sexta-feira, setembro 22, 2006

PAIXÕES QUE ALUCINAM (Shock Corridor)



"Sam Fuller não é um iniciante, ele é um primitivo; sua mente não é rudimentar, ela é rude; seus filmes não são simplistas, eles são simples; e é essa simplicidade que eu mais admiro."
(François Truffaut)

Foi só agora, vendo PAIXÕES QUE ALUCINAM (1963), que eu entendi o porquê da crítica americana ter subvalorizado a obra de Samuel Fuller. Pelo menos até os jovens cineastas franceses da Nouvelle Vague começarem a cultuar e a louvar o trabalho do cineasta. Esse foi apenas o quarto filme de Fuller que eu vi e o primeiro que percebo com mais força um estilo que fornece munição para que os detratores o chamem de trash ou algo parecido. Claro que hoje em dia esse tipo de comentário é quase impossível de se ver, tendo em vista a fama e o respeito que o cineasta adquiriu.

PAIXÕES QUE ALUCINAM conta a história de um jornalista (Peter Breck) que se faz de louco para entrar num hospício com dois objetivos: a) descobrir quem foi o autor de um assassinato mal resolvido; e b) ganhar o prêmio Pulitzer pelo furo de reportagem. Constance Towers, que também pode ser vista no filme imediatamente posterior de Fuller, O BEIJO AMARGO (1964), faz o papel de namorada do jornalista. Ela também se disfarça de dançarina de boate para fins jornalísticos, mas é totalmente contra o fato de o namorado se submeter a tal situação, sob o risco de se tornar, ele também, um louco. Lembrando que em O BEIJO AMARGO Constance também fingia ser o que não era. Ou ao menos, tentava esconder o seu passado. Assim como esses personagens, Fuller talvez fosse uma espécie de contrabandista. Falava de política e de problemas sociais em seus filmes disfarçados de filmes exploitation ou de gênero.

A influência de PAIXÕES QUE ALUCINAM em outros filmes de manicômio conhecidos, como O ESTRANHO NO NINHO ou BICHO DE SETE CABEÇAS, é evidente. Inclusive, comparando com o filme brasileiro, há uma semelhança muito grande entre o personagem do Ceará no filme de Laís Bodanszky e o do gordo que fica cantando ópera no ouvido de Peter Breck. Suspeito que Laís fez uma espécie de homenagem a Fuller no seu trabalho.

PAIXÕES QUE ALUCINAM foi filmado em preto e branco, mas as seqüências de delírio dos personagens aparecem em cores. A impressão que eu tinha era de que as seqüências em cores não haviam sido filmadas por Fuller, mas me enganei. Soube pelo blog de André ZP que o cineasta dirigiu ele mesmo essas seqüências fora dos Estados Unidos.

O filme tem o seu fascínio, mas tenho que confessar que o achei um pouco cansativo, ainda que dê um gás lá pelo final. Dos filmes de Fuller que vi, foi o que menos gostei. Talvez também pelo fato de ter assistido com legendas em espanhol, o que normalmente me dá nos nervos. Fico sem saber o que prestar atenção: se no áudio em inglês ou na legenda. Por isso que o espanhol é sempre a terceira opção quando estou atrás de legendas para divx. Inclusive, só apelei para o divx porque não encontrei o DVD da Aurora nas locadoras daqui da cidade.

quinta-feira, setembro 21, 2006

CARL TH. DREYER - RADIOGRAFIA DA ALMA (Carl Th. Dreyer: Min Metier)



Documentário presente na caixa lançada pela Magnus Opus, CARL TH. DREYER - RADIOGRAFIA DA ALMA (1995), de Torben Skjødt Jensen, dá uma geral na obra de um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. Como o filme contém trechos de filmes do mestre, depoimentos de pessoas que trabalharam com ele, além da leitura de reflexões do próprio cineasta, não tem como ser ruim. Mas é o tipo de documentário que funciona melhor mesmo como extra de DVD. E é recomendado principalmente a quem já viu os filmes de Dreyer, especialmente DIAS DE IRA (1943) e A PALAVRA (1955), já que são mostradas cenas cruciais dessas obras-primas.

O que eu senti falta no documentário foi da total ausência de A QUARTA ALIANÇA DA SRA. MARGARIDA (1920). Depois de THE PRESIDENT (1919), o documentário fala um pouco de PÁGINAS DO LIVRO DE SATÃ (1921) e de MIKAEL (1924) e parte logo para aquele que é dos três filmes mais importantes de Dreyer: A PAIXÃO DE JOANA D'ARC (1928). Com direito a depoimento da filha de Maria Falconetti, Hélène Falconetti. Ela não dá muita corda para a lenda que diz que Dreyer era excessivamente perverso com suas atrizes. Mesmo assim, o fato de Falconetti ter abandonado o cinema logo depois de fazer esse filme ainda passa a impressão de que ela ficou realmente traumatizada. Talvez por ter "entrado" de verdade na personagem, tendo inclusive topado fazer aquela forte cena da cabeça raspada.

O documentário apresenta também uma rápida visita ao castelo onde foi filmado O VAMPIRO (1932). Mas o grosso de material, até pela maior facilidade de encontrar pessoas vivas relacionadas aos filmes é mesmo dos três últimos trabalhos de Dreyer. A atriz de DIAS DE IRA, Lisbeth Movin, apesar da idade avançada, ainda apresenta aqueles olhos hipnotizantes de quando era jovem. Definitivamente, ela foi uma escolha perfeita para o papel. Ainda sobre DIAS DE IRA, o documentário fala um pouco sobre aquela história fascinante e maior exemplo da crueldade de Dreyer, de quando ele deixou aquela pobre senhora que faz a cena da fogueira amarrada enquanto todos pararam a filmagem para almoçar. A velhinha deve ter chorado o dia inteiro depois disso.

Como havia pouco material do próprio Dreyer falando, o filme utiliza o recurso da leitura de frases de efeito e de manuscritos do cineasta. Dreyer não teve uma vida tão extraordinária fora dos filmes como um Werner Herzog ou um Roman Polanski e talvez por isso tenha recusado tantas vezes em fazer o documentário. Só aceitou quando concordaram em focalizar mais na obra do que na vida, o que foi uma escolha lógica.

quarta-feira, setembro 20, 2006

PAUL McGUIGAN EM TRÊS FILMES



De vez em quando acontece de eu me interessar pela obra de um diretor, tendo visto apenas um único filme dele. Pode ser bobagem, já que existem diretores que só tem no currículo um só filme de respeito, sendo que o restante seria de filmes medíocres. O escocês Paul McGuigan me chamou a atenção quando eu assisti PAIXÃO À FLOR DA PELE (2004), belíssimo filme romântico que lida com conspirações do destino e Lei de Murphy. Ao menos, foi assim que eu o vi. Esse foi o primeiro trabalho dele em Hollywood e pra mim continua sendo, de longe, o seu melhor filme. No último final de semana estreou XEQUE-MATE (2006), com um elenco estelar e a retomada da parceria com o jovem ator Josh Hartnett. Aproveitando a estréia do novo filme, peguei pra ver mais dois filmes de McGuigan. Abaixo, o velho esquema curto e grosso, rápido e rasteiro.

OS GÂNGSTERS (Gangster No. 1)

O que mais me chamou a atenção nesse filme foi o desempenho de Paul Bettany. Não tinha percebido o quanto ele é bom, o quanto ele é mal aproveitado nos filmes. Em OS GÂNGSTERS (2000), Bettany é um jovem gângster de espírito maligno que não hesita em matar e matar para atingir os seus objetivos. Malcom McDowell é o mesmo gângster, só que mais velho. Ele que narra a estória e aparece apenas no começo e no final. Impressionante como o filme cai quando McDowell retorna. Se o diretor tivesse excluído McDowell e colocado algum tipo de maquiagem para envelhecer Bettany, como fizeram com David Thewlis, com certeza teríamos um resultado melhor. Impressionante a expressão diabólica de Bettany em vários momentos do filme. Nesse filme, McGuigan já demonstrava um certo apuro visual que se tornaria evidente nos trabalhos posteriores. Gravado da Globo.

CRIME DE PAIXÃO (The Reckoning)

O diretor gostou tanto do trabalho de Bettany que recrutou o ator para protagonizar CRIME DE PAIXÃO (2003), filme que se passa na Idade Média e que conta também com Willem Dafoe. Suspeito que Bettany foi chamado para fazer O CÓDIGO DA VINCI depois que os executivos o viram nesse filme, já que o figurino usado por ele é bastante parecido nos dois filmes. O maior problema desse filme é a estória, pouco envolvente. Na trama, Bettany é um padre fugitivo que ingressa num grupo circense. O grupo alcança visibilidade numa vila quando decide encenar um controverso assassinato. Também no elenco, Vincent Cassel. Visto em DVD.

XEQUE-MATE (Lucky Number Slevin / Lucky # Slevin / Lucky Number S7evin)

Com um elenco de peso desses, bem que XEQUE-MATE podia ter sido melhor vendido pela distribuidora. Além de Josh Hartnett, o filme conta com Bruce Willis, Lucy Liu, Morgan Freeman, Ben Kingsley e Stanley Tucci. Josh Hartnett é um rapaz que se envolve com dois chefões do crime depois de ter sido confundido com outra pessoa. A estória é intrincada, mas é bem divertida de acompanhar. É o caso de filme onde nada é o que parece. Lucy Liu está uma graça como o interesse amoroso do protagonista. Mas no geral, não tenho muito o que dizer sobre o filme. É o tipo de diversão escapista tão fácil de ver quanto de esquecer. Visto em divx.

P.S.: Tem coluna nova no CCR, abordando o tema da memória.

terça-feira, setembro 19, 2006

A CASA DO LAGO (The Lake House)



"There is something that you should know
Girl of your dreams is
Here all alone
The girl of your dreams is
Sad and is all alone"

(Morrissey - "Southpaw")

Quando estou sozinho, costumo acreditar que em algum lugar do mundo a mulher dos meus sonhos está vivendo a sua vida, provavelmente também insatisfeita e sentindo-se incompleta. Não sei se acredito em alma gêmea, mas acredito em química perfeita entre duas pessoas, o que talvez seja a mesma coisa. O cinema, como forma de arte mais próxima do sonho, tem o poder de tornar real aquilo que só existe em nossa imaginação. No cinema, o que é impossível torna-se possível. O tema do amor impossível e que ultrapassa barreiras, tantas vezes utilizado em uma infinidade de filmes, de vez em quando encontra uma brecha original. A CASA DO LAGO (2006), de Alejandro Agresti, é uma dessas obras. Na verdade, o filme propriamente dito nem é tão original assim, já que trata-se de uma refilmagem do coreano SIWORAE (2000), mas para nós, espectadores ocidentais, essa é uma história bem nova. E duvido que o filme coreano tenha a mesma delicadeza do filme de Agresti.

A CASA DO LAGO é a história de duas pessoas separadas pela barreira do tempo. Dois anos os separam; uma caixa de correio os une. Keanu Reeves está em 2004, Sandra Bullock, em 2006. Ambos na mesma casa. O principal objetivo dos dois é encontrar uma maneira de driblarem o destino e se encontrarem. O que me pareceu um pouco vago no filme foi o momento em que eles iniciam a troca de correspondências. Na minha cabeça, ficou nublado o ponto inicial do relacionamento epistolar dos dois. Não lembro quem começou primeiro a escrever e de que maneira. Porém, essa "névoa" torna o filme ainda mais mágico, mais próximo do sonho.

Agresti fez um trabalho brilhante de manipulação da audiência - no bom sentido do termo . Ao mesmo tempo em que há uma preocupação para que o público entenda as alternâncias de tempo para poder "entrar" na história, em alguns momentos há a intenção mesmo de confundir, como na cena do aniversário dela, ou no momento em que ela procura uma imobiliária, lá pelo final do filme. No meio de tudo isso, destaco uma cena maravilhosa, que é a do momento em que os dois se encontram no alpendre. Ele sabia quem era ela; ela não fazia a menor idéia de quem era ele. E ele não podia falar muito, sob o risco de mudar o curso do destino, podendo inclusive, matar a relação dos dois. Pra mim, essa é a grande seqüência do filme, a que o justifica.

Há poucos coadjuvantes na trama. Os que mais se destacam são: a médica interpretada por Shohreh Aghdashloo, o pai do personagem de Keanu Reeves, interpretado por Christopher Plummer, e Dylan Walsh, de NIP/TUCK, vivendo o namorado de Sandra Bullock. Eles servem mais de apoio para que o filme não se sustente apenas na troca de correspondências do casal. Mesmo nas seqüências de correspondência, há toda uma dinâmica no modo como o casal se comunica.

Deu um pouquinho de trabalho pra eu ver esse filme. A CASA DO LAGO esteve entre as estréias dessa semana em Fortaleza. Pelo roteiro cultural, o filme estaria passando em duas salas: no Shopping Iguatemi e Shopping Aldeota. Sábado eu estava meio cansado e revoltado com algumas coisas e queria ver um filme especial. Soube atráves de um amigo que o filme não estava passando no Iguatemi; assim, fui para o Shopping Aldeota logo no começo da tarde. O que aconteceu foi que a cópia do filme ainda não havia chegado na cidade. Voltei para casa frustrado. À noite, minha irmã foi ao cinema e me conta que conseguiu ver o filme no Iguatemi. A cópia já havia chegado. Assim, no domingo, vi o filme, numa dobradinha com ABISMO DO MEDO. Não foi o tipo de filme para me fazer chorar - talvez por causa da trama um pouco intrincada - mas ainda assim foi bom demais. E como eu sou fascinado por temas como viagens no tempo e afins, o filme inteiro pra mim foi um deleite.

segunda-feira, setembro 18, 2006

ABISMO DO MEDO (The Descent)



Pra quem estava reclamando da qualidade dos recentes exemplares do gênero horror, eis que chega às telas brasileiras ABISMO DO MEDO (2005), filme contra-indicado pra quem tem problema de claustrofobia mas indicado a todos que querem ver um ótimo filme. A direção é do inglês Neil Marshall, que já havia renovado o subgênero "filme de lobisomem" com o eficiente DOG SOLDIERS - CÃES DE CAÇA (2002). Com ABISMO DO MEDO, Marshall passa imediatamente à categoria de mestre do gênero. O melhor é ver o filme sabendo o menos possível sobre a trama, para que as surpresas e os sustos funcionem com força total. O fato de ABISMO DO MEDO ser totalmente estrelado por mulheres dá um sabor especial ao filme, principalmente por causa do fator 'fragilidade'.

Na trama, um grupo de seis mulheres vai a um passeio um pouco incomum: explorar uma caverna nas Montanhas Apalaches nos Estados Unidos. Só depois que elas ficam presas, após um soterramento, é que uma delas avisa que o local era inexplorado, para desespero do grupo. Como se não bastasse o horror de se sentir enterrado vivo naquele lugar, há perigos ainda mais assustadores à espreita. Embora as criaturas que habitam a caverna demorem um bocado para aparecer, ABISMO DO MEDO já se assume como filme de horror no prólogo, que mostra o acidente violento que mata o marido e a filha de uma delas. Além do mais, quando as seis partem em seus carros para a aventura, a câmera vista do alto e a trilha sonora em tom de mistério já prenunciam que algo de perturbador está prestes a acontecer.

Até aí nada de original. Quase todos os filmes de horror que lidam com viagens a lugares estranhos são assim. Mas o que diferencia ABISMO DO MEDO do grosso do gênero é a competência do diretor em criar um clima tenso e realmente assustador. O som que as criaturas emitem parece um grunhido de porco - quem já viu um porco sendo esfolado sabe o quanto isso é perturbador - e os efeitos especiais e de maquiagem também são outro ponto forte. Nem dá pra perceber se há utilização de CGI. Como a fotografia privilegia a escuridão, deu pra disfarçar qualquer possível imperfeição nos efeitos. Mas o maior destaque é mesmo o final, que eu não vou contar aqui, claro, mas fecha com chave de ouro esse belo filme. Queria saber como é o final alternativo, exibido nos cinemas americanos. ABISMO DO MEDO disputa a minha preferência o título de melhor filme de terror do ano, junto com ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO e QUANDO UM ESTRANHO CHAMA.

sexta-feira, setembro 15, 2006

CRIME DELICADO



Difícil falar de uma obra que eu não entendi direito. Ao mesmo tempo, CRIME DELICADO (2005) é o tipo de filme que me fez ficar pensando nele durante um bom tempo, sem ainda conseguir encontrar respostas para as várias perguntas. A primeira delas pode resumir todas as outras: afinal de contas, CRIME DELICADO é sobre o quê? Sobre amor, sobre arte, sobre crítica? Daí surgem as outras perguntas, mais específicas: o crítico é maluco?, o pintor é um charlatão?, sua obra é pornográfica?, a modelo está sendo usada como objeto ou alcançando a libertação? E mais: qual o objetivo principal daquelas cenas de peças teatrais?

Mas é melhor eu parar com tantas perguntas, senão isso aqui vai ficar parecendo uma entrevista que conta com a participação apenas do entrevistador. Assim, ainda confuso em estabelecer o que senti ou pensei sobre o filme, vou aos poucos tentando descrever minhas impressões.

Antes de mais nada, não custa lembrar que CRIME DELICADO foi durante muito tempo um dos filmes mais aguardados do ano pra mim. Isso porque eu sou daqueles que consideram O INVASOR (2002) o melhor filme brasileiro dos últimos, sei lá, dez ou quinze anos. Por isso que não deixa de ser um pouco frustrante perceber que o novo filme de Beto Brant é totalmente diferente dos seus três primeiros filmes, mais parecidos com thrillers policiais. Dessa vez, Brant abandona os travellings e utiliza mais câmera parada, abandona os espaços abertos e se fecha em quatro paredes, abandona o modelo clássico-narrativo para ingressar nas experimentações da vanguarda.

Antes mesmo de eu ver o filme, já havia ficado impressionado com a coragem de Lilian Taublib, a moça que, na adolescência, perdeu uma perna por conta de um câncer e que aceitou fazer o papel de Inês, uma modelo que mora num ateliê de um pintor (Felipe Ehrenberg) que explora o seu corpo para produzir suas obras, que se apoiam no fetichismo, no corpo incompleto da moça.

Pra mim, o melhor momento do filme é o do primeiro encontro de Inês com o crítico Antonio Martins (vivido por Marco Ricca). Ela está sozinha num bar bebendo e Antonio se encanta com sua beleza e seu senso de humor. Outro grande momento vem logo em seguida, quando os dois vão para a casa de Inês e ele fica parado sem saber o que fazer. Depois disso, o filme vai ficando cada vez mais estranho e fragmentado, meio que um misto de teatro, cinema, artes plásticas e documentário.

A improvisação fica mais explícita nas cenas do bar, quando Antonio, já sentindo a paixão forte por Inês, começa a prestar atenção na vida ao seu redor. Dessa vez, sentindo-se também um participante, não apenas um observador. Inclusive, na cena em que aparece o cineasta Cláudio Assis, Ricca não passa desapercebido quando olha para a briga do casal de bêbados. Outro convidado ilustre que participa do filme é o escritor cearense Xico Sá - inclusive, não deixem de ler esta entrevista dessa figura.

Numa entrevista para a revista Teorema (edição nº 9), Beto Brant afirmou que uma chave de compreensão para o filme está no discurso final de Felipe Ehrenberg. Engraçado que como eu tomei partido desde o início do personagem do Marco Ricca, eu tive a tendência de vilanizar o personagem de Ehrenberg. Eu, erroneamente, estava vendo o filme como uma obra maniqueísta. Assim, eu via o personagem do crítico como vítima, talvez por me identificar um pouco com sua dificuldade de se socializar. E como ele é o protagonista, essa identificação se torna ainda mais fácil.

Mais agradável de ver que o próprio filme é o documentário com o making of, que vem presente no DVD da Videofilmes. O documentário é também uma maneira de ver o quanto Marco Ricca foi importante para o projeto (quase um segundo diretor), o ponto de vista do diretor de fotografia Walter Carvalho, e, principalmente, de conhecer um pouco mais sobre essa pessoa fascinante que é Lilian Taublib. Imperdível.

quinta-feira, setembro 14, 2006

THE COOLER - QUEBRANDO A BANCA (The Cooler)



Não sei se THE COOLER - QUEBRANDO A BANCA (2003) chegou a passar nos cinemas de Fortaleza. Acho que não. Meu interesse pelo filme surgiu graças ao ótimo NO RASTRO DA BALA (2006), visto recentemente. Fiquei curioso para conferir o filme que trouxe a fama, ainda que discreta, para o diretor Wayne Kramer. Não vi muita semelhança entre os dois filmes, mas ainda é cedo para estabelecer critérios de autoria nos filmes do diretor - se é que existem. O que aparece de recorrente em THE COOLER é o tipo de personagem interpretado pelo sempre muito bom William H. Macy, que ficou marcado por representar losers. Difícil de esquecer do corno deprimido de BOOGIE NIGHTS e do gênio mirim que vira um fracassado quando adulto de MAGNÓLIA, ambos de P.T. Anderson.

Dessa vez, o ator leva isso às últimas conseqüências, interpretando um sujeito azarento, que ganha a vida trabalhando de "cooler" ("pé frio") num cassino em Las Vegas. É só ele chegar perto do cara que está ganhando no jogo, que o sujeito rapidinho começa a perder tudo. Ele é tão azarado que sempre que vai tomar o café, o creme acaba justo quando chega a vez dele. Sua vida passa a mudar quando ele começa um relacionamento com a garçonete interpretada por Maria Bello. Em vez de passar azar para os jogadores, ele passa a trazer sorte. Mas as coisas não são tão simples assim e o personagem de Alec Baldwin é muito importante para a complicação da trama.

Alec Baldwin, inclusive, foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante por esse papel. Graças ao personagem de Baldwin, THE COOLER atrai também a atenção dos espectadores mais interessados no aspecto violento do filme, que o aproxima dos filmes de gângsters. Porém, o que mais me chamou a atenção no filme foi mesmo o romance pouco comum entre os personagens de Macy e Maria Bello, que até aparecem em cenas de nudez, apesar de seus corpos não serem perfeitos, ajudando a passar maior realismo e humanidade aos personagens. No entanto, mesmo com suas qualidades, o filme não dá aquele salto que faz de um pequeno filme uma grande obra. O que não quer dizer que não valha a pena dar uma conferida.

P.S.: Vale a pena dar uma conferida no curta SOZINHO no blog do André ZP.

quarta-feira, setembro 13, 2006

O PODEROSO CHEFÃO (The Godfather)



Uma das poucas unanimidades que eu conheço entre cinéfilos e críticos é O PODEROSO CHEFÃO (1972). Quer dizer, pode até ter quem não goste do filme, mas até hoje eu não vi se pronunciar. O filme é uma das obras mais respeitadas e cultuadas da história do cinema. E não é pra menos. Em que outro filme podemos ver Al Pacino, Marlon Brando, Robert Duvall e James Caan juntos e dirigidos por Francis Ford Coppola? E ainda por cima, com aquela música maravilhosa de Nino Rota e a fotografia esplêndida de Gordon Willis? E pensar que Coppola quase foi demitido, que os produtores não gostaram da música de Rota, que ninguém acreditava que Marlon Brando seria o intérprete perfeito para Don Corleone, entre outras coisas difíceis de acreditar.

Interessante que Coppola, de início, não se interessou pelo projeto e só aceitou fazer porque estava muito endividado e a Paramount fez um acordo com ele que anistiava uma dívida que ele havia contraído em sua atividade como produtor independente. Ao contrário do que muita gente imagina, O PODEROSO CHEFÃO não é uma super-produção. O maior salário do filme era mesmo de Marlon Brando e se economizou bastante nas filmagens.

Pra um filme cheio de momentos gloriosos, fica até difícil selecionar uma seqüência favorita, mas se eu fosse escolher uma eu escolheria aquela em que contracenam juntos Al Pacino, James Caan e Robert Duvall no momento em que Michael Corleone (Pacino) mostra que não é mais o caçula que não suja as mãos com os negócios da família e que pretende, ele mesmo, matar o policial corrupto McCluskey. Quando a câmera se aproxima lentamente de Michael, machucado pelo soco que recebeu do policial, aquilo é um dos momentos mais mágicos da história do cinema. Meio como o despertar da besta. A cena da morte do McCluskey é outro primor, com aquele detalhe genial do som do trem passando segundos antes de Michael criar coragem e atirar nos seus dois inimigos.

O filme é tão repleto de momentos excepcionais que quando Coppola cortou boa parte da metragem com medo de que seu filme fosse levado para a edição em Los Angeles, Robert Evans, o produtor, pediu para que ele colocasse tudo de volta. Imagina só o filme com quarenta minutos a menos. Seria um desperdício. Um dos méritos de O PODEROSO CHEFÃO é o de justamente não se tratar apenas de um filme convencional de gângster e de ser muito sombrio e cheio de conversas em salas escuras. Falando em iluminação, o único momento que destoa do tom do filme é a parte em que Michael vai para a Sicília.

Vendo o filme com o comentário em áudio (legendado em português) de Coppola, soube de muitas curiosidades das filmagens. Algumas delas eu anotei:

- A primeira cena do filme começa com um close e segue com um lento recuo de câmera. Na época esse recurso foi bastante inovador.

- Coppola tirou proveito de um ator que estava muito nervoso porque iria contracenar com Marlon Brando e fez uma cena em que esse sujeito ensaia o que vai falar para o padrinho.

- O filme é cheio de familiares de Coppola. Além de Talia Shire, que faz a filha feia de Don Vito, o pai de Coppola compôs uma das tarantellas (música tradicional da Sicília), a moça que canta uma ária é prima do diretor, a mãe de Coppola aparece como figurante e a hoje cineasta Sofia Coppola, na época recém-nascida, aparece na cena do batismo no final do filme. Inclusive, Coppola mostra o quanto ainda é pai coruja. Não para de falar o quanto a Sofia era linda quando bebê.

- A cabeça de cavalo usada numa cena era de verdade. (Ok, essa todo mundo sabia.)

- A primeira tomada do filme foi a da cena de Al Pacino e Diane Keaton fazendo compras.

- George Lucas foi um dos assistentes de Coppola, tendo dirigido algumas cenas.

- Coppola foi uma espécie de cupido para Pacino e Diane Keaton. Os dois se apaixonaram durante as filmagens e ficaram juntos por um bom tempo.

- Coppola conta que uma vez quando estava num banheiro do estúdio ouviu dois caras conversando sobre ele: "Você viu esse novo diretor? O cara não sabe de nada, tem péssimas idéias." Dá pra acreditar?

- A cena da morte de Sonny (James Caan) foi inspirada em BONNIE & CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS.

Agora eu estou querendo comprar o DVD de O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (1974) para dar continuidade à revisão obrigatória dessa obra fantástica. Ah, como era bom quando Coppola fazia grandes filmes. O que diabos aconteceu com ele, hein? Acabou a inspiração? Ela foi embora com a sua juventude? De todo modo, ele pode se dar ao luxo de fazer qualquer besteira, já que o que ele fez na década de 70 o redime de qualquer JACK (1996) da vida.

terça-feira, setembro 12, 2006

HERENCIA



Tenho filmes mais importantes para comentar aqui no blog, mas hoje faz exatamente dois meses que eu vi HERENCIA (2001), de Paula Hernández, em São Paulo. Aliás, esse é o último filme visto em Sampa sobre o qual faltava eu escrever aqui. A boa lembrança que eu guardo do filme é mais extra-sessão, já que estava no meu quinto dia na capital nacional da economia e assisti o filme na companhia do amigo Michel numa das luxuosas salas do Reserva Cultural. E depois, ainda saímos com a Fer pra jantar. Foi o dia em que eu a conheci pessoalmente depois de mais de cinco anos de convivência virtual.

Quanto ao filme, trata-se de uma produção argentina muito simpática que demorou cinco anos para chegar ao Brasil. É o tipo do filme que faz a gente sair do cinema mais leve e feliz, embora não seja assim tão memorável. O personagem que desperta uma identificação maior com o público é o do alemão Peter (Adrián Witzke), que chega a Buenos Aires em busca de uma moça por quem estava apaixonado e que não via há mais de um ano. O rapaz, desorientado, vai parar num restaurante italiano chefiado por Olinda (Rita Cortese), uma senhora italiana que chegou na Argentina depois da Segunda Guerra Mundial. As circunstâncias que a trouxeram para a Argentina foram semelhantes às de Peter. Depois de ser recebido com um prato na cabeça por Olinda, ele ganha uma refeição grátis e acaba retornando mais tarde ao restaurante por não ter onde ficar, já que todo o seu dinheiro foi roubado no hotel barato onde ele estava instalado.

Interessante como é mais fácil pra gente uma identificação com um estrangeiro num filme. Lembrei de CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS, cujo personagem de maior identificação com o público é justamente um alemão. E olha que o filme se passa no Nordeste do Brasil. Vai ver todos nós somos estrangeiros, mesmo no nosso país. E em qualquer lugar onde a gente vá, deve haver pessoas legais como João Miguel, no filme brasileiro, ou Dona Olívia, no argentino. E, com certeza, alguma moça bonita como Luz (Julieta Díaz) pra dar sentido a tudo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

GALANTE E SANGUINÁRIO (3:10 to Yuma)



Faleceu no dia 30 de agosto último Glenn Ford, protagonista de GALANTE E SANGUINÁRIO (1957). Quando passei na locadora e vi o DVD do filme não pensei duas vezes e peguei logo pra assistir. A lista de melhores westerns americanos que o Carlão Reichenbach postou em seu blog ajudou a dar um empurrãozinho. Na verdade, aluguei o filme menos pelo Glenn Ford e mais pela direção de Delmer Daves, que eu conhecia apenas do excelente FLECHAS DE FOGO (1950). Quanto a Glenn Ford, nunca tinha reparado o quanto ele era um ator brilhante. Em GALANTE E SANGUINÁRIO, Ford faz o papel de um fora-da-lei cheio de magnetismo que conquista a todos com sua lábia e inteligência. Ford parece um misto de cavalheiro com assassino frio. Já o good guy do filme, o camponês interpretado por Van Heflin, em nenhum momento se equipara ao personagem de Ford. Ele é até meio burro e facilmente influenciável. É mais uma subversão de Daves, que já havia tomado partido dos índios quando isso ainda não era moda no seu FLECHAS DE FOGO.

GALANTE E SANGUINÁRIO é um misto de western com suspense, herdeiro de MATAR OU MORRER, de Fred Zinnemann. O filme de Daves não usa o recurso do tempo real, mas é muito mais elegante que o filme de Zinnemann, que parece mais western pra quem não gosta de western. GALANTE E SANGUINÁRIO já presta mais tributo ao gênero e tem um lirismo que emociona, especialmente durante a primeira metade, quando o filme ainda não se assume como um suspense. Nessa primeira parte, Glenn Ford vai com seu bando até um bar e conquista a atendente do saloon com seu charme. A música, a cargo de George Duning, é mais presente nessa primeira parte. Assim que o nosso herói, digo o nosso vilão, é capturado, a música quase que desaparece do filme, dando lugar a uma trilha sonora mais convencional de suspense. Por isso, gosto mais da primeira parte.

GALANTE E SANGUINÁRIO é baseado numa novela de Elmore Leonard. Na trama, o bando de Glenn Ford assalta uma carroça que carrega um carregamento de ouro. O cocheiro tenta reagir, leva um tiro e morre. Entre o grupo dos assaltados está Van Heflin com seus dois filhos pequenos. Pra não levar nenhum tiro, ele não reage aos bandidos, entregando até mesmo o cavalo a eles. Ao chegar em casa, a esposa dá a entender que ele deveria ter feito alguma coisa. Movido pela vergonha de ser conhecido como covarde, ele ajuda o xerife da cidade a capturar o líder do bando, que estava passando um tempo no saloon.

Atualmente, um remake do filme está sendo rodado, sob direção de James Mangold. Russell Crowe já está confirmado para interpretar o galante bandido. Para o papel do camponês, tudo indica que será Christian Bale. Vai ser um desafio e tanto para Crowe fazer um papel interpretado de maneira tão brilhante por Glenn Ford. Vamos ver como ele vai se sair.

domingo, setembro 10, 2006

O MAIOR AMOR DO MUNDO



Acho que Cacá Diegues é o cineasta brasileiro em atividade que mais fez filmes regularmente no Brasil. Levando em consideração a qualidade nem sempre boa de seu trabalho, suspeito que o cineasta seja amigo de muita gente pra que consiga com facilidade financiamento para seus filmes. Desde BYE BYE BRASIL (1979) que ele não faz um filme realmente bom. Eu até gostei de DEUS É BRASILEIRO (2003), mas a graça do filme se devia mais ao desempenho dos protagonistas. Com O MAIOR AMOR DO MUNDO (2006), Cacá Diegues comete mais erros que acertos na história de um homem que descobre que tem câncer inoperável no cérebro e decide buscar no seu passado algum sentido para o que resta de sua vida.

José Wilker é esse homem e o filme é narrado com alguns flashbacks que mostram momentos de sua infância, de sua juventude e até mesmo de antes dele nascer. Quem me chamou mais a atenção no filme foi a estreante Ana Sophia Folch, que interpreta alguém muito importante para a trama, mas sobre ela não posso contar mais que isso. Ana Sophia tem uma beleza simples e pura, que funcionou muito bem para o papel que lhe foi ofertado. Outros bons momentos do filme são os da cena de sexo de Wilker com Taís Araújo. Porém, na maior parte das vezes, O MAIOR AMOR DO MUNDO é bem enfadonho. O ONDE ANDA VOCÊ, de Sergio Rezende, pra citar um filme que também conta com um protagonista crepuscular, foi mais bem sucedido em mostrar os últimos dias de um homem "em peregrinação". E foi um filme muito mais malhado e rejeitado por público e crítica.

Outra coisa que me incomodou foi - de novo - esse negócio de bater na mesma tecla ao retratar a década de 60 como um velho clichê. Como se todo mundo naquela época tivesse participado de grêmio estudantil, entrado na luta armada contra a ditadura e tido alguma ligação com Carlos Lamarca. Quando vi isso em ZUZU ANGEL, eu aceitei numa boa, afinal o tema do filme é aquele mesmo. Sem falar que trata-se de uma história real. Já o filme do Diegues até usa uma das canções da década de 60 de Caetano Veloso para ilustrar o momento. Parece que ninguém sabe fazer mais nada diferente para retratar aquela época. Pra completar, em nenhum momento eu fiquei comovido com o drama de Antônio (o personagem de Wilker), nem fiquei interessado em saber sobre seu passado. E acredito que isso seja fundamental para que o filme funcione para o espectador. Dos filmes fracos de Diegues, O MAIOR AMOR DO MUNDO só perde para os horríveis ORFEU (1999) e DIAS MELHORES VIRÃO (1989).

sábado, setembro 09, 2006

A SETE PALMOS - A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Six Feet Under - The Complete Third Season)




Nesses últimos dias, ver um episódio diferente de A SETE PALMOS é uma das coisas mais prazerosas que eu tenho feito. Ver a série é um exercício até terapêutico pra mim, que tenho me sentido angustiado, com um aperto no peito bastante incômodo e um sentimento de abandono que retornou com toda a força. Ao mesmo tempo, eu não tenho me esforçado para modificar a minha rotina, ampliar meu círculo de amizade ou tentar contactar os velhos amigos. Bom, na verdade, eu até tenho tentado, mas de uma maneira bastante tímida. Isso porque estar sozinho em minha casa não é lá uma tortura, muito pelo contrário. Mas é que tem algo que me incomoda nisso tudo e sei que tenho estado muito triste já faz algum tempo. Por isso que a personagem com quem eu mais me identifiquei nessa terceira temporada (2003) foi a Brenda (Rachel Griffiths). Aliás, só nessa série foi que eu percebi o quanto eu gosto da Brenda. É como se eu me transferisse para o Nate (Peter Krause) e quisesse uma pessoa como ela ao meu lado.

E uma das principais características dessa terceira temporada é justamente a ausência da Brenda nos primeiros capítulos. Não sei se isso foi proposital ou se a atriz teve algum problema que a impossibilitou de participar desses episódios, mas o fato é que ela fez muita falta. E quando ela reapareceu foi uma alegria e um deleite pra mim. No começo, suas aparições eram pequenas. Até o episódio "Timing & Space", que começa com a morte do pai dela. A situação entre ela e Nate está bastante complicada, já que ele está casado com Lisa (Lili Taylor), sendo que os dois até tiveram uma filha. A relação Nate-Lisa não é das mais agradáveis, já que ela faz o tipo controladora e o fato é que Nate não a ama de verdade. Ele se esforça para gostar dela, para ser um pai de família exemplar, mas seu amor pela Brenda fala mais forte. Nem o sexo entre os dois é lá essas coisas. Talvez por isso - e agora eu vou falar um spoiler gigante - o desaparecimento de Lisa e o subseqüente sofrimento de Nate não tenham me comovido tanto. Eu não gostava da Lisa mesmo. Podemos dizer que a dor de Nate pode ter vindo mais de algum complexo de culpa do que realmente do amor que ele sentia por ela.

Nessa temporada, eu passei a gostar mais da Claire (Lauren Ambrose). Eu não ia muito com a cara dela nas temporadas anteriores, mas dessa vez, além de ela estar bem mais bonita e atraente, sua personagem teve um amadurecimento tão evidente que se torna quase impossível não gostar da menina. Ela não é mais aquela maconheira chata de antes, mas uma pessoa interessada em arte e em busca de um sentido para sua vida. Quase chorei no episódio em que ela teve que fazer um aborto e, devido a todos os problemas que sua família estava passando, ela resolveu enfrentar a barra sozinha, sem contar nada pra ninguém.

Também passei a gostar mais de David (Michael C. Hall). Talvez seja o efeito "Brokeback Mountain". No começo, a gente fica meio incomodado e achando estranho aquelas cenas de demonstração de afeto homossexual, mas depois a gente se acostuma e passa até a torcer para que a relação dele com Keith (Matthew St. Patrick) dê certo. Isso acontece de maneira mais forte no último episódio da temporada, com aquela conversa que eles têm numa igreja. Muito bonito aquilo.

Da série, quem eu ainda tenho menos simpatia é da mãe, Ruth (Frances Conroy), e de Federico (Freddy Rodriguez). Os novos nomes a aparecer no elenco são Betina (Kathy Bates), Arthur (Rainn Wilson) e George (James Cromwell), sendo que esse último, pelo visto, entra de vez para o elenco regular da série. O que é uma boa, já que Cromwell é um ótimo ator.

Uma das coisas que eu mais me impressiono com A SETE PALMOS é o fato de ela ter alcançado um nível de qualidade e sensibilidade muito alto justamente na terceira temporada, quando muitas séries já apresentam um certo declínio. Em vez disso, a série melhorou de forma quase que exponencial. E sem ter que apelar para ganchos, o que parece que é uma característica das séries da HBO - dizem que THE SOPRANOS também é assim. Teve um episódio que eu achei fabuloso. Não me lembro qual, mas o que eu sei é que ele termina com todos da família dormindo em paz e bastante contentes com o que a vida lhes ofereceu. No fundo a gente sabe que é só questão de tempo para que os problemas apareçam como uma avalanche, mas não é assim também na vida? O que acontece é que nessa terceira temporada, quase todo mundo parece sofrer de algum problema mental, a começar pela sra. Fisher que se apaixona por um rapaz que tem a idade de ser seu filho, passando por Nate, que é quem mais fica à beira da loucura. Nem preciso falar de Billy (Jeremy Sisto), o irmão maluco da Brenda, que aparece bem menos, mas que tem uma cena de grande destaque nessa temporada. É como se a vida fosse um lugar de provação, onde além da iminência da morte à espreita, também tivéssemos que nos esforçar para ficar mentalmente sãos.

quinta-feira, setembro 07, 2006

SERPENTES A BORDO (Snakes on a Plane)



Assim como acontecia com muitas produções da Hammer e com os primeiros filmes de horror da Universal, SERPENTES A BORDO (2006) nasceu apenas de um título. Sabe-se que Samuel L. Jackson aceitou protagonizar o filme sem nem mesmo ler o roteiro. Aliás, o roteiro nem estava pronto ainda quando ele topou participar. Filmes que nascem assim são despretensiosos por excelência. Se há uma pretensão, ela está em faturar uma grana preta. Não há aqui nenhuma intenção de fazer uma obra de arte, apenas um filme que atraia o público jovem, entretenha e faça muito sucesso.

SERPENTES A BORDO não é muito diferente de muitos filmes de baixo orçamento que são paridos todos os dias nos Estados Unidos em produtoras pequenas. A principal diferença é que, assim como aconteceu com A BRUXA DE BLAIR, a internet transformou o que era um filme pequeno num fenômeno de massa. Aliás, a internet foi responsável pela própria existência do filme. Se não fossem os blogueiros - em especial o autor do blog Snakes on a Blog -, o filme não teria se transformado nesse fenômeno. A princípio, a idéia era ridícula demais para ser aceita pelos executivos de Hollywood. Quem é que leva a sério um filme em que um terrorista solta um monte de serpentes furiosas num avião? Mas quem disse que todo filme precisa ser sério?

Quando eu soube que a direção do filme ficaria a cargo de David R. Ellis, eu já fiquei bastante animado. Ellis havia mostrado em seus filmes anteriores - PREMONIÇÃO 2 (2003) e CELULAR - UM GRITO DE SOCORRO (2004) - que nasceu para fazer filmes B. Só que ele teve a sorte de começar a fazer filme B com muito dinheiro envolvido. Ellis não tem o menor pudor em rechear o filme com cenas de nudez e sangue. O primeiro ataque das serpentes acontece justamente no momento em que dois namorados estão fazendo sexo no banheiro do avião. Há uma variedade grande de serpentes e, conseqüentemente, de mortes. Não esqueceram nem mesmo daquela cobra enorme que mata sua vítima quebrando-lhe os ossos para, em seguida, engolí-la inteirinha. Perto das cobras, a parte "avião prestes a cair" do filme perde um pouco a sua força.

Em comparação com seus dois filmes anteriores, SERPENTES A BORDO perde um pouco em qualidade. Talvez a super-exposição na mídia tenha, ironicamente, prejudicado o filme. Talvez o espírito do filme não combine muito com as luxuosas salas dos multiplexes de hoje. Combinaria mais com as salas de cinema empoeiradas de antigamente e com as fitas de vídeo. SERPENTES A BORDO tem o sabor de filmes trash tipo PIRANHA 2 ou daqueles filmes de formigas gigantes que passavam no SBT na década de 80. Imagino que, no futuro, depois que o filme passar várias vezes na televisão, as novas gerações vão lembrar com carinho das serpentes no avião e de um policial muito invocado.

quarta-feira, setembro 06, 2006

O ÚLTIMO MITTERRAND (Le Promeneur du Champ de Mars)



Meu interesse por O ÚLTIMO MITTERRAND (2005) veio menos pela temática (ligada à política) e mais pelo diretor. Havia visto apenas um filme de Robert Guédiguian - MARIE-JO E SEUS DOIS AMORES (2002) -, mas o suficiente para ter despertado o meu interesse por sua obra. Se bem que há mais alguma coisa que me atraiu no filme: a expectativa da morte ocasionada por uma doença fatal. Tenho uma atração mórbida por coisas desse tipo.

O ÚLTIMO MITTERRAND narra o laço afetivo que se estabelece entre o jornalista Antoine Moreau (Jalil Lespert) e o Presidente François Mitterrand (o veterano Michel Bouquet, excelente), em seus últimos meses de vida. Antoine prepara um livro de memórias de Mitterrand, que se autoproclama o último dos grandes presidentes. Como Mitterrand teve um histórico onde transitou tanto pela direita quanto pela esquerda na política, não lhe faltavam também desafetos.

Muito da graça de O ÚLTIMO MITTERRAND está no desempenho excepcional de Michel Bouquet. Tanto nas seqüências em que o Presidente se mostra debilitado pela doença, quanto naquelas em que ele se sente bem e age como uma criança que não quer voltar para casa, em todos os momentos Bouquet está extraordinário. Um desses momentos especiais é aquele em que o Presidente conta para Antoine o quanto ele se sente invisível, ninguém nem mesmo o reconhece nas ruas. Nesse momento, uma jovem o cumprimenta, beija-lhe o rosto e lhe agradece por tudo.

Ainda que valorize o aspecto político e puxe um pouco a sardinha para o lado dos socialistas, nota-se que o filme dá maior valor às relações humanas, em especial ao relacionamento entre aqueles dois homens de idades e experiências muito distintas. O próprio Mitterrand tem uma postura muito serena diante do fim da vida. O problema é que como eu gosto muito de melodramas mais carregados, O ÚLTIMO MITTERRAND é sutil demais, evitando muito o sentimentalismo. Por isso, e pelo fato de o filme ser por demais francês, que eu acabei me distanciando um pouco. Ainda assim, é um belo filme.

terça-feira, setembro 05, 2006

EU



Para um filme considerado por muitos como o pior dos estrelados por Marcelo, o alter-ego de Walter Hugo Khouri, EU (1986) até que é bastante interessante e um dos mais ricos em explorar a mitologia do personagem. Sem falar que ele é bem superior a PAIXÃO PERDIDA (1998), o último filme de Khouri e também o último do "ciclo Marcelo".

A primeira vez que eu vi EU foi na adolescência e pela televisão. A única coisa de que eu me lembrava era da Monique Evans nua e da cena em que ela chega de helicóptero na ilha de Marcelo (Tarcísio Meira). Na minha cabeça, o filme era bem mais erótico do que eu achei agora. Na revisão, EU me pareceu quase um filme de terror, sendo que Marcelo seria uma espécie de vampiro - ele não parava de olhar para o pescoço das mulheres. A cena dele com as duas garotas de programa (Nicole Puzzi e Monique Lafond) é bem explícita nesse sentido. Bem como a seqüência final, quando a câmera congela na imagem demoníaca do rosto de Tarcísio Meira.

Marcelo seria, então, uma pessoa amaldiçoada pelo vazio que o destrói por dentro e o força a buscar desesperadamente o sexo como válvula de escape para atenuar a angústia da falta de sentido na vida. Sua busca por sexo também tem raízes profundas e ligadas aos complexos de Édipo e de Electra. Em AMOR, ESTRANHO AMOR (1982), o protagonista, quando garoto, transa com a própria mãe. Mas apesar de ter estreitas ligações com os filmes do ciclo Marcelo, no polêmico filme de 82, o protagonista não se chama Marcelo, mas Hugo, aproximando-se ainda mais do nome do diretor. Numa cena de EU, quando as três garotas de programa comentam na praia sobre o poder de sedução de Marcelo, Renata (Monique Lafond) até chega a dizer que suspeita que Marcelo esteja comendo a própria filha (Bia Seidl) e que no passado comeu a própria mãe. Imaginei que isso se trata de uma referência a AMOR, ESTRANHO AMOR. Outro filme de Khouri citado em EU é PALÁCIO DOS ANJOS (1970), quando Christiane Torloni olha para o mar e passa um navio soltando um apito grave. Já a chegada de Monique Evans de helicóptero nos faz lembrar imediatamente de A DOCE VIDA, de Fellini.

EU é talvez o filme de Khouri que tem o maior acervo de mulheres gostosas. A começar pelo marketing pesado em cima de Monique Evans, que é quem tem o corpo mais explorado no filme, ainda que apareça bem menos que as demais. Nos créditos, inclusive, aparece "introduzindo Monique Evans". A palavra "introduzindo" não deixa de passar uma dupla conotação.

Na trama, Marcelo passa o natal em sua casa de praia e leva consigo duas garotas de programa. A confusão começa quando chega de surpresa a sua filha, acompanhada de uma amiga. Pra aumentar ainda mais a confusão, uma outra mulher está pra chegar. Assim, Marcelo fica rodeado de mulheres. Ele deseja a todas, todas o desejam. Inclusive a filha. A personagem de Nicole Puzzi é bem interessante e eu destaco a cena em que ela conta da grande atração que tinha pelo próprio pai e do dia em que o seu pai morreu e ela teve a oportunidade de dar banho nele, tocando em todas as partes de seu corpo.

Fiz uma pesquisa sobre os filmes de Khouri que apresentam o personagem Marcelo e fiz a relação abaixo, com os títulos, datas e o nome do ator que interpretou o papel.

AS AMOROSAS (1968) - Paulo José
O ÚLTIMO ÊXTASE (1973) - Wilfred Khouri
O DESEJO (1975) - Fernando Amaral
PAIXÃO E SOMBRAS (1977) - Fernando Amaral
O PRISIONEIRO DO SEXO (1978) - Roberto Maya
CONVITE AO PRAZER (1980) - Roberto Maya
EROS, O DEUS DO AMOR (1981) - Roberto Maya
EU (1986) - Tarcísio Meira
FOREVER (1991) - Ben Gazzarra
PAIXÃO PERDIDA (1998) - Antônio Fagundes

Na dúvida, e esperando que alguém me responda: em relação a O ANJO DA NOITE (1974), no IMDB consta que um dos personagens desse filme chama-se Marcelo (Pedro Coelho). No entanto, ele se diferencia bastante dos outros filmes de Khouri. Assim como AS FILHAS DO FOGO (1978), O ANJO DA NOITE é considerado do gênero terror. Afinal, o Marcelo de O ANJO DA NOITE é o velho Marcelo que a gente conhece?

Agradecimentos ao amigo Sandro Ramos que fez a gentileza de gravar o filme do Canal Brasil.

segunda-feira, setembro 04, 2006

A DAMA NA ÁGUA (Lady in the Water)



M. Night Shyamalan é um dos cineastas mais controversos de que se tem notícia. Capaz de causar reações de amor e ódio extremos. Eu, por exemplo, sempre que via alguém falar mal de A VILA (2004), sentia-me na obrigação de entrar na briga pelo filme, mesmo sem ter muita força argumentativa. Exatamente por ser da turma dos amantes de A VILA e de gostar de todos os filmes do cineasta, inclusive OLHOS ABERTOS (1998), exatamente por isso, eu jamais imaginei que fosse desgostar de um filme de Shyamalan. Infelizmente, tenho que admitir que A DAMA NA ÁGUA (2006) foi um passo em falso, um filme que sujou uma filmografia até então irretocável.

Se antes a comparação com Spielberg já era sugerida, dessa vez ela é mais explícita, já que A DAMA NA ÁGUA é um filme sobre uma criatura de outro mundo tentando voltar para seu universo e influenciando a todos a seu redor com sua energia positiva. Porém, diferente de E.T. - O EXTRATERRESTRE, imagino que as crianças não iriam apreciar o filme de Shyamalan. Será que se o filme tivesse sido vendido como uma obra infanto-juvenil seria mais bem-sucedido? Acho que não. Talvez porque o filme de Shyamalan seja por demais sofisticado na utilização de ângulos de câmera pouco usuais e de uma narrativa bem lenta. Aliás, tecnicamente o filme é até bem interessante.

A principal falha de A DAMA NA ÁGUA foi não ter conseguido me sugar para dentro de seu universo. Não consegui comprar a idéia de que Story (Bryce Dallas Howard) fosse uma criatura de um conto de fadas. Os melhores filmes de fantasia, como O SENHOR DOS ANÉIS, por exemplo, conseguem ser convincentes por mais ridículas que sejam suas premissas. Isso porque eles se sustentam nos detalhes e na capacidade de se criar uma atmosfera de magia. O filme de Shyamalan não tem uma sustentação válida. Sempre que o personagem de Paul Giamatti procura aquela senhora coreana para saber tudo sobre a ninfa e seu universo, tudo soa muito patético. Ainda que a intenção tenha sido causar humor, nem assim o filme é bem sucedido. Ao contrário, a personagem da coreana é lamentável. Por outro lado, não achei ruim o personagem do crítico de cinema, alvo da maioria das críticas dos detratores. Ao menos pareceu uma provocação àquelas pessoas que olham a vida de modo cínico e inquisidor.

Porém, o que eu acho mais interessante é que, apesar de tudo, A DAMA NA ÁGUA ainda tem admiradores apaixonados. Tão apaixonados quanto eu depois de sair das duas sessões de A VILA. Quer dizer, Shyamalan ainda continua sendo um nome quente e que ainda vai continuar chamando a atenção e causando as mais diversas reações nas platéias. Só espero que da próxima vez eu esteja do lado dos apreciadores e não dos decepcionados. Afinal, todos os grandes cineastas (Hitchcock, Kubrick, Lynch) cometeram equívocos em algum momento de suas carreiras. Portanto, ainda existe esperança. Principalmente quando eu lembro da cena em que Bryce Dallas Howard adentra o quarto onde está o enfermo Joaquin Phoenix em A VILA.

domingo, setembro 03, 2006

SILÊNCIO NAS TREVAS (The Spiral Staircase)



Já que ainda não me sinto preparado pra escrever sobre A DAMA NA ÁGUA, vou tentar ser objetivo e falar um pouco sobre SILÊNCIO NAS TREVAS (1946), um dos filmes mais famosos do esteta Robert Siodmak. O cineasta, apesar de americano, teve sua formação na Alemanha, tendo fugido de lá por causa da ascensão do nazismo.

SILÊNCIO NAS TREVAS é um film noir gótico que carrega muita influência do expressionismo alemão. Na trama, uma moça muda (Dorothy McGuire, que eu conhecia de SUBLIME TENTAÇÃO, de William Wyler) é aterrorizada por um serial killer que, aparentemente, mata apenas mulheres, sendo que a maioria carrega algum tipo de deficiência. Como ela é muda por causa de um trauma passado, ela é considerada vítima em potencial do assassino.

SILÊNCIO NAS TREVAS se passa no começo do século XX e no começo do filme podemos ver um trecho de THE SANDS OF DEE (1912), de D.W. Griffiths, passando numa sala de exibição. O filme aos poucos vai apresentando os personagens e o lugar onde se desenrolará a maior parte da trama, a mansão onde a personagem de Dorothy McGuire trabalha. O tempo todo ouvimos trovões, o que acentua o clima gótico. Uma das diversões do filme é tentar advinhar quem é o assassino. Porém, como sou fã de Hitchcock, que já denunciava quem era o assassino logo no começo de seus filmes, não vejo muita graça nisso. Além do mais, o final, com o assassino explicando tudo de forma didática, torna-se hoje em dia um pouco cafona. Mas ainda assim o filme tem o seu charme, além da brilhante performance de Dorothy McGuire, expressando muito bem a angústia de não poder se comunicar nos piores momentos.

Agradecimentos à Carol, que me emprestou o DVD.

sexta-feira, setembro 01, 2006

DOIS ANIMES



Sexta-feira é o dia em que eu tenho mais preguiça de atualizar o blog. Provavelmente por causa do cansaço acumulado ao longo da semana, das baterias precisando de recarregar. Devido ao pouco tempo para ver filmes, o estoque de títulos está se acabando. E também devido ao pouco tempo, esses dias resolvi pegar pra ver dois pequenos animes de curta duração entre os vários que o amigo Marcelo Reis me enviou num DVD-R. São filmes que enganam, parecendo infantis, mas que tratam de assuntos bem sombrios, além de possuírem uma narrativa bastante sofisticada.

CAT SOUP (Nekojiru-so)

Talvez o desenho mais delirante que eu já vi. O problema é que não foi o tempo todo que eu embarquei na viagem, tendo me dispersado em alguns momentos. Mas nada que uma revisão não possa ajudar. Os personagens do filme são gatinhos com uma aparência da Hello Kitty. Acho bem difícil falar da trama, já que não há realmente um plot no sentido tradicional. Pode-se dizer que é um desenho surrealista - em alguns momentos até lembrei de A MONTANHA SAGRADA, do Jodorowski. Pelo que consta nas sinopses, inclusive a do site Animehaus , é que CAT SOUP (2001) trata de um gatinho branco que tenta livrar a sua irmã dos braços da morte. Alguns dos momentos mais delirantes: o surgimento do elefante d'água, a cena do porco sendo fatiado ainda vivo para servir de almoço e os samurais cortando um peixe com suas espadas. Os diálogos não podem ser compreendidos e sempre que os personagens falam aparecem balões como nos mangás. Aliás, CAT SOUP foi baseado num mangá. Engraçado que agora me bateu uma vontade de rever o filme. Direção: Tatsuo Sato.

KAKUREMBO: HIDE AND SEEK (Kakurembo)

Esse é um anime que apresenta uma temática mais japonesa, com aqueles demônios que aparecem no folclore nipônico. Os personagens de KAKUREMBO: HIDE AND SEEK (2005) são garotos que usam máscaras para brincar de um "esconde-esconde" perigoso. Algumas das crianças que brincam à noite estão desaparecendo misteriosamente. Um dos meninos resolve participar da brincadeira, com o objetivo de procurar pela irmã desaparecida. Cada um dos meninos tem uma razão particular para participar da brincadeira. O visual de KAKUREMBO é bastante caprichado, mas também é o tipo de filme que pode confundir um pouco, principalmente pelo fato de os personagens estarem o tempo todo de máscara. Por isso mesmo, uma revisão é indicada. KAKUREMBO ganhou o prêmio de melhor curta-metragem no Fantasia Film Festival de 2005. Direção: Syuhei Morita.

Agradecimentos a Marcelo Reis.

quinta-feira, agosto 31, 2006

MEU AMOR DE VERÃO (My Summer of Love)



Às vezes a presença de uma mulher deslumbrante já justifica um filme. É o caso de Emily Blunt na produção inglesa MEU AMOR DE VERÃO (2004). E como os olheiros de Hollywood não perdem tempo, a moça já poderá ser vista em filmes americanos como O DIABO VESTE PRADA (2006), ao lado de Meryl Streep, e IRRESISTIBLE (2006), ao lado de Susan Sarandon.

Em MEU AMOR DE VERÃO, ela é Tamsin, uma jovem rica que conhece Mona (Nathalie Press), uma moça pobre que vive com o irmão, dono de um pub. O irmão afirma ter encontrado Jesus, por isso, acaba com o pub e coloca uma igreja no lugar. A menina reclama que o irmão já não é mais o mesmo. Naturalmente, ela passa a se aproximar mais de Tamsin, que passa os dias no quarto tocando violoncelo, bebendo vinho e ouvindo música. Mona aprende muito com Tamsin, que freqüentemente fala sobre filósofos como Nietzche e cantoras como Edith Piaf. Inclusive, no filme ela conta que Piaf chegou a matar um de seus amantes mas que não foi presa, pois na França crime passional é tratado de forma diferente. Até achei na internet uma biografia da cantora, mas não vi nada sobre o tal crime. (Alguém sabe algo sobre isso?)

O personagem do irmão de Mona também é destaque. Acho que a melhor cena do filme é aquela em que Tamsin pede ajuda espiritual ao rapaz. Com uma mulher daquelas, qualquer fé é abalada. Outros momentos chaves do filme: a cena do chá de cogumelo e a cena do copo. Sem falar nas cenas de lesbianismo, que foram o principal motivo pra eu ter saído de casa para ver o filme. Mas no geral, pode-se dizer que MEU AMOR DE VERÃO não é um filme especial. Se não fosse pela presença magnética de Emily Blunt seria facilmente esquecido.

quarta-feira, agosto 30, 2006

WALTER LIMA JR. EM DOIS FILMES



Ao lado de Nelson Pereira dos Santos, de Carlos Reichenbach e de José Mojica Marins, o carioca Walter Lima Jr. está no seleto grupo de maiores cineastas brasileiros vivos. E, na mesma condição de seus distintos colegas, Lima Jr. tem passado por muitas dificuldades de se fazer cinema no Brasil, o que pra mim é motivo de indignação e até de revolta. E essa revolta aumentou quando tive a oportunidade de (re)ver duas das obras mais importantes do cineasta, INOCÊNCIA (1983) e ELE, O BOTO (1987), dois filmes que representam muito bem o autor e seu cinema que enfatiza a inocência, o desejo e o delírio. Os dois filmes, eu tive a oportunidade de ver quando passaram no Intercine da Rede Globo, mas ambos estão disponíveis em DVD pela Paramount, pelo selo Coleção Brasil.

INOCÊNCIA

Poucos filmes, sejam eles brasileiros ou não, conseguiram se aproximar tanto da estética romântica quanto INOCÊNCIA. Walter Lima Jr. transpôs para o cinema o clássico de Visconde de Taunay, considerada por muitos a obra-prima do romance regionalista do Romantismo brasileiro. No Romantismo, o amor, quando não é impossível, é de difícil acesso. O universo conspira contra o casal que deseja ficar junto e se amar. Na trama, jovem médico (Edson Celulari), em suas viagens pelo sertão, apaixona-se por Inocência (Fernanda Torres), uma jovem guardada a sete chaves pelo pai (Sebastião Vasconcelos) e prometida em casamento a outro rapaz, através de um acordo com um grande proprietário de terras da região. A moça está doente e é tratada com muito carinho pelo médico. Mas o pai não desconfia do médico. Em vez disso, ele teme o assédio de um entomologista que passa pela região à procura de novas espécies de borboleta e que também se interessa pela menina. INOCÊNCIA não é apenas um grande filme pelo aspecto narrativo e pela capacidade de emocionar, mas também pela elegância dos planos, pela riqueza das metáforas (a borboleta presa), pela atmosfera de delírio característica do cinema de Lima Jr. Como era de se esperar de uma obra autenticamente romântica, o final não poderia deixar de ser trágico e dramático. As cenas noturnas têm uma luz toda especial, seja quando vemos o quarto escuro de Inocência, às vezes banhado pela luz da Lua, seja no momento em que o casal se encontra às escondidas no bosque. Um dos melhores filmes do nosso cinema.

ELE, O BOTO

Com ELE, O BOTO, Walter Lima Jr. dá continuidade ao seu estilo onírico, movido pelo desejo e pela inspiração noturna. Uma bela sacada aproveitar uma lenda amazônica para construir uma fábula sobre mulheres seduzidas por um boto (Carlos Alberto Riccelli). Outro recurso inteligente é o de apresentar um narrador que nunca aparece (a voz de Rolando Boldrin). O narrador seria um pescador contando causos para seus colegas. Assim é contada a estória de duas irmãs que sofrem o assédio do boto. Uma delas (Cássia Kiss) chega até a engravidar - a cena do parto é uma das primeiras e mais interessantes do filme. A outra mulher (Dira Paes) torce para que o boto venha lhe buscar. Lima Jr. constrói um filme em cima de algo bastante improvável, mas que devido à sua beleza plástica e narrativa acaba nos convencendo de que, ao menos dentro daquele universo, aquilo é real. ELE, O BOTO é ao mesmo tempo sensual, fantástico e às vezes assustador e engraçado. São destaque no filme: a cena da tempestade de vento no casamento; o aparecimento do filho do boto; os sonhos da personagem de Cássia Kiss; o boto disfarçado de turista; a fotografia das cenas nos rios e no mar; a trilha sonora de Wagner Tiso, que consegue ser ainda mais memorável que em INOCÊNCIA. Assim como A OSTRA E O VENTO (1998), ELE, O BOTO é um filme sobre a força da natureza e a fraqueza do ser humano.

Agora eu estou com muita vontade de assistir A LIRA DO DELÍRIO (1978), considerado por muitos o melhor filme do diretor.

P.S.: Numa edição passada da Contracampo, Eduardo Valente escreveu um artigo bastante abrangente sobre a carreira de Lima Jr. até o final da década de 90. O texto, além de muito bem escrito, é bastante esclarecedor.

P.P.S.: Falando em Cássia Kiss, vocês se lembram daquela propaganda que ela fez para o Governo Federal com os seios à mostra e ensinando como as mulheres deviam fazer para prevenir o câncer no seio? Eu me amarrava naquela propaganda. :)

terça-feira, agosto 29, 2006

WERNER HERZOG EM DOIS FILMES



Werner Herzog é um dos cineastas mais interessantes de que se teve notícia. Não me refiro à sua obra, mas à sua personalidade mesmo. Não faltam histórias escabrosas sobre coisas que ele fez. O homem já roubou uma câmera para realizar o seu primeiro curta-metragem, já comeu o próprio sapato depois de ter perdido uma aposta, já ameaçou meter uma bala no "seu melhor inimigo" Klaus Kinski, já levou duas vezes uma equipe inteira para uma região desconhecida da Amazônia (AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES, 1972, e FITZCARRALDO, 1981) e já hipnotizou todos os atores de um filme para obter o resultado desejado (CORAÇÃO DE CRISTAL,1976). Um livro contando suas aventuras, se não foi escrito ainda, deveria ser providenciado logo. Seu lema é: vale tudo para fazer um filme. E talvez seja essa a razão de ele ter se interessado pela vida de Timothy Treadwell, o ativista protetor dos ursos que morreu fazendo o que mais gostava. Abaixo, dois belos exemplares do cinema de Werner Herzog, cineasta que ultimamente tem se dedicado mais aos documentários do que aos filmes de ficção.

O ENIGMA DE KASPAR HAUSER (Jeder für sich und Gott gegen Alle / Kaspar Hauser)

Um de seus maiores sucessos, O ENIGMA DE KASPAR HAUSER (1974) conta a misteriosa história (verídica) de Kaspar Hauser, um homem que esteve cativo até a idade adulta, sem jamais ter visto uma pessoa ou mesmo uma árvore. Ele foi solto e deixado numa cidade, depois de ter aprendido a falar algumas palavras e a andar. O filme mostra o seu processo de integração à sociedade e os questionamentos que ele começa a fazer a partir do momento em que ele ganha a capacidade de reflexão. O filme se assemelha a outras duas obras, O MENINO SELVAGEM, de François Truffaut, e O HOMEM ELEFANTE, de David Lynch. Um dos momentos mais legais do filme é quando Kaspar acredita que as laranjas possuem vontade própria e um de seus tutores tenta lhe provar o contrário. O filme tem um aspecto de documentário, passando uma sensação de veracidade. Bruno S., o rapaz que interpreta Kaspar Hauser, ele próprio era problemático. Bruno viveu boa parte de sua vida em reformatórios e instituições de tratamento para doentes mentais. Bruno era literalmente um filho da puta. Sua mãe era prostituta e batia tanto nele que o garoto chegou a ter problemas auditivos de tanto levar porrada na orelha. Assim como Kaspar Hauser, apesar das dificuldades, ele chegou até a aprender a tocar piano. Bruno apareceria em outro filme de Herzog, STROSZECK (1977). Um outro momento bastante significativo do filme é quando perguntam para Kaspar como era o lugar em que ele vivia quando estava preso e isolado da sociedade. Kaspar, já cansado da hipocrisia no mundo, responde: melhor do que aqui fora.

O HOMEM-URSO (Grizzly Man)

Vi esse filme quando estive em São Paulo em julho. (Puxa, como o tempo passa rápido.) O HOMEM-URSO (2005) continua inédito nos cinemas de Fortaleza, tendo previsão de estréia apenas para outubro. Vendo o filme, a gente até questiona essa "apropriação" que Herzog faz do material mais importante do filme: as filmagens realizadas pelo americano Timothy Treadwell, o maluco que estudava e protegia os ursos do Alasca até o dia em que ele foi devorado por um dos bichos. Trata-se de um dos documentários mais interessantes dos últimos anos e que tem momentos de muita emoção. Minha principal dúvida antes de assistir o filme era: será que o filme mostra a cena do urso devorando Treadwell? Ou ainda, será que existe um registro dessa terrível morte? Bom, na hora do ataque do urso, a câmera estava com o visor tampado, mas há registro do som. Herzog explora esse material, mas sem apresentar de fato o conteúdo da fita. Timothy, ao menos da maneira como ele se apresentava nos videotapes, não era bem uma pessoa normal. Ele tinha a coragem de se aproximar dos ursos, tentando se passar por um deles. Na maioria das vezes, essa tática funcionou. Até o dia que um dos ursos ficou de saco cheio e resolveu variar o cardápio. O mais triste de tudo é que a namorada de Timothy também foi morta pelo mesmo urso, enquanto tentava salvá-lo. A coitada morria de medo dos bichos e deveria amar muito o namorado para topar ir numa viagem dessas. Interessante notar que Herzog não fez um filme em homenagem a Timothy. O espectador é mais levado a culpá-lo pela morte de sua namorada e a concordar com o que um piloto diz a respeito dele, que ele teve o que mereceu ao tratar os ursos como pessoas fantasiadas de ursos. Em alguns momentos, O HOMEM-URSO parece um documentário exploitation, que lucra com imagens de arquivo sinistras e com a morte brutal de duas pessoas. Mas a verdade é que o filme tem uma coerência impressionante com a obra de Herzog. Como se apenas Herzog pudesse fazê-lo.

Vale a pena ler o dossiê sobre o cineasta que Marcelo Lyra escreveu para a Revista de Cinema.

segunda-feira, agosto 28, 2006

MIAMI VICE



Sou um admirador tardio do cinema de Michael Mann. O primeiro filme dele que realmente me deixou entusiasmado foi COLATERAL (2004). Desde então, venho acompanhando com mais atenção a obra do cineasta, tentando entender suas motivações, os temas recorrentes, as obsessões. Nesse contexto, fui conferir ontem MIAMI VICE (2006) com um misto de grande expectativa, ao mesmo tempo que temia um filme que desse muita ênfase na negociação de traficantes de drogas, tornando-se, assim, um pouco cansativo. Na verdade, há quem considere o filme cansativo, motivo pelo qual muitos saem do cinema pouco satisfeitos. Isso pode ocorrer porque, desde o início, Mann frustra as expectativas da audiência, que dá de cara com um thriller policial pouco convencional, mais centrado na direção do que no plot e com uma aura de melancolia que em nenhum momento é suavizada.

Antes de mais nada, o filme não tem créditos iniciais (se eu não me engano, nem o logo da Universal aparece). Essa é a primeira quebra de expectativas que Mann realiza. Dessa forma, entramos de imediato no submundo do crime no qual os dois policiais (Colin Farrell e Jamie Foxx) estão envolvidos. Ao som de "Numb", do Linkin Park, estamos numa boate em Miami. Depois de demonstrar a sua habilidade de cantar as mulheres, Farrell recebe uma ligação. A partir dessa ligação, o nível de dramaticidade do filme já sobe extraordinariamente. Um informante dos policiais, com medo de ter sua esposa assassinada, acaba entregando um grupo de policiais infiltrados. O fim desses policiais é trágico e Mann não nos poupa da violência gráfica e do som ensurdecedor das armas de fogo. Mais tarde, quando Farrell se envolve sexualmente com a negociante de drogas vivida por Gong Li, sabemos que tudo se tornará ainda mais perigoso, já que dessa vez os sentimentos estão em jogo.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção no filme foi a constante ameaça de que mais cedo ou mais tarde uma grande tempestade iria sacudir Miami. Até os noticiários de televisão mostram o clima pesado. Michael Mann demonstra outra de suas melhores facetas: o seu lado DJ. Assim como aconteceu com COLATERAL, a trilha sonora de MIAMI VICE é um achado, seja na exploração de música dançante (eletrônica, salsa), seja através de música mais ambiente. Curiosamente as duas canções do Audioslave que aparecem no filme ("The Shape of Things to Come" e "Wide Awake") não constam no CD da trilha sonora, assim como "Numb" do Linkin Park. Na parte visual, Mann utiliza, pela segunda vez, câmera digital de alta definição. Nas cenas noturnas isso é mais notado, pela granulação do preto; nas cenas diurnas a imagem ganha mais nitidez.

O principal alvo das críticas de MIAMI VICE chama-se Colin Farrell, o jovem ator que curiosamente também esteve no mais recente filme de Terrence Malick, O NOVO MUNDO. O que é de se estranhar para um astro tão pouco respeitado e com evidentes limitações. No entanto, eu gostei da performance "econômica" de Farrell. Sua pouca expressividade até contribuiu para tornar o filme um pouco mais misterioso. Principalmente no momento em que ainda não sabemos quais as suas reais intenções com relação à personagem de Gong Li. Sem falar na presença de cena do rapaz. Inclusive, o próprio Jamie Foxx também atua de maneira econômica e pouco dramática. A cena do acidente de sua namorada é um exemplo disso. Outro diretor teria feito com que Foxx se descabelasse de desespero naquela cena. Em vez disso, Mann optou por uma expressão de desesperança e pessimismo. O mesmo pessimismo do casal Farrell-Gong Li. Em certo momento, ele diz a ela que a relação dos dois não tem futuro. E que por isso mesmo não há necessidade de se preocupar.

sexta-feira, agosto 25, 2006

CRIME FERPEITO (Crimen Ferpecto)



Não sou muito conhecedor do trabalho de Álex de la Iglesia. Dele, havia visto apenas AÇÃO MUTANTE (1993) e A COMUNIDADE (2000). Do primeiro, não gostei muito, mas A COMUNIDADE é uma ótima comédia de suspense. CRIME FERPEITO (2004) segue a mesma linha, ainda que não tenha a mesma beleza visual do filme estrelado por Carmen Maura.

Na trama, Guillermo Toledo é Rafael González, um vendedor agressivo que se destaca como o melhor da maior loja de departamentos de Madrid. Seu objetivo de vida é tornar-se o gerente da loja. Rafael faz muito sucesso com as mulheres. Ele conquista todas as mulheres da loja, exceto uma: a feiosa Lourdes (Mónica Cervera), que ele sempre despreza. Seu único empecilho na escalada ao poder é Don Antonio (Luis Varela), o vendedor mais antigo, que pode facilmente ser promovido a gerente por causa do seu longo tempo de serviço. Acidentalmente, Rafael mata Don Antonio e precisa se livrar do corpo. Porém, uma pessoa viu tudo: Lourdes.

Quem já está acostumado com o universo grotesco de Iglesia não vai se surpreender com o estilo peculiar e com o humor negro do diretor. Iglesia parece que tem uma atração pelo caos e adora colocar seus personagens em situações nada cômodas. O protagonista de CRIME FERPEITO - não me acostumo com esse título horrível - saiu de uma situação privilegiada para uma vida de pesadelo, ao lado de uma mulher feia, extremamente possessiva e que suga toda a sua energia. Um dos melhores momentos do filme é a cena em que o detetive encarregado de investigar o caso conta que odiava a esposa dele, que costumava furar as camisinhas apenas para engravidar mais facilmente. Porém, por mais que CRIME FERPEITO seja divertido e interessante, falta algo no filme para nos deixar totalmente satisfeitos.

Saiu recentemente nas locadoras o título anterior de Iglesia, 800 BALAS (2002), que eu ainda não vi e nem tenho tanta vontade de ver. Seu último trabalho produzido na Espanha foi LA HABITACIÓN DEL NIÑO (2006), filme feito para a televisão, integrante do projeto PELÍCULAS PARA NO DORMIR. Esse projeto deve ser uma espécie de versão espanhola do MASTERS OF HORROR e conta com Jaume Balagueró entre seus realizadores.

P.S.: No Youtube é possível ver MIRINDAS ASESINAS (1991), o curta-metragem de estréia de Iglesias.

quinta-feira, agosto 24, 2006

SEINFELD - 5ª TEMPORADA (Seinfeld - Season 5)



Se a quinta temporada (1993-1994) não consegue ser melhor que a anterior é porque se equiparar à quarta temporada era uma missão quase impossível. A série caiu um pouco provavelmente pela diminuição do número de roteiros escritos por Larry David e Larry Charles, os nomes mais criativos da série. David escreveu onze roteiros para a quarta temporada e apenas oito para a quinta; Charles, diminuiu de sete na quarta para apenas três para a quinta. Mas apesar de alguns dos episódios da quinta temporada terem sido escritos por outros roteiristas - caso de "The Hamptons" -, o bom nível dos episódios se manteve, sinal de que os personagens já tinham ganhado vida própria. Tom Cherones se manteve como o único diretor de todos os episódios da temporada. Provavelmente porque ele sempre teve um bom relacionamento com a turma, o que é muito importante em se tratando de comédia.

Assim que eu recebi o meu pacote da quinta temporada, já dei uma boa gargalhada quando vi a foto de Jerry vestido com a tal camisa bufante, a "puffy shirt". Esse episódio fez tanto sucesso que nos EUA saiu uma edição especial com a quarta e quinta temporadas vendidas num único box junto com uma miniatura da tal camisa ridícula.

Dando prosseguimento ao grande sucesso do episódio "The Contest", que lidava com o assunto masturbação, dessa vez vieram à tona assuntos de temática sexual como: mulheres fingindo o orgasmo ("The Mango"), sexo por telefone ("The Stall"), botar o pau pra fora no primeiro encontro ("The Stand-in") e encolhimento do pênis ("The Hamptons"). Nessa temporada, Kramer teve bem mais momentos de destaque. Ele bebe uma caneca inteira de chope sem tirar o cigarro da boca; briga com um anão e tem uma idéia genial sobre um livro sobre coffe tables.

Pra não perder o costume, segue o meu top 5 da quinta temporada.

1. "The Opposite". Impressionante como sempre que eu assisto esse episódio me dá vontade de usá-lo como forma de mudar a minha vida. Na trama, George Constanza, o loser de plantão, resolve fazer exatamente o oposto do que faz em sua vida, já que tudo que ele faz dá errado. Imediatamente sua vida passa a mudar para melhor. Sensacional o momento em que George se apresenta para uma mulher: "meu nome é George Constanza, tenho 36 anos, estou desempregado e moro com os meus pais".

2. "The Puffy Shirt". Esse episódio beira à perfeição: ao mesmo tempo que vemos George conseguindo um emprego de modelo de mão, Jerry, devido a um mal entendido com uma namorada de Kramer, acaba aceitando aparecer num programa de televisão usando uma camisa bufante. Quando Kramer diz que ele vai ficar parecido com um pirata, Jerry diz: "mas eu não quero ser um pirata!".

3. "The Hamptons". Os quatro amigos viajam para ver o bebê dos Hamptons. Ao chegar lá, eles constatam que o bebê é uma das coisas mais horríveis que eles já viram. Ao mesmo tempo, George é pego pelado depois de sair da piscina, com o pinto todo encolhido.

4. "The Marine Biologist". Esse episódio é famoso pelo monólogo final de George, depois que ele salva uma baleia encalhada. A confusão acontece quando Jerry diz pra uma de suas ex-namoradas que ele agora é um biólogo marinho.

5. "The Dinner Party". Esse episódio está para a quinta temporada assim como "The Movie" está para a quarta. Nesse episódio, os quatro amigos se preparam para uma festa de aniversário e resolvem comprar alguma coisa para não chegar lá de mãos abanando. Nem preciso dizer que as coisas dão tudo errado.

Ficaram de fora do top 5 outras maravilhas como "The Glasses", "The Sniffing Accountant" e "The Fire".

P.S.: O Diário de um Cinéfilo ultrapassou ontem as 200 mil visitas. Legal. Sei que a maioria dos visitantes são ocasionais e através do Google, mas sei também que tenho leitores fiéis. Agradeço muito a vocês por isso.

quarta-feira, agosto 23, 2006

TRÊS POLICIAIS



Bom, na verdade, nem sei se dá pra chamar esse filmes de "policiais", já que a polícia não é elemento importante nos filmes. O que talvez mais se aproxime de um policial é SENTINELA (2006), que mostra agentes da lei (Serviço Secreto). Em BEIJOS E TIROS (2005), temos a figura de um policial, mas que tem importância secundária na trama. Já NEM TUDO É O QUE PARECE (2004) é um filme de gângster sub-Tarantino. Mas como é tudo filme com tiroteio, então tá valendo. Hoje os comentários vão ser curtos e grossos.

SENTINELA (The Sentinel)

A idéia era capitalizar em cima de 24 HORAS, trazendo Kiether Sutherland em papel semelhante a Jack Bauer. Inclusive, corre o risco de Sutherland ficar preso ao papel pra sempre. E o engraçado é que Sutherland nem é o protagonista do filme e sim Michael Douglas, mas foi ele quem chamou mais a atenção do público. Quanto a SENTINELA, logo que a gente fica sabendo que a direção é de Clark Johnson, do fraco S.W.A.T. (2003), já dá pra esperar pouca coisa. Na trama, Douglas é um agente do serviço secreto que tem um caso com a Primeira Dama, interpretada por Kim Basinger. Ele precisa fugir quando é confundido com um traidor do Governo dos EUA. Pela sinopse, até que poderia ser um filme cheio de suspense e com um belo jogo de gato e rato, como O FUGITIVO, mas o filme é frio e sem graça. Qualquer episódio de 24 HORAS é melhor.

BEIJOS E TIROS (Kiss Kiss, Bang Bang)

A melhor coisa na estréia de Shane Black na direção chama-se Michelle Monaghan. Isso mesmo, a moça que fez par romântico com Tom Cruise em MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3 mostra que está sendo subaproveitada nos poucos filmes em que apareceu. Em BEIJOS E TIROS, ela teve a chance de mostrar todo o seu brilho. A menina é bonita, é talentosa e tem muito sex appeal. A cena dela na cama com o Robert Downey Jr. já justifica o filme inteiro. Além do mais, apesar de ser o terceiro nome a aparecer nos créditos, acredito que ela permaneça em cena mais tempo que o Val Kilmer, que também está muito bem no papel de um policial gay. Kilmer ainda estava bem gordo, por causa dos quilos que ele ganhou para fazer ALEXANDRE, de Oliver Stone. Mas quem tem mais espaço para brilhar no filme é mesmo Downey Jr., que continua com seus problemas com drogas e vive em tratamento. BEIJOS E TIROS tem vários momentos divertidos e funciona tanto como comédia quanto como film noir, o que já era meio que uma característica da série MÁQUINA MORTÍFERA, criação de Black. Elementos de metalinguagem na narração em off de Downey Jr dão ao filme um charme extra. Mas se o filme não tivesse a Michelle não teria metade da graça, hein.

NEM TUDO É O QUE PARECE (Layer Cake)

Minha esperança era de que, com a direção de outra pessoa, o estilo sub-tarantinesco de Guy Ritchie não seria explorado. Pode-se até dizer que NEM TUDO É O QUE PARECE é melhor que SNATCH (2000), mas o mesmo número exagerado de personagens faz com que a gente se aborreça com o filme. Dirigido por Matthew Vaughn, produtor de SNATCH, NEM TUDO É O QUE PARECE tem os seus bons momentos e a performance de Daniel Craig é muito boa. Gosto da seqüência dos créditos iniciais, ao som de "She sells sanctuary" da banda The Cult. Até me fez ficar a fim de ouvir de novo o disco, que está entre os desprezados da minha coleção. Aliás, o uso da música no filme é bem interessante. Se eu não me engano, numa seqüência violenta, toca "Ordinary World", do Duran Duran, com algumas paradas-surpresa. O chato mesmo é a trama cheia de novos nomes aparecendo, personagens que a gente não dá a mínima e uma vontade de parecer estiloso a todo custo. Não é qualquer um que pode ser um Tarantino. O DVD nacional está muito bom, em widescreen (2,35:1), comentários em áudio legendados em português, making of e entrevistas com os realizadores. Não que eu tenha tido paciência de ver isso tudo.

Agradecimentos ao amigo Zezão, que me emprestou os DVDs de BEIJOS E TIROS e de NEM TUDO É O QUE PARECE.

P.S.: Começou a temporada de grandes séries nos EUA. Já baixei e assisti o primeiro episódio da segunda temporada de PRISON BREAK, uma das séries mais legais que eu já tive o prazer de assistir. Fora isso, também estou vendo aos poucos a terceira temporada da excelente A SETE PALMOS, bem como episódios da série animada MONSTER.

P.P.S.: Tem coluna nova no CCR: o preconceito com gêneros cinematográficos.

terça-feira, agosto 22, 2006

OBRIGADO POR FUMAR (Thank You for Smoking)



Pra um filme que é vendido (no trailer) como uma comédia politicamente incorreta, até que OBRIGADO POR FUMAR (2005) é comportado. O que não quer dizer que não seja um bom filme. OBRIGADO PRO FUMAR é filme-irmão de O SENHOR DAS ARMAS, de Andrew Niccol: no lugar de um vendedor de armas de fogo, vemos um lobista da indústria tabagista; em vez de um drama trágico, temos uma comédia adulta e irônica sobre a arte de manipular.

Quando perguntado porque trabalha para uma indústria que produz a morte de milhões de pessoas, Nick Naylor (Aaron Eckhart) diz que ele faz aquilo porque é naquilo que ele é bom. Afinal, não é qualquer um que tem lábia para convencer as pessoas daquele jeito. Acho que os melhores manipuladores ou estão na política, na publicidade, ou trabalhando como advogado. Alguns são vendedores também, mas esses são "peixe pequeno".

Um dos melhores momentos do filme é quando Naylor sai com uma mala cheia de dinheiro a fim de calar a boca de um caubói da Marlboro que estava processando a indústria. A idéia de convencer os produtores de Hollywood a mostrar os astros fumando também é muito boa, ainda que não seja lá tão original. O interessante é que o filme fala o tempo todo de cigarros, mas em nenhum momento é mostrado alguém fumando. E olha que o próprio protagonista também é fumante, como é revelado em certo momento.

A idéia do personagem de William H. Macy, o senador democrata que quer instituir nos maços de cigarro a figura de uma caveira e o nome "poison", foi basicamente utilizada aqui no Brasil. Aliás, eu diria que os maços de cigarro vendidos aqui são ainda mais assustadores, com aquelas fotos de pessoas com os membros mutilados ou com câncer na boca. Isso é bem mais perturbador que o desenho de uma caveira. Como meu pai faleceu vítima do cigarro, aprendi de perto os danos que o cigarro causa. Mas a questão aqui não é essa. OBRIGADO POR FUMAR não é um filme nem pró nem anti-tabaco. A questão é um pouco mais complexa.

O que não é complexa é a maneira como os personagens são apresentados, tudo de maneira muito superficial. No fim das contas, sabemos muito pouco do personagem de Aaron Eckhart e de sua família e menos ainda de seus amigos do Esquadrão da Morte - Maria Bello, da indústria do álcool, e David Koechner, da indústria das armas. A tão citada cena de sexo com a Katie Holmes é uma decepção completa e o boato de que Tom Cruise tenha pedido cortes começa a ser algo que eu não descarto. No entanto, isso tudo pode ser relevado, levando em consideração que se trata de um filme de idéias e que traz a melhor interpretação da carreira de Aaron Eckhart.