Uma bela surpresa rever UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (1999) com a Giselle e perceber o quanto o filme ainda me ganha. Acho que até mais do que quando o vi pela primeira vez, provavelmente em agosto/1999, apenas poucos meses antes de conhecer a Giselle. Talvez o impacto tenha sido maior hoje pois estava desacostumado com esse tipo de comédia romântica tão bem cuidada, como eram as dos anos 1990 e início dos 2000.
E este trabalho de Roger Michell com roteiro de Richard Curtis tem também uma simplicidade que encanta. A simplicidade está na trama, mas o trato carinhoso com os personagens e a sofisticação visual em certas cenas fazem a diferença, como quando o personagem de Hugh Grant atravessa estações do ano enquanto caminha pelo seu bairro depois que a personagem de Julia Roberts o deixa. Cativou-me o quanto esses dois protagonistas são mostrados de forma quase despida, do ponto de vista emocional. Há uma cena em que Anna Scott, a atriz vivida por Roberts, tem o olhar inquieto de uma garotinha se declarando para um menino. E ele também revela que não está preparado para ter seu coração partido novamente, na antológica cena na livraria.
Então, há essa quase inocência que parece ausente dos filmes atuais. Então, quando me peguei em lágrimas nos momentos finais, com aquela cena do “sim” na coletiva de imprensa, puxa, aquilo ali é muito lindo. Só eles dois, William e Anna, sabiam o que estavam sentindo e o que viveram e passaram e o que pretendem viver (juntos) a partir de então. Mas também há algo de muito presente nas comédias românticas, que é o quanto a publicização do amor do casal frente a um determinado público, seja ele pequeno ou grande, é importante para a materialização da relação afetiva. Quase como um pré-casamento, uma espécie de noivado dos filmes.
E, nessa cena, em específico, Julia Roberts e Hugh Grant emprestam seus sorrisos de maneira tão genuína que tudo parece perfeito, ao som de “She”, interpretada brilhantemente por Elvis Costello. Grant, na época, era o maior astro de comédias românticas do cinema britânico. Havia feito QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL em 1994 (também com roteiro de Richard Curtis) e NOVE MESES e RAZÃO E SENSIBILIDADE em 1995. Juntar-se a uma atriz americana do porte de Julia Roberts naquele 1999 o tornou ainda maior no subgênero. O que ele costuma emprestar a seus personagens é geralmente um misto de timidez e sarcasmo; e às vezes um pouco de cinismo. E Julia tem aquele sorrisão imenso, aquela aura de estrela que foi revelada em UMA LINDA MULHER. E considero o seu papel neste filme de Michell um dos melhores de sua carreira, até pelo quanto ela consegue combinar a dor e a delícia de ser uma estrela de Hollywood com certa vulnerabilidade diante de um homem por quem está apaixonada.
Uma coisa, porém, que não mencionei até agora é o quanto o sucesso do filme também se deve aos momentos engraçados, quanto o personagem do colega de aluguel de Grant, vivido por Rhys Ifans, o Spike, é importante para que o riso venha fácil. É um personagem que lembra um pouco o Kramer da série SEINFELD pelo jeito excêntrico de ser. E aí temos também os familiares do protagonista e a cena do jantar com Anna Scott, que é outro momento delicioso e que ajuda também a apresentar outros coadjuvantes importantes, inclusive para a conclusão da trama. Conquistar o riso do espectador é uma ótima maneira de pegá-lo desprevenido e chorando lá no final. Parabéns aos envolvidos.
+ TRÊS FILMES
PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (Wicked Little Letters)
É legal ver PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (2023), de Thea Sharrock, agora, sob a perspectiva de já ter visto Jessie Buckley brilhar em HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET e como franco-favorita ao Oscar de melhor atriz. Nesta comédia ambientada na Inglaterra rural dos anos 1920, ela é uma jovem mãe irlandesa cujo comportamento mais libertário choca parte de uma pequena comunidade. Ela se vê enredada numa teia de intrigas acerca de cartas de teor violento e contendo palavras de baixo calão enviadas à personagem de Olivia Colman, uma solteirona beata que mora com os pais idosos. A partir do momento que a personagem de Buckley é presa como principal suspeita do envio das tais cartas, passamos a observar o comportamento machista e misógino dessa comunidade, a começar pela personagem da policial, que precisa ser lembrada que é uma policial mulher, com restrições em suas ações na delegacia e proibida de investigar o caso. Quando essa personagem policial (Anjana Vasan) ganha mais protagonismo na trama, esse aspecto mais misógino dos personagens vai de encontro com o quanto o filme passa a mostrar as mulheres ajudando umas às outras no julgamento e na investigação. Mesmo quando o filme apresenta a rivalidade entre as duas personagens principais, vemos essa situação mais como fruto de uma sociedade patriarcal que pune e oprime as mulheres do que como ações malignas de determinada personagem. A diretora de COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (2016) constrói uma história que deixa claro o carinho por suas personagens femininas, assim como destaca também uma série de situações tanto de vulnerabilidade quanto de coragem dessas mulheres.
LEGALMENTE LOIRA (Legally Blonde)
Na época que este filme estreou no circuito, eu confesso que tive certo preconceito. Provavelmente não estava muito disposto a diversões aparentemente mais despretensiosas, embora muitas vezes aquilo que se apresenta desta maneira guarde mais valor do que muito filme dito "de arte" por aí. LEGALMENTE LOIRA (2001), de de Robert Luketic, entrou no cardápio da Mubi e, rolando as opções do streaming com a Giselle, ela escolheu este filme, que eu não lembrava se havia visto ou não – depois vi que não havia assistido mesmo. E tive uma surpresa muito boa, e não foi de nostalgia ao ver gente como Selma Blair e Ali Larter (e até a diva dos anos 1960 Raquel Welch), mas principalmente a boa condução narrativa, a jornada da heroína subestimada que vai a uma faculdade de elite intelectual (o curso de Direito de Harvard) para mostrar seu valor para o ex-namorado. Sua intenção pode até ter sido fútil, mas é também digna. Reese Witherspoon está uma graça como essa garota rica e de bom coração, mas de estilo superficial, que leva essa generosidade e leveza a um lugar onde habitam pessoas de nariz empinado. Com sua cara de sessão da tarde, o filme aparece na curadoria da Mubi por algum motivo que vai além da forma, creio eu. Está mais ligado aos aspectos de sororidade e feminismo. Além do mais, este é um daqueles casos de comédias que se tornam clássicos com o tempo, pelo impacto que provoca no público e pelo quanto se mantém viva ao longo dos anos. Atualmente há uma série com uma proposta de ser uma prequel de LEGALMENTE LOIRA, de nome ELLE, estrelada pela jovem Lexi Minetree, e focando na vida de Elle na escola.
TOY STORY 5
Que gostoso sentir novamente o encantamento do primeiro TOY STORY (1995) neste quinto filme da franquia, realizado 31 anos após o original. Há tempos dizem que essas continuações são caça-níqueis (na verdade, caça-milhões), mas se há uma boa história para contar e um bom desenvolvimento de personagens e direção, essa já é uma boa justificativa. TOY STORY 5 (2026), de McKenna Harris e Andrew Stanton, é o primeiro que conta com uma mulher na direção (ainda que codireção) e aqui foi necessário para garantir uma sensibilidade feminina, pois a protagonista da vez é Jessie, a vaqueira de brinquedo que se revela extremamente carismática quando sai de cena (parcialmente) o caubói Woody. É ela a condutora da ação, aquela que mais sofre e mais luta para que sua criança, a pequena Bonnie, sentindo-se solitária e sem meninos de sua idade para brincar com ela, enfrenta a nova era de tecnologia, a do consumo abusivo de telas. O pequeno dinossauro de brinquedo chora, dizendo que não aguentará uma nova extinção. O filme tem uma sensibilidade muito própria, tornando-nos interessados pela trama e pelo drama dos personagens, tanto dos brinquedos quanto dos humanos, aqui alheios ao que está acontecendo ao redor, com os brinquedos correndo para diferentes casas, montando cavalos e subindo em carros, tudo para cuidar melhor de Bonnie. A intenção de Jessie, Buzz e cia. é menos evitar que eles se tornem rejeitados e ultrapassados diante da nova conjuntura, e mais em diminuir o sofrimento de Bonnie, que se vê numa situação de negar a si mesma para não se sentir tão diferente das outras crianças, que praticam bullying na menina por ainda brincar com bonecos. No mais, achei lindo esse novo passo mais romântico da cinessérie, ao trazer um Buzz apaixonado e com a intenção de pedir Jessie em casamento, lutando contra a timidez e a insegurança para fazer o pedido. TOY STORY 5 é daqueles filmes que transbordam amor. E faz isso com inteligência, sensibilidade e muito humor. E ainda introduz novos personagens muito bons.





