domingo, fevereiro 13, 2005

MENINA DE OURO (Million Dollar Baby)



Vi o novo filme de Clint Eastwood no sábado, depois de uma sessão de MAR ADENTRO, de Alejandro Amenábar, e não sabia o quanto os dois filmes tinham em comum. MAR ADENTRO me fez chorar bastante, mas o filme de Clint teve um efeito diferente. MENINA DE OURO (2004) nos deixa com um nó na garganta, com o coração pesado e permanece bem mais tempo na memória, crescendo em valor cada vez mais.

Já faz algum tempo que o tema da velhice tem sido uma constante na obra de Clint Eastwood. Mesmo antes de estar tão velho, como em BRONCO BILLY (1980), por exemplo, o diretor já mostrava personagens deslocados no tempo. Basta lembrar da cena da tentativa de assalto ao trem. Mas ali era só o começo. O velho caubói ainda faria o, até então, filme definitivo sobre o homem velho, que é OS IMPERDOÁVEIS (1992). Em MENINA DE OURO, o tema vai ainda mais fundo, além de também aprofundar a questão da culpa, que já havia sido muito bem trabalhada em OS IMPERDOÁVEIS.

No novo filme, os três personagens principais estão no limite de suas idades. Eastwood interpreta um treinador de boxe, velho e amargurado, que sofre por não conseguir mais se corresponder com a filha. Tudo o que lhe restou foi a academia de boxe, o velho amigo e parceiro Morgan Freeman, que no passado foi um boxeador, e um amigo que é padre, que sempre o vê na missa todos os dias, às vezes fazendo perguntas racionais sobre os dogmas irracionais da Igreja. Até mesmo a personagem de Hilary Swank (excelente), a obstinada discípula do treinador, também está velha demais para começar a lutar. A própria Hilary se identificou bastante com a personagem, já que ela também veio de uma família bem pobre e lutou muito para se tornar uma atriz em Hollywood. Por isso, e por causa de sua entrega total à personagem, que o seu desempenho é tão convincente. O fato de o filme mostrar uma boxeadora mulher torna as cenas de luta ainda mais perturbadoras, no sentido de que a mulher é em geral mais delicada fisicamente do que o homem e não é fácil levar socos no nariz, nos olhos, no fígado, nos seios.

As cenas na Igreja são bem representativas da culpa, sentimento tão associado à religião católica. É a culpa o principal eixo temático do filme. A culpa por não ter sabido ser o pai que deveria ser; culpa por não ter impedido o fim da luta que deixaria Morgan Freeman cego de um olho; e uma culpa ainda maior que surgirá no final do filme. Esse sentimento de pesar é compartilhado pelo público, que acompanha a dor do personagem. E esse sentimento é tão doloroso que o personagem de Clint em certo momento transfere a culpa para o personagem de Morgan Freeman, seu melhor amigo, para depois se arrepender de ter dito aquilo.

A já conhecida direção econômica de Clint Eastwood aqui parece ainda mais evidente. É o cinema essencial em sua excelência. Aqui, não há muito espaço para lágrimas, mesmo nas cenas onde a dor impregna o ambiente. O sentimento está no rosto sofrido e de pedra do treinador e também na expressão de seu ajudante Morgan Freeman, que é também o narrador do filme. A narração daquele que é considerado o melhor ator do mundo pelo amigão Clint faz a marcação da melancolia em tons poéticos. Seu personagem é o mais sóbrio do filme e aquele que tem mais resolvida a capacidade de manifestar amor e solidariedade.

A performance de Clint como ator está brilhante. Provavelmente a melhor dele. Logo atrás, ficaria o papel do jornalista de CRIME VERDADEIRO (1999). E saber que ele dirigiu essa obra-prima e ainda atuou, produziu e compôs a trilha sonora só atesta a sua posição, que é a de um dos melhores cineastas em atividade do mundo. Ele sempre teve uma extraordinária presença física, mas foi, várias vezes, considerado um ator limitado. Com seu desempenho em MENINA DE OURO, acredito que pouca gente vai voltar a dizer isso de novo. O efeito tempo tem estado do lado do velho Clint, como diz uma certa canção de outro herói da resistência. "Time is on my side. Yes, it is".

MENINA DE OURO concorre a sete Oscar: melhor filme, diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, roteiro adaptado e montagem. Mas Oscar não significa nada pra um filme dessa dimensão.

Não deixem de ler a entrevista de Clint para o site da Film Comment, que o Filipe recomendou.

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