domingo, fevereiro 27, 2005

DISQUE M PARA MATAR (Dial M for Murder)



Não tinha intenção de rever DISQUE M PARA MATAR (1954) nessa minha peregrinação pela obra de Alfred Hitchcock, mas quando comecei a ler a entrevista no livro Hitchcock / Truffaut sobre o filme, vi que já havia se passado muito tempo desde que o vi pela primeira vez, há mais de dez anos, e não me lembrava de muita coisa. Outra razão para eu não ter tanta vontade de revê-lo era por sua natureza teatral - foi baseado numa peça de teatro - e por ter muita conversa. Mas a possibilidade de rever o filme numa bela cópia em DVD da Warner, com direito a mini-documentário de Laurent Bouzereau, me fez pensar duas vezes. Sem falar na saudade que eu tinha de Grace Kelly, a minha preferida das musas hitchcockianas.

Ela, aliás, pode até ter tido a sua melhor performance em DISQUE M PARA MATAR, mas ainda a prefiro mais bela e sedutora nos filmes seguintes - JANELA INDISCRETA (1954) e LADRÃO DE CASACA (1955). O problema é que em DISQUE M PARA MATAR Grace está basicamente no papel de vítima, ainda que ela tenha sabido se defender muito bem do assassino na cena-chave do filme. Sua beleza pode ser observada nas mudanças de figurino: quando ela está com o marido, ela aparece vestida de branco; e com o amante, aparece lindamente vestida de vermelho.

Esse foi apenas o terceiro filme colorido de Hitchcock. Os primeiros foram FESTIM DIABÓLICO (1948) e SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO (1949). Em FESTIM DIABÓLICO, as cores não eram muito vivas e não houve um bom trabalho de elaboração do ambiente. Em DISQUE M PARA MATAR há todo esse cuidado com as cores no cenário e nas roupas.

A história guarda semelhanças com as de FESTIM DIABÓLICO e PACTO SINISTRO (1951), que é a respeito de alguém que planeja o que seria o crime perfeito. Há também uma semelhança em termos de estrutura com PSICOSE (1960). A segunda parte de DISQUE M PARA MATAR, por exemplo, com a investigação em torno da morte do personagem de Anthony Dawson, lembra a segunda parte de PSICOSE, que acontece logo após a morte da personagem de Janet Leigh.

Os trinta minutos iniciais do filme podem até incomodar a algumas pessoas, já que é só falatório sobre os planos para o assassinato que aconteceria na noite seguinte. A câmera quase não sai do lugar, mas depois pode-se notar ângulos geniais, como na cena em que Milland examina os bolsos do cadáver, ou naquela cena que mostra Grace Kelly abrindo a janela para respirar ar puro, logo depois de quase ter morrido asfixiada.

Hitchcock subverte a trama ao fazer com que o vilão (Ray Milland) seja a pessoa mais simpática do filme, por causa de sua inteligência e elegância. Na cena em que ele vai até o telefone para dar o sinal para o assassino "contratado" matar Grace Kelly e encontra a cabine ocupada, a gente fica torcendo para que o homem desocupe logo a cabine para que os seus planos dêem certo.

Por falar em telefone, Hitchcock usou um recurso bem interessante para o grande close do dedo discando o número. Como o filme foi filmado em 3-D, que consistia no uso de duas câmeras para filmar a mesma cena em todo o filme, e era impossível aproximar as duas câmeras e fazer o tal close, Hitchcock mandou confeccionar um telefone e um dedo gigantes. Dá até pra suspeitar que aquele dedo não é de verdade.

Nos extras do DVD, além do documentário de 21 minutos sobre o making of, há outro, de 7 minutos, chamado "3D: A Brief History", falando sobre essa técnica que era um dos macetes usados pelos produtores para atrair as pessoas para o cinema, que estava perdendo público por causa da chegada da televisão. Foi nessa época que surgiu a tela larga - o cinemascope, o vistavision etc. Outra maneira de atrair o público era o efeito 3D, com aqueles óculos que dão uma dor de cabeça dos diabos. Por isso que só de vez em quando novos filmes em 3D aparecem. Eu, pelo menos, só tive oportunidade de ver dois filmes com os óculos de papelão: um do Freddy Krueger e outro dos Pequenos Espiões.

Já no documentário de Laurent Bouzereau, a maior novidade é a presença do grande M. Night Shyamalan comentando o filme ao lado dos já conhecidos Peter Bogdanovich, Patricia Hitchcock, do historiador de cinema Robert Osborne e do diretor de PSICOSE 2 (1983) Richard Franklin. (Aliás, não sei porque convidam Franklin. PSICOSE 2 é tão importante assim? Se bem que eu sei que algumas pessoas vão pensar o mesmo de Shyamalan.)

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