quinta-feira, agosto 24, 2023

BESOURO AZUL (Blue Beetle)



Na Marvel há um super-herói muito interessante, o Homem-Aranha 2099, que é latino e cujas histórias preveem que o futuro será dominado culturalmente pela cultura hispânica, e não pela cultura de língua inglesa, como é atualmente. Como o mundo passa por transformações às vezes inacreditáveis, não podemos descartar essa possibilidade. Enquanto isso, porém, o que temos são migalhas da cultura latino-americana expressadas em produções mainstream. E uma dessas migalhas estreou na semana passada nos cinemas de todo o mundo, BESOURO AZUL (2023), uma produção dirigida, roteirizada e estrelada por artistas latinos, incluindo a nossa Bruna Marquezine, ótima representante do Brasil no filme.

A simpatia de BESOURO AZUL é nítida desde o início, quando somos apresentados à família de Jaime Reyes (Xolo Maridueña), um rapaz recém-graduado que retorna à Palmera City de sua amada família. A família de Jaime está passando por situações difíceis: problemas financeiros e um quadro de saúde delicado do pai do rapaz, que teve um infarto sem que fosse noticiado ao filho. O filme agrada ao mostrar essa relação de amor dessa família vivendo numa casa simples, mas esbanjando bom humor. Destaco a irmã Milagro (Belissa Escobedo), o tio inventor Rudy (George Lopez) e a avó anti-imperialista Nana (Adriana Barraza). Os latinos de Palmera City vivem sendo empurrados cada vez mais para áreas mais distantes e periféricas, por causa do domínio de uma família milionária, os Kords, que agora são controlados pela malvada Melissa Kord (Susan Sarandon), irmã do Besouro Azul original Ted Kord.

Ter um vilão é essencial para que uma história clássica de luta entre o bem e o mal caminhe e, por isso, quando eles são fracos, muito do filme sai um tanto prejudicado. E é o caso de BESOURO AZUL, que se transforma numa obra bem genérica quando pensamos no enredo, na construção dos vilões e até nas lutas. Nesse sentido, é um filme que causa um tanto de preguiça para quem está acostumado a ver tanta aventura de super-herói pipocando há mais de duas décadas. Então, o que salva esta nova aventura são os personagens, inclusive a Jenny Kord de Bruna Marquezine, que surpreendeu a muitos com sua importância na trama e sua sintonia com os personagens.

Jenny não é apenas o interesse amoroso do protagonista, mas responsável direta pela evolução da narrativa, a partir do momento que rouba o artefato do besouro. Soube que a jovem atriz disse num podcast recente que é muito mais divertida em português, em sua língua original, o que é totalmente compreensível. No filme, ela tem uma única fala em português, enquanto a família Reyes fica em vantagem, não apenas falando espanhol com frequência, como também ao fazerem referência, com muito bom humor, a fenômenos populares do México, como Chapolim Colorado e Maria do Bairro.

Ao contrário do que muitos pensam (eu mesmo não lembrava desse herói, embora tivesse lido algumas aventuras da Liga da Justiça Internacional tempos atrás), Besouro Azul é um personagem bem antigo. Ou pelo menos sua primeira versão, de 1939, é. Recentemente, inclusive, estive lendo um dos ótimos trabalhos do roteirista de quadrinhos Tom King, O Alvo Humano, e o Besouro Azul comparece na história. Não o Jaime Reyes, mas o Ted Kord. Aliás, trazer à tona a lembrança do texto brilhante de King só enfatiza a percepção do quanto os filmes da DC (e da Marvel), em geral, estão carentes de um roteiro de excelência. Mas podia ser pior para o filme do diretor Ángel Manuel Soto: o fato de ele estar quase independente do “snyderverso” pode ser positivo para uma eventual sobrevida do personagem no cinema.

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CASA VAZIA

Eis um filme que poderia ter rendido muito, especialmente por causa de seu potencial para trazer não apenas tensão, mas também mistério, nas várias cenas noturnas. A trama poderia muito bem ser transposta para um cenário urbano e render tanto um filme de espionagem quanto um policial. Poderia muito bem ser um faroeste noir também. Em CASA VAZIA (2021), de Giovani Borba, acompanhamos um homem de meia idade com o rosto marcado pelo tempo e pela vida dura, sem emprego e vivendo de bicos perigosos, numa área rural do Rio Grande do Sul. A mulher e os filhos foram embora, desistiram dele, e a vida acaba lhe trazendo a possibilidade de fazer jogo duplo, tanto com os ladrões de gado quanto com os vigias da propriedade. A fotografia de Ivo Lopes Araújo é um dos destaques, inclusive nas cenas noturnas, mas também com o belo uso das cores nas cenas diurnas. Pena que o filme parece ficar à deriva em sua conclusão, quando até mesmo cenas que poderiam impactar carecem de força.

À BEIRA DO MACHADO (Al Filo del Hacha / Edge of the Axe)

Na entrevista que vem nos extras do DVD que contém À BEIRA DO MACHADO (1988), um dos atores conta que todas as cenas foram filmadas na Espanha. No entanto, consta no IMDB que parte das filmagens se deu no interior da Califórnia. Talvez apenas algumas filmagens de paisagens, então. O ator também diz que só teve a oportunidade de ver o filme numa edição em VHS, um provável sinal de que não chegou a ser lançado nos cinemas americanos. O gênero slasher, àquela altura, já estava passando por um sinal de cansaço e o mercado de home video estava em ascensão. O catalão José Ramón Larraz, do ótimo SINTOMAS (1974), rodou visando o mercado internacional (isso explica a grande maioria de atores americanos de terceiro escalão) este slasher simpático com um assassino de visual interessante que usa um machado para dar cabo de suas vítimas numa cidadezinha pacata dos Estados Unidos. O próprio diretor não considera este um de seus melhores trabalhos, mas há muitas coisas interessantes e diferentes para o gênero, como a questão do trauma de uma das personagens sendo mostrado só após uma hora da narrativa. Além do mais, é divertido ver os personagens trocando mensagens em seus computadores pessoais, e um diálogo sobre o quanto essa prática estaria prejudicando a vida deles - eles não viram nada. No mais, as cenas de matança são elegantes e têm uma beleza plástica própria. Só não dá para engolir o desfecho, mas isso faz parte da graça. Visto no box Slashers IX.

quarta-feira, agosto 23, 2023

RETRATOS FANTASMAS



Lembro que meu primeiro contato com o cinema de Kleber Mendonça Filho foi com seus curtas-metragens, naquelas sessões das 18h que a Petrobrás patrocinava em várias salas de cinema do país. Foi numa dessas salas que vi pela primeira vez VINIL VERDE (2004) e NOITE DE SEXTA, MANHÃ DE SÁBADO (2007). E durante vários anos ficava me perguntando: já que KMF é tão bom, por que não lança logo um longa-metragem? Demorou, mas depois do pouco visto documentário O CRÍTICO (2008) o cineasta começou sua carreira com longas de ficção de forma gloriosa com O SOM AO REDOR (2012), que eu tive a honra de ver em primeira mão no Festival de Gramado. De lá para cá, e com a repercussão em festivais internacionais e com a crítica estrangeira, os filmes do realizador têm se tornado um acontecimento. Seu longa de ficção anterior, aliás, BACURAU (2019), foi mais que isso, já que representou um gesto de resistência para a ala mais progressista da sociedade brasileira, então vivendo sob um governo de extrema direita.

Até achei que voltar ao documentário, que exige menos contato com atores e técnicos que a ficção, tenha se dado por causa da pandemia, mas depois soube que RETRATOS FANTASMAS (2023) é um projeto desenvolvido ao longo de anos. O resultado foi esta obra bem intimista, e é muito provavelmente seu filme mais pessoal. Tão pessoal que o próprio Kleber surge como personagem (interpretando a si mesmo em determinado momento) e principalmente como narrador de sua própria história, mais especificamente, da história de sua casa na infância (com a forte e afetuosa presença da mãe até certo momento), e de sua relação de amor e proximidade com as salas de exibição do Recife, salas que ele viu fecharem ao longo do processo de decadência dos centros das grandes cidades e do crescimento do número de multiplexes nos shopping centers.

É bom perceber que Kleber Mendonça Filho chegou num momento de sua carreira em que pode se dar ao luxo de fazer o que quiser que terá no mínimo um bom resultado – pelo menos, é essa a impressão que tenho. Aliás, não é luxo: é talento mesmo, já que saber o que quer com a câmera, saber como dispor cenas já existentes com outras novas, saber fazer uma obra que flui como um diário pessoal, tudo isso é fruto de talento e também de labor. No caso de RETRATOS FANTASMAS, por ser um documentário/ensaio em que a montagem é crucial para o resultado, muito do mérito se deve ao montador Matheus Farias, o mesmo de PROPRIEDADE, filme excelente que está demorando a estrear comercialmente.

A primeira parte do filme é incrível. Ela é dedicada à casa, e todo o jogo envolvendo as imagens atuais com cenas de seus próprios filmes em que o lugar foi usado como cenário é muito saboroso. O cachorro que não parava de latir, a proliferação de gatos na vizinhança, o abandono da casa vizinha que depois seria tomada por cupins, a questão da falta de segurança e a transformação das residências em bunkers, a visita de Maeve Jinkins, toda a brincadeira com a trilha sonora relacionada a filmes de terror tão caros ao cineasta; enfim, todas essas coisas trazem muita graça e uma maior aproximação do cineasta com a audiência.

Quem acompanha Kleber Mendonça Filho pelas redes há um par de décadas vai lembrar que ele foi um dos críticos cinematográficos de destaque no auge dos sites e blogs de cinema, e que foi cada vez mais levando seu amor para a realização de filmes, e até para a gestão de uma das mais importantes salas de exibição do Recife. Mas quem não acompanhou, certamente vai gostar de descobrir um pouco mais do diretor na narrativa em primeira pessoa deste seu novo trabalho.

Ver RETRATOS FANTASMAS é também identificar-se com várias cenas, como o despedir-se de cinemas de rua queridos, conversar com projecionistas, ter uma relação de afeto com o centro da cidade, ter saudade dos pôsteres e das fotos de divulgação nas paredes como elementos de introdução inicial aos filmes num mundo mais analógico. E como é incrível o jogo que ele faz entre O SOM AO REDOR (e outros filmes) e imagens do passado e do presente, na casa onde habitou. O aspecto de filme-ensaio faz lembrar o cinema de Jean-Luc Godard e Chris Marker, com a liberdade de fazer colagens que têm uma relação mais afetiva do que intelectual. 

Não dá para reclamar muito de lançamentos do cinema brasileiro nas telonas neste 2023. Com filmes novos de Kleber Mendonça Filho e Júlio Bressane em cartaz – e até com um inédito de José Mojica Marins, vejam só! –, estamos muito bem, obrigado. Além do mais, em breve teremos o novo filme de Paula Gaitán em nossa cidade. Isso só para citar diretores já há bastante tempo celebrados.

+ DOIS FILMES

MÔA, RAIZ AFRO MÃE

Infelizmente a primeira vez que ouvi o nome de mestre Môa do Katendê foi na notícia de seu assassinato, a facadas, por um bolsonarista, no fervor do primeiro turno das eleições de 2018. Ter um documentário que nos apresente, até que de maneira didática, à sua história e à sua importância na cultura e no carnaval baianos é homenageá-lo, é fazer com que as pessoas que não são baianas, nem familiarizadas com os blocos de Salvador, saibam o que foi e o que representou o Badauê, nome que se tornou nacionalmente famoso graças a Caetano Veloso, que cantou uma das composições de Môa no álbum Cinema Transcendental. Ver MÔA, RAIZ AFRO MÃE (2022), de Gustavo McNair, é também saber um pouco mais sobre o afoxé, o candomblé de rua, e entender um pouco mais as ligações entre religião, música, filosofia e dança promovidas pelos afoxés. E no caso de Môa havia também a capoeira. Como documentário, achei o trabalho de McNair até um pouco cansativo, provavelmente precisando de uma melhor montagem. Mas o filme é um convite ao brasileiro a pensar sua cultura.

MÁQUINA DO DESEJO

José Celso Martinez Corrêa foi um homem que sempre apareceu pra mim como uma figura interessante, mas não o suficiente para que eu procurasse me aproximar e saber mais sobre seu trabalho, até por causa de meu distanciamento com o teatro. Por isso, por essa ignorância de minha parte, fiquei muito impressionado com a festa imensa que foi sua despedida, recentemente. MÁQUINA DO DESEJO (2021), de Joaquim Castro e Lucas Weglinski, me ajudou a apresentar ao dramaturgo e ao Teatro Oficina. O filme começa sua história lá nos anos 1960, pouco antes do Golpe de 64, e segue apresentando sua luta e sua resistência ao longo dos anos, mesmo depois de ter sofrido tortura no pau-de-arara. Há o duelo de Davi e Golias que foi a disputa pelo espaço contra Sílvio Santos, e termina com imagens de uma peça que parece saída dos domínios do deus Dionísio. Essencial para compreendermos pelo menos um pouco de seu teatro revolucionário e cheio de tesão.

quinta-feira, agosto 17, 2023

AS DUAS FACES DA FELICIDADE (Le Bonheur)



Que tenho ainda metade de uma vida inteira para conhecer obras-primas de me deixar sem chão, disso eu não tenho dúvida. O que acontece é que nem sempre acho justo chegar até elas com o corpo cansado, com a mente cansada ou com preocupações que possam atrapalhar a minha relação com a obra. Nesse sentido, acabo optando por obras menores, ou pelo menos que acredito serem menores, e deixando as obras-primas para outro dia. Mas eis que neste último feriado, aproveitei a tarde livre para escolher AS DUAS FACES DA FELICIDADE (1965) como sessão para o dia. Não que eu duvidasse da grandeza desse filme de Agnès Varda, pois adoro o longa de estreia CLÉO DAS 5 ÀS 7 (1962) e a ode feminista pró-aborto UMA CANTA, A OUTRA NÃO (1977), mas esses dois filmes não me prepararam para esse drama sobre infidelidade, tão delicado quanto cruel. Aliás, “delicado” e “cruel” são dois adjetivos que podem ser aplicados ao imaginário masculino sobre a mulher, presente em canções, filmes, poemas e romances. Saber que o filme é dirigido por uma mulher talvez ajude a compreender um pouco sua força e seu impacto.

Diferente de tantos outros filmes sobre adultério, que lidam com o assunto como se fosse como um crime, já que temos uma questão moral envolvida, AS DUAS FACES DA FELICIDADE não torna o personagem masculino exatamente perverso ou cruel com sua esposa. Talvez ele seja egoísta ou ingênuo, ou as duas coisas, e talvez, ao final do filme, crie-se, em alguns espectadores, uma imagem ruim dele. A crueldade está no modo como a vida de uma mulher é interrompida e como sua presença é substituída tão rapidamente. Isso gera um mal-estar no espectador, embora não seja um mal-estar que esteja em sintonia com o protagonista, que parece passar pela experiência do luto de maneira um pouco mais tranquila.

Mas acho que estou passando o carro na frente dos bois, e já metendo um monte de spoilers, sem sequer ter comentado sobre o que trata deste clássico de Varda. E nem adianta eu avisar para o leitor não ler o texto, pois agora é tarde: o estrago está feito. Se bem que a trama, embora muito importante, não é o ponto mais importante do filme. Na verdade, todo o cuidado com a forma tira de AS DUAS FACES DA FELICIDADE qualquer traço de vulgaridade. Trata-se, desde o começo, de uma obra que adota um tipo de decupagem tão ousada quanto a que Jean-Luc Godard usou em ACOSSADO, por exemplo, mas aqui os cortes têm uma função narrativa evidente no modo como os personagens estão passando por certas situações. O melhor exemplo aparece no momento do primeiro encontro de natureza sexual entre o protagonista e a amante. O campo/contracampo é mostrado de maneira tão rápida que parece simular a pressa ou o nervosismo dos dois (ou do espectador), assim como as rápidas imagens das mobílias da casa, antes dos dois irem para a cama.

Uma das coisas mais bonitas nos filmes franceses é o modo como os personagens geralmente costumam falar do amor como se estivessem racionalizando seus sentimentos, ou como se estivessem num divã, se despindo de muitas travas ou daquilo que se costuma esconder, ou talvez como se não estivessem se desvencilhado do romantismo de séculos passados com o avanço da modernidade, sem, no entanto, deixarem de ser um exemplo de modernidade. Talvez eu esteja generalizando demais, e acho que estou mesmo, mas o que digo vale para muitos filmes dessa cinematografia, e vale também para este filme de Varda, especialmente nos momentos em que os personagens do triângulo amoroso conversam sobre seus sentimentos em relação ao parceiro, muitas vezes tornando claro o sentimento de ciúme, mas querendo se livrar dele, de uma forma ou de outra.

A felicidade do título, embora mais tarde possa ser vista como algo também cruelmente irônico, se refere principalmente à felicidade de François, o protagonista, que se encontra num estado de exaltação espiritual ao estar amando duas mulheres: sua esposa e outra mulher que ele conhece no posto dos correios. “Minha esposa é uma planta em crescimento, você é um animal enjaulado. Há felicidade o suficiente em mim para ambas”, diz ele em determinado momento. Sua felicidade transbordante traz repercussões inesperadas e o filme tem um visual tão lindamente belo, colorido e enfatizando o esplendor da natureza, que tudo isso contribui para essa sensação um tanto contraditória e incômoda. Fiquei na dúvida se Varda quis criticar os atos de François, criticar a sociedade monogâmica (acho que não) ou se mostrou algo tão natural quanto a própria natureza em flor, no que ela tem de gentil e violenta. E as flores, tão presentes desde o começo, e inspiradas no tom impressionista da obra-prima UM DIA NO CAMPO, de Jean Renoir, parecem ganhar outra conotação, mais sombria, inclusive, de um funeral.

Se as cenas de François com Émillie transmitem uma espécie de contradição, envolvendo algo que parece muito errado, mas também muito libertador, a derradeira cena de conversa entre François e Thérèse no bosque e sua explosão de sentimentos é tão dolorosa, mesmo sendo mostrada de maneira tão delicada, que, sinceramente, não consigo encontrar paralelo em filme algum. E, assim, quando achamos que não encontraremos outra obra cinematográfica que nos arrebate a ponto de nos fazer pensar nela por dias e dias, surge um filme como este para nos dizer o contrário.

Vi o filme na MUBI, em imagem linda e cristalina, mas fiz questão de ver o debate de 15 minutos presente como extra no box em DVD Agnès Varda, lançado em digipack pela Obras-Primas do Cinema, e que ajuda a trazer luz, mais amor e mais admiração pelo filme.

+ DOIS FILMES

O CRIME É MEU (Mon Crime)

Gosto de François Ozon e admiro o quanto o diretor, muitas vezes, consegue entregar obras lindas, fazendo tantos filmes em curto espaço de tempo. Infelizmente, no meio dos bons e ótimos, há esses feitos sem inspiração e bem a cara da pior perfumaria que o cinema francês produz, por mais que haja um interessante senso de humor e um roteiro que brinca com o sucesso de um assassinato cometido por uma atriz de quinto escalão (Nadia Tereszkiewicz). Com a ajuda da melhor amiga e advogada (a ótima Rebecca Marder, de A GAROTA RADIANTE), ela enfrenta os tribunais de um tempo em que a mulher não votava (anos 1930) e os júris eram todos constituídos por homens. O que mais gosto em O CRIME É MEU (2023) são as performances de Marder e de Fabrice Luchini - até Isabelle Huppert está canastrona. Acho que é um filme para ver totalmente descompromissado e, caso se esteja com muito bom humor, pode divertir.

UMA VIDA SEM ELE (About Joan / À Propos de Joan)

O que me deixou sempre interessado e intrigado com UMA VIDA SEM ELE (2022, o título brasileiro é menos equivocado do que eu imaginei) foi o modo como o filme tratou a memória da protagonista Joan, na vida adulta vivida por Isabelle Huppert. O filme acompanha essa mulher, reencontrando um amor do passado, quando viveu na Irlanda, para em seguida, através de elipses, chegarmos a outros momentos de sua vida, principalmente a relação de afeto com o filho único. Os fragmentos de memórias de Joan coincidem com os fragmentos de anotações que o filho mostra para ela, de diários de diferentes épocas de sua vida, e com a carta da mãe de Joan, que deixa claro que sua própria carta é composta possivelmente por mentiras ou desejos. O filme se beneficia também da presença do alemão Lars Eidinger (que se destacou na minissérie IRMA VEP), no papel de um dos amores de Joan e um quase alívio cômico em alguns momentos.

domingo, agosto 13, 2023

OS COMPANHEIROS (I Compagni)



Quando percebo que estou dedicando a maioria dos meus textos principais a filmes falados em inglês, eu sei que é necessário trazer (e ver) também títulos de outras nacionalidades. Há tantos, e tão pouco tempo para vê-los e pensar sobre eles.. Claro que o mesmo pode ser dito sobre o cinema americano, seja o da velha ou da nova Hollywood, mas, como não sou um especialista, e quero abraçar tudo, mesmo sabendo que não conseguirei nunca, faço o possível para ir conhecendo diferentes cinematografias e diferentes obras de grandes (ou nem tão grandes) cineastas. Os livros que a Versátil tem produzido, com diferentes recortes e várias críticas que destacam filmes importantes de autores e de diferentes gêneros, tem sido uma espécie de farol para mim. E por causa deste livro e dos lançamentos em DVD que estou acompanhando, tenho tido a chance de diminuir um pouco minha ignorância sobre certas obras essenciais.

Tenho uma lacuna imensa, por exemplo, com o cinema de Mario Monicelli. Peguei para ver do box O Cinema de Mario Monicelli este OS COMPANHEIROS (1963), que foi o escolhido pela Versátil para integrar os ensaios presentes no livro O Cinema de... (O texto, aliás, é de José Geraldo Couto, um dos críticos que mais contribuiu para minha primeira formação cinéfila, na melhor fase da revista SET). Ou seja, OS COMPANHEIROS foi destacado como uma das principais obras do realizador, talvez seu melhor trabalho.

O filme já me conquistou de imediato com o modo humano com que lida com seus vários personagens. Neste filme-coral que ganha uma espécie de protagonista lá pela meia hora de duração (Marcello Mastroianni), somos apresentados à realidade dura de trabalhadores de uma indústria têxtil na virada para o XX, na cidade de Turim. Logo numa das primeiras cenas, um dos trabalhadores perde a mão num acidente de trabalho. A partir de então, seus companheiros procuram pensar em estratégias para chamar a atenção dos patrões. Afinal, trabalhar 14 horas por dia e ainda se alimentar mal é como pedir para que um acidente como esses aconteça com mais frequência.

Há cenas antológicas, como quando os trabalhadores tentam segurar os desempregados vindos de outra cidade para trabalhar na fábrica, e com isso estragar a greve, ou o discurso final do professor vivido por Mastroianni para incentivar a continuidade da luta. Para nós, brasileiros, é fácil nos identificarmos com OS COMPANHEIROS, e nos lembrarmos da obra-prima ELES NÃO USAM BLACK-TIE, de Leon Hirszman. Monicelli, que ficaria mais famoso por suas comédias, aqui traz também doses de humor na apresentação carinhosa de seus personagens simples, sofridos e às vezes amargos, como é o caso da prostituta vivida por Annie Girardot. E tudo isso com um cuidado imenso com a mise-en-scène, com fotografia e direção de arte magníficas.

É também um filme que nos faz lembrar da fome como elemento primordial de dominação dos empresários para manipular a mão de obra barata. Um dia desses, ao sair de uma sessão de terapia, estive pensando no quanto as canções destacam tanto o amor (ou a perda de um amor), enquanto muito pouco se fala sobre a angústia diante de dificuldades financeiras, como se essa preocupação fosse menos nobre. Já o cinema, principalmente o italiano, abraça esse tema sem medo e com resultados muitas vezes arrebatadores.

Inclusive, quando comecei a ver OS COMPANHEIROS, até pensei que aquela sociedade era contemporânea (anos 1960) ou do pós-guerra, já que nesse período houve muita miséria, já muito explorada nos filmes do Neorrealismo. Mas saber que se passa no final do século XIX ajuda também a trazer o filme para o humanismo e talvez menos para os governos socialistas de países como União Soviética ou Cuba. É um filme de esquerda que deve ter trazido muito mais gente à causa operária do que os textos dos filósofos socialistas mais clássicos.

Quanto a Marcello Mastroianni, é impressionante constatar que ele era, naquele momento, um dos maiores atores do mundo. Só no mesmo ano (1963) ele fez ONTEM, HOJE E AMANHÃ, de Vittorio De Sica, e 8 E ½, de Federico Fellini. No ano anterior, vinha do melodrama DOIS DESTINOS, de Valerio Zurlini, e no seguinte faria a comédia MATRIMÔNIO À ITALIANA, de De Sica.

Já Mario Monicelli, trata-se de um dos maiores diretores de comédias italianas de todos os tempos, com filmes como OS ETERNOS DESCONHECIDOS (1958), O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE (1966), MEUS CAROS AMIGOS (1975), entre outros. Enfim, há muito a explorar e conhecer de sua filmografia.

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BROKER – UMA NOVA CHANCE (Beurokeo)

Bela história de uma “família” que se forma a partir de uma situação inusitada. Em BROKER – UMA NOVA CHANCE (2022), temos uma jovem que abandona o filho recém-nascido, dois homens que pegam a criança para vender (eles são intermediadores desse tipo de negócio) e um garotinho órfão que se junta à trupe. Hirokazu Koreeda constrói uma espécie de road movie em que seus personagens (e suas tramas) vão ganhando mais força emotiva à medida que as negociações se aproximam e o filme se encaminha para sua conclusão. Ao mesmo tempo, temos duas policiais que têm a intenção de prendê-los em flagrante. O diretor segue sua tradição de lidar com questões familiares de forma sensível, mas contando, desta vez, com o novo tempero de interpretações sul-coreanas. Destaque para Song Kang-ho, de PARASITA, que ganhou o prêmio de atuação em Cannes-2022. Pena que a projeção escura da sala do Belas Artes incomoda um pouco a fruição.

BEM-VINDOS DE NOVO

Filmes como BEM-VINDOS DE NOVO (2021) são muito expositivos da intimidade de uma família, mas, curiosamente, este não me pareceu tanto, não chega a causar constrangimento por certas situações. Na verdade, logo no começo, há coisas não ditas que conferem ao filme um ar intrigante. Afinal, qual o motivo de um casal ter saído do Brasil para ir ao Japão, deixando seus três filhos pequenos, e só voltando 13 anos depois? O diretor e filho do casal, Marcos Yoshi, conta tudo com muita sinceridade e deixa transparecer de forma explícita a personalidade forte e indignada do pai. A revolta do pai consigo mesmo e com os países que não foram gentis com ele é um destaque. Além do mais, causa indignação pensar em pessoas que trabalham 12 horas por dia numa fábrica (de um país tão rico quanto o Japão) para voltarem para seu país sem um bom dinheiro, após mais de uma década. Há muitas cenas que causam emoção, mas tudo fica dentro de uma espécie de linha de segurança. Ainda assim, certamente é um filme que ficará presente na nossa memória afetiva por um bom tempo.

sábado, agosto 12, 2023

ASTEROID CITY



Na quinta-feira, lá fui eu para a sala VIP da Cinépolis ver o novo Wes Anderson, ASTEROID CITY (2023). O preço do ingresso, parcelado em suaves 12 parcelas, desce fácil. Além do mais, é preciso escolher a melhor sala de cinema da cidade para ver este filme, já que as cores em tom pastel estão mais claras ainda e, isso, numa projeção ruim, poderia resultar em prejuízo visual. Ok, você pode ver o filme em sua sala, numa ótima televisão LED ou OLED, mas olha: ASTEROID CITY merece uma tela grande, já que há muitos planos gerais e muitos detalhes a ser percebidos. Inclusive o filme pede para uma segunda apreciação, já que os detalhes visuais estilizados podem desviar a atenção para a trama, o que é já natural de se esperar no cinema de Wes Anderson, mas aqui talvez se apresente de maneira mais intensa. 

Uma das coisas mais fascinantes no cinema do realizador nem é algo geralmente citado logo de cara nos primeiros parágrafos de reviews sobre seus filmes, já que as pessoas costumam dar mais atenção à plasticidade de sua obra. Refiro-me ao modo como o cineasta bloqueia suas emoções, tanto nas interpretações, que tem algo de Bresson, quanto no quanto há coisas não ditas. Em ASTEROID CITY isso se torna mais visível, e ele deixa escapar um pouco mais dessa sentimentalidade presa numa garrafa neste filme com personagens que agem como numa história em quadrinhos, embora sejam também atores de uma peça que está sendo apresentada num programa de TV.

(Se a referência a Bresson pode não ser muito acertada para alguns, acho que vale reavaliar, já que, pesquisando sobre uma possível ligação entre os dois cineastas, fui parar em duas listas de filmes favoritos de Anderson. Numa delas, para a Criterion, ele cita num top 10 A GRANDE TESTEMUNHA. Aliás, na mesma lista está presente também O ANJO EXTERMINADOR, de Luis Buñuel, cuja trama tem um pouco em comum com a de ASTEROID CITY: ambos mostram pessoas presas num determinado lugar, embora as circunstâncias aqui pareçam menos misteriosas do que em Buñuel.)

Ver ASTEROID CITY representou um novo momento para mim na apreciação do cinema de Anderson. No fundo, eu não entendia de verdade seus filmes. Talvez ainda não entenda. Mas é como se neste filme, finalmente, aquela emoção que eu senti lá com OS EXCÊNTRICOS TENEBAUMS (2001), e que nunca mais foi repetida nos demais filmes do diretor por mim, começasse a ser notada. O tema do luto está bastante forte. Temos uma família que veio enterrar as cinzas de uma falecida esposa/mãe/filha e as criancinhas querem fazer o enterro ali, no deserto daquele espaço com características de lugar tão radiativo quanto os efeitos da bomba atômica que está sendo testada ali ao lado.

E boa parte daqueles personagens vivem num momento de dificuldade, como se tivessem um problema imenso de lidar com a vida, com as pessoas, com os obstáculos. O personagem de Schwartzman, por exemplo, tem vontade de abandonar seus filhos para ir embora, após a morte da esposa. A personagem de Scarlett Johansson usa a maquiagem de um soco no olho para internalizar os sentimentos de quem ela interpretará, uma mulher prestes a cometer suicídio. Aquele momento em que aquelas pessoas estranhas estão tendo a oportunidade de conhecer e conversar com novos indivíduos é uma possibilidade de conexão que elas veem surgir em suas vidas.

Como tem se tornado cada vez mais comum nas obras mais recentes de Anderson, o elenco é um caso à parte e constitui uma diversão por si só ver tanta gente boa e famosa reunida, mesmo que em papéis bem pequenos. Assim como é uma diversão ver a beleza da composição visual milimetricamente pensada, ainda mais neste projeto mais ambicioso, com um monte de personagens em vários cenários de uma cidadezinha fictícia no deserto americano em 1955. Os personagens mais fáceis de serem gostados são os de Jason Schwartzman e Scarlett Johansson, os primeiros nomes dos créditos, mas há pequenos personagens fascinantes, como a de Margot Robbie e o de Jake Ryan, que parecem possuir também cargas de pessoalidade com o cineasta, seja como alguém que se percebe deletada de um universo, seja como um pequeno gênio que está trabalhando ainda sua autoconfiança.

O encontro de Schwartzman com Margot Robbie tem algo de espiritual e de mágico, inclusive. É como se, ao sair daquele mundo artificial, o ator da peça (que vive um fotógrafo) tivesse um encontro com sua falecida esposa, cuja personagem fora deletada na montagem. Sonho e realidade se confundem, neste caso, já que, o que é visto em preto e branco são os bastidores.

Boa parte dos demais parecem pequenos bonequinhos num cenário construído por uma criança. E talvez Anderson seja esse menino nerd que não quer deixar seu gosto pela brincadeira, pela ciência e pela criatividade morrer. Mas um nerd apaixonado pelo cinema, e por isso, para ter uma apreciação melhor de seu filme seja necessário não apenas estar um pouco mais íntimo de seu cinema, mas também ter uma bagagem cinematográfica um pouco maior. Saber que ele é uma fã da Nouvelle Vague francesa, de gente como Godard e Truffaut, pode ajudar a fazer conexões com seus personagens e suas opções estéticas. VIVER A VIDA, de Godard, por exemplo, é um filme que pode ser lembrado ao vermos ASTEROID CITY, já que há uma divisão fragmentada e explicitada por capítulos também no filme de Anderson.

A diferença é que o filme de Anderson explicita seu detalhismo ao fazer divisões e subdivisões entre capítulos, atos e até cenas. A sensação é como lermos um livro. Ou melhor, como lermos uma história em quadrinhos sofisticada. Ou melhor, como vermos um filme que assimila o teatro, a televisão, a literatura, o cinema de animação e as histórias em quadrinhos.

Uma observação de alguém com pouco conhecimento do assunto: sobre o uso da câmera deslizante, bastante presente no filme, acredito que esse recurso fica prejudicado na transformação para o digital. E consta no IMDB que Anderson usou lentes anamórficas, câmera 35 mm, para seu filme. Muito provavelmente possíveis exibições em película ganhariam nesse aspecto.

+ DOIS FILMES

O ENCONTRO DE CARL (Carl’s Date)

Uma bela surpresa este O ENCONTRO DE CARL (2023), de Bob Peterson, curta que pode ser visto nas sessões de ELEMENTOS. Aqui temos Carl, o velhinho de UP – ALTAS AVENTURAS (2009) e seu cãozinho que se comunica, Dug. O que aflige Carl é o fato de que ele não está mais preparado para um novo par, uma nova mulher em sua vida. E o filme consegue passar essa aflição de maneira divertida, mas também empática, em apenas oito minutos de duração. A Pixar de vez em quando acerta. Nem que seja nos curtas.

ELEMENTOS (Elemental)

As animações da Pixar estão evoluindo cada vez mais para serem vistas mais por um público juvenil do que para um público infantil. ELEMENTOS (2023), de Peter Sohn, é uma história de amor proibido entre uma moça do elemento fogo e um rapaz do elemento água. Gosto mais dos personagens do que da história, mais da ideia do que de sua aplicação. Tanto que depois do terço inicial o filme perde sua força, pois passa a depender mais da trama, que é pouco atraente. Interessante que os idealizadores pegam um pouco das características de signos do zodíaco de fogo (impulsivos, agressivos) e da água (sentimentais, sensíveis), levadas ao extremo. Por exemplo, o rapaz e sua família choram aos borbotões, enquanto a menina destrói tudo quando começa a ficar muito irritada. Há situações com potencial de emocionar, e até acho que parte do público se emocionou (houve palmas após a sessão), mas certamente a Pixar já fez muito melhor. Tanto que ELEMENTOS representa um momento de forte crise na companhia e na Disney.

quinta-feira, agosto 10, 2023

A MORTE NUM BEIJO (Kiss Me Deadly)



Cerca de duas décadas atrás o Cine Benfica começou a exibir, em sessões matutinas, alguns filmes do ciclo noir. Não cheguei a ir às demais sessões (todas em DVD, se não me engano), mas resolvi ir para a sessão de A MORTE NUM BEIJO (1955), de Robert Aldrich. Saí do cinema absolutamente impressionado. Na verdade, a impressão que eu tive, desde a primeira cena, da mulher vestindo apenas um roupão, abordando, desesperada, qualquer motorista na estrada escura, seguida da cena de créditos, foi de absoluta estupefação.

Os créditos mostrados de ponta-cabeça logo em seguida, nos deixam com os olhos arregalados. Ou seja, desde o começo, o filme já antecipa o quanto se trata de uma obra virada do avesso, de certa forma, ou como um espelho distorcido do próprio gênero de thriller de detetive que vinha sendo feito em Hollywood desde o início da década anterior. Isso foi o suficiente para que esta obra-prima do diretor me ganhasse, no início da carreira, mesmo que o miolo do filme seja confuso.

Acho que estava numa vibe de querer ver filmes de histórias confusas, mas viajantes, como certos gialli e até mesmo alguns títulos noir hollywoodianos mesmo – o caso clássico seria o de À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks. E, se o prólogo é um cartão de visitas impressionante, o que dizer daquele final? Acho que só tinha visto algo tão desconcertante nos filmes de David Lynch. No caso do filme do Aldrich, porém, é possível entender a obra como um fruto da era atômica, como já estava acontecendo na época com o gênero sci-fi. O que Aldrich fez foi adicionar um elemento fantástico como a grande surpresa de seu filme.

Na revisão de A MORTE NUM BEIJO, prestei atenção em mais aspectos, como o fato de o herói ser quase tão grosseiro (e sádico) quanto os vilões, ou o espírito que o filme pega emprestado da obra adaptada, uma ficção pulp de Mickey Spillane. O herói, Mike Hammer (Ralph Meeker), se diferencia bastante de outros detetives do gênero, como Phillip Marlowe e Sam Spade, exemplos de classe e estilo. Em certo momento, depois que Hammer descobre que puseram uma bomba em seu carro, um dos vilões principais reconhece que o subestimou, que não entende o que ele fará a seguir. O tom de imprevisibilidade faz parte do filme.

Sendo um noir B dos anos 1950 (um noir B e independente), o filme tem uma característica maior de autoconsciência. Isso faz toda a diferença na dramaturgia, nos diálogos, no modo como os personagens se comportam. E há a beleza da fotografia expressionista, da trilha sonora sinistra, de opções estranhas e intrigantes de onde colocar a câmera, das surpresas que se apresentam no desenvolvimento e principalmente em sua conclusão, na sensualidade e na violência apelativas para a época. Não à toa virou um dos favoritos para tantos cineastas, que o referenciaram, como Lynch, Tarantino, Spielberg.

Filme revisto no box Filme Noir (o primeiro). 

+ DOIS FILMES

DISCO BOY – CHOQUE ENTRE DOIS MUNDOS (Disco Boy)

Ok, que eu acabei vendo o filme numa crise alérgica que ajuda a promover o sono, ainda mais após um dia de trabalho, mas tenho a impressão que isso aqui é um soporífero. Ajuda também o fato de DISCO BOY – CHOQUE ENTRE DOIS MUNDOS (2023), de Giacomo Abbruzzese, ser um filme de imagens mais do que palavras (eu adoro palavras). Em alguns momentos isso até parece interessante, mas mesmo quando é interessante não tem um poder de mistério, de emoção ou de perturbação que pudesse provocar meu interesse. Na hora que terminou, inclusive, até considerei o filme uma espécie de pegadinha de mau gosto, até por usar os personagens africanos de maneira muito folclórica ou exótica e um tanto deslocados da trama em Paris. Quem sabe eu revejo num dia melhor e passo a apreciá-lo um pouco mais. Por enquanto, a impressão que ficou não foi feliz.

FOGO-FÁTUO

Tenho achado interessante essa nova leva de filmes homoeróticos, de como eles têm se mostrado ousados na explicitação de sua sexualidade, como se os realizadores gays estivessem finalmente aproveitando a liberdade que há tanto tempo lhes fora negada, como manifestação proibida ou mesmo criminosa, em certos países. Em FOGO-FÁTUO (2022), João Pedro Rodrigues faz uma espécie de musical sobre o desejo entre um príncipe franzino que deseja ser bombeiro e um outro rapaz, negro e musculoso, da corporação. Acredito que há coisas que só serão compreendidas de fato por quem tem a mesma orientação sexual dos personagens. Refiro-me a compreender no sentido de sentir, mais do que uma compreensão distante, racional. Mesmo para quem acompanha à distância, por assim dizer, é possível ver o belo trabalho de construção visual do diretor, especialmente nos interiores. Falando em distância, não sei se seria possível, no auge da pandemia, fazer uma cena como a de uma revelação de morte por Covid, presente no filme, dada a ambiguidade entre o drama e a comédia da proposta.

terça-feira, agosto 08, 2023

PARCEIROS DA NOITE (Cruising)



E ontem foi a vez de deixar este plano de existência um dos mais importantes cineastas da Nova Hollywood, William Friedkin. Controverso e com uma carreira irregular, mas muito interessante e intrigante, Friedkin teve seu auge de popularidade no início dos anos 1970, com OPERAÇÃO FRANÇA (1971) e O EXORCISTA (1973), mas não deixou de fazer grandes obras, ao contrário do que muitos dizem, ao trazerem para ele uma espécie de maldição de seu filme de 73. Destacam-se também O COMBOIO DO MEDO (1977), VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (1985), POSSUÍDOS (2006) e seu grande comeback KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (2011). Sem falar em outras obras que merecem atenção, certamente. Até filme inédito a estrear em Veneza neste ano ele tem ainda, THE CAINE MUTINY COURT-MARTIAL. Ou seja, mesmo doente e com quase 88 anos de idade, Friedkin ainda estava ativo e até tinha outros projetos em andamento.

O filme que escolhi para homenageá-lo foi o controverso PARCEIROS DA NOITE (1980), estrelado por Al Pacino. Mas antes de falar do filme, acho interessante falar um pouco sobre a importância da mídia física. Às vezes a gente pensa que a mídia DVD está morta e que o melhor é mesmo ir à caça de cópias em 1080p ou 720p, mas a gente pode se enganar bastante. Claro que a gente quer ver o filme na melhor cópia possível, mas, por incrível que pareça, a cópia em DVD deste filme está tão boa quanto a de 720p disponível pela internet.

E há outra coisa que faz a diferença: não é a primeira vez que desisto da cópia de qualidade de imagem melhor por causa de legendas ruins, seja de tradução, seja do tempo delas na tela. Aconteceu recentemente quando parei para rever A MORTE NUM BEIJO em 1080p e desisti por causa das legendas péssimas. E aconteceu com PARCEIROS DA NOITE. No caso deste segundo, a qualidade da imagem do DVD se destaca positivamente. Então, quem puder prestigiar a mídia física, faça. Afinal, ainda que um filme como este do Friedkin esteja disponível para aluguel, quem garante que a versão é a restaurada em 4K de 2019? Além do mais, o box (Cinema Policial – Anos 80) ainda traz dois documentários de mais duas horas dirigidos por Laurent Bouzereau, um cara que virou sinônimo de qualidade de extras. 

Os documentários nos trazem informações muito importantes para compreendermos o contexto em que o filme foi feito, como o fato de as filmagens serem constantemente atrapalhadas por militantes gays desde o anúncio de seu lançamento. Era de fato um problema apresentar uma parte da cultura gay nova-iorquina associada a assassinatos e a violência e foi um martírio que o cineasta enfrentou bravamente ao longo de toda a jornada, sem transparecer perturbação para a equipe técnica e elenco.

As críticas à época não foram positivas, mas hoje, passadas décadas, é um filme que tem muito mais apoio, muito mais apreciadores. O herói do filme, vivido por Al Pacino, é representativo do tipo de herói visto nas obras do realizador. Como é comum nos filmes de Friedkin, inicialmente somos levados a uma identificação com o herói para, em seguida, nos distanciarmos dele. O momento mais simbólico disso no filme é a última imagem que vemos de Pacino, quebrando a quarta parede e olhando para o público, e causando desconforto.

Muitas cenas são deliberadamente confusas, como uma das últimas em que vemos um homem de roupa de couro entrando à distância num armazém. Poderia ser o personagem de Pacino, poderia ser um dos outros homens apresentados. A noite confunde. Há uma cena de violência que é bem gráfica e perturbadora: a do esfaqueamento na cama, que tem uma carga emotiva que as demais não têm. É possível sentir a aflição e o desespero que daquele homem. (E eu confesso que me lembrei de um amigo que morreu assassinado em circunstâncias mais ou menos parecidas, pelo menos no que se refere a estar amarrado e estar consciente de que seria assassinado.)

Ao que parece, Friedkin optou por um tipo de violência menos gráfica nas demais cenas de mortes para tornar a obra um pouco mais aceita nos cinemas, ainda que recebendo classificação para adultos (Rated R - NC-17). Uma coisa que me incomodou, a princípio, foi o fato de o policial infiltrado de Pacino não transar com nenhum dos homens do clube de sadomasoquismo. É exatamente o contrário do que espiões ou policiais infiltrados fazem: procuram se tornar parte do ambiente, a ponto de usarem drogas quando necessário. Mas existe também a possibilidade de ter acontecido e não vemos.

E isso talvez justifique um pouco o tom atormentado do personagem sempre que ele vai para a cama com a namorada (Karen Allen). De todo modo, é justamente o tom de incerteza que acaba tornando o filme um dos melhores de Friedkin. Afinal, não sabemos quem é o assassino, não sabemos se os policias agressores de travestis do início do filme são policias de verdade ou não; não sabemos se há relação de fato entre as vítimas mortas com esfaqueamento e a vítima esquartejada. E o filme não tem a intenção de deixar nada claro. 

+ DOIS FILMES

ÂNSIA (Thirst)

Gosto mais do primeiro terço, quando Kate (Chantal Contouri) se vê presa naquela irmandade de vampiros que a sequestra, sendo ela, supostamente, descendente da lendária Condessa de Bathory. O filme destaca o laboratório e a fazenda onde é produzido o "leite" e onde o "rebanho" é alimentado. ÂNSIA (1979), de Rod Hardy, faz parte de uma série de filmes produzidos pela mesma companhia australiana do mais famoso PATRICK, lançado no ano anterior. A lógica de atrair o público é semelhante à usada em vários filmes de gênero italianos: contratar atores e atrizes conhecidos do público. Aqui temos David Hemmings como um vampiro mais solidário e Henry Silva como um dos homens mais agressivos do grupo. Um bom filme. Visto no box Vampiros no Cinema 6.

SHAKMA - A FÚRIA ASSASSINA (Shakma)

No começo de SHAKMA - A FÚRIA ASSASSINA (1990), de Hugh Parks e Tom Logan, confesso que me deu um pouco de preguiça, pois é claramente um filme com pouco esmero na construção dos personagens e dos diálogos e há um joguinho que a turma do hospital cria para a noite, cujas regras acabam ficando pouco claras. Mas o jogo é apenas uma desculpa para que os personagens fiquem sozinhos e à mercê do babuíno enlouquecido por causa de um experimento científico. Em determinado momento, porém, fiquei empolgado, e há uma personagem por quem torci bastante, a Kim (Ari Meyers), embora o protagonista seja Sam (Christopher Atkins, A LAGOA AZUL). Fiquei impressionado com a atuação do babuíno quando está disposto a matar quem vir pela frente. Soube que o babuíno é o mesmo usado em A MOSCA, de David Cronenberg, mas é aqui seu grande papel, ele é o grande astro do filme, sem dúvida. SHAKMA foi sucesso no Cine Trash, da Band. Se de fato o filme passou à tarde, acho admirável, já que se trata de um terror/suspense bem sangrento, com lógica de slasher. É ruim, mas é bom. Visto no box Obras-Primas do Terror 19.

sábado, agosto 05, 2023

BARBIE



Agosto chegou e com ele o retorno às atividades normais, às aulas na escola, depois do ótimo período de viagens e de socialização e relax nas férias de julho. Mas a única coisa que lamento, na verdade, é minha saúde. Não que ter problemas alérgicos quase todos os dias seja algo muito grave (muita gente tem), mas me deixa triste sentir essa sonolência, essa mudança de temperatura brusca no corpo, e essa falta de ânimo provocada pela garganta que parece estar quase sempre inflamada (ou algo assim). Isso tem influenciado praticamente tudo na minha vida: meu trabalho, minhas relações mais próximas e até meus prazeres estéticos, como ver filmes e ler livros e quadrinhos. Mas vivamos um dia de cada vez, sabendo que isso é passageiro, embora, infelizmente, esse tipo de problema surja com uma frequência muito maior do que eu gostaria.

Outra coisa que eu gosto muito de fazer, mas que não consegui nos últimos dias foi escrever para o blog. A última postagem foi sobre as viagens, mas o último filme comentado foi há quase 15 dias! Raramente passo tanto tempo assim sem postar sobre os filmes vistos de maneira um pouquinho mais aprofundada que o parágrafo que sempre escrevo para cada filme visto, no calor do momento, sem pesquisar e sem pensar muito. Então, levando em consideração a quantidade já grande de filmes vistos e não comentados, só me resta escolher um. E hoje escolho BARBIE (2023), de Greta Gerwig, o grande filme-evento do ano.

Acho que jamais passou pela cabeça de Gerwig que BARBIE seria esse fenômeno incrível de popularidade, uma verdadeira febre impulsionada por um marketing da própria Warner e dos entusiasmados pelo filme, antes mesmo dele estrear, e em estratégias de propaganda muito agressivas, como encher o Google de cor-de-rosa ou investir em caixas de boneca grandes paras as pessoas tirarem fotos de si mesmas dentro delas, de preferência vestidas com a cor predominante do filme. Quanto à bilheteria, BARBIE está se aproximando rapidinho de 1 bilhão de dólares – por enquanto, o único a passar essa marca em 2023 foi SUPER MAIOR BROS. – O FILME.

Por mais que seja uma obra que atingiu uma popularidade imensa – não lembro de ver algo parecido, em termos de publicidade, adesão e discussão –, para quem acompanha a carreira da diretora, atriz e roteirista, o filme representa uma continuação das discussões que LADY BIRD – A HORA DE VOAR (2017) e ADORÁVEIS MULHERES (2019) trouxeram. Do primeiro, há uma bonita questão envolvendo a relação mãe e filha; do segundo, há a discussão sobre ser mulher num mundo de homens. E Gerwig faz isso com muita inteligência e sensibilidade, às vezes até alfinetando levemente coisas que a própria Mattel (empresa da boneca Barbie) trouxe de negativo para a cultura e para a sociedade. Mas o filme passa rapidamente por isso e se concentra na jornada de uma Barbie perfeita (a chamada Barbie Estereotipada), vivida por Margot Robbie (radiante, como sempre), ao fazer questionamentos sobre a morte e passar pela experiência de visita ao mundo real.

Adoro a fala final da protagonista, que tem uma força feminina (e feminista?) incrível; gosto muito de todas as cenas de descoberta do mundo real de Barbie e Ken, da conscientização dos sentimentos e daquela conversa rápida com uma senhora num banco de praça – “você é tão linda!”, em vez de “por que você é diferente?”. E tudo isso dentro de uma dramaturgia quase anti-naturalista, que causa graça e estranhamento. Em alguns momentos, me fez lembrar o cinema de Wes Anderson, cineasta contemporâneo de Noah Baumbach, e atual companheiro de Gerwig. Tanto que esse estranhamento pode atrapalhar um pouco os momentos de riso da plateia. Mas não dá para não admirar o senso de humor, que mescla o bobo com o espirituoso.

Ou seja, por mais que o filme seja sobre um produto de mercado que apresente uma visão não-realista da mulher, e por mais que existam também bonecas mais diversas, inclusive Barbies gordinhas e Barbies cadeirantes (ambas apresentadas no filme), a diretora usa isso a seu favor, usa isso para a construção de sua trama, que apresenta essa personagem perfeita, vivendo num mundo “perfeito” e irreal, que se vê diante da realidade. Há uma cena que brinca, inclusive, com MATRIX, quando a protagonista é obrigada a optar entre a pílula vermelha ou a azul. Aliás, entre um sapato de salto alto ou uma sandália Birkenstock. Só que aqui a heroína não tem exatamente uma escolha, o que é outro elemento desconcertante desse tipo de jornada do herói.

BARBIE conseguiu ir muito além das discussões sobre a efetividade do filme, enquanto obra fílmica. O filme de Gerwig trouxe o universo feminino (de bonecas) de maneira extremamente bem-sucedida, dentro de uma estrutura que, até então, privilegiava o universo masculino – caso dos filmes de super-heróis, vindos de uma indústria que hoje em dia tenta se desvencilhar de uma cultura tradicionalmente machista. Também se viu como uma vitória o fato de que temos a maior estreia de um filme dirigido por uma mulher – até então, quem ocupava essa posição era CAPITÃ MARVEL, codirigido por Anna Boden.

Em contrapartida, BARBIE também vem trazendo questões sobre o poder do império das megacorporações americanas (casos da Warner e da Mattel), ainda que, em tempos de fracassos gigantes de bilheteria e previsões apocalípticas da morte do cinema, o filme tenha sido visto com um olhar mais carinhoso por boa parte dos cinéfilos, mesmo os mais críticos a esse tipo de dominação predatória. (Mas uma pergunta talvez pessimista: quanto do público de BARBIE vai voltar aos cinemas para ver outros filmes?) 

Enfim, as discussões que o filme vem trazendo são tantas que é admirável uma obra de apelo tão pop ser capaz de tal feito. Inclusive, alguns grupos de extrema direita têm odiado o filme, por causa de uma suposta (?) ridicularização da masculinidade, na representação dos personagens Kens, principalmente o Ken principal. Porém, mesmo que seja verdade, nada mais justo, se pensarmos nos séculos de humilhação das mulheres pelos homens, flagelados em diversas obras literárias e cinematográficas. Isso sem falar na influência das religiões monoteístas na cultura ocidental.

Bem que eu gostaria de ter escrito sobre o filme no dia imediatamente seguinte, mas, como não deu, saiu esse texto falando muito pouco da trama e das escolhas estéticas da diretora. Mas não deixa de ser um ponto positivo, já que temos aqui uma obra que tem muito a dizer e muito a provocar.

+ DOIS FILMES

CANÇÃO AO LONGE

Senti falta de me conectar melhor com o drama da protagonista, uma jovem que nunca conheceu o pai e que está passando por um processo de mudança em sua vida. Para isso, sair da casa da mãe se apresenta como um importante passo. Adorei o tom granulado da fotografia de Ivo Lopes Araújo e há algumas passagens musicais que são a cara de Caetano Gotardo (um dos roteiristas). Mas CANÇÃO AO LONGE (2022) dá a impressão de ser um projeto bem pessoal de Clarissa Campolina, em sua estreia na direção solo de longas-metragens, após a experimentação narrativa de ENQUANTO ESTAMOS AQUI (2019), codirigido por Luiz Pretti.

DOMINGO DESPERDIÇADO (Zabità Nedele)

Um desses filmes que me enchem de perguntas. Na verdade, me faltavam, e ainda me faltam, informações sobre as circunstâncias de sua realização e a história da obra em si, que foi confiscada pelo regime da época em 1969 e só foi lançado em 1990. É possível entender os motivos, já que a diretora faz várias provocações: principalmente aos militares e às autoridades, que são, com frequência, ridicularizados. Melhor exemplo são as cenas envolvendo as duas garotas que tomam banho de sol de topless perto do quartel. Há também inúmeras alfinetadas com a própria censura e um tipo de humor que pode ser melhor compreendido quando sabemos da história política do país. No mais, DOMINGO DESPERDIÇADO, de Drahomíra Vihanová, é também carregado de um tipo de melancolia pesada, já que o protagonista simpatiza com a ideia do suicídio durante boa parte do filme. O pior: sendo ele uma pessoa pouco simpática ou gentil (com as mulheres, principalmente), não temos pelo personagem algum tipo de empatia. Trata-se de mais um exemplo de cinema que carrega o espírito da época. Os filmes produzidos em fins dos anos 1960 têm essa característica de rompimento com a forma e busca de experimentações na linguagem.

sexta-feira, julho 28, 2023

VIAGEM A ICARAÍ DE AMONTADA, BELO HORIZONTE E SÃO PAULO



Icaraí de Amontada, quarta a sexta-feira, 12 a 14 de julho

As viagens fazem um bem imenso ao nosso espírito. Nos três anos anteriores eu não viajei nas férias e senti muita falta. Neste mês, a temporada de viagens começou com um destino por aqui mesmo, no meu estado do Ceará, um verdadeiro paraíso na Terra chamado Icaraí de Amontada. Passei três dias e duas noites com minha namorada, Giselle, uma pessoa que, se não foi mencionada nominalmente em postagens mais antigas do blog, certamente foi mencionada de outra maneira, diversas vezes, até.

Já é a terceira viagem que faço com ela desde nosso retorno (a gente havia namorado no período de 1999-2001) e cada viagem com ela é melhor que a anterior. Uma alegria imensa estar a seu lado e, como ela tem espírito aventureiro, escolher, por exemplo, uma pousada ao mesmo tempo rústica e delicada (Chill Kite), localizada num terreno cheio de pequenos morrinhos em ruas apertadas, é algo que eu não faria sozinho, mas adorei ter feito e me sentido tão bem em todos os dias e em todos os lugares em que estivemos. Teve passeio à noite na praia, refeições saborosas, passeio de buggy e passeio de barco no túnel do amor, o manguezal mais bonito do mundo, no Rio Aracatiaçu. Bom demais!

Belo Horizonte

Terça-feira, 18 de julho

Belo Horizonte era uma cidade que até então eu não havia tido o prazer de visitar. Graças à querida Andrea Ormond (blog Estranho Encontro), fui convidado a mediar um debate com o diretor de CANASTRA SUJA, Caio Sóh, um dos filmes presentes na Mostra Curta Circuito (além de escrever um ensaio sobre o filme para o catálogo). O tema da Curta Circuito deste ano foi “Amores Brasileiros” e o trabalho dos organizadores é feito com tanto carinho que não tem como não ficar ótimo – Daniela Fernandes é genial, como pude ver no cuidado e na originalidade em vários catálogos de mostras passadas que ela me presenteou.

O diretor do filme não pôde ir na noite da exibição, e o querido amigo Renato Silveira (Cinematório, podcast da Abraccine) ficou comigo no debate após a sessão no Cine Humberto Mauro, um espaço muito gostoso, com excelente projeção. O debate transcorreu em paz, apesar do meu nervosismo e das questões problemáticas que o filme acabou atraindo e suscitando um pouco de polêmica. O ruim do nervosismo é que ele atropelou falas que eu poderia ter dito, mas ao mesmo tempo pode ter contribuído para uma maior espontaneidade.

Fico muito feliz e grato pela recepção calorosa de Daniela, a diretora da mostra, e de Cláudio Constantino, o produtor executivo. Tive o prazer de almoçar com eles e de conversar sobre cinema, políticas culturais e histórias da mostra. À noite, antes do filme começar, tive a honra de encontrar pessoalmente Adilson Marcelino (site Mulheres do Cinema Brasileiro), um dos amigos que há mais tempo conheço, desde a época do boom dos blogs de cinema, na primeira metade dos anos 2000, o momento que mais fiz amigos pelo Brasil. Adilson esteve em praticamente todas as sessões da mostra, desde maio.

Antes da sessão do filme, entrei na tenda de uma cartomante (faz parte das atrações do evento deste ano), conheci Kel Gomes, crítica do Cinematório, junto com Renato Silveira, seu marido. E Kel é uma simpatia. Após o final da sessão e do debate, fomos (Daniela, Cláudio, Adilson, Renato, Kel e eu) jantar e conversar mais sobre cinema e questões sociais que o filme acabou trazendo.



Quarta-feira, 19 de julho


No dia seguinte, fui aproveitar meu tempo em Minas para conhecer o maior museu de arte em céu aberto do mundo, num espaço natural deslumbrante. Tinha ouvido falar de Inhotim (localizado em Brumadinho-MG) pela primeira vez através da Fernanda Takai, que gravou o show da turnê de Na Medida do Impossível nesse espaço. O lugar é tão imenso e tão deslumbrante do ponto de vista da natureza, que até as excelentes obras de arte espalhadas por vários espaços ficam pequenas diante das belezas naturais. É um lugar que requer muita caminhada pelas trilhas, mas isso faz parte da graça do passeio. Ao fim do dia, meu encontro com Paulo Henrique da Silva (jornal O Tempo) acabou não dando certo, mas eu estava tão cansado do passeio em Inhotim, que acabei indo dormir mais cedo mesmo.

São Paulo

Quinta-feira, 20 de julho

Já ansiava por um retorno a São Paulo há um tempinho. Havia ido pela última vez em julho de 2019. Quatro anos longe da cidade que mais gosto é muito tempo. A ida a BH programada em data já especificada tornou a escolha da data em Sampa mais fácil. Foi uma viagem um pouco mais rápida, mas acredito que foi na medida para encontrar amigos queridos, visitar espaços já conhecidos e outros novos, ver filmes nos cinemas de lá, andar pela Paulista, virar formiguinha no metrô etc.

Fiquei hospedado na casa do amigo Chico Fireman (Filmes do Chico, podcast Cinema na Varanda) pela segunda vez. A primeira foi em 2016, quando estive em Sampa por ocasião do casamento de Michel Simões e Cris Lumi. A localização da casa dele é ótima, pois fica bem em frente à estação de metrô Santa Cecília, facilitando e muito meu deslocamento para diversos lugares da cidade. A sensação de sair de casa naquele frio, rumo a um novo dia na maior metrópole do Brasil, não tem preço.

Uma das coisas que havia combinado com alguma antecedência era a sessão de OPPENHEIMER, com Michel e Cris, na sala IMAX do Cinépolis Iguatemi JK. Eu diria que é a maior e melhor sala a que eu já fui, com todas os assentos pensados para proporcionar conforto para os espectadores, além de excelente qualidade de imagem e som. Depois do filme, que entrou na coluna dos títulos de Christopher Nolan que me agradaram, fomos jantar num restaurante árabe muito bacana no shopping, o Almanara. Michel e Cris ainda foram para a sessão de BARBIE, às 11 da noite, mas eu voltei para casa – quis ver o filme de Greta Gerwig depois, com o corpo mais descansado.

Sexta-feira, 21 de julho

O que havia programado na noite de sexta-feira era um encontro com uma turma de amigos queridos que faço questão de sempre ver nas minhas idas a Sampa. Como eles costumam dizer, eles raramente combinam de se encontrar e acabo tendo a função de agregador desses reencontros memoráveis. Infelizmente, Laura Cánepa e Leandro Caraça não puderam comparecer, por motivos de força maior. Minha amiga Erika Bataglia também foi acometida por uma forte gripe e teve que desmarcar a ida.

Mas antes do encontro à noite, fui passear pela Paulista e saí para ver BARBIE na primeira sessão disponível. É incrível o trabalho de marketing desse filme, feito pela Warner, mas também pelas próprias pessoas nas redes sociais e nas ruas. Eu sinceramente, nunca vi nada igual. Nem na época de BATMAN ou de TITANIC, eu diria, em termos de exposição nas mídias, de divulgação boca a boca e nas próprias vestimentas. No caminho para o cinema, por exemplo, um dos carros do metrô da linha amarela estava rodeado de propaganda do filme, com muita gente pedindo espaço para tirar fotos com o metrô em movimento.

Felizmente, a sala onde vi o filme, no Reserva Cultural, foi uma das poucas que não lotou, e pude comprar ingresso com tranquilidade, apesar de achar que a projeção poderia fazer mais jus à qualidade da fotografia. Ainda assim, foi uma obra que me encantou em muitos aspectos, e ainda quero parar para escrever sobre o filme mais atentamente, aqui para o blog. Até agora não tive tempo, nem energia para tal. Após o filme, acabei comprando, na livraria do Reserva, o box em BluRay Carpenter Essencial (contendo os filmes O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, A BRUMA ASSASSINA e CHRISTINE, O CARRO ASSASSINO), que está fora de catálogo e esgotado no site da Versátil e na Amazon. Comprei mais caro, claro, mas no dia seguinte acabei vendo numa banca por um preço bem maior.

Depois de almoçar lá pela Paulista mesmo, fui dar uma passada numa loja de CDs da Rua Augusta. Imagino que lá é um dos poucos espaços vivos de venda de CDs e DVDs no Brasil, a Augusta Discos. Tinha a missão de buscar um disco do Nick Cave para meu amigo Walker Jr. (e só encontrei um, o Let Love In). Alguns discos são muitos caros, especialmente os importados, e dos quatro que peguei pra mim, acabei levando apenas dois, o MTV Unplugged in New York, do Nirvana, que me haviam roubado, e o Elephant, dos White Stripes. Se tivesse mais tempo disponível, certamente sairia de lá com mais coisas, mas tinha um encontro marcado com uma turma bacana.

Marcelo V. e Ana Paul confirmaram o encontro no bar Esquina Grill do Fuad, ali pertinho de onde eu estava hospedado também. Cheguei lá e os dois lá estavam. Marcelo e Ana são pessoas especiais para mim. Sempre que vou a São Paulo, faço questão de vê-los pelo menos uma vez. Quanto ao bar, o problema era que o espaço estava com música ao vivo alta, mal dando para ouvir a nossa voz. Então, ficamos aguardando os demais chegarem para procurarmos outro bar mais calmo, ou pelo menos calmo o suficiente para que nos ouvíssemos. O querido Gabriel Carneiro, cineasta, romancista e crítico de cinema, também chega para trazer mais alegria ao encontro.

Em seguida, chegam Edu Fernandes (VIUU) e Gustavo Cavinato. O Edu, eu conheci melhor quando estive em dezembro do ano passado no Fest Aruanda, em João Pessoa. Tivemos a oportunidade de conversar bastante e de encontrarmos muitos pontos em comum em nossa maneira de ver a vida. Já o Gustavo, eu o conheci na época que entrei na lista Cannibal Holocaust, em 2001, e o vi pela última vez, pessoalmente, no aniversário do Thomaz Albornoz, lá em 2007. Já fazia um bom tempo. Chegam Michel e Cris, os últimos que faltavam da turma. De lá fomos para um bar que o Edu conhecia, vizinho à sua casa, o Lola Bar, na Barra Funda, um espaço muito bacana, aconchegante e com música boa.

Acho que eu ainda estava um pouco atordoado pela rapidez de ambientações (de Minas para São Paulo em pouco tempo), mas foi uma alegria poder estar novamente perto de gente que aprecio. Quem estava tomando umas cervejas, em determinado momento, já estava mais alegre (que injustiça, pois minha cerveja era sem álcool) e até capturei um registro muito feliz da minha aquisição do livro de Gabriel Carneiro, o romance de ficção científica Olhando para as Estrelas Só Vejo o Passado (foto by Marcelo). Na volta para casa, Marcelo e Ana voltaram a pé comigo pela noite não tão escura daquele espaço de São Paulo que infelizmente é um retrato de um país cheio de desigualdade. Enquanto muitos vivem no luxo e na riqueza, muitos estão nas ruas, sem dignidade.



Sábado, 22 de julho

No dia seguinte, havia confirmado almoço com uma turma legal, membros de um grupo da internet que participo desde 2020. Nem todo mundo do grupo estava lá, mas as pessoas que mais estavam dispostas a ir, e que fizeram acontecer o encontro, Alysson Oliveira (CineWeb, Carta Capital) e Márcia Schmidt, me receberam com tanto carinho que quero ser amigo deles para sempre. Juntou-se a nós o Chico, que havia ficado enrolado no apartamento com a gravação do Cinema na Varanda. O restaurante é o vietnamita Bia Hoi SP, que fica pertinho de onde fiquei hospedado. Adorei! Consegui chegar lá a pé, em menos de 15 minutos, o que me agradou muito, apesar da tristeza de ver São Paulo tão cheia de moradores de rua. Os efeitos da pandemia e das políticas atuais do governo do estado e da prefeitura para essas pessoas que perderam tudo foram devastadores.  Ganhei do Alysson um box do filme A MELHOR JUVENTUDE, de Marco Tullio Giordana, e da Márcia, um cartão postal lindíssimo do Utogawa Hiroshige. 

Após o almoço, fomos procurar lojas de doces e cafés. Acabamos “alugando” um café (eu comprei um bolo de fubá numa lojinha vizinha) para falarmos com muito prazer e alegria sobre o nosso assunto favorito, o cinema. E sobre o futuro do cinema, sobre a nova geração de realizadores que seguirão a difícil tarefa de ser tão bons quanto seus antecessores, sobre a possibilidade de não termos mais ninguém tão genial quanto os mestres do século XX.

Depois do café e de muita conversa, demos um passeio pela área do Centro, indo parar na Galeria do Rock, um espaço que preciso voltar e ver com calma noutras vezes. Ao menos pude comprar duas camisetas com estampas de bandas que adoro, Smashing Pumpkins e Portishead. Engraçado que a Márcia já sabia que as lojas de camisetas eram divididas em tribos, e perguntou se eu gostava mais de metal, falei que gostava mais de banda indie. Aí já ficou mais fácil direcionar.

Depois de nos despedirmos, fui no caminho da Avenida Paulista. Na falta de outros títulos mais interessantes, ou inéditos, ou que não estivessem em cartaz em Fortaleza, optei por O CRIME É MEU, o novo trabalho de François Ozon. Até porque eu acho aquele espaço ali da Paulista tão central e tão familiar que me sinto mais tranquilo, embora eu ache que as projeções de lá merecem uma boa manutenção. Não estava tão boa assim a projeção do Ozon, hein. Esse pessoal que mantém os cinemas mais alternativos precisa perceber a importância que tem e o fato de que lida com um público mais exigente que o dos cinemas de shopping. Isso vale para o Reserva, mas o caso do Belas Artes é ainda mais gritante. Falo isso como alguém que pretende voltar a esses dois espaços na próxima ida a São Paulo. Depois do filme, fui jantar num shopping lá na Paulista.

Domingo, 23 de julho

Para o domingo, eu havia combinado com o Michel de irmos à peça Misery, baseada no romance de Stephen King, e estrelada por Mel Lisboa e Marcello Airoldi. Antes disso, porém, fui ao Petra Belas Artes para ver um filme. CAPITU E O CAPÍTULO, de Júlio Bressane, estava passando em algumas sessões de pré-estreia. Como o filme é curtinho, cabia na programação. Saí do cinema louco para, não apenas reler Dom Casmurro, como também me esbaldar em mais cultura, em mais literatura, em mais arte, o que requer mais estudo e tempo livre. Infelizmente essa realidade está cada vez mais distante, seja pelo trabalho que nos consome tempo e energia, sejam pelas redes sociais e o celular, que nos tiram o foco. Ah, e na saída do cinema acabei encontrando na Paulista o Francisco Carbone (Cenas de Cinema). Um encontro inesperado e muito legal.

Depois do Bressane, fui tomar um café, escrevi um textinho básico sobre o filme e fui encontrar o Michel no Teatro Tuca, um espaço que não conhecia. Trata-se de um teatro grande. O grande chamariz da peça pra mim foi Mel Lisboa, de quem sou admirador desde o começo do novo século, sem falar que ela teve uma função importante durante o primeiro ano da pandemia pra mim, com o projeto de leitura de grandes contos da literatura brasileira. Outro atrativo do filme é a própria trama, mais conhecida pela adaptação cinematográfica de Rob Reiner, LOUCA OBSESSÃO, que rendeu um Oscar a Kathy Bates. Inclusive, no pôster de divulgação lá no teatro havia foto de Bates e de James Caan, para, provavelmente, lembrar ao público que é aquela história marcante de cativeiro que será contada.

Na trama, um escritor de sucesso popular sofre um acidente de automóvel e é socorrido por uma mulher que diz ser enfermeira. Em vez de ser levado para um hospital, ela fica cuidando dele. Não demora muito para ele perceber que está sendo feito de prisioneiro dela, sem poder sair, com as duas pernas quebradas. Além do mais, ela é uma fanática pelo trabalho dele, principalmente de um trabalho em série que tem uma personagem feminina chamada Misery. A cena mais chocante no filme (a da marreta) tem impacto no teatro também e a produção é incrível, com o palco giratório para trazer dinamismo para a trama, além de utilização de vídeos. A peça dura mais de duas horas e acho incrível quem consegue trabalhar nesse esquema de exibição para o público várias vezes. Sei que para o ator o teatro é o grande lugar para estar, mas o trabalho deve ser muito intenso.

Depois da peça, fui com o Michel encontrar o Chico, que estava na Cinemateca Brasileira. O espaço passou por uma reforma e está com um novo curador, o cineasta Paulo Sacramento, que tem feito um excelente trabalho. Fui à Cinemateca para ver um dos seis filmes da pequena mostra sobre cinema tcheco, ou melhor, sobre a nouvelle vague tcheca. O filme visto foi DOMINGO DESPERDIÇADO, da diretora Drahomira Vihanová, uma obra que foi censurada em 1969 pelo regime autoritário e que só foi liberada em 1990. Vendo o filme é possível entender os motivos.

Segunda-feira, 24 de julho

No meu último dia em Sampa, entrei em contato com meu amigo Eduardo Aguilar, cineasta e professor, outra pessoa que conheço de nome desde a sessão de cartas das colunas do Carlão (no ZAZ/Terra e no Cineclick) e depois na lista da Canibal. Quase sempre (ou seria sempre?) saio para conversar com ele e é um prazer o nosso bate-papo. Desta vez, combinamos de ver o novo filme de Hirokazu Koreeda, BROKER – UMA NOVA CHANCE. Como sei que ele curte dramas familiares, como um bom canceriano que é (nasceu também no dia 7 de julho, como eu), Koreeda pareceu de fato uma boa pedida. Depois do café antes do filme, teve café depois do filme, que é o que mais importava, pois seria o café do bate-papo mais demorado. Conversamos sobre coisas da vida, mudanças, reencontros, obstáculos e sucessos. Pude conversar com o Aguilar coisas que não conversei com mais ninguém na viagem, mas também por ser uma conversa a dois, o que torna isso mais possível. O cinema de diretores como Brian De Palma e Mario Monicelli não faltou no papo, assim como a questão em torno das interpretações de atores orientais, impulsionada pelo prêmio de Song Kang-ho em Cannes. O bate-papo tinha um horário para acabar, pois havia marcado um jantar com a turma do Cinema na Varanda.

E assim como acontece em filmes de ação e espionagem, posso pular os meios de transporte (metrô e uber) e ir direto para o restaurante Insalata, no Jardim Paulista. Senti falta da Alessandra Marucci, mas estar junto com os quatro varandeiros foi muito bom. Até porque acho que eles (Chico, Michel, Tiago e Cris) estavam leves com a decisão de terem finalizado o podcast, apesar do carinho claramente perceptível nos mais de sete anos dedicados a falar de cinema via áudio. Eu sou/fui um assíduo ouvinte, tendo ouvido todos os episódios, tendo passado momentos de raiva e de alegria, nas discussões deles. E ainda tive a sorte de estar presente como convidado em duas ocasiões: na época do lançamento de AQUARIUS, em 2016, e de HOMEM-ARANHA – LONGE DE CASA, de 2019. Sem falar nas aberturas para participar em áudio em um par de ocasiões, e de ter um quadro no programa, o Varandeiro do Zodíaco, que foi mais uma experiência, nem sempre bem-sucedida, mas levada até o fim, graças principalmente ao carinho da turma.

Durante o jantar, o papo estava tão bom que eu lamentei quando chegou a hora de ir embora. Por mim, ficaríamos mais um bom tempo. Conversamos sobre a antiga disputa por audiência entre Globo e SBT, em comparação com o momento atual, com a Rede Record na vice-liderança, sobre lembranças de programas de televisão, inclusive sobre o tempo em que não tínhamos acesso sobre em quais temporadas estavam as séries exibidas na TV aberta, enfim, sobre um monte de coisas que surgiram de maneira leve, sem pauta, e que rendeu muitas risadas. Uma honra e uma alegria estar com essa turma.

Depois disso, chegou a hora de enfiar as roupas nas malas para me preparar para voltar para casa no dia seguinte. Já deixo registrado aqui meu agradecimento ao Chico, pela hospedagem nesses dias, e a todos os amigos que pude e que não pude encontrar em São Paulo e Belo Horizonte. Seguiremos unidos pelo cinema por muitos anos.

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segunda-feira, julho 17, 2023

MISSÃO: IMPOSSÍVEL – ACERTO DE CONTAS: PARTE UM (Mission: Impossible – Death Reckoning: Part One)



“That’s what I sleep with every night — the future of this fucking industry!”
(Tom Cruise)


Em dezembro de 2020, ainda na primeira onda da pandemia, a imprensa divulgou o grito de raiva de Tom Cruise acima. Ele ficou injuriado com membros da equipe de filmagem que violaram protocolos de segurança contra a covid-19, e sua bronca ganhou o mundo. Eram tempos difíceis e o astro e produtor estava muito preocupado com o futuro da indústria de cinema, que de fato não foi mais a mesma após o vírus. O próprio Cruise foi bastante elogiado no ano passado, chegando a ser chamado por muitos de salvador do cinema, graças ao sucesso de TOP GUN – MAVERICK. Agora, após verem amargar o fracasso retumbante de grandes produções no mês de junho (como THE FLASH, da Warner, e INDIANA JONES E A RELÍQUIA DO DESTINO, ELEMENTOS e A PEQUENA SEREIA, esses três da Disney), os grandes executivos estão de fato preocupados e essa preocupação respinga nas pequenas produções, inclusive aqui no Brasil.

Espera-se que neste mês de julho, com três grandes filmes dispostos a chamar a atenção da audiência, as coisas comecem a melhorar para a indústria de Hollywood e para os cinemas de todo o mundo. Os três filmes, MISSÃO: IMPOSSÍVEL – ACERTO DE CONTAS: PARTE UM (2023), de Christopher McQuarrie, OPPENHEIMER, de Christopher Nolan, e BARBIE, de Greta Gerwig, têm cheiro de salvação, mas o problema é que há um custo elevadíssimo na produção e no marketing, o que dificulta a recuperação dos gastos. A produção de Tom Cruise ainda teve o problema de ter parado as filmagens durante a segunda onda da covid.

Mas o mais impressionante é que, ao vermos o filme, esses problemas não transparecem. Ao contrário, o novo MISSÃO: IMPOSSÍVEL é um sucesso em todos os sentidos. Da produção às atuações, das cenas de ação eletrizantes aos diálogos bem escritos, da trilha sonora à direção de arte. Tenho dúvidas se é um filme de autor, mas na verdade isso pouco importa enquanto estamos testemunhando uma obra tão imersiva e tão vibrante, com a mão firme do produtor Tom Cruise, que agora usa de sua experiência com grandes autores nos anos 1990-2000 para ser o dono de seus próprios projetos, com sua equipe de artistas e técnicos favoritos. E ainda faz uma obra que reflete as preocupações do mundo contemporâneo: a ameaça da inteligência artificial, a invasão de privacidade nas redes sociais e a manipulação da verdade. Tudo isso num filme de espionagem e ação. Ou seja, é bem possível que ACERTO DE CONTAS: PARTE UM seja uma obra tão bem-sucedida quanto o primeiro MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996), dirigido por Brian De Palma.

Tom Cruise, com seu sorriso singular e senso de confiança que lhe é característico, além de ser o último grande astro remanescente, se tornou uma espécie de novo Buster Keaton, ou de novo Jackie Chan, no que se refere a fazer coisas incríveis no lugar dos dublês. Não bastou ter quebrado o tornozelo nas filmagens de MISSÃO: IMPOSSÍVEL – EFEITO FALLOUT (2018). Agora ele pula de motocicleta com um paraquedas do alto de uma montanha e filma tudo isso de modo a parecer o mais verdadeiro possível.

Saí da sessão pensando: “Que tempos são estes, em que, mesmo com uma crise gigante rolando em Hollywood, temos no mesmo ano JOHN WICK 4 – BABA YAGA e Missão: Impossível 7.1”? Em vários momentos do filme, tive um forte sentimento de gratidão por Tom Cruise estar se esforçando em trazer as pessoas de volta às salas de cinema, e com filmes de alto nível.

ACERTO DE CONTAS: PARTE UM é tão bom que chega a ser difícil imaginar que a parte 2 conseguirá atingir o mesmo grau de excelência. Christopher McQuarrie tem uma direção tão elegante, inclusive nas cenas de conversa entre os personagens, que é de dar gosto. Eis o motivo de Tom Cruise estar preferindo trabalhar com ele o tempo todo, desde JACK REACHER – O ÚLTIMO TIRO (2012). Além do mais, temos uma série de cenas de ação tão empolgantes e tão cheias de verdade que nem parece que estamos vivendo em tempos de invasão do CGI. Basta comparar com o mais recente INDIANA JONES e o filme do arqueólogo perde feio.

Os personagens parecem mesmo estar se equilibrando em cima de um trem desgovernado, as batidas nos carros nas ruas são de verdade, o inimigo parece de fato ameaçador, uma vez que compramos a ideia. E temos personagens carismáticos de sobra, tanto os já conhecidos (eu adoro Benji, Luther e principalmente Ilsa), quanto os novos. O grande acréscimo neste novo filme é o da britânica Hayley Atwell (CAPITÃO AMÉRICA – O PRIMEIRO VINGADOR), no papel de Grace, uma ladra que entra, sem querer, na briga de cachorro grande dos espiões ultrassecretos e de uma ameaça de dominação global, aqui representada por uma inteligência artificial capaz de antecipar os atos de qualquer pessoa, como um grande algoritmo. Como Grace não tem incríveis habilidades de luta (ou de informática), ela é o personagem mais próximo que temos do espectador, e isso é muito importante para que gere uma conexão com a audiência.

Algumas cenas antológicas: o jogo de gato e rato no aeroporto, as cenas de perseguição num FIAT pequeno nas ruas de Roma com Ethan e Grace algemados no carro, o encontro na festa (que conta com a primeira aparição de Vanessa Kirby e rende uma piscadela metalinguística deliciosa), a incrível cena de ação e suspense num beco estreitíssimo, o jogo dentro do trem aproveitando a tradição das máscaras da franquia, a luta pela sobrevivência no trem desgovernado. 

No mais, fiquei muito interessado no passado de Ethan, que é mostrado em pequenos flashes, e que traz um ar bem dramático à série, o suficiente para percebermos que ocorreu algo de muito traumático para o agente. Eu diria que MI 7.1 é um dos thrillers de ação mais próximos da perfeição que eu já tive o prazer de ver.

Vejam no cinema! E se possível numa sala IMAX, e na primeira semana, pois a partir de quinta-feira as salas serão ocupadas por OPPENHEIMER. O prazer e a adrenalina são garantidos.

Agradecimentos à Giselle pela incrível companhia, entusiasmo contagiante e carinho sem igual.

+ DOIS FILMES

INDIANA DE JONES E A RELÍQUIA DO DESTINO (Indiana Jones and the Dial of Destiny)

A indústria de cinema americana está precisando urgentemente se reinventar. Reciclar velhas fórmulas e velhos heróis ou franquias já não está mais sendo garantia de sucesso. E nem falo só de sucesso comercial, mas de se ter de fato uma obra que não fique tão à sombra dos originais, que carregue algo de singular a ponto de ser lembrada. O elemento mais singular de INDIANA DE JONES E A RELÍQUIA DO DESTINO (2023) é a presença de Phoebe Waller-Bridge, que meio que interpreta a si mesma, mas tem um brilho, uma energia e um carisma que ajudam a trama a andar, a fazer com que o herói aposentado saia de sua solidão e tristeza e aceite uma nova aventura. James Mangold, o novo diretor, não tem personalidade suficiente para tornar o novo filme tão atraente e empolgante quanto os anteriores (na verdade, pouco me recordo do quarto filme). Além do mais, há um excesso de CGI que faz parecer que tudo no filme seja irreal, tanto os corpos dos atores e atrizes, quanto veículos, como aviões, carros e trens. Harrison Ford está quase apático, mas sua presença talvez já bastasse, se o filme fosse bem conduzido ou melhor pensado. Além do mais, há a música insistente de John Williams que cansa num filme de mais de duas horas e meia.

SOBRENATURAL – A PORTA VERMELHA (Insidious - The Red Door)

Uma dica para quem ainda não viu SOBRENATURAL – A PORTA VERMELHA (2023): revejam os dois primeiros filmes da franquia. Como não revi, e como são filmes de 2010 e 2013, ou seja, já faz um tempinho, senti falta de uma memória fresca. Quem viu o segundo filme já sabe que esse universo de SOBRENATURAL tem uma narrativa contada com uso de hipertextos, uma das coisas que mais me fascinou no segundo, inclusive. Este quinto filme apresenta duas tramas contadas quase que de forma independente, mas que se cruzam, principalmente no final. Temos a história do personagem de Patrick Wilson, que agora vive só e com a família despedaçada, e do filho mais velho, o que ficou "em coma" lá no primeiro filme. Aqui ele já é um rapaz (Ty Simpkins) entrando na faculdade e com conflitos e rancores com o pai. É um filme que ganha alguma força com a boa lembrança dos anteriores e de seus personagens, mas que não traz nada de novo ou de verdadeiramente arrepiante nas cenas de medo. Há os jump scares meio manjados, mas que às vezes são eficientes, e o tom de narrativa clássica adotado por James Wan em seus primeiros filmes de maior sucesso – SOBRENATURAL e INVOCAÇÃO DO MAL podem ser confundidos por ambos contarem com a presença de Patrick Wilson, aqui estreando como diretor.

terça-feira, julho 11, 2023

PROFISSÃO: REPÓRTER / O PASSAGEIRO – PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter / The Passenger)



Algo que não ando com paciência atualmente de consumir dentre os extras de DVD e BluRay são os comentários em áudio. Para falar a verdade, eu conto nos dedos das mãos os comentários que ouvi/li que realmente achei prazerosos ou enriquecedores. O problema é que as pessoas responsáveis pela organização desses extras convidam pessoas que acabam não oferecendo muita informação relevante e o que vemos são, por exemplo, parte do elenco descrevendo cenas que já estamos vendo e às vezes ficando em silêncio porque não têm nada mais a dizer. Foram três os filmes que acabei desistindo de ver os comentários em áudio recentemente, mesmo já tendo passado de meia hora: UM DE NÓS MORRERÁ, com comentário do diretor Arthur Penn (até achei mais enriquecedor, na verdade, mas deu preguiça em determinado momento); ELES VIVEM, com comentário do diretor John Carpenter e do ator Roddy Piper; e este de PROFISSÃO: REPÓRTER (1975), de Michelangelo Antonioni, com comentários de Jack Nicholson.

Acredito que o próprio Antonioni, se estivesse vivo e com saúde, não toparia fazer esse tipo de coisa. Ele mesmo disse em entrevista que o papel do diretor é fazer o filme e não ter que explicar nada. Mas Nicholson tem uma ligação forte com o filme. Ele dizia que era o seu favorito, e chegou a comprar os direitos da obra, logo após seu lançamento nos cinemas. Isso fez com que O PASSAGEIRO (o título da mídia física no Brasil é “O Passageiro – Profissão Repórter”, enfatizando o título internacional mais que o italiano) ficasse fora de circulação até 2003, quando o ator entrou em negociações com a Sony para relançar a obra nos cinemas. Eu lembro que havia visto o filme em VHS, na aurora de minha cinefilia, sem compreender direito a trama ou sem entrar muito no clima.

Aí, escolhi este filme para 2023, assim como no ano passado havia aberto o ano com O DESERTO VERMELHO (1964), também de Antonioni. De certa forma, O PASSAGEIRO é até mais fácil de compreender e de acompanhar do que O DESERTO…, pois há um fiapo de trama, semelhante a um thriller convencional, mas que, Antonioni sendo Antonioni, acaba criando quase um anti-thriller, como já havia feito com BLOW-UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO (1966), possivelmente o meu favorito do cineasta, embora eu tenha muitas lacunas e revisões para fazer ainda de seus trabalhos.

Tanto O PASSAGEIRO quanto O DESERTO VERMELHO fazem parte de uma possível obsessão do cineasta por espaços desérticos – ele também usou o deserto em ZABRISKIE POINT (1970) – para a construção de uma paleta de cores bem própria. Antonioni tem um estilo de direção muito pensado, e por isso ele às vezes faz questão de fazer mudanças nas cores de uma determinada parede de um edifício de locação, por exemplo. Mas o grande momento dessa coreografia do diretor no filme é o famoso plano-sequência final, tão fantástico e que é uma dica e tanto para que o espectador pense e repense os significados, as motivações e as intenções do mestre da incomunicabilidade.

Há algo de muito enigmático na figura de David Locke (Jack Nicholson), um repórter que assume a identidade de um homem morto, sem saber que esse homem é um traficante de armas. É um tipo de situação que renderia uma boa comédia, aliás, mas há pouco espaço para o humor aqui. Ainda assim, eu diria que é uma situação que Nicholson já havia vivenciado de maneira diferente em CADA UM VIVE COMO QUER, de Bob Rafelson, que também trazia um protagonista que queria se desfazer de sua vida, se transformar em outra pessoa, e atua geralmente num estado de tédio frente à vida e às situações por que passa.

Como há muito silêncio, há espaço para que o espectador tente decifrar os personagens de poucas palavras vividos por Nicholson e Maria Schneider. A atriz, cuja maior lembrança vem do controverso ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci, replica seu jeito doce e frágil. Ela quer entrar na vida de David Locke, ela quer ajudá-lo nesse processo de ser outro homem, mesmo sabendo que se trata de uma aventura perigosa, já que essa nova identidade pertence a um traficante de armas. Daí o tom de crônica de uma morte anunciada que o filme promove de maneira muito particular.

Filme visto no box Antonioni Essencial, que traz comentário em áudio, extras e livreto com ensaio de Raphael Cubakowic para esse filme.

+ DOIS FILMES

MILAGRE EM MILÃO (Miracolo a Milano)

Eis um filme que até hoje ainda confunde aqueles que esperam por um "autêntico" filme neorrealista, seja lá o que isso signifique. Eu, que havia visto outros sete filmes de Vittorio De Sica, não estava preparado para MILAGRE EM MILÃO (1951), justamente por estar habituado com o tom mais realista deles - até uma comédia como NEGÓCIO A ITALIANA (1963), de uma outra fase, tem um pé bastante fincado na realidade. O que vemos aqui é uma fábula sobre um rapaz que tem uma visão de mundo muito otimista dentro de uma Itália afogada na miséria do pós-guerra. Recém-saído de um orfanato, ele ainda guarda os ensinamentos de sua mãe adotiva, e se mostra sempre generoso e disposto a ajudar as pessoas. Às vezes generoso até demais, como no momento em que ele dá de presente a sua valise ao ladrão que a havia roubado. O tom mais milagroso presente no título começa no terceiro ato, quando o personagem, líder de um grupo de desabrigados e que cria uma nova comunidade junto com eles, recebe um presente mágico do fantasma de sua falecida mãe. Isso muda o curso dos acontecimentos e mostra a que veio o filme, o que o tornou até mais atraente para mim, justamente por esse aspecto inusitado. Filme visto no box Neorrealismo Italiano.

SANCTUARY

Um banho de água fria para quem vai ver o filme pela sinopse. Ela é uma dominatrix. Ele é o dominado do jogo que resolve despedi-la. Ela não aceita. Os primeiros minutos de SANCTUARY (2022), de Zachary Wigon, trazem algo que mistura algum tipo de excitação interessante para quem curte ver jogos desse tipo, mas há, desde o início, algo também muito incômodo. Sem falar no fato de que o filme é muito limpinho. Acho mais problemático ainda o final, que escancara que a intenção do filme era outra o tempo inteiro. Não deixa de ser um jogo curioso que lida mais com as inseguranças dos personagens do que com suas fortalezas. Como Margaret Qualley e Christopher Abbott são os dois atores em cena o tempo inteiro, há que se dar o devido crédito pelo esforço. O diretor também se esforça para fazer do filme mais cinema do que teatro filmado.