Walter Hugo Khouri, o maior de nossos cineastas, depois de um flerte com o film noir americano no excelente ESTRANHO ENCONTRO (1958), conseguiu financiamento e apoio para uma produção com dinheiro estrangeiro, rodado, tanto em inglês como em português. Infelizmente a versão em português está dada como perdida, mas podemos comemorar o fato de que existe a versão em inglês, que pode não ser exatamente o FRONTEIRAS DO INFERNO (1959), mas sua versão irmã gêmea, LONESOME WOMEN. De todo modo, ter acesso a uma obra como essas já é uma bênção para quem é fã da obra do mestre.
Assim como a obra anterior, FRONTEIRAS DO INFERNO lembra mais cinema americano do que cinema europeu. A partir de NOITE VAZIA (1964), ele faria um cinema que lembraria tanto Ingmar Bergman quanto Michelangelo Antonioni. Aqui o que temos é uma espécie de western passado numa cidade pequena cujo principal motor econômico é o garimpo. Trata-se de uma cidade amaldiçoada, com as pessoas (principalmente as mulheres), sentindo-se como se estivessem vivendo numa espécie de inferno.
O filme começa com a presença de um homem idoso que encontra um diamante de tamanho generoso. Como é garimpeiro há anos, sabe que o dono das terras lhe pagaria apenas uma pequena quantia por aquela preciosa pedra, que poderia ser sua chance de sair daquele lugar com sua filha (Aurora Duarte). A chance de fugir dali vem quando surge na cidade um homem estrangeiro (Hélio Souto), cujo carro é capaz de passar por terras acidentadas. Logo aquele homem também será alvo da agressão e opressão do líder dos garimpeiros, que suspeita que ele está com a pedra, depois que o pobre velho morre, em seus braços.
Por mais que possa parecer um filme à moda antiga sobre um herói que vem de longe para salvar a mocinha, FRONTEIRAS DO INFERNO traz algo que seria uma das marcas do cinema de Khouri: a importância das personagens femininas. Aqui elas são várias e vivendo em diferentes realidades. Todas elas possuem motivos mais do que suficientes para fugirem daquele lugar e encontram na figura do forasteiro a chance. Como um filme sobre a cobiça, porém, já não é tão marcante. O cinema americano já fez exemplares tão melhores a respeito. Por isso, o que marca mesmo nesta produção de encomenda é o quanto de atmosfera khouriana já é possível perceber.
A cópia que chegou em minhas mãos é ripada de um VHS da Something Weird Video nos anos 1990. Está com as cores esmaecidas, mas já é uma surpresa ser um filme em cores. Com dinheiro brasileiro, Khouri só faria um filme em cores em 1970, com O PALÁCIO DOS ANJOS.
+ TRÊS FILMES
MINHA FAMA DE MAU
A gente torce para que o filme encontre o seu prumo, mas infelizmente há muita coisa sem tesão ou apresentada de maneira tão ruim que seria melhor que tivesse sido deletada, como a cena da apresentação da canção "Amigo", por exemplo. O filme ficaria menos falho sem essa parte. Aliás, o ator que faz o Roberto não convence (e canta mal, ainda por cima). Já o Chay Suede está bem como o Erasmo. Ele já havia se mostrado muito bem em RASGA CORAÇÃO. Falta também força nas canções, principalmente nas melhores dessa primeira fase da dupla Roberto-Erasmo. Direção: Lui Farias. Ano: 2019.
INTIMIDADE ENTRE ESTRANHOS
Antes de entrar para a sessão deste filme eu já estava pensando: antes ver um filme brasileiro fraco do que um americano fraco. E é assim mesmo que eu penso. No caso deste aqui, que conta com roteiro de Matheus Souza, é possível ver com algum prazer até o final, principalmente por causa da personagem de Rafaela Mandelli. Os dois homens da história são dois bocós, embora a gente se solidarize um pouco com o jovem que se apaixona pela mulher mais velha que ele, mas bastante atraente. O final é meio constrangedor e podia ser evitado, a partir do roteiro. Direção: José Alvarenga Jr. Ano: 2018.
DIAMANTINO
Uma coisa não dá para negar de DIAMANTINO: sua singularidade. E é um filme que abraça o seu protagonista a ponto de se tornar um com ele. Ou algo próximo disso, já que há vários momentos em que apenas o espectador ri das situações. Diamantino não tem consciência do que está acontecendo, embora como narrador onisciente ele passe a ter. Há também as boas alfinetadas na extrema direita e no que o mundo vem se tornando. Direção: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Ano: 2018.
quarta-feira, maio 29, 2019
sexta-feira, maio 24, 2019
ALADDIN
Que bela surpresa este novo ALLADIN (2019)! Embora se trate de um remake da animação dos anos 90, representa mais do que isso, com um frescor impressionante, ao trazer de volta o fascínio pelo conto retirado do clássico As Mil e uma Noites. Me entusiasmei com as aventuras do jovem ladrão de ruas gentil e apaixonado pela princesa de seu reino.
Quanto às canções, para quem não gosta tanto de musicais, elas não apenas não incomodam, como são importantes para que o clima de fantasia e de magia contagie o espectador. Tudo pode acontecer em um filme em que um gênio sai de dentro de uma lâmpada. Quem espera um "senta, que lá vem música" bem chato já pode se animar, pois as canções emocionam tanto pela beleza da melodia quanto pelo conjunto da cena, como no momento em que Aladdin e Jasmine passeiam em cima do tapete mágico.
A Disney tem uma característica que pode ser vista como um defeito, mas também como uma qualidade: o fato de querer fazer filmes como se ainda estivesse na década de 1950. E por isso há quem ache algumas de suas produções, especialmente essas que lidam também com canções, como foi também o caso de A BELA E A FERA, de Bill Condon, como algo velho, embora uma obra excelente como MOGLI, O MENINO LOBO, de Jon Favreau, pareça bastante moderna em certos aspectos.
Em um ano em que temos três adaptações de clássicos da animação da casa do Mickey para live action - o primeiro foi DUMBO, de Tim Burton, e o próximo será O REI LEÃO, de Jon Favreau -, ALADDIN, dirigido pelo irregular Guy Ritchie, encanta com seu colorido à Bollywood, seu dinamismo narrativo e uma trinca de personagens principais bastante carismáticos: Will Smith, como o gênio da lâmpada; Mena Massoud, como o Aladdin; e Naomi Scott, como a princesa Jasmine.
E que princesa! Naomi Scott já havia aparecido em POWER RANGERS, mas é neste filme que sua beleza e brilho se destacam. E muito em breve vamos poder vê-la na nova versão de AS PANTERAS. Ela justifica o espectador torcer pelo Aladdin, ao se colocar em seu lugar na jornada. Afinal, quem nunca fantasiou sobre ter a possibilidade de ter direito a três desejos realizados em um passe de mágica?
Além do mais, ALADDIN é um filme sobre ter sabedoria na hora de exercitar os seus desejos, a fim de não se deixar levar pela ambição cega. Que é basicamente o caminho do personagem de Marwan Kenzari, que interpreta o vizir, o conselheiro do Sultão. Quanto à princesa, vale destacar o quanto ela é mais valorizada nesta versão em comparação com a animação. Isso se deve tanto ao roteiro quanto à própria atriz, que empresta um encanto muito bem-vindo à personagem.
Assim, a história de amor com Aladdin ganha força. Ainda que a aventura e a fantasia sejam talvez os elementos mais fortes do filme, o que leva o herói a fazer o que faz é o amor que ele sente pela princesa. Um amor que é recíproco, mas que tem como primeiro obstáculo o fato de que ela deve se casar, segundo a lei, apenas com um outro príncipe, não com um plebeu qualquer como Aladdin. Mas o que seriam das histórias de amor sem os obstáculos?
Quanto às canções, os clássicos de Alan Menken e Howard Ashman para a animação de 1992 retornam, mas há uma novidade feita especialmente para Jasmine, "Speechless", música de Menken, e letra de Pasek & Paul, cantada com entusiasmo e brilho pela própria Naomi Scott em um momento particularmente cheio de emoção. Pois é. Há muitos motivos para ficar entusiasmado com este filme que parecia ter um destino um tanto incerto.
+ TRÊS FILMES
NASCE UMA ESTRELA (A Star Is Born)
Gostei mais deste do que do filme do Minelli! Mas ainda tenho meus problemas com a parte musical. Queria ter gostado mais das canções, já que elas são tão importantes para o todo. E embora a presença de Lady Gaga seja ótima, a interpretação do Bradley Cooper é que está sensacional. Tocante, emocionante como o personagem do artista decadente. Bela estreia na direção também. Direção: Bradley Cooper. Ano: 2018.
PAPILLON
Filmes sobre tentativas de fuga de prisões quase sempre são bons de ver. Mas a intenção do novo PAPILLON parece ser mais ambiciosa. Infelizmente acabamos sentindo um pouco de indiferença pelos personagens, por mais que goste do personagem do Malek. E também gosto do fato de ser um filme sobre amizade. Mas depois de ver UMA NOITE DE 12 ANOS, o horror da prisão do Papillon até perde força. Direção: Michael Noer. Ano: 2017.
CEMITÉRIO MALDITO (Pet Sematary)
O legal desta nova versão de CEMITÉRIO MALDITO são as surpresas. Quem acha que vai ver a mesma história do filme de Mary Lambert vai ver algumas situações que tornam a obra até melhor. Embora a conclusão não tenha sido tão boa, não deixa de ser um belo trabalho sobre uma tragédia familiar de grandes proporções, a partir da atração pelo mal. Sempre bom ter um ator gigante como John Lithgow presente. E a garotinha também é muito boa. Não lembro se o anterior ou mesmo o romance de Stephen King (que eu adoro!) tem o flashback da irmã da esposa/mãe da família. Direção: Kevin Kölsch e Dennis Widmyer. Ano: 2019.
quinta-feira, maio 16, 2019
A GAROTA DE LUGAR NENHUM (La Fille de Nulle Part)
Faleceu no último sábado, 11, Jean-Claude Brisseau, 74, um dos cineastas mais brilhantes surgidos nas últimas quatro décadas, ainda que sua popularidade seja restrita a um círculo relativamente pequeno de apreciadores de cinema. O filme que escolhi para ver em sua homenagem foi um de seus últimos trabalhos, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), que até tem um sabor de filme-despedida, ao mesmo tempo em que é também um trabalho de satisfação no fim da vida.
Há uma série de questões filosóficas que são discutidas, inclusive de natureza judaico-cristãs, e há também um namoro com o sobrenatural, coisa que já havia sido abordada fortemente no anterior ERÓTICA AVENTURA (2008). Aqui, diferente do anterior, porém, o erotismo é praticamente deixado de lado. O que combina com a proposta do filme, mas ligado à filosofia, ao misticismo e às angústias existenciais (fala-se tanto nas possibilidades de comunicação com os mortos quanto em reencarnação).
Assim como em OS ANJOS EXTERMINADORES (2006), há algo hostil que ronda o protagonista, Michel Deviliers, vivido pelo próprio Brisseau. Fenômenos paranormais passam a acontecer em sua residência (a locação é o próprio apartamento do cineasta) a partir do momento em que ele abriga uma garota que estava sendo agredida em seu prédio. Dora (Virginie Legeay), a jovem, traz para aquele velho e amargurado professor mais gosto pela vida, embora a relação entre os dois seja mais de pai e filha, devido principalmente à grande diferença de idade.
Solitário, mas bastante à vontade com a própria solidão, tendo os estudos como aliado, principalmente depois da morte da esposa, Deviliers passa a perceber em Dora alguém com quem ele pode compartilhar seus pensamentos, que estão sendo transpostos para um livro, bem como ajudá-lo a se sentir menos só. Os diálogos entre os dois são tão ricos e densos que seria interessante parar o filme em determinados momentos para anotar e refletir a respeito de certas questões.
Algumas cenas são particularmente marcantes, seja do ponto de vista da ternura, como em uma cena aparentemente independente da trama principal, que mostra uma ex-aluna de Deviliers abordando-o na rua para agradecê-lo por ter sido tão importante para que ela abrisse os olhos para o cinema e para as artes; seja do ponto de vista do medo, como na cena do fantasma com uma faca na mão adentrando o quarto do protagonista. Há também uma muito interessante cena de sessão espírita que pode assombrar espectadores mais impressionados. Momentos marcantes não faltam para ficar na memória neste penúltimo filme de Brisseau.
+ TRÊS FILMES
VARDA POR AGNÈS (Varda par Agnès)
Seria muito bom se cada grande cineasta pudesse fazer em vida o que a Agnès Varda fez aqui, aos 90 anos, e perfeitamente lúcida e bem-humorada: fazer um balanço de sua carreira e de suas obsessões como artista. No caso de Varda, hoje considerada a maior das cineastas mulheres de todos os tempos, ela prefere contar sua história como diretora - e também como mulher - como num fluxo de consciência, não exatamente seguindo uma ordem cronológica. Assim o filme segue numa linha narrativa muito bonita. Uma pena que até entre os estudantes de cinema presentes em sua palestra, apenas alguns "gatos pingados" viram seu filme mais conhecido, CLÉO DAS 5 ÀS 7 (1962). Há muito a se descobrir, portanto. Falo por mim também, que só vi três de seus filmes. Ano: 2019.
SUPREMA (On the Basis of Sex)
Certas histórias merecem ser contadas e ao final da sessão em que estive houve até salva de palmas, mas uma pena que a história de Ruth Bader Ginburg tenha resultado em um filme tão quadradinho e monótono. A força está basicamente na protagonista e em sua luta para conquistar a igualdade de gênero nos Estados Unidos, ela que sofreu preconceito sendo mulher na faculdade de Direito em Harvard. Direção: Mimi Leder. Ano: 2018.
DIE BEISCHLAFDIEBIN
Terceiro trabalho de Christian Petzold para a televisão e que continuava sua obsessão por mostrar pessoas marginais em busca de um escape para a vida. Aqui acompanhamos uma mulher que ganha a vida executando golpes em homens durante primeiros encontros em bares e hotéis. O filme cresce quando ela parte para a casa da irmã e ocorre um dinamismo interessante entre as duas, que são bem diferentes. Há um misto de melodrama com algo próximo de UM CORPO QUE CAI, que seria algo que o diretor trabalharia em PHOENIX (2014) no futuro. Ano: 1998.
Há uma série de questões filosóficas que são discutidas, inclusive de natureza judaico-cristãs, e há também um namoro com o sobrenatural, coisa que já havia sido abordada fortemente no anterior ERÓTICA AVENTURA (2008). Aqui, diferente do anterior, porém, o erotismo é praticamente deixado de lado. O que combina com a proposta do filme, mas ligado à filosofia, ao misticismo e às angústias existenciais (fala-se tanto nas possibilidades de comunicação com os mortos quanto em reencarnação).
Assim como em OS ANJOS EXTERMINADORES (2006), há algo hostil que ronda o protagonista, Michel Deviliers, vivido pelo próprio Brisseau. Fenômenos paranormais passam a acontecer em sua residência (a locação é o próprio apartamento do cineasta) a partir do momento em que ele abriga uma garota que estava sendo agredida em seu prédio. Dora (Virginie Legeay), a jovem, traz para aquele velho e amargurado professor mais gosto pela vida, embora a relação entre os dois seja mais de pai e filha, devido principalmente à grande diferença de idade.
Solitário, mas bastante à vontade com a própria solidão, tendo os estudos como aliado, principalmente depois da morte da esposa, Deviliers passa a perceber em Dora alguém com quem ele pode compartilhar seus pensamentos, que estão sendo transpostos para um livro, bem como ajudá-lo a se sentir menos só. Os diálogos entre os dois são tão ricos e densos que seria interessante parar o filme em determinados momentos para anotar e refletir a respeito de certas questões.
Algumas cenas são particularmente marcantes, seja do ponto de vista da ternura, como em uma cena aparentemente independente da trama principal, que mostra uma ex-aluna de Deviliers abordando-o na rua para agradecê-lo por ter sido tão importante para que ela abrisse os olhos para o cinema e para as artes; seja do ponto de vista do medo, como na cena do fantasma com uma faca na mão adentrando o quarto do protagonista. Há também uma muito interessante cena de sessão espírita que pode assombrar espectadores mais impressionados. Momentos marcantes não faltam para ficar na memória neste penúltimo filme de Brisseau.
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VARDA POR AGNÈS (Varda par Agnès)
Seria muito bom se cada grande cineasta pudesse fazer em vida o que a Agnès Varda fez aqui, aos 90 anos, e perfeitamente lúcida e bem-humorada: fazer um balanço de sua carreira e de suas obsessões como artista. No caso de Varda, hoje considerada a maior das cineastas mulheres de todos os tempos, ela prefere contar sua história como diretora - e também como mulher - como num fluxo de consciência, não exatamente seguindo uma ordem cronológica. Assim o filme segue numa linha narrativa muito bonita. Uma pena que até entre os estudantes de cinema presentes em sua palestra, apenas alguns "gatos pingados" viram seu filme mais conhecido, CLÉO DAS 5 ÀS 7 (1962). Há muito a se descobrir, portanto. Falo por mim também, que só vi três de seus filmes. Ano: 2019.
SUPREMA (On the Basis of Sex)
Certas histórias merecem ser contadas e ao final da sessão em que estive houve até salva de palmas, mas uma pena que a história de Ruth Bader Ginburg tenha resultado em um filme tão quadradinho e monótono. A força está basicamente na protagonista e em sua luta para conquistar a igualdade de gênero nos Estados Unidos, ela que sofreu preconceito sendo mulher na faculdade de Direito em Harvard. Direção: Mimi Leder. Ano: 2018.
DIE BEISCHLAFDIEBIN
Terceiro trabalho de Christian Petzold para a televisão e que continuava sua obsessão por mostrar pessoas marginais em busca de um escape para a vida. Aqui acompanhamos uma mulher que ganha a vida executando golpes em homens durante primeiros encontros em bares e hotéis. O filme cresce quando ela parte para a casa da irmã e ocorre um dinamismo interessante entre as duas, que são bem diferentes. Há um misto de melodrama com algo próximo de UM CORPO QUE CAI, que seria algo que o diretor trabalharia em PHOENIX (2014) no futuro. Ano: 1998.
segunda-feira, maio 13, 2019
LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (Di Qiu Zui Hou De Ye Wan)
O cinema é a forma de arte que mais se aproxima do sonho, por mais que a intenção de boa parte dos cineastas seja a busca de uma impressão de realismo. E é até compreensível, levando em consideração que nem todos conseguem trabalhar de maneira satisfatória com o sonho no cinema. Ao falar de sonho lembra-se de Luis Buñuel, de David Lynch, de Alejandro Jodorowsky, de Alain Resnais, de Andrei Tarkovski, de Ingmar Bergman. São poucos, na verdade, os cineastas que conseguem transformar o cinema em matéria de sonho.
Eis que, do cinema chinês, que atualmente vem tratando mais de questões sociais e políticas em seus dramas, surge o jovem cineasta Gan Bi e seu impressionante LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (2018), que pega emprestado o título da peça de Eugene O’Neill, embora não guarde muita relação. O título é explicativo quando entramos na segunda metade do filme, que usa um longo plano-sequência para nos levar para uma jornada noturna em busca de uma mulher. Por mais que a primeira parte seja hermética e por vezes confusa, uma vez que passamos por ela, somos tragados por uma das mais fascinantes viagens já mostradas pelo cinema.
A primeira parte lida com o tempo escorregadio e o caráter vago da memória. A memória de quase duas décadas, quando o protagonista Luo Hongwu (Jue Huang) conheceu uma mulher misteriosa, Wan Qiwen (a bela Wei Tang, de DESEJO E PERIGO). Fragmentos de memória parecem se juntar a imagens de ficção ou de sonhos, como que de um filme visto por Hongwu que talvez tenha se misturado às lembranças.
Em entrevista à revista Cinema Scope, de setembro de 2018, Gan Bi disse que sempre se sentiu em perigo durante as filmagens, como se ele sempre estivesse prestes a destruir o filme, a fazer alguma decisão errada, ou a destruir a si mesmo. Algo parecido pode ser refletido no espectador, como uma espécie de angústia, ao mesmo tempo em que a sensação de se perder na noite é extremamente excitante.
É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostrou um virtuosismo impressionante.
O que dizer da cena do ping-pong com o garoto na mina? E da raquete mágica? E a do encontro com a garota da sinuca? E a conversa com a mulher da tocha? São cenas tão cheias de elementos oníricos fortes que nos arrebatam como poucos. E ainda por cima há todo um cuidado visual. Há o vestido verde de Wan Qiwen: sempre que a cor aparece nos lembramos dela. Há um cuidado todo especial com cada enquadramento, cores e cenário, mesmo sendo tudo tão sombrio e noturno. Meus amigos, estamos diante de um dos grandes filmes do novo século.
Um detalhe curioso da carreira comercial de LONGA JORNADA NOITE ADENTRO é que o filme teve uma campanha de marketing na China semelhante à de um blockbuster (há a utilização de tecnologia 3D na segunda metade em algumas salas, o que ajuda), mas que ocasionou muitas reclamações. Afinal, ninguém estava preparado para um filme de arte. Assim, houve uma saída em peso de pessoas no meio dessas sessões iniciais. Assim, o filme acabou faturando bastante no dia da abertura, embora tenha caído nos dias seguintes. Ou seja, parte do público foi enganado, mas nem por isso deixou de ser, ainda que não admita, privilegiado.
+ TRÊS FILMES
YOUR NAME. (Kimi No Na Wa)
A trama desta bela animação lembra um pouco A CASA DO LAGO, de Alejandro Agresti. Começa com uma troca de corpos entre um menino e uma menina que moram em lugares diferentes do Japão. Ambos intervêm de alguma maneira na rotina do outro, da mesma forma que passam a conhecer a vida um do outro. Há uma reviravolta que eleva o filme e torna o que estava ficando repetitivo em algo valioso e urgente. Direção: Makoto Shinkai. Ano: 2016.
OS SONÂMBULOS
Acho importante que tenhamos filmes que discutam nossa situação política sombria, mas é ruim quando esses filmes têm uma linguagem um pouco mais próxima da audiência. Nada contra hermetismos, mas nesse caso aqui, dura quase duas horas e chega um momento que a narração tediosa convida ao sono. Além do mais, há o problema de o filme tratar de uma situação menos grave do Brasil, de quando o problema era apenas o país ter sido vítima de um golpe. Agora a situação é muito pior. Que novos filmes tenham a chance de falar a respeito. Direção: Tiago Mata Machado. Ano: 2018.
ALBATROZ
Não me lembro de ter visto na filmografia brasileiro um filme tão assumidamente lynchiano. Há referências explícitas a VELUDO AZUL e a trama é mais intrincada (deveria dizer, perdida, no caso) do que CIDADE DOS SONHOS e ESTRADA PERDIDA. É uma pena, pois a brincadeira começa até bem, mas vai se perdendo à medida que vai chegando perto da conclusão. Na verdade, bem antes disso. É bom que exista um filme como esse, um corpo estranho dentro de lançamentos brasileiros e num cinema de shopping, ainda por cima, mas que pena que um elenco tão legal tenha sido mal aproveitado em um enredo que apostou na confusão e achou que era o suficiente para ganhar o espectador que gosta de desafios. Direção: Daniel Augusto. Ano: 2019.
Eis que, do cinema chinês, que atualmente vem tratando mais de questões sociais e políticas em seus dramas, surge o jovem cineasta Gan Bi e seu impressionante LONGA JORNADA NOITE ADENTRO (2018), que pega emprestado o título da peça de Eugene O’Neill, embora não guarde muita relação. O título é explicativo quando entramos na segunda metade do filme, que usa um longo plano-sequência para nos levar para uma jornada noturna em busca de uma mulher. Por mais que a primeira parte seja hermética e por vezes confusa, uma vez que passamos por ela, somos tragados por uma das mais fascinantes viagens já mostradas pelo cinema.
A primeira parte lida com o tempo escorregadio e o caráter vago da memória. A memória de quase duas décadas, quando o protagonista Luo Hongwu (Jue Huang) conheceu uma mulher misteriosa, Wan Qiwen (a bela Wei Tang, de DESEJO E PERIGO). Fragmentos de memória parecem se juntar a imagens de ficção ou de sonhos, como que de um filme visto por Hongwu que talvez tenha se misturado às lembranças.
Em entrevista à revista Cinema Scope, de setembro de 2018, Gan Bi disse que sempre se sentiu em perigo durante as filmagens, como se ele sempre estivesse prestes a destruir o filme, a fazer alguma decisão errada, ou a destruir a si mesmo. Algo parecido pode ser refletido no espectador, como uma espécie de angústia, ao mesmo tempo em que a sensação de se perder na noite é extremamente excitante.
É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostrou um virtuosismo impressionante.
O que dizer da cena do ping-pong com o garoto na mina? E da raquete mágica? E a do encontro com a garota da sinuca? E a conversa com a mulher da tocha? São cenas tão cheias de elementos oníricos fortes que nos arrebatam como poucos. E ainda por cima há todo um cuidado visual. Há o vestido verde de Wan Qiwen: sempre que a cor aparece nos lembramos dela. Há um cuidado todo especial com cada enquadramento, cores e cenário, mesmo sendo tudo tão sombrio e noturno. Meus amigos, estamos diante de um dos grandes filmes do novo século.
Um detalhe curioso da carreira comercial de LONGA JORNADA NOITE ADENTRO é que o filme teve uma campanha de marketing na China semelhante à de um blockbuster (há a utilização de tecnologia 3D na segunda metade em algumas salas, o que ajuda), mas que ocasionou muitas reclamações. Afinal, ninguém estava preparado para um filme de arte. Assim, houve uma saída em peso de pessoas no meio dessas sessões iniciais. Assim, o filme acabou faturando bastante no dia da abertura, embora tenha caído nos dias seguintes. Ou seja, parte do público foi enganado, mas nem por isso deixou de ser, ainda que não admita, privilegiado.
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YOUR NAME. (Kimi No Na Wa)
A trama desta bela animação lembra um pouco A CASA DO LAGO, de Alejandro Agresti. Começa com uma troca de corpos entre um menino e uma menina que moram em lugares diferentes do Japão. Ambos intervêm de alguma maneira na rotina do outro, da mesma forma que passam a conhecer a vida um do outro. Há uma reviravolta que eleva o filme e torna o que estava ficando repetitivo em algo valioso e urgente. Direção: Makoto Shinkai. Ano: 2016.
OS SONÂMBULOS
Acho importante que tenhamos filmes que discutam nossa situação política sombria, mas é ruim quando esses filmes têm uma linguagem um pouco mais próxima da audiência. Nada contra hermetismos, mas nesse caso aqui, dura quase duas horas e chega um momento que a narração tediosa convida ao sono. Além do mais, há o problema de o filme tratar de uma situação menos grave do Brasil, de quando o problema era apenas o país ter sido vítima de um golpe. Agora a situação é muito pior. Que novos filmes tenham a chance de falar a respeito. Direção: Tiago Mata Machado. Ano: 2018.
ALBATROZ
Não me lembro de ter visto na filmografia brasileiro um filme tão assumidamente lynchiano. Há referências explícitas a VELUDO AZUL e a trama é mais intrincada (deveria dizer, perdida, no caso) do que CIDADE DOS SONHOS e ESTRADA PERDIDA. É uma pena, pois a brincadeira começa até bem, mas vai se perdendo à medida que vai chegando perto da conclusão. Na verdade, bem antes disso. É bom que exista um filme como esse, um corpo estranho dentro de lançamentos brasileiros e num cinema de shopping, ainda por cima, mas que pena que um elenco tão legal tenha sido mal aproveitado em um enredo que apostou na confusão e achou que era o suficiente para ganhar o espectador que gosta de desafios. Direção: Daniel Augusto. Ano: 2019.
quinta-feira, maio 09, 2019
COMANDO NEGRO (Dark Command)
Que saudade do tempo em que eu conseguia fazer as chamadas peregrinações pelas obras de vários cineastas. Quem acompanhou este blog em seu auge deve lembrar do quanto eu me entusiasmei em ler e falar de obras de feras como Hitchcock, Ford, Hawks, Ray, Cukor, Truffaut, Rohmer. De preferência, de posse de um livro que abordasse suas obras, sejam livros de entrevistas ou livros de ensaios. Daí o livro Afinal, Quem Faz os Filmes, de Peter Bogdanovich, ser tão importante pra mim. Sabiam que até hoje não terminei de ler o livro, só porque quero ver os filmes dos diretores que são entrevistados? Um deles é Raoul Walsh, o sujeito que roubou o cadáver de um amigo apenas para assustar o outro. Pois é, em Hollywood tinha dessas coisas.
Conhecido como o cineasta aventureiro, Walsh poderia ser tão adorado quanto Ford, até por ter dirigido mais filmes do que ele, e também ter tantos clássicos de variados gêneros em sua filmografia. Vários de seus filmes da fase silenciosa estão infelizmente perdidos, mas como são 139 títulos (de acordo com o IMDB), incluindo curtas e longas, creio que nunca conseguirei terminar de ver todos os filmes dele, a não ser que me dedicasse exclusivamente a ele. Sem falar que alguns desses trabalhos muito provavelmente não estão disponíveis tão facilmente. Digo, aqueles que não são dados como perdidos.
Mas o importante é que um filme como COMANDO NEGRO (1940) está à disposição. Engraçado a minha história com essa obra. Tenho interesse em vê-lo desde que vi sendo destaque de uma sessão de lançamentos em VHS da revista SET. Na época, a crítica o colocou ao lado de JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray. E são filmes bem diferentes, na verdade, embora ambos sejam westerns.
Walsh dirigiu COMANDO NEGRO logo após o sucesso de público e crítica do drama criminal HERÓIS ESQUECIDOS (1939), uma belezura que marcou a safra rica dos filmes de gângster de Hollywood. E COMANDO NEGRO marca a reunião de Walsh com John Wayne, com quem trabalhou em um dos títulos mais famosos da fase inicial da carreira do caubói, A GRANDE JORNADA (1930). Aliás, foi Walsh quem praticamente criou John Wayne, que antes desse filme de 1930 ainda não tinha adotado o seu nome - ainda se chamava Marion Morrison, um nome feminino, mas seu nome de batismo.
Infelizmente a entrevista contida no livro de Bogdanovich não chega a iniciar a fase falada de Walsh. COMANDO NEGRO se passa em um momento anterior à Guerra Civil Americana, quando o personagem de Wayne, um caubói iletrado, chega a uma cidadezinha com seu amigo médico picareta, para ganhar algum dinheiro: Wayne bateria nos homens, que por sua vez, iriam arrancar o dente com o amigo dele. A trapaça deixaria de fazer parte da vida do protagonista no momento em que ele se tornaria o xerife eleito da cidade, vencendo o professor (Walter Pidgeon) que posteriormente se mostraria o verdadeiro vilão, ao começar a roubar e matar usando fardas de soldado da confederação quando a guerra eclode.
O motivo do herói ficar na cidade é um só: uma bela mulher (Claire Trevor), de família nobre, e que é constantemente convidada a se casar com o professor. Mas seu coração balança pelo charmoso iletrado de bom coração que chegou à cidade. Algo acontece que os afasta do casamento e a história se desenvolve com uma rapidez característica das obras de Walsh, um homem que provavelmente faria sucesso nos dias rápidos de hoje também.
Há quem diga que os heróis de Walsh são homens em crise pessoal, homens que não têm nada com o que se agarrar. O herói de COMANDO NEGRO surge assim. Porém, ele sente que tem algo a que se apegar quando se apaixona. E depois quando se dedica à profissão de homem da lei. É um homem que se reinventa de fato, como diz o crítico americano Dave Kehr no ensaio "Crisis, Compulsion, and Creation: Raoul Walsh’s Cinema of the Individual", um dos mais belos textos sobre a personalidade dos filmes do diretor.
+ TRÊS FILMES
DUMBO
Provavelmente seja um dos clássicos da Disney que mais envelheceu com o tempo. Feito após o sucesso de crítica de Fantasia, este filme tenta trabalhar com as possibilidades da animação sem necessariamente se preocupar tanto com a história, que aqui é um fiapo. Tanto que o filme só tem uma hora e poucos minutos de duração. A sequência em que Dumbo finalmente voa demora e eu esperava que fosse um pouco mais emocionante. Podiam ter explorado mais a tristeza da separação dele da mãe. E acho que os corvos hoje em dia talvez fosse uma escolha de gosto duvidoso, representado com vozes de negros. Mas, enfim, não deixa de ser um interessante retrato de uma época. Direção: Samuel Armstrong, Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Bill Roberts, Ben Sharpsteen, John Eliotte. Ano: 1941.
PERSONA/QUANDO DUAS MULHERES PECAM (Persona)
Ver PERSONA no cinema não tem preço. Foi minha primeira vez, embora já tenha visto o filme em casa três vezes. Mas é um filme tão etéreo, tão pouco palpável, que é como se fosse um sonho que a gente esquece. Um sonho importante e de imagens poderosas. E de texto poderoso. Como Bergman conseguia isso?! É impressionante. Cada quadro, cada cena merece um estudo à parte. E que valorização dos rostos das mulheres! Não sei se outro diretor era capaz disso. Direção: Ingmar Bergman. Ano: 1966.
SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the O.K. Corral)
Depois de ter visto o excelente A LEI DA FRONTEIRA, de Allan Dwan, fica difícil não fazer uma série de comparações com mais este filmes que trata de Wyatt Earp e Doc Holliday. Além de não trabalhar tão bem a amizade dos dois, o clímax chega a ser até enfadonho. O que eu mais gostei foi da parte técnica. A fotografia em technicolor é linda e a cópia em 720p dá uma dimensão do que deve ter sido ver esse filme no Vistavision, na época. Direção: John Sturges. Ano: 1957.
Conhecido como o cineasta aventureiro, Walsh poderia ser tão adorado quanto Ford, até por ter dirigido mais filmes do que ele, e também ter tantos clássicos de variados gêneros em sua filmografia. Vários de seus filmes da fase silenciosa estão infelizmente perdidos, mas como são 139 títulos (de acordo com o IMDB), incluindo curtas e longas, creio que nunca conseguirei terminar de ver todos os filmes dele, a não ser que me dedicasse exclusivamente a ele. Sem falar que alguns desses trabalhos muito provavelmente não estão disponíveis tão facilmente. Digo, aqueles que não são dados como perdidos.
Mas o importante é que um filme como COMANDO NEGRO (1940) está à disposição. Engraçado a minha história com essa obra. Tenho interesse em vê-lo desde que vi sendo destaque de uma sessão de lançamentos em VHS da revista SET. Na época, a crítica o colocou ao lado de JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray. E são filmes bem diferentes, na verdade, embora ambos sejam westerns.
Walsh dirigiu COMANDO NEGRO logo após o sucesso de público e crítica do drama criminal HERÓIS ESQUECIDOS (1939), uma belezura que marcou a safra rica dos filmes de gângster de Hollywood. E COMANDO NEGRO marca a reunião de Walsh com John Wayne, com quem trabalhou em um dos títulos mais famosos da fase inicial da carreira do caubói, A GRANDE JORNADA (1930). Aliás, foi Walsh quem praticamente criou John Wayne, que antes desse filme de 1930 ainda não tinha adotado o seu nome - ainda se chamava Marion Morrison, um nome feminino, mas seu nome de batismo.
Infelizmente a entrevista contida no livro de Bogdanovich não chega a iniciar a fase falada de Walsh. COMANDO NEGRO se passa em um momento anterior à Guerra Civil Americana, quando o personagem de Wayne, um caubói iletrado, chega a uma cidadezinha com seu amigo médico picareta, para ganhar algum dinheiro: Wayne bateria nos homens, que por sua vez, iriam arrancar o dente com o amigo dele. A trapaça deixaria de fazer parte da vida do protagonista no momento em que ele se tornaria o xerife eleito da cidade, vencendo o professor (Walter Pidgeon) que posteriormente se mostraria o verdadeiro vilão, ao começar a roubar e matar usando fardas de soldado da confederação quando a guerra eclode.
O motivo do herói ficar na cidade é um só: uma bela mulher (Claire Trevor), de família nobre, e que é constantemente convidada a se casar com o professor. Mas seu coração balança pelo charmoso iletrado de bom coração que chegou à cidade. Algo acontece que os afasta do casamento e a história se desenvolve com uma rapidez característica das obras de Walsh, um homem que provavelmente faria sucesso nos dias rápidos de hoje também.
Há quem diga que os heróis de Walsh são homens em crise pessoal, homens que não têm nada com o que se agarrar. O herói de COMANDO NEGRO surge assim. Porém, ele sente que tem algo a que se apegar quando se apaixona. E depois quando se dedica à profissão de homem da lei. É um homem que se reinventa de fato, como diz o crítico americano Dave Kehr no ensaio "Crisis, Compulsion, and Creation: Raoul Walsh’s Cinema of the Individual", um dos mais belos textos sobre a personalidade dos filmes do diretor.
+ TRÊS FILMES
DUMBO
Provavelmente seja um dos clássicos da Disney que mais envelheceu com o tempo. Feito após o sucesso de crítica de Fantasia, este filme tenta trabalhar com as possibilidades da animação sem necessariamente se preocupar tanto com a história, que aqui é um fiapo. Tanto que o filme só tem uma hora e poucos minutos de duração. A sequência em que Dumbo finalmente voa demora e eu esperava que fosse um pouco mais emocionante. Podiam ter explorado mais a tristeza da separação dele da mãe. E acho que os corvos hoje em dia talvez fosse uma escolha de gosto duvidoso, representado com vozes de negros. Mas, enfim, não deixa de ser um interessante retrato de uma época. Direção: Samuel Armstrong, Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Bill Roberts, Ben Sharpsteen, John Eliotte. Ano: 1941.
PERSONA/QUANDO DUAS MULHERES PECAM (Persona)
Ver PERSONA no cinema não tem preço. Foi minha primeira vez, embora já tenha visto o filme em casa três vezes. Mas é um filme tão etéreo, tão pouco palpável, que é como se fosse um sonho que a gente esquece. Um sonho importante e de imagens poderosas. E de texto poderoso. Como Bergman conseguia isso?! É impressionante. Cada quadro, cada cena merece um estudo à parte. E que valorização dos rostos das mulheres! Não sei se outro diretor era capaz disso. Direção: Ingmar Bergman. Ano: 1966.
SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight at the O.K. Corral)
Depois de ter visto o excelente A LEI DA FRONTEIRA, de Allan Dwan, fica difícil não fazer uma série de comparações com mais este filmes que trata de Wyatt Earp e Doc Holliday. Além de não trabalhar tão bem a amizade dos dois, o clímax chega a ser até enfadonho. O que eu mais gostei foi da parte técnica. A fotografia em technicolor é linda e a cópia em 720p dá uma dimensão do que deve ter sido ver esse filme no Vistavision, na época. Direção: John Sturges. Ano: 1957.
quarta-feira, maio 01, 2019
EM TRÂNSITO (Transit)
Alguns dos trabalhos dos grandes autores do cinema já têm em seu primeiro filme a semente do que veríamos quando o referido autor se torna um dos grandes. É o que acontece quando vemos, por exemplo, PINOTINNEN (1995), primeiro longa-metragem de Christian Petzold, feito para a televisão. Esse filme já antecipava o que veríamos em obras mais consagradas do cineasta, como a chamada trilogia do amor em tempos de sistemas opressivos, composta por BARBARA (2012), PHOENIX (2014) e o novo EM TRÂNSITO (2018).
O novo filme, inclusive, retoma o cenário dos personagens tristes e largados em cafés como ponto de partida, como podemos ver tanto no primeiro filme quanto no segundo, CUBA LIBRE (1996). Nesse segundo filme, aliás, também temos personagens em busca de lugares que sirvam como oásis para sua vida fracassada. Também como os primeiros filmes, EM TRÂNSITO tem um aspecto mais ensolarado no modo como destaca as principais cenas à luz do dia, contrastando com a ideia de que se trata de uma espécie de film noir, com vários elementos desse subgênero que teve o seu auge nas décadas de 1940 e 50, inclusive com o uso de uma voice-over, ainda que em terceira pessoa, dando um ar de fábula à narrativa.
Engraçado que quando comecei a ver o filme, talvez influenciado por alguma sinopse, jurava que se tratava de um drama de época. Mais especificamente nos tempos da ocupação alemã na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, só fui perceber que aquilo ali estava mais para uma distopia se passando numa espécie de presente ou futuro próximo depois de ver pequenas coisas mais modernas, como um telão de LED, e depois os carros, que não tinham nada de exemplares dos anos 40.
Como atualmente vivemos um período de ascensão da extrema direita e do neonazismo e também um momento de falta de sensibilidade para com os refugiados, vistos como ameaças por muitos, é fácil estabelecer uma conexão entre o filme e este mundo ensolarado para uns, mas bem triste para os demais, com a série crescente de absurdos acontecendo de modo que a cada dia fiquemos acostumados à violência. Há uma cena no filme em que os alemães buscam uma mulher refugiada de um apartamento e arrastam-na pelo corredor enquanto várias pessoas apenas testemunham, de certa forma aliviadas por aquilo não estar acontecendo com elas.
E até agora não falei do fio condutor principal, que faz do filme um melodrama. Temos a história de Georg (Franz Rogowski, ator que lembra fisicamente Joaquin Phoenix), um homem que vive uma vida despida de muito sentido. Quando ele entra em um apartamento e se apossa dos manuscritos e dos documentos de um escritor que cometeu suicídio, aquilo posteriormente será a chance para que ele mude de identidade e finalmente possa ir embora para outro lugar do mundo - o México ou os Estados Unidos.
Mas o grande impulso para Georg está em ter se apaixonado por uma mulher (Paula Beer, de FRANTZ), que embora viva com outro homem, tem como meta de vida encontrar o marido desaparecido. O peso do filme no triângulo amoroso confere à obra um tom mais universal, embora se distancie bastante das histórias de amor mais usuais. Petzold ainda prefere apostar na melancolia de personagens à deriva desse novo velho mundo do início do novo milênio.
+ TRÊS FILMES
PILOTINNEN
É muito interessante descobrir as obras iniciais de um cineasta que agora está no seu auge. No caso de Christian Petzold, ele começou de maneira bem modesta mesmo: primeiro com vídeo e depois com uma série de filmes para a TV. Este foi o primeiro desses filmes. A narrativa é ágil, mas às vezes parece falhar em alguns momentos, como nas más explicações dos relacionamentos das duas mulheres e seus homens. Mas acho que deve ser proposital isso, já que os caras são mesmo uns pulhas. Ano: 1995.
FAMÍLIA SUBMERSA (Familia Sumergida)
Eis um filme que é um exemplo de resistência. Mais exatamente de resistência para quem assiste. Do público presente na sessão, mais da metade saiu no meio. Achei complicado o meu envolvimento com o drama da personagem de Mercedes Morán, que é ótima sim, mas devido aos experimentalismos deste trabalho o impacto de seu sofrimento parece confuso. Há um flerte com o cinema de horror em alguns momentos, com as imagens de possíveis fantasmas vistos por ela, mas isso também tem pouco impacto na criação de uma atmosfera de medo ou estranheza. Lembrei um pouco de alguns trabalhos de Lucrécia Martel, que também costumam me incomodar. Não por acaso a diretora foi atriz de A MENINA SANTA, de Martel. Direção: María Alché. Ano: 2018.
AYKA
Mais um desses filmes que exageram na dose do "quanto mais desgraça melhor". Mas ao menos este aqui não utiliza de música ao fundo para puxar à força a tristeza. Por isso o sucesso de premiações do filme, que tem destacado a atuação da protagonista. Até por ela estar tão presente no filme, inclusive nos momentos mais íntimos de sua rotina sofrida. Vemos aqui a história de uma imigrante clandestina que foge de uma maternidade depois de ter a criança e está devendo dinheiro à máfia, tendo que trabalhar em empregos pouco atraentes para conseguir sobreviver. Direção: Sergei Dvortsevoy. Ano: 2018.
O novo filme, inclusive, retoma o cenário dos personagens tristes e largados em cafés como ponto de partida, como podemos ver tanto no primeiro filme quanto no segundo, CUBA LIBRE (1996). Nesse segundo filme, aliás, também temos personagens em busca de lugares que sirvam como oásis para sua vida fracassada. Também como os primeiros filmes, EM TRÂNSITO tem um aspecto mais ensolarado no modo como destaca as principais cenas à luz do dia, contrastando com a ideia de que se trata de uma espécie de film noir, com vários elementos desse subgênero que teve o seu auge nas décadas de 1940 e 50, inclusive com o uso de uma voice-over, ainda que em terceira pessoa, dando um ar de fábula à narrativa.
Engraçado que quando comecei a ver o filme, talvez influenciado por alguma sinopse, jurava que se tratava de um drama de época. Mais especificamente nos tempos da ocupação alemã na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Porém, só fui perceber que aquilo ali estava mais para uma distopia se passando numa espécie de presente ou futuro próximo depois de ver pequenas coisas mais modernas, como um telão de LED, e depois os carros, que não tinham nada de exemplares dos anos 40.
Como atualmente vivemos um período de ascensão da extrema direita e do neonazismo e também um momento de falta de sensibilidade para com os refugiados, vistos como ameaças por muitos, é fácil estabelecer uma conexão entre o filme e este mundo ensolarado para uns, mas bem triste para os demais, com a série crescente de absurdos acontecendo de modo que a cada dia fiquemos acostumados à violência. Há uma cena no filme em que os alemães buscam uma mulher refugiada de um apartamento e arrastam-na pelo corredor enquanto várias pessoas apenas testemunham, de certa forma aliviadas por aquilo não estar acontecendo com elas.
E até agora não falei do fio condutor principal, que faz do filme um melodrama. Temos a história de Georg (Franz Rogowski, ator que lembra fisicamente Joaquin Phoenix), um homem que vive uma vida despida de muito sentido. Quando ele entra em um apartamento e se apossa dos manuscritos e dos documentos de um escritor que cometeu suicídio, aquilo posteriormente será a chance para que ele mude de identidade e finalmente possa ir embora para outro lugar do mundo - o México ou os Estados Unidos.
Mas o grande impulso para Georg está em ter se apaixonado por uma mulher (Paula Beer, de FRANTZ), que embora viva com outro homem, tem como meta de vida encontrar o marido desaparecido. O peso do filme no triângulo amoroso confere à obra um tom mais universal, embora se distancie bastante das histórias de amor mais usuais. Petzold ainda prefere apostar na melancolia de personagens à deriva desse novo velho mundo do início do novo milênio.
+ TRÊS FILMES
PILOTINNEN
É muito interessante descobrir as obras iniciais de um cineasta que agora está no seu auge. No caso de Christian Petzold, ele começou de maneira bem modesta mesmo: primeiro com vídeo e depois com uma série de filmes para a TV. Este foi o primeiro desses filmes. A narrativa é ágil, mas às vezes parece falhar em alguns momentos, como nas más explicações dos relacionamentos das duas mulheres e seus homens. Mas acho que deve ser proposital isso, já que os caras são mesmo uns pulhas. Ano: 1995.
FAMÍLIA SUBMERSA (Familia Sumergida)
Eis um filme que é um exemplo de resistência. Mais exatamente de resistência para quem assiste. Do público presente na sessão, mais da metade saiu no meio. Achei complicado o meu envolvimento com o drama da personagem de Mercedes Morán, que é ótima sim, mas devido aos experimentalismos deste trabalho o impacto de seu sofrimento parece confuso. Há um flerte com o cinema de horror em alguns momentos, com as imagens de possíveis fantasmas vistos por ela, mas isso também tem pouco impacto na criação de uma atmosfera de medo ou estranheza. Lembrei um pouco de alguns trabalhos de Lucrécia Martel, que também costumam me incomodar. Não por acaso a diretora foi atriz de A MENINA SANTA, de Martel. Direção: María Alché. Ano: 2018.
AYKA
Mais um desses filmes que exageram na dose do "quanto mais desgraça melhor". Mas ao menos este aqui não utiliza de música ao fundo para puxar à força a tristeza. Por isso o sucesso de premiações do filme, que tem destacado a atuação da protagonista. Até por ela estar tão presente no filme, inclusive nos momentos mais íntimos de sua rotina sofrida. Vemos aqui a história de uma imigrante clandestina que foge de uma maternidade depois de ter a criança e está devendo dinheiro à máfia, tendo que trabalhar em empregos pouco atraentes para conseguir sobreviver. Direção: Sergei Dvortsevoy. Ano: 2018.
domingo, abril 28, 2019
VINGADORES - ULTIMATO (Avengers - Endgame)
Acho bem complicado falar de VINGADORES - ULTIMATO (2019) evitando os spoilers. Portanto, já aviso que este texto deve ser lido apenas por quem já viu o filme, a fim de que não comprometa a apreciação da obra cinematográfica. A própria Marvel já vinha guardando a sete chaves o roteiro e o que de fato acontece nesta sequência de VINGADORES - GUERRA INFINITA (2018). Os trailers disponibilizados não dão ideia do caminho que o filme trafegará e levará junto os espectadores. E isso é muito positivo, já que temos uma grande surpresa logo nos primeiros minutos.
Ora, quem conseguiria imaginar que a chegada da Capitã Marvel (Brie Larson) seria tão rápida e o reencontro dos heróis com seu algoz Thanos (Josh Brolin) ocorreria tão de imediato? Assim, depois de recolhermos nosso queixo do chão e nos adiantarmos cinco anos na narrativa, somos apresentados a heróis alquebrados, sentindo-se totalmente frustrados por não terem conseguido recuperar as joias do infinito e vivendo em um mundo tão calmo quanto um cemitério. É neste mundo terrível que reaparece do universo subatômico Scott Lang, o Homem-Formiga (Paul Rudd). E é justamente ele quem traz uma ideia meio maluca que pode ser a resposta para a resolução dos problemas da humanidade: e se pudéssemos voltar no tempo para reverter o que foi feito por Thanos?
E eis que estamos diante de mais um excitante filme sobre viagens no tempo, e que consegue aproveitar isso para homenagear os mais de dez anos de produções dos estúdios Marvel. Assim, até mesmo filmes menores, como THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013) e VINGADORES - ERA DE ULTRON (2015), podem ser reavaliados positivamente. Como, aliás, todo o conjunto da obra do estúdio, que contou com mais acertos do que erros nesse período celebrado pelos talentosos irmãos Anthony e Joe Russo, que saem de cena como gigantes depois de quatro bem-sucedidas produções para a Casa das Ideias.
Uma das características da Marvel, desde sua criação nos anos 1960, é conseguir apresentar heróis tão humanos que se torna fácil a identificação com o público leitor. O mesmo não se pode dizer da distinta concorrência, por exemplo, que eleva quase sempre à categoria de deuses os seus heróis. Aqui, no entanto, até mesmo um deus, Thor (Chris Hemsworth), se torna humano e fraco, especialmente quando sobre si está o peso maior de ter falhado em sua luta contra Thanos em momento tão decisivo. Daí ele se entrega à bebida e fica fora de forma. A figura patética de um Thor barrigudo é motivo de riso, mas ao mesmo tempo que rimos sabemos que aquele homem-deus está sofrendo e que merece a nossa solidariedade.
Aliás, um dos grandes méritos do filme (dentre vários) é saber lidar com a trajetória de seus três principais heróis: Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e o já mencionado Thor. Eles são a base dos Vingadores e a cena dos três avançando, já no terceiro ato do filme, para duelar contra Thanos, tem um significado simbólico muito forte.
Por isso, terminar a história com uma vitória com gosto amargo, devido à morte de dois heróis tão queridos, é também uma vitória da força da construção de personagens pelos quais nos importamos. Daí tanta gente estar saindo da sessão tão emocionada. Para quem é fã de quadrinhos, então, VINGADORES - ULTIMATO é um verdadeiro presente, algo jamais imaginado 15 anos atrás. Ainda mais quando pensamos na batalha final, trazendo tantos heróis juntos. Nem o grande número de efeitos digitais diminuem a empolgação e a torcida dos espectadores pelos heróis.
E isso acontece principalmente porque os roteiristas e os diretores sabem muito bem lidar com tantos personagens diferentes agindo em espírito de equipe no meio do caos daquela batalha. E se dizem que quadrinhos de super-heróis fazem as pessoas melhores, podemos dizer o mesmo de um filme como este, que prestigia tanto o heroísmo quanto o amor, em seu sentido mais amplo.
Falar de cada personagem aqui levaria tempo e tornaria o texto chato e sem unidade. Mas vale destacar que tivemos o melhor momento de Scarlett Johansson como a Viúva Negra; o melhor momento do Hulk (trazer o Hulk inteligente com a cara do Mark Ruffalo foi uma ideia genial, e mais genial ainda foi confrontá-lo com sua imagem no primeiro filme dos Vingadores); e o melhor momento também do Clint Barton (Jeremy Renner), como personagem atormentado - o filme começa com ele. Enfim, quem falou que três horas é demais é não pensar em quantos heróis os realizadores precisavam dar conta. E podemos dizer que o resultado foi glorioso. Eis um sério candidato a melhor filme de super-heróis já feito.
+ TRÊS FILMES
DUMBO
Eu ando bem desanimado com o cinema de Tim Burton, embora não perca nenhum filme dele no cinema. É sem dúvida um autor, mas sua ligação direta com o cinema clássico estilo sessão da tarde modorrenta me cansa um bocado. Quem sabe se trocassem o trilheiro habitual o filme ganhasse o meu interesse. Eu gosto bastante da Eva Green e sua personagem, inclusive. E o Colin Farrell também está muito bem. Mas por que tudo parece pouco atraente? Ano: 2019.
CÓPIAS - DE VOLTA À VIDA (Replicas)
É um filme que eu torcia muito para que desse certo. E até que deu, em parte. A primeira metade, focando na angústia do personagem e na sua obsessão em trazer a família morta de volta, é muito boa. O personagem do rapaz que ajuda Keanu Reeves na missão secreta também é muito bom. O filme se perde quando tenta finalizar com uma trama de gato e rato que, além de começar quando a história já está perdendo o pique, não tem tempo para conquistar o sentimento de credulidade do espectador. Direção: Jeffrey Nachmanoff. Ano: 2018.
VINGANÇA A SANGUE FRIO (Cold Pursuit)
O mesmo diretor realiza a refilmagem de O CIDADÃO DO ANO (2014). Não vi o original, mas tenho impressão que deve ser melhor do que este aqui, mesmo com a boa presença de cena do Liam Neeson. O que me incomodou nem foi a frieza com que a morte é tratada, de todas as maneiras, inclusive por parte do protagonista, mas como a gente não dá a mínima para o que acontece com os personagens e nem torce para que ele se vingue dos responsáveis pela morte do filho. Destaca-se o humor negro e o personagem do garotinho, que podia ter um papel maior. Aliás, ridículo o papel dado a Laura Dern. Direção: Hans Petter Moland. Ano: 2019.
Ora, quem conseguiria imaginar que a chegada da Capitã Marvel (Brie Larson) seria tão rápida e o reencontro dos heróis com seu algoz Thanos (Josh Brolin) ocorreria tão de imediato? Assim, depois de recolhermos nosso queixo do chão e nos adiantarmos cinco anos na narrativa, somos apresentados a heróis alquebrados, sentindo-se totalmente frustrados por não terem conseguido recuperar as joias do infinito e vivendo em um mundo tão calmo quanto um cemitério. É neste mundo terrível que reaparece do universo subatômico Scott Lang, o Homem-Formiga (Paul Rudd). E é justamente ele quem traz uma ideia meio maluca que pode ser a resposta para a resolução dos problemas da humanidade: e se pudéssemos voltar no tempo para reverter o que foi feito por Thanos?
E eis que estamos diante de mais um excitante filme sobre viagens no tempo, e que consegue aproveitar isso para homenagear os mais de dez anos de produções dos estúdios Marvel. Assim, até mesmo filmes menores, como THOR - O MUNDO SOMBRIO (2013) e VINGADORES - ERA DE ULTRON (2015), podem ser reavaliados positivamente. Como, aliás, todo o conjunto da obra do estúdio, que contou com mais acertos do que erros nesse período celebrado pelos talentosos irmãos Anthony e Joe Russo, que saem de cena como gigantes depois de quatro bem-sucedidas produções para a Casa das Ideias.
Uma das características da Marvel, desde sua criação nos anos 1960, é conseguir apresentar heróis tão humanos que se torna fácil a identificação com o público leitor. O mesmo não se pode dizer da distinta concorrência, por exemplo, que eleva quase sempre à categoria de deuses os seus heróis. Aqui, no entanto, até mesmo um deus, Thor (Chris Hemsworth), se torna humano e fraco, especialmente quando sobre si está o peso maior de ter falhado em sua luta contra Thanos em momento tão decisivo. Daí ele se entrega à bebida e fica fora de forma. A figura patética de um Thor barrigudo é motivo de riso, mas ao mesmo tempo que rimos sabemos que aquele homem-deus está sofrendo e que merece a nossa solidariedade.
Aliás, um dos grandes méritos do filme (dentre vários) é saber lidar com a trajetória de seus três principais heróis: Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e o já mencionado Thor. Eles são a base dos Vingadores e a cena dos três avançando, já no terceiro ato do filme, para duelar contra Thanos, tem um significado simbólico muito forte.
Por isso, terminar a história com uma vitória com gosto amargo, devido à morte de dois heróis tão queridos, é também uma vitória da força da construção de personagens pelos quais nos importamos. Daí tanta gente estar saindo da sessão tão emocionada. Para quem é fã de quadrinhos, então, VINGADORES - ULTIMATO é um verdadeiro presente, algo jamais imaginado 15 anos atrás. Ainda mais quando pensamos na batalha final, trazendo tantos heróis juntos. Nem o grande número de efeitos digitais diminuem a empolgação e a torcida dos espectadores pelos heróis.
E isso acontece principalmente porque os roteiristas e os diretores sabem muito bem lidar com tantos personagens diferentes agindo em espírito de equipe no meio do caos daquela batalha. E se dizem que quadrinhos de super-heróis fazem as pessoas melhores, podemos dizer o mesmo de um filme como este, que prestigia tanto o heroísmo quanto o amor, em seu sentido mais amplo.
Falar de cada personagem aqui levaria tempo e tornaria o texto chato e sem unidade. Mas vale destacar que tivemos o melhor momento de Scarlett Johansson como a Viúva Negra; o melhor momento do Hulk (trazer o Hulk inteligente com a cara do Mark Ruffalo foi uma ideia genial, e mais genial ainda foi confrontá-lo com sua imagem no primeiro filme dos Vingadores); e o melhor momento também do Clint Barton (Jeremy Renner), como personagem atormentado - o filme começa com ele. Enfim, quem falou que três horas é demais é não pensar em quantos heróis os realizadores precisavam dar conta. E podemos dizer que o resultado foi glorioso. Eis um sério candidato a melhor filme de super-heróis já feito.
+ TRÊS FILMES
DUMBO
Eu ando bem desanimado com o cinema de Tim Burton, embora não perca nenhum filme dele no cinema. É sem dúvida um autor, mas sua ligação direta com o cinema clássico estilo sessão da tarde modorrenta me cansa um bocado. Quem sabe se trocassem o trilheiro habitual o filme ganhasse o meu interesse. Eu gosto bastante da Eva Green e sua personagem, inclusive. E o Colin Farrell também está muito bem. Mas por que tudo parece pouco atraente? Ano: 2019.
CÓPIAS - DE VOLTA À VIDA (Replicas)
É um filme que eu torcia muito para que desse certo. E até que deu, em parte. A primeira metade, focando na angústia do personagem e na sua obsessão em trazer a família morta de volta, é muito boa. O personagem do rapaz que ajuda Keanu Reeves na missão secreta também é muito bom. O filme se perde quando tenta finalizar com uma trama de gato e rato que, além de começar quando a história já está perdendo o pique, não tem tempo para conquistar o sentimento de credulidade do espectador. Direção: Jeffrey Nachmanoff. Ano: 2018.
VINGANÇA A SANGUE FRIO (Cold Pursuit)
O mesmo diretor realiza a refilmagem de O CIDADÃO DO ANO (2014). Não vi o original, mas tenho impressão que deve ser melhor do que este aqui, mesmo com a boa presença de cena do Liam Neeson. O que me incomodou nem foi a frieza com que a morte é tratada, de todas as maneiras, inclusive por parte do protagonista, mas como a gente não dá a mínima para o que acontece com os personagens e nem torce para que ele se vingue dos responsáveis pela morte do filho. Destaca-se o humor negro e o personagem do garotinho, que podia ter um papel maior. Aliás, ridículo o papel dado a Laura Dern. Direção: Hans Petter Moland. Ano: 2019.
quarta-feira, abril 24, 2019
21 CURTAS BRASILEIROS

CARAMUJO-FLOR
Para se ver cinema-poesia é preciso estar em um estado de espírito bem apropriado. Acho que estava um pouco quando vi OLHO NU (2014), do Pizzini, longa-metragem que contou com Ney Matogrosso. Na época do longa, muito se falava deste curta, também com o Ney, mas com uma proposta totalmente distinta. Confesso que nem sei dizer sobre o que é o filme, mas gosto da força das imagens, tanto as primeiras, focadas na cidade grande, quanto as da natureza e dos corpos humanos e animais. Direção: Joel Pizzini. Ano: 1998.
CHÁ VERDE E ARROZ
Belo filme sobre exibidores japoneses de cinema itinerante no interior paulista. Quase todo falado em japonês, o filme se passa nos anos 50 e conta a história de um ex-benshi (narrador de filmes mudos) que agora tem a missão de exibir filmes japoneses para comunidades. O personagem do menino lembra um pouco o de CINEMA PARADISO, mas as condições aqui são mais precárias. Direção: Olga Futemma. Ano: 1989.
BREVÍSSIMA HISTÓRIA DAS GENTES DE SANTOS
Época ainda em que os curtas brasileiros faziam sucesso lá fora, mesmo quando a retomada ainda estava iniciando. Havia também esse tipo de filme bem-humorado um pouco herdeiro da TV PIRATA, que brinca de maneira inteligente com o documentário para contar uma longa história da cidade de Santos desde a colonização até a redemocratização. Ney Latorraca aparece como diversos personagens. Direção: André Klotzel. Ano: 1996.
EL MACHO
Admirável animação que aborda a libido masculina frente a uma mulher com uma voluptuosidade digna de Druuna, mas ainda mais acentuada pelos exageros cartunescos. Ainda assim, o filme, ao mesmo tempo que tira onda do desejo masculino, também namora a moça no elevador, passando por baixo de seu vestido e acentuando os faróis acesos. Não conhecia e fiquei admirado. Só não gosto tanto da segunda metade, centrada na possessividade. Direção: Ennio Torresan. Ano: 1993.
BRASIL PITORESCO: VIAGENS DE CORNÉLIO PIRES
Um filme que requer olhares curiosos sobre o Brasil dos anos 1920 e sobre o que há de registrado desse país em filme. Este é um filme de uma viagem do diretor à Bahia, passando primeiro por Salvador e depois adentrando outras cidades, com aspecto mais "exótico". Brigas de galos, pessoas subindo no coqueiro, a pesca etc. Curiosamente o final não tem cara de final. Ou então se perdeu no meio do caminho. Direção: Cornélio Pires. Ano: 1925.
DEUS É PAI
Curta bastante anárquico sobre uma DR entre Deus e Jesus em um consultório de psicanálise. O diretor faz questão de deixar sua técnica de animação tão anárquica quanto as palavras do rebelde Jesus, que tem ressentimento do pai, que por sua vez lamenta certos atos do filho. Queria ter achado mais graça. Talvez depois de 20 anos a heresia tenha deixado de ser tão forte. Direção: Allan Sieber. Ano: 1999.
O ATAQUE DAS ARARAS
O filme tem um clima anárquico e aparentemente descompromissado que parece não ter muito interesse em contar em detalhes sobre a viagem de Jairo Ferreira, acompanhando um grupo de teatro. Mesmo com a narração divertida de Carlos Reichenbach, a impressão que fica é que o grupo ali formado é do pessoal da Boca, já que são eles os citados. Gostaria de saber mais detalhes dos bastidores deste curta. Direção: Jairo Ferreira. Ano: 1975.
CANTOS DE TRABALHO
Além da ideia ser muito boa (selecionar cantos de trabalho de diferentes tipos de labuta e mostrar homens e mulheres trabalhando), as imagens de Humberto Mauro são sempre certeiras e poéticas, com uma montagem brilhante. Com o distanciamento temporal, é fácil achar tudo muito estranho: aquelas canções, as imagens etc, mas isso é normal. As canções já eram velhas em 1955. Leon Hirszman fez algo parecido posteriormente. Ano: 1955.
CARRO DE BOIS
Filmaço este último trabalho de Humberto Mauro e o único colorido de sua carreira. Com narração linda de Hugo Carvana, o filme tem um tom de poesia dolorida. O próprio som do carro de bois já é um lamento em si, e ver aqueles animais passando pelos mais diversos obstáculos para fazerem aquele trabalho não é tão fácil. Em meio à dor, a poesia, a beleza tanto do trabalho quanto da inteligência do homem em saber lidar com aquilo que lhe é possível ter e fazer. Em algum momento, o filme tenta ser um tanto didático, mas só em algum momento. Em sua maior parte é poesia pura. Tanto em imagens quanto na palavra narrada. Ano: 1974.
HANDEBOL
Pra quem viu e gostou de MATE-ME POR FAVOR vai gostar bastante de voltar ao universo escolar e juvenil de meninas tão atraentes quanto enigmáticas, tão violentas quanto doces. A primeira cena remete a Crepúsculo e achei que fosse entrar como uma versão melhorada do blockbuster, mas o filme nega isso e vai por um outro caminho, nunca deixando de ser intrigante. As imagens são lindas. Baita realizadora a Anitta. Direção: Anitta Rocha da Silveira. Ano: 2010.
DOV'È MENEGHETTI?
Passei muito tempo para finalmente ver este curta, que já era famoso antes mesmo de Beto Brant se tornar o cineasta prestigiado que se tornou. Hoje é um dos meus preferidos realizadores em atividade. Aqui ele faz um filme quase todo falado em italiano sobre um ladrão difícil de ser capturado pela polícia e que tem muita intimidade com os telhados. As cenas dos telhados com as imagens ao fundo são admiráveis do ponto de vista formal. Mas o filme não me empolgou, não. Fodas mesmo são os longas do Brant. Ano: 1988.
DI
Impressionante como fiquei incomodado com o grau de irreverência com que Glauber Rocha se utiliza do velório do pintor Di Cavalcanti pra fazer seu filme. Tudo bem que não deixa de ser uma homenagem e espantar a tristeza pode ser uma ótima pedida, mas ainda assim a sobreposição de músicas com a narração em voice-over do próprio Glauber, com aquele jeito todo próprio de falar, como se estivesse vendendo mais uma vez o projeto do Cinema Novo, tudo é um bocado estranho. Como estranheza é algo bem-vindo no cinema, e Di é desses filmes cultuados, é obra imperdível sim. Eu é que tenho cisma com o diretor. Ano: 1977.
CARTÃO VERMELHO
Havia esquecido que já tinha visto este filme. Não achei tão marcante, ainda mais que me incomoda no começo a menina ficar chutando bola nas bolas dos meninos. Mas isso tem uma razão de ser no conto, embora eu também ache questionável a conclusão, por mais que tenha sido pensado por uma mulher. Dá impressão que hoje a atitude de revanche dos meninos seria vista como quase um estupro, e extremamente traumatizante para a protagonista. Mas isso pode ser sinal de que o curta ainda segue forte. Direção: Laís Bodanzky. Ano: 1994.
CHAPELEIROS
A princípio pode parecer um filme tedioso sobre operários trabalhando em uma fábrica de chapéus em Campinas-SP. E não há nenhum diálogo, apenas imagens do trabalho desses homens e dessas mulheres. Mas é preciso que a câmera insista nas imagens, inclusive na cena da saída da fábrica, para que finalmente possamos perceber o quanto é desumana a rotina de trabalho dessas pessoas. E isso faz com que o filme cresça muito na memória. Direção: Adrian Cooper. Ano: 1983.
O BANDO DOS TANGARÁS
Eis um filme que vale mais pelo valor histórico, por ser a única imagem em movimento com Noel Rosa, e também por ter usado técnicas mais antigas de sincronização que as de O CANTOR DE JAZZ. A lata com o negativo foi descoberta em 1992 e o clipe foi restaurado. A música é "Vamo fallá do Norte" e Rosa fez parte do grupo por cerca de dois anos. Direção: Paulo Benedetti. Ano: 1930.
DIAS DE GREVE
Confesso que gostei mais deste curta do que dos longas seguintes de Adirley, embora reconheça que ele foi se tornando mais sofisticando e se mostrando cada vez mais preocupado com as desigualdades sociais. Não sei se por ser mais compacto, mais aqui Adirley consegue passar o sentimento de impotência do trabalhador diante do patrão, mesmo quando ele se vê no direito de fazer uma greve. A cena do desfile da escola de samba é bem representativa da realidade brasileira; do quanto o pobre tem aquele momento de alegria junto com o rico, mas fica que não fica muito além disso. Direção: Adirley Queirós. Ano: 2009.
BOCA ABERTA
Muito boa a discussão que o filme traz sobre o cinema brasileiro que insistia em sobreviver em tempos de crise. Na época, foi com o advento do sexo explícito na Boca do Lixo. E por isso há dentre os quatro cineastas presentes um que defende o sexo explícito, Ody Fraga. Quem se manifesta mais saudoso da época de seu sucesso como realizador de bangue-bangues é Alex Prado, que apresenta para um pequeno público um de seus filmes. Ozualdo Candeias e Tony Vieira também entram na ótima discussão, que hoje em dia muda um pouco, mas o cinema continua em crise. Direção: Rubens Xavier. Ano: 1985.
CAROLINA
Breve e contundente filme sobre Carolina de Jesus, a primeira (creio eu) escritora negra com obra publicada no Brasil. Vivendo na favela e com dificuldades imensas de manter a si e a filha pequena, ela consegue ainda assim esse feito. Os trechos da obra Quarto de Despecho são fortes, assim como as imagens de arquivo e a dramatização de Zezé Motta. Terminar com Racionais Mc's só aumenta o impacto da obra, já que a busca de igualdade social do negro ainda permanece até os dias hoje. Direção: Jeferson De. Ano: 2003.
ATÉ A CHINA
Delícia de animação sobre a primeira viagem à China do diretor. Dá para gargalhar diversas vezes com as experiências pelo que o cineasta passou, e tudo narrado com um tom de conversa entre amigos. Isso porque a narrativa foi adaptada de e-mails que ele mandava diariamente para os amigos contando de sua experiência no país. Divertido demais. E a técnica de animação é muito legal, sem a limpeza dos rascunhos, deixando as imagens ainda mais bonitas. É coisa de se assistir com um sorriso de orelha a orelha do início ao fim. Não à toa ficou em 13º na lista da Abraccine de melhores animações brasileiras. Direção: Marão. Ano: 2015. (Foto)
BAILÃO
Belo documentário sobre a vida um tanto escondida dos homens gays de meia-idade. O título do filme se refere a uma boate em que há predominância gay. Mas o forte do filme são os depoimentos de alguns homens que sofreram no passado com o preconceito e com a dificuldade de lidar com o seu desejo no trabalho, na família ou em outros ambientes públicos. Há bastante melancolia, mas há também uma sensação de liberdade muito bonita. Direção: Marcelo Caetano. Ano: 2009.
BRASÍLIA - CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA
Um filme que ficou perdido durante muito tempo por conta de seu tom crítico em pleno regime militar, quando foi realizado. O documentário de Joaquim Pedro de Andrade só pôde ser conhecido mais recentemente, quando uma cópia foi encontrada no MAM e restaurada para lançamento no DVD de Macunaíma. O filme mostra o contraste daquela cidade muito nova, limpa e asséptica feita para abrigar os políticos e a realidade dos trabalhadores nas cidades satélites, gente que chegou lá para trabalhar na construção, mas que ficou sem emprego com a finalização da cidade. Destaque para a entrevista em um ônibus em direção à cidade, com mais nordestinos em um busca do sonho de uma vida digna. Ano: 1967.
Para se ver cinema-poesia é preciso estar em um estado de espírito bem apropriado. Acho que estava um pouco quando vi OLHO NU (2014), do Pizzini, longa-metragem que contou com Ney Matogrosso. Na época do longa, muito se falava deste curta, também com o Ney, mas com uma proposta totalmente distinta. Confesso que nem sei dizer sobre o que é o filme, mas gosto da força das imagens, tanto as primeiras, focadas na cidade grande, quanto as da natureza e dos corpos humanos e animais. Direção: Joel Pizzini. Ano: 1998.
CHÁ VERDE E ARROZ
Belo filme sobre exibidores japoneses de cinema itinerante no interior paulista. Quase todo falado em japonês, o filme se passa nos anos 50 e conta a história de um ex-benshi (narrador de filmes mudos) que agora tem a missão de exibir filmes japoneses para comunidades. O personagem do menino lembra um pouco o de CINEMA PARADISO, mas as condições aqui são mais precárias. Direção: Olga Futemma. Ano: 1989.
BREVÍSSIMA HISTÓRIA DAS GENTES DE SANTOS
Época ainda em que os curtas brasileiros faziam sucesso lá fora, mesmo quando a retomada ainda estava iniciando. Havia também esse tipo de filme bem-humorado um pouco herdeiro da TV PIRATA, que brinca de maneira inteligente com o documentário para contar uma longa história da cidade de Santos desde a colonização até a redemocratização. Ney Latorraca aparece como diversos personagens. Direção: André Klotzel. Ano: 1996.
EL MACHO
Admirável animação que aborda a libido masculina frente a uma mulher com uma voluptuosidade digna de Druuna, mas ainda mais acentuada pelos exageros cartunescos. Ainda assim, o filme, ao mesmo tempo que tira onda do desejo masculino, também namora a moça no elevador, passando por baixo de seu vestido e acentuando os faróis acesos. Não conhecia e fiquei admirado. Só não gosto tanto da segunda metade, centrada na possessividade. Direção: Ennio Torresan. Ano: 1993.
BRASIL PITORESCO: VIAGENS DE CORNÉLIO PIRES
Um filme que requer olhares curiosos sobre o Brasil dos anos 1920 e sobre o que há de registrado desse país em filme. Este é um filme de uma viagem do diretor à Bahia, passando primeiro por Salvador e depois adentrando outras cidades, com aspecto mais "exótico". Brigas de galos, pessoas subindo no coqueiro, a pesca etc. Curiosamente o final não tem cara de final. Ou então se perdeu no meio do caminho. Direção: Cornélio Pires. Ano: 1925.
DEUS É PAI
Curta bastante anárquico sobre uma DR entre Deus e Jesus em um consultório de psicanálise. O diretor faz questão de deixar sua técnica de animação tão anárquica quanto as palavras do rebelde Jesus, que tem ressentimento do pai, que por sua vez lamenta certos atos do filho. Queria ter achado mais graça. Talvez depois de 20 anos a heresia tenha deixado de ser tão forte. Direção: Allan Sieber. Ano: 1999.
O ATAQUE DAS ARARAS
O filme tem um clima anárquico e aparentemente descompromissado que parece não ter muito interesse em contar em detalhes sobre a viagem de Jairo Ferreira, acompanhando um grupo de teatro. Mesmo com a narração divertida de Carlos Reichenbach, a impressão que fica é que o grupo ali formado é do pessoal da Boca, já que são eles os citados. Gostaria de saber mais detalhes dos bastidores deste curta. Direção: Jairo Ferreira. Ano: 1975.
CANTOS DE TRABALHO
Além da ideia ser muito boa (selecionar cantos de trabalho de diferentes tipos de labuta e mostrar homens e mulheres trabalhando), as imagens de Humberto Mauro são sempre certeiras e poéticas, com uma montagem brilhante. Com o distanciamento temporal, é fácil achar tudo muito estranho: aquelas canções, as imagens etc, mas isso é normal. As canções já eram velhas em 1955. Leon Hirszman fez algo parecido posteriormente. Ano: 1955.
CARRO DE BOIS
Filmaço este último trabalho de Humberto Mauro e o único colorido de sua carreira. Com narração linda de Hugo Carvana, o filme tem um tom de poesia dolorida. O próprio som do carro de bois já é um lamento em si, e ver aqueles animais passando pelos mais diversos obstáculos para fazerem aquele trabalho não é tão fácil. Em meio à dor, a poesia, a beleza tanto do trabalho quanto da inteligência do homem em saber lidar com aquilo que lhe é possível ter e fazer. Em algum momento, o filme tenta ser um tanto didático, mas só em algum momento. Em sua maior parte é poesia pura. Tanto em imagens quanto na palavra narrada. Ano: 1974.
HANDEBOL
Pra quem viu e gostou de MATE-ME POR FAVOR vai gostar bastante de voltar ao universo escolar e juvenil de meninas tão atraentes quanto enigmáticas, tão violentas quanto doces. A primeira cena remete a Crepúsculo e achei que fosse entrar como uma versão melhorada do blockbuster, mas o filme nega isso e vai por um outro caminho, nunca deixando de ser intrigante. As imagens são lindas. Baita realizadora a Anitta. Direção: Anitta Rocha da Silveira. Ano: 2010.
DOV'È MENEGHETTI?
Passei muito tempo para finalmente ver este curta, que já era famoso antes mesmo de Beto Brant se tornar o cineasta prestigiado que se tornou. Hoje é um dos meus preferidos realizadores em atividade. Aqui ele faz um filme quase todo falado em italiano sobre um ladrão difícil de ser capturado pela polícia e que tem muita intimidade com os telhados. As cenas dos telhados com as imagens ao fundo são admiráveis do ponto de vista formal. Mas o filme não me empolgou, não. Fodas mesmo são os longas do Brant. Ano: 1988.
DI
Impressionante como fiquei incomodado com o grau de irreverência com que Glauber Rocha se utiliza do velório do pintor Di Cavalcanti pra fazer seu filme. Tudo bem que não deixa de ser uma homenagem e espantar a tristeza pode ser uma ótima pedida, mas ainda assim a sobreposição de músicas com a narração em voice-over do próprio Glauber, com aquele jeito todo próprio de falar, como se estivesse vendendo mais uma vez o projeto do Cinema Novo, tudo é um bocado estranho. Como estranheza é algo bem-vindo no cinema, e Di é desses filmes cultuados, é obra imperdível sim. Eu é que tenho cisma com o diretor. Ano: 1977.
CARTÃO VERMELHO
Havia esquecido que já tinha visto este filme. Não achei tão marcante, ainda mais que me incomoda no começo a menina ficar chutando bola nas bolas dos meninos. Mas isso tem uma razão de ser no conto, embora eu também ache questionável a conclusão, por mais que tenha sido pensado por uma mulher. Dá impressão que hoje a atitude de revanche dos meninos seria vista como quase um estupro, e extremamente traumatizante para a protagonista. Mas isso pode ser sinal de que o curta ainda segue forte. Direção: Laís Bodanzky. Ano: 1994.
CHAPELEIROS
A princípio pode parecer um filme tedioso sobre operários trabalhando em uma fábrica de chapéus em Campinas-SP. E não há nenhum diálogo, apenas imagens do trabalho desses homens e dessas mulheres. Mas é preciso que a câmera insista nas imagens, inclusive na cena da saída da fábrica, para que finalmente possamos perceber o quanto é desumana a rotina de trabalho dessas pessoas. E isso faz com que o filme cresça muito na memória. Direção: Adrian Cooper. Ano: 1983.
O BANDO DOS TANGARÁS
Eis um filme que vale mais pelo valor histórico, por ser a única imagem em movimento com Noel Rosa, e também por ter usado técnicas mais antigas de sincronização que as de O CANTOR DE JAZZ. A lata com o negativo foi descoberta em 1992 e o clipe foi restaurado. A música é "Vamo fallá do Norte" e Rosa fez parte do grupo por cerca de dois anos. Direção: Paulo Benedetti. Ano: 1930.
DIAS DE GREVE
Confesso que gostei mais deste curta do que dos longas seguintes de Adirley, embora reconheça que ele foi se tornando mais sofisticando e se mostrando cada vez mais preocupado com as desigualdades sociais. Não sei se por ser mais compacto, mais aqui Adirley consegue passar o sentimento de impotência do trabalhador diante do patrão, mesmo quando ele se vê no direito de fazer uma greve. A cena do desfile da escola de samba é bem representativa da realidade brasileira; do quanto o pobre tem aquele momento de alegria junto com o rico, mas fica que não fica muito além disso. Direção: Adirley Queirós. Ano: 2009.
BOCA ABERTA
Muito boa a discussão que o filme traz sobre o cinema brasileiro que insistia em sobreviver em tempos de crise. Na época, foi com o advento do sexo explícito na Boca do Lixo. E por isso há dentre os quatro cineastas presentes um que defende o sexo explícito, Ody Fraga. Quem se manifesta mais saudoso da época de seu sucesso como realizador de bangue-bangues é Alex Prado, que apresenta para um pequeno público um de seus filmes. Ozualdo Candeias e Tony Vieira também entram na ótima discussão, que hoje em dia muda um pouco, mas o cinema continua em crise. Direção: Rubens Xavier. Ano: 1985.
CAROLINA
Breve e contundente filme sobre Carolina de Jesus, a primeira (creio eu) escritora negra com obra publicada no Brasil. Vivendo na favela e com dificuldades imensas de manter a si e a filha pequena, ela consegue ainda assim esse feito. Os trechos da obra Quarto de Despecho são fortes, assim como as imagens de arquivo e a dramatização de Zezé Motta. Terminar com Racionais Mc's só aumenta o impacto da obra, já que a busca de igualdade social do negro ainda permanece até os dias hoje. Direção: Jeferson De. Ano: 2003.
ATÉ A CHINA
Delícia de animação sobre a primeira viagem à China do diretor. Dá para gargalhar diversas vezes com as experiências pelo que o cineasta passou, e tudo narrado com um tom de conversa entre amigos. Isso porque a narrativa foi adaptada de e-mails que ele mandava diariamente para os amigos contando de sua experiência no país. Divertido demais. E a técnica de animação é muito legal, sem a limpeza dos rascunhos, deixando as imagens ainda mais bonitas. É coisa de se assistir com um sorriso de orelha a orelha do início ao fim. Não à toa ficou em 13º na lista da Abraccine de melhores animações brasileiras. Direção: Marão. Ano: 2015. (Foto)
BAILÃO
Belo documentário sobre a vida um tanto escondida dos homens gays de meia-idade. O título do filme se refere a uma boate em que há predominância gay. Mas o forte do filme são os depoimentos de alguns homens que sofreram no passado com o preconceito e com a dificuldade de lidar com o seu desejo no trabalho, na família ou em outros ambientes públicos. Há bastante melancolia, mas há também uma sensação de liberdade muito bonita. Direção: Marcelo Caetano. Ano: 2009.
BRASÍLIA - CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA
Um filme que ficou perdido durante muito tempo por conta de seu tom crítico em pleno regime militar, quando foi realizado. O documentário de Joaquim Pedro de Andrade só pôde ser conhecido mais recentemente, quando uma cópia foi encontrada no MAM e restaurada para lançamento no DVD de Macunaíma. O filme mostra o contraste daquela cidade muito nova, limpa e asséptica feita para abrigar os políticos e a realidade dos trabalhadores nas cidades satélites, gente que chegou lá para trabalhar na construção, mas que ficou sem emprego com a finalização da cidade. Destaque para a entrevista em um ônibus em direção à cidade, com mais nordestinos em um busca do sonho de uma vida digna. Ano: 1967.
sábado, abril 20, 2019
VIDAS DUPLAS (Doubles Vies)
Os filmes anteriores de Olivier Assayas, ACIMA DAS NUVENS (2014) e PERSONAL SHOPPER (2016), são bastante ambiciosos na forma. Por isso a impressão de que VIDAS DUPLAS (2018) é um trabalho menor e menos desafiador, semelhante talvez a HORAS DE VERÃO (2008), que também é um filme sobre pessoas conversando sobre comportamento, mudanças no cenário político e social e sobre relacionamentos. É como se o cineasta estivesse descansando um pouco enquanto prepara outra obra-prima.
Mas engana-se quem subestima VIDAS DUPLAS (2018), que encanta não apenas por trazer um elenco muito talentoso, mas por colocar nas bocas de seus personagens falas tão inteligentes e sensíveis que fazem com que eles se materializem em criaturas reais. O que dizer, por exemplo, de Vincent Macaigne, que brilha como o romancista Léonard Spiegel, um homem inseguro que coloca todos os seus dramas e relacionamentos em suas obras literárias? Os momentos em que ele se mostra especialmente deprimido, ao lado do editor vivido por Guillaume Canet, da amante vivida por Juliette Binoche ou da esposa interpretada por Nora Hamzavi, são pontos altos de um filme cheio de pontos altos.
No caso das cenas envolvendo Macaigne, uma espécie de coração do filme, elas se tornam grandes por serem mais relacionadas a discussões da vida real, de problemas ligados a relacionamentos. Os outros personagens se tornam menos sensíveis por discutirem mais assuntos do mundo contemporâneo, como o fim ou não do livro de papel, a diminuição do número de leitores de livros, a popularização dos audio-books etc. E o filme faz isso dando nomes aos bois: Facebook, YouTube, Kindle, Twitter.
Todo esse filosofar sobre o mercado editorial também vem junto com discussões acerca da natureza autobiográfica da arte e de sua imunidade a essas mudanças. Assayas, que havia trazido à tona um debate bem interessante sobre os blockbusters em ACIMA DAS NUVENS, mostra-se agora tão entusiasmado com a discussão sobre a revolução trazida pela internet que chega a contagiar. E no debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, para A FITA BRANCA e STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA.
Falando nesses dois filmes, um dos momentos mais engraçados de VIDAS DUPLAS envolve sexo oral durante a sessão de um dos filmes e o modo como isso é contado em um romance. Sim, há o cuidado para não cansar o espectador com tanta discussão sobre internet e mercado editorial, já que a ciranda de amores dos personagens se tornam tão ou mais importantes do que o debate. Quase todos no filme têm um(a) amante e isso é outra coisa que diverte: nos fazer cúmplices de seus personagens. Ao final, a sensação de bem-estar faz com que gostemos tanto do filme, de seus personagens tão vivos, de suas discussões tão empolgantes, que o sentimento de gratidão pelo diretor e por todo o elenco se torna inevitável.
+ TRÊS FILMES
APRENDIZ DE ALFAIATE (Petit Tailleur)
Média-metragem cheio de paixão e de sentimentos de estar à deriva de seus personagens. Que baita diretor que o jovem Louis Garrel se tornou, seguindo os passos do pai e da Nouvelle Vague. Aqui temos um aprendiz de alfaiate que quer deixar a carreira quando conhece uma jovem atriz que também tem uma relação de amor e ódio com a profissão. Os dois se apaixonam, mas o destino parece não contribuir para a união dos dois, por mais que haja paixão. Aliás, como não ficar apaixonado por Léa Seydoux, pelo amor de Deus? Nunca ela esteve tão bela quanto aqui. Ano: 2010.
MEU ANJO (Gueule d'Ange)
Primeiro longa-metragem de Vanessa Filho e que já ganha um espaço no Festival de Cannes. Marion Cotillard faz mais uma personagem um tanto desestruturada emocionalmente. Não é uma personagem tão boa quanto a de UM INSTANTE DE AMOR, mas é bem interessante, inclusive por nos fazer julgar a personagem por seus atos irresponsáveis. Mas é a garotinha Ayline quem conquista a plateia. O grito dela de "não me deixe sozinha" é tocante. Ano: 2018.
DE CARONA PARA O AMOR (Tout le Monde Debout)
Uma comédia bem divertida sobre homem que finge ser cadeirante para se dar bem em uma situação e acaba não sabendo desfazer a mentira. Ri a valer, por mais que reconheça que muitos acharão bobo ou coisa parecida. Estou começando a tomar gosto pelas comédias mais comerciais francesas. Direção: Franck Dubosc. Ano: 2018.
Mas engana-se quem subestima VIDAS DUPLAS (2018), que encanta não apenas por trazer um elenco muito talentoso, mas por colocar nas bocas de seus personagens falas tão inteligentes e sensíveis que fazem com que eles se materializem em criaturas reais. O que dizer, por exemplo, de Vincent Macaigne, que brilha como o romancista Léonard Spiegel, um homem inseguro que coloca todos os seus dramas e relacionamentos em suas obras literárias? Os momentos em que ele se mostra especialmente deprimido, ao lado do editor vivido por Guillaume Canet, da amante vivida por Juliette Binoche ou da esposa interpretada por Nora Hamzavi, são pontos altos de um filme cheio de pontos altos.
No caso das cenas envolvendo Macaigne, uma espécie de coração do filme, elas se tornam grandes por serem mais relacionadas a discussões da vida real, de problemas ligados a relacionamentos. Os outros personagens se tornam menos sensíveis por discutirem mais assuntos do mundo contemporâneo, como o fim ou não do livro de papel, a diminuição do número de leitores de livros, a popularização dos audio-books etc. E o filme faz isso dando nomes aos bois: Facebook, YouTube, Kindle, Twitter.
Todo esse filosofar sobre o mercado editorial também vem junto com discussões acerca da natureza autobiográfica da arte e de sua imunidade a essas mudanças. Assayas, que havia trazido à tona um debate bem interessante sobre os blockbusters em ACIMA DAS NUVENS, mostra-se agora tão entusiasmado com a discussão sobre a revolução trazida pela internet que chega a contagiar. E no debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, para A FITA BRANCA e STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA.
Falando nesses dois filmes, um dos momentos mais engraçados de VIDAS DUPLAS envolve sexo oral durante a sessão de um dos filmes e o modo como isso é contado em um romance. Sim, há o cuidado para não cansar o espectador com tanta discussão sobre internet e mercado editorial, já que a ciranda de amores dos personagens se tornam tão ou mais importantes do que o debate. Quase todos no filme têm um(a) amante e isso é outra coisa que diverte: nos fazer cúmplices de seus personagens. Ao final, a sensação de bem-estar faz com que gostemos tanto do filme, de seus personagens tão vivos, de suas discussões tão empolgantes, que o sentimento de gratidão pelo diretor e por todo o elenco se torna inevitável.
+ TRÊS FILMES
APRENDIZ DE ALFAIATE (Petit Tailleur)
Média-metragem cheio de paixão e de sentimentos de estar à deriva de seus personagens. Que baita diretor que o jovem Louis Garrel se tornou, seguindo os passos do pai e da Nouvelle Vague. Aqui temos um aprendiz de alfaiate que quer deixar a carreira quando conhece uma jovem atriz que também tem uma relação de amor e ódio com a profissão. Os dois se apaixonam, mas o destino parece não contribuir para a união dos dois, por mais que haja paixão. Aliás, como não ficar apaixonado por Léa Seydoux, pelo amor de Deus? Nunca ela esteve tão bela quanto aqui. Ano: 2010.
MEU ANJO (Gueule d'Ange)
Primeiro longa-metragem de Vanessa Filho e que já ganha um espaço no Festival de Cannes. Marion Cotillard faz mais uma personagem um tanto desestruturada emocionalmente. Não é uma personagem tão boa quanto a de UM INSTANTE DE AMOR, mas é bem interessante, inclusive por nos fazer julgar a personagem por seus atos irresponsáveis. Mas é a garotinha Ayline quem conquista a plateia. O grito dela de "não me deixe sozinha" é tocante. Ano: 2018.
DE CARONA PARA O AMOR (Tout le Monde Debout)
Uma comédia bem divertida sobre homem que finge ser cadeirante para se dar bem em uma situação e acaba não sabendo desfazer a mentira. Ri a valer, por mais que reconheça que muitos acharão bobo ou coisa parecida. Estou começando a tomar gosto pelas comédias mais comerciais francesas. Direção: Franck Dubosc. Ano: 2018.
sexta-feira, abril 05, 2019
SHAZAM!
É interessante notar a guinada que a Warner/DC deu até chegar em SHAZAM! (2019), de David F. Sandberg, o filme mais voltado para a comédia do Universo Compartilhado DC até o momento. No entanto, embora a Warner tenha uma tradição de fazer produções mais sombrias desde suas origens com os filmes de gângster, lá pelos anos 1990, houve o trabalho de Joel Schumacher nos filmes do Homem-Morcego; além do mais, muita gente quer esquecer do fracasso que foi LANTERNA VERDE, de Martin Campbell, que também enveredava pelo terreno da comédia.
De todo modo, o caminho que MULHER-MARAVILHA começou de maneira suave, que LIGA DA JUSTIÇA tentou sem sucesso, e que AQUAMAN conquistou rindo de si mesmo, atinge o seu auge em SHAZAM!, que tem uma leveza muito bem-vinda ao contar a história de um garoto que, através de um encontro quase que casual com um mago, se transforma em um super-herói muito poderoso.
O que não deixa de ser uma ironia é o fato de que atualmente são super-heróis de segundo escalão da DC Comics que estão conseguindo sucesso entre os fãs. Primeiro Aquaman; agora o Capitão Marvel/Shazam. Ambos super-heróis que tiveram uma trajetória bastante tortuosa nos quadrinhos. No caso do Capitão Marvel, pode-se dizer que houve até mesmo uma auto-sabotagem por parte da DC, já que o personagem foi inspirado no Superman e, ainda por cima, tinha esse problema de ter o mesmo nome de um super-herói da Marvel. Tanto que no filme o herói não tem um codinome, e ainda brinca muito com isso.
SHAZAM! começa apresenta o arqui-inimigo do herói, na figura de um bem jovem Dr. Thadeus Silvana, quando ele tem o seu primeiro contato com o Mago Shazam (Djimon Hounsou) e é rejeitado por não ser considerado digno - ele é tentado pelos demônios dos sete pecados capitais. Só muitos anos depois, com o desespero do envelhecido e enfraquecido mago, que um adolescente assume, não exatamente com tanta vontade, a imagem e os poderes do Capitão Marvel, uma entidade que tem os poderes e as virtudes de figuras mitológicas como Hércules, Sansão, Zeus etc.
O bom humor do filme é contagiante, sabendo brincar com os estereótipos das falas de vilões e também do Mago. Há também um belo colorido que serve não apenas para destacar o uniforme do herói, mas também para dar ao filme um ar de produção feita para agradar também aos bem mais jovens, por mais que os atos do supervilão possam parecer bem violentos, se vistos por crianças pequenas.
O filme ainda tem o mérito de, em meio à comédia, lidar com questões delicadas, como o sentimento de abandono dos órfãos, como é o caso de Billy Batson (Asher Angel), o menino que viria a ser o Shazam, e de seu irmão nerd Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que é quem ajuda o inexperiente herói a lidar com seus novos e desconhecidos poderes. Ambos são acolhidos por uma família muito carinhosa que cuida de vários meninos e meninas adotados.
SHAZAM! tem tudo para ser um sucesso. Só não tem o selo Marvel, que é quem está com toda a força atualmente no que se refere à conquista dos corações de milhões de pessoas.
+ TRÊS FILMES
HOMEM-FORMIGA E A VESPA (Ant-Man and the Wasp)
Sequência que só comprova a bela fase que a Marvel está passando, com uma pluralidade de filmes muito interessante. Este aqui, se não é tão divertido quanto o primeiro, tem algumas cenas quase que inacreditáveis, como a perseguição nas ruas envolvendo mini-carros. Mesmo sendo mais sério que o primeiro filme, fica muuito leve depois da porrada que foi VINGADORES - GUERRA INFINITA. Mas tudo bem. Era pra ser assim mesmo. Só achei que o filme é rápido demais e acaba ficando raso. Nem sobra espaço para o romance do casal de protagonistas. Direção: Peyton Reed. Ano: 2018.
OS INCRÍVEIS 2 (Incredibles 2)
Beleza de aventura, que deixa no chão um monte de outros filmes de super-heróis em sua homenagem não só ao Quarteto Fantástico, mas aos filmes de espionagem e de ação dos anos 60, com um sabor retrô muito bom. A música do Michael Giacchino é ótima e conduz muito bem o filme. Legal também focar na Mulher Elástica como protagonista da ação fora de casa, enquanto o marido fica cuidando da casa e das crianças. Direção: Brad Bird. Ano: 2018.
POWER RANGERS
Quase que o diretor Dean Israelite consegue fazer um belo filme. O problema é mesmo a fonte. Não tinha como se afastar muito do original, e acho que ele até tenta, fazendo em boa parte da metragem uma história sobre a autodescoberta e a amizade de um grupo de adolescentes. E dá liga. Fica chato quando entram os monstros, a vilã etc. e o diretor parece não se interessar em fazer algo legal com isso. Ano: 2017.
De todo modo, o caminho que MULHER-MARAVILHA começou de maneira suave, que LIGA DA JUSTIÇA tentou sem sucesso, e que AQUAMAN conquistou rindo de si mesmo, atinge o seu auge em SHAZAM!, que tem uma leveza muito bem-vinda ao contar a história de um garoto que, através de um encontro quase que casual com um mago, se transforma em um super-herói muito poderoso.
O que não deixa de ser uma ironia é o fato de que atualmente são super-heróis de segundo escalão da DC Comics que estão conseguindo sucesso entre os fãs. Primeiro Aquaman; agora o Capitão Marvel/Shazam. Ambos super-heróis que tiveram uma trajetória bastante tortuosa nos quadrinhos. No caso do Capitão Marvel, pode-se dizer que houve até mesmo uma auto-sabotagem por parte da DC, já que o personagem foi inspirado no Superman e, ainda por cima, tinha esse problema de ter o mesmo nome de um super-herói da Marvel. Tanto que no filme o herói não tem um codinome, e ainda brinca muito com isso.
SHAZAM! começa apresenta o arqui-inimigo do herói, na figura de um bem jovem Dr. Thadeus Silvana, quando ele tem o seu primeiro contato com o Mago Shazam (Djimon Hounsou) e é rejeitado por não ser considerado digno - ele é tentado pelos demônios dos sete pecados capitais. Só muitos anos depois, com o desespero do envelhecido e enfraquecido mago, que um adolescente assume, não exatamente com tanta vontade, a imagem e os poderes do Capitão Marvel, uma entidade que tem os poderes e as virtudes de figuras mitológicas como Hércules, Sansão, Zeus etc.
O bom humor do filme é contagiante, sabendo brincar com os estereótipos das falas de vilões e também do Mago. Há também um belo colorido que serve não apenas para destacar o uniforme do herói, mas também para dar ao filme um ar de produção feita para agradar também aos bem mais jovens, por mais que os atos do supervilão possam parecer bem violentos, se vistos por crianças pequenas.
O filme ainda tem o mérito de, em meio à comédia, lidar com questões delicadas, como o sentimento de abandono dos órfãos, como é o caso de Billy Batson (Asher Angel), o menino que viria a ser o Shazam, e de seu irmão nerd Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que é quem ajuda o inexperiente herói a lidar com seus novos e desconhecidos poderes. Ambos são acolhidos por uma família muito carinhosa que cuida de vários meninos e meninas adotados.
SHAZAM! tem tudo para ser um sucesso. Só não tem o selo Marvel, que é quem está com toda a força atualmente no que se refere à conquista dos corações de milhões de pessoas.
+ TRÊS FILMES
HOMEM-FORMIGA E A VESPA (Ant-Man and the Wasp)
Sequência que só comprova a bela fase que a Marvel está passando, com uma pluralidade de filmes muito interessante. Este aqui, se não é tão divertido quanto o primeiro, tem algumas cenas quase que inacreditáveis, como a perseguição nas ruas envolvendo mini-carros. Mesmo sendo mais sério que o primeiro filme, fica muuito leve depois da porrada que foi VINGADORES - GUERRA INFINITA. Mas tudo bem. Era pra ser assim mesmo. Só achei que o filme é rápido demais e acaba ficando raso. Nem sobra espaço para o romance do casal de protagonistas. Direção: Peyton Reed. Ano: 2018.
OS INCRÍVEIS 2 (Incredibles 2)
Beleza de aventura, que deixa no chão um monte de outros filmes de super-heróis em sua homenagem não só ao Quarteto Fantástico, mas aos filmes de espionagem e de ação dos anos 60, com um sabor retrô muito bom. A música do Michael Giacchino é ótima e conduz muito bem o filme. Legal também focar na Mulher Elástica como protagonista da ação fora de casa, enquanto o marido fica cuidando da casa e das crianças. Direção: Brad Bird. Ano: 2018.
POWER RANGERS
Quase que o diretor Dean Israelite consegue fazer um belo filme. O problema é mesmo a fonte. Não tinha como se afastar muito do original, e acho que ele até tenta, fazendo em boa parte da metragem uma história sobre a autodescoberta e a amizade de um grupo de adolescentes. E dá liga. Fica chato quando entram os monstros, a vilã etc. e o diretor parece não se interessar em fazer algo legal com isso. Ano: 2017.
quinta-feira, abril 04, 2019
ELEGIA DE UM CRIME
Há quem diga que Cristiano Burman, diretor de ELEGIA DE UM CRIME (2018), construiu sua obra (ou boa parte dela) em torno da morte de três familiares seus. Para quem não sabe, este novo trabalho é o terceiro da chamada trilogia do luto, que começou com os filmes CONSTRUÇÃO (2007), sobre a morte do pai do diretor, e MATARAM MEU IRMÃO (2013), de título autoexplicativo.
Como não cheguei a ver ainda os dois anteriores, só posso falar de ELEGIA DE UM CRIME, que considero um trabalho bem impactante e diria que bastante respeitoso no que se refere à figura da mãe. Pode haver algum oportunismo, mas a história das obras de arte é cheia desse tipo de situação, em que artistas procuram transformar uma tragédia ou uma dor em algo belo, transcendental.
ELEGIA DE UM CRIME traz à tona uma série de questionamentos, a partir da apresentação de familiares e da história que vai sendo construída da vida e da morte de Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo namorado, aos 52 anos de idade. O crime ocorreu em 2011 e Burlan volta a Uberlândia para conversar com os irmãos e também com outras pessoas próximas sobre fatos relativos à mãe.
E eis que no meio de tudo isso, uma revelação sobre o próprio diretor é feita: ele foi adotado. Isso pode trazer à tona alguns questionamentos a respeito da natureza do sangue como possível elemento de dádiva ou maldição para uma família. Afinal, Cristiano parece muito diferente dos outros dois irmãos, que enveredaram pelo crime e passaram pela prisão mais de uma vez.
Um dos irmãos, inclusive, é o personagem mais trágico da história, mostrando-se extremamente fragilizado, física e espiritualmente, e muito arrependido de tudo que fez na vida. Conta do preconceito que sofre por ter fama de ladrão, mas logo em seguida o diretor faz questão de mostrar que o mesmo rapaz cairia mais uma vez, como se roubar ou cometer um crime fosse uma doença, tanto quanto o alcoolismo ou o vício em outras drogas. Mas sabemos que as circunstâncias econômicas e sociais são também fundamentais para o que ocorre com essa família.
Mas, voltando à questão da adoção, o momento mais emocionante do filme é a conversa de Cristiano com a irmã, que diz já saber sobre ele ter sido adotado e até conta a comovente história de Isabel e o filho que nasceu morto. Daí ela ter compensado com uma criança adotada e até fantasiava um parto de Cristiano, como se para apagar a perda da criança que não sobreviveu.
E o curioso é que essas questões se mostram até mais intensas na estrutura dramática do filme do que a própria morte da mãe de Burlan, que é o motivo de o filme existir. De todo modo, a figura da mãe e as circunstâncias trágicas de sua morte fornecem muitos momentos fortes, como o descaso da polícia, coisa que já aparece desde o prólogo, com Cristiano ligando para a Polícia Militar de uma cidade informando o paradeiro do assassino e recebendo a resposta de que isso não é da alçada deles. Há também a visita à casa onde ocorreu o crime etc. Assim, se há oportunismo por parte do cineasta, o resultado do filme faz com que nos esqueçamos disso e nos solidarizemos com o drama daquela família.
+ TRÊS FILMES
O SILÊNCIO DOS OUTROS (El Silencio de Otros)
Filme importante para estes tempos de ascensão da extrema direita no mundo. O caso da Espanha tem semelhanças com o que ocorreu na América Latina e em outros países, com ditaduras sendo levantadas e patrocinadas pelos Estados Unidos para bloquear o comunismo e levando à morte e à tortura de muitos. No caso da Espanha, a situação foi bem complicada, pois a Lei da Anistia também perdoou aqueles que torturaram. O filme começa em 2010 e vai até 2017, acompanhando o drama de pessoas que buscam justiça.O final é emocionante. Na minha sessão, houve gritos de "Lula livre". Direção: Almudena Carracedo e Robert Bahar. Ano: 2018.
SEXO NOS QUADRINHOS (Sex in the Comix)
Belo documentário exibido na GNT sobre quadrinhos eróticos. Contém depoimentos de mestres da nona arte, como Milo Manara, Robert Crumb, Zep, Bastien Vivès, que eu nem sabia que tinha escrito erótico... E ainda tem uma apresentadora-quadrinista gatíssima (Molly Crabapple). Deu vontade de ler mais obras do gênero. Atualmente tenho achado que diminuiu bastante a publicação. Até Manara está saindo pouco. Direção: Joëlle Oosterlinck. Ano: 2012.
BERGMAN 100 ANOS (Bergman – A Year in the Life)
Uma beleza este documentário comemorativo de um dos maiores gênios do cinema mundial. O que me assustou foi o tanto de coisas com que eu me identifiquei com o atormentado Bergman. Pena que não tenho o talento nem a sorte com as mulheres, só as dores e as angústias. O formato é bem tradicional, com entrevistados e cenas dos filmes e relatos mais ou menos em ordem cronológica, mas funciona muito bem. Direção: Jane Magnusson. Ano: 2018.
Como não cheguei a ver ainda os dois anteriores, só posso falar de ELEGIA DE UM CRIME, que considero um trabalho bem impactante e diria que bastante respeitoso no que se refere à figura da mãe. Pode haver algum oportunismo, mas a história das obras de arte é cheia desse tipo de situação, em que artistas procuram transformar uma tragédia ou uma dor em algo belo, transcendental.
ELEGIA DE UM CRIME traz à tona uma série de questionamentos, a partir da apresentação de familiares e da história que vai sendo construída da vida e da morte de Isabel Burlan da Silva, assassinada pelo namorado, aos 52 anos de idade. O crime ocorreu em 2011 e Burlan volta a Uberlândia para conversar com os irmãos e também com outras pessoas próximas sobre fatos relativos à mãe.
E eis que no meio de tudo isso, uma revelação sobre o próprio diretor é feita: ele foi adotado. Isso pode trazer à tona alguns questionamentos a respeito da natureza do sangue como possível elemento de dádiva ou maldição para uma família. Afinal, Cristiano parece muito diferente dos outros dois irmãos, que enveredaram pelo crime e passaram pela prisão mais de uma vez.
Um dos irmãos, inclusive, é o personagem mais trágico da história, mostrando-se extremamente fragilizado, física e espiritualmente, e muito arrependido de tudo que fez na vida. Conta do preconceito que sofre por ter fama de ladrão, mas logo em seguida o diretor faz questão de mostrar que o mesmo rapaz cairia mais uma vez, como se roubar ou cometer um crime fosse uma doença, tanto quanto o alcoolismo ou o vício em outras drogas. Mas sabemos que as circunstâncias econômicas e sociais são também fundamentais para o que ocorre com essa família.
Mas, voltando à questão da adoção, o momento mais emocionante do filme é a conversa de Cristiano com a irmã, que diz já saber sobre ele ter sido adotado e até conta a comovente história de Isabel e o filho que nasceu morto. Daí ela ter compensado com uma criança adotada e até fantasiava um parto de Cristiano, como se para apagar a perda da criança que não sobreviveu.
E o curioso é que essas questões se mostram até mais intensas na estrutura dramática do filme do que a própria morte da mãe de Burlan, que é o motivo de o filme existir. De todo modo, a figura da mãe e as circunstâncias trágicas de sua morte fornecem muitos momentos fortes, como o descaso da polícia, coisa que já aparece desde o prólogo, com Cristiano ligando para a Polícia Militar de uma cidade informando o paradeiro do assassino e recebendo a resposta de que isso não é da alçada deles. Há também a visita à casa onde ocorreu o crime etc. Assim, se há oportunismo por parte do cineasta, o resultado do filme faz com que nos esqueçamos disso e nos solidarizemos com o drama daquela família.
+ TRÊS FILMES
O SILÊNCIO DOS OUTROS (El Silencio de Otros)
Filme importante para estes tempos de ascensão da extrema direita no mundo. O caso da Espanha tem semelhanças com o que ocorreu na América Latina e em outros países, com ditaduras sendo levantadas e patrocinadas pelos Estados Unidos para bloquear o comunismo e levando à morte e à tortura de muitos. No caso da Espanha, a situação foi bem complicada, pois a Lei da Anistia também perdoou aqueles que torturaram. O filme começa em 2010 e vai até 2017, acompanhando o drama de pessoas que buscam justiça.O final é emocionante. Na minha sessão, houve gritos de "Lula livre". Direção: Almudena Carracedo e Robert Bahar. Ano: 2018.
SEXO NOS QUADRINHOS (Sex in the Comix)
Belo documentário exibido na GNT sobre quadrinhos eróticos. Contém depoimentos de mestres da nona arte, como Milo Manara, Robert Crumb, Zep, Bastien Vivès, que eu nem sabia que tinha escrito erótico... E ainda tem uma apresentadora-quadrinista gatíssima (Molly Crabapple). Deu vontade de ler mais obras do gênero. Atualmente tenho achado que diminuiu bastante a publicação. Até Manara está saindo pouco. Direção: Joëlle Oosterlinck. Ano: 2012.
BERGMAN 100 ANOS (Bergman – A Year in the Life)
Uma beleza este documentário comemorativo de um dos maiores gênios do cinema mundial. O que me assustou foi o tanto de coisas com que eu me identifiquei com o atormentado Bergman. Pena que não tenho o talento nem a sorte com as mulheres, só as dores e as angústias. O formato é bem tradicional, com entrevistados e cenas dos filmes e relatos mais ou menos em ordem cronológica, mas funciona muito bem. Direção: Jane Magnusson. Ano: 2018.
segunda-feira, abril 01, 2019
UMA CANTA, A OUTRA NÃO (L'une Chante l'Autre Pas)
Como o blog anda meio parado e a última em vez que escrevi aqui foi para homenagear o cineasta Domingos de Oliveira, falecido recentemente, e como agora a homenagem é para outro cineasta que se foi para um novo plano astral, fica essa impressão de que esse espaço se transformou em um local de despedida de pessoas queridas e, no caso desses, em especial, também de lamento pelo fato de não ter visto os filmes que deveria. No caso de Agnès Varda, a situação ainda é pior para mim, levando em consideração que ela tem mais de 50 títulos na direção.
Figura importante na história do cinema francês e contemporânea da turma da Nouvelle Vague, ainda que pertencente a outro grupo, junto com o então marido Jacques Demy, Varda foi vítima do machismo que impera em nossa sociedade e que o cinema naturalmente assimilou. É por isso que atualmente tem se buscado uma maneira de diminuir essa diferença de louvação de diretores homens e mulheres, através do reconhecimento e descoberta do trabalho das grandes cineastas da história do cinema. E não há dúvidas de que Agnès Varda está entre as mais importantes do mundo.
Atuando por sete décadas, a cineasta que faleceu aos 90 anos no último dia 29, experimentou bastante, fazendo tanto ficção quanto documentário e sendo uma das pioneiras de um cinema essencialmente feminista. UMA CANTA, A OUTRA NÃO (1977), por exemplo, é um desses filmes em que esse tema se mostra poderoso.
Acompanhamos aqui a história da amizade entre duas mulheres de diferentes estilos de vida ao longo de quase duas décadas. Começando em 1962, a trama apresenta Pauline aka Pomme (Valérie Mairesse) e Suzanne (Thérèse Liotard) passando por pelo menos duas situações perturbadoras. Uma delas é o aborto da amiga mais velha, Suzanne, que, ao não ter condições financeiras de manter um terceiro filho, é encorajada pela jovem amiga de então 17 anos a fazer um aborto. A outra situação é ainda mais perturbadora, e embora seja algo que as una espiritualmente ainda mais, será o fator que as distanciará fisicamente.
Vivendo em cidades diferentes, Pomme e Suzanne se encontrarão novamente apenas 10 anos depois, durante uma manifestação a favor do aborto. A questão do direito de ter filhos quando desejar é tão importante na trama quanto a dádiva e a alegria de ser mãe. Assim, há momentos musicados no filme em que os dois temas são cantados. Inclusive, uma das cenas mais belas é a ida de um grupo de mulheres em um barco para uma clínica de aborto na Holanda.
É lá que Pomme passa a namorar um rapaz iraniano, Darius (Ali Rafie), que está passando alguns meses na Europa. Pomme gosta de cantar e participa de apresentações musicais. Quando a peça em que está participando não dá certo, ela aceita o convite de Darius de ir com ele até o Irã. Apaixonada, ela aceita a proposta. Enquanto isso, Suzanne se sente tentada a ter um relacionamento com mais um homem casado.
Um dos méritos do filme é contar a história dessas duas mulheres com idas e vindas no tempo de maneira muito hábil e estabelecendo uma proximidade com as personagens, através dos textos dos cartões postais usados para correspondência entre as duas. Assim, depois de um salto de 10 anos, o filme volta no tempo para contar o que aconteceu entre os anos de distância entre as duas protagonistas.
Embora tenha gostado mais de Suzanne , o filme dá mais destaque a Pomme , até por ela ter uma vida mais ativa, sem filhos para prendê-la ao lar durante mais tempo. Assim, enquanto Pomme é alegre e sempre disposta a aventuras, Suzanne tem um sorriso geralmente triste, talvez por carregar o trauma da morte do antigo companheiro, mas também por não ter muita sorte nos relacionamentos e na vida financeira.
Por mais que alguns cineastas homens tenham lidado muito bem com a alma feminina, como Bergman ou Cukor, ter uma cineasta mulher abordando assuntos da feminilidade com força e sensibilidade faz muita diferença. Além do mais, quem só conhece Varda do recente VISAGES, VILLAGES (2017), pode ver em ELA CANTA, A OUTRA NÃO um momento em que a diretora já gostava de filmar em viagens no interior não-atores participando das cenas. Não à toa, Varda é tão querida: ela expande o amor para além de suas personagens.
+ TRÊS FILMES
IMAGEM E PALAVRA (Le Livre d’Image)
Não deixa de ser uma experiência bem interessante poder ver uma colagem de imagens do Jean-Luc Godard em pleno 2019. Pena que as imagens são mostradas de maneira tão rápida e com um ruído tão incômodo que fica muito difícil de estabelecer conexões e entender os elos, de modo a buscar uma aproximação maior com a obra. Sabemos que Godard dificilmente é fácil e o filme é pra ser incômodo mesmo, mas poderia ao menos ter saído da sessão com certos questionamentos. Acabei saindo com sono mesmo. Ano: 2018.
NORMANDIA NUA (Normandie Nue)
O curioso deste filme, que lembra bastante o inglês OU TUDO OU NADA pela temática (mas sem a mesma graça, claro), é o quanto ele consegue ser careta. Talvez a intenção seja aproximar-se das pessoas do vilarejo, que ficam em polvorosa com a história da fotografia com todos nus. Não deixa de ser um filme simpático (o diretor é o mesmo do ótimo A VIAGEM DE MEU PAI), mas isso não é suficiente. Quando eu penso em cinema francês, jamais vou querer pensar nesse tipo de cinema. Direção: Philippe Le Guay. Ano: 2018.
O PARQUE (Le Parc)
É um filme que cresce à medida que pensamos nele. Muitas imagens ficam fortes na lembrança. Ele se constrói de maneira realista, como uma espécie de romance tímido entre dois jovens, mas depois vai ficando mais misterioso. Na trama, dois jovens se encontram pela primeira vez em um parque. Seria um encontro amoroso, mas um deles não se interessa tanto a ponto de querer um relacionamento. Grande filme. Direção: Damien Manivel. Ano: 2016.
Figura importante na história do cinema francês e contemporânea da turma da Nouvelle Vague, ainda que pertencente a outro grupo, junto com o então marido Jacques Demy, Varda foi vítima do machismo que impera em nossa sociedade e que o cinema naturalmente assimilou. É por isso que atualmente tem se buscado uma maneira de diminuir essa diferença de louvação de diretores homens e mulheres, através do reconhecimento e descoberta do trabalho das grandes cineastas da história do cinema. E não há dúvidas de que Agnès Varda está entre as mais importantes do mundo.
Atuando por sete décadas, a cineasta que faleceu aos 90 anos no último dia 29, experimentou bastante, fazendo tanto ficção quanto documentário e sendo uma das pioneiras de um cinema essencialmente feminista. UMA CANTA, A OUTRA NÃO (1977), por exemplo, é um desses filmes em que esse tema se mostra poderoso.
Acompanhamos aqui a história da amizade entre duas mulheres de diferentes estilos de vida ao longo de quase duas décadas. Começando em 1962, a trama apresenta Pauline aka Pomme (Valérie Mairesse) e Suzanne (Thérèse Liotard) passando por pelo menos duas situações perturbadoras. Uma delas é o aborto da amiga mais velha, Suzanne, que, ao não ter condições financeiras de manter um terceiro filho, é encorajada pela jovem amiga de então 17 anos a fazer um aborto. A outra situação é ainda mais perturbadora, e embora seja algo que as una espiritualmente ainda mais, será o fator que as distanciará fisicamente.
Vivendo em cidades diferentes, Pomme e Suzanne se encontrarão novamente apenas 10 anos depois, durante uma manifestação a favor do aborto. A questão do direito de ter filhos quando desejar é tão importante na trama quanto a dádiva e a alegria de ser mãe. Assim, há momentos musicados no filme em que os dois temas são cantados. Inclusive, uma das cenas mais belas é a ida de um grupo de mulheres em um barco para uma clínica de aborto na Holanda.
É lá que Pomme passa a namorar um rapaz iraniano, Darius (Ali Rafie), que está passando alguns meses na Europa. Pomme gosta de cantar e participa de apresentações musicais. Quando a peça em que está participando não dá certo, ela aceita o convite de Darius de ir com ele até o Irã. Apaixonada, ela aceita a proposta. Enquanto isso, Suzanne se sente tentada a ter um relacionamento com mais um homem casado.
Um dos méritos do filme é contar a história dessas duas mulheres com idas e vindas no tempo de maneira muito hábil e estabelecendo uma proximidade com as personagens, através dos textos dos cartões postais usados para correspondência entre as duas. Assim, depois de um salto de 10 anos, o filme volta no tempo para contar o que aconteceu entre os anos de distância entre as duas protagonistas.
Embora tenha gostado mais de Suzanne , o filme dá mais destaque a Pomme , até por ela ter uma vida mais ativa, sem filhos para prendê-la ao lar durante mais tempo. Assim, enquanto Pomme é alegre e sempre disposta a aventuras, Suzanne tem um sorriso geralmente triste, talvez por carregar o trauma da morte do antigo companheiro, mas também por não ter muita sorte nos relacionamentos e na vida financeira.
Por mais que alguns cineastas homens tenham lidado muito bem com a alma feminina, como Bergman ou Cukor, ter uma cineasta mulher abordando assuntos da feminilidade com força e sensibilidade faz muita diferença. Além do mais, quem só conhece Varda do recente VISAGES, VILLAGES (2017), pode ver em ELA CANTA, A OUTRA NÃO um momento em que a diretora já gostava de filmar em viagens no interior não-atores participando das cenas. Não à toa, Varda é tão querida: ela expande o amor para além de suas personagens.
+ TRÊS FILMES
IMAGEM E PALAVRA (Le Livre d’Image)
Não deixa de ser uma experiência bem interessante poder ver uma colagem de imagens do Jean-Luc Godard em pleno 2019. Pena que as imagens são mostradas de maneira tão rápida e com um ruído tão incômodo que fica muito difícil de estabelecer conexões e entender os elos, de modo a buscar uma aproximação maior com a obra. Sabemos que Godard dificilmente é fácil e o filme é pra ser incômodo mesmo, mas poderia ao menos ter saído da sessão com certos questionamentos. Acabei saindo com sono mesmo. Ano: 2018.
NORMANDIA NUA (Normandie Nue)
O curioso deste filme, que lembra bastante o inglês OU TUDO OU NADA pela temática (mas sem a mesma graça, claro), é o quanto ele consegue ser careta. Talvez a intenção seja aproximar-se das pessoas do vilarejo, que ficam em polvorosa com a história da fotografia com todos nus. Não deixa de ser um filme simpático (o diretor é o mesmo do ótimo A VIAGEM DE MEU PAI), mas isso não é suficiente. Quando eu penso em cinema francês, jamais vou querer pensar nesse tipo de cinema. Direção: Philippe Le Guay. Ano: 2018.
O PARQUE (Le Parc)
É um filme que cresce à medida que pensamos nele. Muitas imagens ficam fortes na lembrança. Ele se constrói de maneira realista, como uma espécie de romance tímido entre dois jovens, mas depois vai ficando mais misterioso. Na trama, dois jovens se encontram pela primeira vez em um parque. Seria um encontro amoroso, mas um deles não se interessa tanto a ponto de querer um relacionamento. Grande filme. Direção: Damien Manivel. Ano: 2016.
quinta-feira, março 28, 2019
PAIXÃO E ACASO
A vida de cinéfilo só não deve ser tão angustiante quanto a vida de um bibliófilo, ou seja lá como se chamam os amantes de livros de literatura. Afinal, ler um romance, um livro de contos ou algo de outra natureza costuma levar bem mais tempo do que ver um filme, que em geral tem menos de duas horas de duração. Ainda assim, um cinéfilo, ainda mais aquele que vive atarefado com um trabalho que consome muito de seu tempo e de sua energia, acaba ficando angustiado com o fato de não conseguir preencher lacunas fundamentais, como a obra de cineastas importantes, tanto do Brasil quanto de outros países.
Escrevo isso lamentando o fato de não ter visto a grande maioria dos filmes de um cineasta de quem gosto muito e que, infelizmente, foi para outro plano nessa semana, o carioca Domingos de Oliveira, autor de clássicos como TODAS AS MULHERES DO MUNDO (1966) e EDU, CORAÇÃO DE OURO (1968). Uma pena que, mesmo com seu retorno às produções tão pessoais com AMORES (1998), seguindo a retomada do cinema brasileiro na década de 90, ele não tenha alcançado uma popularidade necessária para ter um reconhecimento de um público maior do que o pequeno círculo de cinéfilos que se importam com o cinema brasileiro de baixo orçamento. Em Fortaleza, por exemplo, o último filme dele que entrou em cartaz foi TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS (2008), e lá se vai uma década.
Assim, com a minha enorme lacuna, quis homenageá-lo vendo pelo menos um filme inédito seu. No caso, o que o destino reservou para mim foi PAIXÃO E ACASO (2012), o primeiro que completou o download, dentre os cinco que tentei pegar. Trata-se de um de seus trabalhos menores, com aquela cara de produção barata, mas feito com tanto carinho e esmero que fica difícil não se deliciar, até por ser do gênero comédia romântica intelectual.
No filme, Vanessa Gerbelli, luminosa, faz o papel de uma psicanalista que se apaixona primeiramente por um rapaz e depois pelo pai do rapaz. Isso depois de ter sido visitada pelo espírito de seu pai, que já lhe antecipara que seu período longe das paixões estaria prestes a ter um fim. De repente, ela se vê numa posição de não conseguir escolher apenas um dos homens e trata de organizar um horário de encontro com eles, adotando a mentira como rotina diária.
O filme começa com os créditos em tom apaixonado e um tanto exagerado e de cores fortes, lembrando um pouco Almodóvar, e trazendo a canção “A vida é confusão”, de Nico Nicolaiewsky, um belo exemplar de um romantismo que não tem medo de parecer cafona. A canção, aliás, retorna na narrativa em um dos momentos mais belos, que é o do beijo da protagonista com o rapaz, na livraria.
Se PAIXÃO E ACASO não tem o mesmo sabor de despedida ou de celebração à própria história do cineasta como o filme-testamento BR 716 (2016), traz uma ciranda de amores deliciosa e que é a cara de Oliveira, tão preocupado e interessado nas questões do coração. Viva Domingos de Oliveira e seu cinema do afeto!
+ TRÊS FILMES
SUEÑO FLORIANÓPOLIS
Muito boa esta comédia alto astral sobre família argentina passando férias em Florianópolis. Ver o filme é como se estivéssemos passando férias com eles e nos divertindo, embora eu preferisse que outros sentimentos além da alegria também fossem mais explorados, já que há muitas emoções em jogo nas cirandas amorosas. Direção: Ana Katz. Ano: 2018.
UM AMOR INESPERADO (El Amor Menos Pensado)
Nós, brasileiros, estamos precisando de um filme tão bom como esse e que atinja um grande público, junto. E com um casal tão bom quanto Ricardo Darín e Mercedes Morán. UM AMOR INESPERADO não é um filme que recusa o cafona: ele abraça, inclusive nas cores bem vivas e nas canções (tem uma canção brasileira que me deixou surpreso e emocionado!). Talvez falte um pouco mais de emoção no modo como nos pega na torcida pelo casal retornar, mas do jeito que ficou, um tanto assim contido, ficou muito bonito. E mal sentimos a duração, de tão interessados que ficamos na trajetória dos dois. Sem falar que há várias cenas bem engraçadas. Direção: Juan Vera. Ano: 2018.
EMMA E AS CORES DA VIDA (Il Colore Nascosto delle Cose)
Muito gratificante ver o cinema italiano se reerguendo em filmes pequenos e bonitos como esse, que pouca gente viu. Quase não li crítica ou repercussão a respeito, mesmo sendo de um diretor relativamente conhecido. Valeria Golino está muito boa e o sujeito que faz o rapaz mulherengo também é ótimo. Criativo e sensível o jogo de enquadramentos usando janelas diferentes, a partir do sentimento geral do filme. Direção: Silvio Soldini. Ano: 2017.
Escrevo isso lamentando o fato de não ter visto a grande maioria dos filmes de um cineasta de quem gosto muito e que, infelizmente, foi para outro plano nessa semana, o carioca Domingos de Oliveira, autor de clássicos como TODAS AS MULHERES DO MUNDO (1966) e EDU, CORAÇÃO DE OURO (1968). Uma pena que, mesmo com seu retorno às produções tão pessoais com AMORES (1998), seguindo a retomada do cinema brasileiro na década de 90, ele não tenha alcançado uma popularidade necessária para ter um reconhecimento de um público maior do que o pequeno círculo de cinéfilos que se importam com o cinema brasileiro de baixo orçamento. Em Fortaleza, por exemplo, o último filme dele que entrou em cartaz foi TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS (2008), e lá se vai uma década.
Assim, com a minha enorme lacuna, quis homenageá-lo vendo pelo menos um filme inédito seu. No caso, o que o destino reservou para mim foi PAIXÃO E ACASO (2012), o primeiro que completou o download, dentre os cinco que tentei pegar. Trata-se de um de seus trabalhos menores, com aquela cara de produção barata, mas feito com tanto carinho e esmero que fica difícil não se deliciar, até por ser do gênero comédia romântica intelectual.
No filme, Vanessa Gerbelli, luminosa, faz o papel de uma psicanalista que se apaixona primeiramente por um rapaz e depois pelo pai do rapaz. Isso depois de ter sido visitada pelo espírito de seu pai, que já lhe antecipara que seu período longe das paixões estaria prestes a ter um fim. De repente, ela se vê numa posição de não conseguir escolher apenas um dos homens e trata de organizar um horário de encontro com eles, adotando a mentira como rotina diária.
O filme começa com os créditos em tom apaixonado e um tanto exagerado e de cores fortes, lembrando um pouco Almodóvar, e trazendo a canção “A vida é confusão”, de Nico Nicolaiewsky, um belo exemplar de um romantismo que não tem medo de parecer cafona. A canção, aliás, retorna na narrativa em um dos momentos mais belos, que é o do beijo da protagonista com o rapaz, na livraria.
Se PAIXÃO E ACASO não tem o mesmo sabor de despedida ou de celebração à própria história do cineasta como o filme-testamento BR 716 (2016), traz uma ciranda de amores deliciosa e que é a cara de Oliveira, tão preocupado e interessado nas questões do coração. Viva Domingos de Oliveira e seu cinema do afeto!
+ TRÊS FILMES
SUEÑO FLORIANÓPOLIS
Muito boa esta comédia alto astral sobre família argentina passando férias em Florianópolis. Ver o filme é como se estivéssemos passando férias com eles e nos divertindo, embora eu preferisse que outros sentimentos além da alegria também fossem mais explorados, já que há muitas emoções em jogo nas cirandas amorosas. Direção: Ana Katz. Ano: 2018.
UM AMOR INESPERADO (El Amor Menos Pensado)
Nós, brasileiros, estamos precisando de um filme tão bom como esse e que atinja um grande público, junto. E com um casal tão bom quanto Ricardo Darín e Mercedes Morán. UM AMOR INESPERADO não é um filme que recusa o cafona: ele abraça, inclusive nas cores bem vivas e nas canções (tem uma canção brasileira que me deixou surpreso e emocionado!). Talvez falte um pouco mais de emoção no modo como nos pega na torcida pelo casal retornar, mas do jeito que ficou, um tanto assim contido, ficou muito bonito. E mal sentimos a duração, de tão interessados que ficamos na trajetória dos dois. Sem falar que há várias cenas bem engraçadas. Direção: Juan Vera. Ano: 2018.
EMMA E AS CORES DA VIDA (Il Colore Nascosto delle Cose)
Muito gratificante ver o cinema italiano se reerguendo em filmes pequenos e bonitos como esse, que pouca gente viu. Quase não li crítica ou repercussão a respeito, mesmo sendo de um diretor relativamente conhecido. Valeria Golino está muito boa e o sujeito que faz o rapaz mulherengo também é ótimo. Criativo e sensível o jogo de enquadramentos usando janelas diferentes, a partir do sentimento geral do filme. Direção: Silvio Soldini. Ano: 2017.
sexta-feira, março 22, 2019
MALIGNO (The Prodigy)
Os filmes de horror que têm chegado ao nosso circuito não têm passado exatamente por uma curadoria, por assim dizer. As distribuidoras em geral querem apenas jogar o produto para os fãs que costumam prestigiar o gênero, por pior que seja o material. Isso, com o tempo, acaba gerando uma falta de interesse até pelos próprios fãs, que se vêem entristecidos pela falta de qualidade dos filmes que chegam, dando até a impressão de que não há mais bons exemplares atualmente. O que depois se confirma como uma mentira, quando vemos várias listas de filmes do gênero e muitos dos melhores não têm a chance de chegar ao nosso circuito, e muitas vezes nem mesmo aos serviços de streaming.
Felizmente, MALIGNO (2019), do cineasta americano Nicholas McCarthy, é dessas gratas surpresas que encontramos. Um filme que funciona sem necessariamente procurar ser inovador ou algo do tipo. Ao contrário, ao acompanhar a história do garoto Miles sentimos até um sentimento de familiaridade com os filmes de horror produzidos nas décadas de 1960 a 1980. O enredo em si traz elementos que lembram filmes tão distintos quanto BRINQUEDO ASSASSINO e A ÓRFÃ.
Na trama, Taylor Schilling (da série ORANGE IS THE NEW BLACK) é Sarah Blume, uma jovem mulher que dá à luz uma criança que aos poucos vai se revelando um prodígio: com poucos meses já começa a falar e logo cedo é enviado para uma escola de crianças superdotadas. Mas há algo de errado com o pequeno Miles (Jackson Robert Scott, de IT - A COISA): aos poucos ele passa a manifestar uma maldade pouco comum até para crianças perversas de sua idade.
Um dos méritos do filme é conseguir criar uma atmosfera de terror e medo crescente. Uma vez que se descobre que o corpo do garoto está coabitado pelo espírito de um homem muito perigoso, e experienciamos momentos de puro medo em certas cenas envolvendo imagens do tal homem, rapidamente nos vemos envolvidos pelo drama daquela mãe. O pai também é importante para a trama, mas ele a princípio não acredita na teoria de que o espírito do garoto está duelando com o espírito do psicopata.
Soltando alguns alguns spoilers aqui: o que dizer da cena em que Sarah está sozinha na cama e o pequeno Miles pede para dormir com ela? De arrepiar! E a cena da hipnose, da batalha entre o garoto e o homem que descobriu seu segredo? E a ida de Sarah até a casa da última vítima do assassino serial? São apenas algumas, mas talvez as mais marcantes desse filme tão bem conduzido e tão envolvente que é uma pena que não esteja recebendo o devido mérito.
Quem sabe no futuro MALIGNO seja lembrado como uma das melhores obras do gênero de nosso tempo. Mas isso só o futuro irá dizer. No mais, não custa dar uma espiada nos longas anteriores de McCarthy: PESADELOS DO PASSADO (2012) e NA PORTA DO DIABO (2014).
+ TRÊS FILMES
NÃO OLHE (Look Away)
É um filme que se beneficiaria de um olhar mais crítico do próprio realizador para aproveitar melhor as boas ideias e não tropeçar no andamento. O que poderia ser um filme bem eficiente sobre a insegurança de uma adolescente, acaba ganhando contornos meio bobos quando se assume como filme de terror teen. Isso, depois de ganhar uma audiência de filmes menos convencionais, por causa de seu andamento mais lento e da elegância dos planos. Aí põe tudo a perder no final. Há uma cena de sexo que poderia ser ótima se o filme não insistisse em mostrar a personagem alterada como uma vilã qualquer com o uso de uma música de mistério. Se deixassem um tom mais dúbio seria tão melhor. Há também momentos em que os excessos nos distanciam do filme, como as maldades de um garoto da escola em relação à protagonista. Direção: Assaf Bernstein. Ano: 2018.
A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2 (Happy Death Day 2U)
Com essa onda de reciclagens de FEITIÇO DO TEMPO (a última foi a série BONECA RUSSA), perde até a graça ver essas novas produções que brincam com esse negócio de reviver o mesmo dia. A diferença deste aqui em relação ao primeiro é que agora entra a noção de multiverso, como em DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II. Alguns momentos engraçados e divertidos, mas, no geral, bem sem-graça. E a parte dramática, não sei se chega a comover alguém da audiência. Direção: Christopher Landon. Ano: 2019.
A MALDIÇÃO DA FREIRA (The Devil's Doorway)
O problema nem é os filmes de found footage já estarem fora de moda e terem se esgotado nas ideias. O problema é que mesmo se fosse novidade esse recurso, este A MALDIÇÃO DA FREIRA não tinha ser como ser considerado ao menos razoável. E que idiotice colocar trilha sonora em material supostamente encontrado nos anos 60? O filme piora ainda mais quando se aproxima do final, quando já não ligamos mais em saber as origens das estátuas chorando sangue ou coisa do tipo. Direção: Aislinn Clarke. Ano: 2018.
Felizmente, MALIGNO (2019), do cineasta americano Nicholas McCarthy, é dessas gratas surpresas que encontramos. Um filme que funciona sem necessariamente procurar ser inovador ou algo do tipo. Ao contrário, ao acompanhar a história do garoto Miles sentimos até um sentimento de familiaridade com os filmes de horror produzidos nas décadas de 1960 a 1980. O enredo em si traz elementos que lembram filmes tão distintos quanto BRINQUEDO ASSASSINO e A ÓRFÃ.
Na trama, Taylor Schilling (da série ORANGE IS THE NEW BLACK) é Sarah Blume, uma jovem mulher que dá à luz uma criança que aos poucos vai se revelando um prodígio: com poucos meses já começa a falar e logo cedo é enviado para uma escola de crianças superdotadas. Mas há algo de errado com o pequeno Miles (Jackson Robert Scott, de IT - A COISA): aos poucos ele passa a manifestar uma maldade pouco comum até para crianças perversas de sua idade.
Um dos méritos do filme é conseguir criar uma atmosfera de terror e medo crescente. Uma vez que se descobre que o corpo do garoto está coabitado pelo espírito de um homem muito perigoso, e experienciamos momentos de puro medo em certas cenas envolvendo imagens do tal homem, rapidamente nos vemos envolvidos pelo drama daquela mãe. O pai também é importante para a trama, mas ele a princípio não acredita na teoria de que o espírito do garoto está duelando com o espírito do psicopata.
Soltando alguns alguns spoilers aqui: o que dizer da cena em que Sarah está sozinha na cama e o pequeno Miles pede para dormir com ela? De arrepiar! E a cena da hipnose, da batalha entre o garoto e o homem que descobriu seu segredo? E a ida de Sarah até a casa da última vítima do assassino serial? São apenas algumas, mas talvez as mais marcantes desse filme tão bem conduzido e tão envolvente que é uma pena que não esteja recebendo o devido mérito.
Quem sabe no futuro MALIGNO seja lembrado como uma das melhores obras do gênero de nosso tempo. Mas isso só o futuro irá dizer. No mais, não custa dar uma espiada nos longas anteriores de McCarthy: PESADELOS DO PASSADO (2012) e NA PORTA DO DIABO (2014).
+ TRÊS FILMES
NÃO OLHE (Look Away)
É um filme que se beneficiaria de um olhar mais crítico do próprio realizador para aproveitar melhor as boas ideias e não tropeçar no andamento. O que poderia ser um filme bem eficiente sobre a insegurança de uma adolescente, acaba ganhando contornos meio bobos quando se assume como filme de terror teen. Isso, depois de ganhar uma audiência de filmes menos convencionais, por causa de seu andamento mais lento e da elegância dos planos. Aí põe tudo a perder no final. Há uma cena de sexo que poderia ser ótima se o filme não insistisse em mostrar a personagem alterada como uma vilã qualquer com o uso de uma música de mistério. Se deixassem um tom mais dúbio seria tão melhor. Há também momentos em que os excessos nos distanciam do filme, como as maldades de um garoto da escola em relação à protagonista. Direção: Assaf Bernstein. Ano: 2018.
A MORTE TE DÁ PARABÉNS 2 (Happy Death Day 2U)
Com essa onda de reciclagens de FEITIÇO DO TEMPO (a última foi a série BONECA RUSSA), perde até a graça ver essas novas produções que brincam com esse negócio de reviver o mesmo dia. A diferença deste aqui em relação ao primeiro é que agora entra a noção de multiverso, como em DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II. Alguns momentos engraçados e divertidos, mas, no geral, bem sem-graça. E a parte dramática, não sei se chega a comover alguém da audiência. Direção: Christopher Landon. Ano: 2019.
A MALDIÇÃO DA FREIRA (The Devil's Doorway)
O problema nem é os filmes de found footage já estarem fora de moda e terem se esgotado nas ideias. O problema é que mesmo se fosse novidade esse recurso, este A MALDIÇÃO DA FREIRA não tinha ser como ser considerado ao menos razoável. E que idiotice colocar trilha sonora em material supostamente encontrado nos anos 60? O filme piora ainda mais quando se aproxima do final, quando já não ligamos mais em saber as origens das estátuas chorando sangue ou coisa do tipo. Direção: Aislinn Clarke. Ano: 2018.
quinta-feira, março 21, 2019
15 CURTAS BRASILEIROS
O ÁTOMO BRINCALHÃO
Confesso que tenho dificuldade de falar sobre obras assim mais experimentais, que não tem exatamente um fio de narrativa ou algo próximo disso. No caso, o que conta mais para mim é a história do curta. O diretor desenhou no intervalo de três anos este curta de quatro minutos nos próprios fotogramas. Acredito que numa revisão abstrações possam vir à mente. Direção: Roberto Miller. Ano: 1964.
AMOR SÓ DE MÃE
Na revisão, AMOR SÓ DE MÃE se mostrou ainda mais intenso e perturbador. Talvez por ver em uma televisão maior, mas diria que é mérito do filme mesmo, que se mantém forte passados alguns anos de sua realização. Na trama, homem é desafiado por uma prostituta a deixar sua mãe e ir embora com ela do povoado. Acontece que as coisas são muito mais mórbidas e macabras do que isso. As cenas de possessão são impressionantes. Um dos melhores filmes de terror já feitos no Brasil. Direção: Dennison Ramalho. Ano: 2003.
À MEIA NOITE COM GLAUBER ROCHA
Filme de colagem com a intenção de homenagear poeticamente não apenas Glauber Rocha, mas também Hélio Oiticica, Torquato Neto e outros. Cenas não apenas do Cinema Novo e dos filmes de Glauber especificamente, mas também do cinema marginal, do tropicalismo e até de obras estrangeiras. Há falas de Glauber tomando para si a fundação do Cinema Novo e elevando o cinema como a mais importante das artes. Em outro momento, ele lamenta a pobreza cultural brasileira. Direção: Ivan Cardoso. Ano: 1997.
ALMA NO OLHO
Ao mesmo tempo que se mostra uma louvação do corpo e do espírito do negro, também traz a questão da chegada no negro à cultura ocidental e no quanto isso pode representar uma volta às correntes do tempo da escravidão. Parece mais uma performance de teatro, mas, por outro lado, em um teatro não seria possível haver os cortes que no cinema tem das imagens, tanto dos closes quanto das mudanças de figurino. A música-tema é de Coltrane, homenageado explicitamente no início do filme, embora as batidas sejam bem brasileiras. Direção: Zózimo Bulbul. Ano: 1974.
AMOR!
Já tinha visto esse curta na TV (ou em VHS, talvez). Acho que talvez tenha envelhecido um pouco. Na época me parecia mais esperto, mais ácido e mais engraçado. Mas ainda é bem divertido. E as mudanças de narrações, da voz do Paulo José para a do Pereio, funcionam que é uma beleza. Até podia dizer que é um filme sem esperança, se o próprio filme parecesse se levar a sério. Acho que não é o caso. Direção: José Roberto Torero. Ano: 1994.
ANIMANDO
Teria curtido mais se fosse de menor duração. É um trabalho admirável de brincar de Deus com um pequeno boneco usando inteligentemente os recursos da animação. Dar um pouco de consciência para sua criação é o melhor momento do filme, quando o boneco se rebela com as cores/roupas que lhe são dadas/pintadas. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1987.
UM APÓLOGO
Um dos mais famosos contos de Machado de Assis (até as crianças o conhecem), Um Apólogo ganha uma simpática adaptação para o cinema por um de nosso pioneiros mestres. O filme tem um sabor de tesouro arqueológico pela época em que foi realizado e por parecer velho mesmo, mas justamente por isso que ganha força e até os efeitos especiais parecem muito bons. O começo, falando sobre Machado de Assis e um pouco de sua obra, dá um ar de curta-metragem feito para alguma televisão educativa governamental, embora na época ainda não existisse televisão. Direção: Humberto Mauro. Ano: 1939.
ARRAIAL DO CABO
O que mais me chamou a atenção neste curta de Saraceni e Carneiro foi o quanto as imagens mostradas na tela parecem distantes das de hoje, de nossa realidade. Talvez pelo fato de terem pegado uma humilde vila de pescadores. Aí passa-se a impressão de que um cinema feito no começo dos anos 60 parece mais primitivo do que os trabalhos de Humberto Mauro dos anos 30. O bom é que a narrativa é dispensada rapidamente e as imagens se detêm nos pescadores, muitas vezes flagrados contra a luz do sol. A música ajuda a dar um ar mais lírico. Ainda assim me incomodou o meu distanciamento a uma obra tão incensada e importante dentro da história do cinema brasileiro. Direção: Mario Carneiro e Paulo Cezar Saraceni. Ano: 1960.
ARUANDA
Uma espécie de pai de VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos, ARUANDA é pioneiro em mostrar o povo preto e pobre do sertão nordestino, do jeito que eles são de fato. E não deixa de ser impressionante para nós, criados em cidade grande, ver o modo de vida e de sobrevivência de quem tem que se virar com o que tem, ou seja, o barro, a água barrenta e os galhos secos para fazerem tanto os potes quanto a própria casa. Uma longa jornada da escravidão até a vida de pequenos proprietários de terra na sertão. Direção: Linduarte Noronha. Ano: 1960.
DIVERSÕES SOLITÁRIAS
O ponto de vista de uma pessoa que se diverte na solidão, embora aparentemente muito feliz com seu walkman, passeando nas ruas e ouvindo um bom rock. A cidade de São Paulo é um personagem na história que praticamente só conta com um protagonista e umas duas coadjuvantes que o abordam em dois momentos distintos. Há uma espécie de crítica àqueles que condenam os que consomem cultura pop estrangeira. Direção: Wilson Barros. Ano: 1983.
A PASSAGEM DO COMETA
Cada novo filme de Juliana Rojas é uma alegria, pois todos os seus trabalhos são no mínimo ótimos. Agora, então, que já tem longas premiados e devidamente louvados, está no domínio ainda maior de seu trabalho. Aqui ela conta a história de uma jovem que vai fazer um aborto na época em que o cometa Haley está passando. É gostoso de ver e um tanto enigmático. Ano: 2017. (foto)
NOTURNO
Não me sinto apto para analisar animações mais abstratas e que principalmente foram produzidas em uma outra época, em que esse tipo de produção era mais raro no Brasil, era um feito de fato heroico. Este pequeno e belo curta de Aída Queiroz se encaixa nesse quesito. O filme ficou na posição de número 57 da lista das melhores animações segundo a Abraccine. Ano: 1986.
O PROJETO DO MEU PAI
Que desenho lindo! Encanta já desde o começo, quando a diretora/narradora conta sobre como era sua família quando ela era pequena e como ela os desenhava, com os tradicionais bonecos-palito. A questão da ausência do pai dói um pouco no tom agridoce do filme e se torna ainda mais forte nas emoções quando a narradora-personagem reencontra o pai quando adulta. De dar uma leve dor no peito. Direção: Rosaria. Ano: 2016.
O VIOLEIRO FANTASMA
Um filme que mistura elementos da cultura nordestina, como o cantador de repente, com coisas da cultura mexicana, como o culto aos mortos, e até a coisas relativas à cultura japonesa (pelo que eu entendi ou remeti), nas cenas em que o filme ganha ares de sonho, com cabeças voadoras e coisas parecidas. Só faltou eu me conectar mais com o trabalho, mesmo gostando muito do visual, das cores etc. Direção: Wesley Rodrigues. Ano: 2017.
MENINA DA CHUVA
Outra belezura de trabalho de Rosaria, que dessa vez trata da solidão através do drama de uma garotinha de cor roxa que não encontra inclusão entre as meninas da sua idade nem entre os adultos. Quem tem uma relação mais forte com a solidão é fácil entrar em sintonia tanto com o filme quanto com a personagem, no sentido de que é possível trafegar por momentos de tristeza e por outros de satisfação, mesmo sozinha, como na bela cena da chuva. Há também uma valorização da visualização da vida cotidiana como elemento de graça para a vida a sós. Ano: 2010.
Confesso que tenho dificuldade de falar sobre obras assim mais experimentais, que não tem exatamente um fio de narrativa ou algo próximo disso. No caso, o que conta mais para mim é a história do curta. O diretor desenhou no intervalo de três anos este curta de quatro minutos nos próprios fotogramas. Acredito que numa revisão abstrações possam vir à mente. Direção: Roberto Miller. Ano: 1964.
AMOR SÓ DE MÃE
Na revisão, AMOR SÓ DE MÃE se mostrou ainda mais intenso e perturbador. Talvez por ver em uma televisão maior, mas diria que é mérito do filme mesmo, que se mantém forte passados alguns anos de sua realização. Na trama, homem é desafiado por uma prostituta a deixar sua mãe e ir embora com ela do povoado. Acontece que as coisas são muito mais mórbidas e macabras do que isso. As cenas de possessão são impressionantes. Um dos melhores filmes de terror já feitos no Brasil. Direção: Dennison Ramalho. Ano: 2003.
À MEIA NOITE COM GLAUBER ROCHA
Filme de colagem com a intenção de homenagear poeticamente não apenas Glauber Rocha, mas também Hélio Oiticica, Torquato Neto e outros. Cenas não apenas do Cinema Novo e dos filmes de Glauber especificamente, mas também do cinema marginal, do tropicalismo e até de obras estrangeiras. Há falas de Glauber tomando para si a fundação do Cinema Novo e elevando o cinema como a mais importante das artes. Em outro momento, ele lamenta a pobreza cultural brasileira. Direção: Ivan Cardoso. Ano: 1997.
ALMA NO OLHO
Ao mesmo tempo que se mostra uma louvação do corpo e do espírito do negro, também traz a questão da chegada no negro à cultura ocidental e no quanto isso pode representar uma volta às correntes do tempo da escravidão. Parece mais uma performance de teatro, mas, por outro lado, em um teatro não seria possível haver os cortes que no cinema tem das imagens, tanto dos closes quanto das mudanças de figurino. A música-tema é de Coltrane, homenageado explicitamente no início do filme, embora as batidas sejam bem brasileiras. Direção: Zózimo Bulbul. Ano: 1974.
AMOR!
Já tinha visto esse curta na TV (ou em VHS, talvez). Acho que talvez tenha envelhecido um pouco. Na época me parecia mais esperto, mais ácido e mais engraçado. Mas ainda é bem divertido. E as mudanças de narrações, da voz do Paulo José para a do Pereio, funcionam que é uma beleza. Até podia dizer que é um filme sem esperança, se o próprio filme parecesse se levar a sério. Acho que não é o caso. Direção: José Roberto Torero. Ano: 1994.
ANIMANDO
Teria curtido mais se fosse de menor duração. É um trabalho admirável de brincar de Deus com um pequeno boneco usando inteligentemente os recursos da animação. Dar um pouco de consciência para sua criação é o melhor momento do filme, quando o boneco se rebela com as cores/roupas que lhe são dadas/pintadas. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1987.
UM APÓLOGO
Um dos mais famosos contos de Machado de Assis (até as crianças o conhecem), Um Apólogo ganha uma simpática adaptação para o cinema por um de nosso pioneiros mestres. O filme tem um sabor de tesouro arqueológico pela época em que foi realizado e por parecer velho mesmo, mas justamente por isso que ganha força e até os efeitos especiais parecem muito bons. O começo, falando sobre Machado de Assis e um pouco de sua obra, dá um ar de curta-metragem feito para alguma televisão educativa governamental, embora na época ainda não existisse televisão. Direção: Humberto Mauro. Ano: 1939.
ARRAIAL DO CABO
O que mais me chamou a atenção neste curta de Saraceni e Carneiro foi o quanto as imagens mostradas na tela parecem distantes das de hoje, de nossa realidade. Talvez pelo fato de terem pegado uma humilde vila de pescadores. Aí passa-se a impressão de que um cinema feito no começo dos anos 60 parece mais primitivo do que os trabalhos de Humberto Mauro dos anos 30. O bom é que a narrativa é dispensada rapidamente e as imagens se detêm nos pescadores, muitas vezes flagrados contra a luz do sol. A música ajuda a dar um ar mais lírico. Ainda assim me incomodou o meu distanciamento a uma obra tão incensada e importante dentro da história do cinema brasileiro. Direção: Mario Carneiro e Paulo Cezar Saraceni. Ano: 1960.
ARUANDA
Uma espécie de pai de VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos, ARUANDA é pioneiro em mostrar o povo preto e pobre do sertão nordestino, do jeito que eles são de fato. E não deixa de ser impressionante para nós, criados em cidade grande, ver o modo de vida e de sobrevivência de quem tem que se virar com o que tem, ou seja, o barro, a água barrenta e os galhos secos para fazerem tanto os potes quanto a própria casa. Uma longa jornada da escravidão até a vida de pequenos proprietários de terra na sertão. Direção: Linduarte Noronha. Ano: 1960.
DIVERSÕES SOLITÁRIAS
O ponto de vista de uma pessoa que se diverte na solidão, embora aparentemente muito feliz com seu walkman, passeando nas ruas e ouvindo um bom rock. A cidade de São Paulo é um personagem na história que praticamente só conta com um protagonista e umas duas coadjuvantes que o abordam em dois momentos distintos. Há uma espécie de crítica àqueles que condenam os que consomem cultura pop estrangeira. Direção: Wilson Barros. Ano: 1983.
A PASSAGEM DO COMETA
Cada novo filme de Juliana Rojas é uma alegria, pois todos os seus trabalhos são no mínimo ótimos. Agora, então, que já tem longas premiados e devidamente louvados, está no domínio ainda maior de seu trabalho. Aqui ela conta a história de uma jovem que vai fazer um aborto na época em que o cometa Haley está passando. É gostoso de ver e um tanto enigmático. Ano: 2017. (foto)
NOTURNO
Não me sinto apto para analisar animações mais abstratas e que principalmente foram produzidas em uma outra época, em que esse tipo de produção era mais raro no Brasil, era um feito de fato heroico. Este pequeno e belo curta de Aída Queiroz se encaixa nesse quesito. O filme ficou na posição de número 57 da lista das melhores animações segundo a Abraccine. Ano: 1986.
O PROJETO DO MEU PAI
Que desenho lindo! Encanta já desde o começo, quando a diretora/narradora conta sobre como era sua família quando ela era pequena e como ela os desenhava, com os tradicionais bonecos-palito. A questão da ausência do pai dói um pouco no tom agridoce do filme e se torna ainda mais forte nas emoções quando a narradora-personagem reencontra o pai quando adulta. De dar uma leve dor no peito. Direção: Rosaria. Ano: 2016.
O VIOLEIRO FANTASMA
Um filme que mistura elementos da cultura nordestina, como o cantador de repente, com coisas da cultura mexicana, como o culto aos mortos, e até a coisas relativas à cultura japonesa (pelo que eu entendi ou remeti), nas cenas em que o filme ganha ares de sonho, com cabeças voadoras e coisas parecidas. Só faltou eu me conectar mais com o trabalho, mesmo gostando muito do visual, das cores etc. Direção: Wesley Rodrigues. Ano: 2017.
MENINA DA CHUVA
Outra belezura de trabalho de Rosaria, que dessa vez trata da solidão através do drama de uma garotinha de cor roxa que não encontra inclusão entre as meninas da sua idade nem entre os adultos. Quem tem uma relação mais forte com a solidão é fácil entrar em sintonia tanto com o filme quanto com a personagem, no sentido de que é possível trafegar por momentos de tristeza e por outros de satisfação, mesmo sozinha, como na bela cena da chuva. Há também uma valorização da visualização da vida cotidiana como elemento de graça para a vida a sós. Ano: 2010.
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