segunda-feira, janeiro 07, 2008

COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO (Things We Lost in the Fire)























Disseram que o filme se parecia com os trabalhos do Dogma 95 por causa da diretora dinamarquesa Susanne Bier, de BROTHERS (2004) e DEPOIS DO CASAMENTO (2006), mas COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO (2007) se parece mais é com os trabalhos de Alejandro González Iñárritu, principalmente 21 GRAMAS. Há pelo menos três semelhanças com esse filme de Iñárritu. A principal delas seria a montagem fragmentada e cheia de idas e vindas no tempo, mostrada em sua meia hora inicial, que também conta com estranhos closes nos olhos e em partes do corpo dos personagens. O que sabemos logo de início é que o marido da personagem de Halle Berry morreu. Aos poucos, ficamos sabendo das circunstâncias de sua morte e da relação do marido (David Duchovny) com o melhor amigo, interpretado com brilhantismo por Benicio Del Toro. A presença de Del Toro seria, então, a segunda semelhança do filme com 21 GRAMAS. A terceira está na música: a composição dos temas é de autoria de Gustavo Santaolalla, de AMORES BRUTOS. Agora, por que Susanne Bier quis emular Iñárritu em sua estréia em Hollywood, isso eu não sei dizer.

O filme lida tanto com a perda quanto com o apego. Depois da morte do marido, a personagem de Halle Berry convida o amigo do esposo, um advogado decadente por causa do vício em heroína, a morar em sua casa, em um quarto improvisado numa garagem. Ela sente falta de uma figura masculina, de alguém que possa lhe ajudar quando necessário. Parte dessa decisão também seria uma maneira de ajudar aquele homem que se encontrava no fundo do poço, e cujo único amigo - aquele que nunca desistira dele - acabara de morrer. Del Toro, aos poucos, vai se afeiçoando à viúva e aos seus dois filhos pequenos, um garoto de 6 anos e uma menina de 10.

COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO vai, paulatinamente, se tornando menos um filme sobre perda e mais um filme sobre apego e redenção, embora em nenhum momento essa redenção seja mostrada de maneira romântica ou feliz. Tanto para o viciado quanto para a mulher e os filhos que perderam o marido e pai recuperar a felicidade perdida é quase impossível. É preciso se contentar apenas com pequenas melhoras, viver um dia de cada vez, como diz o lema dos narcóticos anônimos, grupo freqüentado pelo viciado. O lema é "só por hoje", que rendeu uma bela e triste canção da Legião Urbana. Vale lembrar que Renato Russo foi também um viciado em heroína e soube mostrar em suas canções, com extrema delicadeza, o que é ser um dependente químico. Mas voltando ao filme, gostei do fato de Susanne Bier ter se entregado de verdade ao melodrama no último ato. O começo prometia justamente o contrário, prometia um filme frio como geralmente são os trabalhos dos dinamarqueses. Felizmente, os fãs do melodrama podem levar seus lenços para o cinema com tranqüilidade.

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