domingo, junho 26, 2022

AO CAIR DA NOITE (Moonrise)



Ultimamente tenho me entusiasmado mais com filmes antigos do que os novos, que, em sua maioria, têm me trazido desapontamentos ou insatisfação. Pode ser apenas uma fase, mas também há o fato de que, quando vemos um filme antigo, em geral já vemos uma obra que sobreviveu ao tempo, que se tornou um clássico ou continua sendo citado ou faz parte de uma curadoria ou tentativa de resgate de alguém atento ao cinema. Logo, as chances de esse filme ser mais apreciado são muito maiores.

Um dia desses, com a vontade de ver um filme antigo, peguei um dos boxes de filme noir da Versátil e, para minha surpresa, percebi que havia um filme dirigido por Frank Borzage, um cineasta que só passei a entrar em contato neste ano, justamente por causa da Versátil, que colocou duas obras-primas suas no box Melodrama no Cinema. Os dois filmes já foram objetos de reflexão aqui no blog. Por enquanto, ESTRELA DITOSA (1929) continua imbatível, mas adoro também A HISTÓRIA COMEÇOU À NOITE (1937). Já sabendo que o auge de Borzage foi nas décadas de 1920 e 30, já fiquei curioso como ele se sairia na era do cinismo e do pessimismo, os anos 1940 que pariam o filme noir.

Daí AO CAIR DA NOITE (1948) ser uma obra tão particular dentro do cinema que se praticava na época. Já que o próprio Borzage não gostava e nem se identificava com os rumos que sua arte passava naquele período, certamente sua incursão em uma história de assassinato seria no mínimo muito distinta. Aqui vemos a história de um homem que passou a vida inteira sofrendo bullying pelo fato de seu pai ter sido condenado à forca pela morte de um homem. Se sofrer bullying por qualquer motivo que seja já é cruel, imagina o quão cruel é lembrar e escarnecer de uma criança pelo modo como seu pai morreu!

E eis que vemos um pouco da infância de Danny (Dane Clark), mas logo somos levados a sua vida adulta, em que ele segue sendo alvo de agressões pelos demais rapazes da sua idade, e isso vem muito do fato de ele ser mais pobre, de não fazer parte do grupo de filhos de empresários também. Numa das brigas com um rapaz por causa de uma garota (Gail Russell), ele o mata acidentalmente. Com um soco, a cabeça do rapaz bate em uma pedra. Desesperado, ele esconde o corpo do rapaz e tenta seguir com a culpa, mas também imaginando que a qualquer momento pode ser descoberto. Enquanto isso, ele passa a se aproximar mais da moça por quem é apaixonado, a já citada Gilly (Russell), uma professora do ensino infantil.

O mestre do melodrama Borzage nos convida a compartilhar da angústia desse homem. Ainda que a morte tenha sido acidental, à medida que ele vai escondendo o fato de todos, inclusive da mulher que ama, a situação vai se tornando cada vez mais insuportável. Há algumas cenas que são assustadoras, assombrosas, como a que o protagonista dirige o carro em alta velocidade e vê a imagem do homem que acabara de matar.

Também é vertiginosa a cena da montanha-russa. O que torna AO CAIR DA NOITE menos amargo é que seu diretor é um homem que procura caminhos de paz, é um cineasta de linha espiritual e que sofre com seus personagens, sejam eles heróis puros ou homens maculados e confusos. A cena final se distingue bastante dos tons amargos predominantes no cinema da época, quando a redenção chega e até a expressão no rosto de Danny muda pela primeira vez no filme inteiro, assim como a iluminação do ambiente. De arrepiar.

Título visto no box Filme Noir Vol. 11.

+ DOIS FILMES

A SUSPEITA

Até que para um diretor com o currículo em telenovelas, Pedro Peregrino tem um interesse em fazer algo que fuja um pouco do que se convenciona trazer para as salas de shopping. Certamente é a presença de Gloria Pires que chama a atenção para o filme, e ela é a melhor coisa de A SUSPEITA (2021), uma espécie de variação em torno de AMNÉSIA (do Nolan) e MEU PAI (Zeller). Ou seja, é um filme que procura nos deixar quase tão desnorteados quanto a personagem com Alzheimer vivida pela atriz. O roteiro assinado em oito mãos podia ter sido melhor pensado para que a trama parecesse um pouco mais envolvente e também com mais verossimilhança - afinal, a polícia deixar que alguém com problema grave de saúde continue a trabalhar é caso de polícia. Mas talvez eu não esteja em condições de opinar, pois meus vários cochilos durante a sessão (culpo a alergia, principalmente, e o cansaço) fizeram com que a experiência do filme para mim guardasse semelhança com a experiência da heroína.

O DESTINO DE HAFFMANN (Adieu Monsieur Haffmann)

Um filme bastante envolvente, mas que vai perdendo a força em seus momentos finais quando se torna uma espécie de suspense barato à Supercine, mas sem ter a intenção de sê-lo (eis o problema). Ainda assim, temos em O DESTINO DE HAFFMANN (2021), de Fred Cavavé, uma trinca de atores que defendem muito bem seus papéis. Daniel Auteuil é o judeu que precisa fugir da França - os alemães começaram a prender e deportar os judeus. Gilles Lellouche é o sujeito que aceita fazer um negócio com o empresário rico vivido por Auteuil, em troca de desfazer o negócio ao fim da guerra. Sara Giraudeu faz a minha personagem preferida, a mulher de Lellouche que aceita uma proposta indecente do marido. Aliás, é com essa proposta que o filme vai se tornando mais interessante. Pena que deixe quase tudo a perder em seus instantes finais e no excesso de vilania de um dos personagens.

sábado, junho 25, 2022

THE DARK AND THE WICKED



Como o horror é um dos meus gêneros preferidos, sempre fico muito interessado em saber o que de melhor vem sendo produzido. Infelizmente as distribuidoras brasileiras não têm trazido todos os grandes títulos e por isso mesmo é interessante conseguir alguns dos filmes que nos interessam, aqueles que a gente sabe que há poucas chances de chegar ao nosso circuito, através de meios alternativos. Alguns furam a fila quando um amigo ou amiga chamam a nossa atenção. No caso, a amiga, crítica, professora e estudiosa do gênero Laura Cánepa destacou o caráter assustador de THE DARK AND THE WICKED (2020), o mais recente trabalho de Bryan Bertino, diretor do ótimo OS ESTRANHOS (2008) – infelizmente os outros dois trabalhos do cineasta, eu ainda não cheguei a ver.

E o que mais me deixou impressionado com THE DARK AND THE WICKED foi o fato de que é um filme que não apenas assusta, atordoa e arrepia por uma série de elementos muito bem conjugados, mas também por ter um tom extremamente pessimista com relação ao combate às forças do mal. Desse modo, nem é um filme apropriado a pessoas que estejam com o espírito um pouco mais depressivo.

Na trama, dois irmãos, Michael (Michael Abbott Jr.) e Louise (Marin Ireland), chegam a uma casa afastada do interior para visitar os pais, depois que recebem a notícia que o pai está em estado muito debilitado depois de um derrame, enquanto a mãe está vivendo um tormento ainda não compreendido por eles. 

Um dos trunfos do filme é também lidar com o terror da vida real, como dormir na mesma cama de um corpo moribundo, por mais que esse corpo seja de um ente querido. Além de também nos fazer pensar na morte iminente. Sem falar que a morte em si, uma morte em paz, por assim dizer, é uma bênção, se compararmos com o que o filme nos apresenta a seguir.

Há um trabalho de câmera com a janela scope que contribui muito para que as trevas sejam preenchidas até mesmo por coisas que apenas imaginamos ter visto. Além do mais, como lidar com o demoníaco já foi tão utilizado pelo cinema de horror por décadas, a ponto de se tornar um subgênero difícil de ser bem realizado, é uma dádiva ter uma obra que consiga ser tão arrepiante e tão desesperançada e dolorosa, indo muito além do jump scare e passando um bocadinho longe do que chamamos de diversão.

Não considero o último terço do filme tão bom quanto seus primeiros dois terços, pois há uma tendência em tornar cada vez mais explícito e mais convencional o drama e o horror, mas ainda assim é uma maneira honesta de dar um final digno ao filme. Inclusive, sem querer dar muito spoiler, a cena de Michael voltando para sua família não é apenas perturbadora, mas chega a acentuar ainda mais o sentimento de impotência daquela família diante das forças do mal.

E um dos aspectos de destaque desse mal presente em THE DARK AND THE WICKED é que não temos motivos, não temos uma historinha envolvendo algum fantasma que se sente perturbado por alguma situação passada. Aqui o que vemos é o mal demoníaco, algo já bastante usado em tantos outros filmes, especialmente a partir do sucesso de O EXORCISTA, de William Friedkin, com a diferença que Bryan Bertino tem um cuidado muito especial na condução da atmosfera e no modo como movimenta (ou deixa parada) sua câmera. Certos detalhes fazem uma diferença tremenda.

+ DOIS FILMES

ATÉ A MORTE - SOBREVIVER É A MELHOR VINGANÇA (Till Death)

Suspense próximo ao terror bem eficiente e inteligente no modo como lida com as resoluções da heroína frente à situação bizarra de estar algemada ao marido morto e ainda enfrentando novos desafios. A princípio, lembrei-me de JOGO PERIGOSO, de Mike Flanagan, mas aqui não há uma preocupação psicológica. O diretor S.K. Dale lida muito bem com a geografia do ambiente (a casa grande e os arredores) e com as cores, enfatizando o branco e o vermelho. Vendo ATÉ A MORTE – SOBREVIVER É A MELHOR VINGANÇA (2021), também lembrei-me de O TERCEIRO TIRO, de Alfred Hitchcock, pela maneira com que o cineasta usa um senso de humor sutil, ao tratar de um cadáver mudando de lugar, e também um pouco do primeiro JOGOS MORTAIS, de James Wan, pelo humor negro. A tensão não deixa o espectador gargalhar (pelo menos não deixou a mim), mas o humor está presente e é bem-vindo. Megan Fox está muito bem, como a mulher que usa a inteligência e a força física para sair de cada obstáculo à sua frente. Infelizmente (ou felizmente, não sei), larguei mão da sessão do filme na sala 1 do Iguatemi por problemas de projeção ruim e resolvi vê-lo em casa mesmo, com as cores vivas e nítidas que a obra merece.

JURASSIC WORLD – DOMÍNIO (Jurassic World – Dominion)

Se os primeiros dois títulos desta segunda trilogia dos dinossauros já haviam ficado no esquecimento, por mais eficientes que fossem na reciclagem do que Spielberg havia feito em 1993 e 1997, este último aqui, JURASSIC WORLD – DOMÍNIO (2022), dirigido por Colin Trevorrow, é lamentável em praticamente todos os aspectos. Mesmo trazendo de volta o trio de atores dos primeiros filmes (Laura Dern, Sam Neill e Jeff Goldblum) para se juntar aos novos personagens, isso só contribui para perceber que os produtores tinham muita coisa boa nas mãos e não souberam fazer nada que servisse. Nem a nostalgia, nem a sensação de perigo nas cenas de ação, nem o maravilhamento com os dinossauros, nem mesmo os efeitos especiais, que parecem os mais desleixados de todos os seis filmes. Até lembrei de produções dos anos 1950 que usaram a técnica da tela ao fundo de maneira muito mais eficiente. Não se trata de ser polícia de efeitos visuais, mas quando há milhões envolvidos, podemos sim reclamar. Em certo momento, durante as lutas para não dormir ao som da trilha sonora pouco inspirada de Michael Giacchino, eu fiquei torcendo para que algum dos sete heróis morresse, para me acordar do torpor que é essa aventura. E nem é spoiler dizer que isso não acontece. Uma coisa de que eu gostei: as cenas de perseguição dos dinos aos personagens de Chris Pratt (na moto) e Bryce Dallas Howard (no carro). Mas é muito pouco.

domingo, junho 19, 2022

ACAMPAMENTO SINISTRO (Sleepaway Camp)



Interessante como certos filmes que não são necessariamente bons ficam em nossa memória por mais tempo do que aqueles que têm um maior cuidado visual e narrativo. É o caso deste ACAMPAMENTO SINISTRO (1983), de Robert Hiltzik, que vi há um par de dias e ainda ficou me assombrando até agora. Assombrando é modo de dizer, claro, mas não há como negar que o filme tem um dos finais mais chocantes e impactantes ever. É mais ou menos como você assistir a uma cerimônia do Oscar maçante e de repente o melhor filme anunciado não é de fato o melhor filme e os então vencedores têm que descer do palco para que os reais subam – aconteceu de verdade em 2017. (Poderia fazer uma comparação com um jogo de futebol também, mas não sou exatamente um entusiasta e não tenho nenhum jogo em mente, mas acredito que existam sim equivalentes.)

ACAMPAMENTO SINISTRO é uma obra até um tanto medíocre. Mas há algo de diferente que percebemos logo de cara, que é o uso de adolescentes de verdade interpretando adolescentes, algo não muito comum nas produções do gênero na época. E o acampamento de verão de crianças e adolescentes parece de fato um acampamento de verão, um espaço em que as crianças se sentem mais à vontade para brincarem sem tanta intervenção dos adultos, como na escola ou em casa.

O filme se tornou objeto de culto por algumas gerações de cinéfilos. E quando começou a ser esquecido, foi criado um site na internet para apresentá-lo às novas gerações. Só depois da cena final que eu percebi que realmente se trata de uma dessas obras que de fato merecem essa adoração. Ou ao menos o seu culto. O ideal é ver ACAMPAMENTO SINISTRO sem saber nada da história, ou pelo menos sem saber o final, já que me parece até um pouco comum sua trama – pessoas sendo mortas misteriosamente em um acampamento de verão para crianças e adolescentes. Por isso, eu recomendo que não leia este texto se não tiver visto o filme ainda.

Pois bem. O que há, então, de tão novo e de tão impactante no final deste título? É não apenas o plot twist, mas principalmente a imagem final, que de tão icônica e bizarra é acertadamente congelada e a última que fica na mente, já que os créditos logo sobem. O filme até se torna mais controverso nos dias de hoje, quando as questões de transfobia estão mais em voga. Mas eu acho complexo simplesmente taxar o filme de transfóbico. Até porque há pessoas trans que o cultuam também, valorizam-no. Além do mais, o que acontece com Angela pode, de certa forma, ser comparado, guardadas as devidas proporções, ao que vemos em A PELE QUE HABITO, de Pedro Almodóvar.

Ou seja, Angela, é na verdade Peter, que passou a ser vestido e tratado como uma menina pela tia que o/a cria, depois que um terrível acidente mata seu pai e sua irmã. Esse acidente é mostrado no prólogo. Ou seja, depois que o filme acaba podemos ver Angela também como uma criança que comete os assassinatos tanto por ser vítima constante de bullying, como por ter, de alguma maneira, ficado complexada com sua mudança imposta de gênero. Ou seja, até mesmo se pararmos para pensar nas questões psicológicas que o filme pode trazer, ACAMPAMENTO SINISTRO sai ganhando. E tudo graças a essa reviravolta final.

Como se trata de um filme com muitas mortes (afinal, é um slasher!) e um tanto de nudez (principalmente nudez masculina) imagino o quanto pode ter sido delicado lançá-lo na época – a classificação indicativa nos Estados Unidos foi a NC-17 (rated R). A jovem atriz de 13 anos Felissa Rose, que interpreta Angela, até teve que sair de uma escola depois do filme, pois começou a sofrer bullying por causa do papel e da sequência final.

ACAMPAMENTO SINISTRO é mais um desses títulos vistos graças à curadoria da Versátil. Está presente no box Slashers (o primeiro volume), que ainda traz um belo documentário de 45 minutos sobre a realização e o legado desse pequeno clássico. 

+ DOIS FILMES

INCUBUS (The Incubus)

Gosto quando sou surpreendido. Um filme estar presente em determinado box, de um subgênero muito específico, como é o caso do slasher, pode mexer com nossas expectativas. Na escolha da noite, os nomes de John Hough (A CASA DA NOITE ETERNA, 1973) e de John Cassavetes funcionaram como um belo atrativo em um filme que supostamente mostraria mais uma onda de mortes causadas por um psicopata. E de fato as mortes acontecem e de maneira seguida, sangrenta e crescente, mas o filme vai seguindo caminhos misteriosos e só entrega as revelações nos instantes finais. Na trama de INCUBUS (1981), Cassavetes é um médico de uma pequena cidade litorânea que tem um passado nebuloso e uma filha adolescente. Na cidade, começam a aparecer vítimas de estupro e assassinato e, ao que parece, o criminoso tem uma força incomum. Ao mesmo tempo, um rapaz começa a acreditar que as mortes estão associadas a sonhos que ele anda tendo. INCUBUS sobe de escala muito por causa da presença apaixonada de Cassavetes, que tem uma técnica muito particular como ator (além de ser um diretor fenomenal). Sem falar que ele gosta de filme de horror, a julgar por sua forte presença em O BEBÊ DE ROSEMARY, de Roman Polanski, e A FÚRIA, de Brian De Palma. O filme tem uma estranheza atraente, até mesmo na maneira como os personagens se comportam, como se não fosse apropriado, como se algo tivesse dado errado na transposição do roteiro para a direção, mas que, no entanto, acaba deixando tudo mais charmoso. Nos extras do box Slashers XI, há uma entrevista com John Hough e ele confunde os filmes. Cita Sophia Loren, sendo que ele dirigiu Loren e Cassavetes juntos antes, em O ALVO DE QUATRO ESTRELAS (1978), outro título que merece, acredito eu, a atenção de alguma distribuidora.

O MASSACRE (The Slumber Party Massacre)

Ando tão cansado que assisti a este filme em duas partes. Preciso ver o que está acontecendo de errado com o meu corpo. A ideia de ver um slasher seria justamente ver um filme que não precisasse pensar muito, mas não sei o quanto isso cabe, já que todo filme é objeto de reflexão, e portanto necessita de energia física e mental. No caso de O MASSACRE (1982), trata-se de uma obra que até hoje desafia as pessoas que procuram vê-lo como uma obra diferenciada justamente por ser um slasher dirigido por uma mulher. Um dos poucos do gênero. A diretora Amy Holden Jones teve que escolher entre trabalhar na edição de E.T. – O EXTRATERRESTRE ou estrear na direção deste filme de orçamento bem modesto. E é um trabalho que fez sucesso, rendeu continuações e se destaca dentro do subgênero, por mais simples que sejam a proposta, os diálogos e a trama. No enredo, grupo de moças resolve fazer uma espécie de festa do pijama com pizza e vinho quando os pais de uma delas deixam a casa para viajar. O assassino com uma arma explicitamente fálica aparece para matá-las, uma a uma, e também alguns poucos rapazes. O filme explora desde o começo a nudez na cena do banheiro, de uma maneira que mais parece a visão de um adolescente tarado. É como se a diretora, sabendo das convenções e do que faria sucesso para o público alvo, resolvesse escancarar, de certa forma, esse aspecto. O MASSACRE tem um tom agradavelmente amador e isso me atrai, traz algo de belo, e o elenco feminino é bom o suficiente para ganhar a simpatia do espectador. Presente no box Slashers II.

sábado, junho 18, 2022

VERÃO VIOLENTO (Estate Violenta)



O nome de Valerio Zurlini me faz lembrar demais Carlão Reichenbach, que idolatrava seus melodramas e tinha como seu filme favorito DOIS DESTINOS (1962), cuja apreciação eu continuo me devendo. Com a partida de Jean-Louis Trintignant ontem, no dia 17, o escolhido para eu ver em homenagem ao grande ator foi o lindíssimo VERÃO VIOLENTO (1959), cuja história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, mais exatamente no ano de 1943, e narra uma história de amor entre um rapaz rico que vive fugindo das convocações do exército e uma viúva (Eleonora Rossi Drago), uma bela mulher mais velha do que ele – pelo visto, para a sociedade daquela época, essa diferença na faixa etária era uma espécie de tabu, quase um escândalo.

A história de amor é tratada com certa simplicidade do ponto de vista da trama, mas com muita sofisticação da direção e da fotografia. A cena da dança que culmina com o beijo dos dois é das coisas mais lindas que eu já vi na vida. E tudo é muito bem preparado para que essa cena seja mágica, inclusive a iluminação e o cenário. A música de Mario Nascimbene é maravilhosa e ajuda a conduzir com paixão a história de amor, desejo e proibição do romance em um contexto histórico em que as emoções se tornam ainda mais intensas.

Gostaria de deixar registrados um ou dois parágrafos a respeito dessa cena da dança, a mais importante do filme. Ela acontece quando Carlo (Trintignant) e seus amigos, junto com Roberta (Drago) e sua prima Maddalena (Federica Ranchi), após uma diversão no circo, adentram a velha mansão do pai de Carlo. O lugar tem uma aura pesada e Carlo resolve fazer uma experiência que se mostra muito interessante, que é apagar todas as luzes para que ele abra as portas da residência e a luz da noite adentre o recinto. Uma canção é escolhida, Carlo dança com a namorada Rosanna (Jacqueline Sassard), embora quisesse mesmo dançar com Roberta, mas isso se resolve quando algo chama a atenção do lado de fora da casa: as luzes de bombardeios atingindo uma cidade próxima.

Depois que todos olham para as luzes com um sentimento misto de maravilhamento e horror, acontece uma troca de casais que beneficiará Roberta e Carlo. Os dois começam a dançar tão juntinhos que a câmera passa a se esquecer dos outros ao redor. Por alguns poucos minutos, os corpos dos dois enamorados se aproximam de tal maneira e com tanto amor que nada mais parece existir. Pelo menos até Roberta acordar um pouco do transe e correr para fora da casa. Carlo a segue e ocorre um beijo. A opção de Zurlini de filmar o beijo inicialmente à distância faz toda a diferença, dando-nos um olhar voyeurístico para aquele gesto tão íntimo dos dois, embora depois aconteça o corte para os dois mais próximos.

A direção de fotografia de VERÃO VIOLENTO é de Tino Santoni, que repetiria a parceria com Zurlini em A MOÇA COM A VALISE (1961). As imagens em preto e branco fornecem um apelo ainda mais expressivo para os sentimentos de tintas dramáticas dos personagens. Se por um lado Carlo parece ser mais contido em seus sentimentos, Roberta deixa claro o quanto está impressionada com o fato de nunca ter sentido tanto amor assim em sua vida, na cena em que os dois acordam deitados na areia da praia, depois de uma noite juntos.

É impressionante como Zurlini ainda não tem o reconhecimento devido nos cânones que elevam os principais nomes do cinema mundial. No livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, por exemplo, não há nenhum filme dele em destaque. Nem mesmo aquele que é talvez o mais famoso, A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE (1972), que eu lembro de ser destaque da revista SET em seus áureos tempos.

Mas falemos um pouco do ator homenageado que nos deixou. Jean-Louis Trintignant (1930-2022) talvez tenha chamado primeiramente minha atenção com o excelente A FRATERNIDADE É VERMELHA (1994), o último longa de Krzysztof Kieslowski, visto nos primeiros anos de minha cinefilia. Talvez eu já tivesse visto o thriller político Z (1969), de Constantin Costa-Gavras em VHS, mas não tenho certeza disso. Outros dois filmes maravilhosos protagonizados por Trintingnant e que vi em casa foram o western O VINGADOR SILENCIOSO (1968), de Sergio Corbucci, e a comédia dramática MINHA NOITE COM ELA (1969), de Éric Rohmer. No fim da carreira, o ator ganharia muito destaque no impactante AMOR (2012), de Michael Haneke. O último filme dele que vi no cinema foi OS MELHORES ANOS DE UMA VIDA (2019), uma das continuações do clássico UM HOMEM, UMA MULHER (1966), de Claude Lelouch. Há vários outros filmes com a presença deste grande ator que ainda não tive a oportunidade de ver, mas com o tempo conhecerei ao menos parte deles.

+ DOIS FILMES

TRIUNFOS DE MULHER (Night Nurse)

Cada vez tenho gostado mais das produções americanas dos anos 1930. A estranheza ocasionada pelo som ainda incipiente na indústria me dá uma sensação muito gostosa, assim como o estilo de atuação. Sem falar que é como entrar numa máquina do tempo que nos leva a momentos e a comportamentos um pouco mais diferentes do que estamos acostumados a ver em filmes hollywoodianos. Este TRIUNFOS DE MULHER (1931) me atraiu pela direção de William A. Wellman e pela presença de Barbara Stanwyck, que considero uma das atrizes mais brilhantes do cinema americano. Aqui ela está novinha, com vinte e poucos anos, e no papel de uma jovem que busca a profissão de enfermeira. A primeira meia hora do filme a apresenta na rotina de trabalhar como enfermeira noturna em um hospital. O restante do filme, curtinho, a torna heroína de uma trama envolvendo um gângster simpático e um chofer malvado numa situação de uma família problemática e crianças doentes. Clark Gable aparece em papel que antecipa um pouco o jeito machão de seus filmes mais famosos. O final é empolgante e divertido.

GREAT FREEDOM (Große Freiheit)

Este filme dirigido por Sebastian Meise trata de uma situação que renderia diversos outros títulos, que é a questão da criminalização da homossexualidade, que na Inglaterra também era crime passível de cadeia até 1967. Na Alemanha (Ocidental), onde se passa a história, essa lei continuou por ainda mais tempo, e é nesse período, que vai de 1945 até o início dos anos 1970, que se passa a trama de GREAT FREEDOM (2021), documentando a trajetória de idas e vindas ao cárcere de Hans Hoffmann, vivido por Franz Rogowski. Aliás, que bela interpretação a desse ator, que inclusive emagrece bastante para viver o personagem em momento imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial. Como a trama não é contada de maneira tão linear, alguns eventos só são conhecidos à medida que vamos nos adaptando àquele ambiente sujo e opressivo. Há até um ou outro momento de ternura, mas no geral é um filme bem seco. Até a fotografia evita cores mais vivas e abraça a vida não vivida, apenas sobrevivida.

quinta-feira, junho 16, 2022

AMOR À FLOR DA PELE / IN THE MOOD FOR LOVE (Fa Yeung Nin Wah)



É muito curioso o fato de que o último texto que escrevi para o blog (já faz mais de um semana. :/) tenha sido sobre MURIEL, de Alain Resnais, e agora seja sobre AMOR À FLOR DA PELE (2000), de Wong Kar-Wai, revisto depois de mais de 20 anos. A primeira vez foi em película no dia 14 de julho de 2001, no Cinema do Dragão, que ainda se chamava Espaço Unibanco Dragão do Mar. Na época, não foi um filme que me deixou apaixonado. Talvez por eu não ter entendido muito bem, talvez por ser um período da minha vida em que ainda não tinha me restabelecido completamente do fim de um relacionamento estável. E o filme de Kar-Wai demanda atenção, demanda percepção e um olhar tão racional quanto sensível às imagens e aos sentimentos dos personagens. Agora, revendo numa cópia DCP 4K remasterizada lindona, pude perceber muito mais sua beleza e sua importância justíssima na história do cinema.

Agora eu vejo que muito da graça do filme está em não ser tão fácil de compreender, em não sabermos detalhes que o próprio Kar-Wai esconde do espectador, como a dúvida que fica sobre se o casal de protagonistas faz ou não faz sexo. Ou a decisão de nunca mostrar seus cônjuges, tornando a narrativa mais misteriosa. O fato de Kar-Wai mudar diversas vezes o figurino da personagem de Maggie Cheung também desnorteia um pouco. Mais ou menos como fez Resnais em seu MURIEL, quando mudou mobílias de lugar na mesma cena.

Acredito que ver os filmes anteriores do cineasta chinês ajude mais a compreender AMOR À FLOR DA PELE – há personagens em comum, por exemplo, com DIAS SELVAGENS (1990). Saber um pouco mais da história de Hong Kong também pode ajudar. O território passou mais de 150 anos sob domínio britânico e só foi devolvido à China em 1997. E no meio disso tudo houve a dominação japonesa nos anos da Segunda Guerra. Nesse ínterim, Hong Kong criou sua própria identidade, identificando-se tanto com o ocidente quanto com a China, presente de modo mitológico em tantos filmes de kung fu produzidos durante a primeira geração de cineastas do território.

O próprio personagem de Tony Leung, o sr. Chow, está trabalhando na confecção de um roteiro para um filme de artes marciais. (Ou seria um romance? Não lembro mais.) Curiosamente, quem mais vai ao cinema é a sra. Chan de Maggie Cheung. O sr. Chow apenas diz: eu já fui muito ao cinema antes. Sabendo que seus cônjuges estão os traindo, eles começam a se aproximar e a relação dos dois ganha um contexto de possível caso amoroso, embora nunca fique muito claro até que ponto a aproximação dos dois foi consumada. Isso se aproxima um pouco do sentimento de proibição que estava no ar naquela Hong Kong ainda muito tradicionalista e moralista dos anos 1960. E isso deixa claro o quanto o território ainda não estava tão atrelado assim às modernidades da contracultura do mundo ocidental, pelo menos no que se refere aos relacionamentos.

Há uma cena que diz muito disso. A sra. Chan entra escondida no quarto do sr. Chow e ela acaba tendo que ficar mais de um dia lá, já que seus quartos eram conjugados e uma senhora iria passar a noite inteira jogando com seus amigos. O espaço onde eles vivem é como uma pensão familiar e, portanto, sem privacidade.

Kar-Wai esbanja elegância e sensualidade, especialmente nas vezes que vemos Maggie Cheung caminhando pela cidade ou pelos becos em slow motion e ao som da trilha de Michael Galasso (AMORES EXPRESSOS, 1994) e Shigeru Umebayashi (2046 – OS SEGREDOS DO AMOR, 2004). A trilha é carregada de uma melancolia bem pesada e as canções em espanhol cantadas por Nat King Cole também enfatizam o sentimento de estarmos vivendo em um passado quase remoto.

O sentimento de abandono é tão forte, especialmente do ponto de vista da personagem de Maggie Cheung, que a relação amorosa (ou de amizade) que ela passa a estabelecer com o personagem de Leung passa a ser menor. De certa forma é compreensível que Leung ame mais Cheung do que ela a ele. A própria câmera namora o balançado do corpo da mulher, sempre vestida com roupas que fazem jus à sua exuberância.

Como o estilo de Kar-Wai se sobrepõe ao sentimento dos amantes abandonados, não fiz a mesma torcida pelo casal como fiz com outra produção de Hong Kong, COMPANHEIROS – QUASE UMA HISTÓRIA DE AMOR, também estrelada por Cheung e mais próxima de uma comédia romântica convencional, se comparada com o impacto visual e narrativo do filme de Kar-Wai. Mesmo assim, e apesar de meu corpo ainda não estar suficientemente favorecendo as apreciações fílmicas, rever AMOR À FLOR DA PELE foi bom demais. E acredito que tenderá a crescer mais ainda nas futuras revisões. Quem sabe um dia eu volto aqui para escrever um texto mais decente sobre o filme. De todo modo, há toneladas desses textos mais aprofundados na internet, que só provam que escrever sobre esta obra parece ser sempre insuficiente, seja pelo que percebemos (especialmente na forma), seja pelo que ainda precisamos aprender ou notar.

+ DOIS FILMES

TRE PIANI

Um filme que traz imenso prazer em seu terço inicial, principalmente, mas que infelizmente vai perdendo a força à medida que avança em sua estrutura narrativa. Como nenhuma das três histórias é exatamente excelente, talvez a opção de amarrá-las em um único filme tenha sido uma alternativa interessante. E com alguma frequência TRE PIANI (2021), de Nanni Moretti, funciona, embora na maioria das vezes não faça muita diferença esse link. A história liderada por Ricardo Scarmacio, que sofre com um evento envolvendo a filha e depois com uma situação com uma jovem, talvez seja a que mais apresenta elementos dramáticos mais densos. Ainda assim, é a história liderada por Alba Rohrwacher que tem mais potencial trágico, levando em consideração a doença e a solidão da protagonista. Enquanto isso, Margherita Buy, a atriz de MIA MADRE (2015), é a que lidera o mais representativo dos temas que Moretti tem abordado nas últimas duas décadas, como a dor da ausência do filho. As outras histórias também tratam de temas caros ao diretor. Por mais que não tenha sido o sucesso que gostaríamos que fosse, é sempre bom acompanhar o trabalho de um diretor maduro e talentoso.

LAÇOS DE SANGUE (Hard, Fast and Beautiful)

E eis que, para minha surpresa, LAÇOS DE SANGUE (1951), o meu filme favorito da Ida Lupino na direção, não trata de nenhum tema trágico ou com uma carga de horror intensa. Trata-se de um lindo trabalho sobre ambição, carreira, escolhas, e mais um bocado de coisas que dão muito o que falar. Fiquei feliz de ter ido ver no Cineclube da Mostra “Ida Lupino - Subversão e Resiliência” anos atrás, em vez de ter deixado pra ver em casa. O debate também foi bastante enriquecedor. Na trama, uma jovem prodígio do tênis é forçada a escolher entre um romance e as ambições de sua mãe.

domingo, junho 05, 2022

MURIEL (Muriel ou le Temps d’um Retour)



Estava procurando alguma coisa no meu acervo de livros sobre MURIEL (1963) e acabei me deparando com esta quarta capa do livro Os Filmes da Minha Vida 4 – O Real e o Imaginário, organizado por Renata de Almeida. Há nesta quarta capa os dez mandamentos de um cinéfilo, criados por Leon Cakoff. Um deles me chamou a atenção e tem tudo a ver com a minha relação com o filme visto: “reconhecer a sua própria ignorância, pois ninguém nasce sabendo (quem não reconhecer a sua ignorância continuará ignorante)”. Um outro que pode valer também é “Na dúvida, ao final de um filme, não emitir opinião errada”. Como eu costumo escrever sempre pequenos textos (para o álbum do Facebook e para o Letterboxd) sobre minha relação com o filme recém-visto, então, relevem: são apenas impressões que podem mudar com o tempo, seja pela maneira como o filme permanecerá (ou não) em minha memória, seja através de estudos que me ajudam a abrir os olhos sobre a obra em questão.

O cinema de Alain Resnais não é sempre fácil. Mas, assim como apenas na terceira tentativa consegui ver (e adorar) 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick, também foi só na terceira vez que vi HIROSHIMA, MEU AMOR (1959), dessa vez no cinema, que eu percebi o quanto a poesia desse filme é mágica e impressionante. Por isso, por mais que a minha experiência com qualquer filme de Resnais não tenha sido das mais “agradáveis”, eles sempre serão encarados por mim com o maior respeito e reverência.

Por ocasião do centenário de Resnais (em 3 de junho), lá fui eu pegar uma de suas obras do box O Cinema de Alain Resnais, da Versátil. Escolhi o mais antigo, dentre os inéditos pra mim, e a escolha pode ter sido a mais difícil, para lembrar de um termo familiar nos dias de hoje. Talvez porque o cineasta tenha acabado de sair de O ANO PASSADO EM MARIENBAD (1961), sua experiência mais radical do ponto de vista formal e narrativa, e seguia querendo inovar, com seu cinema ainda bastante desafiador. 

MURIEL é confuso, mas muitas vezes isso serve para nos fazer questionamentos (em vários momentos eu gesticulei para a televisão, como aquele meme do John Travolta) e por isso mesmo nos manter acesos. Muitas dessas dúvidas que me surgiram tiveram a ver com as motivações dos quatro personagens principais, todos misteriosos e sem muita certeza do que lembram e do que queriam no passado ou querem no presente, especialmente o casal mais velho, Hélène (Delphine Seyrig) e Alphonse (Jean-Pierre Kérien). O casal mais jovem vive um outro tipo de angústia, especialmente Bernard (Jean-Baptiste Thiérrée), atormentado por um passado recente na Guerra da Argélia, quando conheceu uma moça chamada Muriel. Já Françoise (Nita Klein) tem um tipo de relação pouco compreensível com os dois personagens masculinos.

Resnais brinca com uma montagem que salta tão rapidamente que é preciso muita atenção. Na análise sobre o filme presente no box, soube que o diretor mudava o cenário no meio de uma cena, ou mudava a posição dos móveis com frequência. Além disso, percebi que os dias se confundem com as noites e a noção do tempo também se torna difusa. Por isso, de certa forma os dramas dos personagens afetam pouco a audiência, pelo menos de uma maneira mais convencional, já que há toda uma questão da narrativa fragmentada que faz com que a experiência de ver MURIEL seja um desafio do primeiro ao último minuto. Logo no começo, fiquei bastante incomodado com o fato de a casa ser próxima à praia (como Hélène informa) e demorarmos muito a ver a tal praia. Pode ser um incômodo banal, mas faz parte de um tipo de desconforto proposital que Resnais parece querer trazer.

A própria escolha da locação, a cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, é deliberada, já que é uma cidade cuja área foi 85% comprometida com as explosões na época da Segunda Guerra. Ou seja, é uma cidade que convive com prédios reconstruídos e uma parte antiga, ainda de pé. Ambas as partes da cidade são mostradas e também contribuem com a sensação de deslocamento. A própria casa de Hélène é um antiquário e sempre aparece diferente, já que ela trabalha vendendo vários móveis antigos. Assim como a cidade e a casa de Hélène, a vida dos quatro personagens principais também está em processo de reconstrução. E muitas vezes de perda da memória.

Outra sensação de estar perdido vendo MURIEL está nos diálogos. Como os personagens evitam se comunicar, ou falar a verdade, ficamos sem compreender certas ações. Em certo momento, Françoise conversa com um dos personagens e reclama com o fato de ele não conseguir completar uma frase. Essa cena é bastante representativa da nossa relação com a obra, mas também do quanto Resnais intenciona nos colocar um pouco na posição confusa daqueles seres humanos deslocados e sensíveis. Assim, o passado parece ao mesmo tempo distante e imaginário, principalmente para os personagens mais velhos (Hélène e Alphonse), que foram namorados durante a juventude e o fato de terem rompido é algo que se tornou uma espécie de trauma para os dois.

A personagem-título é uma mulher que nunca aparece e que seria a namorada de Bernard. De acordo com o que vemos nas cartas do rapaz e em um relato narrado, a moça teria sido alguém que fora torturada e morta na guerra da Argélia, acusada de sabotagem. Bernard diz ter uma namorada com esse nome, mas Hélène, por exemplo, nunca a viu. Seria Muriel uma criação da mente de Bernard para afastar um possível sentimento de culpa? Aliás, a guerra da Argélia (1954-1962) era um assunto que rendia censura na época, como foi o caso de O PEQUENO SOLDADO, de Jean-Luc Godard, que só foi liberado pela censura após o fim da guerra. MURIEL foi provavelmente liberado pois a guerra já havia acabado em 1963.

Quando Alphonse surge na casa de Hélène, ele chega acompanhado de uma mulher mais jovem, que diz ser sua sobrinha, embora na verdade eles tenham sido amantes. Françoise, por sua vez, procura se aproximar de Bernard, o que não é fácil, já que ele é um rapaz de comunicação complicada. Lá pelo final do filme, inclusive, vemos uma outra moça que seria a namorada de Bernard, uma jovem com um visual andrógeno, que, por conta da montagem cada vez mais fragmentada, é uma personagem de que pouco sabemos.

MURIEL não é um filme de travellings. Em vez do uso da movimentação de câmera, Resnais prefere os cortes rápidos. Mesmo quando usa o campo/contracampo, isso é às vezes mostrado de maneira distinta do que estamos acostumados. Como o diretor se declarava fã de quadrinhos, também usou com bastante frequência falas vindas de uma cena anterior na cena seguinte. Não chega a ser um recurso tão complicado, mas talvez tenha causado um pouco de incompreensão na época. Imagino que isso seja não apenas um recurso mais moderno de narração, mas uma adição para o sentimento de deslocamento mental e às vezes completa incompreensão do que está acontecendo. E quando achei que o filme já nos deixou suficientemente confuso, eis que o final me deixa sem chão. De todo modo, adoraria ter a chance de rever MURIEL no cinema. Seria incrível. 

+ DOIS FILMES

O TETO (Il Tetto)

Um filme como este, que deixa um calorzinho no coração, se faz necessário nos dias de hoje. Me fez lembrar O PÃO NOSSO, de King Vidor, no que se refere ao espírito coletivo em prol de uma ação nobre, mas é muito mais humilde. Quando vemos o casal de O TETO (1956), vivido por Gabriela Pallotti e Giorgio Listuzzi, se casando e depois partindo para morar na casa pobre e já cheia de gente da família do noivo, do quanto aquilo tudo é desconfortável, tenso e carente de privacidade, isso é só o começo para nos prepararmos para a jornada do casal por um espaço para morar, quatro paredes e um teto, tendo muito pouco dinheiro no bolso e tentando burlar as leis municipais para conseguir o seu sonho. O grau de humanidade deste filme de Vittorio De Sica o coloca, pra mim, como um de seus melhores trabalhos. O roteiro é de Cesare Zavattini, parceiro de outros grandes trabalhos do diretor, como LADRÕES DE BICICLETA (1948), DUAS MULHERES (1960), entre outros. De dar gosto. Filme presente no box O Cinema de Vittorio De Sica.

NÃO AMARÁS (Krótki Film o Milosci)

A vantagem de a memória nos ser falha é que vemos alguns filmes como se fosse a primeira vez. Os filmes do Krzysztof Kieslowski têm esse poder de se tornarem melhores ainda na revisão, de haver sempre detalhes a serem percebidos. NÃO AMARÁS (1988) é até um dos mais acessíveis em sua narrativa muito clara sobre a paixão/obsessão de um rapaz por uma mulher. Ele a espia todos os dias com uma luneta, até que começa a querer se aproximar fisicamente dela. É o JANELA INDISCRETA do Kieslowski. Há um pouco de suspense, mas o que há mesmo é um manancial de emoções. E o que é aquele final, meu Deus?! É como se o filme (aquilo que é assistido) olhasse para o espectador e percebesse a beleza da imaginação. Que coisa linda!

sábado, junho 04, 2022

IRMA VEP



Antes de mais nada, queria deixar registrado o meu agradecimento a Olivier Assayas e ao filme IRMA VEP (1996), em particular, por ter conseguido me manter ligado e tranquilo do início ao fim. Pode parecer bobagem dizer isso, levando em consideração que o filme não tem nem 100 minutos, mas ultimamente ando exausto, suspeitando que estou com esgotamento físico, burnout, ou talvez até sintoma da chamada Covid prolongada. Ou talvez apenas seja consequência do cansaço físico e mental que o retorno às aulas presenciais, em particular em uma das escolas, me provocou. Ou talvez o problema não seja necessariamente da escola, mas do momento, do pós-pandemia. Aliás, nem é pós-pandemia, pois o vírus anda circulando e matando ainda. Enfim, deixando a culpa de lado, o fato é que revi IRMA VEP com uma sensação muito agradável de estar bem e feliz diante desta pequena obra-prima.

O filme foi a primeira obra de Assayas que vi, graças ao meu amigo Renato Doho, que o gravou em uma fita VHS no início dos anos 2000. Até é possível ler um pequeno comentário meu escrito no blog em 2003. Esse período, o início do milênio foi muito importante pra mim, como um momento de descoberta e de compreensão de que o mundo do cinema era muito maior, empolgante e inesgotável do que eu imaginava.

O primeiro filme de Assayas a ser exibido em circuito local foi CLEAN (2004), para se ter uma ideia – posso estar enganado e algum anterior ter sido exibido discretamente, mas acho bem pouco provável. Certos títulos dos anos 2000 do cineasta, só pude vê-los em seus lançamentos em DVD, como ESPIONAGEM NA REDE (2002) e TRAIÇÃO EM HONG KONG (2007). Ou seja, apesar de Assayas ser um diretor cultuado, demorou a ser um cineasta com forte presença nas telonas da minha cidade.

Com IRMA VEP, Assayas constrói um filme tão saboroso que dá vontade de viver dentro dele. Destaco principalmente a cena do jantar, com a câmera passeando por diversos lugares da casa (adoro também a personagem de Nathalie Richard), mas também aquela cena fantástica do sonho (?), que começa ao som de Sonic Youth, e depois vemos Maggie Cheung na tentativa de roubar um colar – uma prova de que Assayas também dominaria um filme de gênero tranquilamente, como faria posteriormente com PERSONAL SHOPPER (2016).

E há aquela cena de Maggie dando uma entrevista para um repórter fã de John Woo, que desperta ao mesmo tempo riso e raiva do tal sujeito – mais adiante, com ACIMA DAS NUVENS (2014), veríamos uma discussão acalorada sobre a questão cinema americano comercial vs. cinema francês de autor. Outro acerto de Assayas é escalar uma atriz e nos deixar tão apaixonados por ela quanto o próprio diretor. O filme brilha com a beleza de Maggie Cheung e seu jeito, ao mesmo tempo tranquila e tímida, diante daquele mundo novo. E quando achamos que o filme não nos surpreenderia, vêm aquelas imagens finais fantásticas e que hoje, com o digital imperando, parecem ser ainda mais tributárias do cinema, como uma arte quase palpável na era analógica.

Assayas tem como uma de suas marcas esse abraçar a cultura pop, o rock, o cinema americano, embora deixe bem claro que o tipo de cinema que realiza é mais aproximado mesmo do cinema francês, embora com um viés mais moderno, por assim dizer. Daí essas discussões, essas piscadelas, esses atritos, acontecerem com certa frequência. No caso de IRMA VEP, há uma ligação forte com o seriado para cinema OS VAMPIROS (1915). É desse seriado que vem a personagem título, que no clássico de Louis Feuillade é interpretado pela lendária Musidora, atriz extremamente carismática e expressiva que também se aventuraria pela direção.

O diretor de IRMA VEP, René Vidal, vivido por outro ator lendário, Jean-Pierre Léaud, mais conhecido por suas colaborações com François Truffaut (mas não apenas), traz Maggie Cheung, vivendo “a si mesma”, saindo de Hong Kong para Paris para ser a nova Irma Vep nesse projeto de um diretor com pinta de gênio. Vidal havia visto Cheung em algumas fitas de ação, como HEROIC TRIO, de Johnnie To, e não consegue tirar da cabeça que ela seria a Irma Vep perfeita. A atriz aceita, com muita simpatia e generosidade, ser a protagonista do filme. O problema é que as filmagens já começam de maneira muito tumultuada, com o cineasta entrando em uma espécie de colapso nervoso. Enquanto isso, Maggie fica sabendo que é desejada pela assistente Zoé (Nathalie Richard). É Zoé quem adequa o figurino de látex ao corpo de Maggie. Um tipo de figurino, aliás, muito próximo de uma fantasia de sadomasoquismo, algo que parece ser uma obsessão de Assayas, vide ESPIONAGEM NA REDE.

O crítico Franck Le Gac, em texto para a coluna "Great Directors", do site Senses of Cinema, diz sobre Assayas:

Seu foco tende a ser mais nos momentos íntimos, aparentemente insignificantes e banais da vida cotidiana, sua fisicalidade e materialidade humildes – e como muitas vezes elas dão visibilidade a dilemas morais e sentimentos equívocos de modo melhor do que os diálogos ou, obviamente, do que os códigos de atuação. (tradução minha)

Ou seja, quando vemos uma cena como a de Maggie e Zoé no táxi, a caminho de uma rave, e depois a conversa das duas, ou a já citada sequência do jantar, percebemos o quanto esses momentos aparentemente insignificantes se tornam grandes e extremamente importantes dentro do filme. E também vemos o quanto de herança Assayas recebeu dos vários cineastas da Nouvelle Vague. E o quanto ele amplia a influência do globalismo na sociedade francesa – isso, inclusive, é tema de outros de seus trabalhos posteriores, seja como debate, seja como parte orgânica da narrativa.

+ DOIS FILMES

A IGUALDADE É BRANCA (Trois Couleurs: Blanc)

É interessante ver um Krzysztof Kieslowski mais leve, fazendo uma comédia no meio de dois filmes bem dramáticos da trilogia das cores. A IGUALDADE É BRANCA (1994) é geralmente o menos querido dos três, e eu diria o mesmo, mas é uma obra que merece mais carinho. É uma espécie de versão leve da história do homem que tenta algo muito louco para recuperar a mulher amada, algo visto em tom mais sombrio na obra-prima NÃO AMARÁS (1988). É também um filme que respira muito bem, especialmente quando o protagonista retorna à Polônia, local da maior parte da narrativa. Há também uma bonita história de amizade no meio de tudo.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois Couleurs: Rouge)

É ser muito afortunado poder ver no cinema, em um espaço de dois dias (isso foi em 2020), duas obras-primas de Krzysztof Kieslowski estreladas pela lindíssima Irène Jacob – o outro foi A DUPLA VIDA DE VÉRONIQUE (1991). Em A FRATERNIDADE É VERMELHA (1994), a atriz traz uma carga de sensibilidade, de bondade e de fragilidade tão fortes que, a cada vez que ela é confrontada com a figura do velho amargurado vivido por Trintignant, é como se estivéssemos prestes a ver um copo de cristal se quebrar. No entanto, ela fica e tenta entender aquele homem, os seus atos. Mais uma vez, o cineasta lida com o cruzamento de destinos e também com um tipo de amor universal de uma maneira mais leve do que em A LIBERDADE É AZUL (1993). Além do mais, em vez de um choro em meio a uma conclusão quase feliz, o que temos é um sorriso após uma tragédia.

segunda-feira, maio 30, 2022

UM TRISTE PRAZER (Damaged Lives)



Uma das coisas ao mesmo tempo tristes e comoventes no livro de entrevistas Afinal, Quem Faz os Filmes, de Peter Bogdanovich, é perceber a decadência física dos cineastas entrevistados, por mais que em boa parte das conversas eles estivessem com disposição para falar sobre as histórias envolvendo a realização de cada um de seus filmes. No caso de Edgar G. Ulmer, ele havia melhorado depois de um primeiro derrame, e conseguiu falar sobre sua carreira inicial até O INSACIÁVEL (1948), que Bogdanovich considera um de seus melhores trabalhos. Depois disso, ele se foi. 

Acho louvável Bogdanovich se juntar aos críticos franceses e a outros estudiosos do cinema, que nas décadas de 1950-60 trouxeram um sentimento de valorização para as obras de vários cineastas-autores da velha Hollywood. Embora Ulmer não seja um cineasta exatamente ausente dos livros, há muitos filmes de baixo orçamento em seu currículo que acabaram ficando esquecidos do público médio. Para se ter uma ideia do que ficou no cânone, no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, apenas dois filmes do diretor são citados, ambos em textos de meia página: o horror O GATO PRETO (1934) e o noir essencial CURVA DO DESTINO (1945). São obras fundamentais, é claro, mas muito mais precisa ser descoberto. Por mim também, inclusive. 

Eis que tive a oportunidade de ver em uma ótima cópia UM TRISTE PRAZER (1933), que o cineasta realizou a pedido do ministério da saúde do Canadá, com o propósito de alertar as pessoas para os perigos das doenças venéreas, em especial a sífilis, e o que ela pode causar caso não seja tratada com muito cuidado e atenção. O filme acabou resultando numa espécie de exploitation de doença. O homem, depois de uma aventura com uma mulher que conhecera em uma noitada, passa sífilis para a esposa e o mundo deles desmorona quando descobrem a doença.

Há um trabalho de tensão e suspense que existe do início ao fim, além de uma dramaticidade extrema que o aproxima da tragédia, aproveitando muito bem um registro de melodrama típico da época, com pouca utilização de música, ao contrário dos exemplares dos anos 1950. Ulmer ainda faria vários filmes ótimos, rentáveis e baratos.

UM TRISTE PRAZER tem aquele estilo de câmera meio parada, muito comum na maioria das produções do início dos anos 1930, ainda se adaptando ao som, mas achei bem dinâmico, apesar das limitações técnicas (e orçamentárias). Ulmer era famoso por conseguir fazer filmes em poucos dias, com pouco dinheiro e ainda ter resultados incríveis. Este, por exemplo, foi realizado em oito dias. Nesse sentido, vejo Ulmer como um autor que conseguiria trabalhar no esquema de realização brasileiro dos anos 1970 com a mesma desenvoltura com que trabalhou em Hollywood, sem se importar tanto com a extrema modéstia das produções.

O filme teve uma carreira bem conturbada por abordar o tema de maneira bem pouco sutil. Há uma cena em que um médico apresenta ao protagonista uma verdadeira sala de horrores no hospital, como se adentrassem uma espécie de inferno. Eles atravessam um corredor e em cada sala há uma pessoa que enfrenta uma consequência específica da sífilis, desde uma ferida que pode causar a amputação do pé de um homem até um caso grave de doença neurológica. Provavelmente essa sequência tenha sido o estopim que levou um crítico do New York Times a dizer de UM TRISTE PRAZER: "talvez o filme mais grotesco já lançado em distribuição pública" (Jacques Lourcelles, Edgar Ulmer, lempereur du bis). Com isso o filme só foi exibido em mais salas nos Estados Unidos somente em 1937, por causa da censura. Hoje em dia, isso até pode funcionar como chamariz. Que mais pessoas vejam o filme, então. 

+ DOIS FILMES

QUEM AMA NÃO TEME (Never Fear)

Bom poder ver o segundo filme da Ida Lupino, QUEM AMA NÃO TEME (1950), e já fazer uma conexão direta com o primeiro, sendo que considero este superior, ainda que mais carregado no melodrama. Como isso não é problema pra mim, ao contrário, então me emocionei diversas vezes. Interessante esse cuidado inicial com as questões humanas: se o primeiro filme dela era sobre a questão da mãe solteira, este aqui lida com o impacto da pólio. Na trama, uma dançarina (Sally Forrest) que acabou de iniciar uma grande carreira descobre que contraiu a doença.

O MUNDO É O CULPADO (Outrage)

É impressionante como O MUNDO É O CULPADO (1950), terceiro longa dirigido por Ida Lupino, dialoga com os dias de hoje, dias cheios de assediadores e estupradores sendo revelados. E nem é um filme que explicita a violência. Ainda assim, ela é muito presente. Ao falar de estupro, a cineasta sabe que está falando de um tema espinhoso e que não pode colocar o assunto de maneira tão clara por limitações do Código Hays. Na trama, jovem (Mala Powers) tem sua vida perturbada quando é violada no caminho de casa.

domingo, maio 29, 2022

TOTALMENTE SELVAGEM (Something Wild)



Com o falecimento de Ray Liotta na quinta-feira passada, dia 26, a revisão que eu já estava ensaiando de TOTALMENTE SELVAGEM (1986) acabou por se antecipar. Embora Liotta seja um personagem fundamental para a trama, ele só aparece depois de cerca de uma hora de metragem. Mas justamente para mudar o tom do filme, trazer sombras para as tintas até então solares que Jonathan Demme emprestava à história de um encontro feliz (ainda que provavelmente perigoso) entre a libertária Lulu (Melanie Griffith) e o yuppie Charlie (Jeff Daniels). Os dois se conhecem em um café quando ela percebe que ele sai sem pagar do estabelecimento, flagrando, assim, seu lado rebelde, contraventor.

Lulu, a versão morena de Melanie Griffith, com uma peruca que faz lembrar o corte de cabelo de Louise Brooks, faz o tipo femme fatale, e por isso mesmo muito atraente. Charlie, a princípio muito temeroso de entrar no carro colorido de Lulu, que joga fora seu pager e depois entra em contato com o escritório dele para deixar claro que ele passará o fim de semana de folga com ela, sente uma atração muito forte por aquela mulher.

Acho o filme bem ousado na primeira cena de sexo do casal. E embora tenha ficado muito forte o seu impacto em minha memória de adolescente, ainda hoje vejo essa cena (e tudo que vem junto) como a materialização de uma fantasia masculina de dominação (passiva), frente a uma mulher poderosa. Na tal cena, Lulu algema Charlie na cama, rasga sua camiseta, tira fora a própria blusa deixando ver seus belos seios e faz um sexo de uma maneira até então inédita para aquele homem. Não à toa, ele se deixa levar cada vez mais por essa brincadeira e aceita até fingir ser noivo de Lulu, na verdade Audrey, quando visita a mãe dela. O fato de Audrey ser loira, inclusive, faz lembrar o jogo hitchcockiano de UM CORPO QUE CAI, mas de maneira muito mais divertida, por assim dizer.

TOTALMENTE SELVAGEM talvez possa ser visto como uma espécie de trilogia que o diretor fez em parceria com o músico David Byrne, após ter dirigido o musical STOP MAKING SENSE (1984), sobre a banda Talking Heads. Byrne faria tanto a canção de abertura de TOTALMENTE SELVAGEM, quanto a trilha sonora do ótimo DE CASO COM A MÁFIA (1988), que também conta com os ritmos afrolatinos do anterior. Aquilo parecia ser uma marca do cineasta, mas ele resolveu entrar com força em filmes mais sérios e com vistas ao Oscar, a partir de O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991), seu maior êxito comercial, de crítica e de premiações. Não que eu esteja reclamando. E não que Demme também já não tivesse experimentado o gênero suspense nos anos 1970, ainda que em produções mais modestas.

Sobre TOTALMENTE SELVAGEM, gosto de como o filme se sai bem em suas viradas de roteiro, e também em como é dessas obras que se assiste com um sorriso no rosto por cerca de uma hora pelo menos. Até o momento que o humor se alia também ao suspense. No mais, ver o filme é também aproveitar o momento adorável de Melanie Griffith naqueles anos 1980, após ela ter trabalhado com Ferrara (CIDADE DO MEDO) e De Palma (DUBLÊ DE CORPO). Quanto a Ray Liotta, é bem possível que o sucesso de seu personagem vilanesco no filme de Demme tenha sido o motivo de ele ter sido convidado por Martin Scorsese para protagonizar a obra-prima OS BONS COMPANHEIROS. A partir de então, o ator ficaria marcado por personagens criminosos, maus e/ou perversos. Enfim, um ator que vai fazer falta.

+ DOIS FILMES

MANITOU - O ESPÍRITO DO MAL (The Manitou)

É impressão minha ou o cinema de horror dos anos 1970 era bastante original? Como não acompanhei "ao vivo" esta década nas salas de cinema, não saberia dizer, mas o que dizer de um filme sobre uma mulher que está com um tumor nascendo na nuca, que descobre que esse tumor é um feto, e que dele está reencarnando um antigo curandeiro de 400 anos atrás? Além do mais, MANITOU - O ESPÍRITO DO MAL (1978), de William Girdler, é também um filme sobre exorcismo, só que o exorcista aqui é um nativo americano, combatendo fogo com fogo - essa é a ideia do escritor vivido por Burgess Meredith, em participação pequena. O protagonista é Tony Curtis e isso daria a impressão de que se trata de uma produção classe A, mas o fato é que muitos atores e atrizes da velha Hollywood estavam precisando de dinheiro e muitos deles participavam de algumas produções de terror da década. O filme não envelheceu muito bem, especialmente com os efeitos pouco críveis, mas isso é algo para se dar um desconto. Ainda assim, eu preferia um filme mais focado na história do feto nascendo na nuca do que em um exorcismo ou coisa parecida. Mas não dá para negar que o roteirista dá asas à imaginação, sem medo de ser feliz. Filme presente no box Obras-Primas do Terror 17.

O BÍGAMO (The Bigamist)

O corpo de sete filmes e um monte de episódios para séries de televisão que Ida Lupino dirigiu nos anos 1940-60 é admirável dentro de uma indústria onde se via tão poucas diretoras mulheres. E mais admirável ainda que todos os filmes que vi dela são no mínimo muito bons. Este melodrama noir, O BÍGAMO (1953), é bem mais do que o título dá a entender. Claro que já ficamos sabendo de imediato que temos uma história sobre um homem com uma vida dupla, casado com duas mulheres. Mas Lupino e seus roteiristas, em vez de condenarem o homem, tornam-no mais complexo e mais digno de nossa solidariedade. Afinal, é pelo ponto de vista dele que ficamos sabendo de toda a história, através de um longo flashback muito comum nos filmes da época. E ainda que seja uma obra de narrativa bem clássica, a opção dada para a conclusão me pareceu um tanto moderna, além de trazer uma dramaticidade muito bonita dentro daquela situação complicada, para usar de eufemismo.

sábado, maio 28, 2022

TANTAS ALMAS



Uma das coisas que me deixa muito triste é o desconhecimento que temos da história dos nossos países vizinhos. Sabemos detalhes da história dos Estados Unidos e, no entanto, eventos relativamente recentes de países da América do Sul parecem novidade para nós. Parte disso está também no modo como a grande imprensa dimensiona essas notícias, fazendo com que elas ganhem pouca visibilidade frente a outras, julgadas mais importantes, em países ditos do primeiro mundo. Estou vendo muita gente admirada, por exemplo, em não ter ouvido falar das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), nome dado às milícias que atacavam camponeses e ONGs progressistas no começo dos anos 2000, com apoio extraoficial do presidente do país naqueles primeiros anos do novo milênio. Eu também nada sabia. 

E com isso chegamos a TANTAS ALMAS (2019), de Nicolás Rincón Gille. É difícil não assistir ao filme e não imaginar um Brasil em um segundo mandato presidido por Jair Bolsonaro. Um país zumbi, ameaçado constantemente por pessoas autoritárias, estúpidas e assassinas. Na trama, que se apresenta de maneira bastante lenta, um pescador chamado José (Arley de Jesús Carvallido Lobo) sai em busca dos corpos de seus dois filhos assassinados e desaparecidos pelas forças paramilitares do país.

Na bela fotografia em scope de Juan Sarmiento G. (ALGUMA COISA ASSIM, de Esmir Filho e Mariana Bastos), há uma preferência por imagens escuras, até porque as ações do homem precisam ser às escondidas dos milicianos. Mas há passagens de luz natural do dia também muito fortes, mesmo que essa luz não ajude a atenuar o sentimento de impotência que impera. É o caso de uma cena em que o protagonista adentra um cemitério em que pessoas não identificadas estão enterradas, algumas delas com os corpos em pedaços, dentro de vários sacos pretos.

Entre as cenas que destacam o enfrentamento de José com os milicianos, há um momento em que ele é abordado por dois deles, quando encontra o corpo de um amigo à beira do rio, perto dos corpos de outras pessoas. Enquanto ele está "conversando" com o amigo morto, esses homens chegam e o ameaçam. Sua única arma perante aqueles homens que aparentemente o matarão é dizer que ele os perturbará se for assassinado. Esta é a única arma possível: fazê-los ter medo de uma vingança do além.

Aliás, não é difícil ver TANTAS ALMAS como um filme bastante próximo do mundo dos espíritos. José acredita que para encontrar o corpo do segundo filho é necessário que o rapaz lhe dê algum sinal. Pede desesperadamente um sinal. É aí que entra uma das cenas mais geradoras de impotência que vi no cinema nos últimos anos: José desenterrando as covas dos mortos anônimos para encontrar, quem sabe, o corpo de seu segundo filho. Isso depois de passar por uma jornada extremamente exaustiva, em que o cansaço parece mais presente em seu rosto do que em seu corpo, ainda resistente à fome, à perseguição e ao medo. Exatamente por não dar muita trégua ao espectador em seu ritmo que parece tentar emular o cansaço de José, TANTAS ALMAS não é um filme fácil. Mas quem disse que deveria ser?

+ DOIS FILMES

BELCHIOR - APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM

Vejo BELCHIOR - APENAS UM CORAÇÃO SELVAGEM (2021) como um aquecimento para futuras obras que consigam se aproximar mais da genialidade e da sensibilidade de Belchior. Se não do ponto de vista formal, sendo mais inventivo, poderia ser mais convencional, trazendo depoimentos importantes para ajudar a contar a história da vida e da obra do nosso Bob Dylan do sertão. A dupla de diretores Natália Dias e Camilo Cavalcanti opta por não usar depoimentos de outros, mas imagens de arquivo e histórias contada pelo próprio artista, em entrevistas para a televisão. Um destaque muito importante do filme está na presença de Silvero Pereira recitando as letras de algumas das mais poderosas canções de Belchior e mostrando que elas também sobrevivem sem a música praticamente com a mesma força. O próprio Belchior dizia que começava suas composições pela letra, e era por ela que a música nascia. Mais um motivo para se prestar atenção no que ele cantava. O documentário é curto e passa a sensação de incompletude, mas se fosse longo também passaria, já que o artista é inesgotável. Fica a minha gratidão por esta homenagem carinhosa em forma de documentário.

AMIGOS DE RISCO

Sempre fico feliz quando filmes dado como perdidos reaparecem como que por um milagre. No caso, a cópia extraviada exibida no Festival de Brasília de AMIGOS DE RISCO (2007) não existia mais. Porém, existia a versão-rascunho, e foi a partir dessa versão que, com muito esforço, pôde-se reconstruir a obra. Daniel Bandeira, mais conhecido como o montador da obra-prima VINIL VERDE (2004), de Kleber Mendonça Filho, faz um filme de trama simples, mas com um ritmo e atores muitos bons, que tornam o ato de ver a obra um prazer do início ao fim. Na trama, dois jovens recebem a ligação de um velho amigo que saiu da cidade depois de um esquema bem pouco honesto. Eles o reencontram e saem para uma noite de bebedeira e muita conversa, e que acaba não sendo muito feliz para nenhum dos três. A cópia digitalizada, talvez até por suas imperfeições, guarda um charme particular. Além de tudo, os grãos valorizam as cenas noturnas, onde se passam a maior parte da trama. Seria bom se um público maior fosse prestigiar este filme saído de uma cápsula do tempo.

domingo, maio 22, 2022

TOP GUN – MAVERICK



Tom Cruise entra na quinta década se mantendo de pé e com sucesso em Hollywood. E com o mesmo sorriso e juventude que o trouxe à fama, mesmo beirando os 60 anos de idade. E isso é impressionante. Também é impressionante como o astro, agora também um produtor de sucesso, se transformou em dono de sua própria carreira, escolhendo diretores com assinatura pouco reconhecível, mas muito eficientes em sua tarefa de artesãos. Essa tendência tem se mostrado desde fins dos anos 2000 e de certa forma tem funcionado.

Na época que Cruise fez TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986), de Tony Scott, ele tinha poucos filmes importantes como protagonista, mas já havia sido visto por Francis Ford Coppola como uma estrela em ascensão em VIDAS SEM RUMO (1983). Vindo de sucessos como NEGÓCIO ARRISCADO (1983) e A LENDA (1985), ele chega como a escolha perfeita para o filme-propaganda da marinha americana. Hoje o filme de Scott envelheceu mal e nem sei se parece ainda um comercial de refrigerante. Ainda assim, é essencial que ele seja visto para que possamos entrar com mais intimidade em TOP GUN – MAVERICK (2022), de Joseph Kosinski.

A escolha do diretor é acertada, não apenas por ele ser muito talentoso. Além de Kosinski já ter trabalhado com Cruise em OBLIVION (2013), ele tem no currículo outra sequência de um sucesso oitentista, TRON – O LEGADO (2010). Ou seja, parece ser a escolha perfeita. A inusitada sequência de TOP GUN logo de início já deixa claro que quer prestar tributo ao filme original, seja pelas primeiras imagens do local de aterrisagem dos aviões, seja pela mesmo rock do filme de Tony Scott apresentado nos créditos.

O apego ao original é necessário também para se criar um fio condutor para a história: Maverick, o personagem de Tom Cruise, será instrutor de uma equipe de pilotos de elite que contará com o filho de seu falecido amigo, morto durante um treinamento no primeiro filme. E muito do sucesso desta sequência se dá por essa relação um tanto tensa que se estabelece entre o protagonista (que ainda carrega um sentimento de culpa) e o jovem vivido por Miles Teller.

Por outro lado, a tentativa de trazer um novo par romântico para o personagem de Cruise não funciona muito bem. Química zero entre Cruise e Jennifer Connelly, mas vejo isso mais como um problema do ator, que tem um tipo de energia estranha no ar, quando o assunto é sexo e romance. Na época de TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS, as cenas de sexo com Kelly McGillis tinham uma pimenta interessante, com aquelas imagens dos beijos de língua explicitados, ainda que mostrados em penumbra estilizada. Agora, até mesmo pular da janela da amada, como um adolescente, ele faz. Sem falar que a sensualidade, que aparecia até de maneira homoerótica nos banheiros masculinos, é praticamente evitada nesta sequência. Já a recusa ao envelhecimento por parte de Cruise tem a sua graça, inclusive também nas cenas de Maverick jogando na praia com seus alunos.

Ainda tenho meus problemas com as cenas no céu, especialmente quando há muitos aviões parecidos nos momentos dos treinamentos, mas aqui elas são bem melhores que no primeiro filme, e a última cena de ação é ótima, deixando uma sensação de que acabamos de ver uma obra bem acabada, eficiente, feita com esmero, mesmo contando com um roteiro de diálogos fracos, mas isso talvez tenha ocorrido para não destoar tanto do filme original. No entanto, é louvável o quanto Kosinski consegue trazer de alma para o novo filme, e isso fica bem claro na última e emocionante cena de Maverick e Rooster, o personagem de Teller.

No mais, vale a pena ver na sala IMAX. A tela ultra-grande valoriza a beleza das imagens aéreas.

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TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (Top Gun)

A revisão de TOP GUN – ASES INDOMÁVEIS (1986), depois de passados muitos anos (décadas), acentuou o quanto ele ficou datado, embora eu tenha passado a admirar, agora em uma cópia lindona, o trabalho visual de composição, que é característico do Tony Scott. As cenas dos aviões no céu são um saco e muito difíceis de entender - deu uma saudade dos filmes de aviões do Howard Hawks... No mais, eu gosto das cenas mais humanas, no chão, da presença de Kelly McGillis. Mesmo com um roteiro ruim em mãos, eu gosto mais do filme quando ela está na tela. Fiquei me perguntando se Tom Cruise sabia que sua persona e seu personagem eram bem irritantes, não apenas pela arrogância de Maverick, ou se ele estava o tomando como um herói autêntico, um dos vários personagens que não passam por qualquer humilhação. Ainda assim, sigo gostando muito da filmografia de Tony Scott. Apenas deixo TOP GUN no finalzinho do ranking.

O PLANETA PROIBIDO (Forbidden Planet)

A ficção científica mais luxuosa até o advento de 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO é um filme bem divertido e bastante criativo. Para começar, já fiquei bastante impressionado com a ideia de mostrarem terrestres dirigindo um disco voador em direção a um planeta desconhecido. Depois soube que foi a primeira vez que isso aconteceu. A produção da MGM também trouxe efeitos especiais de primeira linha, um monstro fantástico e um robô que fez tanto sucesso que ganhou participações em outros filmes. Baseado na peça A Tempestade, de Shakespeare, o filme mostra um grupo de homens que chegam para resgatar pessoas no tal planeta do título e não são muito bem recebidos. Outra coisa muito inovadora em O PLANETA PROIBIDO (1956), de Fred M. Wilcox, é a minissaia da personagem de Anne Francis. Não à toa, até hoje o filme é visto como uma das melhores sci-fies de todos os tempos pelos especialistas. Filme visto no box Clássicos Sci-Fi (volume 1).

quinta-feira, maio 19, 2022

O HOMEM DO NORTE (The Northman)



Dos novos cineastas de horror surgidos nos anos 2010, a minha preferência se firma ainda em Mike Flanagan, que, é verdade, tem uma quantidade de filmes e bagagem maior do que a trinca Jordan Peele, Ari Aster e Robert Eggers. Os três diretores, por terem quase a mesma quantidade de filmes no currículo e tendo ganhado uma boa repercussão desde suas estreias, são geralmente lembrados como os mais importantes representante do chamado novo cinema de horror produzido nos Estados Unidos.

O caso de Eggers é especial, no sentido que ele preferiu trilhar caminhos tangenciais ao horror em seu segundo (O FAROL, 2019) e agora em seu terceiro filme, O HOMEM DO NORTE (2022), que são distintos em intenção e proposta, mas que têm em comum o fato de apreciarem o território das lendas e das fantasias, por mais sombrios que sejam seus registros.

O HOMEM DO NORTE despertou meu interesse mais por seu aspecto visual do que por seu enredo e riqueza de personagens - a trama é bem simples e os personagens planos. Mas ainda assim vejo a materialização deste filme nos cinemas - e a minha surpresa ao ver que está fazendo um sucesso popular na primeira semana - como algo bem positivo.

O novo projeto do diretor de A BRUXA (2015), mesmo sendo uma produção de orçamento bem maior, consegue tornar mais claras certas obsessões do diretor. O interesse por fábulas e crenças pré-cristãs segue firme e o novo filme destaca a glória de morrer em batalha e a importância de uma virilidade quase animalesca como valores de um povo e de uma época.

Como estamos vivendo um aumento do interesse por vikings em séries de televisão, talvez isso seja o motivo de o público estar indo aos cinemas ver um filme que não chega a ser quase hermético como O FAROL, mas que não facilita tanto assim para o público médio. Para o meu gosto, poderia ter pendido mais para o horror e menos para a fantasia. E também não me incomodaria se o gore fosse mais sujo e a violência do filme transpirasse mais para o lado de cá da tela.

Do jeito que ficou, senti algo próximo a uma pasteurização da violência, inclusive pela utilização acentuada do CGI em detrimento dos efeitos práticos. No mais, como sempre, gosto muito de Anya Taylor-Joy. Sua personagem é a que confere mais humanidade ao herói vivido por Alexander Skarskard.

A trama é baseada na história que serviu de inspiração para a tragédia Hamlet, de Shakespeare, mas com os elementos da cultura nórdica amplificados e explicitados. Além de haver uma vontade também de deixar muito clara a questão da masculinidade como elemento tão opressor quanto natural naquele ambiente e tempo. E como se trata de um filme de vingança, por isso mesmo é simples na estrutura de seu esqueleto narrativo.

Na trama, o pequeno Amleth vê seu pai, o rei vivido por Ethan Hawke, ser assassinado pelo tio que toma a mãe dele (Nicole Kidman) como esposa, além, de se autoproclamar rei daquele povo. Agora adulto, forte e viril, Amleth (Alexander Skarsgård) está de volta para fazer aquilo que prometera quando criança, a começar pelo tio. A trama, porém, traz algumas surpresas na trajetória desse herói tão carregado pelo instinto de matar.

Acho interessante como O HOMEM DO NORTE destaca de maneira quase fetichista a masculinidade, quase ao ponto de ser um filme queer, como também pode ser visto, aliás, O FAROL, mas aqui há também três figuras femininas de fundamental importância, justamente por terem como sabedoria ou trunfo, conhecimentos próximos da feitiçaria. Refiro-me às personagens de Kidman, Taylor-Joy e Björk, em maior ou menor grau. Inclusive, até poderíamos ver como um simbolismo a morte dos dois personagens masculinos principais como uma espécie de morte de uma era, de uma maneira de pensar e de uma multidão de deuses.

No mais, fico na torcida para o retorno de Eggers aos projetos menores, já que parece ter havido uma dificuldade do cineasta em lidar com um grande orçamento e com os executivos de um grande estúdio. Aguardo com atenção seus próximos passos. 
 
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UMA HISTÓRIA DE AMOR E DESEJO (Une Histoire d’Amour et de Désir)

Um filme pequeno, mas bastante sensível sobre uma relação de atração, amor e desejo que se estabelece entre um rapaz de origem argelina e uma moça tunisiana recém-chegada a Paris. Ambos iniciam o curso de Letras e o filme destaca o foco de uma professora em tratar da poesia árabe antiga com forte carga sensual. Sofrendo com timidez e inexperiência, o rapaz por vezes se sente muito acuado diante da moça, muito mais destemida e sem grilos provocados por algum tipo de moralidade causada pela religião. Confesso que me identifiquei em alguns momentos com o rapaz, por conta de meu histórico de timidez. Além do mais, o fato de a história se passar em uma faculdade de Letras em boa parte do tempo também ajuda a acentuar a identificação. Gosto da tensão sexual que se cria entre os dois, dado o desejo de ambos perturbado pela insegurança do rapaz, o que acaba gerando um tipo de erotismo bastante sutil e bonito nas cenas de intimidade. A última cena de UMA HISTÓRIA DE AMOR E DESEJO (2021), inclusive, é a que mais justifica a janela em scope, que parece nascida para se filmar cenas de sexo na horizontal.

THE SOUVENIR - PART II

Depois dos eventos do primeiro filme, de 2019, a jovem protagonista Julie, uma estudante de cinema finalizando seu filme de conclusão de curso, precisa enfrentar os sentimentos conflitantes vindos do luto e da ausência de Anthony. Joanna Hogg, em THE SOUVENIR - PART II (2021), muda um pouco o estilo, trazendo vez por outra um ar documental e um pouco mais de leveza - afinal, de opressão já bastava o primeiro filme. Outro ponto positivo é mais tempo de tela de Tilda Swinton, que faz a atenciosa e preocupada mãe da protagonista (sua filha na vida real). Há uma cena que procura adentrar os infernos pessoais da vida de Julie que eu achei que poderia ser mais envolvente, mas acho que, do jeito que ficou, ajuda a trazer o filme para ares mais etéreos. Então, tá ótimo.

domingo, maio 15, 2022

O PESO DO TALENTO (The Unbearable Weight of Massive Talent)



Nicolas Cage é um ator singular. É cultuado pelos mesmos motivos que é rejeitado por uma classe de cinéfilos mais exigentes. Afinal, nos últimos anos – nas últimas décadas, eu diria –, ele tem acumulado muito trabalho. Com cerca de três a quatro filmes por ano, muitos desses filmes são sequer lembrados pela mídia, muitos deles indo parar direto no mercado de VOD. De vez em quando, aparece um ou outro que tem sido objeto de elogio da crítica, como MANDY – SEDE DE VINGANÇA (2018), PIG (2021) e A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (2019). Os dois primeiros eu ainda não vi e preciso colocar na minha lista de filmes para ver no futuro (próximo?).

Quanto aos filmes bem ruins, basta lembrar de coisas como REFÉNS (2011), O PACTO (2011), O RESGATE (2012), FÚRIA (2014) e O APOCALIPSE (2014), que, aliás, é um dos meus guilty pleasures com o ator, junto talvez com FÚRIA SOBRE RODAS (2011). Evitei citar filmes da década de 2000, pois há vários muito bons.

Quanto a O PESO DO TALENTO (2022), do quase estreante Tom Gormican, vejo como uma obra que tem uma premissa muito melhor do que o resultado. É coerente com a grande maioria dos filmes contracenados por Cage, em sua maioria escolhidos de qualquer jeito, sem muito rigor, ao sabor do que lhe é ofertado. Mesmo assim, o início do filme parece uma espécie de grito de liberdade de Cage, seja pelo fato de ele dizer que adora trabalhar muito, seja pela busca por projetos mais ambiciosos, como na cena em que ele conversa com o cineasta David Gordon Green – que já o dirigiu em JOE (2013).

O próprio momento em que os personagem de Cage e Pedro Pascal resolvem construir eles mesmos o filme a princípio roteirizado pelo fã (Pascal) é representativo dessa sensação de qualquer falta de rigor, embora eu não veja isso como um problema em si, uma vez que a direção saiba lidar muito bem com o improviso. 

Na trama, Cage interpreta a si mesmo – na verdade, uma persona que se confunde com ele. Frustrado por não obter um papel que julga importante, ele aceita comparecer à festa de aniversário de um homem bilionário que é seu fã, e que oferece um milhão de dólares apenas por sua presença. O que ele não sabe é que o tal homem pertence a uma família envolvida em sequestro e tráfico de drogas. 

Há alguns momentos divertidos, mas creio que são poucos, levando em consideração que o tom cômico predomina do início ao fim. Inclusive, imagino que não deve ser muito divertido para quem não entende as referências. Para quem entende, e tem um pouco de cinefilia no sangue, é legal ver o entusiasmo do personagem por O GABINETE DO DR. CALIGARI e a citação a PADDINGTON 2, como tanto um elemento de louvor ao filme, como uma piada que funciona bem.

O PESO DO TALENTO funciona um pouco como um filme sobre a construção de uma amizade entre dois homens de diferentes mundos. Mas nem tanto, já que o aspecto dramático – e isso inclui também as cenas de ação – fica prejudicado por um tom de comédia pouco eficiente. Como se o diretor não conseguisse ou não quisesse deixar entrar situações que poderiam render um belo espaço para outro tipo de emoção, explorando melhor a relação do personagem com sua família, por exemplo. Uma pena.

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INCOMPATÍVEL

Uma comédia romântica com aquele gostinho de produção feita há alguns anos, inclusive com as mesmas situações desconfortáveis e constrangedoras que são confundidas com declarações de amor, que se transformaram em fórmulas do gênero. Mas INCOMPATÍVEL (2022) tem o seu atrativo, e muito disso vem do carisma (e do sorriso) de Nathalia Dill, que infelizmente faz muito mais televisão do que cinema. E há também que se dar crédito ao protagonista, Gabriel Louchard, criador da série HOMENS? e que aqui está muito bem, principalmente a partir do momento em que seu personagem entra em contato com a youtuber vivida por Dill, a responsável pelo fim de seu casamento. Embora o filme trate de situações bem atuais, como a utilização de redes sociais como substituição da cachaça (ou como acréscimo a ela), o diretor Johnny Araújo, de bons filmes como DEPOIS DE TUDO (2015) e LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE (2017), que funcionaram como veículos para louvar o rock e o comportamento dos anos 1980 e 90, parece estar um pouco fora de seu ambiente natural nesta comédia mais contemporânea.

RIO DE VOZES

Documentário que aborda a vida de algumas pessoas que moram em cidades às margens do Rio São Francisco, na Bahia e em Pernambuco, RIO DE VOZES (2019), de Andrea Santana e Jean-Pierre Duret, é um filme que trata tanto do estado preocupante do rio do ponto de vista ecológico, quanto de algumas pessoas encontradas durante as filmagens e que foram escolhidas para ficarem no corte final, principalmente gente ligada à pesca. Esse tipo de documentário é muito dependente do acaso, mas tem a sorte de encontrar alguns personagens bem interessantes e acho até que termina com a dupla de melhores personagens aparecendo no momento mais poético: uma estudante e seu avô octogenário que trabalha na roça cantando uma antiga canção. É um filme contemplativo, na medida que também nos chama para olhar a beleza do rio, especialmente quando banhado pela luz do sol.

sábado, maio 14, 2022

GRITO DE HORROR (The Howling)



Uma coisa que senti falta durante um bom tempo foi apreciar um filme em mídia física e ter acesso a documentários sobre a produção e rever a obra com comentários em áudio do próprio diretor ou de algum historiador ou estudioso do assunto em questão. E com a mídia física passando a ser consumida apenas por um pequeno nicho de colecionadores, poucas pessoas tem aproveitado os filmes de maneira mais ampla, de modo que eles fiquem mais tempo em nossa memória. Afinal, ver esses extras ajudam a tornar a obra maior, ajuda-nos a valorizá-la ainda mais, saber de coisas impressionantes sobre a produção etc. Esse tipo de consumo é diferente do que se transformou hoje em dia o consumo em modalidade fast food: assistimos um filme, marcamos no Letterboxd e já vamos direto para o próximo. Isso é uma pena, embora eu compreenda o fenômeno diante da ascensão dos streamings e da popularização das redes sociais, inclusive as dedicadas ao cinema, como a já citada.

Agora, por exemplo, acabei de ver um dos extras de GRITO DE HORROR (1981), o clássico filme de lobisomem de Joe Dante, e fiquei sabendo detalhes sobre a produção das sequências. Nem sabia que foram feitas tantas sequências, a maioria delas indo direto para o mercado de vídeo. Mas falemos do filme que importa.

Vi GRITO DE HORROR pela primeira vez nos anos 1990, em VHS. E na época nem gostei muito, talvez por esperar algo diferente ou por ele ser muito celebrado pela crítica da revista SET (era um dos destaques daquelas fichas de cinema e vídeo, e o cartaz é de fato muito bonito). Revendo em um Blu-Ray belíssimo, cópia restaurada lançada pela Versátil, com som 5.1. que valoriza a música de Pino Donaggio, e também podendo perceber a inventividade tanto da trama quanto dos efeitos de maquiagem, claro que percebi o quanto se trata de uma das obras mais importantes de horror já feitas. Certamente um top 5 do subgênero “filme de lobisomem”.

Ter sido lançado no mesmo ano de UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, de John Landis, que tem efeitos mais impressionantes e um senso de humor muito próprio, pode ter tirado um pouco do brilho do filme de Dante, mas nota-se que aqui a intenção é outra, que o senso de humor é mais pontual, que as homenagens a outros filmes e mestres do cinema são mais presentes, e, principalmente, a trama na cidade do interior funciona muito bem e reserva surpresas no final, e isso só depõe a favor deste clássico. Além do mais, há uma belíssima exploração da sensualidade que tem tudo a ver com libertar os seus instintos mais primitivos e selvagens.

Logo de início, já percebemos que GRITO DE HORROR é um filme diferente. Ele começa com uma situação tensa em que Karen White, uma repórter de televisão vivida por Dee Wallace, está usando escutas para se encontrar com um serial killer nos fundos de uma videolocadora pornô. O cenário é bastante urbano e a ótima montagem mostra tanto a preocupação de seus colegas de profissão, quanto seu receio diante da situação inédita para uma âncora de telejornal. E a cena com o tal homem é bem marcante, feita de modo que não vemos o sujeito. Apenas ela o vê e fica tão traumatizada que sua memória daquele momento desaparece.

A história ganha ares mais próximos dos tradicionais filmes de lobisomem, que geralmente se passam em ambientes rurais, quando o médico de Karen a incentiva a passar uma temporada num resort isolado conhecido como “Colônia”. Acontece que aquele ambiente é habitado por uma espécie de sociedade de lobisomens. E eu não sei o quanto isso é um spoiler, já que o filme tem mais de 40 anos de idade, mas acredito que o mais importante da narrativa não está tanto assim na trama, mas no modo criativo com que Joe Dante nos leva por caminhos tortuosos.

Dante, na época, era um diretor jovem, que só tinha um sucesso de bilheteria, PIRANHA (1978). Com GRITO DE HORROR ele se tornaria um dos mestres do cinema de horror do período, passando a ser também um dos protegidos de Steven Spielberg, que seria produtor executivo do sucesso GREMLINS (1984). Sem falar que Spielberg gostou tanto de Dee Wallace que a levou para interpretar um papel importante em E.T. – O EXTRATERRESTRE.

Um dos grandes chamarizes de GRITO DE HORROR é oferecer uma das mais impressionantes e longas cenas de transformação. Mesmo com a frequente comparação com a cena de UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, a maneira criativa com que o discípulo de Rick Baker, Rob Bottin, elabora o efeito é louvável. Ele deixa o filme com um ar de produção que transita entre o baixo orçamento e a produção mais cara. Inclusive, Bottin se tornaria tão grande quanto Baker, tendo trabalhado em efeitos visuais e de maquiagem de obras importantes e de primeiro escalão, como O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO e O VINGADOR DO FUTURO. Além da cena da longa transformação, destaco algumas outras bem memoráveis, como a cena do ataque do lobisomem a Belinda Balaski no arquivo da polícia ou a dos lobisomens atacando o carro de Karen. Dante não queria fazer um lobisomem parecido com um lobo, com as quatro patas no chão, nem usar a velha técnica de um homem cheio de pelo, como no clássico O LOBISOMEM, de George Waggner, filme aliás homenageado de diversas maneiras em GRITO DE HORROR. O resultado ficou fantástico, parecendo uma variação da fábula do Lobo Mau. 

O filme de Dante também se destaca por ter um roteiro simples, mas muito bem elaborado, graças à contribuição de John Sayles, hoje muito mais lembrado pela direção de dramas sofisticados. Sayles e Dante optaram por deixar de lado o livro no qual ele se baseia, por não achar suficientemente bom, e mudar quase tudo. O livro só seria adaptado de maneira fiel na terceira sequência do filme, GRITO DE HORROR 4 – UM ARREPIO NA NOITE (1988), lançado direto em vídeo.

No mais, deixem eu ir ali terminar de ver os extras do box.

+ DOIS FILMES

O TERCEIRO OLHO (Il Terzo Occhio)

A influência de PSICOSE se mostrando bastante explícita neste horror gótico (mas contemporâneo) produzido na Itália e com o astro Franco Nero no mesmo ano que ele seria celebrado pelo papel de Django. Em O TERCEIRO OLHO (1966), de Mino Guerrini, ele interpreta um conde que curte uma taxidermia e que enlouquece depois que perde a noiva num acidente de carro – ou será que ele já tinha tendências psicóticas antes disso?. A grande vilã da história, porém, é a governanta, uma mulher que sente atração pelo conde e está disposta a fazer de tudo para conseguir o que deseja. A cópia está avariada em algumas passagens, mas ainda considero muita sorte de que sejam passagens pequenas. Imagina só se os filmes brasileiros que só encontramos em cópias lastimáveis de repente aparecessem com cópias em sua maioria com qualidade decente como esta, hein? Que lindo que seria... Filme disponível no box Obras-Primas do Cinema – Gótico Italiano Vol. 2.

CROCODILOS - A MORTE TE ESPERA (Black Water: Abyss)

Interessante o caso de Andrew Traucki, um especialista em filmes de tubarões e crocodilos. Depois de MEDO PROFUNDO (2007), ele volta com os crocodilos em CROCODILOS - A MORTE TE ESPERA (2020) e faz um suspense muito bem executado e cheio de tensão, que se passa em sua maior parte dentro de uma caverna. Como o crocodilo fica quase sempre no escuro, percebe-se que isso funciona muito bem para economia no orçamento. Na trama, cinco amigos vão parar em uma caverna inexplorada no norte da Austrália. Quando uma tempestade começa a alagar o lugar, eles se veem num mato sem cachorro. Ou numa caverna com um crocodilo, melhor dizendo. O filme tem a capacidade de nos fazer torcer pelos personagens, mesmo sem aprofundar muito suas personalidades. E olha que já comecei a vê-lo me perguntando qual dos cinco morreria primeiro.