quinta-feira, maio 14, 2026

FUGA DO PASSADO (Out of the Past)



Fico às vezes pensando no quanto minha memória é falha em relação a filmes e livros. Se bem que talvez esse seja um problema que não afeta somente a mim. O que sei é que há filmes que me provocam certa atração e ao mesmo tempo vão embora nas sombras da memória, como se fosse um sonho, que, se não anotarmos ou não contarmos imediatamente para alguém, ele logo vai para o esquecimento eterno. E há filmes que têm mesmo esse teor de sonho, e o noir talvez se aplique bem a essa categoria. Nem faz tanto tempo assim que vi pela primeira vez FUGA DO PASSADO (1947), de Jacques Tourneur. Foi em 2009 e escrevi quatro pequenos parágrafos a respeito para este espaço. .

Só que esse filme vem me chamando a atenção para a revisão já faz um tempo. Primeiro quando a Versátil o colocou entre os 10 essenciais do subgênero do livro Filme Noir – Dez Filmes Essenciais da Coleção, da já saudosa “enciclopédia Versátil”, a série de livros de gêneros diversos publicados ao longo de mais de dois anos pelo selo. No livro, o texto escrito por Heitor Romero destaca o filme como parte dessa “antena coletiva” que fez com que praticamente todos os filmes policias e criminais da época possuíssem essa aura sombria, com mais sombras do que luzes em fotografias principalmente em preto e branco. Afinal, o mundo estava em guerra e depois da Segunda Guerra viria a guerra fria. Os artistas têm a sensibilidade de criar uma espécie de documento de sua época. E os diretores de filmes noir, em sua maioria, faziam produções B (de baratas), tendo, portanto, menos interferência dos produtores.

A vontade de rever FUGA DO PASSADO veio também com o podcast Filmes Clássicos, em que os três criadores do conteúdo discutem sobre o clássico. Ouvi duas vezes: uma antes de rever o filme, para aumentar a vontade, meses atrás, e outra de ontem para hoje, com a lembrança da história e dos personagens mais fresca. Outra pessoa que também escreveu sobre o filme recentemente foi Filipe Furtado, em seu Substack, o que foi aumentando ainda mais meu interesse e minha atração pela obra.

E de fato FUGA DO PASSADO é desses filmes que merecem revisões regulares. A tragédia do protagonista, vivido por Robert Mitchum, ao ter que adentrar o passado que tentou esquecer, fica mais clara (ou mais escura?) na revisão. O filme começa com uma imagem bem ensolarada, com um homem aparecendo durante o dia numa cidadezinha do interior em busca de Jeff Bailey, o personagem de Mitchum. Depois vemos Jeff com sua namorada, Ann (Virginia Huston), sonhando com um futuro tranquilo que quer ter com ela naquele lugar pacato. 

Acontece que ele é encontrado e chamado pelo antigo chefe (Kirk Douglas). E por isso ouvimos o longo flashback que nos deixará a par de seu passado. Eu até diria que o melhor do filme está nesse flashback, quando ele conhece Kathie (Jane Greer, vivendo uma das mais marcantes femme fatales da história do cinema). Kathie, supostamente, havia atirado no chefão e fugido com 40 mil dólares. E é claro que Jeff vai se apaixonar por Kathie, e esse interesse, esse tesão, essa sensação de querer viver uma aventura perigosa com aquela mulher atraente, reverbera na mente do espectador também. É uma pena que a carreira de Greer não tenha sido tão bem-sucedida, mas acabei de ver que ela aparece justamente no remake de FUGA DO PASSADO, o thriller PAIXÕES VIOLENTAS, de Taylor Hackford. Aliás, bateu vontade de ver esse filme, hein.

Voltando ao filme de Tourneur, é interessante notar como fica destacada a mudança da luz para a sombra, logo que o herói é enviado para conversar com o chefão do crime e deixa aquele ambiente idílico e aquela namorada carinhosa. Sem falar que toda a descrição de quando ele conhece Kathie, tem algo de fatalista e ao mesmo tempo muito atraente. Na primeira aparição de Kathie, inclusive, quando ela adentra o bar, ela sai da luz para as sombras, da luz do luar para a penumbra daquele ambiente, em Acapulco. Depois, nas cenas na praia, seremos presenteados com mais desse sentimento conflitante e excitante. O que é impressionante, levando em consideração as limitações que o Código Hays impunha aos cineastas, no que se referia às cenas sensuais.

Podemos dizer, inclusive, que a atmosfera do filme é devedora do estilo e da sensibilidade de Tourneur, que já havia reinventado o horror com SANGUE DE PANTERA (1942) e A MORTA-VIVA (1943) e aqui contribui para o ciclo noir com sua capacidade impressionante de registrar a noite como um personagem da trama. Em determinado momento, Jeff diz que havia trocado o dia pela noite, já que não encontrava Kathie de dia. Como se ela fosse de fato alguém das trevas. Como mais tarde isso se comprovará. 

Depois do flashback, eu sinto que o filme entra numa outra trama bastante confusa e intrincada, mas não chegamos a perder o interesse. Mesmo sem entender muito bem certas coisas do enredo, dos planos e contraplanos dos personagens, FUGA DO PASADO permanece fascinante. Até porque teremos aparições diferentes de Kathie, sendo que a última dela, com uma vestimenta parecida com a de uma freira de roupa escura, a coloca numa posição de figura das trevas, logo após ter matado o personagem de Kirk Douglas. Ou seja, todas essas sutilezas e maneiras diferentes com que a personagem aparece enriquecem e muito a obra como um todo, colocando o clássico de Tourneur no alto de um ranking não apenas dos melhores filmes do ciclo, mas do cinema mundial como um todo.

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PRECIPÍCIOS D'ALMA (Sudden Fear)

A iniciativa recente da Versátil Home Vídeo de publicar livros temáticos foi recebida com entusiasmo por mim. Nem sempre vou conseguir tempo para ver todos os filmes disponíveis em minha coleção de mídia física, e por isso alguns deles ficam invisibilizados por um longo tempo. Certos títulos aparecerem em destaque nos livros chama a atenção para que sejam vistos. Foi o caso de PRECIPÍCIOS D'ALMA (1952), de David Miller, que apareceu no livro Thrillers – Pérolas do Suspense, e que está presente no box Filme Noir Vol. 8, que inclusive traz um ótimo extra do curador Fernando Brito destacando a importância e a beleza do filme. Confesso que, por mais que já esperasse um grande filme, não imaginava quão maravilhoso e inventivo seria em sua junção de melodrama, suspense e até terror na história de uma dramaturga milionária (Joan Crawford) que se apaixona por um ator meio canastrão (Jack Palance). Depois da conquista, vem o casamento, e com meia hora de filme surge uma personagem-chave (Gloria Grahame) para a mudança de tom da narrativa. A cena em que a personagem de Crawford descobre numa gravação os planos do casal de picaretas é incrível, e até penso como uma cena que influenciou Brian De Palma em UM TIRO NA NOITE. Outra cena muito inventiva, talvez a melhor, é a sequência final, que começa com as imagens dos planos da heroína sinalizados por um grande relógio com os ponteiros rodando na tela. Absolute cinema!!

CÓDIGO PRETO (Black Bag)

Acompanho a carreira de Steven Soderbergh desde quando era tudo mato. Vi no cinema seu até agora insuperável SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (1989) e fui acompanhando suas obras sem perder nenhum filme (com exceção de alguns inéditos no Brasil) até, acho, CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA (2009). Depois começou a ficar difícil acompanhar, tanto pela rapidez com ele que lançava novos filmes, quanto por ele gostar de alternar filmes de produção mais cara com produções mais baratas, mais independentes. E sempre achei muito legal isso, embora nunca tenha encontrado uma assinatura em seus filmes. CÓDIGO PRETO (2025) seria parente de IRRESISTÍVEL PAIXÃO (1998), pela beleza de seus atores, pela classe com que ele os apresenta, pelo visual caprichado na fotografia, e também por abraçar um tipo de gênero específico. Aqui, no caso, o filme de espionagem. O que conta não é o que a gente entende especificamente, já que há um MacGuffin, mas o jogo de nervos que funciona como uma brincadeira perigosa e também gostosa de acompanhar. Um luxo poder trazer tanto Cate Blanchett quanto Michael Fassbender, dois baita atores que também têm grande presença de cena. Soderbergh capricha na edição, nos diálogos e na atmosfera, trazendo perigo quando o que mais vemos é mais conversa e menos violência.

CAMINHOS DO CRIME (Crime 101)

É impressionante como o capitalismo está tão enraizado na alma do estadunidense (tentando me acostumar a usar esse termo) que os desfechos felizes de certos personagens são associados muito mais ao ganho material do que a outro tipo de felicidade. (Aviso de spoiler leve.) É assim que acontece com a personagem de Halle Berry; é assim que acontece com o personagem de Mark Ruffalo. No caso de Ruffalo, eu nem acreditei no que estava vendo (até pelo posicionamento político de Ruffalo). De todo modo, CAMINHOS DO CRIME (2026), de Bart Laytton, não deixa de ser um bom drama criminal que traz histórias que se entrecruzam, sendo a principal delas a do ladrão vivido por Chris Hemsworth (cada vez melhor ator). O personagem, ao se interessar por uma bela mulher (Monica Barbaro), começa a repensar sua vida de ladrão profissional. Esse aspecto da trama, assim como o andamento mais cadenciado, faz lembrar um pouco FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann. E não duvido que Mann tenha sido uma de suas principais inspirações, embora também lembre tanto o polar (o policial francês dos anos 1950-70) quanto o cinema policial americano da Nova Hollywood, embora bem menos pessimista. Vale destacar também a breve participação de Nick Nolte, em estado físico claramente decadente. Já o personagem de Barry Keoghan, apesar de importante para a trama, me pareceu apagado para o talento do jovem ator.

segunda-feira, maio 11, 2026

JERICÓ (Jerichow)



Há uma meia dúzia de filmes de Christian Petzold dando sopa na Mubi, e outros tantos em meus HDs externos, cá entre nós. E eu tenho essa lacuna imensa na filmografia deste que talvez seja o mais querido cineasta alemão do novo século. E curiosamente JERICÓ (2008) é o filme imediatamente anterior ao meu primeiro contato com o cinema do realizador, BARBARA (2012), que corre o risco de ainda ser o meu favorito, talvez por ter visto numa noite misteriosa, sozinho, com uma plateia pequena, numa sala de cinema que já não existe mais (o Cine Aldeota).

JERICÓ me chamou a atenção, enquanto zapeava pelo conteúdo do streaming por sua relação com o romance de James M. Cain, que já deu origem a dois clássicos do cinema americano de mesmo nome, O DESTINO BATE À SUA PORTA, nas versões de Tay Garnett (1946) e de Bob Rafelson (1981). Aqui Petzold opta por utilizar o esqueleto da história: um homem mais jovem, uma mulher atraente insatisfeita com o casamento, um homem rico cuja morte talvez seja a opção mais viável para a libertação dessa mulher, sendo que ela continuará com dinheiro. O dinheiro como necessidade, mas também como raiz do mal. 

Há, portanto, essa forte conexão com o filme noir americano, embora não se fuja de um tom mais solar, com a traição acontecendo também à luz do dia. Se bem que é uma cena noturna que mais me encanta: Thomas (Benno Fürmann) se esconde pelo bosque, nos fundos da casa de Ali (Hilmi Sözer) e de Laura, vivida por Nina Hoss, a musa maior do diretor [até ele trocá-la por Paula Beer, a partir de EM TRÂNSITO (2018)] . O marido acredita ser um bicho que está fazendo barulho na vegetação, ele se aproxima dela, agarra sua mão e depois some na escuridão. Thomas é um personagem que parece disposto a tudo. Por mais que diga que está apaixonado por Laura, sente-se no ar menos um clima de romantismo e mais uma espécie de desespero por algo proibido. 

Talvez o problema do filme seja não dar tanta importância assim ao pobre marido doente, embora ele não fosse de todo vítima, levando em consideração sua crueldade e violência com a esposa e a pessoas com quem trabalha. Age como um gângster. Mas adoro quando ele some um pouco da história, fazendo com que sua presença seja quase fantasmagórica, meio que assombrando mais o espectador do que o casal, uma vez que nós, espectadores, sabemos de sua não ida para o destino dito para a esposa e para Thomas.

JERICÓ está para O DESTINO BATE À SUA PORTA (e aqui penso na versão de Rafelson) assim como PHOENIX (2014) está para UM CORPO QUE CAI, do Hitchcock, e essa relação de Petzold com o cinema americano muito me interessa, até por ele transgredir o gênero, de certa forma, com as surpresas da narrativa, com o estilo mais seco, No caso de PHOENIX há um namoro forte com o melodrama também. Não é o caso de JERICÓ, que é mais simples, mais contido. Mas essa contenção parece querer explodir o tempo inteiro. Não à toa a palavra “explosão” também ganhe um significado mais concreto no final da trama.

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PROPOSTA INDECENTE (Indecent Proposal)

Adrian Lyne tem uma queda por radiografar relacionamentos complexos, ou às vezes imorais, seja o relacionamento tóxico (9 ½ SEMANAS DE AMOR, 1986), as possíveis consequências de um adultério (ATRAÇÃO FATAL, 1987; INFIDELIDADE, 2002); a atração de um homem mais velho por uma adolescente (LOLITA, 1997); ou o ciúme como inferno na mente de um homem, como o abordado aqui em PROPOSTA INDECENTE (1993). Também podemos ver o filme como um conto moral que lembra o mito de Fausto ou até a tentação de Jesus no deserto. Afinal, quem resiste à tentação de ganhar um milhão de dólares apenas para passar a noite com um bilionário? Ainda tem o agravante que o casal está passando por uma situação financeira difícil, recorrendo ao jogo em Las Vegas como possível solução. Então, há esse bilionário vivido por um ainda charmoso Robert Redford que faz essa oferta, ao ficar encantado pela mulher. E, de fato, Demi Moore nos anos 1980-90 era uma das mais belas atrizes de Hollywood, tanto que na época que ela fez ASSÉDIO SEXUAL, de Barry Levinson, cheguei a achar inverossímil um homem fazer aquela acusação a ela (um filme, aliás, que talvez mereça um novo olhar hoje de minha parte). Woody Harrelson faz o marido carinhoso e que também se vê tentado pelo dinheiro, ainda que absolutamente arrasado com a ideia de a mulher ter ido pra cama com outro homem. E pior ainda: ter gostado. O estilo videoclipesco que era mais presente no cinema de Lyne nos anos 80 segue presente, mas de maneira mais contida. Ajuda a valorizar e dar suavidade às cenas de intimidade com a presença de Moore, três anos depois de GHOST – DO OUTRO LADO DA VIDA e três antes de STRIPTEASE. Os três filmes apresentam mulheres comuns em situações extraordinárias. Moore cai bem nesses papéis, parecendo despojada até mesmo quando está usando um vestido de luxo. O filme tem um final feliz bem-vindo, assim como também é bem-vindo o tom agridoce que fica no ar. Agridoce como a canção de Roy Orbison que sobe nos créditos finais, “A Love So Beautiful”.

8 DÉCADAS DE AMOR (8)

O que aconteceu com Julio Medem? Ou o que vi em OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR (1998) e LÚCIA E O SEXO (2001) foi uma espécie de delírio coletivo? Os demais filmes que vi do realizador foram também interessantes. UM QUARTO EM ROMA (2010) tem o seu charme e MA MA (2015) me fez chorar litros, segundo meu breve registro. Por isso fiquei tão inconformado e até mesmo constrangido com este 8 DÉCADAS DE AMOR (2025). Se eu fosse o diretor teria guardado esse filme numa gaveta com a chave perdida para que ninguém o visse. Ele começa até bem interessante, ambientado numa área rural da Espanha pré-franquista, alguns anos antes da guerra entre comunistas e fascistas (ou pelo menos é assim que é pintada essa guerra no filme). Os dois personagens principais, Adela e Octavio, são apresentados no dia de seus nascimentos (o mesmo dia) e confesso que gostei dessa sequência do parto. Das situações de duas mulheres parindo e passando por complicações, e a utilização do plano-sequência para levar o espectador junto para a ação. Mas na hora que ouvimos o rádio e ficamos a par da situação política da Espanha, já notamos que o modo como essas contextualizações históricas são colocadas são bem pouco sutis. Mas o filme piora muito ao longo de seus oito capítulos, com zero de química do casal principal, situações surreais que não são boas o bastante para provocarem risos e uma queda vertiginosa da qualidade dos diálogos à medida que o filme vai precisando mais deles. Ou seja, Medem, que já fez bom melodrama, entra numas de ser mais estilizado e acaba fazendo um dos filmes mais cafonas e de gosto duvidoso que já vi na vida. E o que é aquela última cena do casal com as duas famílias? É o tipo de filme que vai fundo no mau gosto de forma tão grande que parece até uma espécie de aposta feita ou algo do tipo.

"O MORRO DOS VENTOS UIVANTES" (“Wuthering Heights")

O trabalho mais ousado da inglesa Emerald Fennell acabou se tornando polêmico pelas liberdades criativas da diretora em relação ao romance original homônimo de Emily Brontë, um dos mais importantes do romantismo inglês. Já recebeu críticas negativas logo com a escolha de um ator branco para interpretar Heathcliff, o herói romântico e trágico que dá a volta por cima na vida social para conquistar a mulher de sua vida. Na verdade, não é bem conquistar, já que Cathy também é perdida apaixonada por ele. Mas há, sim, obstáculos a vencer. A história de "O MORRO DOS VENTOS UIVANTES" (2026) já é conhecida e por isso achei muito bem-vinda esta versão, com exageros visuais que muitas vezes fazem lembrar o estilo publicitário. As primeiras imagens já enchem os olhos, ao som da trilha sonora de Charli XCX, que acentua o tom pop adotado por Fennell. Há um cuidado em valorizar das mais diversas maneiras a beleza de Margot Robbie, que defende muito bem a heroína; assim como Jacob Elordi nos apresenta a um personagem carregado de sombras. Aliás, tanto Cathy quanto Heathcliff são heróis dotados também de certa perversidade, estão longe da pureza dos santos. O que os aproxima de certa santidade é a imensa paixão que sentem um pelo outro. E esta versão é certamente uma das mais sensuais e picantes. Adoro a cena de Heathcliff lambendo os dedos de Cathy, por exemplo; assim como são deliciosas todas as cenas dos encontros proibidos. Se não está recebendo o devido mérito, acredito que no futuro essa adaptação receberá uma melhor atenção e carinho de um público maior.

sábado, maio 09, 2026

O RISO E A FACA



Ao terminar de ver O RISO E A FACA (2025) compreendemos o porquê de o filme ter 3h31min de duração – considerada uma duração longa e muitas vezes um empecilho para alguns exibidores. O motivo é que é mesmo necessário que haja um maior contato do protagonista Sérgio (Sérgio Coragem), e por sua vez nossa, com aquele universo tão fascinante que é a Guiné-Bissau apresentada pelas lentes de Pedro Pinho (A FÁBRICA DE NADA, 2017). Aliás, ao ficar sabendo que existe uma versão do diretor de mais de cinco horas de duração, imagino que deva ser ainda melhor, podendo ajudar a unir certos pontos da estrutura narrativa, diminuir a quantidade de elipses, que são bem perceptíveis dentro da trama. Também é destaque no filme a fotografia quente do cearense Ivo Lopes Araújo, e um dos melhores diretores de fotografia do Brasil, aqui optando por filmar em película (16 mm e 35 mm).

O RISO E A FACA é encantador, assim como o mundo excitante que ele trata de mostrar, com muito mais do que miséria, algo que se costuma esperar das obras ambientadas em países africanos, com personagens inteligentes e muito conscientes de sua própria força, principalmente Cleo Diára, que faz Diára, uma mulher que faz a cabeça do engenheiro ambiental português e bissexual.

Existe uma tensão sexual que se apresenta a partir da resistência de Diára às investidas de Sérgio, até chegar à cena de sexo que já é uma das mais memoráveis do cinema recente. Os planos são geralmente longos e desapressados, com um registro por vezes documental (dos cinco longas de Pedro Pinho, dois são documentários, e imagino que isso deve influenciar no estilo do cineasta). O filme não é só excitação: há toda uma discussão política do papel explorador do povo europeu frente ao povo africano e ver esse tipo de discussão se apresentando é muito importante, levando em consideração que a realidade da África é tão pouco vista em nosso circuito. Assim como o cinema africano em si. E aqui nem é um cinema africano, mas um cinema europeu com um bocado de culpa. Ainda que seja uma culpa que ande de mãos dadas com certo orgulho.

Voltando a Cleo Diária, essa bela atriz ganhou o prêmio de melhor atuação na mostra Un Certain Regard de Cannes-2025. Além disso, o filme está presente no top 10 da Cahiers du Cinéma, junto a obras de realizadores mais badalados, como Paul Thomas Anderson, Kleber Mendonça Filho, Richard Linklater e Christian Petzold. Gostaria muito de ver o corte de mais de cinco horas do filme. Aliás, ao pensar nele, dá vontade de revê-lo como está sendo apresentado agora, num formato um pouco mais palatável para o mercado.

Li um texto muito bom no site À Pala de Walsh que liga o filme ao nosso Tom Zé, o autor da canção homônima que é cantada em determinado momento do filme, a Santo Agostinho e a Baudelaire. Vale procurar e ler.

+ TRÊS FILMES

A SOMBRA DO MEU PAI (My Father’s Shadow)


Saber que A SOMBRA DO MEU PAI (2025) é uma obra semiautobiográfica do diretor Akinola Davies Jr ajuda a nos manter mais interessados em suas lembranças daquele 23.06.1993, quando ele e o outro irmão pequeno saíram de suas casas num vilarejo mais afastado da Nigéria para a capital Lagos. O pai buscava receber o salário quatro meses atrasado. O filme traz um misto desse olhar infantil, mais inocente, mas também bastante empolgado com aquela movimentação de cidade grande e o nosso olhar, de quem já no mínimo imagina que a situação política do país, que vive sob uma ditadura militar, não vai exatamente melhorar, agora que houve eleições democráticas. Sentimos a torcida daqueles homens por mudança, a admiração pela figura de esquerda que ganha aura de herói frente ao autoritarismo daqueles militares que passeiam pela cidade, com ar ameaçador. O povo brasileiro viveu algo parecido, mas o povo nigeriano enfrentava uma miséria anda mais explícita. É muito bom que estejam em cartaz dois filmes que destaquem dois diferentes países africanos com temáticas bastante políticas, mas também com certo ar fantasmagórico. A SOMBRA DO MEU PAI quase não oferece momentos de respiro ou de alegria, talvez apenas nas reuniões do pai com os amigos, que o viam como uma figura forte e importante.

SIRÂT

Eis um filme que me surpreendeu em muitos aspectos. Não tem aquele rigor formal que eu tanto gosto e nem busca a beleza nas imagens – embora o apego aos personagens nos faça enxergar a beleza, sim, sem falar naquele deserto e suas tempestades de areia. Tristemente bela a cena em que o personagem de Sergi López se deita no chão em plena tempestade de areia, como se não importasse mais com a própria vida, de tão devastado que estava. SIRÂT (2025), Oliver Laxe, faria uma ótima dobradinha com HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET, no que se refere à dor da perda de um filho, mas as intenções são distintas, os métodos são distintos, assim como o tipo de sentimentalidade adotada - em SIRÂT mais duro. Duro como o deserto, as pedras e a vida ali, no norte da África. Senti mais falta de um maior aprofundamento nos personagens, mas talvez não desse mesmo para ter, levando em consideração a duração de cerca de duas horas apenas. Na trama, um homem e seu filho buscam a filha desaparecida numa festa no deserto. Entre as pessoas que os recebem há pessoas amputadas e com um estilo de vida ligado às drogas e ao desapego material. E não há o interesse aqui em corpos perfeitos. Em determinado momento, percebemos que há uma guerra em andamento, o que faz com que a trama tome novos rumos. Em determinado momento, lembrei-me de O COMBOIO DO MEDO, de William Friedkin, que imagino que tenha sido uma inspiração do diretor. Só não digo que SIRÂT é um estouro porque seria maldade.

A QUEDA DO CÉU

Sigo com minha dificuldade de apreciar como gostaria os filmes indígenas ou que dão voz ao povo indígena. Creio que o único de que gostei de verdade foi EX-PAJÉ, de Luiz Bolognesi. Alguns outros me tocaram no sentido de lamentar o extermínio do povo indígena e de causar certo sentimento de impotência, como é o caso de MARTÍRIO, de Vincent Carelli. Agora o movimento é outro, com uma busca de dar cada vez mais voz aos indígenas. Em A QUEDA DO CÉU (2024), de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, vê-se algo de poético e ao mesmo tempo de semelhante ao apocalipse cristão, sobre o quanto o próprio planeta vai cobrar daqueles que seguem destruindo a natureza. Assim, a rotina de vida e os rituais do povo Yanomami se confundem com a luta contra a invasão dos garimpeiros e o agronegócio. Não se trata apenas de mostrar a cultura, a religiosidade e as diferenças com o modo de viver do homem branco, mas também, e principalmente, de mostrar o povo indígena, em especial o Yanomami, em um ato de resistência. Gosto de algumas cenas que apresentam a natureza, como a cena da chuva, e gosto da conversa entre os dois xamãs no escuro, mas, no mais, foi um tanto difícil de acompanhar, mesmo com certo distanciamento e um olhar quase antropológico. Um detalhe importante: havia até que bastante público durante a sessão, o que pra mim foi novidade.

sábado, abril 25, 2026

SUSPIRIA



Há uma cena em SUSPIRIA (1977) que muito me remeteu a David Lynch, mais especialmente a TWIN PEAKS. É a cena em que Suzy (Jessica Harper), a heroína do filme, adentra o covil das bruxas. E para passar para lá ela vira uma chave de cor azul e depois passa por uma cortina azul. O azul é, para Lynch, a cor do mistério profundo, como dito em TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER, mas Lynch usa cortinas de cor vermelha, no black lodge, lugar inspirado, creio eu, noutro trabalho de um mestre do cinema de horror italiano, Mario Bava, com seu maravilhoso O CICLO DO PAVOR. Ou seja, de vez em quando eu começo a achar que Lynch tinha, sim, usado muitos filmes como referências suas, embora ele não fosse um diretor famoso por isso, como um Leone ou um Tarantino.

É de Bava também a inspiração para Dario Argento usar as cores de maneira tão linda, e chegando a superar o mestre aqui com SUSPIRIA, muito provavelmente o mais belo filme de horror de todos os tempos, quando levamos em consideração o uso das cores, da luz, da direção de arte, dos figurinos e junta tudo isso com uma música também magnífica, composta pela banda Goblin, que emula o espírito onírico da década de 1970, que também foi uma década que se mostrou bastante interessada e curiosa em bruxaria. Ainda sobre as cores almejadas por Argento, ele conta que queria chegar a um tipo de cor usada no technicolor dos filmes hollywoodianos dos anos 1930 e 40, e por isso acabou conseguindo bem pouca película disponível. A sorte é que ele conseguiu rodar tudo com esse material.

Argento vinha de uma série de quatro gialli e adentra aqui o território do sobrenatural, de um medo menos ligado às coisas palpáveis e cortantes, a assassinos em série, embora não tenha deixado de lado os cortes na carne, a beleza da morte como espetáculo, como numa pintura em movimento. A moça que foge da escola de dança é a primeira vítima, e a cena em que ela se aproxima da janela com pavor, antes de ver dois olhos ameaçadores e de ser assassinada, é incrível.

A propósito, aquele início de SUSPIRIA sempre me deixou muito fascinado, e poder ver na telona (meu primeiro Argento na telona, inclusive) é muito gratificante. Jessica Harper entra naquele táxi e naquela chuva imensa junto com o mistério da noite e a música do Goblin, e as escolhas do diretor do que mostrar, e de como mostrar, tudo é muito mágico, muito inspirado. Acho uma pena que este filme tenha ficado durante muito tempo esquecido pelo grande público, talvez por não ser americano, embora haja uma dublagem em inglês, a usada na cópia remasterizada, e uma protagonista americana, vinda de O FANTASMA DO PARAÍSO, de Brian De Palma. Talvez a culpa de o filme não ter tido tanto sucesso comercial seja da sensibilidade totalmente distinta de Argento e do cinema italiano do gênero terror como um todo. Falo do terror pois o western spaghetti teve muito mais sucesso entre o grande público.

Há um crítico no documentário presente nos extras do box Argento Essencial, lançado pela Versátil Home Vídeo, que diz que o filme costuma agradar mais críticos, pois se enquadra no que se costuma chamar hoje em dia de cinema absoluto. E de fato ver e rever SUSPIRIA só atesta o ponto alto que o cineasta havia chegado naquele momento, com uso de muita criatividade para compor os quadros e as cenas de horror em si, mas também para nos encantar com seu visual deslumbrante. Além do mais, para gostar do filme é preciso abraçar os seus excessos, que, para olhos destreinados pode ser visto como atuação ruim ou até de mau gosto, muito por causa da dublagem na pós-produção, mas, novamente, isso é algo que nos acostumamos ao ver filmes italianos de gênero dessa época.

Um grande acerto de SUSPIRIA é se ater quase que inteiramente em personagens femininas. Os homens que surgem têm muito pouco a oferecer à trama. Nada mais justo, levando em consideração se tratar de uma obra sobre bruxaria, prática comumente associada ao feminino ao longo dos séculos. E não deixa de ser interessante que esse destaque tão feminino se apresente num filme que já foi tão acusado de ser misógino. 

+ TRÊS FILMES

NINGUÉM A OUVIU GRITAR (Nadia Oyo Gritar)

Quem assiste à obra-prima A SEMANA DO ASSASSINO (1972) certamente quer ver mais da mesma fonte. Graças à Versátil Home Video, pude conferir também este trabalho seguinte de Eloy de la Iglesia, que é bem menos perturbador que o anterior, mas talvez por isso mesmo nos deixe tão desestabilizado. NINGUÉM A OUVIU GRITAR (1973) opta por ser mais discreto no uso da violência mais gráfica e prefere a tensão estabelecida entre os personagens, o homem (Vicente Parra, repetindo a parceria com o diretor) que é flagrado escondendo o corpo da esposa no fosso de um elevador e a mulher, uma garota de programa de luxo vivida por Carmen Sevilla (que já fez a Maria Madalena em REI DOS REIS, do Nicholas Ray). O que deixa a gente sem chão são as viradas do enredo, o comportamento pouco usual dos personagens, e o modo estranho e elegante e por isso mesmo bem-vindo com que Iglesia conta sua história, que hoje se beneficia do espírito daquela época mágica que foram os anos 1970 no mundo inteiro. É melhor não saber muito a respeito, para vivenciar o que o filme oferece. Visto no box Giallo Espanhol.

O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA (Il Rosso Segno della Follia)

Mario Bava retorna ao universo de seu giallo SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964), mas com um diferencial. Aliás, dois. Não existe em O ALERTA VERMELHO DA LOUCURA o tradicional whodunit, ou seja, não apenas já sabemos a identidade do assassino desde o início, como ele próprio é o narrador, com direito a voice-over, o que é fascinante. Outra coisa que o afasta do giallo tradicional é a aproximação com o sobrenatural, uma vez que, em determinado momento, uma das vítimas do assassino reaparece depois de ter sido assassinada e enterrada na estufa onde ele trabalha. Esse aspecto seria antecipado na curiosa cena da sessão espírita, que até faz lembrar o início de PRELÚDIO PARA MATAR, de Dario Argento. Do ponto de vista visual, não é dos trabalhos em que Bava usa muitas cores artificialmente, mas há estilização do início ao fim: zoom-in e zoom-out com muita frequência em momentos dramáticos, imagens distorcidas, uma montagem com cortes que entram em sintonia com os próprios cortes do cutelo usado pelo psicopata para dar fim a suas vítimas, geralmente vestidas de noiva. Inclusive, na cena em que ele está com um véu na cabeça, há ali uma homenagem explícita a PSICOSE, de tal modo que até chego a pensar que tenha influenciado Brian De Palma em seu VESTIDA PARA MATAR. Era Bava iniciando incansavelmente a década de 1970, sua última de serviços prestados aos amantes do cinema de gênero que apostam no visual.

SOCORRO! (Send Help)

Quando falamos o nome de Sam Raimi naturalmente lembramos de A MORTE DO DEMÔNIO (1981) e suas duas continuações. Não que o que Raimi fez em seguida tenha sido irrelevante – adoro o pouco lembrado O DOM DA PREMONIÇÃO (2000) –, mas seus últimos filmes como diretor não são de entusiasmar o fã de terror, por mais divertido que seja DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA (2022). (Quase esqueço a trilogia de filmes do Homem-Aranha também.) Enfim, tem trabalho novo do Raimi com dedo no olho e facada no bucho e por mais que não seja um terror, há elementos do gênero nesta comédia de suspense sobre mulher (Rachel McAdams, deliberadamente enfeiada para o papel) que cai do avião numa ilha (supostamente) deserta com o chefe arrogante (Dylan O’Brien) cujos sentimentos que tinha por ela eram nojo e desprezo. O que ele não esperava era ter que depender dessa mulher, que sabe as manhas de sobreviver numa ilha deserta. O filme é cheio de surpresas e é o que se tem de melhor de um título com a cara de Raimi, com doses de humor e violência gráfica.

domingo, abril 19, 2026

O ESTRANGEIRO (L'Étranger)



Não elaborarei agora, mas arriscaria dizer que O ESTRANGEIRO pode ser colocado facilmente num top 5 de François Ozon, esse cineasta incansável, que raramente atravessa um ano sem um filme novo. Nem sempre acerta, mas quando acerta fica uma coisa linda. Diria que seus últimos grandes filmes foram de cerca de uma década atrás, FRANTZ (2016) e O AMANTE DUPLO (2017). Assim como FRANTZ, adaptação de um filme de Ernst Lubitsch, este também é uma adaptação, só que mais complexa, pois literária, de uma novela homônima de Albert Camus, adaptada por Visconti em 1967. E, assim como em FRANTZ, Ozon optou por filmar em preto e branco, e o resultado é estupendo, além de muito coerente com o tempo em que se passa a história e com o caráter documental presente no olhar que ele pretende apresentar do apartheid social da Argélia nos anos 1930, um lugar onde espaços eram destinados apenas a franceses e filhos de franceses e proibidos a nativos. Como a sala de cinema em que é exibida a comédia de Marcel Pagnol, onde se passa determinada cena.

Ozon lança mais uma vez um olhar queer, que me pareceu bem-vindo para que o herói da história se apresente ainda mais “estrangeiro”, ainda mais deslocado frente à sociedade, especialmente quando enfrenta um julgamento que tem mais a ver com sua suposta falta de sentimento durante o enterro da mãe do que com o crime propriamente dito. Fiquei muito impressionado com a caracterização de Benjamin Voisin, que já havia trabalhado com Ozon em VERÃO DE 85 (2020), mas que só me chamou a atenção de verdade aqui. Voisin está perfeito como esse cara indiferente, apático, que não se empolga com a vida, não se comove com a morte da mãe, não se apega a amizades e não se apaixona.

E até poderia ser fácil atuar assim se esse herói também não passasse por uma virada em sua história que trouxesse um momento de percepção maior da existência, de epifania. E, nesse sentido, a cena de embate com um padre que vem falar com ele perto do final é ao mesmo tempo sublime e visceral. Nessa epifania, ele compreende os anos finais da própria mãe e valoriza a relação com Marie, vivida por Rebecca Marder, que havia trabalhado com Ozon na comédia criminal O CRIME É MEU (2023), embora eu prefira lembrar dela no belo A GAROTA RADIANTE em que faz uma personagem um pouco mais próxima da apresentada neste filme de Ozon, ou seja, uma personagem solar para contrastar com o protagonista distante de sentimentalismos.

A cena do assassinato do rapaz árabe ganha contornos de homoafetividade, embora tudo seja visto de maneira muito rápida. A câmera que representa o olhar do protagonista parece desejar o corpo daquele rapaz árabe, antes dos tiros. Não deixa de ser semelhante ao que acontece com os dois soldados de FRANTZ. As cenas do tribunal são igualmente impressionantes, destacando tanto a justiça francesa com tendência a desvalorizar o povo argelino, chamado generalizadamente de árabe, quanto o aspecto incomum da postura do réu, com uma honestidade tal que, mesmo não acreditando em Deus, é a pessoa que mais se assemelha a Jesus no calvário.

A fotografia em preto e branco de Manu Dacosse, o mesmo do coloridíssimo O BRILHO DO DIAMANTE SECRETO, tanto funciona para dar um ar documental ao filme, quanto para enfatizar a revelação do herói, sua percepção quase espiritual da existência. Nesse sentido, O ESTRANGEIRO é uma especie de filme-irmão de um dos meus favoritos de Ozon, O TEMPO QUE RESTA (2005). 

+ TRÊS FILMES

O MAGO DO KREMLIN (Le Mage du Kremlin)

Depois de uma obra-prima como PERSONAL SHOPPER (2016), até que seria fácil aceitar filmes menos inspirados de Olivier Assayas. Mas mesmo depois do horrível e esquecível WASP NETWORK – REDE DE ESPIÕES (2019), eu não estava preparado para este O MAGO DO KREMLIN (2025), que até pode parecer interessante, por contar um pouco dos bastidores do governo de Putin na Rússia (o Jude Law está bem, personificando o líder autocrata). Mas quem diria que eu ia concordar com Quentin Tarantino e perceber que Paul Dano é mesmo insuportável? O cara não funciona nem como corno de alma ferida, nem como pessoa associada às artes e muito menos como um estrategista, ainda que um tanto passivo, braço direito de Putin. Assayas segue demonstrando seu interesse em geopolítica ao abraçar esse projeto, mas a cena final e os vários finais falsos são uma prova de que ele estava perdido na adaptação da obra literária. São mais de 2h30 que parecem não ter sentido, o que é uma pena, pois havia elementos muito interessantes a serem explorados (gosto especialmente da parte que fala da Rússia imediatamente com o fim da União Soviética). O próprio personagem do Putin é mal explorado, assim como o interesse amoroso do protagonista, vivida por Alicia Vikander, que esteve muito bem na minissérie de Assayas, IRMA VEP (2022). Fico no aguardo, ainda, do retorno à boa forma do realizador.

THÉRÈSE

Minha esposa Giselle há um tempo cita Santa Terezinha. Falou para mim sobre ela, sobre o cheiro de flores e outros aspectos sobrenaturais. E por isso quando vi este filme de Alain Cavalier disponível num fórum de compartilhamento fiquei logo interessado em ver e mostrar a ela. O legal é que mesmo sendo bem arthouse e tendo um tipo de desidratação do sentimentalismo que faz lembrar o cinema de Bresson, é difícil não ficar com a memória de várias imagens da história desta jovem que morreu tão cedo e foi canonizada no início do século XX. Thérèse de Lisieu é apresentada em cenas bem curtas. Ou seja, apesar do minimalismo (também no cenário) totalmente coerente com a vida de extrema simplicidade das freiras carmelitas, há certo dinamismo no filme que nos atrai. Na trama, Thérèse é a terceira das quatro irmãs que bem jovem ingressa no convento, mesmo com toda a dificuldade por causa da idade e pela questão do pai, que ficaria só com uma filha para lhe fazer companhia. A moça é tão firme no que deseja que chega a buscar as instâncias superiores da igreja. Considero um destaque o sorriso da heroína, mesmo nos momentos de dor. É bonito ver sua fé intacta e seus pensamentos sempre ligados ao futuro encontro com seu esposo, Jesus. THÉRÈSE (1986) foi o último filme de Cavalier, ganhando vários César, inclusive de melhor filme e direção, e conquistou o grande prêmio do júri em Cannes. A atriz tem uma semelhança grande com a verdadeira Santa Terezinha. Sobre a semelhança com o estilo de Bresson, a diferença de Cavalier talvez esteja no quanto seus personagens expressam mais explicitamente suas emoções. Pode-se pensar também em A PAIXÃO DE JOANA D’ARC, de Dreyer, por causa das paredes, ou melhor da ausência de paredes (e de portas e de janelas) aqui não brancas, mas esverdeadas. Uma das cenas mais visualmente impactantes é a da irmã fugida que surge no escuro vestida de noiva quando a protagonista já está bem debilitada. É uma cena quase lynchiana, por mais que esse adjetivo talvez não existisse ou fosse popular em 1986.

DESEJO VOCÊ (I Want You)

Por onde anda Michael Winterbottom, um dos cineastas mais mencionados do cinema britânico da virada do novo milênio e principalmente nos anos 2000? Por incrível que pareça Winterbottom está bem ativo, só que seus novos trabalhos não têm chegado a nosso circuito. DESEJO VOCÊ (1998), nem lembro se chegou a passar nos cinemas (acho que não), e tem uma trama um tanto desequilibrada. Acredito que o diretor tenha se preocupado mais com o visual (que é de fato belo, com o verde predominando na paleta de cores) do que com o enredo e seus personagens, ou em como dar a eles profundidade. Aliás, isso não é mesmo o forte do diretor, pelos poucos filmes que vi dele. Seu interesse em explorar o sexo, que seria muito mais explicitado em 9 CANÇÕES (2004), já aparece aqui, embora o sexo apresentado em DESEJO VOCÊ seja sempre frio, uma ferramenta para aplacar o vazio e as angústias, nunca filmado de maneira bonita, por mais que a personagem de Labina Mitevska represente esse sexo mais livre, enquanto que a personagem de Rachel Weisz, a protagonista, seja alguém com uma trava com o sexo, e por isso mesmo acabe fazendo amizade com o adolescente mudo que fica apaixonado por ela e que tem por hábito gravar em fita sons da intimidade de casais. Ele representa o voyeur que, uma vez que se torna protagonista de uma cena pesada, procura se afastar. A trama guarda alguns mistérios entre os personagens, mistérios que só serão revelados lá pela metade da metragem do filme. DESEJO VOCÊ tem a importância de dar mais visibilidade a Weisz, que se tornaria mais famosa nas décadas seguintes, e não só por sua beleza física.

terça-feira, abril 14, 2026

O DESAFIO



Jurava que O DESAFIO (1965) integrava a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da primeira eleição feita pela Abraccine, que resultou num livro que até hoje é referência. Eu mesmo fui até o livro em busca de um texto sobre o clássico-moderno de Paulo César Saraceni. Em vez disso, vi que preferiram (ou melhor, preferimos, já que integrei também essa votação) O VIAJANTE (1999), obra bem mais recente do cinemanovista. Em vez disso, reli o texto (excelente, pra variar) de Andrea Ormond para seu primeiro volume do obrigatório Ensaios de Cinema Brasileiro. Seu texto é uma delícia, com uma linguagem literária que sinto falta na maior parte das críticas de cinema que leio.

Ao ver O DESAFIO pela primeira vez fiquei um tanto incomodado com os protagonistas burgueses extremamente afetados pelo golpe militar de 64, que ainda estava "quentinho", tanto que palavrões e a palavra "golpe" foram inicialmente "deletadas" pela censura e voltaram em cópia nova posteriormente, passada a tempestade, dublados por outras pessoas. Fiquei incomodado, talvez, porque esse sonho de um Brasil mais justo não é apresentado por classes mais desfavorecidas, enquanto numa sala vemos o cartaz de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, como que enfatizando o caráter elitista e intelectual tanto do movimento quanto dos próprios personagens. 

A cópia que vi, exibida pelo Canal Brasil, é mais um serviço de utilidade pública prestado pela emissora. Ah, se pelo menos metade de nossos filmes merecessem o mesmo tratamento...  Aliás, enquanto buscava títulos brasileiros nos streamings, comecei a perceber o quanto o nosso cinema é marginal. Nem na MUBI, nem no Prime, nem na HBO há uma oferta mínima de filmes brasileiros mais antigos, principalmente esses anteriores aos anos 1990. Ou seja, o negócio é usar o espírito corsário ou aproveitar que há alguns títulos disponibilizados no YouTube, ainda que nem sempre em qualidade decente de imagem. Assim, quem está interessado em conhecer mais do nosso cinema não pode ser preguiçoso.

A primeira cena de O DESAFIO nos apresenta ao casal vivido por Isabella (acho estranho a atriz ser apresentada sem um sobrenome) e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, corroteirista do filme junto com Saraceni. Ambos estão dentro de um carro e a câmera (na mão) do lendário Dip Lutfi flagra a conversa e o clima daquele momento. Ele se mostra extremamente deprimido. O Brasil, que antes tinha uma chance de integrar o bloco socialista e talvez chegar a uma revolução, agora vive numa recém-implantada ditadura, apesar de muitos acharem que não duraria muito tempo. Ela, esposa de um industrial, tem um caso com o rapaz e tenta ajudá-lo a levantar seu astral e a ver o quanto a união deles é importante para a felicidade dos dois. Para o rapaz, porém, isso é muito pouco importante diante do cenário político atual.

Aos poucos, principalmente perto do final, essa tendência de cada um optar pelo que mais seu coração persegue vai pesando mais, o que faz com que seja natural a separação. Porém, antes do fim, há muita poesia pela frente. Nos anos 1960, não sei se por influência do Godard, era natural ficar recitando poemas. Aqui, Jorge de Lima é o escolhido e homenageado com A Invenção de Orfeu. Lembro que Carlão Reichenbach também citava o poeta em seu cinema (há citação explícita em O IMPÉRIO DO DESEJO).

Adoro a fotografia em preto e branco de Couto Filho, que, especialmente nas cenas noturnas, dá um ar de Louis Malle ao filme. Gosto da cena de Isabella andando pelas ruas do Rio de Janeiro à noite. Assim como gosto das cenas de Vianninha bebendo com um amigo e falando de poesia e política, indo parar depois na casa desse amigo. É uma das melhores cenas do filme, inclusive com surpresas do ponto de vista narrativo, mas também muito belo enquanto registro formal, com a câmera passeando pelos personagens e escolhendo muito bem o que deseja ou não mostrar.

O DESAFIO é um filme feito com muita coragem. E só por isso já é um baita motivo para ser visto e apreciado. Sem falar no quanto é um documento poderoso de seu tempo, chegando a registrar até mesmo Maria Bethânia e Zé Keti no show Opinião. 

+ TRÊS FILMES

RUAS DA GLÓRIA

Até acho interessantes os 2/3 iniciais da narrativa de RUAS DA GLÓRIA (2024), de Felipe Sholl, especialmente quando o filme foca no desespero e busca do protagonista Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor de literatura, pelo homem por quem ele se apaixona, um uruguaio que trabalha como profissional do sexo e é viciado em cocaína, vivido por Alejandro Claveaux. Senti falta de uma maior química entre os dois atores e chega um momento, no terço final, que o filme perde sua força ao optar por uma conclusão apressada ou pouco eficiente, do ponto de vista dramático. O que há de interessante no filme é o retrato do submundo da prostituição homossexual no Rio de Janeiro de maneira bem crua e incômoda, sem medo de destacar os desejos e os infernos pessoais de seus personagens. No aspecto formal, gosto da opção da janela scope para contar a história principal (enriquece a paisagem da praia de Copacabana e das praças) e de janelas menos largas para o diálogo do protagonista com a avó falecida ou para vídeos do outro personagem. Há uma semelhança deste filme com BABY, de Marcelo Caetano, mas, na comparação, lhe falta mais carinho e ternura. 

NARCISO

Jeferson De já havia trabalhado com o cinema de gênero em M8 – QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA (2019). Volta a fazê-lo neste drama sobre menino negro que não se sente feliz no lar temporário onde vive e aceita o presente do gênio da lâmpada, digo, gênio da bola de basquete. A segunda parte, em preto e branco, é até mais interessante que a primeira, lembrando tanto CORRA!, de Jordan Peele, quanto CORALINE E O MUNDO SECRETO, de Henry Selick, ainda que passe longe de ter a mesma força desses. De todo modo, NARCISO (2026) é um filme cheio de amor que funciona como um bom conto moral. O menino começa a valorizar o que realmente importa a partir da experiência sobrenatural, mas se a primeira parte tivesse a delicadeza forte, para juntar duas palavras geralmente usadas separadamente, o final teria mais impacto. Seu Jorge é ótimo, mas está no automático no papel do Gênio. Já os atores negros, tanto os jovens quanto os veteranos, estão muito bem. Diria que uma das cenas de que mais gosto é uma conversa entre Carmen (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele), as figuras materna e paterna dos meninos. Queria um filme só com eles dois.

LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO

Não me recordo deste filme de Rosemberg Cariry estreando nas salas de cinema nessa época. Provavelmente ficou pouco tempo em cartaz e é uma pena eu ter deixado passar. Mas é muito bom poder rever numa cópia remasterizada e lindíssima. Quase como estar entrando num túnel do tempo e vendo a Dira Paes passando por um processo de rejuvenescimento. Ela está incrível como uma jovem que nasceu fruto do estupro que sua mãe, uma mulher negra escravizada, sofreu de um coronel da região, homem que costumava gostar de açoitar os seus escravos. A personagem é muito interessante justamente por ter um tipo de personalidade pouco afável. Ela é mesmo do tipo que apreende o que há de mal na personalidade do pai e ignora o sofrimento alheio, além de querer fazer tudo para obter o que deseja, mesmo que tenha que mandar matar alguém. LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO (2002) tem menos simbolismos que o ótimo CORISCO & DADÁ (1996), mas a nova parceria com Paes e Chico Diaz faz bem ao cineasta. Fiquei muito curioso para ler o conto de Ronaldo Correia de Brito, que serve de base para a história do filme, que tem mesmo a intenção de trazer à tona as complexidades da formação do povo brasileiro, com esse tipo de "capitão do mato" se tornando aqui uma "coronel" do mato, alguém com o poder e a vontade de mostrar força através da violência e da sede de poder. Cena memorável: W.J. Solha, o coronel, no leito de morte.

domingo, abril 12, 2026

O DRAMA (The Drama)



Vejo pessoas falando de crise no cinema, de evasão de público, mas uma coisa eu percebi: Zendaya é um chamariz para bilheteria. Já havia percebido com RIVAIS, de Luca Guadanigno, das pessoas falando entusiasmadas na fila do cinema que iam ver "o novo filme da Zendaya". Algo se repete e em maior escala com O DRAMA (2026), nova produção da A24, que tem lotado sessões neste fim de semana. Ela tem uma base de fãs alta entre adolescentes e jovens adultos e, eu, que no início duvidava de seu talento, fiquei impressionada com sua interpretação, principalmente como uma dependente química na série EUPHORIA, que, aliás, está de volta.

Quanto a O DRAMA, eis uma comédia que causa desconforto e tensão (eu até tomei um susto em uma cena específica), mas em determinados momentos, as situações dos personagens passam a se tornar tão interessantes quanto hilárias. Há um segredo envolvendo o passado da personagem de Zendaya, que vem à tona nos primeiros 20 minutos, que funciona como elemento propulsor para a história.

Na trama, os dois protagonistas, vividos por Robert Pattinson e Zendaya, estão prestes a se casar e estão, inclusive, preparando seus textos a serem falados na festa de casamento. Até que um segredo do passado da personagem passa a assombrar a todos. O detalhe é que é um segredo de um pensamento e não de uma ação, o que faz com que o filme encontre paralelos com a cultura do cancelamento.

Algumas cenas são bem divertidas, especialmente as que mostram a intimidade do casal, mas há outras que acontecem sem que ambos estejam presentes que também são fundamentais para a construção dessas situações. Pattinson está com o personagem mais difícil e não tem medo de se submeter ao ridículo, enquanto Zendaya parece mais à vontade com essa personagem mais complexa e interessante.

O DRAMA foi filmado em 35 mm e usa muito tons de marrom. O diretor de fotografia, o bielorrusso Arseni Khachaturan, é o mesmo de ATÉ OS OSSOS, de Luca Guadagnino, que também adota essa tonalidade. Já o realizador, o norueguês Kristoffer Borgli, tem no currículo filmes pequenos, mas não exatamente desconhecidos, como DOENTE DE MIM MESMA (2022) e O HOMEM DOS SONHOS (2023). Confesso que fiquei curioso para conhecer mais filmes seus.

+ TRÊS FILMES

A EMPREGADA (The Housemaid)

Alguns diretores de comédia têm conseguido surpreender fazendo terror e suspense muito bons. Paul Feig, cujo melhor filme na direção talvez continue sendo MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (2011), já havia ensaiando um suspense acima da média e carregando um senso de humor notável com UM SIMPLES FAVOR (2018) e desta vez mostra novamente sua boa mão para dirigir duelos entre personagens femininas neste A EMPREGADA (2025), que vai além de um mero veículo para a carreira de Sydney Sweeney, que aqui interpreta uma mulher que está com dificuldades de arrumar emprego, estando em liberdade condicional. Acaba conseguindo um emprego de doméstica para uma mulher rica (Amanda Seyfried). Nem tudo são flores quando a empregadora começa a ter um comportamento estranho com relação a ela. Há também outro personagem muito importante para a trama, que é o marido da mulher, um homem cobiçado pelo mulherio vivido por Brendon Sklenar (visto recentemente em DROP – AMEAÇA ANÔNIMA). Gosto muito das viradas de roteiro e de como o filme sempre nos mantém acesos e interessados, por mais que pareça, em diversos momentos, um daqueles suspenses B vulgares vistos no Supercine. A intenção de Feig, creio, é usar este template com muito humor e buscar um tipo de suspense que até tem seu grau de violência em seu clímax, mas que tem o entretenimento, com uma boa dose de ironia, como principal objetivo.

OI, SUMIDO! (Oh, Hi!)

Tenho adorado o frescor do cinema independente americano contemporâneo, especialmente dos cineastas mais jovens. Em seu segundo longa-metragem, Sophie Brooks nos coloca dentro de um cenário cômico, mas com doses de desespero, sobre um fim de semana amoroso que não dá muito certo. O filme nos apresenta a uma personagem no mínimo bem interessante, vivida por Molly Gordon, cuja insegurança a faz deixar algemado na cama o rapaz que ela julgava ser seu namorado (Logan Lerman, ainda mais lembrado por AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL). Tendo sido lançado direto em streaming (HBO Max), OI, SUMIDO! (2025), de Sophie Brooks, nunca cansa, tem um ritmo muito gostoso, personagens cativantes e situações bastante divertidas, sem deixar de convidar o espectador a se solidarizar com os sentimentos dos protagonistas. Quem nunca fez uma bobagem na vida e quis tentar passar uma borracha na memória de todos para refazer tudo direitinho? O filme de Brooks é sobre lidar com as consequências dos próprios atos, mas também sobre se sentir muito vulnerável – e isso vale tanto para Iris, quanto para Isaac.

ESTÁ TUDO BEM COMIGO? (Am I OK?)

Dakota Johnson tem apoiado jovens cineastas. Desde que se tornou uma atriz de primeiro escalão em Hollywood, com CINQUENTA TONS DE CINZA e suas continuações, tem alternado entre produções em grande escala (às vezes não muito boas, vide a comédia involuntária MADAME TEIA) e outras de diretores independentes, mas com bastante talento. Foi assim com CHA CHA REAL SMOOTH – O PRÓXIMO PASSO, de Cooper Raif; com AMORES À PARTE, de Michael Angelo Covino, e, por que não citar também, AMORES MATERIALISTAS, de Celine Song. Este ESTÁ TUDO BEM COMIGO? (2022), de Stephanie Allynne e Tig Notaro, é um filme menor, que lida com temas como amizade entre mulheres, dependência emocional e dificuldade de se encontrar na sexualidade. No caso, a personagem de Dakota esconde da própria amiga a atração que sente por outras mulheres, e acaba estragando um pouco a própria vida, já que demora a dar o primeiro passo como pessoa gay. Legal ver Molly Gordon, que vi recentemente em OI, SUMIDO!, em papel coadjuvante, mas de importância para a trama. A oportunidade de entrar nesse universo mais indie é também um espaço de maior sensibilidade. São projetos mais modestos, mas por isso mesmo mais humanos.