sábado, dezembro 08, 2012

ALÉM DA LIBERDADE (The Lady)



Com a trinca de filmes falados em inglês e confundidos com produções hollywoodianas – O PROFISSIONAL (1994), O QUINTO ELEMENTO (1997) e JOANA D’ARC (1999) –, Luc Besson passou de cineasta francês a cineasta internacional. Seus filmes são, com frequência, não muito bem recebidos pelos críticos e não dá para dizer que ele conseguiu uma reputação de prestígio entre os cultuadores do cinema de autor. Mas Besson parece não se importar muito com isso.

Tanto que se dedicou nos últimos anos a dirigir três animações sobre um personagem chamado Arthur, formando uma espécie de trilogia. Essas animações não tiveram grande repercussão por aqui. A preocupação maior de Besson parece estar sendo com suas produções internacionais, também confundidas com filmes americanos, caso da "trilogia" CARGA EXPLOSIVA (2002, 2005, 2008) e do bem sucedido thriller BUSCA IMPLACÁVEL (2008), que neste ano ganhou também uma sequência igualmente bem recebida nas bilheterias mundiais.

Seu retorno à direção para filmes mais "sérios" veio com ANGEL-A (2005) e com este ALÉM DA LIBERDADE (2011), que é mais ambicioso no sentido de dar tonalidades épicas para a história biográfica de uma mulher cujo pai foi um dia presidente da Birmânia e que foi assassinado pelos militares, que tomaram o país e instalaram uma das mais sangrentas ditaduras de que se tem notícia.

Em ALÉM DA LIBERDADE, Michelle Yeoh é Aung San Suu Kyi, que depois de saber que sua mãe está muito doente retorna a sua terra natal, onde é recebida por um grupo de pessoas que deseja trazer a democracia de volta para o país e que veem nela a pessoa ideal para iniciar esse processo. Suu, como ela é chamada pelo carinhoso e compreensivo marido (David Thewlis), aceita participar da luta pela redemocratização do país. Mal sabia ela que seria tão difícil.

A trajetória de Aung San Suu Kyi, de tão triste que é, dá até para dialogar com a de outra personagem feminina presente na filmografia de Besson: Joana d’Arc. Guardadas as devidas proporções. E levando em consideração que a história de Suu não possui elementos fantásticos como na misteriosa história da jovem que liderou o exército francês na Guerra dos Cem Anos para ser queimada em uma fogueira como bruxa logo em seguida.

No caso de Suu, o que há de mais triste em sua história é o fato de ela ter passado tanto tempo em prisão domiciliar, enquanto seus filhos cresciam na Inglaterra, com vistos negados pelo governo da Birmânia (hoje, Mianmar), e era impossibilitada até mesmo de visitar o seu marido, vítima de câncer. Assim, se ela ganhou o Prêmio Nobel da Paz, essa vitória é muito pequena diante de tantas atribulações por que ela passou.

Uma pena que a direção de Besson não seja suficientemente boa nem mesmo para levar o espectador às lágrimas numa história que tinha tudo para funcionar dentro do registro do melodrama. E até se nota que ele tenta, tendo em vista a trilha sonora que busca a emoção a todo momento. Besson também carrega nas tintas ao vilanizar em demasia os chefes de estado do país, que devem mesmo ter sido bem perversos, mas a forma como o cineasta os coloca na tela funciona mais como caricaturas, vistas em muitos filmes B de ação hollywoodianos.

ALÉM DA LIBERDADE serve, porém, para apresentar para muitos uma realidade que poucos conhecem: a de um povo cheio de peculiaridades, como as mulheres-girafa e os monges budistas influenciados pela cultura local, além, claro, da própria situação política do país, que só ganhou eleições civis em 2010. O filme também traz uma bela mensagem pacifista inspirada em líderes como Mahatma Gandhi.

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