terça-feira, janeiro 24, 2012

A SEDUTORA MADAME BOVARY (Madame Bovary)



Depois de conferir a adaptação de Jean Renoir para a obra-prima de Gustave Flaubert, chegou a vez de ver o resultado do tratamento dado pelo mestre Vincente Minnelli a esse romance realista que marcou a História da Literatura no Ocidente. A SEDUTORA MADAME BOVARY (1949) já se diferencia por se afastar mais da obra de origem em várias sequências. A Emma Bovary de Minnelli, interpretada por Jennifer Jones, é mais glamorosa, e Charles Bovary não é o sujeito bobo de Flaubert e do filme de Renoir. Minnelli dá mais dignidade a Charles.

Uma opção muito boa foi iniciar o filme com o julgamento de Flaubert, que na época do lançamento do romance foi acusado de estar influenciando a sociedade com um livro de obscenidades sobre uma mulher que comete adultério sem se sentir culpada. Assim, Flaubert, interpretado por James Mason, começa a se defender no tribunal e inicia a narração em voice-over da história de Emma, que de tanto ler romances românticos viu na figura do médico Charles Bovary (que nesse filme não é visto como um viúvo) uma espécie de príncipe encantado chegando a cavalo, quando ele vem cuidar da perna quebrada de seu pai.

Os dois logo sentem uma atração um pelo outro, mas Emma é muito exigente e com poucos dias descobre que não gosta do marido nem de sua humilde casa e cidade. Ela gosta de luxo e riqueza e também de uma visão mais "romântica" de um relacionamento, coisa que Charles não a oferece, com seu jeito simples de ser. Daí a se deixar encantar por homens como Leon e Rodolphe é um pulo. Como se vê, até aqui o essencial da trama permanece igual. O que Minnelli muda são alguns detalhes.

E há, também, claro, o traço do diretor, conhecido como o cineasta da beleza e que acabou ficando mais famoso por seus musicais do que por seus melodramas, embora se saísse muito bem em ambos os gêneros. Uma cena que é característica do cinema de Minnelli é a cena do baile de Vaubyessard, que é bem estendida em comparação às demais sequências. Os rodopios de Emma dançando freneticamente a ponto de também nos deixar tontos estão entre os momentos mais memoráveis do filme. A cena do baile também é marcada pela humilhação de Charles.

Se o resultado de A SEDUTORA MADAME BOVARY não combina perfeitamente com o tom do livro, que é realista e sóbrio, ao passo que o filme é romântico e embriagante, é porque as escolhas do diretor e o seu estilo predominaram. Não há nada de errado nisso. O problema é que nem Renoir, nem Minnelli conseguiram finalizar suas obras com o mesmo baque, a mesma catarse que o romance de Flaubert provoca no leitor. Mas talvez aí seja querer demais desses tão hábeis diretores.

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