é bem-vindo para o novo, lembrei de Lynch com seu ERASERHEAD. Não sei se vou conseguir dormir e não ter sonhos ruins agora. Ano: 2011.

JÊRÓME - UM CONTO DE NATAL

Uma beleza este curta que é o primeiro filme que eu vejo sobre este momento, o momento da pandemia, embora seja do gênero fantástico (se bem que a gente já está vivendo uma história de horror, não é?). E é uma história com gatinhos, o que é mais um atrativo. O barato desse tipo de produção é você ter que utilizar de muita criatividade não apenas por causa do baixo orçamento, mas por todas as imposições do isolamento social. E talento a diretora tem de sobra e este é apenas um pequeno aperitivo para o que vem aí, o trabalho que ela estava fazendo e foi interrompido por conta da situação atual. JÊRÓME acompanha a busca do gatinho do título por uma possibilidade de se alimentar em um mundo pós-apocalipse. Direção: Beatriz Saldanha. Ano: 2020.

sábado, maio 09, 2020

GANGUES DO GUETO ('R Xmas)

Um dos grandes méritos de Abel Ferrara é conseguir se reinventar sem deixar de ser coerente consigo mesmo e ainda trazer algo que foge dos padrões estabelecidos e do que se espera de determinado filme. O título brasileiro, GANGUES DO GUETO (2001), tem um caráter mais comercial, mas o original, que seria uma abreviação com slang de "Our Christmas" não tem nada de comercial. Aqui no Brasil fizeram o mesmo com The Funeral, vendendo como OS CHEFÕES (1996). Mas tudo bem, o importante é que o filme chegue, mesmo com os títulos nacionais um tanto ruins.

O que Ferrara faz de tão transgressor ao filme de gênero aqui, no caso o filme de gângster, é retirar a ação, algo que ele já havia feito em seu trabalho anterior, o maravilhoso ENIGMA DO PODER (1998). Aqui temos a história de uma família de traficantes de drogas que é apresentada como se fosse uma família de comerciantes de negócios lícitos. Ou seja, não há, durante a maior parte do filme, nenhuma cena de tiroteio ou assassinato perpetrado pela família, que aqui no caso é advinda da República Dominicana - interessante, aliás, essa ligação de Ferrara com este país, que foi bastante citado em outro filme seu, SEDUÇÃO (1989).

A família mostrada não se chama pelos seus nomes ao longo da narrativa. No final dos créditos eles são descritos como husband, wife e daughter. Mas há também um intrigante letreiro que abre o filme e conta que se trata da história real de um homem que se tornaria futuramente um prefeito de Nova York. Mas essa informação aos poucos se esvai da nossa memória. O que passa a interessar é a rotina da família, principalmente da esposa, vivida por Drea de Matteo, e do marido, vivido por Lillo Brancato. O ator eu não conheço, mas a atriz ficou famosa pelo papel de Adriana na série FAMÍLIA SOPRANO, que inclusive tem muito a ver com este filme de Ferrara, no sentido de nos levar para o seio de uma família amorosa, ainda que adepta da violência.

Porém, esta amabilidade é ainda mais presente em GANGUES DO GUETO, já que o personagem masculino não tem muito pulso para tirar de cena um de seus empregados do tráfico. A esposa, por sua vez, é que faz um papel mais ativo. E que interpretação fantástica a de Drea neste filme, hein. Especialmente quando ela, para salvar o marido da mão de policiais corruptos que o sequestraram, precisa procurar dinheiro por todos os lugares. O personagem de Ice-T como esse policial meio-irmão do protagonista de VÍCIO FRENÉTICO (1992) carrega uma perturbação no olhar e um senso de moralidade impressionantes, já que seu interesse é muito menos o dinheiro e mais fazer com que aquela mulher e seu marido abadonem para sempre o negócio das drogas.

O jogo de esconder a ação, herdeiro dos dois filmes anteriores do cineasta, e também de brincar com a memória de seus personagens, são novamente aspectos presentes. Afinal, o marido não consegue parar de lembrar dos momentos tensos em que foi capturado e sofreu violência. E há também uma relação que se estabelece entre o negócio dos traficantes e o olhar materialista presente na época do Natal. Nada mais representativo disso do que a briga de duas mulheres por uma boneca em uma loja, seguida de uma tentativa do personagem de tentar dar muito dinheiro à vendedora para presentear a sua filha com essa boneca tão querida pelas crianças.

Ao final, os pais, por mais que tenham a boa intenção de se preocupar com os estudos da filha, ainda tendem a não deixar o caminho do mal, como podemos ver na sequência em que o protagonista masculino prefere não ver o que seus empregados fizeram com o acaguete de seus negócios.

+ TRÊS FILMES

FRANKIE

Só tenho acompanhado a carreira de Ira Sachs desde DEIXE A LUZ ACESA (2012), e tive a impressão de que este novo filme é diferente, não apenas por não abordar de maneira mais direta a homossexualidade, como os três anteriores, mas por ter uma relação mais próxima com o cinema europeu. É sempre um prazer ver a Isabelle Huppert em ação, e ter um elenco tão diverso e tão bom conta pontos demais a seu favor. Adoro uma cena específica de Huppert com Marisa Tomei (emotiva e contida, ao mesmo tempo); gosto demais de todas as vezes em que Brendan Gleeson está em cena. Talvez o ponto fraco esteja em alguns personagens, como o casal que está se separando e a filha deles que vai à praia. Embora trate também de perda, não tem a mesma força da trama principal, por assim dizer. Ainda assim, adoro os silêncios e também os dois momentos ao som de piano. Se todo filme mediano fosse assim, eu ficaria mais feliz. Ano: 2019.

DOMINGO

É o longa menos inspirado de Fellipe Barbosa, provavelmente. Aqui ele assina com Clara Linhart, que tem no currículo a direção de alguns documentários. O forte de DOMINGO é o bom fluxo narrativo, sabendo dar conta dos vários personagens presentes na casa. E por fazer isso de uma maneira divertida, tratando mais uma vez da diferença de classes, ainda mais se passando no dia da posse de Lula à presidência, no início de 2003. Camila Morgado está divertidíssima. Ela já havia demonstrado um excelente timing para a comédia. Há alguns atores jovens em situações interessantes também. Ano: 2018.

CREED II

Muito bom voltar aos personagens de ROCKY, UM LUTADOR (1976) , ver que ainda sobraram alguns. No caso, principalmente de ROCKY IV (1985), o que guarda mais relações com este novo filme. Há arcos dramáticos bem intensos e o filme ganha muito ao tratar mais da história de Creed e de sua namorada. Mas Rocky é tão forte que sua presença e sua melancolia são contagiantes. O filme só perde no quesito originalidade (há sempre a sombra do original), mas as lutas são bem boas. Direção: Steven Caple Jr. Ano: 2018.

sexta-feira, maio 08, 2020

AS ARANHAS - PARTE 1: O LAGO DOURADO (Die Spinnen, 1. Teil – Der Goldene See)

Por enquanto ainda é um ensaio para uma peregrinação futura. Sou um cinéfilo de muitos anos de filmes, mas há coisas de que me envergonho, que é ter tantas lacunas na filmografia de certos cineastas importantes. Não vou citar um monte de nomes aqui, mas Fritz Lang é um deles. Devo ter visto apenas cinco filmes de sua vasta filmografia. E o motivo de eu ter adiado tantas vezes o passeio por sua obra é o fato de ele ter muitos filmes na fase muda, sendo que vários desses trabalhos têm uma duração enorme. Então, talvez eu reveze com filmes falados, ou até mesmo deixe alguns dos mudos para bem depois, especialmente aqueles que estiverem em qualidade de imagem ruim.

Não é o caso deste AS ARANHAS - PARTE 1: O LAGO DOURADO (1919), cuja cópia está linda, feita a partir de negativos encontrados na Bélgica. O filme é a primeira parte de um seriado que deveria ser feito em quatro episódios. O primeiro fez tanto sucesso que Lang, que iria dirigir O GABINETE DO DR. CALIGARI, teve que se dedicar logo à continuação, que seria lançada no ano seguinte. Não foram feitos as outras duas sequências previstas inicialmente.

O LAGO DOURADO tem o espírito das matinês, com um herói vivendo uma aventura em um lugar exótico e uma vilã cheia de maldade, algo notado desde sua apresentação. No caso, o herói aqui é Kay Hoog (Carl de Vogt) que encontra um manuscrito dentro de uma garrafa que acaba por levá-lo até a Cordilheira dos Andes, onde haveria supostamente um tesouro inestimável da civilização inca. Sabendo de seus planos, sua arqui-inimiga, Lio Sha (Ressel Orla), que gerencia uma organização secreta e criminosa chamada As Aranhas, sequestra os planos e descobre o lugar. Lá eles se encontrarão, tendo que encarar uma tribo que planeja fazer um sacrifício humano para trazer de volta sua gloriosa civilização.

Engraçado que eu estava há tanto tempo afastado dos filmes mudos que demorei a me acostumar de novo, por mais que tenha visto todos os trabalhos silenciosos de Hitchcock, de Dreyer, a maioria de Chaplin, de Hawks, além de um ou outro Ford ou Walsh. Ainda assim, é muito pouco. Então, o que percebi é que teria que ter o dobro de atenção para a trama, já que o modo como são apresentados os personagens, através das cartelas, é um tanto complicado para quem vê o filme "em fascículos" ou tem a memória ruim. Nesse caso, seria interessante fazer algumas anotações.

Acredito que o fato de ver uma obra de pouco mais de uma hora de duração e ter ficado um pouco impaciente tenha a ver com os tempos complicados em que estamos vivendo. Portanto, me perdoem. Estou me esforçando. E ter o cinema como aliado para trazer ânimo e entusiasmo para não apenas ressuscitar o blog, como também me enriquecer de cultura e de grande arte tem sido uma bênção.

Ah, só um pouco sobre a descrição que Peter Bogdanovich faz de Fritz Lang em seu livro Afinal, Quem Faz os Filmes. Pelo visto, Lang não era uma figura fácil e bem pouco simpática. Alguns atores que trabalharam com ele depois se recusariam a trabalhar novamente, como Spencer Tracy e Henry Fonda, e Jean Renoir ficou bastante insatisfeito com os dois remakes de obras suas feitas por Lang - ALMAS PERVERSAS (1945) e DESEJO HUMANO (1954) -, principalmente pelo fato do cineasta alemão ter danificado os negativos de seus filmes originais para a realização das refilmagens hollywoodianas. Ao final do texto de apresentação, Bogdanovich afirma que sua "personalidade e perspectiva sombrias refletiam dolorosamente a escuridão do nosso século".

+ TRÊS FILMES

O HOMEM QUE MATOU DOM QUIXOTE (The Man Who Killed Don Quixote)

Para ser sincero, o único filme do Gilliam que eu gostei de verdade foi o que ele fez para o Monty Python. Nem sei se ia gostar de PESCADOR DE ILUSÕES (1991) na revisão (na época lembro de ter simpatizado). Mas eu simpatizo com a persistência dele em querer fazer o tal filme com o Dom Quixote. Este aqui provavelmente não é como ele concebeu inicialmente (não vi o doc PERDIDO EM LA MANCHA, 2002), mas tem a vantagem de ter o Adam Driver, puta ator, e o Jonathan Pryce também. Pena que o filme tem um problema de ritmo incômodo, parecendo muito mais longo do que é. A personagem feminina mais interessante, Angelica, é vivida pela portuguesa Joana Ribeiro. Direção: Terry Gilliam. Ano: 2018.

1945

Um filme que em momento nenhum me conquistou. E assim fica complicado. Nem visualmente (achei uma fotografia preto e branco genérica até), nem em sua trama que procura armar um suspense em torno da chegada de dois judeus na Hungria durante o fim da Segunda Guerra. A personagem mais interessante, a noiva, não é explorada. Direção: Ferenc Török. Ano: 2017.

VIDAS À DERIVA (Adrift)

Tenho impressão de ter visto muitos filmes sobre pessoas à deriva em alto mar. Mas talvez não tenham sido tantos assim. Não vou conseguir enumerar muitos. Este aqui oferece um novo olhar. Bem montado com idas e vindas no tempo e com graus de tristeza e desesperança que caem bem para a história. Shailene está ótima. Direção: Baltasar Kormákur. Ano: 2018.

quinta-feira, maio 07, 2020

OS MISERÁVEIS (Les Misérables)

Acumularam-se muitos filmes importantes que eu acabei não falando aqui no blog. E vários deles eu até já desisti de escrever a respeito, já que necessitaria de uma revisão ou de ter uma boa memória, o que não é o meu caso. Mas façamos um exercício de memória para escrever um pouco sobre OS MISERÁVEIS (2019), de Ladj Ly. Trata-se do primeiro longa-metragem do realizador nascido em Mali e residente na França. Tendo como base o curta de mesmo nome de 2017, seu longa foi premiado em Cannes com o Prêmio do Júri, empatado com BACURAU, de Kleber Mendonça Filho.

São, aliás, dois filmes que têm muito em comum, tratando de uma explosão que nasce a partir de imposições e autoritarismos de forças oficiais. Ambos os filmes, apesar de diferentes em muitos aspectos, estão entre as obras recentes que melhor refletem o seu tempo. Muitos o comparam a FAÇA A COISA CERTA, de Spike Lee, devido ao final explosivo. E a comparação de fato tem tudo a ver.

A trama segue o ponto de vista, principalmente, de uma dupla de policiais. Um deles sai da província para ir trabalhar em Paris, mais especificamente, na brigada anti-crime de Montfermeil. O lugar serviu de locação para o romance clássico de Victor Hugo, daí principalmente o motivo de adotarem o título do filme como homenagem ao romance e também como atualização de uma situação social ainda muito complicada.

O policial que está chegando, Pento, vivido por Damien Bonnard, ator de NA VERTICAL, de Alain Guiraudie, é o que mais se aproxima do espectador, já que tem uma visão mais pacífica e totalmente desconhecedora da rotina daquela sociedade e da atuação de seus colegas policiais, de nomes Gwada (Djibril Zonga) e Chris (Alexis Maneti). Como o público, ele acha estranho o estilo de trabalho de seus novos companheiros, bastante violentos e cheios de si.

E há as figuras das crianças marginalizadas. Há o garotinho que brinca com um drone que filma tanto espaços privados quanto imagens públicas e que será crucial para a trama; há um outro que rouba um filhote de leão de um circo e que sofrerá violência mais adiante; e há toda uma fauna de outros personagens adultos e crianças que têm sua importância para a história. O que se deve destacar como um dos méritos do filme é o quanto o jovem cineasta é capaz de montar essa trama com vários personagens e várias situações e conseguir dar complexidade e profundidade a todos, tanto os policiais quanto os que vivem à margem.

Para parte da imprensa e da audiência que já conhecia o trabalho de Ly desde os curtas, alguns ficaram surpresos com o fato de o diretor começar e terminar o filme com o ponto de vista dos policiais. Provavelmente eles não eram figuras muito simpáticas nos curtas e também pelo trabalho social do cineasta, que visa a dar mais voz às classes mais desfavorecidas. De todo modo, a escolha foi feliz e não tirou a voz das crianças. Ao contrário, é fácil se sentir incomodado com a atitude dos policiais e torcer por uma revolta. Quanto a isso, o filme não decepciona.

+ TRÊS FILMES

EM PEDAÇOS (Aus dem Nichts)

Filme bem bom de ver, mas acho que as sequências de tribunal me pareceram um tanto difíceis de comprar, ainda que no final tenha gostado. Inclusive da Diane Kruger, que talvez esteja em seu melhor papel. No mais, certas coisas que parecem improváveis já viraram rotina no Brasil, inclusive esse negócio de botar culpa na vítima. Direção: Fatih Akin. Ano: 2017.

AMANDA

Uma beleza de filme sobre seguir em frente apesar das tragédias e do quanto a vida pode ser cruel. Lindo como o filme constrói de maneira tão sutil a aproximação do relacionamento entre o personagem de Lacoste e sua sobrinha, Amanda. Gosto muito dos hiatos na trama, e é impressionante como o sentimento de pesar continua presente e forte mesmo assim. Um dos melhores filmes dos últimos anos. Direção: Mikhaël Hers. Ano: 2018.

ROMA

Ter a chance de ver no cinema ROMA não deixa de ser uma oportunidade e tanto. Ainda mais na sala 2 do Cinema do Dragão, que é ótima. Mas tira um bocado do impacto ter visto uma primeira vez na telinha. Continuo achando o filme um primor de técnica, mas um tanto frio de emoções, ainda mais revendo uma vez mais. Acho que a cena que mais me impactou foi a que se segue a um terremoto e depois a um evento numa loja de bebês, enquanto está havendo um caos nas ruas. Alfonso Cuarón sabe filmar muito bem o caos. E também a geografia da casa e das ruas do bairro. Mas principalmente da casa. Ano: 2018.

quarta-feira, maio 06, 2020

ENIGMA DO PODER (New Rose Hotel)

A primeira coisa que fez eu me apaixonar por ENIGMA DO PODER (1998) foi o quanto o espírito de seu tempo saiu da tela e me provocou uma excitação semelhante à daquela época, especialmente nas primeiras cenas, que se passam em uma boate que toca música boa e um tanto melancólica. É como se fosse uma mistura de céu e inferno em um só lugar. É lá que aparece pela primeira vez Sandii (Asia Argento), apresentando-se para as pessoas em italiano mesmo, mas cantando uma canção em inglês, "Don't kill me", faixa escrita por Abel Ferrra em parceria com Harper Simon.

O momento que ela canta já é o suficiente para que ela nos ganhe, mas há ainda a cena da proposta, e depois a cena do ciúme... Refiro-me à proposta feita pelo criminoso Fox (Christopher Walken) a Sandii para sabotar o casamento e os negócios de um japonês milionário chamado Hiroshi (Yoshitaka Amano); e, em seguida, à cena de ciúme de X (Willem Dafoe), que ficou um tanto chateado depois que Sandii voltou da primeira parte de sua missão de sedução. "Você gostou de chupar o pau de Hiroshi?", pergunta ele, enciumado. Ela faz algo que o deixa ainda mais apaixonado: pergunta se ele quer se casar com ela.

Como praticamente todo filme de Ferrara, ENIGMA DO PODER é um filme de vampiros. Não como O VÍCIO (1995), claro, que apresenta sugadores de sangue de verdade, mas criaturas da noite. Isso vale para os três personagens principais, mas vale principalmente para Sandii. Em determinada cena ela se aproxima de um grupo de mulheres seminuas em uma boate para executar uma performance sensual de cair o queixo. A cena parece uma espécie de orgias de vampiros.

Mesmo depois de ter visto BLACKOUT (1997), que pode ser considerado um filme hermético se comparado ao cinema mais clássico produzido em Hollywood, é difícil estar preparado para ENIGMA DO PODER (1998), ainda que ambos os filmes tenham muito em comum, como o namoro com o visual sujo do vídeo em contraste com a limpidez da película. E também o jogo com o vazio, com a falta. Mas no novo filme este vazio é ainda mostrado (ou não mostrado) de maneira ainda mais sofisticada.

Praticamente todos os acontecimentos que representam ação são limados da narrativa. Não são mostradas, por exemplo, a abordagem de Sandii a Hiroshi e todas as repercussões que acarretaria; não é mostrado o ato de liberação do vírus. Em vez disso, muito dessa ação é conhecida através de imagens em uma espécie de celular retro-futurista ou de televisões de tamanho gigante para os padrões daquela época.

E Ferrara prega uma peça no espectador ao fazê-lo perceber o quanto ele pode ser relapso em seu olhar. Isso acontece nos quinze minutos finais, com flashbacks de X, que não consegue tirar Sandii de sua mente, mesmo estando sob risco de perder a vida. Os momentos-chave que perturbam a memória borrada de X, passeando por pequenos sinais em falas, olhares, gestos. E não há nenhum gesto mais representativo e mais forte do filme do que o sorriso final de Sandii, talvez um dos momentos mais poderosos do cinema da década de 1990.

Ferrara conseguiu adaptar William Gibson de maneira brilhante. E encerrou sua bem-sucedida parceria com Christopher Walken iniciada em O REI DE NOVA YORK (1990) com chave de ouro, e começou outra parceria, agora com Willem Dafoe.

+ TRÊS FILMES

O FAROL (The Lighthouse)

Daqueles filmes que nos deixam sem chão. Há várias passagens que parecem saídas de pesadelos. E, por isso, um tanto confusas e assustadoras. O aspecto teatral que o filme vai ganhando no duelo dos personagens talvez seja o que o torne um pouco mais duro para as plateias. Mas é justamente o trabalho dos dois atores que ficará sendo um ponto em comum na discussão sobre o que há de melhor no filme. A propósito, por causa da janela de aspecto, recomendo a experiência de ver o filme mais próximo da tela. Ajuda a tornar as imagens mais fortes. Direção: Robert Eggers. Ano: 2019.

TABU

Acho que a lembrança que eu tinha de trechos vistos na televisão de tempos atrás despertou mais afeição do que esta vez, quando vi o filme completo. A melhor coisa continua sendo o Caetano Veloso cantando marchinhas de carnaval à capela. Já o Colé como Oswald de Andrade, não entendi o motivo e a escolha, ou a graça. Os filmes do Júlio Bressane não são feitos para entender tudo e há muita brincadeira metalinguística neste trabalho que ele prefere fazer sem roteiro. Outros atrativos são as rápidas cenas de sexo de filmes bem antigos, enxertados. Bressane é um tarado pelo corpo feminino e vejo isso como uma qualidade. Ano: 1982.

EL TOPO

Há algo de muito fascinante nessa trajetória espiritual do protagonista, mas acho que o filme lá pela metade começa a cansar. E também não sei se gostei dessa divisão inspirada na Bíblia, ao contrário das brincadeiras com a astrologia e o tarô em A MONTANHA SAGRADA (1973). Esse sim, muito me diverte e me encanta. Direção: Alejandro Jodorowsky. Ano: 1970.

segunda-feira, maio 04, 2020

PROVA DE FOGO

A beleza enfeitiça. E a beleza, em geral, se encontra em flor durante a juventude. Claro que há a beleza tardia, a beleza madura. E há pessoas que conseguem driblar a força do tempo mais do que outras. Inclusive, diria que Maitê Proença é um desses casos. Mas como resistir ao ter a possibilidade de vê-la aos 21-22 anos, em seu primeiro papel para o cinema em PROVA DE FOGO (1980)? Esse foi o principal motivo de eu querer ver o filme, mesmo que não tivesse nenhuma cena de sexo/nudez com ela. E tem. Mais um ponto positivo. :)

Mas PROVA DE FOGO está longe de ser apenas um veículo para a beleza e também o talento de Maitê. Na verdade, o eixo do filme é a história de um homem que se descobre médium depois de ver um espírito em um despacho de umbanda e que se torna, mais adiante um pai-de-santo. Ou seja, estamos diante de um filme que explora com muito respeito o mundo da mais popular religião afrobrasileira. Uma religião que ainda me é estranha em muitos aspectos, até por eu ter crescido no protestantismo pentecostal.

Quem interpreta Mauro, o protagonista, é Pedro Paulo Rangel. Ele é um bancário que está se esforçando para terminar a sua faculdade de Administração, mas que acaba também dedicando muito de seu tempo e de sua energia no terreiro. Aliás, em determinado momento, ele fica incomodado com o fato de não ter mais tempo para nada e de estar muito cansado com a rotina. Até a hora em que percebe que tem que se dedicar exclusivamente ao trabalho espiritual.

O filme é composto por cenas que se revezam entre a rotina de seus personagens e as cerimônias no terreiro, quando Mauro "recebe" principalmente duas entidades, o boiadeiro e a ciganinha. Quem também participa no início do filme é a cantora Elba Ramalho, no papel da mãe-de-santo que enlouquece e acaba deixando o lugar vago para a chegada de outro líder, João (Ivan de Almeida). Sandra, a personagem de Maitê Proença, inclusive, é eleita mãe-pequena por João, que não escondia o desejo que sentia por ela. Sandra, por sua vez, tinha uma espécie de paixão não-correspondida por Mauro. Inclusive, a cena de sexo mais sensual do filme é um sonho da personagem, quando ela recebe em sua cama o colega, vestido de boiadeiro. A cena é muito bonita de ver. E por mais que alguém vá dizer que possa ser exploratória, o filme é tão sério na sua proposta de acompanhar a vida de Mauro que não fica aquela impressão de algo gratuito. Não que houvesse problema quanto a isso, pra mim.

PROVA DE FOGO foi o primeiro longa-metragem de Marco Altberg, que depois faria AVENTURAS DE UM PARAÍBA (1982), FONTE DA SAUDADE (1985) e SOMBRAS DE JULHO (1995), para citar os que talvez sejam seus trabalhos mais importantes.

Escrevi, no calor do momento, assim que assisti ao filme, que o cinema brasileiro não é apenas uma caixinha de surpresas, mas um manancial de tesouros infindáveis. Há tantos filmes que fogem do cânone dos clássicos e que são tão interessantes e relevantes e ricos que até eu ainda me pego admirado. E pensar que há tanta gente que não se permite conhecer o nosso tão rico cinema...

+ TRÊS FILMES

DATA LIMITE SEGUNDO CHICO XAVIER

Ouvi falar deste filme recentemente, em uma dessas lives sobre astrologia e esoterismo e fiquei curioso. Ajudou estar no cardápio da Amazon Prime, ajudou ter pouco mais de uma hora de duração. Mas mesmo do ponto de vista do conteúdo mesmo (pois da forma é muito pobre) não há muitas coisas que me empolgaram e há outras que pareceram-me muito ficção científica. O curioso deste filme ter sido lançado em 2014 não é nem trazer uma prévia da pandemia, já que a preocupação maior era por guerras nucleares. Se bem que os astrólogos também estavam achando que podia a grande conjunção dos planetas lentos em Capricórnio ser também através de guerras. Voltando ao documentário, o foco principal são os seres extraterrestres e a comunicação que tinham com Chico Xavier. Direção: Fabio Medeiros, Rebeca Casagrande e Juliano Pozati.

AZOUGUE NAZARÉ

O cinema brasileiro, e como não poderia deixar de ser o pernambucano, está tão em alta que um filme como esse, lançado no final do ano de 2019, acaba sendo uma enorme surpresa. Além de nos apresentar a um universo de rituais de maracatu, a trama é muito bem tecida, mostrando as relações existes entre algumas pessoas da cidade de Nazaré, em especial o embate entre um homem do maracatu e um pastor evangélico. Também gosto muito das cenas envolvendo a mulher do chaveiro e as disputas de repente entre os jovens. O filme é uma delícia, rende muitas risadas, tem alguns elementos fantásticos e ao final da sessão recebeu aplausos do público. É bom demais quando isso acontece. Direção: Tiago Melo. Ano: 2018.

CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS

Curioso como o público brasileiro procura dar as costas para o índio até em nossas produções. Mas até que ultimamente tem se feito muitos registros sobre histórias passadas em aldeias indígenas. Nesta produção temos a história de um jovem rapaz atormentado pelo dever de ser um pajé de sua tribo. É um filme bem menos melancólico que EX-PAJÉ, por exemplo, já que a tribo parece estar relativamente tranquila em seu lugar, apesar da dificuldade de comunicação com os "brancos" da cidade grande. Fiquei bastante curioso com a realização, o modo como os diretores conseguiram fazer este filme. Direção: Renée Nader Messora e João Salaviza. Ano: 2018.

domingo, maio 03, 2020

HOMELAND - A OITAVA TEMPORADA COMPLETA (Homeland - The Complete Eighth Season)

HOMELAND já foi considerada a melhor série do ano, já foi a mais premiada. Isso aconteceu na primeira temporada, que até o final da atração ainda é a sua melhor e mais bem-sucedida. Muitos espectadores abandonaram a série aos poucos, alguns já na segunda ou na terceira temporada. Mas eis que acabaram perdendo o caminho de reinvenção que os criadores tomaram a partir de seu quarto ano, ao se desligarem do interesse amoroso e trágico de Carrie Mathison (Claire Danes), o Sargento Nicholas Brody (Damien Lewis). A partir do momento em que cada temporada se tornou uma aventura de Carrie em um país diferente, tudo se tornou melhor.

A oitava temporada de HOMELAND (2020) é especial não apenas por nos fazer dar adeus a uma personagem tão marcante e querida, mas também por representar o fim de uma era, de um momento na história dos Estados Unidos e do mundo, especialmente para os mais afetados pelos ataques bélicos dos americanos, o mundo pós-11 de setembro. Agora vivemos uma outra realidade e possivelmente em breve teremos uma série marcante sobre o mundo durante e após a pandemia.

Na época que HOMELAND surgiu muitos a compararam a 24 HORAS, que foi uma série que foi criada antes dos eventos do 11 de setembro, foi finalizada em julho de 2001, e que até teve sua estreia retardada por causa dos eventos. Ou seja, embora estivesse em sintonia com aquele momento, não foi pensada à luz da situação então presente. Podemos estabelecer elos de ligação entre Jack Bauer (o herói de 24 HORAS) e Carrie Mathison: ambos se tornarem muitas vezes foras-da-lei por contrariarem ordens de seus superiores e ambos passaram muito tempo sendo torturados pelos russos.

Inclusive, a oitava temporada começa com Carrie de volta, depois de se privar de seus remédios e do período nebuloso e perturbador de tortura nas mãos dos inimigos. Ela representa também uma espécie de mártir ou algo parecido para alguns membros do governo americano, inclusive para o Presidente. Ainda em tratamento em um clínica psiquiátrica na Alemanha, é chamada para uma nova missão por seu amigo e mentor Saul Berenson (Mandy Patinkin), agora conselheiro do Presidente da República. Saul é um dos personagens mais queridos da série, por ser a pessoa que melhor entende Carrie, e que também melhor admira sua capacidade singular de resolver situações extremamente complicadas com muita inteligência.

Esta temporada não explora a Carrie "louquinha", a Carrie privada de seus remédios. E mesmo ainda em tratamento na base da CIA na Alemanha, ela recebe essa missão para ir ao Paquistão, já que o governo americano não consegue por conta própria e oficialmente resolver uma situação. Saul está tentando um acordo de paz entre os talibãs e o governo do Afeganistão. De volta ao Oriente Médio, portanto. Mas com um porém: há a dúvida de que ela possa ter comprometido o governo americano durante os sete meses que ela esteve sob julgo dos russos, ter contado algum segredo de Estado. E aí entra em cena um personagem muito interessante, o agente russo Yevgeny Gromov (Costa Ronin), que pode ser tanto um inimigo perigoso para ela como um aliado, dependendo da situação.

Não adianta resumir em detalhes a trama, pois, como muitas narrativas de espionagem, ela vai ganhando mais camadas. O fato de estarmos diante da temporada de despedida de HOMELAND é que faz a diferença, já que podemos esperar até mesmo uma morte de sua protagonista, ou de Saul. E já posso adiantar que há pelo menos um momento doloroso envolvendo um dos dois. Ou os dois.

Mas gostei muito de como os roteiristas e criadores montaram a trama envolvendo um agente infiltrado no governo russo para interesse dos americanos e de como Carrie é encurralada e procura agir de acordo com o que acredita ser a coisa certa a fazer, seja para salvar um companheiro preso por terroristas, seja para evitar uma guerra de grandes proporções. E o final é memorável o suficiente para que possamos lembrar com carinho desta série. E inclusive, infelizmente, ter até saudade de um momento que foi mais fácil para o mundo do que este que se iniciou recentemente.

+ TRÊS THRILLERS

SERGIO

Se a Netflix continuar despejando filmes medíocres como este a minha cisma com a empresa vai continuar. Aqui o que me chamou mais a atenção foi Wagner Moura e também Ana de Armas. Aliás, acredito que se não fosse por ela o interesse pela narrativa seria nulo. Toda a parte envolvendo a política de diplomacia é bem chata. A montagem ajuda um pouco, alternando dois tempos, um mais passado, no Timor-Leste, o outro em Bagdá. E dentro da narrativa o que dá cor e interesse é mesmo o romance do casal de atores. Gosto também da multiplicidade de línguas, embora na primeira metade do filme eles usem só o inglês. No mais, nem para enaltecer a figura de Sérgio Vieira de Mello o filme é bem-sucedido. Direção: Greg Barker. Ano: 2020.

CULPA (Den Skyldige)

A última sessão de cinema (no cinema) em 2018 foi este filme dinamarquês que se passa totalmente em uma locação, apenas com um homem ao telefone, e que consegue envolver do início ao fim, embora eu não tenha gostado tanto da conclusão. Ainda assim, é uma mostra de que é preciso pouca grana mas algum talento para fazer um filme decente. Acho que foi pré-indicado a filme estrangeiro no Oscar. Direção: Gustav Mölleer. Ano: 2018.

HOTEL ARTEMIS

Filme ao mesmo tenso e agradável sobre um grupo de criminosos que se encontra em um hotel que na verdade é um hospital para atender foras da lei. Que bom ver o Sterling K. Brown brilhando também no cinema. Ainda mais com tanta gente boa no elenco, como uma envelhecida Jodie Foster e uma francesa ninja sexy. Direção: Drew Pearce. Ano: 2018.

sábado, maio 02, 2020

BLACKOUT - SENTIU A MINHA FALTA? (The Blackout)

Tive um dos dias mais terríveis da minha vida ontem. Problemas familiares, domésticos e que acho que não vale a pena trazer para cá em detalhes. Fica mais como registro de um momento terrível para ter uma ideia no futuro, quando for ler este texto. De todo modo, acho que as medidas que foram tomadas tenham sido as mais acertadas e finalmente poderemos encontrar um pouco mais de paz e de sucesso no futuro. Voltemos, então, para mais um Ferrara.

Quando Abel Ferrara dirigiu OS CHEFÕES (1996), muitos acreditaram que ele estava começando uma nova fase, uma fase mais palatável, mais "domesticada", mais oscarizável etc. E aí ele chega com BLACKOUT - SENTIU A MINHA FALTA? (1997), uma obra que mais se aproxima de OLHOS DE SERPENTE (1993), não apenas em temática (presença do universo de astros e cineastas e coquetel de sexo, álcool e drogas), mas também a busca por um cinema mais vertiginoso.

Na primeira vez que vi BLACKOUT, o comparei a CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch, pela estrutura, e pela questão da culpa e do esquecimento, que são elementos em comum em ambos os filmes, embora Lynch tenha feito uma obra infinitamente melhor, mais assustadora, mais envolvente, mais tudo. Entretanto, não podemos subestimar o trabalho de Ferrara, que segue fazendo um cinema instigante, autoral e cada vez mais interessado em flertar com o mundo dos seres atormentados, um mundo em que o belo e o bom surgem como repulsivos ou incompatíveis, como eu li em alguma parte do catálogo Abel Ferrara - A Religião da Intensidade. Como em outros filmes do diretor, o caminho do bem é algo tão difícil que às vezes a morte é o caminho mais fácil.

O caminho do bem em BLACKOUT se apresenta quando, após 18 meses dos eventos mostrados na primeira parte da narrativa, o personagem de Matthew Modine está em um evento do A.A. e passa por um processo de limpeza física e mental. E agora está casado com uma mulher bela, adorável e carinhosa (Claudia Schiffer), mãe de um filho seu.

A vida que ele vivia antes era uma vida de excessos. Uma vida intensa de uso de álcool e drogas. Ele, como um astro de Hollywood, estaria mais tentado a esse tipo de vida. E nesta sua primeira vida, havia uma mulher sedutora, mas também representativa de uma espécie de caos daquele momento, vivida pela francesa Béatrice Dalle. Que, na verdade, nem era uma femme fatale, por assim dizer. Ele, Matty, é que não tinha maturidade nem responsabilidade para ter uma vida estável com ela.

Como o ponto de vista do filme é sempre do protagonista, nunca temos dados adicionais, dados que ele desconheça. E por isso somos levados ao mesmo blecaute, à mesma dúvida sobre o que aqueles pesadelos sobre ter matado a sua namorada anterior têm de verdade. Daí sua necessidade de voltar a Miami, falar com seu amigo videomaker vivido por Dennis Hopper, sempre com aquela pinta de maluco. Ele faz trabalhos em vídeo e diz que o vídeo é o futuro. E é interessante como as cenas em vídeo parecem ter um caráter próximo da pornografia. E não apenas por ele ser diretor de vídeos softcore. Vale deixar o registro que as cenas com as mulheres se beijando e se acariciando com pouca roupa e fazendo poses sensuais estão entre os pontos altos da sexualidade na filmografia de Ferrara.

E por mais que eu tenha lembrado de CIDADE DOS SONHOS, que só seria feito em 2001, a verdadeira inspiração de Ferrara para BLACKOUT foi o clássico de Alfred Hitchcock UM CORPO QUE CAI. O próprio diretor falou isso em entrevista.

Vale destacar também as duas cenas em que a canção "Miami", do U2, aparece. Na época, a banda havia lançado o controverso álbum Pop, que eu ouvia bastante. É uma canção que foge do que convencionamos escutar da banda, as guitarras são mais sujas, os gritos de Bono são um tanto desesperadores. Funciona bem, embora o final parece um tanto atabalhoado. Ainda assim, adoro as imagens do mar, da textura como elas foram filmadas à noite, e também da última imagem.

+ TRÊS FILMES

AQUELES QUE FICARAM (Akik Maradtak)

Um belo estudo sobre o relacionamento entre um homem de 42 anos e uma garota de 14 vivendo em uma Budapeste da época da Guerra Fria. Até acredito que o pano de fundo, o fato de ele ter passado por um campo de concentração e viver traumas como a perda da família, acaba ganhando menos peso no filme do que essa relação bonita que se estabelece entre os dois, que causa sempre a dúvida (inclusive para o espectador, mas também para a sociedade) se é algo mais próximo de pai e filha ou algo mais íntimo, fisicamente falando, sexualmente falando. Os dois estão ótimos. Tanto o ator que faz o médico, sempre com um olhar triste, mas bastante afetuoso; quanto ela, a garotinha que encontra naquela figura paterna uma de suas maiores alegrias. A atriz, Abigél Szõke, tem olhos que parecem o mar, de tão belos e profundos. Direção: Barnabás Tóth. Ano: 2019.

DEPOIS DO CASAMENTO (After the Wedding)

Tinha meio que esquecido quase que totalmente o filme original da Susanne Bier. Só lembrava que tinha gostado muito. Então, este remake já começa em situação de desvantagem. E por isso mesmo ele surpreende positivamente. A história cheia de twists, revelações etc. ajuda, mas o que mais me deixou impressionado foi a performance de Michelle Wlliams. Meus Deus, essa menina está uma gigante neste filme. E ela passa as emoções de uma maneira muito sutil, com uma intensidade interior. Seria muito bom se ela fosse lembrada nas premiações por este papel. 39 anos e no auge (so far). Direção: Bart Freundlich. Ano: 2019.

O FUTURO ADIANTE (El Futuro Que Viene)

Bom filme sobre a amizade entre duas mulheres ao longo do tempo. A bela Dolores Fonzi eu não lembrava, mas já a tinha visto em TRUMAN, O CRÍTICO e NEVE NEGRA. Além de bela, ela se destaca nas atuações, em um papel mais desafiador. Gosto especialmente da última parte do filme. Direção: Constanza Novick. Ano: 2017.

terça-feira, abril 28, 2020

A HISTÓRIA SEXUAL DE TARZAN (Tharzan - La Vera Storia del Figlio della Giungla)

Lembro que na virada do milênio vi na banca de revistas o VHS deste filme dirigido pelo cultuado Joe D'Amato. Fiquei tentado a comprar, fui deixar para depois e alguém comprou antes. Mas não esqueci do título e do quanto deveria ser tentador e excitante vê-lo. Ainda mais naquela época, em que os vídeos pornôs ainda traziam, vez ou outra, um fiapo de história para enriquecer o que era mais importante: a voltagem erótica e a boa realização das cenas de sexo.

Lembro até que o Carlão Reichenbach elogiou bastante A HISTÓRIA SEXUAL DE TARZAN (1995), principalmente por causa de Rosa Caracciolo, esposa de Rocco Siffredi, e que de fato é lindíssima. A quantidade de vezes que usamos o botão fast forward do controle remoto diminui consideravelmente quando ela está em cena. É verdade que em alguns momentos achei um tanto tedioso, mas creio que esta versão internacional é melhor que a versão italiana justamente por ser menor na duração e não encompridar muito nas cenas de sexo, no entra e sai, que me interessa bem menos do que as preliminares e as situações eróticas. Uma versão mais enxuta, portanto, dá à narrativa mais agilidade.

Vi em uma cópia sem legenda e dublada em alemão. Não entendi nada do que falavam (que vontade que eu tinha de ter uma moça falante de alemão ao meu lado para falar no meu ouvido o que eles diziam). De todo modo, as falas não importam muito, por mais que eu goste de saber o que dizem. Sexo verbal faz o meu estilo, diferentemente do que achava Renato Russo.

Como não dá para levar tão a sério essas paródias - afinal, são paródias -, ainda assim não deixa de ser engraçado citar detalhes como o cabelo bem cortado do selvagem Tarzan, que sequer tinha visto uma mulher na vida antes ao encontrar Jane. Talvez o galã do pornô não quisesse se sentir tão ridículo aparecendo de peruca ou mesmo uma barba grande. Aliás, quando ela tira a barba dele para levá-lo para a "civilização", nem barba ele tinha também. :)

No mais, quanto à natureza mais erótica das cenas de sexo, gosto muito das primeiras, na selva, com direito a macaquinho gritando e tudo, e da última, na cama, bem caprichada e com a Caracciolo exuberante, já que ela estava com mais maquiagem e em ambiente confortável, valorizando ainda mais a sua beleza, que naturalmente já é de cair o queixo. Também não podemos deixar de exaltar a beleza masculina de Rocco Siffredi, que durante muito tempo foi um modelo de perfeição para muitos espectadores inclusive masculinos do cinema adulto. E fez sucesso até mesmo no cinema mainstream, sendo convidado pela diretora Catherine Breillat para atuar em filmes como ANATOMIA DO INFERNO e ROMANCE.

O barato de A HISTÓRIA SEXUAL DE TARZAN está justamente na ideia. Afinal, quem nunca pensou nas intimidades de Tarzan e Jane que atire a primeira pedra. E o filme até usa aquele grito famoso dele para falar com os animais da selva. O que não deixa de ser engraçado também. Quando ele encontra Jane desacordada no chão, ele olha para aquela mulher linda, vê o que tem por baixo de sua roupa. E mesmo quando ela acorda, nua, não se assusta. Até gosta de estar ali. Não que nem saber mais de procurar os amigos que estavam fazendo talvez um safári pela África. Aliás, este foi um dos primeiros filmes pornográficos a ser filmado inteiramente na África Oriental (no Quênia), segundo informação do IMDB.

O filme deve ter feito bastante sucesso, já que, no mesmo ano, D'Amato voltou a reunir Rocco e Rosa para a continuação, A HISTÓRIA SEXUAL DE TARZAN 2, desta vez, com Jane voltando à selva em busca do amado.

+ TRÊS FILMES

O VINGADOR TÓXICO (The Toxic Avenger)

O maior clássico da Troma. Até hoje não tinha visto. E é muito divertido, especialmente o terço inicial, quando acontece todo o processo de bullying ao rapaz desajeitado que faz a faxina até ele se transformar no super-herói violento do título. Há um exagero proposital no modo como são mostrados os jovens malvados (os caras matam crianças atropeladas por esporte). E há também uma bem-vinda exploração do corpo, que era algo muito presente no espírito dos anos 1980. Pena que lá pelo meio o filme perde um pouco o ritmo. Ainda assim, merece o status de clássico dos filmes B sem vergonha. Direção: Michael Herz e Lloyd Kaufman. Ano: 1984.

UMA NOVA AMIGA (Une Nouvelle Amie)

François Ozon aos poucos foi dizendo a que veio, foi ficando mais fácil perceber sua assinatura em suas obras. Tanto pelo gosto pela narrativa clássica quanto pelos temas. Aqui, ele olha com carinho para a figura da travesti. Mas quem eu gostei mesmo no filme foi a Anaïs Demoustier. Onde ele encontra essas moças encantadoras? Ano: 2014.

O AMANTE DUPLO (L'Amant Double)

Ozon segue brincando com gêneros. Aqui ele brinca de ser Cronenberg, Hitchcock, De Palma. Melhor ver o filme sem saber nada a respeito da trama. Gostei muito da Marine Vacht, a mesma de JOVEM E BELA (2013). Mas que aqui aparece sempre com os olhos com olheiras. É um dos trabalhos de Ozon com maior cuidado na direção de arte. Ano: 2017.

segunda-feira, abril 27, 2020

ESTADO ITINERANTE

A primeira imagem de um filme diz muito do que ele é e do que ele nos mostrará. No curta-metragem ESTADO ITINERANTE (2016), a primeira imagem que vemos é a de Viviana (Lira Ribas), jovem cobradora de ônibus, movimentando-se para fazer uma ligação em um orelhão. Na breve cena, há um senso de urgência que permeará a trama: o motorista pergunta a ela quantos minutos faltam para eles saírem. No pouco tempo que ela tem para conversar com a pessoa do outro lado da linha, sabemos que ela precisa de um lugar para passar a noite.

A própria imagem da noite, sempre mostrada com pouca iluminação artificial, é bastante explorada no filme, aparecendo tanto durante o trabalho da personagem, quanto em seu momento de descanso. Ou que seria de descanso, já que, com medo de voltar para casa e encarar um marido abusivo e violento, ela, assustada, tenta passar o tempo longe de sua residência. A opção por não mostrar a figura do opressor, inclusive, o torna ainda mais aterrador.

A diretora sabe que está lidando com o suspense, mas, principalmente, que está lidando com a dor e com os sentimentos de uma mulher abalada pela opressão e pela violência doméstica. E por isso há também uma ênfase na união feminina imediatamente após a cena mais antológica do filme, que é a cena em que ouvimos "Don't Cry", do Guns N' Roses. Após a catarse da referida cena, estamos já tão fragilizados com tudo, que ver uma colega de trabalho de Vivi oferecendo mais tempo para ela ficar em sua casa aumenta ainda mais o misto de sentimentos, entrando em cena a gratidão.

Ana Carolina Soares também tem consciência da necessidade de explorar o extracampo, nas cenas em que a protagonista aparece mais de perto, mas há cenas em que os planos gerais se mostram necessários para trazer suspense. Três exemplos: a cena no bar, com as quatro mulheres tomando cerveja e a chegada de alguns motoqueiros fazendo acrobacias; a cena da entrada na casa, perto do final, quando segundos parecem durar minutos, daí o sentido perfeito da palavra "suspense"; e o momento final, com a aproximação ameaçadora de um carro.

Quanto à referida cena de "Don't cry", sua explosão de emoções se deve tanto ao poder da canção em si, quanto à situação da protagonista e às escolhas da cineasta para a construção do plano. Além do mais, há algo de muito simbólico com a escolha da parceira de cena de Vivi, a atriz, mulher, trans e negra Cristal Lopez, que já carrega em si, mesmo que não a conheçamos, a condição de pessoa marginalizada pela sociedade machista e violenta. A tristeza da situação explode ao final da canção. Até então o que se mostrava nas atitudes de Vivi eram sorrisos tristes, tentativas de esquecer os problemas. E o que vem a seguir, junto com o final tenso da canção, é também o pranto de Vivi.

Com tudo isso, não deve demorar muito para que ESTADO ITINERANTE seja abraçado como um dos clássicos da nossa cinematografia.

Texto originalmente publicado no site da Aceccine, por ocasião de uma mostra dedicada a filmes premiados pela associação desde sua fundação.

+ TRÊS FILMES

FORO ÍNTIMO

Queria ter me envolvido mais com o drama do juiz que é obrigado a ficar preso no próprio ambiente de trabalho para não ser assassinado. O filme utiliza de um fechamento da janela de aspecto para passar uma sensação de sufocamento e perturbação do personagem. Nem sempre funciona de maneira eficiente, mas gosto do visual, da fotografia preto e branco, dos poucos personagens que aparecem. E o ator principal tem pelo menos um momento de surto que deveria destacá-lo como um ator conhecido e importante. Direção: Ricardo Mehedff. Ano: 2017.

HEBE - A ESTRELA DO BRASIL

Que bela surpresa esta cinebiografia de Hebe Camargo, aqui brilhantemente interpretada por Andrea Beltrão, uma atriz que é adorada por gerações e gerações de crianças, jovens e adultos. O filme faz parte dessa leva de filmes de personalidades importantes do Brasil que ajudam a compor mais e mais a nossa história. Excelente a escolha da roteirista Carolina Kotcho de ambientar a trama apenas em determinado período da vida de Hebe, no caso, o ano de 1985. Há cenas verdadeiramente emocionantes. Nem é preciso ser fã da Hebe ou conhecedor de sua história. O filme de Farias é hábil também em dar alfinetadas com muita classe nesse governo atual. Assim, cada filme brasileiro é mesmo um gesto político. Vamos ao cinema ver filmes brasileiros, minha gente! Direção: Maurício Farias. Ano: 2019.

DIAS VAZIOS

Sinto-me atraído por histórias de solidão e sentimento de vazio de jovens, tanto em cidades grandes quanto em cidadezinhas. As histórias acompanham dois casais que se cruzam tanto pelo caminho real quanto pelo caminho da ficção, já que um dos rapazes está escrevendo um livro sobre o outro casal. A saída de cena de um dos personagens diminui um pouco o impacto do filme e eu saí do cinema pensando em não ter gostado do resultado. Mas aos poucos, em minha memória afetiva, o filme tem crescido, principalmente no modo corajoso como termina. Aliás, isso é meio que mérito do premiado romance do qual ele é adaptado. Bela estreia na direção de Robney Bruno Almeida. Ano: 2018.

domingo, abril 26, 2020

METRÔ DE NOVA YORK (SUBWAYStories: Tales from the Underground)

Curioso como eu escrevi sobre A NOITE DO DESEJO, de Fauzi Mansur, e esqueci de mencionar uma cena que muito me incomodou: a de um dos protagonistas se aproximando de mulheres no ônibus para se aproveitar sexualmente delas. Não que o filme e seu diretor sejam a favor de tal ato: apenas era algo presente na característica machista e abusiva do personagem, que mais à frente teria suas máscaras postas no chão. Na década de 1970, inclusive, essa coisa de se roçar nos ônibus seria sucesso imenso de público com A DAMA DO LOTAÇÃO, de Neville d'Almeida.

E por que falei sobre isso? Porque o melhor segmento de METRÔ DE NOVA YORK (1997) é o dirigido por Abel Ferrara, "Love on the A Train", no qual um homem (Michael McGlone) começa a ter um tipo de relação silenciosa com uma mulher (Rosie Perez) no metrô. No primeiro dia do encontro, ela, uma total estranha, toca a mão dele e lentamente a escorrega até encostá-la em seu sexo. A princípio, ele chega a imaginar que pode ser algum tipo de coincidência ou algo vindo da mente dele, mas todos os dias, no mesmo horário, os dois repetem e ampliam esse contato silencioso e extremamente sensual. Curiosamente, Ferrara já havia se mostrado adepto de situações eróticas dentro do metrô em uma cena de O REI DE NOVA YORK (1990).

O que temos aqui é um exemplar bem mais leve do que estamos acostumados a ver de Ferrara, por mais que o conto seja sobre um homem que se vê dividido entre a esposa, vivida por Gretchen Mol, que trabalhou com Ferrara em OS CHEFÕES (1996), e aquela mulher misteriosa e que poderia significar a ruína de seu casamento. Então, há a pulsão erótica, mas há também o homem dividido e profundamente tentado pelo pecado, se formos ver o curta por um viés católico, como é o cinema de Ferrara.

METRÔ DE NOVA YORK foi um projeto da HBO que contou com a colaboração de dez diretores. O canal fez um concurso solicitando a cidadãos nova-iorquinos a escreverem histórias reais sobre suas experiências no metrô da megalópole. As histórias vencedoras seriam adaptadas para um filme. Soube no IMDB que Spike Lee chegou a dirigir um segmento, mas que não chegou a uma edição final. Uma pena. Até porque os nomes mais ilustres da lista de diretores são apenas os de Ferrara e de Jonathan Demme, que abre e encerra o filme, em tom alegre.

Entre as outras boas histórias, destaco "The Red Shoes", dirigida por Craig McKay, em que um cadeirante entra em um vagão pedindo esmola e afirmando ser um veterano de guerra e que acaba por se desentender com uma mulher; "The 5:24", de Bob Balaban, com a participação brilhante de Jerry Stiller, como uma espécie de misterioso conselheiro para um jovem executivo; e "Sax Cantor Riff", de Julie Dash, que tem uma bela cena de uma moça cantando lindamente em um orelhão.

Enfim, por mais que o resultado seja bem irregular, o que já é de se esperar de um filme de segmentos com tantos diretores, vale a conferida, principalmente, claro, pelo ótimo material entregue por Ferrara.

+ TRÊS FILMES

AS FÁBULAS NEGRAS

O filme que escolhi para homenagear o nosso querido José Mojica Marins no dia do seu falecimento foi este seu último trabalho na direção, ao participar desta produção a oito mãos com outros três nomes mais recentes do horror brasileiro. Nos créditos finais, o Mojica diz que até preferia ter a história do Saci contada com um menino de uma perna só apenas, mas, sendo um projeto do Aragão, a criação de um monstro mais aterrorizante para o papel do habitante da mata até que foi uma boa ideia. Das cinco histórias (duas são do Aragão), a que eu mais gosto é a do Petter Baiestorf, sobre a maldição de um lobisomem nos pampas. Gosto do andamento, do sangue jorrando e de sua bela conclusão. No mais, temos Loira do Banheiro (Joel Caetano), um monstro do esgoto e a Iara (ambos por Aragão). Bom compilado com aquela cara de produção feita por amigos para se divertir e exaltar o gênero horror com muito gore. Direção: Rodrigo Aragão, Petter Baistorf, José Mojica Maris e Joel Caetano. Ano: 2015.

O ÚLTIMO TRAGO

Não é um filme fácil, mas com um pouco de boa vontade para ver algo mais experimental e menos óbvio é possível apreciar a beleza de O ÚLTIMO TRAGO, do coletivo Alumbramento. Gosto especialmente do segundo e mais longo ato, em janela scope, que se passa quase todo em um bar abandonado em um sertão. Há duas cenas cantadas muito boas e há um cuidado com a direção de arte e com pequenos detalhes que chama a atenção. E temos os recortes de literatura que pontuam várias falas dos personagens, como que para enfatizar seus posicionamentos ideológicos, nem sempre fáceis de compreender, mas que são um convite à reflexão. Ainda gosto bem mais de COM OS PUNHOS CERRADOS (2014), como obra política, mas este aqui também me ganhou. Direção: Pedro Diogenes, Luiz Pretti e Ricardo Pretti. Ano: 2016.

HISTÓRIAS DE ESTOCOLMO (Stockholm Stories)

O único filme que pude ver (com sono, depois de um dia cansativo de trabalho) da Mostra de Cinema Nórdico acabou não me agradando muito. Me pareceu uma série de histórias bobas com potencial para serem boas. A maioria dos personagens ou é chato ou é desinteressante. Ainda assim, a sala do Cinema do Dragão estava lotada, teve apresentação de dois cônsules (um da Suécia e outro da Dinamarca, o mais engraçado) e uma embaixadora da Noruega (acho). Todos muitos simpáticos e dispostos a usar o português para se comunicar com a plateia. Bem legal. Direção: Karin Fahlén. Ano: 2013.

sábado, abril 25, 2020

A NOITE DO DESEJO

É tentador fazer de imediato uma comparação deste A NOITE DO DESEJO (1973), de Fauzi Mansur, com o clássico de Walter Hugo Khouri NOITE VAZIA, ou até mesmo com outros exemplares khourianos, que costumam apresentar homens à procura de sexo para não apenas satisfazer seus instintos mais primitivos, como também preencher algum vazio na alma. Então, o filme de Mansur seria uma versão bem menos existencialista e chique, já que o que vemos aqui são dois trabalhadores pés-rapados em busca de prostitutas que possam oferecer um serviço que eles possam pagar.

Os personagens são vividos por Ney Latorraca (Toninho) e Roberto Bolant (Giba) e somos apresentados à pobreza deles logo nas cenas iniciais. Toninho, por exemplo, mora com a mãe em uma casa que mal tem água encanada, e namora uma moça bonita do subúrbio. Sexo antes do casamento, nem pensar para a moça. Aliás, que bonito quando os dois estão dando uns amassos e ao fundo ouvimos "Você não me esqueceu", do cancioneiro de Roberto Carlos, tão presente em tantos filmes da Boca do Lixo e em produções cariocas também.

Soube, lendo o excelente texto de Andrea Ormond, presente no livro Ensaios do Cinema Brasileiro - Vol. 1, que a trama paralela que acontece no filme e que, a princípio, parece destoar um pouco da principal, foi incluída porque a obra de Mansur foi retalhado pela censura. Então, a solução, muito inventiva, aliás, foi criar uma trama à parte para correr em paralelo que também envolvesse o universo da prostituição. Na tal trama, vemos a prostituta grávida Selma (Selma Egrei, linda!) e o namorado do interior que sai à sua procura nos bordéis, vivido por Ewerton de Castro.

No fim das contas, o resultado acabou deixando o filme até mais rico e mais charmoso. Mérito da equipe de primeira linha do filme. Vejam só: a fotografia ficou a cargo de dois gigantes: Ozualdo Candeias e Antonio Meliande; a montagem foi feita por Inácio Araújo e pelo próprio Mansur, com assistência do monstro Jean Garrett; e o roteiro foi co-assinado com Luiz Castellini, que fez pequenos clássicos da nossa pornochanchada.

Naquela época - início dos anos 1970 - o grafismo nas cenas de sexo ainda era muito sutil nas produções eróticas brasileiras. Por isso, vemos, por exemplo, a personagem de Marlene França, uma das prostitutas e talvez a personagem mais rica do filme, escondendo sua nudez na cama em determinado momento. Aquilo só se justificaria por um tipo de autocensura e não por certo pudor partindo de uma profissional do sexo segura de si.

A montagem feita para salvar o filme (e ainda bem que o salvou), por mais que o tenha deixado charmoso e bonito, sem falar que é brilhante a edição do clímax, alternando as duas tramas paralelas freneticamente; apesar disso, deixou algumas coisas um tanto confusas, como um possível acordo existente entre os personagens de Bolant e Betina Viany. Além do mais, a chegada da polícia no hotel de (décima-)quinta categoria parece também um pouco estranha, por mais que, de propósito ou não, possa trazer uma espécie de alegoria tanto do Brasil do auge dos anos de chumbo quanto da situação do próprio filme retalhado.

Porém, como grandes filmes são feitos de grandes cenas, não há como negar que há muitas delas em A NOITE DO DESEJO. A conversa no bordel enquanto esperam a vinda da segunda garota de programa; a chegada no hotel vagabundo; o encontro de Pedrinho (Ewerton de Castro) com sua ex-noiva nas ruas dos bordéis e clubes de striptease; o amanhecer chegando no hotel do Centro; a cena de Toninho pedindo dinheiro à noiva no ônibus. É cinema de dar gosto. Torto, sujo e feito com brilhantismo por uma turma que sabia o que fazia.

+ TRÊS FILMES

SEXO - SUA ÚNICA ARMA

Se não fosse a conclusão, eu poderia dizer que se trata de uma pequena joia quase esquecida ou subestimada do cinema brasileiro. Ainda assim, não fica a dever a muitos filmes exploitation de vingança produzidos nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia. Na trama, Selma Egrei interpreta uma jovem mulher que é adotada por uma família de descendentes de italianos. Ela se faz de cega para plantar o caos naquele lugar. Fica logo claro isso e fica também muito divertido quando ela começa a transar com os homens da família. Talvez tenha faltado mais força na parte do horror e em uma conclusão mais satisfatória. O que fica é mais a tragédia da família do que o gosto da vingança da mulher. Selma Egrei já havia trabalhado com o então já veterano diretor Geraldo Vietri em ADULTÉRIO POR AMOR (1979). Ano: 1981.

QUARTO CAMARIM

Acredito que seja um filme que ficará presente na memória por um bom tempo, mesmo com suas imperfeições. Ou sei lá se dá pra chamar assim. Acho que trata-se mais da relação da gente como o filme, do quanto criamos certas expectativas que são frustradas. Na trama, uma sobrinha busca reencontrar a seu tio Roniel depois de 27 sem qualquer contato. Porém, seu tio agora se chama Luma, é travesti, performer, trabalha como cabeleireira e vive em São Paulo. Direção: Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Ano: 2017.

A GAROTA DO CALENDÁRIO

Não sou tão fã do cinema de Helena Ignez como diretora, mas uma vez que a gente já sabe que verá um filme fora dos padrões comuns, é bem agradável de ver. Só que eu queria ver mais Djin e menos Guerreiro. Mas o personagem dele é muito legal, sim. E a questão do sonho versus realidade é uma das coisas que eu mais gosto no filme. Mais do que as frases de efeito colocadas para os personagens. O legal é que lembra algumas coisas do cinema dos anos 60-80. Ano: 2017.