quinta-feira, abril 23, 2020

OS CHEFÕES (The Funeral)

Coisas que nos aborrecem acontecem o tempo todo. Mas quando elas acontecem justamente nesses dias de confinamento, afetam ainda mais a tentativa de paz que queremos ter. Mas isso é só um pequeno desabafo e uma forma de iniciar a escrita, que estava travando por causa desse pensar naquilo que me incomoda e naquilo que precisa ser feito para trazer um pouco mais de alento para o espírito. Pois bem, falemos então de algo que, apesar do conteúdo um tanto pesado e às vezes até mórbido, é o que tem me trazido mais ânimo para continuar atualizando este espaço.

Falemos de mais um filme de Abel Ferrara revisto, OS CHEFÕES (1996), última parceria do cineasta com seu roteirista de longa data Nicholas St. John. Na época que o filme foi lançado, ele foi abraçado por muitos não-fãs de Ferrara, por ser um trabalho mais próximo de um formato mais acadêmico, por tecer mais as relações entre os personagens em uma estrutura mais ou menos convencional, por assim dizer, e também por dar um tremendo espaço para o excelente elenco. Ou seja, se o Oscar fosse um prêmio menos careta, este filme estaria lá nas categorias principais.

Aliás, se eu já havia me admirado com o elenco de O REI DE NOVA YORK (1990), o que temos aqui é algo fenomenal: Christopher Walken, Chris Penn, Annabella Sciorra, Isabella Rossellini, Vincent Gallo, Benicio Del Toro, Gretchen Mol e Victor Argo, para citar os mais conhecidos. Ou seja, se em O REI DE NOVA YORK o forte estava no elenco masculino, aqui a presença feminina também é brilhante, até para fazer um contraste com o sangue quente da família, em especial as personagens de Sciorra e Rossellini.

Porém, antes de mais nada, assim como vários outros trabalhos de Ferrara, OS CHEFÕES (acho um horror este título brasileiro genérico) reflete sobre a vida e a morte. A morte aparece de maneira muito mais realista e chocante, nunca banalizada. Assim, a imagem da chegada de um caixão na casa de uma família já é por si só um momento de muito impacto, já que vemos também o choro das mulheres da família. E um maior clamor ainda quando veem o rosto do morto, o jovem Johnny, vivido por Vincent Gallo.

Os diferentes momentos de encarar a morte, seja na posição de pessoa prestes a morrer, seja na de executor, são muito angustiantes também. E há aquele momento muito especial em que a família de gângsteres leva o personagem de Del Toro para olhar para o rosto do morto, ainda prostrado na sala, à espera do momento do funeral. E em todos esses momentos, Ray, o personagem de Christopher Walken, se mostra extremamente admirável e até mesmo adorável, na sua maneira de tentar compreender os motivos de tal pessoa ter cometido o crime.

Ao se preparar para matar um rapaz ele diz que já sabe que vai queimar no inferno e que a melhor coisa a fazer é se acostumar com a ideia. Há toda essa relação muito associada ao pecado como maldição para aquela família. O padre diz em determinado momento: "a única maneira de qualquer coisa mudar é esta família passar por uma total transformação".

Outro momento que mostra o quanto seus personagens têm uma noção de bem e mal está na cena de Chez (Chris Penn) tentando convencer uma jovem a ir para casa com cinco dólares, em vez de enveredar pelo mundo da prostituição. Quando ela diz que prefere receber 10 e transar com ele, Chez age de maneira extremamente violenta com a garota. Afirma que ela vendeu sua alma. Aliás, a personalidade de Chez daria para fazer todo um artigo a respeito, já que em outro momento ele é visto como louco pela própria esposa, vivida por Isabella Rossellini, que dá a ele uma ideia de ir a um hospital especializado e supostamente abençoado por uma santa.

Cada cena, cada conversa, em especial as que se passam em momento pós-morte de Johnny, são carregadas de grande força dramática. Já os flashbacks focados em Johnny, que trazem luz para quem ele foi, não possuem a mesma força e talvez sejam o calcanhar de Aquiles do filme. Nesses momentos, vemos sua presença em reuniões comunistas, sua tentativa de entender a vida de maneira filosófica e seu amor pelo cinema e pelas artes (a frase "A vida não faz sentido sem o cinema" sai da boca dele). E o filme começa com sua imagem dentro de uma sala de cinema, vendo Humphrey Bogart em A FLORESTA PETRIFICADA, o que ajuda a contextualizar o momento da narrativa: década de 1930. E há também um momento-chave da infância de Johnny que é destacado.

Há quem ache o final brusco demais. E talvez seja mesmo. Mas os cortes e a violência brutal e o tom trágico só tornam o filme mais impressionante e cheio de força e vigor, acentuando o ar de maldição da família. Perfeitamente coerente com o espírito do cinema de Ferrara.

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MILLENNIUM - A GAROTA NA TEIA DE ARANHA (The Girl in the Spider's Web)

Acho que a história, mesmo sendo até um pouco convencional, daria pano pra manga para um super filme. E até que não faltou uma produção boa, mas faltou inventividade. A gente percebe que há dinheiro, mas tem horas que parece um supercine, de tão genérico. Em alguns momentos a construção do mito Lisbeth parece razoável, mas depois perde a força, com a trama. E o que é aquela trilha sonora qualquer coisa? Ao menos eu achei charmosa a vilã de vermelho. Parece coisa de quadrinho italiano. Direção: Fede Alvarez. Ano: 2018.

O DOUTRINADOR

Pra começar, o filme traz um herói que vê a saída para acabar com a corrupção matando os bandidos. Mas o filme tem outros problemas. Personagens ruins, roteiro ruim, vilões caricatos... Pena, pois o Bonafé tinha codirigido o ótimo LEGALIZE JÁ - AMIZADE NUNCA MORRE (2017). quando o roteirista traz para a realidade brasileira, o teor direitista se intensifica. Há o colega do policial que questiona os seus atos e oferece alguma contrapartida na discussão, mas tudo é muito simplista, carregado. Direção: Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça. Ano: 2018.

A PRIMEIRA NOITE DE CRIME (The First Purge)

Destaque para o elenco de negros e também para o teor mais político e mais interessante, levando em consideração a nova ordem mundial, com essa onda de ode à violência como necessidade para combater os problemas do mundo. Direção: Gerard McMurray. Ano: 2018.

segunda-feira, abril 20, 2020

CASA

Ultimamente tenho voltado a prestar mais atenção à astrologia. Até para entender o que está acontecendo no mundo. O cenário no céu apresenta uma poderosa conjunção em capricórnio dos planetas Plutão, Saturno e Júpiter, algo que não acontece há centenas de anos. A última vez, ao que parece, foi no século XII. E a última conjunção Plutão/Saturno em capricórnio foi em 1914, quando deu início a Primeira Guerra Mundial. No meio disso tudo há também os tais eclipses no eixo capricórnio-câncer, que vêm acontecendo desde 2018. No atual cenário, a casa de câncer, a casa do lar, é fortalecida. Daí tenhamos que ficar em casa em um cenário de completa mudança social, política e econômica. Como não sou astrólogo e não quero me alongar também com o pouco que tenho lido e assistido em lives interessantes, fico por aqui, apenas para fazer um link com um dos melhores filmes brasileiros que tive o prazer de ver neste início de ano, e ainda inédito no circuito comercial.

CASA (2019), de Letícia Simões, lida com a família de uma maneira bastante ousada por parte da diretora. Já havia me tornado um admirador da cineasta quando vi o belo O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE VENTO E CHUVA (2018), tão sensível ao nos apresentar as cartas do romancista Dalcídio Jurandir, enquanto a diretora atravessa os lugares por onde ele passou no Pará. É uma experiência linda. Uma viagem de barco e uma exploração de lugares e pessoas fantásticos. O trabalho em CASA é mais corajoso pois a diretora se expõe muito mais.

Não se trata apenas de se desnudar de maneira sutil através de trabalhos que dizem muito de si sem escancararem a porta. O que vemos aqui é algo muito intenso. Letícia, a diretora, visita a mãe em Salvador. Sua mãe, Heliana, é uma mulher com características muito próprias. Bipolar, mantém a sete chaves arquivos de fotos, cartas e escritos acumulados ao longo de muitos anos. Essa questão de guardar da mãe é muito forte e muito fascinante também.

Mas o que tornaria as tensões fortes seria a presença de outro personagem central da narrativa, a avó de Letícia, mãe de Heliana. A avó, de nome Carmelita, vive em uma casa de repouso e recebe visitas da filha com alguma frequência. Acontece que Heliana guarda uma mágoa imensa da mãe, pelo fato de ela ter lhe batido muito quando ela era criança e isso ter causado feridas profundas. Assim, Heliana é sempre muito ríspida e agressiva com Carmelita. E nada tão tenso como a reunião das três para um jantar em família. E tudo é flagrado pelas lentes da diretora.

Acompanhar as três gerações de mulheres é também objeto de muito interesse, já que cada uma carrega o espírito de seu tempo, com o que há de positivo e negativo nisso. Heliana deseja muito que Letícia lhe dê um neto, mas a cineasta diz que não pretende ter filhos, o que causa certo desgosto à mãe. Letícia se separou e quer seguir um caminho de liberdade, sem amarras com as convenções sociais, por mais que guarde semelhança com a mãe no que se refere à vontade de deixar algo registrado. No caso, documentários sensíveis e femininos sobre afetos e relacionamentos. Que o tempo esteja do lado de Letícia Simões, para que possamos ter o prazer de ver mais trabalhos seus.

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O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE VENTO E CHUVA

Eu era o único espectador na sessão deste belo filme sobre o paralelo entre as cartas poéticas do romancista Delcídio Jurandir lidas pela diretora e a viagem que ela própria fez ao interior do Pará, com foco na educação. Uma pena que mais gente não está dando o devido valor a essas pequenas grandes obras que aparecem para nos fazer viajar, sentir e pensar no outro. A narração da diretora é linda, alternando sua própria experiência com as palavras do sofrido escritor. As cenas nas escolas públicas também são tocantes. Direção: Letícia Simões. Ano: 2018.

BIXA TRAVESTY

Não conhecia o trabalho de Linn da Quebrada e por isso é muito importante ter o cinema como elo de ligação com a arte que dialoga mais com uma pequena parte do público. As cenas de que eu mais gosto no filme são as que apresentam Linn e sua amiga Jup apresentando um programa de rádio e desconcertando as visões quadradas de gênero, dando seu recado para machistas e falando com seu público também. As cenas de performance também são boas, além de imagens do passado, que servem para dar ainda mais profundidade a essa personagem fantástica. É um filme que também trabalha bastante com a relação com o corpo, especialmente o corpo nu. Direção: Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Ano: 2018.

RESSACA

Um dos mais tristes e ao mesmo tempo mais bonitos filmes sobre o cenário político brasileiro recente. Aqui vemos o quanto os artistas do Teatro Municipal do Rio de Janeiro sofreram quando se viram sem receber seus salários, mas bastante apegados àquilo que sabem e gostam de fazer. RESSACA não é só mais um filme sobre a dura realidade brasileira (e mais especificamente no Rio), mas principalmente uma declaração de amor à arte. Ao apresentar o filme no Cine Ceará 2019, a diretora fez um discurso muito emocionado sobre a necessidade de políticas de apoio à cultura. Muito bem construída também a divisão do filme em capítulos/personagens. Uma surpresa e tanto. Direção: Patrizia Landi e Vincent Rimbaux. Ano: 2019.

domingo, abril 19, 2020

FLEABAG - SEGUNDA TEMPORADA (Fleabag - Season 2)

Quando vi a primeira temporada de FLEABAG (2016) não entendi tanto o motivo de tantos amarem a série, embora tenha gostado bastante. Ao ver a segunda temporada (2019), depois de quase um ano, foi que a série me ganhou e talvez eu tenha finalmente entendido. Acredito que pelo fato de que, enquanto a primeira temporada é mais centrada na culpa, esta segunda é uma história de amor. E me fez rir muito mais, talvez por eu já ter criado um pouco mais de familiaridade com os personagens e principalmente com a protagonista, mas creio que também pelo fato de Phoebe Waller-Bridge ter azeitado seu trabalho de criadora, roteirista e atriz principal, de modo que tudo ficasse perfeito. Sim, perfeição não é uma palavra exagerada quando se fala deste trabalho único.

Na primeira cena desta segunda temporada, que se passa depois de alguns anos e dias dos eventos da primeira, vemos a protagonista limpando o nariz sangrando em um banheiro. Perto dela, uma moça, no chão, também tem está com o nariz sangrando. Fleabag (Waller-Bridge) olha para a audiência na sua tradicional quebra da quarta parede e nos diz: isto é uma história de amor. Assim, por mais que nos esqueçamos por um momento do que ela falou, já que somos imersos a uma discussão familiar que acontece em um restaurante onde se passa todo o primeiro episódio, aos poucos, ao longo da temporada, lembraremos disso.

Distribuída ao longo de apenas seis episódios que duram menos de meia hora, às vezes pouco mais de vinte minutos, a segunda temporada de FLEABAG tem uma estrutura fragmentada de série de TV mesmo. Poderia sim ser vista como um único filme marcado por capítulos, mas cada episódio tem uma cara própria. Por exemplo, se o primeiro episódio se passa todo dentro do restaurante e mostra uma protagonista um tanto calada por causa de sua fama de causar confusões, tendo como amigos apenas a nós, espectadores, os episódios seguintes serão marcados por outros eventos, como a festa em homenagem a mulheres de negócios organizada por Claire (Sian Clifford), a irmã workaholic de Fleabag, ou aquele mais centrado em flashbacks dolorosos e que nos aprofunda na história da nossa heroína.

Mas o coração desta temporada é sim a história de amor. E como as melhores histórias de amor já criadas, esta lida com um tipo de amor impossível. Se não exatamente impossível, no mínimo, com um tanto de obstáculos. No caso, a paixão que evolui por um jovem padre (Andrew Scott) cujo nome nunca é mencionado, assim como não são mencionados os nomes do pai (Bill Patterson) e da madrasta (a oscarizada Olivia Colman). O padre é apresentado já no episódio inicial. Ele será responsável por presidir a cerimônia de casamento do pai e da madrasta.

Esse padre tem algumas peculiaridades, como falar muito palavrão e beber muito. Essa distinção do que se costuma esperar de um padre é logo posta em cheque. Assim como a natureza antissocial, pelo menos naquele momento, pelo menos diante da família que não gosta tanto assim dela, de Fleabag. E isso talvez tenha atraído a atenção do padre. Tanto é que ele é o único que percebe os momentos em que a personagem fala para a câmera.

Um amigo meu acredita que isso se dá pelo fato de que o padre talvez seja a única pessoa que presta atenção de fato nela. É possível. Mas acreditei, enquanto via os episódios, que isso se dava devido a algum tipo de aproximação com Deus ou com a espiritualidade, algo de metafísico, já que o dom de contar a própria história para um grupo de pessoas enquanto as demais agem como se alheios ao que o destino lhes reserva, é apenas da protagonista, uma espécie, portanto, de deus. Porém, pensar nisso é também pensar no quanto a personagem sofre em não saber dirigir a própria vida, ao fazer tudo errado.

Na antológica cena do confessionário, quando ela diz isso ao padre, quando ela se abre finalmente, mostrando-se humana, demasiado humana, é o momento em que o sacerdote se aproxima dela e corre o risco de sacrificar seu sacerdócio, sua intenção de abdicar do amor de uma mulher (ou de um homem) para amar apenas a Deus, ou algo do tipo. Pela primeira vez, vemos Fleabag apaixonada - e não correndo atrás de sexo casual para aplacar a dor e a culpa -, e o amor apresentado é do tipo avassalador.

E chegamos, então, ao intenso e último episódio, o que apresenta o casamento do pai e da madrasta, embora esse evento seja apenas um pano de fundo para o turbilhão de emoções na vida dos personagens, principalmente Fleabag, Claire e o padre. Embora Phoebe Waller-Bridge seja delicada também o suficiente para não pesar a mão, o aperto que fica no peito nos momentos finais da série é tão familiar a quem já amou, que nem é preciso dizer muito. As poucas palavras, as expressões e as imagens nos bastam.

+ TRÊS COMÉDIAS

MINHA MÃE É UMA PEÇA 3 - O FILME

Temos aqui um filme que é quase que completamente devedor do talento de Paulo Gustavo, corroteirista, junto com a diretora Susana Garcia, e que consegue fazer rir de cenas bem banais, como na cena inicial, fazendo compras na feira. O filme relaxa, por mais que em certo momento a voz histriônica da protagonista tenha ferido um pouco meus ouvidos. Isso aconteceu no primeiro filme também. Mas creio que o problema é comigo. As cenas envolvendo o casamento de Dona Hermínia são muito boas e talvez seja o ponto alto do filme. A sala estava lotada numa quinta-feira. E era apenas uma das quatro salas do multiplex a exibir o filme. É um fenômeno, sem dúvida. Ano: 2019.

AS TRAPACEIRAS (The Hustle)

Impressionante como estragaram o filme original, o ótimo OS SAFADOS, de Frank Oz. Se bem que já faz tanto tempo que vi que não saberia dizer o que há de novidade. Provavelmente é outro filme. Mas isso nem importa muito. O que importa é que há poucos momentos realmente engraçados no filme e isso prejudica e muito o que poderia ser uma comédia divertida. AS TRAPACEIRAS melhora quando entra em cena o personagem de Alex Sharp, um dos protagonistas de COMO FALAR COM GAROTAS EM FESTAS. Direção: Chris Addison. Ano: 2019.

CHORAR DE RIR

Simpático mas bastante irregular comédia sobre comediante de sucesso (Leandro Hassum) que tenta a carreira de ator dramático no teatro e se vê frustrado com o que acontece. Hassum tem o velho problema de não ser sempre engraçado mas aqui o seu papel é próximo do dramático. O bom elenco de apoio ajuda. Direção: Toniko Melo. Ano: 2019.

sábado, abril 18, 2020

SEDUÇÃO (Cat Chaser)

Achava que não encontraria uma cópia legendada deste filme menor de Ferrara, que infelizmente não teve um bom resultado, muitos dizem por ter sido arruinado na sala de montagem pela Fox e acabou sendo lançado apenas em VHS. O corte original tinha 157 minutos, o que não quer dizer que tudo constaria, mas ver um filme de resultado confuso e com fortes problemas de ritmo com apenas 90 minutos é sinal de que os cortes feitos foram para prejudicar o filme. Inclusive, o próprio ator Peter Weller se recusou fazer a voice-over na pós-produção e outra voz é ouvida, o que não deixa também de ser muito estranho.

A princípio essa voice-over que SEDUÇÃO (1989) traz parece uma marca tanto da adaptação do romance de Elmore Leonard (e que foi roteirizado pelo próprio romancista) quanto da própria característica dos filmes noir. A mim não me incomodou tanto, mas não deixa de parecer uma muleta, levando em consideração o resultado do filme.

Uma das vantagens de SEDUÇÃO para a carreira que Ferrara seguiria de maneira gloriosa a partir de O REI DE NOVA YORK (1990) é que, desde então, ele não abriria mão da montagem final, ou pelo menos de negociar com veemência para que sua visão e sua vontade estivessem no corte definitivo. Foi mais ou menos o que aconteceu com David Lynch quando dirigiu DUNA e desde então jamais faria outro projeto que não fosse pessoal. Ferrara, no entanto, faria ainda um projeto de encomenda, mas é um baita trabalho, OS INVASORES DE CORPOS - A INVASÃO CONTINUA (1993), para a Warner.

Na trama de SEDUÇÃO, Paul Weller é um ex-marine que agora gerencia um pequeno hotel na Flórida. O excesso de luz do lugar, inclusive, até destoa da característica mais noturna dos trabalhos de Ferrara. Outro local que também é explorado no filme é a República Dominicana, onde se passa boa parte da trama, e onde o protagonista tem um reencontro com um amor do passado, a femme fatale vivida por Kelly McGillis. O reencontro dos dois fica um pouco no ar, um tanto confuso. Sem falar que a reunião deles acontece com já cerca de meia hora de filme.

Ela tem um marido milionário, mafioso que parece ser suficientemente perigoso para que a mulher peça divórcio. E há um acordo pré-nupcial, que garante a ela 2 milhões de dólares em caso de separação. Mas as coisas se complicam a ponto de a mulher sugerir ao amante que mate o marido, um clichê dos filmes do gênero, mas que ainda é bem-vindo quando resulta em um bom trabalho.

Mesmo para Ferrara, as cenas de sexo passam longe de serem tórridas e as cenas de violência e gore parecem moderadas. Claro, isso depende do interesse e/ou tolerância de cada espectador. SEDUÇÃO vale mais pela curiosidade, especialmente para quem está acompanhando a carreira do cineasta, como é o meu caso.

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MORTO NÃO FALA

Dennison Ramalho tem pelo menos uma obra-prima em sua filmografia, o curta AMOR SÓ DE MÃE (2003). E há muito de AMOR SÓ DE MÃE neste seu primeiro longa, como o protagonista que comete escolhas terríveis e precisa pagar um alto preço, além do uso tanto do horror de fantasmas quanto do uso de gore. Quem eu gostei mais no filme foi de Bianca Comparato. Sua cena com uma faca na mão no ápice do filme é uma beleza. Aliás, o filme é cheio de momentos brilhantes e que tiram o filme de um torpor que de vez em quando parece se instalar. Na expectativa pelo próximo filme de Ramalho. Ano: 2018.

RAIVA

Curioso como o cinema português gosta de falar sobre a miséria em seu país. Até mais do que o Brasil, que sofre muito mais com isso. Aqui a temática é bem-sucedida, mesmo que o diretor leve a trama para 1950. O espaço geográfico é de uma tristeza e de um isolamento que dá uma angústia só de ver. E depois tem toda a preocupação para conseguir uma coisa básica, como um pão para comer. Leonor Silveira, ainda que envelhecida e com uma personagem naturalmente sofrida, continua bela. Direção: Sérgio Tréfaut. Ano: 2018.

VERMELHO SOL (Rojo)

Chama a atenção o cuidado formal da direção desde as primeiras cenas. E mais ainda na cena do restaurante, a primeira cena tensa e que dá o tom do filme. Depois há mais coisas que parece que serão o enredo principal, mas acabam funcionando como uma espécie de painel do estado das coisas daquele momento da Argentina (anos 70), mas que deve estar refletindo para a atualidade também. Filmaço! Direção: Benjamín Naishtat. Ano: 2018.

quinta-feira, abril 16, 2020

TROPAS ESTELARES (Starship Troopers)

Às vezes eu me sinto um tanto travado até para escrever para o blog, pois, por algum motivo, me sinto um pouco na obrigação de compartilhar também informações adicionais sobre o filme para os leitores, sendo que isso demanda tempo e pode tirar a fluidez do texto, dependendo do dia. Então, vou tentar fazer um texto mais memorialista e sem entrar muito em detalhes da produção, apenas em impressões e no que eu tenho de intimidade e amor pelo cinema de Paul Verhoeven.

Sempre tive medo de voltar a ver TROPAS ESTELARES (1997) na tela pequena e o meu amor pelo filme diminuir. Isso pode acontecer e foi abordado recentemente em debate sobre a revisão de MAD MAX - ESTRADA DA FÚRIA no podcast Cinema na Varanda. No caso do filme do Verhoeven, havia algo também de muito assustador na sessão para mim, em especial com a cena da chegada da infantaria no planeta dos insetos e o encontro com o primeiro bicho, seguido da chegada de uma multidão deles.

Na época eu já era entusiasta do cinema de Verhoeven, embora ainda não conhecesse sua fase holandesa. Mas havia tido o prazer de ver no cinema O VINGADOR DO FUTURO (1990), INSTINTO SELVAGEM (1992) e SHOWGIRLS (1995). Aliás, é importante lembrar que ele vinha de uma obra bastante controversa, eleita por muitos como o pior filme do ano e coisa do tipo. Uma injustiça, na verdade. Mas isso não é assunto para esse espaço. Já até revi SHOWGIRLS anos atrás.

Assim, TROPAS ESTELARES guarda mais relação com ROBOCOP - O POLICIAL DO FUTURO (1987), por causa da crítica ácida ao nacionalismo levado às últimas consequências. No caso do filme dos insetos gigantes, essa crítica é ainda mais intensa e mais cheia de elementos de humor e sátira, embora possa ser incompreendido por parte do público como uma obra de exaltação do fascismo ou coisa do tipo, o que é um absurdo em se tratando tanto do trabalho do diretor quanto da própria epóca um tanto mais cínica em que vivíamos.

Agora na revisão, o que temos é uma obra que se mostra extremamente divertida e envolvente, inclusive na apresentação de seus personagens, que por mais que sejam como Barbies e Kens, isso não impede que sejam personagens de certa profundidade, além de exemplares da beleza e dos impulsos da juventude. Isso vale para os quatro personagens que formam o quadrado amoroso: Johnny Rico (Casper Van Dien), Carmen (Denise Richards), Dizzy (Dina Meyer) e Zander (Patrick Muldoon). Dos quatro, apenas Denise Richards ganharia maior fama, depois atuando em hits como GAROTAS SELVAGENS e se tornando uma Bond girl em 007 - O MUNDO NÃO É O BASTANTE.

Essa aproximação com os personagens torna o filme mais empolgante quando eles são jogados em um território perigoso, o planeta dos insetos gigantes. A propósito, que impressionante a criação desses monstros, hein. Tanto aqueles que parecem mais assustadores por se mostrarem mais difíceis de morrer e cheios de pernas cortantes, quanto os grandões, como a "mãe", apresentada em uma ótima cena na caverna, e aqueles que soltam fogo, como se fossem mísseis. Assim, podemos dizer que, dentro daquele momento em que já não nos impressionávamos mais com nenhum tipo de efeito especial desde JURASSIC PARK, do Spielberg, o filme de Verhoeven conseguiu esse feito.

TROPAS ESTELARES se tornou um dos maiores e melhores filmes do holandês maluco, dentro de uma filmografia que já era pra lá de admirável.

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O PRIMEIRO HOMEM (First Man)

Não deixa de ser um tanto decepcionante, levando em consideração os dois trabalhos anteriores de Damien Chazelle. E também por ser um trabalho até que bem clássico. Mas é um filme que não deixa escapar sua intenção ambiciosa e que, felizmente, tem uma produção tão boa que consegue recriar muito bem a odisseia do primeiro homem indo para a Lua. Ano: 2018.

22 MILHAS (Mile 22)

Peter Berg parece um discípulo melhorado de Michael Bay. Neste 22 MILHAS, eu não me incomodei com a edição picotada. Acho que combinou bem com o ritmo e com a tensão, que é intensa, o tempo todo. Mas o melhor de tudo foi poder matar a saudade da Lauren Cohan. Como eu gosto dessa mulher...Que ela apareça com mais frequência no cinema. Ano: 2018.

CÍRCULO DE FOGO - A REVOLTA (Pacific Rim - Uprising)

Não sei se é porque eu vou com um pouco de má vontade (já não gostei do primeiro, dirigido pelo del Toro), ou então é mesmo tudo uma bagunça nesse filme aqui. Decupagem ruim em tudo, nas cenas de ação até que melhoram um pouco lá perto do final, mas aí não adianta mais. Há uma cena em que o vilão diz: não está se impressionando com o monstro gigante, então vamos ver se não se impressiona com isso aqui. Um saco esses monstros gigantes e robôs gigantes.. Saudades de EVANGELION... Direção: Steven S. DeKnight. Ano: 2018.

domingo, abril 12, 2020

O VÍCIO (The Addiction)

O filme de vampiros de Ferrara, O VÍCIO (1995), é de uma lindeza fenomenal. E é impressionante como costuma ser colocado de lado, mesmo quando se fala de filmes de terror. A escolha pela fotografia em preto e branco foi perfeita para dar a tom de homenagem a Murnau, presente em outras obras do diretor, mas que aqui se constitui parte ainda mais clara (ou mais escura) da forma.

Em certo momento, me lembrei de MARTIN, de George A. Romero, mas só por um momento. Acredito que por causa da cena da seringa. O filme vai seguindo seu próprio caminho, trazendo muitas discussões filosóficas para a narrativa. Mas nada disso valeria se não fosse uma delícia como exemplar do gênero horror do início ao fim. Adianto que é, desde já, um dos meus favoritos do cineasta.

Os temas e obsessões de Ferrara se repetem e se complementam nesta metáfora sobre o vício nas drogas, que se apresenta como uma continuação de outras obras que também lidavam com o tema, VÍCIO FRENÉTICO (1992) e OLHOS DE SERPENTE (1993). Há também intersecção com outros filmes do diretor, como a semelhança da orgia dos vampiros com o clímax de SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981).

Lili Taylor, como a doutoranda em Filosofia que se transforma em vampira, é talvez a melhor personagem do cinema de Ferrara. Nem é pela materialização definitiva de uma vampira em um cinema que já apresenta personagens vampirescos, mas por ela parecer una com a personagem em seus momentos de agonia, êxtase, angústia ou total indiferença com a vida alheia, sugada que estava pelas forças das trevas.

Em determinado momento, ela encontra um vampiro com muita experiência de vida (Christopher Walken) que lhe traz mais perguntas que respostas. E ela precisa ouvir enquanto sente dor as frases: "você não é nada. Você não é uma pessoa. Você não é nada." E isto nem chega a ser um ponto de virada para a conversão da protagonista. Para chegar a esse momento seria necessário vivenciar a famosa frase de William Blake:"o caminho dos excessos leva ao palácio da sabedoria". Só depois da orgia de sangue que ela se antecipa a algum tipo de iluminação espiritual.

Nesse sentido, O VÍCIO é um dos filmes com um dos finais mais felizes da obra de Ferrara. E é interessante saber que Nicholas St. John, o roteirista parceiro do diretor, escreveu o roteiro quando perdeu seu filho. Foi um meio de encontrar a verdade e a luz em um mundo de escuridão. Por mais que seja mais um filme que prestigia e celebra a noite e as sombras, ele também oferece variados pontos de lucidez e questionamento a partir de discussões e reflexões sobre a maldade humana.

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HALLOWEEN

Uma surpresa bem positiva esta continuação direta do clássico de 1978. Depois de recepções não muito positivas dos filmes do Rob Zombie, David Gordon Green consegue um tom ideal para o retorno do psicopata incansável Michael Myers. A ideia de ignorar todas as continuações e reboots acaba sendo um acerto para evitar a bagunça e a homenagem a Carpenter ser mais eficiente. Quase chega a ser ótimo. Ano: 2018.

A FREIRA (The Nun)

Corin Hardy até que tinha um filme de horror bem interessante no currículo, o subestimado A MALDIÇÃO DA FLORESTA (2015). Pena que ele ficou preso neste preguiçoso e sem-graça A FREIRA, mais um caso a se pensar sobre o futuro do horror clássico, que parece estar em decadência. Nem sei se o próprio James Wan seria capaz de fazer outro de seus milagres no gênero. Viva o pós-horror, então. Ano: 2018.

MEDO PROFUNDO (47 Meters Down)

Infelizmente as circunstâncias não favorecem qualquer julgamento do filme. Saí três vezes no meio da sessão para reclamar de múltiplos problemas (projeção tremida, som baixo, ar condicionado). Assim não dá, dona Cinépolis. Vou ter que fazer uma reclamação formal e ver se eles criam vergonha. Quanto ao filme, creio que seja apenas ok. Ou menos que isso, na verdade. Direção: Johannes Roberts. Ano: 2017. ATENÇÃO: depois de relatar à gerência esses problemas, ocorridos em 2018, a sala 10 onde eu vi este filme ficou ótima.

sábado, abril 11, 2020

OLHOS DE SERPENTE (Dangerous Game / Snake Eyes)

Primeiro trabalho de Abel Ferrara que foge da categoria "filme de gênero", OLHOS DE SERPENTE (1993), feito em acordo com a Warner, depois de alguma concessão por parte do diretor na sci-fi de terror OS INVASORES DE CORPOS - A INVASÃO CONTINUA (1993), a produção acabou não ganhando tanta força assim, já que a própria estrela do filme, Madonna, insatisfeita com a quantidade grande de cortes de cenas suas por parte do diretor, rogou praga no filme e referiu-se a Ferrara como um canalha.

Ferrara, por sua vez, se defendeu, em entrevista: "ela é a porra de uma escrota. Como se a gente ficasse de sacanagem tirando as melhores cenas do filme só pra encher o saco dela. É preciso ser muito paranoico pra dizer uma porra dessas".

E, assim, mais uma produção do diretor acaba entrando na lista de obras mais ou menos malditas de sua filmografia. Também não foi um filme fácil para grande parte dos espectadores. É uma obra um tanto difícil e cheia de aparentes travas, já que vemos o filme dentro do filme, Mother of Mirrors, como também as cenas do cotidiano do cineasta, sua relação com a família se desgastando, bem como a confusão entre personagem e ator vivida pela dupla de protagonistas da produção, Madonna e James Russo.

No tal Mother of Mirrors, eles vivem um casal que está passando por uma crise enorme, já que ela se converteu ao Catolicismo e decide viver uma vida pacata e longe dos excessos, enquanto ele ainda quer continuar com a vida de drogas, álcool e sexo promíscuo que os dois estavam acostumados a viver. Inconformado com a decisão da esposa, ele parte para a violência. Como o ator confunde a vida real com a ficção (precisa usar cocaína e beber muito para entrar no personagem), até na cena de estupro, o sexo não consentido é real.

Há também algo de repulsivo em Eddie Israel, o cineasta vivido por Harvey Keitel, como se o ator ainda estivesse impregnado do "mau policial" de VÍCIO FRENÉTICO (1992). Uma cena como a da piscina, de Keitel e Madonna dançando e se beijando, poderia ter, se não algo de romântico, ao menos alguma coisa de excitante. Ao contrário. Isso é proposital ou acidental? É um problema do filme ou uma qualidade?

De todo modo, isso é coerente com a obra de Ferrara. Como acontece com os homens das ruas em SEDUÇÃO E VIGANÇA (1981), a violência masculina se materializa estúpida no personagem de James Russo. Sua namorada/traficante que tenta trazer algo de excitante, por exemplo, chupando seu dedo e perguntando se Sarah Jennings (Madonna) havia feito sexo oral com ele daquela maneira, recebe uns tapas, como que merecendo uma punição por ser indecente ou algo do tipo. Isso acontece em oposição ao personagem que ele interpreta no filme, que implora para que a esposa volte a ser como era antes. Em comum, a falta de respeito quanto à vontade e à ação da mulher.

Há também algo de interessante na construção do personagem de Keitel. Ele anseia pela transformação, inclusive insatisfeito com a forma como os personagens de seu filme estão presos a suas identidades fechadas, deixando-o frustrado. Em paralelo, Eddie termina sozinho, destruindo sua vida familiar em nome de uma suposta honestidade. Ele fica cansado de mentir para a esposa, tendo dormido com um grande número de mulheres enquanto esteve casado.

Quem interpreta a esposa de Keitel é Nancy Ferrara, esposa do diretor. Simbólico? Talvez, mas quem Ferrara queria para o papel, na verdade, era a cineasta Jane Campion.

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3 FACES (Se Rokh)

Vendo 3 FACES, fico me perguntando por que não se fazem mais filmes assim. Tão simples, mas tão fáceis de agradar como que por uma magia. O segredo de uma grande direção está aí. Não sei muito sobre os bastidores e nem como está a situação de Jafar Panahi no Irã, mas esse homem merece mais respeito por parte dos governantes de seu país. Na falta de Kiarostami, talvez ele tenha tomado a posição de cineasta mais importante de lá. Uma verdadeira viagem pelo interior de um país distante e complicado, mas hospitaleiro. Ano: 2018.

A CÂMERA DE CLAIRE (La Caméra de Claire)

Outro delicioso filme de Hong Sang-soo. Para quem está habituado com o estilo do cineasta, é certamente um prazer. Não é mais do mesmo, pois ele sempre está acrescentando algo ao seu processo. É como se aqui ele nos mostrasse uma nova maneira de ver a vida através da filosofia da mulher estrangeira que tira fotografias. O romance nos bastidores com Kim Min-hee é novamente posto em discussão, mesmo que boa parte do público fique sem saber. Ano: 2017.

O ARTISTA DO DESASTRE (The Disaster Artist)

Da temporada de premiações de 2018, este é um dos filmes que eu mais estava empolgado para ver. Não é tão bom quanto eu gostaria que fosse, mas entretém que é uma beleza. E ajuda a gente a pensar no aspecto trágico do personagem Wiseau. Embora dê pra rir um bocado também. Está longe de ser um ED WOOD, mas comparar os dois filmes é quase inevitável pela temática. Direção: James Franco. Ano: 2017.

sexta-feira, abril 10, 2020

A GRANDE JORNADA (The Big Trail)

Não sei por que passei tanto tempo achando que A GRANDE JORNADA (1930) era apenas o primeiro filme importante de John Wayne, o filme que não tinha dado certo, um western menor. E eis que, ao ler um texto do amigo Chico Fireman, percebi que estava muito enganado. Estava deixando de ver uma das obras mais ambiciosas e importantes de seu tempo, além de contar com a direção sempre confiável do mestre Raoul Walsh.

De todo modo, foi até bom só ver agora, pois, provavelmente as cópias existentes em DVD só devem conter a versão padrão, a versão que foi lançada em 35 mm, com formato de tela mais comum para a época, a 1,2:1. A versão que eu vi foi a de 70 mm, com janela de aspecto de 2,1:1. Ou seja, quase o padrão usado posteriormente para o que se chamaria de cinemascope, na década de 1950.

Pouquíssimas salas dos Estados Unidos exibiram a versão em 70 mm, já que o país estava ainda enfrentando a Grande Depressão e os cinemas já haviam gastado bastante com a transição do cinema mudo para o cinema falado. Assim, A GRANDE JORNADA, tendo custado uma fortuna, acabou por se tornar um fracasso de bilheteria em seu país de origem, embora tenha tido bastante sucesso na Europa.

Um dos cartazes do filme dizia: "The most important picture ever produced". E, de fato, desde CAVALO DE FERRO, de John Ford, feito na era do cinema mudo, não se havia feito algo tão grandioso do ponto de vista também da relevância para a História dos Estados Unidos, de sua expansão para o Oeste. Na trama de A GRANDE JORNADA, um grupo enorme de pessoas sai do Mississipi em direção ao Oeste, a fim de se estabelecer. No grupo, há todo tipo de pessoas, inclusive alguns bandidos, que seriam os antagonistas do personagem de Wayne. Há também um interesse amoroso para o protagonista, vivida pela bela Marguerite Churchill.

A GRANDE JORNADA impressiona desde as primeiras imagens. Em tempos de computação gráfica, é admirável o tanto de gente, cavalos, carroças, que o filme dispõe. E aquilo tudo foi feito na aurora do cinema falado e em cenários de verdade. Na época, o som ainda era um obstáculo, e é natural, vez ou outra, percebermos um silêncio comum de se encontrar em produções do início dos anos 1930. Mas aqui em menor escala: até para a música havia uma preocupação, já que se tratava de um grande épico.

Há também espaço para o riso, como nas cenas em que determinado personagem sempre fala mal de sua sogra e depois ela aparece para lhe dar uma dura. É algo que ainda funciona bastante nos dias de hoje. Dei boas risadas. Há outros momentos dignos de atenção, coisas pequenas, como a atenção para as mulheres fazendo coisas do cotidiano, como lavarem os cabelos, ou cenas com os animais. Afinal, a intenção daquele povo de atravessar quilômetros e quilômetros de terra perigosa era levar o máximo que podiam para se estabelecer.

Quanto ao personagem de Wayne, Brek Coleman, ele tem um jeito honrado que nos faz apreciá-lo desde o começo. É um herói no sentido mais puro da palavra. É capaz de matar, mas é compreensível para a época. Na cena em que Ruth Cameron (Churchill) tenta pedir para que ele não vá atrás de seus algozes, ele afirma que é preciso. E lhe traz certa segurança quanto a isso. Por mais que alguns vilões pareçam saídos de animações - um deles parece o Brutus de Popeye -, tudo isso pode ser relevado em prol da aventura, da emoção e das tantas cenas admiráveis, como as difíceis passagens por tempestades de chuva e neve, por uma guerra contra os índios, por um desfiladeiro, ou por um rio violento.

Outra coisa admirável, não relacionada diretamente ao filme, mas ao gênero western em si, é o quanto o cinema o abraçou e o transformou em uma mitologia. Sendo que, quando o cinema começou com força no início do século XX, a distância entre os acontecimentos mostrados nos westerns não era assim tão grande, embora desse impressão. Que bom que filmes como esse foram criados, apreciados e se tornaram uma febre no mundo todo.

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DOIS IRMÃOS - UMA JORNADA FANTÁSTICA (Onward)

Sei que tenho meus problemas com as animações mais tradicionais, mas suspeito que este é um belo exemplo de que a Pixar anda perdendo a mão e entregando filmes menos inventivos. Aqui vemos a história de dois irmãos que tentam, de alguma maneira, reencontrar o falecido pai, através de um feitiço. E a ideia é até bem boa e nas mãos de um diretor habilidoso poderia resultar em algo bastante sensível, tanto no que se refere à ausência do pai, quanto no relacionamento entre os dois irmãos, tão diferentes entre si. Mas faltou um pouco de tato e o que temos é uma aventura que parece muito um videogame, no sentido de passar etapas para se chegar a um fim. Mas tudo pode ser besteira minha e o público pode estar gostando. Uma moça estava comentando que chorou o filme inteiro ao fim da sessão, por exemplo. Direção: Dan Scanlon. Ano: 2020.

UM LUGAR SILENCIOSO (A Quiet Place)

Um dos mais belos e inventivos filmes de monstro e de futuro pós-apocalíptico dos últimos anos. Talvez tenha faltado só um pouco para ser um grande filme. Mas tanto a ideia quanto a realização são notáveis. Pena que a sala 2 do UCI Iguatemi estava uma bosta. Imagem mais escura e mais lavada do que nunca. Pra completar, a projeção não acertou direito o quadro, deixando espaço na parte de cima da tela, e o som estava com problema também. Direção: John Krasinski. Ano: 2018.

WESTERN

Não consegui gostar tanto assim deste celebrado filme, embora tenha achado bem interessante o estudo sobre a masculinidade e a alegoria com o gênero americano por excelência em um formato despojado de enfeites. Senti falta de mais mulheres. Aquele bando de macho idiota conversando e fazendo besteira me encheu o saco. Direção: Valeska Grisebach. Ano: 2017.

quinta-feira, abril 09, 2020

9 LIVES OF A WET PUSSY

Voltando um pouco no tempo em minha peregrinação pela obra de Abel Ferrara, chego a seu primeiro longa-metragem, o pornô 9 LIVES OF A WET PUSSY (1976), assinado com o pseudônimo Jimmy Boy L. Dizem que se não fosse a participação como performer do próprio Ferrara na cena em que ele é um pai (ou seria avô?), que é embriagado por duas irmãs para servir de objeto sexual para ambas, poucos descobririam que esse filme teria sido dirigido pelo hoje famoso cineasta. A tal cena, aliás, possui elementos bíblicos, fazendo uma referência ao conto das filhas de Ló, presente no livro de Gênesis. Há quem diga que isso é uma indicação das obsessões do autor escondida no filme.

No mais, a apreciação de 9 LIVES é um tanto difícil, por não ser exatamente um pornô muito animador, do ponto de vista erótico, já que as cenas de sexo são filmadas sem muita inventividade nos quesitos voltagem erótica e fantasia. O que vemos são tradicionais cenas de sexo convencional, uma cena de threesome (a tal cena com Ferrara), uma de sexo lésbico, muito sexo oral; enfim, nada de mais, a não ser a beleza física da protagonista (Pauline LaMonde), que é homenageada nos créditos finais, com justiça.

Além da beleza na textura das imagens, do ponto de vista narrativo, é um filme que se formou especialmente na edição, com a inclusão de uma voice-over da personagem da moça apaixonada por Pauline, vivida por Dominique Santos. Ela recebe cartas de Pauline, em que a jovem conta suas aventuras. Assim, a ideia é trazer para aquelas cenas algum elemento que as torne mais eróticas ou mais transgressoras, já que, pelo material bruto, elas parecem bem burocráticas para quem já viu muito pornôs, tanto os da era do vídeo quanto os clássicos feitos em película. Santos também aparece diversas vezes como a apresentadora das historietas.

O filme já contava com pelo menos dois companheiros de Ferrara: o roteirista Nicholas St. John, também com um pseudônimo nos créditos, e aparecendo em uma cena como um chofer; e o compositor Joe Delia, que trabalharia em uma dúzia de filmes com o cineasta. Inclusive, o trabalho de Delia é outro elemento que ajuda a valorizar o filme, trazendo tanto um tipo tradicional de som mais funkeado característico dos pornôs da época, quanto também alguns elementos que parecem saídos de filmes de horror e que parecem deslocados, e acabam por trazer uma interessante sensação de estranheza e desconforto. Para quem é interessado na obra do diretor, vale ver. Inclusive, no ano passado lançaram nos Estados Unidos uma versão em BluRay. Por causa da assinatura do diretor, acabou por se tornar um cult movie.

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CATS

Estava achando, com todas essas brincadeiras de pior filme do ano que o povo andava fazendo, tirando onda dos problemas e dos aspectos bizarros e tal, achava que ficaria minimamente animado. Que nada: bastam 15 minutos de cantoria ruim e brega que a gente já pensa no martírio que serão aqueles quase duas horas de duração. Felizmente consegui ficar com sono para que a tarefa fosse menos dolorosa. Até algo de natureza erótica, por mais sutil que seja, não me pegou ou me inspirou, por mais que eu valorizasse o tempo inteiro o corpo de Francesca Hayward, que faz a gata Victoria. Quanto aos demais astros, é muita vergonha junta, meu Deus. Direção: Tom Hooper. Ano: 2019.

ANTIPORNO (Anchiporuno)

Diferente de MULHER MOLHADA AO VENTO, de Akihiko Shiota, o trabalho que Sion Sono fez para o projeto roman porno reboot foi bem diferente e talvez até mais ousado. Só que não me conquistou, no sentido de que toda a nudez e todo o sexo que é mostrado é no sentido de causar mal estar. Se é esta a intenção, beleza. Ele foi bem-sucedido. E é até possível que o filme cresça na minha memória afetiva. Ano: 2016.

KIKI - OS SEGREDOS DO DESEJO (Kiki, el Amor Se Hace)

Bem divertida comédia sobre amores e diferentes taras. Senti falta de mais ousadia no que se refere ao erotismo, mas já era de esperar. Ainda assim, não é filme para se esnobar, não. Há muitos momentos bem bonitos e alguns até corajosos e polêmicos, como a história do médico que botava sonífero na mulher para poder transar com ela. Direção: Paco León. Ano: 2016.

terça-feira, abril 07, 2020

ERASERHEAD

Como estou lendo a biografia Espaço para Sonhar, escrita pelo próprio David Lynch e por Kristine McKenna, senti necessidade de rever ERASERHEAD (1977), que eu devo a mim uma revisão desde quando vi TWIN PEAKS - O RETORNO (2017), que contém muitos elementos do primeiro longa-metragem do cineasta. Aliás, basta ver ERASERHEAD para perceber que já estava tudo ali, tanto a genialidade de Lynch e suas obsessões, quanto os conceitos que seriam aproveitados e aprofundados em suas obras posteriores.

Algo que me fez sorrir sozinho lendo a biografia foi ver o quanto Lynch queria que o preto da fotografia ficasse o mais preto possível. "Nunca estava suficientemente escuro para ele", dizia o diretor de fotografia Herb Cardwell. E é de fato uma fotografia admirável que passou por dois nomes, já que o filme demorou muito a ficar pronto. A pré-produção foi em 1971 e as filmagens começaram em 1972. Apesar de ter sido inicialmente bancado pela AFI, pararam por falta de dinheiro - o orçamento ultrapassou o planejado. Depois, com financiamento adicional, puderam finalmente exibir a primeira versão com 1h50 em 1976 e a versão definitiva, com um corte de 20 minutos, no ano seguinte.

Outra coisa que me fez rir com o coração foi a descrição de Lynch como um sujeito que todo mundo gosta, que pede para fazer coisas meio loucas, como cordões umbilicais de verdade tirados de ninhadas de cachorros. Além do mais, alguns coisas nos remetem diretamente ao Agente Dale Cooper, de TWIN PEAKS (1990-1991), como na descrição de Peggy Reavey, sua primeira esposa: "As pessoas adoram trabalhar para David. Se você fizer algo insignificante, como levar-lhe uma xícara de café, ele fará você pensar que fez a coisa mais importante do mundo."

ERASERHEAD conta a história de Henry Spencer (Jack Nance, que depois faria Pete Martell, o homem que encontrou o corpo de Laura Palmer, em TWIN PEAKS). Henry engravida uma jovem mulher e é meio que forçado pelos pais da jovem a casar com ela. Surge um filho disforme, a mulher não aguenta a angústia de viver naquela casa e vai embora, e ele fica sozinho com o bebê. Enquanto isso, há um mundo sobrenatural que é misteriosamente explorado, com personagens enigmáticos como o Homem do Planeta e a Dama do Radiador, uma moça com bochechas exageradamente grandes.

A primeira vez que vi ERASERHEAD achei se tratar de um filme sobre a dificuldade ou a incapacidade de encarar a paternidade ou a vida adulta. Mas provavelmente eu esteja errado, ou parcialmente errado. Lynch costuma dizer que este seu primeiro longa-metragem é seu trabalho mais espiritual e que a maioria das pessoas não consegue perceber isso.

A atração de Lynch pelo bizarro e por coisas fora do ordinário já se apresentavam desde seu trabalho com a pintura. Como aqui temos um longa-metragem, há uma infinidade de aspectos que se destacam, ou mesmo curiosidades de bastidores, como o depoimento de Charlotte Stewart, a jovem que interpretou a esposa de Henry. Ela disse: "Antes de rodar, David sempre fazia uma ferida supurante na entrada do meu ouvido direito. Ela não aparecia, mas sabíamos que estava lá." Havia também o caso de uma atriz que Lynch achava bonita demais para o papel e, por isso, colocava um sinal cabeludo em seu rosto para trazer um pouco de feiura para ela.

O ambiente é o de cidades industriais poluídas. Há poucas cenas externas e poucas ainda diurnas. O filme foi quase todo filmado à noite. E há todo um cuidado com o desenho de som e com a trilha sonora que hoje são marcas reconhecidas do cinema de Lynch. Podemos ver o quanto isso já estava presente desde esse seu primeiro trabalho de grande impacto. O ladrido do cão, o apito do trem, o chiado da máquina, o som vazio do quarto e outros tantos pequenos ruídos, tudo isso foi feito com muita precisão, com muito cuidado.

O aspecto onírico, marca registrada da grande maioria dos filmes de Lynch, está tão presente em ERASERHEAD que o que temos é algo parecido com um sonho dentro de um sonho. E há muito o que relacionar com obras posteriores do diretor, já que o filme se passa em um universo que parece o mesmo do black lodge de TWIN PEAKS e outras obras. Inclusive, a cabeça gigante de bebê deu origem, muito provavelmente, à cabeça flutuante do Major Briggs, em TWIN PEAKS - O RETORNO. É desses filmes que merecem uma revisão inúmeras vezes, a fim de perceber e apreciar seus vários detalhes, e até entender mais seus simbolismos.

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TECHNOBOSS

Não deixa de ser admirável o grau de independência e de ousadia que o cinema português trilha. Certamente a presença de um sujeito como Miguel Lobo Antunes, em sua primeira atuação no cinema, seja mais atraente para os espectadores portugueses, já que ele é um homem que esteve envolvido durante muitos anos na cena político-cultural do país. Aqui temos um filme um tanto estranho sobre um técnico em câmeras de segurança, cancelas etc, que se vê envolvido com sentimentos de solidão e uma atração pela recepcionista de um hotel. Mas não há muita ação ligada ao romance. O que há mais é a rotina tediosa do protagonista, uma fotografia com pouco grau de nitidez, canções desconcertantes cantadas por Miguel Lobo e uma imagem pouco atraente para os estrangeiros de Portugal. Direção: João Nicolau. Ano: 2019.

TORRE. UM DIA BRILHANTE (Wieża. Jasny Dzień)

Eis um filme que nos coloca em nossa própria insignificância, a ponto de não sabermos o que estamos vendo. É uma história de horror? Um drama sobre uma mãe biológica que chega para mudar a vida de uma família? Sim, as duas coisas. Acho que o problema é a dificuldade de "entrar" no filme, em sua atmosfera. Nesse sentido, entender ou não entender é só um detalhe. Direção: Jagoda Szelc. Ano: 2017.

O ÚLTIMO CAPÍTULO (I Am the Pretty Thing That Lives in the House)

Gosto muito do começo do filme. Parecia promissor. A narração da Ruth Wilson é literária, no bom sentido do termo. Mas justamente quando o filme entra mais no campo da literatura, ele vai começando a ficar maçante e sonolento. Há uns pequenos sustos bem bons e um grande susto também, mas no geral é um filme de muitos silêncios. Faltou mais terror no terror. Direção: Osgood Perkins. Ano: 2016.

segunda-feira, abril 06, 2020

OS INVASORES DE CORPOS - A INVASÃO CONTINUA (Body Snatchers)

Sei que não está fácil para ninguém viver nesta quarentena. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser um privilégio de quem pode ficar em casa. Por isso, não posso ficar reclamando, embora os sentimentos de angústia e ansiedade oscilem. Embora eu esteja há duas semanas conseguindo ver um filme por dia, esses filmes nunca foram vistos sem interrupções. OS INVASORES DE CORPOS - A INVASÃO CONTINUA (1993), de Abel Ferrara, foi o primeiro a quebrar essa regra na madrugada de ontem.

Isso se deve tanto ao meu interesse pela obra do cineasta, interesse que vem crescendo a cada dia, quanto ao acerto do diretor na condução deste filme de horror e ficção científica que já contava com duas versões muito queridas realizadas décadas atrás, a de Don Siegel, VAMPIROS DE ALMAS (1956), e a de Philip Kaufman, INVASORES DE CORPOS (1978). Ferrara tinha a missão, portanto, de fazer algo tão bom e tão atraente quanto os de seus antecessores.

Pena que o filme não tenha ganhado uma distribuição decente nos Estados Unidos e no mundo. Tinha tudo para ser um sucesso popular incrível. Foi o filme de maior orçamento dirigido pelo cineasta - 20 milhões de dólares -, e o primeiro e único em scope, mas que, por ser descoberto mais em home video ou na televisão, a maioria das pessoas acabaram vendo-o mutilado. Eu, pelo menos, a primeira vez que o vi foi na TNT, que, além de tudo, costuma cortar cenas de nudez. Então, eles mutilam duplamente: com cortes nos lados e de cenas.

O namoro de Ferrara com o cinema de horror já estava presente desde o seu primeiro longa no cinema mainstream, O ASSASSINO DA FURADEIRA (1979), e também depois com SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981), mas é com OS INVASORES DE CORPOS que ele abraça com força o gênero, trazendo junto com ele dois grandes mestres do horror, Stuart Gordon e Larry Cohen, que colaboram no roteiro. Junte-se a isso, a participação do então roteirista de Ferrara, Nicholas St. John. Logo, não tinha como dar errado. Gordon, inclusive, ia ser o diretor contratado para a produção, mas, por algum motivo que desconheço, foi substituído.

A história se passa em uma base militar americana e acompanhamos a chegada de uma família que se estabelece naquele espaço, devido ao trabalho do engenheiro químico Steve Malone (Terry Kinney). Com ele, vão a esposa Carol (Meg Tilly), a filha Marti (Gabrielle Anwar, linda!) e o filho pequeno Andy (Reilly Murphy). É principalmente na personagem de Gabrielle Anwar que o filme se concentra. É a partir dela que algumas sugestões e simbolismos podem ser melhor pensados.

Na trama, os seres humanos daquela base (ou do mundo todo?) estavam tendo seus corpos desintegrados e substituídos por duplos alienígenas. A propagação do mal estava se tornando cada vez maior e o primeiro a notar é o garotinho Andy, cujos colegas de sala de aula já estavam todos substituídos por aliens. Ele também percebe que a mãe havia sido substituída. Aliás, vale destacar que um dos momentos mais impressionantes e assustadores do filme é a de Meg Tilly, já transformada, se declarando para a família; e, seguida, fazendo aquele grito para chamar a atenção dos outros invasores na rua.

No catálogo que estou lendo sobre Ferrara, um dos escritores afirma que o conceito de que a única história é a história do mal une a obra de Ferrara à de alguns de seus contemporâneos. Lembrei do quanto isso pode ser verdade, em especial se pensarmos em Lynch, em Cronenberg, em Verhoeven, e em Carpenter, para citar alguns.

Um aspecto muito presente na obra de Ferrara é a rebeldia. E isso pode ser visto principalmente em Marti, a personagem de Anwar. O fato de ela fugir à nova ordem estabelecida, a ordem dos invasores, não deixa de ser um ato de rebeldia. Embora, simbolicamente, se possa dizer que ela estaria também renunciando à própria metamorfose da adolescência. Com relação aos símbolos, alguns falam que o filme fala sobre a AIDS, outros, sobre Hiroshima, sobre futuras guerras químicas e biológicas. Hoje em dia, porém, OS INVASORES DE CORPOS ganha contornos ainda mais alarmantes e próximos da nossa realidade, diante da pandemia em que estamos vivendo.

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NÓS (Us)

Não sei se fui com muita sede ao pote, mas a questão é que eu esperava uma obra-prima de NÓS. De todo modo, o talento de Jordan Peele está mais em cenas separadas do que no todo, que sofre com problemas de ritmo. O que não quer dizer que não curti o filme. Admiro muita coisa - o que é a interpretação de Lupita? - e fiquei ainda encucado com a alegoria que ele apresenta. Acho que também faltou mais força no horror de mostrar alguém parecido: lembro agora de dois filmes que fazem isso com muito mais impacto: O HOMEM DUPLICADO, de Villeneuve, e o curta O DUPLO, de Juliana Rojas. Mas NÓS é um filme que vai crescendo na memória, graças, principalmente, às ótimas cenas de destaque. Tem uma com a Elisabeth Moss que é sensacional. Ano: 2019.

JURASSIC WORLD - REINO AMEAÇADO (Jurassic World - Fallen Kingdom)

Que surpresa linda! J.A. Bayona pega uma franquia fadada a se repetir, põe sua mão autoral e nos presenteia com cenas que trazem a sua mão boa para o terror e também para o drama e para questões envolvendo crianças e família. O terceiro ato é maravilhoso. Arrepiei. Ano: 2018.

HAN SOLO - UMA HISTÓRIA STAR WARS (Solo - A Star Wars Story)

Tanta gente falando mal que eu, já ressabiado com o nome de Ron Howard na direção, não esperava encontrar uma aventura tão agradável. Gostei de todos os personagens e de como a história é redondinha e cheia de momentos empolgantes, embora a sensação de perigo nunca esteja assim tão presente. Pontos altos: a cena do trem, o reencontro de Han com Q'Ira, o primeiro encontro com Chewie e as cenas estreladas por Paul Bettany, como o principal vilão. No mais, se deixassem, o filme bem que podia ser mais sensual, graças à Emilia Clarke. Se na época da Princesa Leia e da Rainha Amigdala podia... Ano: 2018.

domingo, abril 05, 2020

VÍCIO FRENÉTICO (Bad Lieutenant)

Estava cogitando não rever VÍCIO FRENÉTICO (1992) por causa da distância temporal que o vi. Mas 11 anos já é um tempo considerável e a intenção agora é me tornar mais íntimo do cinema do diretor. Talvez tenha me impactado menos desta vez. Me deixou mais desconcertado do que exatamente angustiado com a descida aos infernos do mau policial do que na primeira experiência. Talvez porque a performance de Keitel é, por exemplo, mais intensa, mais catártica e mais explícita no modo como ele grita de dor e vazio existencial. Mas ao menos ele consegue chorar e gritar. É diferente de outros personagens ferrarianos, que engolem o choro e se fecham na posição de vampiros. Como bem diz a junkie vivida por Zoë Lund, em determinado momento do filme: "os vampiros têm sorte, eles podem alimentar-se dos outros."

Porém, o filme cresce à medida que penso mais nele, e que também leio mais a respeito dele e a respeito da sua importância na iconografia da obra de Abel Ferrara. Quando geralmente se fala no trabalho do cineasta este é um dos filmes que primeiro vem à memória, tanto por ser marcante quanto por estar cheio de elementos que sintetizam a mitologia do diretor.

VÍCIO FRENÉTICO lembra um pouco DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, de Robert Bresson, mas é mais pela forma como o protagonista se aproxima de um estado de busca da morte através de ações pecaminosas, como o excesso de álcool (como em Bresson), das mais diversas drogas, das orgias, das apostas perigosas e crescentes, da irresponsabilidade profissional, de uma ação próxima a de um estuprador, ao abordar duas jovens em um carro e pedir que elas façam "coisas" para ele, em troca de não levarem uma multa.

Mas, diferente de Bresson, um grande niilista, Ferrara carrega traços de otimismo, até por acreditar na religião, no embate entre as forças do bem e do mal. Há a crença em um deus, em forças do bem que possam agir na transformação da vida das pessoas. O problema é que essas pessoas são suicidas, os heróis ferrarianos não chegam a se jogar no precipício imediatamente, parecem acreditar que merecem cada dor e cada tortura infligida ao próprio corpo. As drogas, por mais que tragam prazer, servem ainda mais para aproximar esses personagens de seu fim, de distanciá-los da graça, de promoverem a angústia e o vazio existencial.

Na trama, Harvey Keitel é o mau policial, um personagem cujo nome nunca é pronunciado e nem aparece nos créditos. Ele está mais interessado nas apostas em jogos de beisebol do que em seu ofício; está mais interessado em cheirar cocaína e consumir álcool e outras drogas do que em se importar com sua família. Assim, o principal caso investigado pela polícia no filme, que é o de uma freira estuprada por dois homens no altar, é mais investigada por seus colegas do que por ele, que está mais preocupado em estuprar com os olhos todas as mulheres atraentes que passam em sua frente.

Como estamos diante de um filme de Ferrara, também estamos diante de personagens que têm uma visão de mundo totalmente distinta e buscam, de alguma maneira, uma espécie de perdão ou redenção, mesmo que de forma torta. Como o poderoso gângster de O REI DE NOVA YORK (1990), que pretende construir um hospital para crianças, ou a jovem muda que se transforma em justiceira depois de passar pela experiência de estupro em SEDUÇÃO E VINGANÇA (1981).

Aqui, o mau policial até passa por uma espécie de encontro com Jesus na igreja, até pede perdão, urrando e chorando no chão. Ao colocar os jovens estupradores em um ônibus ao final do filme em vez de matá-los, ele estaria procurando um tipo de redenção, acreditando que estaria fazendo uma boa ação para alcançar um tipo de perdão, influenciado pela fala da freira, que diz ter perdoado os dois homens pelo ato abominável.

VÍCIO FRENÉTICO é o primeiro trabalho de Ferrara que foge do rótulo "filme de gênero". Há uma preferência pelas imagens escuras, por uma fotografia mais dura, menos bonita, pela imagem dos becos e dos lugares mais decadentes de Nova York, ao invés das imagens que servem como cartão-postal. Isso combina com a miséria do personagem e do clima noturno do filme. Mesmo a cena final, que se passa durante um dia (chuvoso), é uma cena que é vista à distância. Isso pode ter uma série de significados, mas talvez um deles seja o distanciamento do protagonista dos olhos do espectador, o seu completo abandono e aniquilamento, algo que já havia sido preparado com a cena imediatamente anterior, dele se distanciando da câmera, ao som de "Pledging my love", de Johnny Ace.

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TRINTA ANOS ESTA NOITE (Le Feu Follet)

Não sei se ver um filme sobre depressão e desejo de tirar a própria vida nestes tempos sombrios é a melhor pedida. De todo modo, me interessou bastante por se tratar de outro clássico de Louis Malle (adorei o ASCENSOR PARA O CADAFALSO, 1958). Este aqui também tem algo que podemos ver transbordar nos filmes de Khouri. Não o jazz, nem a excitação da noite, mas a melancolia, a extrema melancolia. No caso, a música ao piano de Erik Satie acentua um tipo de sentimentalismo que em alguns momentos me irritou bastante. De todo modo, como o protagonista é uma pessoa que se julga incapaz de trazer alegria para a vida das pessoas, talvez seja acertado retratá-lo como alguém um tanto irritante. Isso se mostra presente em especial nas conversas que ele tem com duas personagens femininas, no começo e no fim do filme. Ano: 1963.

UM ELEFANTE SENTADO QUIETO (Da Xiang Xi Di Er Zuo)

Acredito que as quase quatro horas de duração do filme funcionam muito bem para que tenhamos tempo de nos afeiçoarmos aos personagens e seus dramas. Como o filme lida também com suicídio, é difícil não fazer uma reflexão sobre o próprio suicídio de seu jovem diretor, aos 29 anos. Desse modo, aquilo que o filme apresenta, sua desesperança, seria um reflexo dos sentimentos de seu autor. Gosto particularmente dos dois personagens adolescentes (a menina e o garoto), mas os dramas dos homens mais velhos também são sentidos. A questão de ser útil ou inútil no mundo é posto em cheque algumas vezes. Até eu fiquei pensando no que eu sou útil nesta vida. Direção: Bo Hu. Ano: 2018.

NO PORTAL DA ETERNIDADE (At Eternity's Gate)

Interessante essa obsessão do cinema por Van Gogh. Talvez pela questão da loucura, da orelha, de sua morte, da expressividade particular de seus quadros. O interessante aqui é ver o pintor ter sua história de vida contada por um artista plástico também. Há várias passagens inventivas e que funcionam bem para causar algum mal estar na forma como o pintor sente e vê o mundo, mas no fim eu senti falta de mais impacto dramático. Direção: Julian Schnabel. Ano: 2018.

sábado, abril 04, 2020

SWALLOW

Interessante como certos filmes mais ou menos próximos do gênero horror podem provocar reações de surpresa, seja ela pelo fato de o tal filme não parecer se adequar à caixinha mais convencional do gênero, seja por não ser também um retrato mais realista de um drama humano. SWALLOW (2019), primeiro longa-metragem de ficção de Carlo Mirabella-Davis, se encaixa nessa categoria, já que a expectativa pelo que vem a seguir é tão ou mais forte do que aquilo que o filme mostra.

Por mais que alguém não vá gostar do filme, vai ser difícil não reconhecer o talento incrível da jovem atriz Haley Bennett, que até apareceu em um ou outra produção mais famosa recentemente, mas que só ganhou a atenção pra valer mesmo neste papel, o de uma mulher casada que está grávida pela primeira vez e que, a partir de uma dica de um livro de autoajuda presenteado pela sogra (Elizabeth Marvel), tem a ideia de engolir coisas. Começa com bolinhas de vidro e depois passa a usar coisas mais pontiagudas. Obviamente, aquilo vai ter uma repercussão bem violenta em seu corpo.

O fato de estarmos, na maior parte do tempo, na intimidade de Hunter Conrad, a personagem de Haley, nos torna próximos da personagem, cúmplices de seus atos. A proximidade é tanta que somos apresentados também ao resultado das primeiras experiências de Hunter, ao resgatar nas fezes a coleção de objetos engolidos. Sem dizer ao marido (Austin Stowell) o que está fazendo enquanto ele está fora de casa trabalhando, ela diz estar feliz, acreditando que está fazendo algo extraordinário.

Quando tudo é descoberto e ela vai parar no hospital, o filme ganha outros tons. A conversa de Hunter com a psicóloga ajuda a trazer aspectos de seu passado para o presente que aprofunda a personagem, e torna o filme ainda mais complexo e interessante, com as revelações e, posteriormente, com um posicionamento mais rebelde e menos subserviente da protagonista, ganhando contornos feministas e trazendo mais força para o filme.

Vale destacar também a beleza da direção de arte. O filme foi filmado em uma casa luxuosa do interior do estado de Nova York e as paredes de vidro fazem lembrar a casa do recente O HOMEM INVISÍVEL, de Leigh Whannell. As cores do ambiente exterior são vivas, contrastando com as cores frias do interior da casa.

Lançado no Festival Tribeca em abril do ano passado, chegando a ser exibido na Mostra de São Paulo, o filme teve lançamento limitado em poucos cinemas da França e dos Estados Unidos no início de 2020, e acabou ganhando mesmo o mundo em VOD. Ainda mais agora, com a crise provocada pelo Coronavírus, as pessoas terão que apreciar o filme em casa mesmo.

+ TRÊS FILMES

UM SIMPLES FAVOR (A Simple Favor)

Um filme de tantas reviravoltas e tantas referências a noirs clássicos, que não dá para acreditar que aquilo é baseado em uma história real. As duas atrizes estão ótimas e os plot twists e o senso de humor afiado do Feig também contribuem, assim como a maneira como a narrativa se constrói, oferecendo dados importantes só aos poucos. Não lembro de ver a Blake Lively tão atraente e interessante. Direção: Paul Feig. Ano: 2018.

SLENDER MAN - PESADELO SEM ROSTO (Slender Man)

Tem dias que o melhor a fazer é ficar em casa. E nem é por causa só do filme ruim, não. Mas uma série de coisas que parecem depor contra. Mas, enfim, ao menos cheguei vivo. Não sei se o problema é do terror tradicional, da fórmula que está desgastada, dando lugar ao pós-horror. Mas talvez nem seja, pois um diretor como esse cara aí não sabe construir nem atmosfera nem fazer uma trama interessante. De bom, só mesmo o carisma de Julia Goldani Telles. E olha que nem gosto do papel dela em THE AFFAIR, que é de onde eu a conheço. Direção: Sylvain White. Ano: 2018.

A REGIÃO SELVAGEM (La Región Salvaje)

Cronenberg, Almodóvar and Lovecraft going to Mexico. Filme lindo e impressionante, que merece ser visto com uma aparelhagem de som boa o suficiente para captar as atmosferas. O trabalho de direção é brilhante, mesmo que no fim eu tenha ficado com a sensação de rapidez na conclusão da narrativa. Mas não tenho do que reclamar. Melhor ver sem saber nada a respeito. Direção: Amat Escalante. Ano: 2016.

sexta-feira, abril 03, 2020

O REI DE NOVA YORK (King of New York)

Uma coisa que me veio à mente vendo O REI DE NOVA YORK (1990) e observando o ano de lançamento do filme foi o fato de ter ocorrido no mesmo ano de OS BONS COMPANHEIROS, a obra-prima de Martin Scorsese. Abel Ferrara já falou em entrevista que Scorsese é sim uma grande influência em seu trabalho e já em filmes anteriores isso se mostrava aparente, mas não tanto quanto neste seu primeiro filme mais centrado na máfia - embora também nos mostre o ponto de vista dos policiais.

Mas, se por um lado, o filme de Scorsese foi lançado em quase todo cinema do mundo, a obra do Ferrara teve um lançamento muito mais modesto. Na minha cidade, por exemplo, eu não lembro de ter passado em nenhuma sala. Vi o filme em DVD, pela primeira vez, em 2003, e até tem um registro tosco disso aqui no blog.

Revê-lo foi algo totalmente novo, como se estivesse vendo pela primeira vez, principalmente levando em consideração que ando fazendo um estudo entusiasmado sobre a obra de Ferrara, durante esta quarentena.

Interessante que, nos textos anteriores sobre Ferrara, eu vi várias vezes os críticos comentarem a influência de F.W. Murnau em sua obra. E essa aproximação do diretor americano com o genial alemão transparece como homenagem em uma cena em que o protagonista (Frank White, vivido por Christopher Walken) adentra um espaço reservado de um grupo de gângsters. Lá eles estão assistindo a NOSFERATU.

E, prestando mais atenção, vi o quanto as sombras exercem um papel importante neste filme. Além da sugestão de que Frank White, que só sai de casa apenas à noite, com seu sobretudo preto, se esgueirando pelos cantos, seria uma espécie de vampiro moderno. Inclusive, seu jeito manso de falar lembra o dos sugadores de sangue nobres do cinema clássico. A única vez que White sai durante o dia é dentro de sua limusine preta, e para matar um policial no cemitério, durante o funeral do amigo, com uma metralhadora.

O filme começa com White saindo de sua prisão, sendo libertado depois de passar muitos anos preso. Em liberdade, ele fica hospedado em um hotel luxuoso de Nova York. Sua expressão é sempre melancólica, mesmo quando sorri ou faz aquela vozinha aguda, um elemento bizarro, mas que parece forçar um pouco mais um aspecto de humanidade ao anti-herói.

O niilismo, algo presente na obra de Ferrara desde muito cedo, comparece de maneira muito mais forte em O REI DE NOVA YORK. A impressão que temos ao ver aqueles personagens é que parecem ser almas que se desviaram de Deus, ou anjos caídos e sempre em constante estado de revolta, talvez porque o conceito católico fique nas entrelinhas, sem precisar ser expressado.

Talvez para compensar o mal que já fez, White tem a intenção de ser prefeito de Nova York, de fazer algum bem àquela cidade. Se não para compensar o mal, pode ser uma visão diferente, deturpada ou não da realidade. Ele afirma que "a humanidade nasceu para existir além do bem e do mal desde o começo." Seu primeiro projeto é a construção de um hospital para crianças, usando o dinheiro adquirido de seu império de cocaína.

Essa ambiguidade moral também transparece no modo como são mostrados os policiais (David Caruso, Wesley Snipes, Victor Argo). Apesar de claramente serem agentes da lei, é preciso agir contra essa lei, burlar as regras, para poder dar cabo do inimigo. É assim que pensa o personagem de Caruso, é assim que eles acabam agindo quando a situação fica mais delicada.

Falando em atores, é impressionante o salto que Ferrara deu a partir deste filme, trazendo um elenco masculino de peso (Walken, Lawrence Fishburne, Caruso, Argo, Steve Buscemi, Giancarlo Esposito). O elenco feminino não traz nenhum nome de grande peso, mas há pelo menos dois grandes destaques pela beleza, carisma e sensualidade. Janet Julian, que faz a amante de White, e Carrie Nygren, que faz uma de suas guarda-costas (aliás, que inusitado ter duas guarda-costas mulheres, fugindo totalmente do convencional).

É também um filme que acentua a imprevisibilidade. Há muitas cenas que puxam o tapete do espectador, a começar pela sequência do primeiro encontro de White com a gangue de Jump (Fishburne), que transparece tensão, para se transformar em abraços e dancinha de comemoração de amigos. Há uma primeira conversa de Frank com Jennifer (Janet Julian), que também se parece hostil, mas logo à frente os dois se revelam amantes. Inclusive, a cena do metrô, com ele a beijando e tocando seus seios em um vagão vazio, é talvez a mais sensual de um filme que se caracteriza também pela sensualidade.

E falando em sensualidade, como esquecer a cena de Melanie (Carrie Nygren, linda), uma das guarda-costas de Frank, lambendo cocaína do abdômen de um homem, enquanto afrouxa seu cinto? Durante a cena, Frank passa, olha no quarto e seu olhar é difícil de definir o que está sentido com o que vê. Assim, o desejo, a pose, a dança, as drogas, a música (o rap, principalmente), tudo é muito quente, erótico e convidativo.

No mais, se um grande filme se constrói de grandes cenas memoráveis, não há como negar que estamos sim diante de um grande filme. Como esquecer a cena da perseguição de carros com a polícia na noite chuvosa? Ou a cena de Jump, mesmo sentindo uma dor terrível por causa dos tiros de Dennis em sua barriga, rindo ao ver que o parceiro de Dennis está agonizando?

A partir de O REI DE NOVA YORK, Ferrara chegou a um momento sublime e glorioso de sua carreira. E é muito excitante estar acompanhando tudo isso, em ordem cronológica.

+ TRÊS FILMES

CALMARIA (Serenity)

É um filme que vale ver tanto por seu bom elenco (Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Diane Lane, Jason Clarke), como pela maneira como brinca de desconstruir a trama de um film noir (solar). O problema é que a história vai ficando um pouco desinteressante, quando deveria, ao contrário, ficar mais empolgante, pela virada e tal. Ainda assim, é um filme que merece a espiada. Inclusive, melhor não estragar algumas surpresas. Direção: Steven Knight. Ano: 2019.

O PESO DO PASSADO (Destroyer)

Acho que seria um bom filme com uma direção melhor. A história também não ajuda muito, mas também não há nada de muito errado. E a edição é até ok. Falta é força na direção para tornar o drama bom o suficiente para que a gente se importe com os personagens. Principalmente com a protagonista (Nicole Kidman). Gosto da parte final da trama. Direção: Karyn Kusuma. Ano: 2018.

TRAFFIK - LIBERDADE ROUBADA (Traffik)

É um suspense até eficiente, mas há certas coisas que me incomodaram e que acabam por dar à produção um ar de Supercine. Aquela personagem da policial é horrível e algumas coisas parecem bem de mau gosto, como uma cena em que toca uma linda canção da Nina Simone durante um ato de puro horror. Isso não dá pra perdoar. Direção: Deon Taylor. Ano: 2018.

quinta-feira, abril 02, 2020

AD ASTRA

Uma das coisas que eu costumava fazer com frequência na época em que meu blog era mais atualizado e também mais acessado era exercitar minha memória para falar sobre filmes que já fazia algum tempo que tinha visto. Façamos, então, algo parecido com um título de um dos diretores mais queridos da geração que começou na década de 1990, o americano James Gray.

AD ASTRA (2019) aparentemente é diferente de tudo que Gray havia realizado até então, sendo ele um misto de drama familiar com ficção científica espacial. A história se passa no futuro, em um momento em que a humanidade é capaz de providenciar missões até Netuno. Porém, o que temos novamente é um filme sobre a jornada de pai e filho, algo que havia sido explorado de maneira muito interessante no trabalho anterior do diretor, Z - A CIDADE PERDIDA (2016), em que a jornada se passa na floresta amazônica dos anos 1920.

Em AD ASTRA, Gray parece querer falar mais uma vez da busca de um filho por seu pai, da tentativa de refazer os passos para encontrar o pai, ou o pai em si, ou a si mesmo. Como se trata de uma obra que traz uma jornada tanto exterior quanto interior, há sempre esse movimento para dentro e para fora.

Na trama, Brad Pitt é um jovem astronauta que tem o chamado "right stuff", ou seja, a capacidade de manter-se são e tranquilo nas mais difíceis situações. Isso já é testado assim que o filme começa, quando ele quase morre tentando trazer de voltar para a Terra depois de muitas complicações uma espaçonave (ou seria um foguete?).

Ele é também conhecido por ser filho do famoso astronauta que está desaparecido e tido como morto depois de ter chefiado uma missão a Netuno. Desde então, nunca mais se teve notícia desse homem, que se transformou em um mito. Apesar da ausência de décadas, é como se o pai, ou ausência do pai, fosse uma presença constante na vida do protagonista. Até mais do que sua esposa, vivida por Liv Tyler, em papel apagado, mas que combina com o que o filme pretende dizer, creio eu.

Um aspecto que não foi muito aceito por parte da crítica foi o uso muito presente da voz do protagonista/narrador. Ao que parece, foi uma concessão do cineasta diante aos produtores, que talvez não tenham gostado muito do resultado sem uma voz explicativa. A situação lembra um pouco o caso de BLADE RUNNER, de Ridley Scott, que depois ganhou a versão do diretor, cortando a tal voice-over.

Sem o uso da voice-over, AD ASTRA se aproximaria bastante, em tom e imagem, de 2001 - UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Kubrick, embora bem menos ambicioso e mais intimista e apesar do orçamento explicitamente maior para os padrões de Gray. De todo modo, como é um filme que namora bastante com a noção de terapia, esse recurso é até bem-vindo, já que, em uma sessão de terapia, a voz - se não um diálogo, um monólogo - é fundamental.

Pode-se até ter problemas com o filme, mas não dá para dizer que Gray deixou de lado sua assinatura em prol de uma grande produção. Inclusive, é bem provável que seja um filme que ganhe bastante com a revisão e com uma perspectiva histórica e de estudo da obra do diretor.

+ TRÊS FILMES

STAR WARS - A ASCENSÃO SKYWALKER (Star Wars: Episode IX - The Rise of Skywalker)

É triste ver uma das franquias mais lucrativas e mais queridas de todos os tempos tendo que terminar assim de maneira tão triste, tão cheia de problemas. Aliás, é difícil encontrar qualidades no filme nos quesitos roteiro, interpretações, densidade dramática, senso de aventura, força dos personagens. Se os novos personagens já não eram suficientemente fortes nos primeiros filmes, aqui eles se mostram não apenas rasos, mas totalmente vazios. A informação sobre a origem da Rey, inclusive, pode incomodar também, mas, ao que parece, foi fruto das reclamações de fãs xiitas por causa do segundo filme, dirigido por Rian Johnson. É sair do cinema sem querer ver mais nenhum outro filme da franquia. Triste assim. Direção: J.J. Abrams. Ano: 2019.

ANIQUILAÇÃO (Annihilation)

Um filme que estava no meu pendrive há séculos seculorum e eu já tinha visto a metade em fascículos. Resolvi, depois da postagem no blog do amigo Marcelo Valletta, terminar de ver logo a bagaça. Até que a segunda metade tem dois momentos (de terror) bem interessantes. Pena que o filme é feito de boas ideias mas de realização pífia. Há quem vá ficar animado com a bela direção de arte, mas se isso é tudo que o filme tem a oferecer, tá ruim, viu? Faz parte da maldição que assola a maioria dos filmes produzidos pela Netflix. Direção: Alex Garland. Ano: 2018.

O PREDADOR (The Predator)

Shane Black é um grande piadista. Só vendo O PREDADOR como uma comédia é que dá para respeitar e até gostar bastante, mesmo com aquele final todo confuso e tosco e que põe muita coisa a perder. Mas gosto muito da ousadia da história que mistura muita coisa, do grupo formado pelo atirador de elite, da Olivia Munn, a cientista que de repente tem habilidades de luta impressionantes. No fim das contas, os aliens acabam ficando meio que em segundo plano na brincadeira. Ano: 2018.

quarta-feira, abril 01, 2020

12 CURTAS

COMO FERNANDO PESSOA SALVOU PORTUGAL

A história, muito divertida, eu já conhecia através de uma biografia do Fernando Pessoa. Trata-se de quando ele foi contratado para escrever um slogan para a Coca-Cola, a bebida americana, que queria encontrar espaço também em solo luso. Interessante que o filme brinca também com os heterônimos de Pessoa, sua forma de composição dos poemas (ainda que de maneira discreta), mas sempre fico feliz quando diretores estrangeiros têm esse conhecimento sobre Pessoa. Acabo achando que ele é algo que poucas pessoas não-falantes da língua portuguesa o conhecem. Quanto ao filme, tem aquele estilo característico do Eugène Green, que lembra um pouco Bresson na dramaturgia. Ano: 2018.

A ENTREVISTA

Um compilado de entrevistas de anônimas da elite carioca enquanto vemos imagens de uma jovem mulher indo à praia e se preparando para se casar. O que temos aqui tem um valor imenso, já que o filme, além de ser um dos raros dirigidos por mulheres nos anos 1960, aborda temas considerados tabus na época, como virgindade, submissão ao marido, educação dos pais etc. Assim, temos algumas opiniões conflitantes, algumas mais progressistas, como a da moça que diz que a virgindade não significa nada para ela, enquanto outra acredita que é uma forma de respeito para com o outro se casar virgem. A sociedade brasileira desse período, por mais que se quisesse acreditar que estava vivendo uma revolução, ainda parecia tímida em assumir certos posicionamentos. Talvez porque o recorte fosse da elite, apenas, não sei. Outro aspecto de destaque do filme é o quanto ele é moderno dentro do que se costumava chamar de documentário, formalmente falando. Direção: Helena Solberg. Ano: 1966.

COURO DE GATO

Nunca tinha visto este curta de Joaquim Pedro de Andrade. Adiava para vê-lo dentro do filme em segmentos CINCO VEZES FAVELA, mas fiz a opção certa ao vê-lo em separado. É brilhante. De cortar o coração. E uma demonstração do gênio do Joaquim Pedro na construção de uma narrativa com uma ausência quase total de falas, apenas imagens e sons, e uma trilha sonora maravilhosa. O que temos de falas é uma narração que conta que os tamborins dos desfiles de carnaval, por falta de material mais fácil de encontrar, eram feitos com couro de gato. A partir dessa informação e do horror disso tudo, vemos garotos em busca de gatinhos pelas ruas e casas, a fim de vender e não passar fome. A cena do garotinho perto do gato branco e dividindo a comida com ele é devastadora. E a cena final mais ainda. Foda!! Ano: 1961.

WHAT DID JACK DO?

David Lynch sabe como nos deixar desconcertados. Seu curta surpresa lançado na Netflix, no dia do seu aniversário, nem havia chegado a ser catalogado no IMDB ainda. A estranheza da situação, o próprio Lynch sendo um detetive interrogando um macaquinho suspeito de um assassinato, me deixou um pouco sem conseguir acompanhar os detalhes da investigação. Há uma cena que remete a outras obras de Lynch que metem medo, mas aqui é tudo tão experimental que essa sensação não fica tão forte como em RABBITS (2002), para citar outro trabalho bem experimental do diretor. Enquanto não temos outro longa de Lynch, não deixa de ser uma alegria ter um trabalho novo dele ganhando tanta repercussão. Ano: 2017.

A BORDO

É uma satisfação quando vemos um trabalho de um amigo e ficamos encantados e, no caso deste filme, ligeiramente assombrados com o resultado. Em A BORDO, Sylvia Prado (excelente!) é uma mulher de 40 anos que está em sua primeira gestação. Mas, como nem sempre as coisas acontecem como planejado, algo ocorre. Melhor não contar mais da trama para não estragar a apreciação de quem ainda não viu o filme, mas posso destacar duas cenas: a simulação do estar dentro do útero materno; e a planta e a chuva. As cenas da intimidade, da tristeza, da aceitação ou não da perda pela protagonista são mostradas de maneira econômica e poética. E fazer uma metáfora da vida na cena da montanha-russa é de uma beleza impressionante. Destaque também para a participação de Chris Couto. É um tipo de curta que mereceria mais burburinho, embora tenha sido premiado em variados festivais. Davi Mello é um cineasta a se prestar atenção. Ano: 2015.

AS VIAJANTES

O novo trabalho de Davi Mello segue uma linha mais de cinema fantástico, lembrando David Lynch, mas me lembra também um dos trabalhos de Juliana Rojas, O DUPLO. Optar pelo cinema fantástico e ter a honra de trabalhar com Gilda Nomacce, a rainha do gênero no Brasil, foi uma felicidade e tanto. No filme, duas amigas, atrizes, conversam, mas a personagem de Gilda está inquieta, com medo, olhando pela janela. E eis que ela conta, em flashback, o que realmente lhe perturba. E realmente é algo bem perturbador. Ótimo trabalho de montagem. E os olhos de Gilda... quanta expressividade! Ano: 2019.

NADA

Belo trabalho sobre garota que insiste em nadar contra a maré e não quer fazer Enem como os seus demais colegas de escola. O filme é até mais do que isso, existencialista. Gostei bastante. Legal ter passado em Cannes. Direção: Gabriel Martins. Ano: 2017.

SUPERDANCE

Interessante como os trabalhos de curta-metragem feitos aqui no Ceará estão cada vez mais brincando com o coletivo, com pessoas conversando de maneira bem descontraída. E ao mesmo tempo também inserindo elementos surreais na narrativa. Direção: Pedro Henrique. Ano: 2016.

MAMATA

Filme que ainda continua forte em um país cada vez mais cheio de desesperança. É um grito de indignação que ainda cala alto, mesmo com os clamores de "Fora, Temer" já tendo diminuído. (Atenção! Este minitexto está defasado, já que foi escrito no início de 2018 ainda, quando a situação não chegou a isso que está aí hoje.). Direção: Marcus Curvelo. Ano: 2017.

O VIGIA

Talvez nem precisasse da homenagem à América Vídeo no começo do filme, até porque O VIGIA tem uma construção de atmosfera muito boa, assim como o uso da música de suspense. Ainda assim, é um trabalho brilhante. Direção: Priscila Smiths e P.H Diaz. Ano: 2017.

FRANKSTEIN PUNK

Divertida brincadeira com vários filmes americanos usando animação com massinha. Uma prova do amor de Hamburger pelo cinema desde o seu primeiro trabalho. A cena que toca a música-tema de PARIS, TEXAS é sensacional. Direção: Cao Hamburger e Eliana Fonseca. Ano: 1986.

TORRE

Estupendo trabalho de narração com animação para contar uma história familiar dolorosa. Queria ter sido tocado mais pelo filme, mas é difícil reclamar de uma obra dessas. Direção: Nadia Mangolini. Ano: 2017.