quinta-feira, fevereiro 03, 2005

O ESPELHO (Zerkalo)



"Se queremos que o cinema seja considerado uma arte maior, é preciso garantir-lhe a possibilidade de não ser entendido."
(Abbas Kiarostami)

Mesmo já tendo visto três filmes de Tarkovski - SOLARIS (1972), STALKER (1979) e O SACRIFÍCIO (1986) -, não estava preparado para ver O ESPELHO (1975). Trata-se de um dos filmes mais desconcertantes que eu já vi na vida. Uma das grandes qualidades do filme, e o que me possibilitou continuar assistindo até o final sem perder o interesse, é a sua natureza hipnotizadora. (Coincidência ou não, o filme começa com uma cena de uma mulher tentando curar um rapaz de uma gagueira através do hipnotismo.)

No filme, a mesma atriz, Margarita Terekhova, interpreta tanto a mãe quanto a esposa de Tarkovski, que eram as pessoas mais importantes da vida do diretor - seu pai não era tão importante assim pra ele. Confesso que me confundi tanto com o filme que mal sabia discernir em que momentos ela era sua mãe ou sua esposa.

Os outros três filmes de Tarkovski que eu vi podem até ter a fama de serem impenetráveis para o público comum, mas O ESPELHO confunde até cinéfilos experientes. O presente e o passado são misturados de uma maneira que fica difícil de identificar. Às vezes o passado aparece em preto e branco, às vezes em cores; da mesma forma o presente; e da mesma forma as seqüências de sonho.

O preto e branco do filme não é comum. Às vezes ele recebe tons verdes, às vezes tons sépia. Seja preto e branco, seja em cores, a fotografia do filme é um espetáculo. Felizmente a qualidade do DVD da Continental, copiado da Criterion Collection, valoriza bem essa qualidade tão importante. O uso aparentemente aleatório desse contraste de cores lembra o que ele fizera dois anos antes em SOLARIS.

Os longos planos-seqüência são maravilhosos. O que dizer daquele momento em que a câmera vagarosamente se posiciona da cozinha da casa para a porta da frente, onde vemos uma casa em chamas? Pura magia. Obviamente essa cena me fez lembrar o meu preferido de Tarkovski, O SACRIFÍCIO. Outro filme do diretor que também é citado é ANDREI RUBLEV (1969) - há uma foto do pintor com o nome na parede.

A magia parece estar sempre em seus filmes, mas é uma magia que está conectada ao plano mundano. Em seus filmes, a própria natureza é cheia de espiritualidade. As águas, as árvores, o fogo, o vento. Tarkovski consegue captar a força do vento nas árvores de tal forma que nos deixa atemorizados.

Uma das seqüências mais misteriosas do filme é uma em que o garoto Ignat está pela primeira vez numa casa com sua mãe, e ele toca a mão num objeto e sente um choque. Ele diz a ela: "tenho a sensação de ter vivido isso antes". À primeira vista, me pareceu o fenômeno do deja vu, que eu costumava sentir bastante quando criança e agora sinto muito pouco na fase adulta, mas a cena parece significar bem mais que isso.

Porém, misteriosa mesmo é a obsessão que Tarkovski tem por Leonardo Da Vinci. Já tinha percebido numa cena de O SACRIFÍCIO, em que aparece um quadro de Da Vinci do nada, e um homem diz aterrorizado: "eu tenho medo de Leonardo". Em O ESPELHO, depois de ouvirmos a poesia de Arseni Tarkovski, pai do cineasta, vemos alguém folheando um livro com fotos de Da Vinci, fotos de seus inventos e de seus quadros, com uma música sinistra ao fundo. Afinal, o que há de tão misterioso assim na vida desse artista? Até me deu vontade de comprar o best-seller O Código Da Vinci para começar a me aprofundar na vida desse grande homem.

Nessa semana, conversando com o Renato, que é fã do filme, comentei que O ESPELHO era muito louco; e ele disse que muito louco era O SACRIFÍCIO. Tudo bem, mas, por mais louca que seja a história de O SACRIFÍCIO, sua narrativa linear tornava as coisas um pouco mais fáceis para o espectador, mesmo sendo um filme bem mais lento e de maior duração.

Diante de tal complexidade, tentei relaxar e curtir apenas as imagens de O ESPELHO. Mas quem disse que eu consegui? Sabia que cada episódio do filme tinha sua importância. Como passar por cima de tudo isso? Por falar em importância, uma das características do diretor era focalizar a câmera num determinado objeto por tanto tempo que esse objeto passaria a ter uma significação especial para o espectador, que passaria a acreditar que tal objeto teria algum significado simbólico especial.

A propósito, um jovem diretor que tem filmes que lembram o trabalho de Tarkovski é M. Night Shyamalan. Seus últimos dois filmes - SINAIS e A VILA - têm muitas semelhanças com O SACRIFÍCIO, inclusive na movimentação de câmera e no tom seriíssimo do filme, o que pode incomodar quem não gosta de filmes destituídos de humor. Inclusive, me ocorreu agora um outro paralelo entre a obra desses dois cineastas: em determinada cena de O ESPELHO, o garoto Ignat lê para uma senhora (aparentemente um fantasma) um texto sobre o isolamento da Rússia em relação aos acontecimentos da Europa e da Àsia. É o sentimento de solidão, normalmente aplicado apenas a um indivíduo, levado para o plano nacional. Esse sentimento de isolamento coletivo é um elemento fundamental da trama de A VILA e de SINAIS. Posso estar viajando, mas tenho impressão que isso não é apenas uma coincidência.

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