Fico às vezes pensando no quanto minha memória é falha em relação a filmes e livros. Se bem que talvez esse seja um problema que não afeta somente a mim. O que sei é que há filmes que me provocam certa atração e ao mesmo tempo vão embora nas sombras da memória, como se fosse um sonho, que, se não anotarmos ou não contarmos imediatamente para alguém, ele logo vai para o esquecimento eterno. E há filmes que têm mesmo esse teor de sonho, e o noir talvez se aplique bem a essa categoria. Nem faz tanto tempo assim que vi pela primeira vez FUGA DO PASSADO (1947), de Jacques Tourneur. Foi em 2009 e escrevi quatro pequenos parágrafos a respeito para este espaço. .
Só que esse filme vem me chamando a atenção para a revisão já faz um tempo. Primeiro quando a Versátil o colocou entre os 10 essenciais do subgênero do livro Filme Noir – Dez Filmes Essenciais da Coleção, da já saudosa “enciclopédia Versátil”, a série de livros de gêneros diversos publicados ao longo de mais de dois anos pelo selo. No livro, o texto escrito por Heitor Romero destaca o filme como parte dessa “antena coletiva” que fez com que praticamente todos os filmes policias e criminais da época possuíssem essa aura sombria, com mais sombras do que luzes em fotografias principalmente em preto e branco. Afinal, o mundo estava em guerra e depois da Segunda Guerra viria a guerra fria. Os artistas têm a sensibilidade de criar uma espécie de documento de sua época. E os diretores de filmes noir, em sua maioria, faziam produções B (de baratas), tendo, portanto, menos interferência dos produtores.
A vontade de rever FUGA DO PASSADO veio também com o podcast Filmes Clássicos, em que os três criadores do conteúdo discutem sobre o clássico. Ouvi duas vezes: uma antes de rever o filme, para aumentar a vontade, meses atrás, e outra de ontem para hoje, com a lembrança da história e dos personagens mais fresca. Outra pessoa que também escreveu sobre o filme recentemente foi Filipe Furtado, em seu Substack, o que foi aumentando ainda mais meu interesse e minha atração pela obra.
E de fato FUGA DO PASSADO é desses filmes que merecem revisões regulares. A tragédia do protagonista, vivido por Robert Mitchum, ao ter que adentrar o passado que tentou esquecer, fica mais clara (ou mais escura?) na revisão. O filme começa com uma imagem bem ensolarada, com um homem aparecendo durante o dia numa cidadezinha do interior em busca de Jeff Bailey, o personagem de Mitchum. Depois vemos Jeff com sua namorada, Ann (Virginia Huston), sonhando com um futuro tranquilo que quer ter com ela naquele lugar pacato.
Acontece que ele é encontrado e chamado pelo antigo chefe (Kirk Douglas). E por isso ouvimos o longo flashback que nos deixará a par de seu passado. Eu até diria que o melhor do filme está nesse flashback, quando ele conhece Kathie (Jane Greer, vivendo uma das mais marcantes femme fatales da história do cinema). Kathie, supostamente, havia atirado no chefão e fugido com 40 mil dólares. E é claro que Jeff vai se apaixonar por Kathie, e esse interesse, esse tesão, essa sensação de querer viver uma aventura perigosa com aquela mulher atraente, reverbera na mente do espectador também. É uma pena que a carreira de Greer não tenha sido tão bem-sucedida, mas acabei de ver que ela aparece justamente no remake de FUGA DO PASSADO, o thriller PAIXÕES VIOLENTAS, de Taylor Hackford. Aliás, bateu vontade de ver esse filme, hein.
Voltando ao filme de Tourneur, é interessante notar como fica destacada a mudança da luz para a sombra, logo que o herói é enviado para conversar com o chefão do crime e deixa aquele ambiente idílico e aquela namorada carinhosa. Sem falar que toda a descrição de quando ele conhece Kathie, tem algo de fatalista e ao mesmo tempo muito atraente. Na primeira aparição de Kathie, inclusive, quando ela adentra o bar, ela sai da luz para as sombras, da luz do luar para a penumbra daquele ambiente, em Acapulco. Depois, nas cenas na praia, seremos presenteados com mais desse sentimento conflitante e excitante. O que é impressionante, levando em consideração as limitações que o Código Hays impunha aos cineastas, no que se referia às cenas sensuais.
Podemos dizer, inclusive, que a atmosfera do filme é devedora do estilo e da sensibilidade de Tourneur, que já havia reinventado o horror com SANGUE DE PANTERA (1942) e A MORTA-VIVA (1943) e aqui contribui para o ciclo noir com sua capacidade impressionante de registrar a noite como um personagem da trama. Em determinado momento, Jeff diz que havia trocado o dia pela noite, já que não encontrava Kathie de dia. Como se ela fosse de fato alguém das trevas. Como mais tarde isso se comprovará.
Voltando ao filme de Tourneur, é interessante notar como fica destacada a mudança da luz para a sombra, logo que o herói é enviado para conversar com o chefão do crime e deixa aquele ambiente idílico e aquela namorada carinhosa. Sem falar que toda a descrição de quando ele conhece Kathie, tem algo de fatalista e ao mesmo tempo muito atraente. Na primeira aparição de Kathie, inclusive, quando ela adentra o bar, ela sai da luz para as sombras, da luz do luar para a penumbra daquele ambiente, em Acapulco. Depois, nas cenas na praia, seremos presenteados com mais desse sentimento conflitante e excitante. O que é impressionante, levando em consideração as limitações que o Código Hays impunha aos cineastas, no que se referia às cenas sensuais.
Podemos dizer, inclusive, que a atmosfera do filme é devedora do estilo e da sensibilidade de Tourneur, que já havia reinventado o horror com SANGUE DE PANTERA (1942) e A MORTA-VIVA (1943) e aqui contribui para o ciclo noir com sua capacidade impressionante de registrar a noite como um personagem da trama. Em determinado momento, Jeff diz que havia trocado o dia pela noite, já que não encontrava Kathie de dia. Como se ela fosse de fato alguém das trevas. Como mais tarde isso se comprovará.
Depois do flashback, eu sinto que o filme entra numa outra trama bastante confusa e intrincada, mas não chegamos a perder o interesse. Mesmo sem entender muito bem certas coisas do enredo, dos planos e contraplanos dos personagens, FUGA DO PASADO permanece fascinante. Até porque teremos aparições diferentes de Kathie, sendo que a última dela, com uma vestimenta parecida com a de uma freira de roupa escura, a coloca numa posição de figura das trevas, logo após ter matado o personagem de Kirk Douglas. Ou seja, todas essas sutilezas e maneiras diferentes com que a personagem aparece enriquecem e muito a obra como um todo, colocando o clássico de Tourneur no alto de um ranking não apenas dos melhores filmes do ciclo, mas do cinema mundial como um todo.
+ TRÊS FILMES
PRECIPÍCIOS D'ALMA (Sudden Fear)
A iniciativa recente da Versátil Home Vídeo de publicar livros temáticos foi recebida com entusiasmo por mim. Nem sempre vou conseguir tempo para ver todos os filmes disponíveis em minha coleção de mídia física, e por isso alguns deles ficam invisibilizados por um longo tempo. Certos títulos aparecerem em destaque nos livros chama a atenção para que sejam vistos. Foi o caso de PRECIPÍCIOS D'ALMA (1952), de David Miller, que apareceu no livro Thrillers – Pérolas do Suspense, e que está presente no box Filme Noir Vol. 8, que inclusive traz um ótimo extra do curador Fernando Brito destacando a importância e a beleza do filme. Confesso que, por mais que já esperasse um grande filme, não imaginava quão maravilhoso e inventivo seria em sua junção de melodrama, suspense e até terror na história de uma dramaturga milionária (Joan Crawford) que se apaixona por um ator meio canastrão (Jack Palance). Depois da conquista, vem o casamento, e com meia hora de filme surge uma personagem-chave (Gloria Grahame) para a mudança de tom da narrativa. A cena em que a personagem de Crawford descobre numa gravação os planos do casal de picaretas é incrível, e até penso como uma cena que influenciou Brian De Palma em UM TIRO NA NOITE. Outra cena muito inventiva, talvez a melhor, é a sequência final, que começa com as imagens dos planos da heroína sinalizados por um grande relógio com os ponteiros rodando na tela. Absolute cinema!!
CÓDIGO PRETO (Black Bag)
Acompanho a carreira de Steven Soderbergh desde quando era tudo mato. Vi no cinema seu até agora insuperável SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (1989) e fui acompanhando suas obras sem perder nenhum filme (com exceção de alguns inéditos no Brasil) até, acho, CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA (2009). Depois começou a ficar difícil acompanhar, tanto pela rapidez com ele que lançava novos filmes, quanto por ele gostar de alternar filmes de produção mais cara com produções mais baratas, mais independentes. E sempre achei muito legal isso, embora nunca tenha encontrado uma assinatura em seus filmes. CÓDIGO PRETO (2025) seria parente de IRRESISTÍVEL PAIXÃO (1998), pela beleza de seus atores, pela classe com que ele os apresenta, pelo visual caprichado na fotografia, e também por abraçar um tipo de gênero específico. Aqui, no caso, o filme de espionagem. O que conta não é o que a gente entende especificamente, já que há um MacGuffin, mas o jogo de nervos que funciona como uma brincadeira perigosa e também gostosa de acompanhar. Um luxo poder trazer tanto Cate Blanchett quanto Michael Fassbender, dois baita atores que também têm grande presença de cena. Soderbergh capricha na edição, nos diálogos e na atmosfera, trazendo perigo quando o que mais vemos é mais conversa e menos violência.
CAMINHOS DO CRIME (Crime 101)
É impressionante como o capitalismo está tão enraizado na alma do estadunidense (tentando me acostumar a usar esse termo) que os desfechos felizes de certos personagens são associados muito mais ao ganho material do que a outro tipo de felicidade. (Aviso de spoiler leve.) É assim que acontece com a personagem de Halle Berry; é assim que acontece com o personagem de Mark Ruffalo. No caso de Ruffalo, eu nem acreditei no que estava vendo (até pelo posicionamento político de Ruffalo). De todo modo, CAMINHOS DO CRIME (2026), de Bart Laytton, não deixa de ser um bom drama criminal que traz histórias que se entrecruzam, sendo a principal delas a do ladrão vivido por Chris Hemsworth (cada vez melhor ator). O personagem, ao se interessar por uma bela mulher (Monica Barbaro), começa a repensar sua vida de ladrão profissional. Esse aspecto da trama, assim como o andamento mais cadenciado, faz lembrar um pouco FOGO CONTRA FOGO, de Michael Mann. E não duvido que Mann tenha sido uma de suas principais inspirações, embora também lembre tanto o polar (o policial francês dos anos 1950-70) quanto o cinema policial americano da Nova Hollywood, embora bem menos pessimista. Vale destacar também a breve participação de Nick Nolte, em estado físico claramente decadente. Já o personagem de Barry Keoghan, apesar de importante para a trama, me pareceu apagado para o talento do jovem ator.





