quinta-feira, março 28, 2013

SOMBRAS (Shadows)



Já havia visto dois filmes de John Cassavetes, mas acho que não contam. O primeiro foi GLÓRIA (1980), um tanto convencional; o outro, OS MARIDOS (1970), numa versão dublada na Globo, horrível. Então, ver SOMBRAS (1959) é como se eu estivesse, só agora, conhecendo de verdade o cinema do cultuado diretor nova-iorquino. O impacto só não foi maior porque eu percebi no filme uma sintonia com os primeiros trabalhos dos cineastas da nouvelle vague (Godard, Truffaut, Rivette). E curiosamente, SOMBRAS é do mesmo ano de OS INCOMPREENDIDOS. É como se esses diretores tivessem entrado em sintonia com o espírito daquela época, não necessariamente recebendo influência do outro.

Porém, perto de SOMBRAS, OS INCOMPREENDIDOS parece um filme convencional. Nesse sentido, os mais experimentais ACOSSADO e PARIS NOS PERTENCE têm mais em comum com SOMBRAS. O fato é que o primeiro longa-metragem de Cassavetes, por ser quase que destituído de roteiro e ser autodescrito como um filme improvisado em seus créditos finais, torna-se quase único, como numa tentativa de emular a improvisação do jazz, dos músicos da geração beat, que aparecem em SOMBRAS, mas como personagens destituídos de glamour.

Aliás, uma das coisas que mais impressiona no filme é o quanto todos aqueles personagens são reais. A maioria deles feios. A graciosidade está apenas em Lelia (Lelia Goldoni), a mulher que encanta e a personagem que eu considero como o grande centro do filme. Sem ela, SOMBRAS teria sido uma experiência completamente cerebral para mim. Mas os seus gestos, sua dificuldade de ir em busca do que deseja, suas motivações, tudo isso faz com que ela seja fascinante.

Ela é uma personagem bastante perdida na vida, mas os demais são ainda mais. Como os irmãos, que representam um momento do filme que busca questionar o preconceito racial, mas que aos poucos é deixado de lado. Pelo que li no livro John Cassavetes – The Adventure of Insecurity Studies in Contemporary Film, de Ray Carney, esse elemento do preconceito racial foi perdendo força quando Cassavetes resolveu mexer na primeira versão do filme, de 1957, e incluir novas cenas, várias delas importantíssimas para que o filme chegasse a um resultado que me agradou bastante. Deixou, assim, de ser totalmente improvisado, mas ganhou em força.

Interessante o título do livro, que destaca o termo "insegurança", que é uma palavra que pode ser associada a qualquer personagem de SOMBRAS. E até ao próprio diretor, que, pelo que diz o autor do livro, faz filmes como se tateasse no escuro. Segundo o autor, "numa cultura devotada ao saber, Cassavetes ousou fazer perguntas que ele não sabia as respostas." (p. 10). SOMBRAS pode não ter me proporcionado o maior prazer que eu tive vendo um filme, mas acredito que, aos poucos, à medida que for me familiarizando com a obra do diretor, irei gostar mais e mais.

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