domingo, julho 17, 2022

SCARFACE



No ano passado, comecei minha peregrinação pela obra de Brian De Palma. E estava indo tudo muito bem, quando começaram as aulas presenciais, meu tempo disponível diminuiu e o filme seguinte para revisão era SCARFACE (1983), que eu tinha visto dez anos atrás no DVD duplo da Universal. O último De Palma que havia visto, a obra-prima UM TIRO NA NOITE (1981), foi em outubro. Ou seja, eu cheguei a interromper o que estava indo muito bem, com direito à leitura do ótimo De Palma’s Split-Screen, de Douglas Keesey, por uma cisma com uma obra que é tida por muitos como um dos melhores trabalhos do realizador.

O filme mais cheio de excessos de Brian De Palma tem momentos brilhantes, mas segue sendo aquela obra que, ao contrário de tantas outras do realizador, não me deixa com um sorriso no rosto durante sua metragem. De todo modo, há razões para isso, já que o que temos é a tragédia de um homem com pinta de psicopata em sua escalada para um império do tráfico de cocaína em Miami, no início dos anos 1980. Há muito de Oliver Stone, o autor do roteiro, e talvez isso tenha prejudicado um pouco para mim, que senti falta da mão do De Palma mais virtuoso e maneirista.

O esqueleto do SCARFACE de 1932 está presente principalmente na relação de ciúme doentio de Tony Montana com a irmã mais nova. Al Pacino está vários tons acima em sua versão mais cheirada de um Michael Corleone. Falo isso reconhecendo a grandeza do ator, que se entrega ao personagem de tal forma que por vezes esquecemos que é o Pacino que está ali, mais bruto, mais inconsequente, mais sanguinário. Há uma cena que muito me lembrou um momento de DUBLÊ DE CORPO (1984), que é a cena da motoserra, já no começo do filme. No mais, a própria abundância da produção (inclusive em sua duração) é coerente com a imagem de seu anti-herói.

Um dos motivos para De Palma sair um pouco de suas obras mais pessoais foi estar cansado de mostrar tanto de si em seus filmes. Ele chegou a dizer em entrevista para a revista Mr. Showbizz: “Você fica cansado de suas próprias obsessões, das traições, do voyeurismo, da sexualidade distorcida. Eu fiz um monte de filmes como esses, então você fica feliz em sair disso com esses gângsteres cubanos. Te dá um pouco de alívio.” Mas havia um outro motivo para a mudança brusca de UM TIRO NA NOITE para SCARFACE: o fracasso comercial do anterior.

O que é uma pena, pois quando vemos os filmes em ordem (ou mesmo fora de ordem), sem saber se houve um sucesso ou fracasso comercial, o que mais importa é o sucesso artístico. E isso eu vejo muito mais em UM TIRO NA NOITE e nas obras mais hitchcockianas que tanta gente pegou no pé, chamando o diretor de plageador ou coisa parecida. Então, um tanto frustrado, De Palma estava disposto a fazer um filme pelo dinheiro. Tanto que ele quase chegou a dirigir FLASHDANCE!

Ainda assim, e apesar do roteiro ter sido escrito por Stone, há muito de Brian De Palma em SCARFACE. Inclusive há pano para manga para o chamarem novamente de misógino. Michelle Pfeiffer se sentiu muito mal durante as filmagens, pois, de propósito, De Palma a deixava de lado, para que ela construísse uma personagem fragilizada e hostilizada em um mundo de homens grosseiros. De certa forma, funcionou muito no resultado, embora hoje em dia esse tipo de recurso seja considerado desumano. A frieza do diretor diante da atriz era percebida por todos no set.

A relação de Tony Montana (Pacino) com Elvira (Pfeiffer) na trama, mesmo quando ele a toma para si, depois de matar o ex-chefe (Robert Loggia), é bastante dessexualizada. Mas isso é natural quando se tem um homem que só quer saber do dinheiro que ganha com as drogas, da cocaína que consome aos quilos, e dos inimigos que o cercam por todos os lados, sejam eles traficantes rivais, a polícia ou os colombianos. Por isso a cena em que Elvira reclama do marido na frente do amigo Manny (Steven Bauer) é bem representativa dessa situação. E também uma das melhores cenas de Pfeiffer, que se defende dos maus tratos cotidianos de maneira também agressiva.

Coincidência ou não, à medida que o casamento de Montana e Elvira se desintegrava, o casamento de Brian De Palma com Nancy Allen também desmoronava. Eles já estavam divorciados na época do lançamento de SCARFACE nos cinemas. O que é uma pena, pois adoro a Nancy nos quatro filmes que ela fez com o diretor.

Sobre relações De Palma/Hitchcock, uma cena que costuma trazer uma obra de Hitchcock à tona é a cena da bomba no carro. Ao contrário da bomba que explode em SABOTAGEM, do mestre do suspense, De Palma faz aquilo que Hitchcock se arrependeu de ter feito e traz um senso de moral para Montana, que impede que um carro com uma mulher e uma criança seja explodido. Em vez disso, ele prefere atirar no colombiano e prejudicar a si e a seus negócios.

No fim das contas, SCARFACE não foi o sucesso pretendido por De Palma e pelo estúdio. E nem pela crítica, durante um bom tempo. Até Pauline Kael, fã do De Palma, meio que massacrou o filme. SCARFACE começou a ter um sucesso maior nas videolocadoras e hoje em dia também é visto como uma obra de referência e culto. No livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, SCARFACE é um dos três títulos do realizador que é incluído, junto com CARRIE, A ESTRANHA (1976) e OS INTOCÁVEIS (1987). 

+ DOIS FILMES

QUEM MATOU ROSEMARY? (The Prowler)

É interessante começar a ver um número maior de slashers e perceber qualidades que talvez não perceberíamos com olhos menos treinados. Este QUEM MATOU ROSEMARY?(1981) tem uma seriedade e uma atmosfera que o tornam mais interessante e mais valioso do que a maioria dos exemplares. Além do mais, os efeitos especiais super-realistas de Tom Savini fazem uma diferença enorme nas cenas das mortes, no seu caráter mais gráfico - a cena da piscina é impressionante. No mais, não me atraiu tanto a figura do assassino, a não ser pelo visual. A história dele me pareceu frouxa (a não ser que tenha algum simbolismo trazido da Guerra do Vietnã), sendo mais uma desculpa para a criação de maníaco desconhecido que vem atacando a cidadezinha durante a festa de graduação de uma turma de estudantes. O diretor, Joseph Zito, é mais conhecido por filmes como SEXTA-FEIRA 13 – PARTE 4: O CAPÍTULO FINAL (1984), BRADDOCK – O SUPER-COMANDO (1984) e INVASÃO U.S.A. (1985). QUEM MATOU ROSEMARY? está presente no box Slashers VI.

SANGUE NA LUA (Blood on the Moon)

Com o meu interesse de ver mais westerns categorizados como noir, chego a este belo exemplar dirigido por um dos artesãos mais celebrados de Hollywood. Robert Wise, na época, fazia tanto filmes de terror, suspense, quanto westerns e policiais. SANGUE NA LUA (1948) pega um pouco desta salada de gênero que fazia parte do espírito da época, tem o charme de Robert Mitchum, uma mocinha encantadora (Barbara Bel Geddes), um antagonista muito bom (Robert Preston) e uma trama inicialmente complicada envolvendo uma rixa entre fazendeiros e rancheiros, sendo que o grupo dos rancheiros estava sendo chefiada por um sujeito inescrupuloso disposto a matar, roubar e até usar a filha do fazendeiro para trair o pai. Há uma cena em especial, da luta entre Mitchum e Preston no bar, que é bem sombria, mas o melhor momento fica no final, quando o vilão e mais dois homens cercam a casa do personagem de Walter Brennan. Aliás, difícil não ligar isso a ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks, não só pela presença de Brennan, mas também pelas circunstâncias. O "quentinho no coração" se dá pelo romance do casal principal. Outros dois momentos fortes do filme envolvem estouros de boiadas, justo no mesmo ano em que RIO VERMELHO, também do Hawks, foi lançado, trazendo o mais famoso estouro de boiada da história do cinema. Coincidência ou algo recorrente no gênero? Filme visto no box Filme Noir - Robert Mitchum.

quinta-feira, julho 14, 2022

MS. MARVEL



Não durou muito a minha empolgação com MS. MARVEL (2022). Na verdade, a empolgação não foi apenas minha. Nos canais de YouTube que cobriam a série, o entusiasmo predominava. Mas o medo de que a minissérie perdesse o rumo a partir do momento que se tornasse uma história tradicional de super-herói, com direito a luta com vilão etc. estava no ar. MS. MARVEL começou com dois episódios adoráveis, que nos ambientam na rotina de vida da adolescente Kamala Khan (Iman Vellani) e sua dificuldade de pertencimento, sendo ela uma paquistanesa vivendo em Nova Jersey. Até há um gostinho das antigas histórias do Homem-Aranha nos quadrinhos.

Comecei a ler os quadrinhos da heroína, talvez a mais importante surgida na última década na Marvel, mas confesso que não me animei muito com as histórias, por mais simpáticas que fossem. Os próprios poderes da personagem, de fazer crescer os braços, pernas, corpo e até de se transformar em alguma coisa ou pessoa me pareceu muito Homem-Borracha. Enfim, os poderes talvez tivessem algo de simbólico do sentimento da personagem, mas isso não os torna exatamente geniais por isso.

Para a versão do MCU, não achei de todo ruim a mudança nos poderes e nas origens. Para começar, a Marvel no cinema por enquanto não trouxe ainda os Inumanos – a não ser pela aparição do Raio Negro em DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA. E isso foi em um outro universo. Ou seja, por mais que o estúdio da Casa das Ideias já tenha fabricados um monte de filmes e agora também de séries, não dá tempo de aplicar tantos personagens que fazem parte de décadas de histórias em quadrinhos nas telas.

Então, a solução foi trazer uma nova origem para Kamala Khan, ou para os poderes dela, no caso. Assim, tudo começa quando ela ganha um bracelete, herança de sua bisavó. Mais adiante seremos apresentados a um flashback dessa sua bisavó, interpretada por uma atriz paquistanesa muito bonita chamada Mehwish Hayat. Aliás, muita gente reclamou desse longo flashback da personagem, mas para mim foi um alívio diante de uma trama principal totalmente desinteressante e mal planejada.

O bracelete começa a manifestar um poder de trazer uma espécie de luz materializada, algo parecido com o que o Lanterna Verde faz com seu anel. Aos poucos, Kamala vai aprendendo a usar esse poder e no começo é divertido, pois ela não tem controle ainda sobre ele. Com a ajuda do amigo Bruno, que tem um quê de gênio, ela começa a treinar e depois descobre coisas sobre sua família e sobre suas possíveis origens.

Falando em família, achei muito interessante a série ter trazido um pouco dessa cultura paquistanesa, que é bastante invisibilizada. Há uma série de filmes e produções para a televisão que fazem sucesso apenas entre quem é originário do país - ou talvez em certos festivais. Assim, a cena do casamento do irmão, por exemplo, tão colorida e cheia de alegria, é mostrada com muito respeito àquela cultura. Há também um interesse em trazer um pouco da história do Paquistão e a questão do surgimento do país a partir de um marco chamado partição, que separou o território que antes era um único país chamado Índia, na época ainda sob o controle dos ingleses.

Enfim, não sei se vale a pena contar sobre as cenas de ação mal dirigidas, ou sobre o roteiro desinteressante – cheguei a ver um comentário numa rede social que dizia que o roteirista deveria ser preso. No fim das contas, a série serve apenas como apresentação de uma personagem que será uma das protagonistas de THE MARVELS, um dos filmes importantes da Marvel para o próximo ano.

É também mais uma produção da produtora que valoriza as minorias e contribui para o sentimento de respeito ao diferente – assim como aconteceu com SHANG-CHI E A LENDA DOS DEZ ANÉIS e ETERNOS. O ruim de a série ter caído tanto é que as boas lembranças acabam ficando esquecidas. Uma pena. Mas a cena pós-créditos ajuda um bocado a trazer de volta o entusiasmo para o filme que virá, que trará novamente Kamala, uma personagem muito bem-vinda.

+ DOIS FILMES

O CALOURO (Shithouse)

Tive alguns sentimentos conflitantes em relação ao protagonista de O CALOURO (2020), vivido pelo próprio Cooper Raiff, que assina direção e roteiro. Ele faz o papel de um sujeito muito carente de amigos e ainda muito apegado à mãe e à irmã. O fato de se sentir sozinho na faculdade e longe de casa faz com que ele fique em um estado constante de vulnerabilidade. E há momentos em que o personagem está tão vulnerável que parece ridículo. Por outro lado, é possível simpatizar e também se identificar com o personagem, especialmente se em algum momento de sua vida você se sentiu também assim. Além do mais, não o culpo por ter ficado apaixonado pela jovem vivida por Dylan Gelula (a atriz é encantadora). Até porque há toda uma situação de viverem uma noite juntos, conversando. Em certo ponto, até lembra um pouco os filmes de Richard Linklater. Ainda que mais despido de filosofia, Raiff tem o dom de nos deixar o tempo inteiro interessados na conversa, na química que se estabelece entre os dois, e no quanto o casal passa a se conhecer numa única noite. O epílogo traz uma espécie de conforto para o espectador para um filme que parecia se encaminhar para um estado de solidão e de choque de realidade. Felizmente a opção pelo calor no coração diminui um pouco o tom agridoce. Que bom que o filme seguinte de Raiff já está disponível para apreciação.

O PRÓXIMO PASSO (En Corps)

O novo filme de Cédric Klapisch talvez seja o seu melhor trabalho. Digo "talvez" porque não cheguei a ver nem um terço do que ele dirigiu, mas é uma obra muito fácil de ser gostada, é um filme pequeno sobre a busca de um novo rumo para uma bailarina que sofre um acidente durante uma apresentação de balé. O PRÓXIMO PASSO (2022) tem uma ótima condução narrativa e o tempo em que as coisas acontecem parece sempre ser o tempo ideal. É no espaço que funciona como uma espécie de ambiente para recuperação física e espiritual que a moça (Marion Barbeau) entra em contato com um grupo de dança contemporânea, que tem um estilo muito diferente da dança clássica, mais livre e também mais calcado no chão e no peso. Achei tão interessante essa dança que acho que se visse esse filme nos meus 15-16 anos eu ficaria tentado a integrar um desses grupos. O filme é sutil e abre um pouco de espaço para o humor dentro da situação de tristeza da personagem. Há também um capricho visual nas cores e no som que chama a atenção.

segunda-feira, julho 11, 2022

THOR – AMOR E TROVÃO (Thor – Love and Thunder)



O cinema é uma caixinha de surpresas. Melhor dizendo: a nossa relação com os filmes é uma caixinha de surpresas. Depois de ter achado um saco os três primeiros filmes do Thor – sendo que os dois primeiros ainda têm o “mérito” de serem bem esquecíveis –, eis que me pego curtindo cada momento de THOR – AMOR E TROVÃO (2022), a segunda incursão de Taika Waititi na Marvel, mais uma vez brincando com a solução cômica encontrada para fazer com que o Deus do Trovão dê certo em sua versão cinematográfica. E sabemos que muito disso se dá graças ao ótimo timing cômico de Chris Hemsworth – basta lembrar também de seu papel engraçadíssimo no subestimado CAÇA-FANTASMAS, de Paul Feig. Aliás, de uma coisa a gente não pode reclamar dos estúdios Marvel: de sua capacidade certeira de conseguir encontrar atores perfeitos para os personagens.

O fato de eu ter gostado do filme pode ter sido culpa das baixas expectativas vindas tanto dos filmes anteriores do Thor, quanto das mais recentes produções do UCM. Ou pode ser culpa dos bodes. :) Aqueles bodes trouxeram a minha primeira gargalhada, embora desde o início eu tenha valorizado a figura trágica de Gorr, o Carniceiro dos Deuses (Christian Bale), um dos vilões mais interessantes das histórias recentes da Marvel, surgido mais ou menos na mesma época da Poderosa Thor Jane Foster (Natalie Portman), nos runs mais bem-sucedidos de Jason Aaron na Casa das Ideias.

Como o filme tinha pouco tempo para desenvolver a personagem de Foster, ela fica um pouco prejudicada, mas não a ponto de se tornar descartável. Ao contrário: Jane Foster é a personagem que traz o amor de volta, e traz o amor em uma embalagem deliciosamente cafona, como as produções B de fantasia dos anos 1980. Nesse sentido, até mesmo as fontes usadas nos créditos combinam, assim como o sentimento usado como arma final contra o mal. E combinam com o hard rock oitentista também.

O senso de humor aqui está mais afiado que em THOR - RAGNAROK (2017) e com a vantagem de personagens cativantes aparecerem mais azeitados, como o Rei Valquíria (Tessa Thompson, apaixonante) e o gigante de pedra Korg (interpretado pelo próprio diretor). Sem falar na participação de Russell Crowe como Zeus, em uma chave totalmente zoada e sem a menor vergonha do ridículo. E falando em chave, gosto de como acontece uma mudança de tom lá perto do final, nas cenas em preto e branco. É, sem dúvida, um filme que tem os seus muitos problemas, mas não se levar a sério e encontrar o seu próprio rumo e ritmo faz dele merecedor de respeito.

No mais, espero que a turma do Guns N'Roses tenha curtido a infinidade de homenagens. Acho até que eles exageraram na dose de Guns na trilha (tem até um personagem que se chama Axl!), mas quando eu me peguei arrepiado com a cena que entra aquele solo do Slash em “November Rain” eu percebi que tinha mesmo era que me entregar ao filme.

É uma grande bobagem? Sim, com certeza. Mas, uma vez que você relaxa e se deixa levar por essa grande bobagem, as quase duas horas de duração vão passar voando. Assim como você também vai relevar os problemas de montagem ou algumas cenas mais atabalhoadas – a primeira aparição de Jane Foster empunhando o Mjolnir, por exemplo, parece saída de uma série de cenas que foram deixadas na mesa de edição.

Outra coisa que eu acho válido para se curtir o filme é não se sentir obrigado a rir das piadas. Esse tipo de sentimento com relação ao filme pode estragar a apreciação, e é mais ou menos a relação que eu tenho com os dois filmes dos Guardiões da Galáxia. Além do mais, gosto muito de como o filme lida com a comédia e consegue fazer transições muito boas para o drama e até a tragédia. É só lembrar que o filme começa nos apresentando à trágica história de um homem que resolve abdicar da fé e assassinar todos os deuses que encontrar pelo caminho. É fácil compreender esse tipo de sentimento quando se convive com perdas.

E em paralelo, THOR – AMOR E TROVÃO é também a história de um deus que perdeu muitos entes queridos ao longo de poucos anos. Um deus que é apresentado de maneira abobalhada, mas que em nenhum momento deixa de ser um herói. E aprendemos que um herói vale mais do que muitos deuses – que o diga Zeus.

+ DOIS FILMES

LIGHTYEAR

A Disney andou botando as produções da Pixar de escanteio dos lançamentos exclusivos nos cinemas. Foi assim com SOUL (2020), LUCA (2021) e RED – CRESCER É UMA FERA (2022). Teve que vir um spin-off de TOY STORY (1995-2019) para que a companhia do Mickey resolvesse lançar uma produção deles nos cinemas. E eu diria que LIGHTYEAR (2022), de Angus MacLane, é um belo filme. Funciona tanto como uma aventura de ficção científica como uma diversão para crianças - dependendo da idade. É o INTERESTELAR da Pixar, no sentido que há a questão da busca de uma salvação e os resultados que se veem são tão difíceis quanto frustrantes, além de trazerem a questão da disparidade temporal entre quem fica e quem viaja. O filme explora bem a solidão do protagonista e a relação de afeto dele com o gatinho-robô e um grupo de novos recrutas dispostos a ajudá-lo. Há uma cena que lembra a relação entre Luke Skywalker e Darth Vader e não sei se houve uma intenção da parte dos roteiristas para que assim parecesse. Esse enfrentamento simbolizaria uma luta interior de Buzz, e isso o eleva a um herói mais complexo do que se poderia imaginar.

TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO (Everything Everywhere All at Once)

MATRIX encontra DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA para o público descolado contemporâneo. Talvez a principal diferença de TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO (2022), de Dan Kwan e Daniel Scheinert, seja a vontade de não ser tão sério, de brincar com as possibilidades sem querer fazer tanto sentido. Ao mesmo tempo, acho que isso é um dos pontos fracos do filme. Além do mais, pelo menos pra mim, o humor não funciona, embora eu ache a cena dos dildos muito interessante como forma de trazer uma novidade, algo semelhante ao que talvez possa ser visto em mangás ou na cultura pop oriental como um todo. O misto de vidas da protagonista vivida por Michelle Yeoh até faz referência a Wong Kar-Wai, mas de maneira muito discreta, e justamente quando tenta trazer uma espécie de moral da história, essa moral, ou essa mensagem, acaba sendo incoerente com o próprio espírito do filme, mais frenético e muito pouco interessado na monotonia do cotidiano. Ou não?

sexta-feira, julho 08, 2022

CONVERSATIONS WITH FRIENDS



Passando para deixar meu boletim de saúde. Hoje acordei tarde e com um mal estar estranho na cabeça. Depois do café da manhã em horário pós-almoço e de tomar uns remédios, melhorei um pouco, pelo menos a ponto de ficar ligeiramente mais funcional. Terminei de ver ontem, em formato quase de maratona, CONVERSATIONS WITH FRIENDS (2022), a nova série da Hulu baseada em romance de Sally Rooney, e com quase a mesma equipe que fez NORMAL PEOPLE (2020), que considero uma obra-prima dentre os melodramas românticos que tive a honra de ver.

O nome Sally Rooney já virou um chamariz forte para mim, desde que eu fiquei completamente impactado com a série (ou minissérie?) de 2020, que também me transformou em leitor de seus romances. CONVERSATIONS WITH FRIENDS também conta com episódios dirigidos por Lenny Abrahamson (O QUARTO DE JACK, 2015). Ele dirige sete dos 12 episódios de cerca de meia hora, cada – mesmo formato da série anterior. De certa forma é uma série mais complexa, embora tenha vindo do primeiro romance da escritora.

Isso porque os personagens são mais fechados em suas emoções, mais próximos da realidade, no sentido de demorarem a assimilar o que estão sentindo e o que está acontecendo com suas vidas em situações em que a emoção é mais forte. Há, inclusive, uma série de momentos em que o diálogo é travado e geram situações quase constrangedoras. Isso acontece em especial com Frances, a personagem apaixonante de Alison Oliver, atriz estreante e cuja beleza me faz lembrar um pouco a Jenna Fischer da série THE OFFICE – só que mais bonita, talvez.

Porém, enquanto ela é uma personagem fácil de se apaixonar, os demais personagens não são assim tão fascinantes, nem mesmo o principal interesse amoroso de Frances, um homem casado. Como a primeira e única relação amorosa de Frances havia sido com a agora melhor amiga Bobbi (Sasha Lane), é a primeira vez de Frances com um homem nesta relação confusa mas nem por isso menos empolgante com Nick (Joe Alwyn, um ator que já estreou como protagonista, em A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN, de Ang Lee).

Uma das coisas que mais me chamava a atenção enquanto via esta série é a melancolia e a solidão dos personagens. Fiquei o tempo todo pensando no fato de que esta nova geração na faixa dos 20 que tem se relacionado tanto com a internet na palma de suas mãos carrega um tipo de tristeza que parece muito difícil de lidar. Em alguns momentos, a personagem principal parece uma espécie de fantasma vagando por Dublin e cidades menores da Irlanda, especialmente quando não está se sentindo tão bem, ou tão amada. O fato de ela amar um homem casado que ainda não quer se separar da esposa mexe um bocado com sua autoestima, por mais que ela se perceba muito acima da média de seus colegas da faculdade de letras.

Em alguns momentos, eu me identifiquei com Frances, mas isso porque a série nos convida a acompanhar a história através de seu ponto de vista – diferente de NORMAL PEOPLE, onde há dois pontos de vista. Dessa forma, a série tanto nos engana ao nos fazer ver Frances como uma moça inocente e não como alguém que pode magoar os sentimentos dos outros, por mais que não seja essa sua intenção. Em comparação com NORMAL PEOPLE, a nova série tem o mesmo estilo, embora seja mais melancólica e menos melodramática – até as canções que encerram os episódios têm uma cadência mais depressiva. 

As cenas que provocam choros são mais comedidas, assim como seus personagens. Só fui gostar de Nick lá pelo fim da série (ou temporada?), já que antes disso ele mais parece uma estátua, no sentido de que não consegue exprimir seus sentimentos. Depois, no final, vemos que isso está longe de ser o caso. Gosto de como a série termina, ainda que tenha achado um tanto brusca, mas achei um final satisfatório para os personagens. Queria ter gostado mais de Jemima Kirke na série. Em GIRLS ela interpreta a minha personagem favorita, mas aqui ela pega o papel ingrato da escritora e esposa traída e meio ranzinza (embora com razão).

Outra coisa que me agrada na série é o modo como Frances às vezes parece se quebrar, de tão frágil que parece. Frágil fisicamente - há uma questão de saúde que é levantada - e frágil em ter que lidar com o turbilhão de emoções que surge dessa paixão por um homem casado e a dificuldade de verbalizar essa situação com a melhor amiga. Há também uma dificuldade de verbalização dela com o próprio pai, alcóolatra e depressivo, que me trouxe para o meu passado também. E é por isso que vejo CONVERSATIONS WITH FRIENDS como uma obra que me falou bastante. Mesmo não trazendo a catarse arrebatadora de NORMAL PEOPLE, a assinatura de Sally Rooney está lá, a ponto de quase vermos a autora nua, do ponto de vista simbólico.

+ DOIS FILMES

QUERIDA LÉA (Chère Léa)

Este filme é tanto um estudo da tristeza de um homem frente à vida e frente ao fim de um relacionamento, quanto um olhar afetivo para a criação, para a poesia da linguagem (a escrita, mas que pode se ampliar para a cinematográfica, também). Quando Jonas (Grégory Montel) para em um café a fim de escrever uma longa carta (de despedida?) para Léa (Anaïs Demoustier), ele também tem um interesse em como sua escrita ficará, além de explicitar suas feridas abertas. Tanto que a presença do atendente do café (o simpático Grégory Gadebois), interessado no que ele está escrevendo, é representativo da arte sendo apreciada e criticada pelo espectador. QUERIDA LÉA (2021), de Jérôme Bonnell, tem um ritmo muito bom, ainda mais levando em consideração que se passa em pouquíssimos lugares (o café, principalmente), e consegue tratar da arte da escrita trazendo sempre interesse.

PETER VON KANT

Não adiantou muito caprichar na direção de arte e nas cores vivas (ênfase no vermelho) da casa do personagem-título, que é onde se passa toda a trama de PETER VON KANT (2022), e não conseguir nos tocar com suas dores. A opção de François Ozon em adotar um tom debochado dos personagens acaba causando um distanciamento não muito interessante. Ainda assim é possível que o filme encontre os seus apreciadores. Gostaria de saber, inclusive, de quem viu AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT, de Rainer Werner Fassbinder, para saber se a homenagem fez jus à obra original.

quinta-feira, julho 07, 2022

COMUNHÃO (Alice, Sweet Alice / Communion / Holy Terror)



Ninguém merece passar o aniversário de molho em casa, com COVID. Saudade de 2019, quando programei meu aniversário para passar em São Paulo. Mas podia ser pior, claro. Então, melhor não reclamar. Ao menos estou conseguindo visualizar melhoras para o futuro breve. E, hoje, se me dispus a escrever para o blog, por mais simples que seja o texto, já é um bom sinal, já que ontem não consegui escrever coisa alguma. Um dos problemas de estar doente é que a cabeça fica como se estivesse com uma névoa, impedindo o raciocínio. Triste para quem gosta de ler e de escrever.

Porém, mesmo no meio disso tudo, vi um filme que justifica eu tomar um pouco do meu tempo para escrever a respeito, que é o proto-slasher COMUNHÃO (1976), dirigido por um sujeito chamado Alfred Sole, que antes disso só havia dirigido um filme pornô em 1972! É impressionante como Hollywood já foi mais ousada. De todo modo, dentro desse subgênero, e dentro do horror como um todo, é possível ver vários casos de diretores que não tiveram uma carreira brilhante, mas que deixaram um filme brilhante para a posteridade. E certamente é o caso deste que é um dos filmes mais bárbaros, violentos e transgressores que eu já vi. Dá para ver a influência explícita do giallo (lembrei na hora de PRELÚDIO PARA MATAR, de Dario Argento), mas como o giallo é um gênero que tem uma estranheza toda própria, ver isso sendo transposto para um tipo de dramaturgia mais familiar, como a do cinema americano, acaba fazendo uma diferença enorme.

Inspirado em PSICOSE, de Alfred Hitchcock (a história se passa em 1961 e até vemos um poster do filme do mestre do suspense na rua), e também em INVERNO DE SANGUE EM VENEZA, de Nicolas Roeg (o uso da capa de chuva amarela não deve ser uma coincidência), COMUNHÃO nos apresenta à história de uma família que passa por uma situação traumática. Durante a cerimônia de comunhão da filhinha pequena (Brooke Shields, em seu primeiro papel no cinema), acontece um assassinato em plena igreja. A principal suspeita é Alice, a irmã mais velha da garota, vivida pela excelente Paula E. Sheppard.

E nós espectadores também somos levados a acreditar na culpa de Alice. Afinal, é ela quem usa a máscara e a roupa, é ela quem costuma implicar com a irmã caçula, é ela que tem um comportamento de aparente sociopatia. Mas surpresas não faltam e com elas aumenta também nossa relação de respeito com a obra de Sole, que demonstra um cuidado impressionante com a direção, com o modo como movimenta a câmera, o modo como a posiciona e também pela opção por atuações mais intensas de seu elenco. Há muitas cenas de arrepiar, mas adoro uma em especial, quando a tia de Alice é esfaqueada na escada e a mãe da garota grita, pedindo socorro. Que cena brutalmente magnífica!

Como precursor do slasher, COMUNHÃO também antecipa HALLOWEEN – A NOITE DO TERROR, de John Carpenter, ao trazer tanto a questão da psicopatia com crianças quanto o uso de uma máscara que causa um terror quase inexplicável. Há também um forte elemento transgressor, já que boa parte das cenas envolvendo as mortes acontece durante a missa. Além do mais, os rituais católicos são mostrados de maneira a apontar para um grau de estranheza fora do usual. A cena de Alice oferecendo a língua para receber a hóstia momentos antes de ser noticiada a morte de uma criança na igreja causa algo de desconcertante.

O filme chegou a ser relançado para capitalizar com o nome de Brooke Shields nos créditos, devido ao sucesso de MENINA BONITA, de Louis Malle. COMUNHÃO é desses filmes que é melhor visto sabendo o mínimo possível. O que eu acho impressionante é que hoje em dia não vemos filmes de terror que consigam trazer tanto impacto quanto este.

Visto no box Slashers IV.

+ DOIS FILMES

WATCHER

Eis um filme que poderia ter rendido mais suspense, mais tensão. Pelo menos acredito que era isso o pretendido. Ao final de WATCHER (2022), ficamos sabendo que se trata mais de uma obra sobre o descrédito dado às mulheres num mundo dominado pelos homens. A exploração da condição de estrangeira em um país estranho e que fala uma outra língua completamente diferente (a Romênia, no caso) também ajuda a compreender um pouco mais o drama da protagonista (Maika Monroe), embora lá pela metade eu tenha começado a acreditar que o que ela sentia era sim algum tipo de paranoia. E falo isso com tristeza, inclusive. Será essa a intenção do filme de Chole Okuno?

COM AS HORAS CONTADAS (D.O.A.)

Um filme que está sempre acima do tom, até mesmo quando se utiliza do humor. Há um momento em que o protagonista (Edmond O'Brien) viaja para San Francisco para se afastar um pouco de sua namorada e, a cada mulher bonita que vê, ouvimos uma espécie de fiu-fiu na trilha. Achei bem desconcertante isso, e é de certa forma contrastante com a intenção aparentemente mais séria do filme, embora o ponto de partida já seja em si para trazer interesse e diversão. Na trama de COM AS HORAS CONTADAS (1949), de Rudolph Maté, um homem chega a uma delegacia de polícia para reportar um assassinato: o assassinato dele mesmo. Ele havia sido envenenado e conta em flashback o ocorrido. Tudo ocorre em ritmo alucinante (ou quase) e o tom melodramático também é bem over, em especial na última cena do protagonista com a namorada. O filme rendeu um remake em 1988 chamado MORTO AO CHEGAR, estrelado por Dennis Quaid. Visto no box Filme Noir Vol. 20.

domingo, julho 03, 2022

O ATALHO (Meek's Cutoff)



Ah, a ironia da vida. As férias que chegam com uma gripe forte (ou virose, quem sabe COVID?). Mas fazer o quê? Sigamos tentando buscar prazer e alegria apesar dos percalços. E ontem, vendo O ATALHO (2010), pude esquecer um pouco os incômodos do momento e me concentrar na beleza de um grande filme. Trata-se de mais um impressionante trabalho de Kelly Reichardt, que aqui opta por um western com tintas de suspense e mistério, com uma trilha sonora (a cargo de Jeff Grace, de A CASA DO DIABO) que começa sutil e vai se acentuando à medida que a situação do grupo de colonos vai ficando mais difícil.

Temos mais uma parceria – a segunda de quatro – da diretora com Michelle Williams, que assume o papel de uma heroína que enfrenta o tradicional machismo da época (e do gênero), representado pelo personagem de Bruce Greenwood, o Meek do título. Ele é um arquétipo de um homem que gosta de se vangloriar de atos heroicos, atos esses nunca vistos, apenas ditos por ele. Contratado para ser o guia de três famílias de pioneiros, já no começo do filme os homens das famílias discutem se devem ou não enforcar aquele homem que os colocou em situação difícil e desesperançada. Afinal, eles estavam no desolado deserto do Oregon, com água faltando e expectativas de sobrevivência baixas. Há até um índio que os segue, e que, supostamente, representaria um perigo adicional, até pelo que já é esperado de westerns.

A fotografia, a cargo de Christopher Blauvelt, o mesmo de FIRST COW – A PRIMEIRA VACA DA AMÉRICA (2019), é linda e a opção mais uma vez pela janela “clássica” (1,33:1) amplia ainda mais os horizontes nas tomadas de planos gerais. Se esse tipo de janela pode funcionar às vezes para dar um ar de claustrofobia, aqui talvez surja um pouco de agorafobia (medo de espaços abertos), embora a beleza das imagens não pareça representar perigo. O perigo está mais no inesperado, naquilo que não pode ser dominado.

Há uma cena em que a personagem de Williams costura o sapato do índio e fala que ele não tem ideia do que eles, os brancos europeus, são capazes, das cidades que eles construíram. Porém, naquele espaço selvagem, é o índio quem está dominando a situação, mesmo na posição de prisioneiro. Quando um dos homens cai desfalecido, por exemplo, o índio canta uma bela canção em sua língua incompreensível para os brancos. Não sabemos se é uma oração para curar o homem enfermo ou um cântico em homenagem a sua partida iminente. Talvez seja uma forma de conectar a alma do homem aos deuses, para que o recebam com respeito.

É curioso que, por mais que eu tenha me lembrado da obra-prima A GRANDE JORNADA, de Raoul Walsh, o que temos aqui é um antiépico, com tudo mais comedido, mais econômico, com mais cara de arthouse. E a opção por um ritmo mais lento da narrativa – o que é natural por parte da diretora – é outro acerto, pois importa menos o plot e mais os personagens, seus dramas e principalmente a atmosfera.

Aliás, atmosfera seria uma das palavras-chave do filme, cujos primeiros dez minutos não possuem diálogos. Ouvimos principalmente o som do vento e das rodas das três carroças. As primeiras palavras que ouvimos são de versículos da Bíblia. Um dos patriarcas das três famílias talvez seja um pastor puritano, que tem pouca ação no filme e costuma aparecer apenas numa posição mais passiva, como se aquele espaço desesperançado não desse tanto espaço para a fé ou para milagres. Enquanto isso, há a figura de Stephen Meek, um homem que se veste como se para um dos espetáculos que encenariam lendas do velho oeste, estilo Buffalo Bill. Suas piadas e suas histórias heroicas se mostram dissonantes com as preocupações e os silêncios dos pioneiros.

A presença de Meek talvez represente uma espécie de desequilíbrio. Como um western do século XXI, O ATALHO já carrega em si uma história não apenas do gênero, mas de toda a história americana até o momento. Então, a presença de Meek, que seria muito bem-vindo em faroestes da Velha Hollywood, representado muito bem por um John Wayne, parece aqui uma pessoa sem noção da realidade – ele não está vendo que errou e todos estão perdidos por causa dele? Se bem que o final em aberto do filme nos deixa em dúvidas sobre o destino dos personagens. A propósito, que final, hein!?

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

OS JOVENS AMANTES (Les Jeunes Amants)

Atriz com mais de 100 filmes no currículo, Fanny Ardant ultrapassa os seus mais de 70 anos de idade no papel de uma mulher que vive uma paixão crepuscular. E não por alguém de sua idade, mas por um homem mais jovem (Melvil Poupaud), que é quem se aproxima dela primeiro, quem toma a iniciativa, quem se apaixona inicialmente, quem tem a coragem de deixar o casamento para ficar com uma mulher mais velha. Para mim OS JOVENS AMANTES (2021) cresce bastante a partir de sua primeira metade, quando as questões envolvendo o seu casamento se tornam mais tensas, assim como a fragilidade da idade e da doença da protagonista feminina também passam a desempenhar um papel decisivo no pensar a impulsividade do relacionamento dos amantes. Há algumas cenas de dar um nó na garganta, principalmente as que lidam com silêncios (nisso, a participação de Cécile de France é fundamental). A diretora Carine Tardieu opta por um filme menos carregado nas tintas do que eu gostaria, mas que mesmo assim me agradou bastante.

PLEASURE

Eis um filme que me causou sentimentos mistos. Como uma obra que pretende fazer uma espécie de denúncia da indústria pornográfica americana, PLEASURE (2021), de Ninja Thyberg, tem a sua importância. Assim como também apresenta uma espécie de descida aos infernos da personagem de Sofia Kappel, a garota sueca que resolve fazer carreira nessa indústria e que percebe que para ser membro da "elite", ela precisaria se sujeitar a cenas cada vez mais hardcore. Nem sei se é assim mesmo que funciona para todas as garotas, mas é assim que funciona a pornografia como bem de consumo: uma vez que cenas mais fortes alcançam um interesse maior, o inferno é o limite. De todo modo, achei interessante ver a participação de rostos conhecidos do pornô, como que dando um apoio para a diretora, e também a participação rápida (e presente nos agradecimentos) da porn star Abella Danger. No mais, PLEASURE poderia ser encarado como um filme de crime, de máfia, no sentido de que vemos alguém que começa de maneira ingênua até se deixar dominar pela sujeira do ambiente. Tenho muita curiosidade de saber o que os grandes nomes da indústria acharam da visibilidade deste filme nos festivais. Algo a se pesquisar.

domingo, junho 26, 2022

AO CAIR DA NOITE (Moonrise)



Ultimamente tenho me entusiasmado mais com filmes antigos do que os novos, que, em sua maioria, têm me trazido desapontamentos ou insatisfação. Pode ser apenas uma fase, mas também há o fato de que, quando vemos um filme antigo, em geral já vemos uma obra que sobreviveu ao tempo, que se tornou um clássico ou continua sendo citado ou faz parte de uma curadoria ou tentativa de resgate de alguém atento ao cinema. Logo, as chances de esse filme ser mais apreciado são muito maiores.

Um dia desses, com a vontade de ver um filme antigo, peguei um dos boxes de filme noir da Versátil e, para minha surpresa, percebi que havia um filme dirigido por Frank Borzage, um cineasta que só passei a entrar em contato neste ano, justamente por causa da Versátil, que colocou duas obras-primas suas no box Melodrama no Cinema. Os dois filmes já foram objetos de reflexão aqui no blog. Por enquanto, ESTRELA DITOSA (1929) continua imbatível, mas adoro também A HISTÓRIA COMEÇOU À NOITE (1937). Já sabendo que o auge de Borzage foi nas décadas de 1920 e 30, já fiquei curioso como ele se sairia na era do cinismo e do pessimismo, os anos 1940 que pariam o filme noir.

Daí AO CAIR DA NOITE (1948) ser uma obra tão particular dentro do cinema que se praticava na época. Já que o próprio Borzage não gostava e nem se identificava com os rumos que sua arte passava naquele período, certamente sua incursão em uma história de assassinato seria no mínimo muito distinta. Aqui vemos a história de um homem que passou a vida inteira sofrendo bullying pelo fato de seu pai ter sido condenado à forca pela morte de um homem. Se sofrer bullying por qualquer motivo que seja já é cruel, imagina o quão cruel é lembrar e escarnecer de uma criança pelo modo como seu pai morreu!

E eis que vemos um pouco da infância de Danny (Dane Clark), mas logo somos levados a sua vida adulta, em que ele segue sendo alvo de agressões pelos demais rapazes da sua idade, e isso vem muito do fato de ele ser mais pobre, de não fazer parte do grupo de filhos de empresários também. Numa das brigas com um rapaz por causa de uma garota (Gail Russell), ele o mata acidentalmente. Com um soco, a cabeça do rapaz bate em uma pedra. Desesperado, ele esconde o corpo do rapaz e tenta seguir com a culpa, mas também imaginando que a qualquer momento pode ser descoberto. Enquanto isso, ele passa a se aproximar mais da moça por quem é apaixonado, a já citada Gilly (Russell), uma professora do ensino infantil.

O mestre do melodrama Borzage nos convida a compartilhar da angústia desse homem. Ainda que a morte tenha sido acidental, à medida que ele vai escondendo o fato de todos, inclusive da mulher que ama, a situação vai se tornando cada vez mais insuportável. Há algumas cenas que são assustadoras, assombrosas, como a que o protagonista dirige o carro em alta velocidade e vê a imagem do homem que acabara de matar.

Também é vertiginosa a cena da montanha-russa. O que torna AO CAIR DA NOITE menos amargo é que seu diretor é um homem que procura caminhos de paz, é um cineasta de linha espiritual e que sofre com seus personagens, sejam eles heróis puros ou homens maculados e confusos. A cena final se distingue bastante dos tons amargos predominantes no cinema da época, quando a redenção chega e até a expressão no rosto de Danny muda pela primeira vez no filme inteiro, assim como a iluminação do ambiente. De arrepiar.

Título visto no box Filme Noir Vol. 11.

+ DOIS FILMES

A SUSPEITA

Até que para um diretor com o currículo em telenovelas, Pedro Peregrino tem um interesse em fazer algo que fuja um pouco do que se convenciona trazer para as salas de shopping. Certamente é a presença de Gloria Pires que chama a atenção para o filme, e ela é a melhor coisa de A SUSPEITA (2021), uma espécie de variação em torno de AMNÉSIA (do Nolan) e MEU PAI (Zeller). Ou seja, é um filme que procura nos deixar quase tão desnorteados quanto a personagem com Alzheimer vivida pela atriz. O roteiro assinado em oito mãos podia ter sido melhor pensado para que a trama parecesse um pouco mais envolvente e também com mais verossimilhança - afinal, a polícia deixar que alguém com problema grave de saúde continue a trabalhar é caso de polícia. Mas talvez eu não esteja em condições de opinar, pois meus vários cochilos durante a sessão (culpo a alergia, principalmente, e o cansaço) fizeram com que a experiência do filme para mim guardasse semelhança com a experiência da heroína.

O DESTINO DE HAFFMANN (Adieu Monsieur Haffmann)

Um filme bastante envolvente, mas que vai perdendo a força em seus momentos finais quando se torna uma espécie de suspense barato à Supercine, mas sem ter a intenção de sê-lo (eis o problema). Ainda assim, temos em O DESTINO DE HAFFMANN (2021), de Fred Cavavé, uma trinca de atores que defendem muito bem seus papéis. Daniel Auteuil é o judeu que precisa fugir da França - os alemães começaram a prender e deportar os judeus. Gilles Lellouche é o sujeito que aceita fazer um negócio com o empresário rico vivido por Auteuil, em troca de desfazer o negócio ao fim da guerra. Sara Giraudeu faz a minha personagem preferida, a mulher de Lellouche que aceita uma proposta indecente do marido. Aliás, é com essa proposta que o filme vai se tornando mais interessante. Pena que deixe quase tudo a perder em seus instantes finais e no excesso de vilania de um dos personagens.

sábado, junho 25, 2022

THE DARK AND THE WICKED



Como o horror é um dos meus gêneros preferidos, sempre fico muito interessado em saber o que de melhor vem sendo produzido. Infelizmente as distribuidoras brasileiras não têm trazido todos os grandes títulos e por isso mesmo é interessante conseguir alguns dos filmes que nos interessam, aqueles que a gente sabe que há poucas chances de chegar ao nosso circuito, através de meios alternativos. Alguns furam a fila quando um amigo ou amiga chamam a nossa atenção. No caso, a amiga, crítica, professora e estudiosa do gênero Laura Cánepa destacou o caráter assustador de THE DARK AND THE WICKED (2020), o mais recente trabalho de Bryan Bertino, diretor do ótimo OS ESTRANHOS (2008) – infelizmente os outros dois trabalhos do cineasta, eu ainda não cheguei a ver.

E o que mais me deixou impressionado com THE DARK AND THE WICKED foi o fato de que é um filme que não apenas assusta, atordoa e arrepia por uma série de elementos muito bem conjugados, mas também por ter um tom extremamente pessimista com relação ao combate às forças do mal. Desse modo, nem é um filme apropriado a pessoas que estejam com o espírito um pouco mais depressivo.

Na trama, dois irmãos, Michael (Michael Abbott Jr.) e Louise (Marin Ireland), chegam a uma casa afastada do interior para visitar os pais, depois que recebem a notícia que o pai está em estado muito debilitado depois de um derrame, enquanto a mãe está vivendo um tormento ainda não compreendido por eles. 

Um dos trunfos do filme é também lidar com o terror da vida real, como dormir na mesma cama de um corpo moribundo, por mais que esse corpo seja de um ente querido. Além de também nos fazer pensar na morte iminente. Sem falar que a morte em si, uma morte em paz, por assim dizer, é uma bênção, se compararmos com o que o filme nos apresenta a seguir.

Há um trabalho de câmera com a janela scope que contribui muito para que as trevas sejam preenchidas até mesmo por coisas que apenas imaginamos ter visto. Além do mais, como lidar com o demoníaco já foi tão utilizado pelo cinema de horror por décadas, a ponto de se tornar um subgênero difícil de ser bem realizado, é uma dádiva ter uma obra que consiga ser tão arrepiante e tão desesperançada e dolorosa, indo muito além do jump scare e passando um bocadinho longe do que chamamos de diversão.

Não considero o último terço do filme tão bom quanto seus primeiros dois terços, pois há uma tendência em tornar cada vez mais explícito e mais convencional o drama e o horror, mas ainda assim é uma maneira honesta de dar um final digno ao filme. Inclusive, sem querer dar muito spoiler, a cena de Michael voltando para sua família não é apenas perturbadora, mas chega a acentuar ainda mais o sentimento de impotência daquela família diante das forças do mal.

E um dos aspectos de destaque desse mal presente em THE DARK AND THE WICKED é que não temos motivos, não temos uma historinha envolvendo algum fantasma que se sente perturbado por alguma situação passada. Aqui o que vemos é o mal demoníaco, algo já bastante usado em tantos outros filmes, especialmente a partir do sucesso de O EXORCISTA, de William Friedkin, com a diferença que Bryan Bertino tem um cuidado muito especial na condução da atmosfera e no modo como movimenta (ou deixa parada) sua câmera. Certos detalhes fazem uma diferença tremenda.

+ DOIS FILMES

ATÉ A MORTE - SOBREVIVER É A MELHOR VINGANÇA (Till Death)

Suspense próximo ao terror bem eficiente e inteligente no modo como lida com as resoluções da heroína frente à situação bizarra de estar algemada ao marido morto e ainda enfrentando novos desafios. A princípio, lembrei-me de JOGO PERIGOSO, de Mike Flanagan, mas aqui não há uma preocupação psicológica. O diretor S.K. Dale lida muito bem com a geografia do ambiente (a casa grande e os arredores) e com as cores, enfatizando o branco e o vermelho. Vendo ATÉ A MORTE – SOBREVIVER É A MELHOR VINGANÇA (2021), também lembrei-me de O TERCEIRO TIRO, de Alfred Hitchcock, pela maneira com que o cineasta usa um senso de humor sutil, ao tratar de um cadáver mudando de lugar, e também um pouco do primeiro JOGOS MORTAIS, de James Wan, pelo humor negro. A tensão não deixa o espectador gargalhar (pelo menos não deixou a mim), mas o humor está presente e é bem-vindo. Megan Fox está muito bem, como a mulher que usa a inteligência e a força física para sair de cada obstáculo à sua frente. Infelizmente (ou felizmente, não sei), larguei mão da sessão do filme na sala 1 do Iguatemi por problemas de projeção ruim e resolvi vê-lo em casa mesmo, com as cores vivas e nítidas que a obra merece.

JURASSIC WORLD – DOMÍNIO (Jurassic World – Dominion)

Se os primeiros dois títulos desta segunda trilogia dos dinossauros já haviam ficado no esquecimento, por mais eficientes que fossem na reciclagem do que Spielberg havia feito em 1993 e 1997, este último aqui, JURASSIC WORLD – DOMÍNIO (2022), dirigido por Colin Trevorrow, é lamentável em praticamente todos os aspectos. Mesmo trazendo de volta o trio de atores dos primeiros filmes (Laura Dern, Sam Neill e Jeff Goldblum) para se juntar aos novos personagens, isso só contribui para perceber que os produtores tinham muita coisa boa nas mãos e não souberam fazer nada que servisse. Nem a nostalgia, nem a sensação de perigo nas cenas de ação, nem o maravilhamento com os dinossauros, nem mesmo os efeitos especiais, que parecem os mais desleixados de todos os seis filmes. Até lembrei de produções dos anos 1950 que usaram a técnica da tela ao fundo de maneira muito mais eficiente. Não se trata de ser polícia de efeitos visuais, mas quando há milhões envolvidos, podemos sim reclamar. Em certo momento, durante as lutas para não dormir ao som da trilha sonora pouco inspirada de Michael Giacchino, eu fiquei torcendo para que algum dos sete heróis morresse, para me acordar do torpor que é essa aventura. E nem é spoiler dizer que isso não acontece. Uma coisa de que eu gostei: as cenas de perseguição dos dinos aos personagens de Chris Pratt (na moto) e Bryce Dallas Howard (no carro). Mas é muito pouco.

domingo, junho 19, 2022

ACAMPAMENTO SINISTRO (Sleepaway Camp)



Interessante como certos filmes que não são necessariamente bons ficam em nossa memória por mais tempo do que aqueles que têm um maior cuidado visual e narrativo. É o caso deste ACAMPAMENTO SINISTRO (1983), de Robert Hiltzik, que vi há um par de dias e ainda ficou me assombrando até agora. Assombrando é modo de dizer, claro, mas não há como negar que o filme tem um dos finais mais chocantes e impactantes ever. É mais ou menos como você assistir a uma cerimônia do Oscar maçante e de repente o melhor filme anunciado não é de fato o melhor filme e os então vencedores têm que descer do palco para que os reais subam – aconteceu de verdade em 2017. (Poderia fazer uma comparação com um jogo de futebol também, mas não sou exatamente um entusiasta e não tenho nenhum jogo em mente, mas acredito que existam sim equivalentes.)

ACAMPAMENTO SINISTRO é uma obra até um tanto medíocre. Mas há algo de diferente que percebemos logo de cara, que é o uso de adolescentes de verdade interpretando adolescentes, algo não muito comum nas produções do gênero na época. E o acampamento de verão de crianças e adolescentes parece de fato um acampamento de verão, um espaço em que as crianças se sentem mais à vontade para brincarem sem tanta intervenção dos adultos, como na escola ou em casa.

O filme se tornou objeto de culto por algumas gerações de cinéfilos. E quando começou a ser esquecido, foi criado um site na internet para apresentá-lo às novas gerações. Só depois da cena final que eu percebi que realmente se trata de uma dessas obras que de fato merecem essa adoração. Ou ao menos o seu culto. O ideal é ver ACAMPAMENTO SINISTRO sem saber nada da história, ou pelo menos sem saber o final, já que me parece até um pouco comum sua trama – pessoas sendo mortas misteriosamente em um acampamento de verão para crianças e adolescentes. Por isso, eu recomendo que não leia este texto se não tiver visto o filme ainda.

Pois bem. O que há, então, de tão novo e de tão impactante no final deste título? É não apenas o plot twist, mas principalmente a imagem final, que de tão icônica e bizarra é acertadamente congelada e a última que fica na mente, já que os créditos logo sobem. O filme até se torna mais controverso nos dias de hoje, quando as questões de transfobia estão mais em voga. Mas eu acho complexo simplesmente taxar o filme de transfóbico. Até porque há pessoas trans que o cultuam também, valorizam-no. Além do mais, o que acontece com Angela pode, de certa forma, ser comparado, guardadas as devidas proporções, ao que vemos em A PELE QUE HABITO, de Pedro Almodóvar.

Ou seja, Angela, é na verdade Peter, que passou a ser vestido e tratado como uma menina pela tia que o/a cria, depois que um terrível acidente mata seu pai e sua irmã. Esse acidente é mostrado no prólogo. Ou seja, depois que o filme acaba podemos ver Angela também como uma criança que comete os assassinatos tanto por ser vítima constante de bullying, como por ter, de alguma maneira, ficado complexada com sua mudança imposta de gênero. Ou seja, até mesmo se pararmos para pensar nas questões psicológicas que o filme pode trazer, ACAMPAMENTO SINISTRO sai ganhando. E tudo graças a essa reviravolta final.

Como se trata de um filme com muitas mortes (afinal, é um slasher!) e um tanto de nudez (principalmente nudez masculina) imagino o quanto pode ter sido delicado lançá-lo na época – a classificação indicativa nos Estados Unidos foi a NC-17 (rated R). A jovem atriz de 13 anos Felissa Rose, que interpreta Angela, até teve que sair de uma escola depois do filme, pois começou a sofrer bullying por causa do papel e da sequência final.

ACAMPAMENTO SINISTRO é mais um desses títulos vistos graças à curadoria da Versátil. Está presente no box Slashers (o primeiro volume), que ainda traz um belo documentário de 45 minutos sobre a realização e o legado desse pequeno clássico. 

+ DOIS FILMES

INCUBUS (The Incubus)

Gosto quando sou surpreendido. Um filme estar presente em determinado box, de um subgênero muito específico, como é o caso do slasher, pode mexer com nossas expectativas. Na escolha da noite, os nomes de John Hough (A CASA DA NOITE ETERNA, 1973) e de John Cassavetes funcionaram como um belo atrativo em um filme que supostamente mostraria mais uma onda de mortes causadas por um psicopata. E de fato as mortes acontecem e de maneira seguida, sangrenta e crescente, mas o filme vai seguindo caminhos misteriosos e só entrega as revelações nos instantes finais. Na trama de INCUBUS (1981), Cassavetes é um médico de uma pequena cidade litorânea que tem um passado nebuloso e uma filha adolescente. Na cidade, começam a aparecer vítimas de estupro e assassinato e, ao que parece, o criminoso tem uma força incomum. Ao mesmo tempo, um rapaz começa a acreditar que as mortes estão associadas a sonhos que ele anda tendo. INCUBUS sobe de escala muito por causa da presença apaixonada de Cassavetes, que tem uma técnica muito particular como ator (além de ser um diretor fenomenal). Sem falar que ele gosta de filme de horror, a julgar por sua forte presença em O BEBÊ DE ROSEMARY, de Roman Polanski, e A FÚRIA, de Brian De Palma. O filme tem uma estranheza atraente, até mesmo na maneira como os personagens se comportam, como se não fosse apropriado, como se algo tivesse dado errado na transposição do roteiro para a direção, mas que, no entanto, acaba deixando tudo mais charmoso. Nos extras do box Slashers XI, há uma entrevista com John Hough e ele confunde os filmes. Cita Sophia Loren, sendo que ele dirigiu Loren e Cassavetes juntos antes, em O ALVO DE QUATRO ESTRELAS (1978), outro título que merece, acredito eu, a atenção de alguma distribuidora.

O MASSACRE (The Slumber Party Massacre)

Ando tão cansado que assisti a este filme em duas partes. Preciso ver o que está acontecendo de errado com o meu corpo. A ideia de ver um slasher seria justamente ver um filme que não precisasse pensar muito, mas não sei o quanto isso cabe, já que todo filme é objeto de reflexão, e portanto necessita de energia física e mental. No caso de O MASSACRE (1982), trata-se de uma obra que até hoje desafia as pessoas que procuram vê-lo como uma obra diferenciada justamente por ser um slasher dirigido por uma mulher. Um dos poucos do gênero. A diretora Amy Holden Jones teve que escolher entre trabalhar na edição de E.T. – O EXTRATERRESTRE ou estrear na direção deste filme de orçamento bem modesto. E é um trabalho que fez sucesso, rendeu continuações e se destaca dentro do subgênero, por mais simples que sejam a proposta, os diálogos e a trama. No enredo, grupo de moças resolve fazer uma espécie de festa do pijama com pizza e vinho quando os pais de uma delas deixam a casa para viajar. O assassino com uma arma explicitamente fálica aparece para matá-las, uma a uma, e também alguns poucos rapazes. O filme explora desde o começo a nudez na cena do banheiro, de uma maneira que mais parece a visão de um adolescente tarado. É como se a diretora, sabendo das convenções e do que faria sucesso para o público alvo, resolvesse escancarar, de certa forma, esse aspecto. O MASSACRE tem um tom agradavelmente amador e isso me atrai, traz algo de belo, e o elenco feminino é bom o suficiente para ganhar a simpatia do espectador. Presente no box Slashers II.

sábado, junho 18, 2022

VERÃO VIOLENTO (Estate Violenta)



O nome de Valerio Zurlini me faz lembrar demais Carlão Reichenbach, que idolatrava seus melodramas e tinha como seu filme favorito DOIS DESTINOS (1962), cuja apreciação eu continuo me devendo. Com a partida de Jean-Louis Trintignant ontem, no dia 17, o escolhido para eu ver em homenagem ao grande ator foi o lindíssimo VERÃO VIOLENTO (1959), cuja história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, mais exatamente no ano de 1943, e narra uma história de amor entre um rapaz rico que vive fugindo das convocações do exército e uma viúva (Eleonora Rossi Drago), uma bela mulher mais velha do que ele – pelo visto, para a sociedade daquela época, essa diferença na faixa etária era uma espécie de tabu, quase um escândalo.

A história de amor é tratada com certa simplicidade do ponto de vista da trama, mas com muita sofisticação da direção e da fotografia. A cena da dança que culmina com o beijo dos dois é das coisas mais lindas que eu já vi na vida. E tudo é muito bem preparado para que essa cena seja mágica, inclusive a iluminação e o cenário. A música de Mario Nascimbene é maravilhosa e ajuda a conduzir com paixão a história de amor, desejo e proibição do romance em um contexto histórico em que as emoções se tornam ainda mais intensas.

Gostaria de deixar registrados um ou dois parágrafos a respeito dessa cena da dança, a mais importante do filme. Ela acontece quando Carlo (Trintignant) e seus amigos, junto com Roberta (Drago) e sua prima Maddalena (Federica Ranchi), após uma diversão no circo, adentram a velha mansão do pai de Carlo. O lugar tem uma aura pesada e Carlo resolve fazer uma experiência que se mostra muito interessante, que é apagar todas as luzes para que ele abra as portas da residência e a luz da noite adentre o recinto. Uma canção é escolhida, Carlo dança com a namorada Rosanna (Jacqueline Sassard), embora quisesse mesmo dançar com Roberta, mas isso se resolve quando algo chama a atenção do lado de fora da casa: as luzes de bombardeios atingindo uma cidade próxima.

Depois que todos olham para as luzes com um sentimento misto de maravilhamento e horror, acontece uma troca de casais que beneficiará Roberta e Carlo. Os dois começam a dançar tão juntinhos que a câmera passa a se esquecer dos outros ao redor. Por alguns poucos minutos, os corpos dos dois enamorados se aproximam de tal maneira e com tanto amor que nada mais parece existir. Pelo menos até Roberta acordar um pouco do transe e correr para fora da casa. Carlo a segue e ocorre um beijo. A opção de Zurlini de filmar o beijo inicialmente à distância faz toda a diferença, dando-nos um olhar voyeurístico para aquele gesto tão íntimo dos dois, embora depois aconteça o corte para os dois mais próximos.

A direção de fotografia de VERÃO VIOLENTO é de Tino Santoni, que repetiria a parceria com Zurlini em A MOÇA COM A VALISE (1961). As imagens em preto e branco fornecem um apelo ainda mais expressivo para os sentimentos de tintas dramáticas dos personagens. Se por um lado Carlo parece ser mais contido em seus sentimentos, Roberta deixa claro o quanto está impressionada com o fato de nunca ter sentido tanto amor assim em sua vida, na cena em que os dois acordam deitados na areia da praia, depois de uma noite juntos.

É impressionante como Zurlini ainda não tem o reconhecimento devido nos cânones que elevam os principais nomes do cinema mundial. No livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, por exemplo, não há nenhum filme dele em destaque. Nem mesmo aquele que é talvez o mais famoso, A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE (1972), que eu lembro de ser destaque da revista SET em seus áureos tempos.

Mas falemos um pouco do ator homenageado que nos deixou. Jean-Louis Trintignant (1930-2022) talvez tenha chamado primeiramente minha atenção com o excelente A FRATERNIDADE É VERMELHA (1994), o último longa de Krzysztof Kieslowski, visto nos primeiros anos de minha cinefilia. Talvez eu já tivesse visto o thriller político Z (1969), de Constantin Costa-Gavras em VHS, mas não tenho certeza disso. Outros dois filmes maravilhosos protagonizados por Trintingnant e que vi em casa foram o western O VINGADOR SILENCIOSO (1968), de Sergio Corbucci, e a comédia dramática MINHA NOITE COM ELA (1969), de Éric Rohmer. No fim da carreira, o ator ganharia muito destaque no impactante AMOR (2012), de Michael Haneke. O último filme dele que vi no cinema foi OS MELHORES ANOS DE UMA VIDA (2019), uma das continuações do clássico UM HOMEM, UMA MULHER (1966), de Claude Lelouch. Há vários outros filmes com a presença deste grande ator que ainda não tive a oportunidade de ver, mas com o tempo conhecerei ao menos parte deles.

+ DOIS FILMES

TRIUNFOS DE MULHER (Night Nurse)

Cada vez tenho gostado mais das produções americanas dos anos 1930. A estranheza ocasionada pelo som ainda incipiente na indústria me dá uma sensação muito gostosa, assim como o estilo de atuação. Sem falar que é como entrar numa máquina do tempo que nos leva a momentos e a comportamentos um pouco mais diferentes do que estamos acostumados a ver em filmes hollywoodianos. Este TRIUNFOS DE MULHER (1931) me atraiu pela direção de William A. Wellman e pela presença de Barbara Stanwyck, que considero uma das atrizes mais brilhantes do cinema americano. Aqui ela está novinha, com vinte e poucos anos, e no papel de uma jovem que busca a profissão de enfermeira. A primeira meia hora do filme a apresenta na rotina de trabalhar como enfermeira noturna em um hospital. O restante do filme, curtinho, a torna heroína de uma trama envolvendo um gângster simpático e um chofer malvado numa situação de uma família problemática e crianças doentes. Clark Gable aparece em papel que antecipa um pouco o jeito machão de seus filmes mais famosos. O final é empolgante e divertido.

GREAT FREEDOM (Große Freiheit)

Este filme dirigido por Sebastian Meise trata de uma situação que renderia diversos outros títulos, que é a questão da criminalização da homossexualidade, que na Inglaterra também era crime passível de cadeia até 1967. Na Alemanha (Ocidental), onde se passa a história, essa lei continuou por ainda mais tempo, e é nesse período, que vai de 1945 até o início dos anos 1970, que se passa a trama de GREAT FREEDOM (2021), documentando a trajetória de idas e vindas ao cárcere de Hans Hoffmann, vivido por Franz Rogowski. Aliás, que bela interpretação a desse ator, que inclusive emagrece bastante para viver o personagem em momento imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial. Como a trama não é contada de maneira tão linear, alguns eventos só são conhecidos à medida que vamos nos adaptando àquele ambiente sujo e opressivo. Há até um ou outro momento de ternura, mas no geral é um filme bem seco. Até a fotografia evita cores mais vivas e abraça a vida não vivida, apenas sobrevivida.

quinta-feira, junho 16, 2022

AMOR À FLOR DA PELE / IN THE MOOD FOR LOVE (Fa Yeung Nin Wah)



É muito curioso o fato de que o último texto que escrevi para o blog (já faz mais de um semana. :/) tenha sido sobre MURIEL, de Alain Resnais, e agora seja sobre AMOR À FLOR DA PELE (2000), de Wong Kar-Wai, revisto depois de mais de 20 anos. A primeira vez foi em película no dia 14 de julho de 2001, no Cinema do Dragão, que ainda se chamava Espaço Unibanco Dragão do Mar. Na época, não foi um filme que me deixou apaixonado. Talvez por eu não ter entendido muito bem, talvez por ser um período da minha vida em que ainda não tinha me restabelecido completamente do fim de um relacionamento estável. E o filme de Kar-Wai demanda atenção, demanda percepção e um olhar tão racional quanto sensível às imagens e aos sentimentos dos personagens. Agora, revendo numa cópia DCP 4K remasterizada lindona, pude perceber muito mais sua beleza e sua importância justíssima na história do cinema.

Agora eu vejo que muito da graça do filme está em não ser tão fácil de compreender, em não sabermos detalhes que o próprio Kar-Wai esconde do espectador, como a dúvida que fica sobre se o casal de protagonistas faz ou não faz sexo. Ou a decisão de nunca mostrar seus cônjuges, tornando a narrativa mais misteriosa. O fato de Kar-Wai mudar diversas vezes o figurino da personagem de Maggie Cheung também desnorteia um pouco. Mais ou menos como fez Resnais em seu MURIEL, quando mudou mobílias de lugar na mesma cena.

Acredito que ver os filmes anteriores do cineasta chinês ajude mais a compreender AMOR À FLOR DA PELE – há personagens em comum, por exemplo, com DIAS SELVAGENS (1990). Saber um pouco mais da história de Hong Kong também pode ajudar. O território passou mais de 150 anos sob domínio britânico e só foi devolvido à China em 1997. E no meio disso tudo houve a dominação japonesa nos anos da Segunda Guerra. Nesse ínterim, Hong Kong criou sua própria identidade, identificando-se tanto com o ocidente quanto com a China, presente de modo mitológico em tantos filmes de kung fu produzidos durante a primeira geração de cineastas do território.

O próprio personagem de Tony Leung, o sr. Chow, está trabalhando na confecção de um roteiro para um filme de artes marciais. (Ou seria um romance? Não lembro mais.) Curiosamente, quem mais vai ao cinema é a sra. Chan de Maggie Cheung. O sr. Chow apenas diz: eu já fui muito ao cinema antes. Sabendo que seus cônjuges estão os traindo, eles começam a se aproximar e a relação dos dois ganha um contexto de possível caso amoroso, embora nunca fique muito claro até que ponto a aproximação dos dois foi consumada. Isso se aproxima um pouco do sentimento de proibição que estava no ar naquela Hong Kong ainda muito tradicionalista e moralista dos anos 1960. E isso deixa claro o quanto o território ainda não estava tão atrelado assim às modernidades da contracultura do mundo ocidental, pelo menos no que se refere aos relacionamentos.

Há uma cena que diz muito disso. A sra. Chan entra escondida no quarto do sr. Chow e ela acaba tendo que ficar mais de um dia lá, já que seus quartos eram conjugados e uma senhora iria passar a noite inteira jogando com seus amigos. O espaço onde eles vivem é como uma pensão familiar e, portanto, sem privacidade.

Kar-Wai esbanja elegância e sensualidade, especialmente nas vezes que vemos Maggie Cheung caminhando pela cidade ou pelos becos em slow motion e ao som da trilha de Michael Galasso (AMORES EXPRESSOS, 1994) e Shigeru Umebayashi (2046 – OS SEGREDOS DO AMOR, 2004). A trilha é carregada de uma melancolia bem pesada e as canções em espanhol cantadas por Nat King Cole também enfatizam o sentimento de estarmos vivendo em um passado quase remoto.

O sentimento de abandono é tão forte, especialmente do ponto de vista da personagem de Maggie Cheung, que a relação amorosa (ou de amizade) que ela passa a estabelecer com o personagem de Leung passa a ser menor. De certa forma é compreensível que Leung ame mais Cheung do que ela a ele. A própria câmera namora o balançado do corpo da mulher, sempre vestida com roupas que fazem jus à sua exuberância.

Como o estilo de Kar-Wai se sobrepõe ao sentimento dos amantes abandonados, não fiz a mesma torcida pelo casal como fiz com outra produção de Hong Kong, COMPANHEIROS – QUASE UMA HISTÓRIA DE AMOR, também estrelada por Cheung e mais próxima de uma comédia romântica convencional, se comparada com o impacto visual e narrativo do filme de Kar-Wai. Mesmo assim, e apesar de meu corpo ainda não estar suficientemente favorecendo as apreciações fílmicas, rever AMOR À FLOR DA PELE foi bom demais. E acredito que tenderá a crescer mais ainda nas futuras revisões. Quem sabe um dia eu volto aqui para escrever um texto mais decente sobre o filme. De todo modo, há toneladas desses textos mais aprofundados na internet, que só provam que escrever sobre esta obra parece ser sempre insuficiente, seja pelo que percebemos (especialmente na forma), seja pelo que ainda precisamos aprender ou notar.

+ DOIS FILMES

TRE PIANI

Um filme que traz imenso prazer em seu terço inicial, principalmente, mas que infelizmente vai perdendo a força à medida que avança em sua estrutura narrativa. Como nenhuma das três histórias é exatamente excelente, talvez a opção de amarrá-las em um único filme tenha sido uma alternativa interessante. E com alguma frequência TRE PIANI (2021), de Nanni Moretti, funciona, embora na maioria das vezes não faça muita diferença esse link. A história liderada por Ricardo Scarmacio, que sofre com um evento envolvendo a filha e depois com uma situação com uma jovem, talvez seja a que mais apresenta elementos dramáticos mais densos. Ainda assim, é a história liderada por Alba Rohrwacher que tem mais potencial trágico, levando em consideração a doença e a solidão da protagonista. Enquanto isso, Margherita Buy, a atriz de MIA MADRE (2015), é a que lidera o mais representativo dos temas que Moretti tem abordado nas últimas duas décadas, como a dor da ausência do filho. As outras histórias também tratam de temas caros ao diretor. Por mais que não tenha sido o sucesso que gostaríamos que fosse, é sempre bom acompanhar o trabalho de um diretor maduro e talentoso.

LAÇOS DE SANGUE (Hard, Fast and Beautiful)

E eis que, para minha surpresa, LAÇOS DE SANGUE (1951), o meu filme favorito da Ida Lupino na direção, não trata de nenhum tema trágico ou com uma carga de horror intensa. Trata-se de um lindo trabalho sobre ambição, carreira, escolhas, e mais um bocado de coisas que dão muito o que falar. Fiquei feliz de ter ido ver no Cineclube da Mostra “Ida Lupino - Subversão e Resiliência” anos atrás, em vez de ter deixado pra ver em casa. O debate também foi bastante enriquecedor. Na trama, uma jovem prodígio do tênis é forçada a escolher entre um romance e as ambições de sua mãe.

domingo, junho 05, 2022

MURIEL (Muriel ou le Temps d’um Retour)



Estava procurando alguma coisa no meu acervo de livros sobre MURIEL (1963) e acabei me deparando com esta quarta capa do livro Os Filmes da Minha Vida 4 – O Real e o Imaginário, organizado por Renata de Almeida. Há nesta quarta capa os dez mandamentos de um cinéfilo, criados por Leon Cakoff. Um deles me chamou a atenção e tem tudo a ver com a minha relação com o filme visto: “reconhecer a sua própria ignorância, pois ninguém nasce sabendo (quem não reconhecer a sua ignorância continuará ignorante)”. Um outro que pode valer também é “Na dúvida, ao final de um filme, não emitir opinião errada”. Como eu costumo escrever sempre pequenos textos (para o álbum do Facebook e para o Letterboxd) sobre minha relação com o filme recém-visto, então, relevem: são apenas impressões que podem mudar com o tempo, seja pela maneira como o filme permanecerá (ou não) em minha memória, seja através de estudos que me ajudam a abrir os olhos sobre a obra em questão.

O cinema de Alain Resnais não é sempre fácil. Mas, assim como apenas na terceira tentativa consegui ver (e adorar) 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick, também foi só na terceira vez que vi HIROSHIMA, MEU AMOR (1959), dessa vez no cinema, que eu percebi o quanto a poesia desse filme é mágica e impressionante. Por isso, por mais que a minha experiência com qualquer filme de Resnais não tenha sido das mais “agradáveis”, eles sempre serão encarados por mim com o maior respeito e reverência.

Por ocasião do centenário de Resnais (em 3 de junho), lá fui eu pegar uma de suas obras do box O Cinema de Alain Resnais, da Versátil. Escolhi o mais antigo, dentre os inéditos pra mim, e a escolha pode ter sido a mais difícil, para lembrar de um termo familiar nos dias de hoje. Talvez porque o cineasta tenha acabado de sair de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961), sua experiência mais radical do ponto de vista formal e narrativa, e seguia querendo inovar, com seu cinema ainda bastante desafiador. 

MURIEL é confuso, mas muitas vezes isso serve para nos fazer questionamentos (em vários momentos eu gesticulei para a televisão, como aquele meme do John Travolta) e por isso mesmo nos manter acesos. Muitas dessas dúvidas que me surgiram tiveram a ver com as motivações dos quatro personagens principais, todos misteriosos e sem muita certeza do que lembram e do que queriam no passado ou querem no presente, especialmente o casal mais velho, Hélène (Delphine Seyrig) e Alphonse (Jean-Pierre Kérien). O casal mais jovem vive um outro tipo de angústia, especialmente Bernard (Jean-Baptiste Thiérrée), atormentado por um passado recente na Guerra da Argélia, quando conheceu uma moça chamada Muriel. Já Françoise (Nita Klein) tem um tipo de relação pouco compreensível com os dois personagens masculinos.

Resnais brinca com uma montagem que salta tão rapidamente que é preciso muita atenção. Na análise sobre o filme presente no box, soube que o diretor mudava o cenário no meio de uma cena, ou mudava a posição dos móveis com frequência. Além disso, percebi que os dias se confundem com as noites e a noção do tempo também se torna difusa. Por isso, de certa forma os dramas dos personagens afetam pouco a audiência, pelo menos de uma maneira mais convencional, já que há toda uma questão da narrativa fragmentada que faz com que a experiência de ver MURIEL seja um desafio do primeiro ao último minuto. Logo no começo, fiquei bastante incomodado com o fato de a casa ser próxima à praia (como Hélène informa) e demorarmos muito a ver a tal praia. Pode ser um incômodo banal, mas faz parte de um tipo de desconforto proposital que Resnais parece querer trazer.

A própria escolha da locação, a cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, é deliberada, já que é uma cidade cuja área foi 85% comprometida com as explosões na época da Segunda Guerra. Ou seja, é uma cidade que convive com prédios reconstruídos e uma parte antiga, ainda de pé. Ambas as partes da cidade são mostradas e também contribuem com a sensação de deslocamento. A própria casa de Hélène é um antiquário e sempre aparece diferente, já que ela trabalha vendendo vários móveis antigos. Assim como a cidade e a casa de Hélène, a vida dos quatro personagens principais também está em processo de reconstrução. E muitas vezes de perda da memória.

Outra sensação de estar perdido vendo MURIEL está nos diálogos. Como os personagens evitam se comunicar, ou falar a verdade, ficamos sem compreender certas ações. Em certo momento, Françoise conversa com um dos personagens e reclama com o fato de ele não conseguir completar uma frase. Essa cena é bastante representativa da nossa relação com a obra, mas também do quanto Resnais intenciona nos colocar um pouco na posição confusa daqueles seres humanos deslocados e sensíveis. Assim, o passado parece ao mesmo tempo distante e imaginário, principalmente para os personagens mais velhos (Hélène e Alphonse), que foram namorados durante a juventude e o fato de terem rompido é algo que se tornou uma espécie de trauma para os dois.

A personagem-título é uma mulher que nunca aparece e que seria a namorada de Bernard. De acordo com o que vemos nas cartas do rapaz e em um relato narrado, a moça teria sido alguém que fora torturada e morta na guerra da Argélia, acusada de sabotagem. Bernard diz ter uma namorada com esse nome, mas Hélène, por exemplo, nunca a viu. Seria Muriel uma criação da mente de Bernard para afastar um possível sentimento de culpa? Aliás, a guerra da Argélia (1954-1962) era um assunto que rendia censura na época, como foi o caso de O PEQUENO SOLDADO, de Jean-Luc Godard, que só foi liberado pela censura após o fim da guerra. MURIEL foi provavelmente liberado pois a guerra já havia acabado em 1963.

Quando Alphonse surge na casa de Hélène, ele chega acompanhado de uma mulher mais jovem, que diz ser sua sobrinha, embora na verdade eles tenham sido amantes. Françoise, por sua vez, procura se aproximar de Bernard, o que não é fácil, já que ele é um rapaz de comunicação complicada. Lá pelo final do filme, inclusive, vemos uma outra moça que seria a namorada de Bernard, uma jovem com um visual andrógeno, que, por conta da montagem cada vez mais fragmentada, é uma personagem de que pouco sabemos.

MURIEL não é um filme de travellings. Em vez do uso da movimentação de câmera, Resnais prefere os cortes rápidos. Mesmo quando usa o campo/contracampo, isso é às vezes mostrado de maneira distinta do que estamos acostumados. Como o diretor se declarava fã de quadrinhos, também usou com bastante frequência falas vindas de uma cena anterior na cena seguinte. Não chega a ser um recurso tão complicado, mas talvez tenha causado um pouco de incompreensão na época. Imagino que isso seja não apenas um recurso mais moderno de narração, mas uma adição para o sentimento de deslocamento mental e às vezes completa incompreensão do que está acontecendo. E quando achei que o filme já nos deixou suficientemente confuso, eis que o final me deixa sem chão. De todo modo, adoraria ter a chance de rever MURIEL no cinema. Seria incrível. 

+ DOIS FILMES

O TETO (Il Tetto)

Um filme como este, que deixa um calorzinho no coração, se faz necessário nos dias de hoje. Me fez lembrar O PÃO NOSSO, de King Vidor, no que se refere ao espírito coletivo em prol de uma ação nobre, mas é muito mais humilde. Quando vemos o casal de O TETO (1956), vivido por Gabriela Pallotti e Giorgio Listuzzi, se casando e depois partindo para morar na casa pobre e já cheia de gente da família do noivo, do quanto aquilo tudo é desconfortável, tenso e carente de privacidade, isso é só o começo para nos prepararmos para a jornada do casal por um espaço para morar, quatro paredes e um teto, tendo muito pouco dinheiro no bolso e tentando burlar as leis municipais para conseguir o seu sonho. O grau de humanidade deste filme de Vittorio De Sica o coloca, pra mim, como um de seus melhores trabalhos. O roteiro é de Cesare Zavattini, parceiro de outros grandes trabalhos do diretor, como LADRÕES DE BICICLETA (1948), DUAS MULHERES (1960), entre outros. De dar gosto. Filme presente no box O Cinema de Vittorio De Sica.

NÃO AMARÁS (Krótki Film o Milosci)

A vantagem de a memória nos ser falha é que vemos alguns filmes como se fosse a primeira vez. Os filmes do Krzysztof Kieslowski têm esse poder de se tornarem melhores ainda na revisão, de haver sempre detalhes a serem percebidos. NÃO AMARÁS (1988) é até um dos mais acessíveis em sua narrativa muito clara sobre a paixão/obsessão de um rapaz por uma mulher. Ele a espia todos os dias com uma luneta, até que começa a querer se aproximar fisicamente dela. É o JANELA INDISCRETA do Kieslowski. Há um pouco de suspense, mas o que há mesmo é um manancial de emoções. E o que é aquele final, meu Deus?! É como se o filme (aquilo que é assistido) olhasse para o espectador e percebesse a beleza da imaginação. Que coisa linda!

sábado, junho 04, 2022

IRMA VEP



Antes de mais nada, queria deixar registrado o meu agradecimento a Olivier Assayas e ao filme IRMA VEP (1996), em particular, por ter conseguido me manter ligado e tranquilo do início ao fim. Pode parecer bobagem dizer isso, levando em consideração que o filme não tem nem 100 minutos, mas ultimamente ando exausto, suspeitando que estou com esgotamento físico, burnout, ou talvez até sintoma da chamada Covid prolongada. Ou talvez apenas seja consequência do cansaço físico e mental que o retorno às aulas presenciais, em particular em uma das escolas, me provocou. Ou talvez o problema não seja necessariamente da escola, mas do momento, do pós-pandemia. Aliás, nem é pós-pandemia, pois o vírus anda circulando e matando ainda. Enfim, deixando a culpa de lado, o fato é que revi IRMA VEP com uma sensação muito agradável de estar bem e feliz diante desta pequena obra-prima.

O filme foi a primeira obra de Assayas que vi, graças ao meu amigo Renato Doho, que o gravou em uma fita VHS no início dos anos 2000. Até é possível ler um pequeno comentário meu escrito no blog em 2003. Esse período, o início do milênio foi muito importante pra mim, como um momento de descoberta e de compreensão de que o mundo do cinema era muito maior, empolgante e inesgotável do que eu imaginava.

O primeiro filme de Assayas a ser exibido em circuito local foi CLEAN (2004), para se ter uma ideia – posso estar enganado e algum anterior ter sido exibido discretamente, mas acho bem pouco provável. Certos títulos dos anos 2000 do cineasta, só pude vê-los em seus lançamentos em DVD, como ESPIONAGEM NA REDE (2002) e TRAIÇÃO EM HONG KONG (2007). Ou seja, apesar de Assayas ser um diretor cultuado, demorou a ser um cineasta com forte presença nas telonas da minha cidade.

Com IRMA VEP, Assayas constrói um filme tão saboroso que dá vontade de viver dentro dele. Destaco principalmente a cena do jantar, com a câmera passeando por diversos lugares da casa (adoro também a personagem de Nathalie Richard), mas também aquela cena fantástica do sonho (?), que começa ao som de Sonic Youth, e depois vemos Maggie Cheung na tentativa de roubar um colar – uma prova de que Assayas também dominaria um filme de gênero tranquilamente, como faria posteriormente com PERSONAL SHOPPER (2016).

E há aquela cena de Maggie dando uma entrevista para um repórter fã de John Woo, que desperta ao mesmo tempo riso e raiva do tal sujeito – mais adiante, com ACIMA DAS NUVENS (2014), veríamos uma discussão acalorada sobre a questão cinema americano comercial vs. cinema francês de autor. Outro acerto de Assayas é escalar uma atriz e nos deixar tão apaixonados por ela quanto o próprio diretor. O filme brilha com a beleza de Maggie Cheung e seu jeito, ao mesmo tempo tranquila e tímida, diante daquele mundo novo. E quando achamos que o filme não nos surpreenderia, vêm aquelas imagens finais fantásticas e que hoje, com o digital imperando, parecem ser ainda mais tributárias do cinema, como uma arte quase palpável na era analógica.

Assayas tem como uma de suas marcas esse abraçar a cultura pop, o rock, o cinema americano, embora deixe bem claro que o tipo de cinema que realiza é mais aproximado mesmo do cinema francês, embora com um viés mais moderno, por assim dizer. Daí essas discussões, essas piscadelas, esses atritos, acontecerem com certa frequência. No caso de IRMA VEP, há uma ligação forte com o seriado para cinema OS VAMPIROS (1915). É desse seriado que vem a personagem título, que no clássico de Louis Feuillade é interpretado pela lendária Musidora, atriz extremamente carismática e expressiva que também se aventuraria pela direção.

O diretor de IRMA VEP, René Vidal, vivido por outro ator lendário, Jean-Pierre Léaud, mais conhecido por suas colaborações com François Truffaut (mas não apenas), traz Maggie Cheung, vivendo “a si mesma”, saindo de Hong Kong para Paris para ser a nova Irma Vep nesse projeto de um diretor com pinta de gênio. Vidal havia visto Cheung em algumas fitas de ação, como HEROIC TRIO, de Johnnie To, e não consegue tirar da cabeça que ela seria a Irma Vep perfeita. A atriz aceita, com muita simpatia e generosidade, ser a protagonista do filme. O problema é que as filmagens já começam de maneira muito tumultuada, com o cineasta entrando em uma espécie de colapso nervoso. Enquanto isso, Maggie fica sabendo que é desejada pela assistente Zoé (Nathalie Richard). É Zoé quem adequa o figurino de látex ao corpo de Maggie. Um tipo de figurino, aliás, muito próximo de uma fantasia de sadomasoquismo, algo que parece ser uma obsessão de Assayas, vide ESPIONAGEM NA REDE.

O crítico Franck Le Gac, em texto para a coluna "Great Directors", do site Senses of Cinema, diz sobre Assayas:

Seu foco tende a ser mais nos momentos íntimos, aparentemente insignificantes e banais da vida cotidiana, sua fisicalidade e materialidade humildes – e como muitas vezes elas dão visibilidade a dilemas morais e sentimentos equívocos de modo melhor do que os diálogos ou, obviamente, do que os códigos de atuação. (tradução minha)

Ou seja, quando vemos uma cena como a de Maggie e Zoé no táxi, a caminho de uma rave, e depois a conversa das duas, ou a já citada sequência do jantar, percebemos o quanto esses momentos aparentemente insignificantes se tornam grandes e extremamente importantes dentro do filme. E também vemos o quanto de herança Assayas recebeu dos vários cineastas da Nouvelle Vague. E o quanto ele amplia a influência do globalismo na sociedade francesa – isso, inclusive, é tema de outros de seus trabalhos posteriores, seja como debate, seja como parte orgânica da narrativa.

+ DOIS FILMES

A IGUALDADE É BRANCA (Trois Couleurs: Blanc)

É interessante ver um Krzysztof Kieslowski mais leve, fazendo uma comédia no meio de dois filmes bem dramáticos da trilogia das cores. A IGUALDADE É BRANCA (1994) é geralmente o menos querido dos três, e eu diria o mesmo, mas é uma obra que merece mais carinho. É uma espécie de versão leve da história do homem que tenta algo muito louco para recuperar a mulher amada, algo visto em tom mais sombrio na obra-prima NÃO AMARÁS (1988). É também um filme que respira muito bem, especialmente quando o protagonista retorna à Polônia, local da maior parte da narrativa. Há também uma bonita história de amizade no meio de tudo.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois Couleurs: Rouge)

É ser muito afortunado poder ver no cinema, em um espaço de dois dias (isso foi em 2020), duas obras-primas de Krzysztof Kieslowski estreladas pela lindíssima Irène Jacob – o outro foi A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (1991). Em A FRATERNIDADE É VERMELHA (1994), a atriz traz uma carga de sensibilidade, de bondade e de fragilidade tão fortes que, a cada vez que ela é confrontada com a figura do velho amargurado vivido por Trintignant, é como se estivéssemos prestes a ver um copo de cristal se quebrar. No entanto, ela fica e tenta entender aquele homem, os seus atos. Mais uma vez, o cineasta lida com o cruzamento de destinos e também com um tipo de amor universal de uma maneira mais leve do que em A LIBERDADE É AZUL (1993). Além do mais, em vez de um choro em meio a uma conclusão quase feliz, o que temos é um sorriso após uma tragédia.